Arte: Juca Oliveira

São chegados 104 caminhos de arte e literatura. Sem dúvida, uma marca temporal dispersa em ações e encontros. Lidando com palavras e imagens, descobrimos pessoas, verdadeiros universos de saberes e sabores. Cada voz tem seu modo próprio de nos mostrar que o mundo é um lugar sempre novo e que, para tanto, depende do ponto de vista adotado. Seguir adiante é cultuar as diferenças, permitindo que cada autor mostre o seu modo de estar no mundo. Num trabalho que intercruza existências, é possível perceber como até mesmo pensamentos diametralmente opostos são parte necessária das reflexões sobre um tudo. Estar vivo faz parte do jogo dos estranhamentos. Em cada autor presente nesta edição, uma centelha destes sentimentos todos paira voluptuosa. É o homem no homem, refletindo arroubos e raras certezas. Entrecruzando mundos, a fotógrafa Valéria Simões expõe aqui um lastro considerável de seu ofício com a luz. Suas fotografias estão diluídas diante de textos que flertam com o insondável. Vêm se juntar a tal energia os contos de gente como Vivian Pizzinga, Roberto Dutra Jr e Mário Sérgio Baggio. Quando o assunto é cinema, Guilherme Preger nos aponta sete considerações sobre o mais novo filme de Jean Luc Godard, “Adeus à Linguagem”. Maurício de Almeida nos conduz pelas vias do primeiro romance de Rafael Gallo. Hoje, as esferas da poesia estão tomadas pelos versos de Elizabeth Hazin, Kleber Lima, Clarissa Macedo, Edson Valente, Cristina Arruda e Adriana Aneli. Em matéria de música, as escutas de Larissa Mendes chamam nossa atenção para o mais novo disco da banda norte-americana Beirut. Numa entrevista, o escritor Thiago Mourão fala sobre seu mais recente livro e outros temas ligados ao ofício literário. Pelas linhas de Sérgio Tavares, estão marcadas reflexões sobre o novo livro de contos de Antônio Mariano. E assim tudo conduz a um renovado ambiente de aparições, caros leitores. Sejam bem-vindos a tais possibilidades!
Os Leveiros
Clarissa Macedo

SETE ABISMOS
A alma relincha
na estrebaria.
Macho de cavalo
que galopa trovas
do pensamento,
engole as águas
de pasto e de feno.
Há terror nos ventos
do cavalo magoado,
que perdido rompe,
alado, as trincheiras
e cai como anjo
de tormento.
Há éguas rondando
pratos de esquecimento.
Há rodas e correias
na carruagem violenta.
Naquela crina
de ferraduras negras
um cavalo
de patas ralas:
Os sete abismos da vida.
***
DA INVENÇÃO DA VIDA
Do mar que se inventa
emerge uma rocha.
Do que se inventou fora disso
há rumores de um tempo
há cavalos de água
que nunca pude galopar
heróis de alga
que nunca me salvaram.
***
FÁBULA
No teu aprisco imenso
sempre houve uma ovelha
pequena, cinzenta, desajeitada
aquela que frente ao cajado,
ao latido do cão também imenso,
fugia e não se guiava
aquela que diante do espelho d’água
não cria na imagem que se revelava
nem na eternidade de que ouvia
aquela que nua, de lã cortada,
sussurrava cantos às irmãs.
Uma ovelha: tal qual tantos bodes.
***
SEGREDO
Pouco sente o ruído das sombras
ou a linguagem dos pássaros.
A língua é matéria adiada
assim como a morte
é a queda dos que divagam
o velho magro adotado
penetra na mesma terra
em que heróis choraram.
Segue a vida: sutil perenidade
mesmo timbre, mesmo lamento.
E o firmamento que nos cobre
não ouve a língua das sombras
ou o ruído da morte.
***
UMBILICAL
As casas que me habitaram
nunca disseram adeus.
No meu corpo de desenganos
cada madeira, cada farpa.
Entre o menino que se foi
e o homem que não chegara,
impõe-se cada cômodo…
alguns sonhos, ambas fraquezas.
Às vezes penso que quem
me pariu não foi a mãe ida,
mas o concreto com frestas
que iluminou planos de pipas,
minha última barba.
A casa que agora me vive
é um cubículo, um palácio
de pedras agras.
***
CONCERTO PARA CAVALOS
Despidos de crinas que não se reconhecem
Cravados de marcas de ferro
Fugidos pela palha que nega o que desejam
Mortos pelas pirâmides que migraram
Surdos pela sinfonia que não se nomeia
Loucos de manadas de dragões que cospem estrelas
Vivos pelas correntes que berram astros
… assim são os cavalos do concerto do meu coração
crianças que preparam o primeiro verso,
feras que não se sujeitam.
***
LANCINANTE
Guardados os tentáculos
o que aflora no orvalho
são os males indivisíveis,
cicatrizes não costuradas.
O que tumultua a partida
é o horário errado, um
relógio de ponteiros gastos.
Lançadas as sombras no lixo
guarda-se para a próxima coragem
um depois que não virá.
Clarissa Macedo nasceu em Salvador e vive em Feira de Santana, Bahia. É licenciada em Letras Vernáculas (UEFS), mestre em Literatura e Diversidade Cultural pela mesma instituição e doutoranda em Literatura e Cultura pela UFBA. Atua como revisora e professora. Ministra oficinas de escrita criativa. É autora de “O trem vermelho que partiu das cinzas” (2014). Sua poesia está sendo traduzida para o espanhol. Os poemas aqui publicados fazem parte do mais novo livro da autora, “Na pata do cavalo há sete abismos” (Ed. 7 Letras).
Mário Sérgio Baggio

Noite de cachorro
Como faz todas as manhãs, o cachorro tira o homem de casa e o leva para passear. Andam pelas ruas ainda vazias, moldura adequada para a caminhada silenciosa de um cachorro e um homem. Toda manhã é o mesmo: o homem, animal treinado, ergue uma das pernas para mijar em cada esquina. É um hábito, coisa de homem que sai todas as manhãs com seu cachorro para passear. Um leva o outro, não se sabe quem conduz quem. Homem leva cachorro, cachorro leva homem.
Caminham evitando as poças d’água que a tempestade da noite anterior deixou como lembrança. Becos pichados, ruas cheias de sombras, avenidas sem viv’alma, ladeiras íngremes, praças desertas – o passeio do cachorro com seu homem não conhece limites nem escolhe atalhos. Caminhar é preciso. O chão molhado reflete a silhueta dos dois, fantasmas silenciosos que avançam e se apoderam do espaço estendido à frente.
O cachorro olha o relógio, o homem late. Ambos bocejam. Um pássaro negro voa baixo, pia de forma agourenta. O homem levanta uma das pernas e mija pela última vez. Hora de fazer o caminho de volta.
Acorda com o latido insistente de um cão na vizinhança. Apoia-se nos cotovelos. O suor escorre, abundante, empapa seu pescoço e peito. Sente o líquido que desce até os lábios, desaparecendo queixo abaixo. Engole uma gota: salgada. Respiração arfante, acende a luz e olha o teto. Estica o braço e alcança o caderninho de notas na mesa de cabeceira. Escreve: “Chamar o encanador, telhado ainda com goteiras. Urgente: pegar mais pesado na terapia”.
Devolve o caderninho à mesa e volta a encostar a cabeça no travesseiro. Olha a goteira no teto e suspira, exausto. Noite de cachorro, outra vez!
***
O pior que podia fazer
O pior que pôde fazer o imigrante foi oferecer resistência à autoridade. Claro, era normal que ele estivesse alterado, pois fora denunciado por abuso sexual pela senhora que morava na parte rica da cidade. Ele passava sempre por ali, voltando para sua casa, e naquele dia estava especialmente angustiado por receber mais uma maldita resposta negativa de trabalho. Nunca se metia com ninguém, cônscio de sua condição de estrangeiro, e sabia que estaria sempre melhor quanto mais se mantivesse longe de problemas. Que tinha mulher e filhos e estava buscando trabalho para sustentá-los.
Era isso que ele devia dizer ao policial que o prendera na rua, antes que ele lhe pusesse as algemas. Antes que o levassem para a delegacia para tomar seu depoimento. Antes que lhe dessem uma surra por abusar de senhoras de respeito. Antes que o jogassem numa cela, à espera de julgamento. Antes que, no dia seguinte, a senhora retirasse a queixa contra ele, dizendo com um sorriso amarelo que não tinha certeza de que aquele sujeito a havia molestado. Antes que ninguém lhe pedisse desculpas pelo engano e o pusesse de novo nas ruas.
Teria sido muito melhor se o imigrante conservasse sua calma e serenidade no momento em que fora detido. E não insultasse todo mundo, inclusive o delegado. E não enfrentasse a força da autoridade. E não tentasse fugir de modo intempestivo. E não caísse de bruços depois de receber um tiro pelas costas. Foi de advertência, disse o policial.
***
Liturgia
Primeiro a mão vai até o cálice grande e dourado, cheio de hóstias, recolhe uma delas e vai em linha reta até a língua estirada à sua frente. A mão deixa cair a hóstia, corpo de Cristo, a língua a recebe e se recolhe dentro da boca. O dono da língua, um senhor de olhos pequenos perdidos entre tantas rugas, fecha os lábios e os olhos e assume sua culpa católica e sua condição de pecador arrependido, mas apenas por alguns segundos, uns mínimos instantes, o suficiente para que transpareça verdade em sua intenção. Depois, sem nada dizer, com a hóstia derretendo no céu da boca, ele se levanta e volta, de cabeça baixa, para o lugar de onde tinha saído. Agora a mão está imóvel, esperando o próximo pecador.
Ela vem, não tão devagar, para não atrasar o andamento do ritual, nem tão apressada, para não perturbar a devoção do momento. Vem no ritmo certo, as passadas na cadência exata para que, aqueles que desejarem, apreciem o balançar de seus quadris, a pulsação de suas coxas, primeiro uma, depois outra, e os tornozelos finos e fortes na sustentação de toda aquela estrutura óssea que se move. A mão está parada, à espera, já com a hóstia entre os dedos. O dono da mão pigarreia e deixa escapar certo incômodo enquanto espera que ela se aproxime. Ela se abaixa na frente dele e quase roça os joelhos na barra de suas vestes sagradas, mostrando Que descuidada que sou! uma nesga de coxa. A mão treme, corpo de Cristo, ao esticar-se em linha reta conduzindo a hóstia na direção daquela língua esticada na medida certa – não tão fora da boca para não indicar lubricidade, nem tão dentro que o dono da mão precise roçar os dedos em seus lábios e dentes. Ela não fecha os olhos para o dono da mão, antes olha para ele no momento de receber sua porção de farinha e água. Ela recolhe a língua, abaixa a cabeça – culpada, católica culpada assumida! – e inicia o caminho de volta, no mesmo ritmo da vinda, na mesma cadência, sem olhar para trás.
Agora a mão já não consegue manter a mesma firmeza de antes. O que se vê é uma mão insegura, medrosa, cujo dono padece e sofre para fazer seu trabalho. Após a mão vêm o cotovelo, o ombro, o pescoço e o rosto, todos partes de um único ser que nesse exato momento chora. O coroinha não entende o que se passa, e o sacristão levanta as mãos para o alto, Mas o que é que está acontecendo com o padre Fernando?
Mário Sérgio Baggio é jornalista, morador da cidade de São Paulo, atua como Redator freelancer produzindo conteúdo para websites, blogs e redes sociais. Mantém o blog Homem de Palavra, em que publica seus textos de ficção.
Edson Valente

PÊNDULO
Poço químico
Tristezas em risco
Limpo, águas em fúria
Deixar o socorro à natureza
Ou pintar estrelas no muro
Monte de nervos à solta
Em desonra à criança
O vício da cólera
Contra a própria cabeça
…
Peito trancado cuidado: risco de morte
Diz a caveira
Navego onde não posso aportar
O cínico embargo
Do desejo sem fronteiras
…
Noite, casa vazia
Alguém me bate à janela
Teu beijo
Ou a doce chama
Do fim
***
ANTICRISTO
A ferida que tenho na mão
Não é de um prego, eu mesmo a puncei
Em outra circunstância aguda, em meio
À perturbação
Não perdoei ladrões, prostitutas, o desvalido
Juntou-se a eles para roubar um banco
Mas sem render ninguém, que somos
Gente de bem
Quero ser julgado apenas pelo que não fiz
Definhar entre paramédicos
No espelho negro de Alice
Doar meus órgãos pra quem não me suporta
Deixar livros e discos para os amigos
Entre as incertezas que sigo
As águas andaram sobre mim levando
Alguma coisa que restava de esteio
Sei que quando Lázaro,
Violinista bêbado falido que toca em frente ao
Conjunto Nacional,
Viu-me chorando sorriu
Dei-lhe dois reais para que tocasse a
Música de meu cortejo
Como oração de um infeliz
Que se esqueceu a que veio
E se perdeu por aí –
Ao final do passeio
Enquanto se fechava um olho
O outro viu o sinal se abrir
Quero ressuscitar em teus braços
Assim como morri
***
MONTANHA-RUSSA
Cume: teus olhos
Linha do chão: o que sempre fui
Antes de teus olhos
Esse ir e vir infinito
Entre estrela e poeira morto
Na velocidade do que não me
Pertence
…
Na insaciável mudez do verme que
Espreita
Expectativa enquanto trajeto
No pé da colina
Ultrapassando nuvens como pedras no limite
Da trilha
…
No instante em que tudo se
anula
Entre voo e queda
Enredo e cisma
Arrebento redes e cintos
Morte vencida
…
Criança
Em nave-balanço
Que olha acima
Por sobre os ombros do espaço
Estrada além do cume
Ponto de partida
…
Teus olhos, meu chão: o que
Serei
Sem volta
Em longa estada
Novo impulso de
Vida
***
I – ABSTRACIONISMO
(Sortilégio)
O que o osso
Apreende da carne
E incorpora à sapiência
Do chão
(há chão, enquanto)
Reentrâncias
O não dito do caule
Brota nas folhas
Umidade esquecida
Prenúncio
Voz da partida
(eterno retorno: pintura refeita)
Arroubos pictóricos do clima –
Saúda-te ao chegar
O paralítico entorno, campina de
Tua revoada
(o ajoelhar de um pôr do sol)
Perplexidade, miasma
(Teu pouso faz o meu voo)
Era eu natureza morta
Sombra a pinceladas
Redivivo
O além-esboço
Perfeição falseada
– um traço que se regenera –
Preconizados na paleta
Vermelho que ornamenta a fala
Moldura ciliada que pisca e entrevê
A dinâmica do abismo
– então, essa, verdadeira –
Insensatez da ponte
Nunca dantes cruzada
E as quedas do mesmo, incontido, inconteste
Ecos da explosão primária
– tudo você e eu e o sol e o osso surgidos do nada –
(a cegueira do contraluz)
Cor o persistir na procura
Do original perdido
No tom inapreensível da tua
Arte abstrata
***
PONTES
Abstrata
Aquela minha pergunta
Esqueleto da conexão
Sem lastro
De um verso solto
A métrica imaginada
O vão sem os pilares
Letreiros apagados
No acostamento
A contramão dos fatos
O desnível
Entre o corredor e o quarto
– Hiatos –
Quem amou bem sabe
Que a resposta ao amor
Está fora do prumo
No que a moldura esconde
Daquele trecho não restaurado
Do quadro.
Edson Valente é jornalista e autor dos livros Refluxos (Ateliê Editorial, 2010) e Pow-emas e outros jabs líricos (Editora Patuá, 2014). Seus poemas e contos já foram publicados nas revistas literárias Arte e Letra: Estórias, mallarmargens e Walking in Briarcliff e no jornal mexicano Despertar.