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104ª Leva - 07/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Roberto Dutra Jr

 

Valéria Simões
Foto: Valéria Simões

 

REI MIDAS [micronólogo]

 

Midas entra. Cambaleia e atira-se de joelhos, voltado para o público.

– Hoje cravei em meu peito uma cruz de metal. Faz frio na ferida e o metal oxida com o contato do sangue. Das muitas coisas que me lembro da vida, agora todas passando, eis aqui, fincada no mais fundo de mim, essa cruz de metal que cala meu peito. Essa cruz de metal cortando ao meio o fluxo vital de afeto e esperança para todo o resto do meu corpo. A cruz me impede de morrer, a cruz me impede de viver.

Eu vi o inferno. Não busque o inferno no subsolo. Não perturbe com sua bizarra curiosidade as marmotas, os vermes e os soturnos habitantes das sombras. Essa busca infrutífera de alquimistas e de líderes religiosos de sexualidade duvidável e vã. Essa busca tem sido vã pelo curso dos últimos séculos e levado tolos e sábios para arder em fogueiras martirizantes. O martírio de saber pode muito bem ser o martírio de ter que esconder, mentir, ignorar. Infernos inúteis!

Hoje cravei uma cruz no inferno! Aqui, bem no meio. Na base da carne nascem rosas rubras. Os espinhos das rosas do inferno não surgem dos caules, nascem de meus dedos, transformando minhas mãos em instrumentos de dor e solidão. Tudo que eu toco se transforma em sofrimento.

Um dia eu ainda me coço.

Fim.

***

 

 

 

O REMETENTE

Havia um homem que escrevia cartas sem nunca tê-las respondidas.

Em um passeio pelo cemitério, viu seu nome escrito e todas as cartas que remetera.

***

 

 

 

TENTÁCULOS

para Victor Giudice, que ainda observa do outro lado da porta

Nada impede uma manhã preguiçosa nessa cidade. Chegando serena com chuva tranquila. Daquelas que precipitam depois da temperatura gentilmente baixar grau a grau. Os primeiros pingos, pingo, pingos, pingo, ping, ping, pin… Até pensou que ouvisse as primeiras notas do piano de Tom naquela música. Mas, é outubro, e ao contrário das Águas De Março, o céu cinzento e a constância da chuva ensaiam outras promessas nos corações de todos.

Em algum conjunto de apartamentos, em algum subúrbio próximo, ele passa um café no coador de pano. Em algum conjunto de apartamentos em algum subúrbio próximo, alguém mais faz exatamente a mesma coisa que ele, na mesma sequência. Um conjunto habitacional suburbano é um conjunto de outros mesmos.

Ele ainda dorme, mas não sabe. Sempre repete isso mentalmente naquela mesma hora pela manhã. Pensa sonhar com o cheiro do café tomando a cozinha e invadindo o quarto. Ele senta-se sozinho à mesa e serve sua primeira dose. Ela gosta pingado, e o leite fumega sobre o forno, já fervido. Na mesa uma broa de milho fatiada e queijo branco. Toalha de algodão com motivos florais, daquelas que em qualquer armarinho se encontra. O tempo nublado deixa a cozinha escura demais àquela hora da manhã. O sol parecia atrasado.

— Até o sol pode chegar atrasado quando quer – balbuciou.

Ocorreu-lhe que ela já devia estar no banheiro, apesar do silêncio. Incrível o silêncio de uma manhã chuvosa, pensou. Não fosse pelo ruído da chuva, ele nem diria que realmente está no bairro. A cozinha parecia isolada do resto do mundo, já que as demais cozinhas do prédio existiam longínquas pelo silêncio. Todos poderiam ter desaparecido ou estar mortos. Calafrio. Foi até o basculante da cozinha e gritou:

— Olaaaá!

Nem um ruído. O silêncio induzia o pé ante pé para andar. Voltou-se para o armário sob a pia. Precisava de uma jarra para colocar o leite na mesa. Seria um toque especial. Começou a remexer o armário. Súbito uma rajada de vento bate a porta da cozinha. Ele, que estava inclinado para dentro do armário, move-se para fora, e a coluna fica retesada. Pura reação instintual, mas que sempre provoca uma gélida injeção de adrenalina. Voltou-se para o fogão, colocou o leite na jarra e aguardou sentado na mesa. Ouvia o registro do chuveiro ser aberto e a água descer intensa. Parece que hoje ela decidiu começar o dia com um banho, pra variar.

— Que mudança! — falou alto, tentando entabular uma conversa matinal.

— Me admira justo você começar um dia frio como hoje com um banho. Já preparei tudo aqui e estou apenas lhe aguardando. Ainda tinha queijo na geladeira e esquentei o bolo que sua irmã fez ontem. Tudo quentinho.

Ouviu um ruído de escorregão molhado, a luz piscou. Sem sobressalto, gritou:

— Opa! Tudo bem aí, moça?

Sem resposta. Silêncio quer dizer tudo bem e pronto.

— Liga não, outro dia eu também quase levei um tombo debaixo desse chuveiro. Preciso fazer uma faxina e tirar o limo desse banheiro. Vou comprar um alambrado de madeira pra colocar no chão assim que puder. Melhor que esses tapetes antiderrapantes que estragam logo. Olha, se você demorar muito eu vou comer o bolo sozinho. O café que acabei de passar ficou até fraco, do jeito que você prefere. Ah! eu não entendi porra nenhuma daquele filme que assistimos ontem.

Ela demorou. Foi o suficiente pra depois do copo de café o braço sustentar a cabeça sonolenta num cochilo. Acordou e a ouviu fechar a água no banheiro. O leite estava menos que morno agora. Ele voltou-se para acender o fogão. Uma batida estranha na porta, ainda fechada. Parecia que ela jogava o ombro na porta, em vez de bater com a mão. De novo, e de novo, e de novo mais forte.

Deixou o bule de leite e atravessou a cozinha. Abriu a porta e o vácuo do espaço tomou conta da cozinha. Do outro lado da soleira as estrelas e o vazio infinito, deste lado a labareda no fogão se mexia com um vento sobrenatural. De relance ele ainda segurou a maçaneta do lado oposto pensando em novamente fechar a porta. Sua mão congelou na maçaneta e apesar da dor, não sentia mais seus dedos. Com seu último esforço, revirando os olhos de terror, gritou a plenos pulmões, o que ele ouviu apenas na sua mente:

— R’lyeh!

Em uma explosão de movimento do outro lado da porta saltam tentáculos que prendem-se fortemente ao seu corpo. Segurou-se à passagem com o desespero dos condenados enquanto os tentáculos esmagavam seu peito e apertavam cada uma das pernas. Um último tentáculo enroscou-se no seu rosto. Sua última resistência, os ossos dos braços partiram-se como varas e sumiu no vácuo.

A porta se fecha. A investida termina, quase tão súbita como começou. De novo a chuva tranquila bate no basculante da cozinha de algum conjunto de apartamentos em algum subúrbio próximo. Silêncio completo novamente.

Ela abre a porta, enrolada na toalha e arrepiada de frio.

— Mas que droga! Putaquiopariu! O chuveiro queimou, quase entrei em choque com a água gelada! Isso sempre acontece na minha vez, já não aguento mais! Onde você está? Esqueceu o leite no fogo?

Demorou alguns minutos e então, sentiu algo estranho no ar. Olhou em volta da silenciosa cozinha. Arrepiou-se de novo quando uma rajada de vento bateu a porta atrás dela, e sem mover um músculo assistiu o leite ferver e inundar o fogão com uma espuma branca e com cheiro enjoado.

 

 

 

 

***

 

 

 

IDEA FIXA

Entra o fetichista:

– Mãos ao salto!

***

 

 

 

DOMINGO

Bom dia.

Abri os olhos, ela estava lá. Café passado na hora, cigarros, janela. Posso dizer que o começo do domingo é sempre uma rotina. Pego minha câmera e aponto em todas as direções: das copas das árvores ao meu dedão do pé. Devagar o mundo desperta. Vejo nascer o sol e ela levantar-se, preguiçosa. Vai sozinha à cozinha e serve-se de meu café mentolado.

– Você é esquisito. Sempre levanta primeiro? E como conseguiu todas aquelas flores no meio da noite?

Não respondo, claro. Sei que um sorrisinho cínico nessas ocasiões é fulminante. Ela coloca a xícara na frente do rosto e diz entre os dentes:

– Você vai ficar sem roupas a manhã toda?

Continuo calado e com o risinho cínico. Apago o cigarro e tiro sua foto, vestido branco – praticamente um pijama – ela gargalha:       – Não! Estou com olheiras!

Não largo a câmera e começo a segui-la pelo apartamento e aos berros recito Vinícius:

– Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Não demorou muito a perseguição e ela começou a olhar para as lentes. Agora era ela quem observava. Eriçava os cabelos acima da cabeça e logo era ela quem me encurralava. De repente, o fotógrafo era quem obedecia, sem saída. Jogou os braços para cima, fez caretas, abaixou-se e levantou-se, cobriu o rosto e descobriu o rosto. Então ela para e, olhando na lente como se nada mais restasse a fazer naquela entrega, levantou a saia.

– Teus pelos leves são relva boa…

– Fresca e macia.

– Meu Deus, eu quero a mulher que passa! – disse a todo pulmão.

E fotografei a manhã toda, aquele segundo sol a nascer na minha sala.

Roberto Dutra Jr é um neurótico social como todo brasileiro de cidade grande. Adora literatura, mas as palavras não fazem mais sentido. Cultiva um seríssimo flerte com a música. Adora gatos e poemas, que movem-se na penumbra e nunca revelam-se inteiramente. Tem um livro de poemas publicado e mergulhado no esquecimento, assim como seus artigos críticos. Foi editor de revista acadêmica, contribuiu para jornais e revistas literárias no Rio de Janeiro, entre eles o Panorama da palavra.  Atualmente divide-se entre sua coluna semanal no blog zonadapalavra, eventualmente resenhando para a revista Mallarmargens, e integra o quadro funcional da Editora Ibis Libris.

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104ª Leva - 07/2015 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

7 Teses sobre Adeus à Linguagem de Jean Luc Godard

Por Guilherme Preger

 

 

 

1. “A ideia é simples”: muitos não enxergaram (e esta palavra é precisa nesse caso) narratividade no último filme de Godard, ganhador do prêmio de júri de Cannes em 2014, apenas um mosaico ensaístico de imagens e citações, como têm sido seus últimos filmes. No entanto, a narrativa neste filme é muito mais presente como eixo do que em seus filmes anteriores. O próprio Godard definiu uma “ideia simples” como eixo narrativo elementar: uma mulher casada e seu amante fazem uma DR. Depois o marido daquela gera um desastre. Tudo isso (ou seja, esta narrativa-matriz) é testemunhado por um cachorro que está entre o homem e a mulher, entre o amante e o casal, entre o romance e o drama, entre a cidade e o campo, entre a natureza e a cultura. O problema é que esta estrutura simples é duplicada num “segundo filme” que “é o mesmo e não é”. Este filme segundo é a passagem “da raça humana à metáfora” ou, em outros termos, da fábula à imagem. E é aí de fato que os problemas começam, no jogo especular entre textualidade (fábula) e figuralidade (imagem) para evidenciar que, nos saltos entre um plano e outro, há menos oposição do que polaridades cruzadas. A isso se dava o nome de dialética, a qual, segundo Eisenstein, é o princípio mesmo da montagem cinematográfica.

2.  2D/3D: perto de Adeus à Linguagem, experiências mainstream de 3D, como os filmes Avatar e Hugo Cabret, revelam-se totalmente cosméticas. Godard (com a preciosa ajuda de Fabrice Aragno) traz a técnica literalmente à superfície, fazendo de seu longa uma espécie de “filme em relevo”. Curiosamente, o diretor teria admitido numa entrevista seu desejo de provar que o “3D é completamente inútil”. Por isso, a sensação vertiginosa ou mesmo confusa que muitos espectadores sentem parece a muitos apenas a provocação estética de um “videomaker irritado” (Contardo Calligaris). Essa irritação conjuga-se também com os elementos ruidosos e obscenos de peidos e sons de defecação. Mas essa materialidade tem como função contrapor a distinção mais conceitual entre realidade e imagem. A distinção entre 2D e 3D não deve ser apenas a de embelezamento (como no cinema comercial), pelo qual o 3D estaria totalmente submisso à lógica da planaridade (ou platitude) acachapante do cinema de espetáculo, nem opositiva, no qual o 3D seria um obstáculo à visão em duas dimensões. O 3D entra justamente como uma perspectiva “em relevo”: toda visão deve levar sempre em conta seu próprio ponto de vista, isto é, o contexto de seu olhar.

3. “A realidade é o refúgio dos que não têm imaginação”: o problema então se torna: onde está a realidade para aqueles que têm a linguagem? A realidade está em algum lugar entre a fábula e a metáfora, entre as palavras e as imagens, entre citações e cenas, entre o texto e o cinema. O aspecto vertiginoso do filme (há quem passe mal durante a projeção) vem de uma febril e inquieta oscilação entre os polos imagético e textual. Os que reclamam do eruditismo pedante de Godard, com suas referências incansáveis, precisam admitir que este jogo desnorteante desconstrói mais do que afirma. O próprio Godard admite que não entende o sentido de suas citações. O que lhe interessa é a justaposição entre os dois planos. As citações não representam a voz de Godard, nem mesmo seu ponto de vista. Elas não são suas ideias representadas. É o conflito, o choque, a passagem que lhe interessa. Godard, com sua máquina de guerra contra o cinema comercial (onde Spielberg, desde o Elogio do Amor, é o grande vilão), denuncia que, na espetacularização cinematográfica, há um excesso da imagem que ofusca, obscurece, joga para segundo plano o texto (o roteiro, a narrativa, as palavras). As citações fazem testemunho como “provas” (“Les citations sont des preuves”, diz Godard numa entrevista) de que não há palavra sem imagem, mas também não há imagem sem palavra. Linguagem é esse “lien”, laço, ligação, entre uma e outra. Porém, mais uma vez cabe a questão, onde está a realidade? A realidade só poderia ser o lugar de uma fuga impossível da linguagem.

4.  A deusa-linguagem: devo à amiga Maiara Líbano esse preciso “calembour” que teria feito a delícia do próprio diretor. O filme de Godard não seria um abandono, mas uma busca nostálgica da linguagem, não um réquiem, mas uma ode. Algo como um “Elogio à Linguagem”. Dizem que na região da Suíça onde o cineasta foi criado, há um jogo de palavras. “Adieu” significa antes “olá”, “hello”. Talvez “até logo”. Assim, o caráter intempestivo, mal-humorado ou mesmo escatológico, com peidos e defecações, onde o “pensar virou cocô” (referência à imagem de Rodin do Pensador), não passaria de um viés moralista que condena na “sociedade do espetáculo” a supremacia icônica do “ver”, contra a perspectiva profunda, radical do “olhar”, este impregnado de linguagem. Assim, podemos ressignificar o problema do 3D no filme: o relevo da imagem cinematográfica é uma terceira dimensão que está além do texto e da imagem e que não é o refúgio tranquilizador da realidade, mas a espessura da linguagem como elo, como ligação. Mas embora esse viés hermenêutico seja inteiramente verossímil, ele traz um problema: qual é afinal a questão sem solução existente entre o casal, ou entre o trio em triângulo (mulher-marido-amante) que traz o desenlace trágico? Qual a razão da DR infinita de que o filme laboriosamente nos apresenta? Qual é o drama humano que a sedução da deusa-linguagem é incapaz de resolver? É essa a questão que está posta a nu, como o belo corpo da atriz Heloíse Godet na grande tela de cinema.

 

Cena de Adeus à Linguagem / Foto: divulgação

 

5. “Não há nudez na natureza”. Se não há naturalidade na nudez, toda nudez é cultural. Mas isso também nos diz que não é possível “pôr a nu” a realidade, tal como ela é, uma realidade que não estivesse sempre “vestida”, “paramentada” de linguagem. Mais do que cultural, toda nudez é política. A nudez não está na natureza ou na realidade, mas no olhar. Por isso, a própria questão da nudez dos atores e sobretudo das atrizes está marcada pela presença do imaginário. Outra amiga, Daniela Ribeiro, observou que a nudez feminina está muito mais presente do que a nudez masculina neste filme, o que é verdadeiro. No entanto, no cinema de Godard nunca esteve ausente a questão de gênero. Não por acaso, Masculino/Feminino é um de seus grandes filmes nos anos 60. Mas a observação é inteiramente pertinente, pois ao longo dos tempos, em seus filmes, os corpos femininos em sua nudez são muito mais explorados do que os corpos masculinos (justiça seja feita, em Adeus à Linguagem, a nudez masculina é mais presente do que em filmes anteriores). Mas esse tropismo de gênero antes confirma que nenhuma representação cultural é isenta de perspectivas. A fábula simples de Adieu… nos conta sobre os arquétipos masculinos e femininos, da busca feminina por “espiritualidade” em seus permanentes questionamentos e a tendência masculina à redução do pensamento ao corporal, ao excretor, ao sexual. A cena no box do banheiro onde nu o casal se estapeia entre o desejo e a recusa é uma belíssima representação dessas tensões arquetípicas. Se os arquétipos reforçam as representações ideológicas por um lado, uma perfeita e ideal simetria pareceria inteiramente falsa. A saída aqui está não apenas em defender uma representação mais equilibrada dos vieses culturais, mas em contar com a terceira via que os relativizam. Essa é a função crítica do 3D, que nos lembra da perspectiva. E que nos faz recordar que entre os polos dualistas da mulher e do homem há o animal.

 6. Rocky. “O animal não está nu porque ele é nu”. A nudez cultural, relativa, assimétrica do casal, se opõe à nudez “essencial” do animal. Mas o cachorro (que “pertence” ao casal Godard e Anne-Marie Mieville e que ganhou um prêmio em Cannes por sua atuação neste filme) não representa o polo da natureza em oposição ao polo da cultura onde está o casal. Em outra citação (de Charles Darwin) comenta-se que o cão é aquele que ama mais o homem que a si mesmo. Rocky é um laço, um meio de ligação. Não é natureza ou cultura, ele é natureza e cultura. Ele habita uma região onde a linguagem se encontraria com seu oposto, a suposta realidade não mediada. Por seus olhos “melancólicos” haveria um testemunho dessa região além da linguagem, pois ele é egresso de uma época anterior a essa separação. Só que não: o contraste que o filme anuncia é a diferenciação entre texto e imagem e não a separação idealista entre natureza e cultura. Como Rocky, a linguagem é também um meio, um “lien”. Existe antes um distanciamento da linguagem dela mesma, uma fratura, um hiato. Essa linguagem se fendeu na saturação do texto pelas imagens e na sutura das imagens pelo texto (citações).  Rocky, portanto, não é a testemunha última e nostálgica de um passado perdido de conciliação, anterior à confusão entre natureza e cultura. Há algo mesmo de utópico em seu olhar que aponta não para o passado, mas para o futuro, uma maneira outra de se encontrar com a linguagem, mais depurada: “Je cherche la pauvreté dans la langage”, diz uma personagem. Numa palavra cara a JLG, essa outra forma diversa é “autrement”, “outramente” numa tradução canhestra. Em outra citação, fala-se que o face-a-face inventou a linguagem. Esse outramente é, pois, um encontro com a face melancólica do animal, não apesar da linguagem, mas em seu nome. No poema Versos a um cão, que se Godard conhecesse certamente figuraria em seu filme, Augusto dos Anjos nos fala sobre a “esquisitíssima prosódia” dos cães, um termo que caberia perfeitamente para caracterizar este filme. A esquisita prosódia é algo ainda em devir, apontando não para separações idealistas, mas para superações em outros planos ou mundos.

 7. Ça m’est égal. O presente é um animal esquisito (“drôle”), diz o homem. Tanto faz, diz a mulher, gritando. E repete o mesmo em novo grito. “A consciência do homem é cega, não é o animal que é cego. O homem é incapaz de ver o mundo. Isto que está fora é a verdade?” Tanto faz, talvez dissesse Rocky. Casal e triângulo amoroso; imagem, texto e linguagem; homem, mulher e cão. Adeus à Linguagem é marcado por dualismos a que se somam a presença de um terceiro, como um jogo entre o 2D e o 3D. É como se os dilemas, questões, perguntas e reflexões que abundam na narrativa não pudessem ser resolvidos na planaridade de duas dimensões e precisassem de uma terceira via para se redimensionar. Na perspectiva desta terceira dimensão, as diferenças planares, os hiatos e incompletudes ou não importam ou se tornam pontos cegos. Godard pensou este filme numa estrutura dupla, especular, na qual um desvio se introduzisse: “Da raça humana à metáfora./ Isto termina em latidos/ e em choro de criança./ No meio tempo vemos pessoas discutindo sobre a queda do dólar, sobre a verdade em matemática e sobre a morte de um pardal”. Tanto faz diria a mulher, ou Rocky (mas o homem não diria isso. Talvez Godard sim). A metáfora não é um espelho nem da ideia nem da realidade, mas uma outra via. Uma perspectiva. Um relevo. Entre a natureza e a cultura está a linguagem como um terreno, um caminho comum. E entre o texto e a imagem, numa mesma liga, está o cinema.

 

 

Guilherme Preger é engenheiro e escritor, autor de “Capoeiragem” (Ed. 7Letras) e “Extrema Lírica” (Editora Oito e Meio), e também organizador do Clube da Leitura da Baratos da Ribeiro no Rio de Janeiro.

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104ª Leva - 07/2015 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

BEIRUT – NO NO NO

Beirut

Algumas canções parecem ter o dom de transportar-nos para lugares tão agradáveis que sequer devem existir. Uma sonoridade que ilustra bem tal sentimento é composta pela Beirut, banda do Novo México (EUA) que ganhou o mundo com o hit Elephant Gun – e  os brasileiros com a música de abertura da minissérie Capitu (2008), de Luiz Fernando Carvalho. A aura de orquestra de world music combinada a elementos de folk do Leste Europeu difundiu uma espécie de erudição acessível a todos os ouvidos, desde o álbum de estreia, Gulag Orkestar (2006). Quase uma década depois, o grupo liderado pelo multi-instrumentista Zach Condon – que já interpretou O Leãozinho, de Caetano Veloso, em performances de outrora – lança No No No (2015), seu quarto álbum de estúdio. Após problemas pessoais, cancelamentos de apresentações, bloqueio criativo e um jejum oficial de 4 anos, Condon e sua trupe permitem-se dar vazão a um descompromisso pós-inverno que setembro anuncia cá dos trópicos.

Gibraltar e sua percussão de teclado-adesivo abrem os trabalhos indicando que o Beirut, por ora, posiciona-se naturalmente entre o Mar Mediterrâneo e o Oceano Atlântico, dividido pelos contrastes sociais, sonoros e afetivos de Europa e África, tal qual o acidente geográfico que batiza a canção. E sim, apesar de todas as disparidades da vida, “everything should be fine”. No No No, primeiro single lançado ainda em junho, passeia por toda a veemência instrumental que consagrou a banda, porém de forma jocosa e reincidente, como o próprio videoclipe propõe. At Once [re]assume o ar melancólico e os metais tradicionais utilizados pelo grupo no álbum The Flying Club Cup (2007), questionando: “how do you know/at once/at last/at all?”.

Beirut
Beirut, sexteto liderado por Zach Condon / Foto: divulgação

 

O segundo bloco inicia com a levada setentista e esperançosa de August Holland (no, I lost the ramparts and now/I want to send back the sound), que em alguns momentos nos remetem a Paul McCartney, para em seguida desaguar na instrumental As Needed, que utiliza violinos como base – e como o título sugere, “era necessária” para a coesão da obra. Perth, a canção mais pop do álbum, tem um suingue arrebatador: impossível não bater o pé, balançar a cabeça, estalar os dedos, cantarolar ou sair dançando. Não estranhe se ela tornar-se a trilha sonora da sua próxima viagem ou “see you in an hour, an hour back home”. A terceira e última leva de canções traz um quê psicodélico na enxuta Pacheco (how long? how long? how long? just so I know), enquanto Fener (farol, em turco, terra de sua nova musa inspiradora), faixa mais eletrônica do disco, contrasta com So Allowed (how we began to see things?), que encerra a obra no compasso de valsa, suave como um sopro de jasmim nas noites quentes de primavera.

Em suma, o novo registro da banda soa com certa distância de seu antecessor, o consistente The Rip Tide (2011) e apresenta-se menos folclórico e nostálgico que todas as obras anteriores. Não à tôa, a capa estampa uma árvore carregada de flores e uma paleta candy color. Se as 9 faixas inéditas de No No No – que cronometram menos de meia hora – não agradaram completamente os críticos e fãs conservadores da banda, acertaram em cheio o coração dos indies ávidos por canções impregnadas de sensações e simbolismos. Assim como seu homônimo árabe, o Beirut ressurge menos condimentado, porém tão aprazível quanto sua receita tradicional. Que seus ouvidos gulosos apreciem a obra sem moderação alguma.

 

Larissa Mendes diz ‘no no no’ a toda música ruim.

 

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104ª Leva - 07/2015 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

A mitologia do homem comum

Por Sérgio Tavares

 

Capa

“O dia em que comemos Maria Dulce” é, em grande parte, a saga de um herói inacabado. Jailson, um Ulisses nordestino, subalimentado, rústico, cuja viagem à procura da Ítaca de si deslinda as feridas sociais, o mapa da fome, as paragens castigadas daqueles desenganados de nascença. Na coletânea de contos do paraibano Antônio Mariano, pululam “Jailsons”, personagens que carregam o mesmo nome e singularidades, levando o leitor a crer numa ação romanesca. Ou seria apenas uma série de aparições aleatórias? Não fica claro. A narrativa decorre desse jogo movediço.

Sobre os motores temáticos, no entanto, não recaem dúvidas. Ora com uma crueza vibrante, ora com uma melancolia judiada, Mariano problematiza conceitos arcaicos, mas ainda latentes nos desvãos do Brasil, a exemplo do patriarcalismo, da submissão feminina, da impossibilidade de fuga, do asselvajamento das relações familiares e os conflitos gerados por essa colmeia de sentimentos peçonhentos.

Logo no conto de abertura, “A construção do silêncio”, pai e filho convivem separados por uma barreira de afonia, que os impedem de compartilhar suas angústias, de solucionar erros pretéritos, de, diante de uma terceira geração, rejeitar essa herança de estranhamento.

A figura paterna, na configuração de uma entidade implacável e intransitiva, é reprisada em outras narrativas, até ser exorcizada em “Chocolate quente”, quando o esboroamento físico do genitor possibilita o roubo da autoridade pelo filho. “Amo papai, imensamente. Principalmente quando é fraco, depende de mim e posso desprezá-lo”, regozija-se o protagonista.

É recorrente a incidência de uma maldade natural, intratável, sem explicação. “Papai, você matou mãinha, matou mãinha, matou mãinha!”, desespera-se o menino diante de um homem brutalizado que recorre à morte para a resolução de seus problemas. A condição humana não é apenas pobre, pois traz entranhada na alma a miséria, mas retroalimenta esse legado de parcos valores morais, ou de valor algum.

Nascendo e morrendo nesse cenário árido, rachado sob os pés descalços dos que não alcançam o que está à altura das mãos, reinam os “Jailsons”, um “sertanejo de uma cidadezinha pacata”, um demitido que não se condói à dor de parto da esposa, um “servidor público municipal”, um sujeito marcado para morrer. Múltiplos atores de um mesmo fado: ser coadjuvante da própria existência, apagar-se, nunca triunfar. Como sumarizado no conto “Estas imagens”: Teu nome é Jailson, deve ter sido a única frase que pronunciaram para me prender de vez a esse destino”.

As desventuras do personagem são também diesel para funcionar a máquina de vocábulos regionais, envernizados por um lirismo abrasador. Mariano, poeta de mão-cheia, faz de sua tessitura um fluxo sinuoso que vai atritando as palavras e obtendo desse movimento uma espécie de cadência própria da língua falada de um povo que tem de lidar com as agruras da vida e consegue extrair, da resistência, música.

“Mais longe, um galo sola o seu canto simples, zurra um jumento, escarra um ancião. A fruta de fogo despertando a cidade com seu grito de luz e calor. Surpresa alguma. A aurora cai, de vez e já apodrecida, no colo magro da manhã que nasce”. Com um canto bem afinado, “O dia em que comemos Maria Dulce” retrata a mitologia do homem comum.

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

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104ª Leva - 07/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Mulher gato

 

Olhos que gritam
Miados de amor
Noite gelada
Meus seios serpenteiam
Enroscam
Nosso fogo cruzado.

 

Cristina Arruda 

 

Cristina Arruda
Desenho: Cristina Arruda

             

Lamento

……………

.mia
vasculha muro
carteira vazia
esquece a lua

odeia o miado
do gato, engole o rato
sapo no furo do queijo
espera

lata vazia
agrada
ronrona a gata
enquanto só
e vadia
arranha brisa.

Adriana Aneli

                       

 

 

***

 

 
Mulher polvo

 
Cabeça forte
Na luta do cotidiano
Tinge o mundo
Que não quer
E foge para se esconder
Na força de seus braços
que desejam.

 
Cristina Arruda

 

Cristina Arruda
Desenho: Cristina Arruda

 

Ultrapassagem

……………………

sai da toca
cruza mares
caprichosos pensamentos
escapam
………………..presa
ou caça
mimetiza
fundo de céu
………………………em mar de
estrela
a sua hora.

Adriana Aneli

***

Mulher Pássaro

 

Flores no corpo
Penas que cobrem
Braços não tem
Chegaram asas
Acordou o afeto
Que motivou o voo
Pode saltar.

 

Cristina Arruda

 

Cristina Arruda
Desenho: Cristina Arruda

 

 

constrói poesia
com pés de vento
grito cortado
coração a pena

silêncio fala
cala
a vontade
em sonho
peixe do mar
….nada?

: voa.

Adriana Aneli

***

Lagarteio

 

Aonde vai mulher?
Com estes olhos de borboleta
Se ainda vive lagarta
Morreste sem perceber
Arrastando asas
Por um amor qualquer
Aonde vai mulher?

 

Cristina Arruda

 

Cristina Arruda
Desenho: Cristina Arruda

 

Cilada

despejada do casulo
aposta em asas
rotas
costura destinos
fabrica redes

felizarda
desde menina sabe
cair.

Adriana Aneli

***

Sobrevivência

 

Corpo de mulher
Recortado se esvaindo
Alma ferida
Num lento ritmo
Move a nova vida
Protege a cria
Diz adeus
E entra no mar.

 

Cristina Arruda

 

Cristina Arruda
Desenho: Cristina Arruda

 

Corpo lunar

onda gelada
castelo de cartas
perdoa
e não esquece

um dia volta
casca quebrada
para recuperar o ninho.

Adriana Aneli

 

 

Mineira de Belo Horizonte, Cristina Arruda é formada em ciências biológicas e odontologia pela UFMG. Artista plástica autodidata há mais de 15 anos, vive em Belo Horizonte onde realizou exposições individuais “Universo Feminino” e “Rebento”, ambas no Centro Cultural Lagoa do Nado, além de exposições coletivas.

Adriana Aneli é escritora e dramaturga do grupo Baila Comigo. Membro Correspondente da UBE-RJ e do Coletivo Marianas. Idealizadora do projeto Tempestade Urbana, comunidade que reúne artistas e trabalhos de várias partes do mundo. Ao lado de Chris Herrmann, é editora da página literária Boca a Penas. Formada em Direito pela USP e pós-graduada em Direito de Família e Mediação de Conflitos familiares.

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104ª Leva - 07/2015 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Vivian Pizzinga

 

Valéria Simões
Foto: Valéria Simões

 

Teoria e prática

 

  1. Tese

 

Ele queria que eu fosse outra. Ele queria a outra de mim. Que eu fosse diferente daquilo que pediu de mim, daquilo que viu em mim, daquilo que julgou gostar em mim. Ele queria que eu fosse diferente do começo, que o começo fosse descartado, ele insinuava que o meu começo não valia mais. Ele dizia que, nesse começo sem valor, havia julgado que gostava daquilo que me definia como eu mesma, havia julgado que sabia exatamente o que é que ele gostava quando sentia gostar de mim. Ele queria que fizéssemos um inventário de nós mesmos, que no autoanalisássemos de forma pura e simples e convertêssemos as dobras, os espinhos, os calos e as inflamações em suavidade morna. Ele queria que eu não fosse o que eu sabia ser, o que eu queria ser, e que o erro havia sido meu, não dele, ao julgar que o que eu sabia ser era outra coisa. Ele me pedia uma impossibilidade e era incapaz de entender que o impossível se constrói aos poucos como possível, muito aos poucos, medidas de longo prazo. Ele não me ouvia, e o diálogo ia ficando cada vez mais confuso, a conversa rodava em círculos, o quê? Como? Explica melhor, eu pedia, evitando olhar para o desespero. Você errou, ele me disse, seriamente, fitando meus olhos empapados de lágrima, aqueles olhos que eu evitava piscar para não enlamear um diálogo tão enxuto.

 

  1. Antítese

 

Ela queria que eu a quisesse a mesma, que eu não esperasse nada, que eu me contentasse com a tranquilidade de dias eternos, que me fixasse em um começo imutável, ela queria que fôssemos felizes para sempre e queria, com isso, uma aliança, um noivado, um compromisso e a longevidade da felicidade que não derrapa. Ela queria uma estrada sem declives, sem aclives, sem curvas fechadas e com acostamento. Não era capaz de entender o que eu dizia, mesmo que eu me tornasse didático e me desdobrasse em exemplos. Ela queria que eu fosse o mesmo, ela exigia que eu não mudasse, pois, mudando, mudaria as esperas, as reivindicações, as palpitações. Ela queria que eu quisesse o mesmo que quis no primeiro dia, e o que quis no primeiro dia era o que ela era no primeiro dia e o que eu era no primeiro dia. Contudo, eu já não era mais o que eu havia sido no primeiro dia, eu era outro. E o primeiro dia, era isso o que eu tentava esclarecer a ela, é sempre diferente de todos os outros. Eu me queria outro, e a queria outra, e tencionava um desvio na estrada, um atalho ou uma volta maior, só saberíamos depois, mas era preciso uma guinada, eu tentava elucidar esse problema e a encarava em seus olhos marejados, sem poder evitar dizer que eu precisava, eu nos queria antônimos.

 

  1. Síntese

 

Nós nos queríamos diferentes do que éramos. Do que havíamos sido e do que almejávamos ser. Ele me queria outra e eu o queria o mesmo. Ele não podia ser o mesmo, eu não podia ser outra. Ele arfava ao me explicar, eu chorava ao ouvi-lo. Ele então tirou minha blusa e me deitou na cama, devagar, alisando meus cabelos. Passei minha mão pelo seu ombro, desci pelo seu braço, acariciei sua barriga. Nos olhamos atentamente, como se descobrindo uma paisagem que havia sido ocultada por um nevoeiro antigo. Ele elogiou a maciez do meu cabelo e espalhou sua mão pelo resto do meu corpo, tirou minha saia. Eu elogiei a firmeza de seu tronco, de seus braços e desabotoei sua calça jeans. Te quero diferente, escutei-o sussurrar em meu ouvido, e dali sua língua enrodilhou o meu pescoço em um colar delgado de saliva úmida. Expirei com força, tentando interromper uma vaga qualquer que se agigantava dentro de mim e que meu corpo não seria capaz de dar conta. Te quero igual a todas as vezes em que te vi, respondi imediatamente, sentindo seu corpo nu avançar sobre o meu. E quando ele disse que não haveria como ficarmos juntos enquanto esperássemos coisas tão díspares um do outro, senti-o inteiro, em certa aspereza edulcorada e de um jeito que eu antes não conhecia, e ele respondeu com um gemido, um longo gemido, o ar quente expelido das narinas, demonstrando que nada precisava ser modificado.

Vivian Pizzinga é psicanalista e escritora. Lançou dois livros de contos (A primavera entra pelos pés, 2015; Dias roucos e vontades absurdas, 2013), ambos pela Editora Oito e Meio. Participou de antologias de contos (Clube da Leitura vols. I, II, III, Para Copacabana, Com Amor) e publicou textos ficcionais e de prosa poética no Jornal Plástico Bolha, na Revista Pesquisa FAPESP, na Revista Café Espacial, entre outros. Escreve críticas teatrais e outras resenhas para o site Ambrosia e contos para o Jornal Algo a Dizer. No momento, prepara-se para o doutorado em Saúde Coletiva e finaliza um romance.

 

 

 

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104ª Leva - 07/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Elizabeth Hazin

 

Valéria Simões
Foto: Valéria Simões

 

PRINCÍPIO DO FIM

 
Por que nada permanece inteiriço
em sua casca,
protegido?
um dia racha
e pela fenda
passam peixes e navios
fantasmas que na noite ganham vulto:
fogo, chama, fumaça

nada permanece inteiro
tudo se esgarça
assim é o intervalado texto do destino,
forrando a mesa

por que não se estende eterno,
se é tão fino?

por que não dura a inteireza?

 

 

 
***

 

 

 

FELICIDADE

 
É essa sombra que me passeia
essa possibilidade
………………………de ser
esse ser não sendo

alforje quase cheio
(menos que isso. Menos.)

nuvem oblíqua
em um céu de papel e tule

é essa consciência, talvez, de incompletude
ou da vida, reticente e vaga

é esse fio de navalha em que me equilibro
……..sem asa que me suspenda
……..ou mão que me segure

é essa trama em ouro e cobre
…….que na solidão do quarto se urde.

 

 

 

***

 

 

 

MAR DA CHINA

 

a minha mãe

 

 

Por sobre as ondas da China

onde se inscrevem palavras
todo o alfabeto navega
só pra você e pra mim
no oceano amarelo
–- puro caminho de água –
tudo é papel e nanquim
da China toda a beleza
(não fosse o mar, que seria?)
passa ao Japão das cerejas:
a porcelana e a seda
as invenções e a arte
(que norte enfim haveria
não fossem bússola e letra?)

 

 
***

 

 
POUR CAMILLE

A Camille Claudel

 

Quem modela a vida

(se tudo é forma
e belo
como flui o Sena) ?

Olha quanto é duro o mármore
e quebradiço
mas teu cinzel
sob o martelo o dobra
– é teu feitiço –
revelando segredos lá fincados.

Quantas vezes olhaste o rio
em frente à tua casa
e em que pensavas
rebelde menina apaixonada pelo Amor?

Esqueceste que não se molda o Amor:
sua matéria é vil
sua matéria é o nada.

Mas não estás só.
De certa forma
enlouquecemos todos
………………………..em asilos
………………………………..exílios
…………………………………………idílios.
Somos todos loucos
não tu só
com teus olhos azuis escancarados
olhando-nos do lado avesso do vidro
– tolo artifício:
não existe abrigo
contra a luz da loucura.

Deixa queimar até os ossos
(e não será tudo mesmo
reduzido a cinzas?)

Deixa arder fundo
pois só essa brasa
– que nos traz a morte –
nos ilumina.

 

 
***

 

 
LUX DELENDA EST

 

 

LUX DELENDA EST, alguém disse

e houve a escuridão

……………………..esse apocalipse –

manhãs e noites em confusão.
Era chegada a vez do Homem
– oh quão dessemelhante! –
homem e mulher, deles chegara a vez.
Onde o Paraíso
…………………………….– esta maçã –
no melhor pedaço, arrancada aos dentes?
era tudo agora pelo avesso
e viram como a vida é vã
……………………………………….. (é sempre vã)
e que tudo tinha fim
………………………………………. (como começo).

(Fosse um domingo talvez?)

Alguém sentenciou:
Não mais multiplicai-vos
e que não haja mais ódio sobre a terra
nem amor.
Dispersai-vos dispersai-vos
sem todavia esquecer a minha imagem!

Restavam, porém, os bichos
e o mesmo alguém falou:
Não mais seres vivos
………………………………………. – basta com tudo isso! –
não mais voem aves por sobre a terra
nem haja mais serpentes rastejantes
………………………………… ….segundo sua espécie.
Não mais animais domésticos
………………………………… ……………nem feras
de olhar faiscante.

Alguém achou que isso era bom
e como tudo mesmo fora já confundido
e já não havia precisão
de lua sol e estrelas
…………………………………… – a governar luz e trevas –
com um gesto
todos os astros foram abolidos
………………………………… ……….eternamente.
Aí cessou a erva verdejante
e não houve mais árvores
nem frutos com sua semente,
…………………………………. nem flor.
E as águas tornaram a mergulhar nas águas
não mais houve mares
………………………………….. – nem lágrimas –
nem terra de continente.

Desfez-se enfim o firmamento
e só aí então
esse alguém descansou.

 

Elizabeth Hazin (Recife-PE, 1951). Publicou Poesias (1974), Verso e reverso (1980), Casa de vidro (1982), Arco-íris (1983), Espelho meu (1985), Martu (1987), O arqueiro e a lua (1994). Em 2006, a Vieira & Lent reeditou uma segunda edição — revista e ampliada — de Martu, livro vencedor do Prêmio Rio de Literatura (1986) e foi publicado Lêgo & Davinovich (7Letras) escrito a quatro mãos com Davino Sena. Em 2010, a Vieira & Lent republicou Arco-íris e em 2014 publicou Mágica de Carrosel (infantil). Atualmente é professora Associada Plena junto ao Programa de Pós-Graduação da UnB, líder do grupo de pesquisa Estudos Osmanianos.

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104ª Leva - 07/2015 Destaques Olhares

Olhares

Entre mundos

Por Fabrício Brandão

 

Valéria Simões
Foto: Valéria Simões

 

Entre os vãos daquilo que imaginamos ou vivemos, um mundo explode à nossa volta. Dentro dele, desenham-se cenários, epifanias humanas, outras possíveis dimensões. Há que se falar no concreto das coisas e na sua projeção aparente. Há que se falar também em abstrações ou em como estamos diante de esferas intangíveis. E, quando não temos o controle imediato das situações, passamos a meros observadores desse jogo de representações que é a vida.

Quem fotografa lida com um universo de paralelismos. Num arranjo cênico moldado pelo cotidiano, os olhares se entrecruzam. Sujeitos e objetos captados pelas lentes rompem a noção de passividade e ganham um status de protagonismo. Assim, surgem novas maneiras de vislumbrar a existência. O fotógrafo, artesão da luz, é também arrebatado por toda a sorte de elementos que emanam do exterior como se estes últimos o escolhessem. Coexistem, num mesmo plano, as investidas do artista e a representação autônoma com que seres e coisas se apresentam.

Revertendo a tradicional visão das atuações, seria como afirmar que o fotógrafo é quem é eleito pelo seu alvo. Se por um lado tal constatação traz uma carga subjetiva muito forte, por outro, aponta para uma perspectiva através da qual cabe ao artista perceber certos atrativos sinais. Temos essa sensação ao contemplarmos o trabalho de Valéria Simões, sobretudo pelo fato de que as pequenas delicadezas contidas no dia-a-dia ganham destaque aos olhos da artista.

Registrar pessoas é algo que ocupa um lugar especial na trajetória de Valéria. Nesse aspecto, está em foco a habilidade de interferir o mínimo possível no curso natural dos personagens e seus respectivos ambientes. Como ela mesma confessou, numa entrevista concedida à Diversos Afins, o segredo consiste em se misturar da forma mais espontânea possível. E é assim que múltiplas faces são mostradas, tanto nos rostos retratados quanto em lugares nos quais as intervenções humanas deixaram suas marcas mais evidentes.

 

Valéria Simões
Foto: Valéria Simões

 

Por trás da rotina que envolve a tudo e todos, paira um manto poético com o qual a fotógrafa apresenta o grande palco da vida. São cores, formas, linhas, gestos a compor a dinâmica da existência. Os espaços urbanos revelam sentidos tanto de ocupação quanto de ausência, todos eles denotando uma simbologia própria.

A fotografia está na vida de Valéria Simões desde o início dos anos 1990. Alguns de seus trabalhos foram premiados dentro e fora do país. Participou de diversas exposições, tanto individuais quanto coletivas, no Brasil, Peru, Canadá e França. Em cinema, assina a fotografia de cena de filmes como “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (São Paulo – 2002) e “Trampolim do Forte” (Bahia – 2008). Fez de sua casa, em Salvador, uma verdadeira galeria, lugar onde recebe convidados, artistas e pessoas interessadas em adquirir suas obras.

Transitando entre mundos, os olhares de Valéria enaltecem o ritual singelo da vida. Diante da delicadeza e da simplicidade com as quais se depara, a artista não se furta ao ato de nos revelar que nas coisas costumeiramente despercebidas há sabores elevados.

 

Foto: Valéria Simões

 

 

* As fotografias de Valéria Simões fazem parte da galeria e dos textos da 104ª Leva

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.

 

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104ª Leva - 07/2015 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

Em busca da busca do tempo perdido

Por Maurício de Almeida

 

Capa Rebentar

 

  1. Rebentar: um romance

Rebentar é o novo livro do escritor Rafael Gallo. Sucessor do premiado Réveillon e outros dias (vencedor do Prêmio Sesc de Literatura na categoria contos 2011/2012 e finalista do Prêmio Jabuti 2013), Rebentar é o primeiro romance do autor, no qual destrincha uma situação delicada: após trinta anos de buscas, Ângela desiste de procurar Felipe, seu filho desaparecido aos cinco anos de idade.

Ao longo de quase quatrocentas páginas divididas em nove capítulos, o livro acompanha e analisa o processo de tomada de decisão de Ângela, perscrutando os altos e baixos, e, principalmente, as dificuldades e resistências que a personagem enfrenta para levar a cabo sua decisão. Decisão que é muito mais uma renúncia que uma desistência. Corroborando com esse parecer, destaco uma constatação-síntese da personagem principal, que surge em uma conversa com sua amiga e terapeuta e torna-se mote de seu processo:

“Eu não estou me dobrando a essa luta, feito alguém que gostaria de poder vencê-la mas não se sente capaz. Eu era assim antes, agora estou justamente me dando o direito de escolher outra coisa para minha vida. Quero deixar para trás essa batalha feita de desistências. Você conhece minha história, ninguém vai poder nunca dizer que eu simplesmente desisti” (pg. 77).

Dessa brevíssima sinopse e citação, seleciono duas ideias fundamentais ao livro: o tempo e a renúncia.

 

  1. Heráclito overdrive

“Ela sabia, desde o começo, que em algum momento teria de dar um adeus definitivo ao controle daquele espaço pertencente a Felipe […] Agora percebe que uma despedida sempre atravessa, indivisível, o passado, o presente e o futuro daquilo que se vai, iniciando-se antes mesmo da ausência e encerrando-se muito depois de se já ter perdido aquilo a que se diz adeus, o adeus que já não pode mais alcançar o que se foi” (pg. 252).

Para Heráclito, tudo é movimento. Partindo desse pressuposto, Simplício cunhou a máxima que é repetida incessantemente com o intuito de nos lembrar que, afinal e independente de qualquer esforço contrário, o tempo passa e é impossível revivê-lo tal como acontecido: não se pode percorrer duas vezes o mesmo rio. Essa máxima servirá de parâmetro a certa leitura que faço de Rebentar. No entanto, me apropriarei dela para um exercício hipotético a fim de explorar uma questão cara ao romance: o tempo.

A hipótese: uma pessoa mergulha no rio do tempo. E, nesse mergulho, em vez de percorrê-lo ou mesmo se deixar levar pela correnteza, agarra-se a um tronco estanque no meio do rio e, por motivos diversos, não o solta.

A razão pela qual não é possível percorrer duas vezes o mesmo rio Simplício mesmo explica: por causa da impetuosidade e da velocidade da mutação. À luz desse movimento perpétuo de tudo, a hipótese de resistência ao fluxo coloca outras questões: Que troncos são esses? Por que se ancorar nesse ponto e resistir ao fluir do rio-tempo? Quais são as implicações dessa resistência? Qual é o custo de abrir mão desse ponto de resistência? E, questão fundamental ao livro, como superar aquele ponto seguro e fluir?

O sumiço do filho é o tronco no qual Ângela se ancora. Obsessiva e exclusivamente dedicada à busca do filho, ela agarra-se ao tronco daquele momento e é toda investimento na conclusão do impasse, que, ao menos para Ângela, exige uma (tentativa de) suspensão do tempo: não à toa o quarto de Felipe é mantido tal qual ele o deixou, assim como a casa da família é restaurada a fim de que permaneça igual, pois isso significa não só uma forma de reconhecimento para o caso do retorno do menino, mas também uma prova de que eles jamais se esqueceram dele. No limite, trata-se também de uma tentativa de Ângela em reter o tempo naquele instante a fim de revertê-lo e impedir que a catástrofe ocorrida aconteça de fato.

Entretanto, ao perceber que três décadas se passaram, Ângela compreende que o estrago está feito e que resistir não é mais plausível, posto que mesmo aquele ponto de resistência expirou: encontrar o filho não é mais encontrar o menino de cinco anos, o garoto que reconhecerá a casa e dormirá o sono infantil em um quarto ornado de brinquedos, mas um homem de trinta e cinco anos para quem a casa ou o quarto ou mesmo os pais certamente não significarão nada.

Apesar da lógica imposta por essa descrição crua do tempo – afinal, é óbvio que, se se passaram trinta anos, o garoto de cinco terá trinta e cinco anos – para Ângela essa conclusão só é possível quando ela compreende (e, acima de tudo, sente) que, apesar de seus todos os seus esforços, o reencontro com o filho perdido é impossível justamente pelo fato de ser impossível conter o rio do tempo. Não por acaso, o livro é um debruçar-se sobre a questão fundamental: como superar esse ponto seguro (mas inviável) e fluir?

A implicação de resistir ao tempo é bagunçá-lo. Ângela percebe essa implicação ao concluir que manter um filho ausente é viver o passado e, portanto, negar o presente, impossibilitando o futuro. Assim, é possível depreender que o maior desafio de Ângela para superar o ponto em que esteve presa é rearranjar o tempo, compreendê-lo em sua dinâmica ininterrupta e deixar ao passado o que é do passado para correr ao gosto do presente – e o futuro a Deus pertence.

Mas o drama dela é complexo, pois reordenar o tempo é abandonar o passado e assumir a impossibilidade real de retorno do filho. Há muito mais contundência no fato do que na ideia – e esta é a força de Rebentar: captar e transmitir as implicações da escolha de Ângela e não reduzi-la simplesmente a uma eloquência vazia sobre o tempo. É sensível durante a leitura o empenho da personagem, suas perplexidades frente às resoluções que assume, suas fraquezas nos momentos mais difíceis.

 

  1. A busca da busca do tempo perdido ou insepulto corpo inexistente

Entretanto, apenas entender a dinâmica do tempo para reorganizá-lo não é suficiente à decisão de Ângela, pois ela precisa agir. Como executar sua resolução?

Após tantos anos de busca e contrariando todas as expectativas, Ângela opta pela renúncia: enterrar simbolicamente o corpo inexistente (e, portanto, insepulto) de seu filho é o único meio de libertar-se daquilo que a prende ao passado. Não sem enfrentar a pergunta: qual é o custo de abrir mão desse ponto de resistência? Pergunta, aliás, que pressupõe inúmeras resistências.

É possível dizer que tanto as resistências internas e externas que ela encontra ancoram-se na mesma prerrogativa: independente das circunstâncias, a maternidade implica em não desistir do filho.

Na medida em que decide suspender a busca por Felipe por aceitar a inexorabilidade do tempo, e isso acontece justamente quando se depara com um retrato de Felipe envelhecido digitalmente, Ângela se impõe questões inevitáveis: aquele homem atenderia por Felipe? Compartilharia do amor a ele dedicado apesar dos trinta anos de espaço entre eles? A consequência dessas questões estremece a certeza da prerrogativa com uma dúvida ao mesmo tempo cruel e libertadora: aquele homem seria seu filho?

A resposta de Ângela é não. Pois não só ela aceita o tempo, como também compreende sua ação: ainda que compartilhem o mesmo código genético, aquele homem não seria o filho dela. Isto significa encarar a constatação mais cruel e incontornável, mas única forma de subverter a prerrogativa e encontrar uma verdade subjacente: ela e o filho são pessoas distintas. E isso só é possível ao aceitar a inexistência daquele filho que ela conheceu, isto é, compreendê-lo morto. Essa constatação é tão fundamental ao processo da personagem que é a primeira e única vez que que ela assume a voz narrativa para explicitá-la – e não por acaso no momento em que ela se despede de Felipe:

“E eu guardei todas as suas coisas por tantos anos, enxergando nelas o espelhamento da minha esperança de que a vida pudesse se reordenar entre nós, mas… No fim, elas restaram sem nenhum sentido por não terem você. Elas existem apenas para serem suas. As suas coisas não são as minhas, filho; essa é a verdade que custei a entender. Protegi seu pequeno mundo como se fosse meu, mas isso só fez com que eu ficasse presa dentro dele. Eu cerquei ainda mais as paredes do labirinto onde me enclausurei.” (pg. 331)

Por razões diversas – algumas genuínas e outras escusas – Ângela tem de lidar também com as resistências impostas por aqueles que a cercam. Muito embora partam do mesmo princípio, essas resistências consideram a passagem do tempo um evento que não se sobrepõem à prerrogativa da maternidade. O fato de ter trinta anos ou não atender pelo nome Felipe não faz de Felipe menos filho de Ângela.

Talvez seja mais simples a quem está de fora pressupor a preponderância de tal prerrogativa, porque a esperança implicada na espera não afeta os terceiros da mesma forma que afeta Ângela. Aliás, para ela é uma questão de vida: enterrar Felipe (mesmo que simbolicamente) é a única forma de poder continuar viva, soltar-se daquele tronco fincado no meio do tempo é a única maneira de livrar-se do passado e viver o presente.

“Quando alguém que a gente ama morre, dói demais olha adiante sabendo que não existirá mais nenhum dia em que essa pessoa vai estar conosco no futuro: sua voz pela casa, seus gestos e toques, suas vivências. Eu nunca tive isso com você, ao olhar adiante; sua perda sempre se deu no sentido oposto: era quando eu olhava para trás, para o passado, que eu via os dias se somando sem você”. (pg. 332)

Dessa forma, a transfiguração de Ângela passa necessariamente pela reformulação da prerrogativa: ao aceitar/providenciar a morte do filho, ela pode recuperar o papel que possuía antes de ser mãe. Portanto, muito antes de uma desistência, ela realiza uma renúncia, que só é possível porque, ao assumir a ausência/morte do filho, ela pode abrir mão do papel de mãe. Assim, como a qualquer ser humano, cabe a ela viver o presente, aceitando que o passado já não existe mais. Ater-se a qualquer um dos tempos ignorando os demais não é viver, mas resistir – e em vão.

Por isso, Rebentar pode ser lido como um grande processo de luto. Na ausência do corpo, Ângela e o marido Otávio elencam e assumem mudanças que de alguma forma simbolizam o enterro do passado a fim de livrar caminho ao futuro. E o livro é o detalhamento desse processo, seus percalços e contratempos, que, afinal, nove capítulos depois, se realiza no ciclo mesmo da vida: um novo nascimento.

  1. Pais & filhos

Por si só, o mote do enredo é forte. Portanto, não é difícil arriscar que, para mantê-lo firme, o autor teria de desembolsar outros eventos tão ou mais catastróficos. (Estratégia, aliás, comum em certa literatura, que lança mão do armagedom a fim de fazer a narrativa andar.) Todavia, o autor é preciso na trama. O enredo desvia de pirotecnias narrativas para se dedicar tão somente ao tema eleito, aprofundando-o a partir dos personagens – sobretudo Ângela – e buscando suas múltiplas possibilidades de acordo com a história que conta.

E Rebentar flui. O estilo lírico e sempre elegante do autor (vide os contos do citado Réveillon e outros dias) possibilita um duplo movimento ao texto: explorar as profundezas dos sentimentos de Ângela e explicitar as tensões nos diálogos quase coloquiais que pontuam sua relação com os demais personagens. O interessante desse movimento é demonstrar as diversas camadas do processo da protagonista, que transpassam desde a contemplação mais silenciosa e angustiante do mar em um cais de porto até o diálogo mais terno com a afilhada Isabela.

Por fim, interessante notar como o autor revista alguns temas e estratégias de Réveillon e outros dias, livro de contos antecessor de Rebentar. Se no primeiro já havia a tendência de construir narrativas muito mais a partir dos personagens e seus dramas particulares do que submetê-los a uma trama mirabolante, essa tendência realizou-se plenamente em Rebentar.

As relações parentais é outro tema comum aos livros. Por exemplo, o conto Réveillon, um dos mais significativos do livro, explora a relação entre o filho surdo e prestes a partir numa viagem e seu velho pai recém viúvo – e essa situação é porta de entrada aos próprios personagens, pois a vontade de vida do jovem resulta na sensação de finitude que o velho experimenta – eis o conflito. Entretanto, como vemos claramente em Rebentar, essas relações marcadas por impossibilidades, ao contrário de impedimentos, convocam os personagens a providenciar soluções – e nos impele a revisarmos nossas próprias desistências.

Maurício de Almeida é autor de ‘Beijando dentes’ (Ed. Record), livro de contos vencedor do Prêmio Sesc de literatura 2007.

 

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104ª Leva - 07/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Kleber Lima

 

Valéria Simões
Foto: Valéria Simões

 

Que resvala de você
sem deixar rastros
que não compactua com o cotidiano –
a música inexecutável
a promessa inexequível
a víscera mais escondida
incutida no hálito de café e cigarro

Que não te nomeia
os muitos braços e pernas e bocas e gritos
aquilo que às vezes se traduz em lágrimas
algo embaçado que te fixa o olhar
num dia comum de semana

Que foge e te retém
enquanto você ri e sangra
e me olha
e me abraça
[já são tantos lenços ensanguentados]
ato-me a moldes fugazes
da tua alma inestancável.

 

 

 

***

 

 

Toda vez que for escrever
colocar ao lado este porrete

bater à toa
de olhos vendados
como o choque dum corpo no mar
à deriva

Toda vez que for escrever
bater forte
como aquilo que abriu minha cabeça
outro dia

uma pancadaria
cujo barulho
infernal
é tanto maior silencia.

 

 

 

***

 

 

 

Verhoeveniana II

 
Despi uma estação indomada
com protuberâncias de infinito na pele
e afora as violentas mordidas
a desintegração dos átomos da boca
as bifurcações luminosas das nádegas
as secreções nervosas como piche quente
o consentimento convulsivo
dos dedos entrelaçados
era mais um episódio
de um peito escavacado
pelo amor.

 

 

 

***

 

 

 
Por onde tua presença me chega
não sei
uma música incrustada na parede
dos ouvidos
um país arrancado de algum autorretrato

Não sei mesmo dos teus
passos mordidas
violentas insolações
não sei como cospe
leopardos sanguíneos em meu peito
nem de como em minhas virilhas
maçãs podres acumulam à revelia

De toda febre
em meus pelos
teu rosto muito forte
se contrai em arpões
rixas taras arrepios
vermelhos
líquidos magmáticos
pássaros coagulados
trepidando na ponta dos dedos.

 

 

 
***

 

 

 
Abertura para um sol em tuas costas
um pomar na ponta dos teus dedos
tua cútis uma música sibila arrepios
a boca transeunte trespassada de águas
as palavras ardendo em silêncio eriçadas
motim de dilúvios enluarados lábios
assento de frêmitos olhando atônitos
teu rosto esta costura em meu coração
assediado por minhas vísceras famintas.

 

Kleber Lima. Teresina. 1984. Escreve no blog Apontando para mim.