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151ª Leva - 01/2023 Galeria

Ilustração: Viola Sellerino

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Ilustração: Viola Sellerino

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150ª Leva - 05/2022 Ciceroneando

Ciceroneando

Foto: Yuri Bittar

 

Mais um ano se finda. Com suas tantas epifanias, 2022 inaugurou ciclos e fechou outros tantos. É da dinâmica da vida tais fluxos de vivências e, no caso da Diversos Afins, os cenários foram mobilizados pela descoberta de novos autores e artistas com suas vozes peculiares de expressão. E não há um mundo fechado em si quando o propósito é pensar um projeto editorial desta monta. Mesmo com edições mais espaçadas, o ano foi marcado pela persistência, que faz com que nossa jornada pelo encantador universo das palavras e imagens se mantenha firme. Conduzir uma revista significa, acima de tudo, deixar se guiar pelas surpresas movidas através dos mais diferentes encontros. Assim, poetas, contistas, músicos, artistas plásticos, fotógrafos e outros tantos colaboradores renovam os ares de nossas investidas. Estar no caminho da Arte é a todo tempo aprender com tamanhas e tantas mentes cujo ímpeto criativo é verdadeira chama da vida. É quase impossível enumerar a quantidade de pessoas que estiveram conosco nos 16 anos de trajetória da revista, principalmente os entusiastas permanentes de nossas ações, sejam eles autores ou não. O mais importante é que tudo até aqui valeu muito a pena, cada esforço ou dificuldade enfrentados. E não há nem nunca houve tempo para pensar em retrocessos ou desânimos, pois os caminhos acabam sendo curiosamente autorrenováveis, dada a quantidade de possibilidades, temas e pessoas que somam sempre aos nossos movimentos. Ao falar nesse dinamismo, é que vemos surgir uma nova leva, como novos atores e suas potências narrativas. Senão, vejamos quem adentra agora as nossas janelas poéticas: as presenças instigantes de Marília Rossi, Rita Isadora Pessoa, Rani Ghazzaoui, Julia Bac e Paulo Silva. No campo musical, Larissa Mendes é quem nos apresenta “Um Belo Dia Nesse Inferno”, mais novo disco de Juvenil Silva. O livro de poemas “Ruído nos Dentes”, de Vivian Pizzinga, é tema da resenha de Helena Terra. Por nossas alamedas, também adentram os contos de Adriano Espíndola Santos e Rodolfo Guimarães Neves. Nosso entrevistado da vez é o fotógrafo Edgard Oliva que, numa conversa conduzida por Marcelo Frazão, opinou sobre questões importantes do universo da imagem. De forma sempre aprofundada, Guilherme Preger comenta sobre o filme espanhol “Alcarràs”. Nosso caderno de teatro volta à cena com um texto de Vivian Pizzinga sobre o espetáculo “Realpolitik”, peça que tematiza nossa emblemática atualidade. Na análise de Gustavo Rios, atenções para “Emoções em Trânsito”, o mais novo livro do poeta Ricardo Mainieri. Por todos os recantos de nossa nova edição, as fotografias de Yuri Bittar revelam as marcas especiais da contemplação. Nas vias da Arte, eis a nossa 150ª Leva, queridos leitores!

 

Os Leveiros

 

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150ª Leva - 05/2022 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra I

Outros campos de visão

Por Helena Terra

 

 

Ruído nos dentes. Embora, no título, a provocação seja à minha arcada dentária e ao meu maxilar que, volta e meia, expressam minha pulsão de vida e, volta e meia, meus picos de raiva e desconforto, quem, de verdade, se exalta diante dos versos e da prosa deste livro, estranhíssimo no melhor sentido, da Vivian Pizzinga, são os meus olhos.

E o que leem os meus olhos que embaralham os meus pensamentos como se eu estivesse sem óculos ou dentro da dissonância de um sonho permeado pelos poemas e histórias que leio e que, então, recrio e reescrevo enquanto durmo? Sim. Reescrevo o que me absorve, quase sempre com as mesmas palavras que suas autoras e autores, nas horas que eram para ser de repouso. Horas destinadas a regeneração do meu corpo que acabo por usar em favor da minha imaginação.

Imaginação. Eis algo que se multiplica e transborda em grande escala e ressonância no Ruído nos dentes. Imaginação construída em cima da linguagem, dos versos em ruptura com sua própria natureza e em conluio com a prosa, híbridos e livres além do conceito de versos livres. Insubordinados. Desobedientes.

E imaginação construída também em cima da vida no que ela tem de trivial, com suas repetições quase necessárias, no ato de se tomar um café e de pegar o metrô e de tirar a remela dos olhos porque a rotina tem encanto. “A rotina tem seu encanto”. Adoro essa frase. É o título de um filme do Ozu. E falo sobre um filme aqui porque o Ruído nos dentes é muito visual e entrou em cartaz no meu cérebro faz semanas.

Faz semanas que escuto e vejo os seus poemas. Todos em movimento. Em várias sessões. Os meus favoritos são aqueles à beira da crueldade, um tanto malignos, que se movem rasteiros pelo lado mais de dentro de tudo que há de mais inquietante no meu lado de dentro. E que aí me machucam enquanto transformam as minhas percepções em memórias e em elaboração e resistência estéticas. O Ruído nos dentes é um livro sobre resistir. Resistir de verdade.

“A verdade raramente é compreendida por pessoas sem imaginação”, uma personagem de um outro filme, Os inocentes, dirigido pelo Jack Clayton, diz. Livros também raramente são compreendidos por pessoas sem imaginação, eu digo cá com o meu teclado testemunha das tempestades que atingem os meus neurônios. O livro da Vivian Pizzinga é uma. O Ruído nos dentes é uma rota elétrica, de energia. Quanto mais a gente o lê, mais forte ele se torna e indecifrável e inalcançável como devem ser as obras de arte.

 

Helena Terra é de Porto Alegre. É jornalista, criadora e coordenadora do Grupo de leitura e escrita A palavra tem nome de mulher, dentro do presídio feminino Madre Pelletier, com as mulheres privadas de liberdade. Faz leitura crítica de originais e mentoria de escrita com escritores iniciantes. Cursou a Oficina de Criação Literária, do escritor Luiz Antonio de Assis Brasil, na PUC/RS, e frequentou os grupos de produção e de leitura crítica da professora Lea Masina. Em 2013, publicou o seu primeiro romance: “A condição indestrutível de ter sido”. De lá para cá, participou de antologias e organizou, com o escritor Luiz Ruffato, a antologia “Uns e outros”. É coautora na novela “Bem que eu gostaria de saber o que é o amor”, publicada em 2020, com o ator e escritor Heitor Schmidt. E lançou o seu segundo romance “Bonequinha de Lixo”, em 2021.

 

 

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150ª Leva - 05/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Rani Ghazzaoui

 

Ilustração: Drika Prates

 

Aorta

 

entendo pouco de anatomia
sei da distância dos meus dedos
da densidade dos meus pelos
de quando em quando vêm os meus respiros
em todos os meus apelos
observo meus músculos
ora robustos, ora murchos
o músculo rubro
que bombeia até todas as minhas veias
cada uma das minhas linhas
absolutamente todas
as minhas histórias
não entendo de biologia
mas sei o gosto das minhas lágrimas
a espessura da minha saliva
(ainda mais quando misturada noutra)
sei da minha matéria
sei conversar o amor
por culpa dessa artéria
que me inunda
que me transborda
não me interessam as outras partes
(preciso delas, mas não me são essenciais)
o que me importa é uma saudável aorta
robusta, potente, pulsante
esse túnel que leva a tudo
essa latejante porta
que me deixa sobreviver
que me previne de escrever
morta

 

 

 

 

***

 

 

 

O Pêndulo

 

se eu vier balançando
me fazendo de pluma
ou de pêndulo
por cima da crosta
deslizando
um tiro no escuro
gemendo
te peço que não me segure
que não abafe em mim
qualquer sentimento
não cerre meus punhos
nem imobilize meus membros
preciso de espaço
para ouvir a vida dizendo
deitar num abraço
(ainda que eu gostasse)
não funciona para quem vive
tremendo

 

 

 

***

 

 

 

Só Sei Saber De Mim 

 

não sou uma especialista
em coisa alguma
que não seja
relacionada aos meus próprios sentimentos
não sei construir prédios
as plantas da minha casa sempre morrem
coleciono desamores ao redor do mundo
os amigos que sobraram cabem nos dedos
não sou uma sommelier
de qualquer gosto
que seja assim
tão refinado
me finco nas certezas do meu ofício
de conhecedora das travessas de mim mesma
sei de cor a cor de todos os abismos
que moram dentro do meu peito
não tenho ambições além dos muros
pra fora da minha mente desvairada
jamais quis saber de outros edifícios
menos ainda de qualquer outra fachada
há muitos que usam a vida
pra juntar conhecimento
e saber de um tudo o que há
além das fronteiras do sujeito
eu que não sou mestre em nada
sento na frente do espelho
e num plano de vida traçada
vou decifrando a minha esfinge
do meu jeito

 

 

 

***

 

 

 

Amor E Literatura

 

Derrama em mim teus medos
Conta pra mim teus segredos
Ensopa-me com tuas lembranças
Penetra-me as tuas esperanças
Aloja em meu ventre teus sonhos
Permite-me gerar teus inconhos
Afaga aos meus problemas
Me deixa te escrever em poemas

 

 

 

***

 

 

 

Desastrosa Queda

 

se estamos nos matando
acontece a quatro mãos
em velocidade cronometrada
com capacidade mútua
de execução

sua boca presa à minha
não há registros de ar algum entrando
veias não bombeiam
nem oxigênio
nem sangue

se estamos no buraco
caímos aqui de empurrão duplo
tua mão na minha nuca
o meu pé na tua bunda
um tombo assim cinematográfico

 

 

 

***

 

 

 

Absorta, Semimorta

 

olho
para baixo
vejo meus pés
ensanguentados
já não sei
de quem é esse sangue
se vem de dentro de mim
ou se saiu de vasos seus

o azulejo branco parece pulsar
estamos à deriva
vivendo nesse mar de amar
desço minha mão com delicadeza
coloco o dedo no coágulo
e, antes mesmo de pensar,
levo meu dedo à boca

sugo
chupo
devoro

esse sangue que não sei se é meu
esse sangue que eu sei que é nosso

 

Nascida em São Paulo e naturalizada australiana, Rani Ghazzaoui é escritora, comunicadora, atriz e poeta. Começou a escrever muito jovem — “desde que conseguiu segurar corretamente a caneta” — como ela mesma diz. “Aorta” (Lyra das Artes), seu livro de estreia publicado em março de 2022, é uma antologia de poemas escritos num espaço de quatorze anos, entre 2007 e 2021.”Aorta” está à venda nas maiores livrarias do Brasil, em todos os e-commerces de livros e no formato Kindle através deste link.

 

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150ª Leva - 05/2022 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

 Por Guilherme Preger

 

Alcarràs. Espanha. 2022.

 

 

Alcarràs é um filme de 2022, da cineasta Carla Simon. Venceu o grande prêmio do Urso de Ouro da Berlinale, um dos festivais mais importantes do mundo. A produção é a primeira representante em língua catalã a ganhar este prêmio. A jovem diretora, Carla Simon, também é catalã. Ela viveu a circunstância dramática de ter perdido ambos os pais pela doença da AIDS. Suas primeiras obras abordam o contexto dessa doença, porém Alcarràs não trata desse assunto, embora se debruce sobre os dramas familiares.

Alcarràs é o nome de uma vila no interior rural da Catalunha. O filme aborda a vida de uma grande família – avós, pais, filhos, tios, sobrinhos e agregados – todos dedicados à agricultura familiar ao redor de uma casa. Uma das preciosidades desse filme é a ilustração da exuberante riqueza frutífera do entorno: maçãs, pêssegos, figos, tangerinas, etc. A família historicamente se dedica à agricultura orgânica, sem uso de agrotóxicos. Por isso, os principais inimigos são as lebres que como pragas invadem o plantio e precisam ser mortas a tiros.

Porém, outro inimigo mais insidioso ameaça o cotidiano da família: o futuro. Mais especificamente: a energia solar e as placas fotovoltaicas. A Catalunha é uma região da Europa banhada exuberantemente pela luz do sol. O terreno lembra em parte nossa região do agreste brasileiro. A família mora numa casa em terras outrora comunais. Descobrem que a casa foi adquirida por acordo verbal e que não possuem um documento oficial de registro. Por isso, as terras em volta da casa são cobiçadas para sediar enormes placas fotovoltaicas para captar a luz solar e fornecer energia elétrica. As placas ameaçam assim as plantações que são o sustento histórico da família.

 

Cena do filme Alcarrás / Foto: divulgação

 

Três personagens se destacam: o avô e patriarca, quase sempre calado e angustiado pelo seu “erro” de não ter registrado a casa. Ele é cobrado pelo seu filho Quimet que é o verdadeiro motor tanto da produção agrícola, como da narrativa. Quimet quer apenas continuar o trabalho de sua vida que corresponde a plantar e a vender a produção a um preço justo. Toda a família está envolvida nessa atividade agrícola. Mas a possibilidade de receber renda alugando espaço para as placas fotovoltaicas parece seduzir seu cunhado e sua irmã, com quem Quimet acaba brigando.

E há também os filhos de Quimet e de seu irmão. Há os filhos pequenos, crianças, que se divertem brincando e correndo pelo campo agrícola, sob o sol. Essas crianças são incansáveis e felizes em sua liberdade rural impensável para os habitantes das cidades. Há o filho mais velho Roger, que é o que mais ajuda o pai; Roger gosta da vida de trabalho do campo, e contra o desejo dos pais se recusa a estudar para poder procurar mais tarde uma profissão diferente daquela. E há, finalmente, Mariona, a menina-moça, que é o verdadeiro foco narrativo da trama. De fato, o filme se passa filtrado pela perspectiva de Mariona que observa o conflito entre o pai e os tios, e que ainda possui uma sensibilidade especial para a chegada do tempo e as ameaças que derivam dele. Mariona gosta de dançar músicas contemporâneas ao estilo Tiktok. Ela encarna em seu corpo adolescente o ponto de encontro entre o passado e o futuro. Num certo sentido, Alcarràs é um filme clássico de coming at age, sobre a passagem da infância para a vida adulta, ao acompanhar os passos e os olhos de Mariona.

Apesar do destaque dado a esses protagonistas, um dos trunfos do filme de Carla Simon é o equilíbrio da atenção dada a todos os diversos personagens, pois embora sejam muitos, todos têm sua importância na trama narrativa e a tornam mais realista. A diretora escolheu a fórmula estética da obra semi-ficcional: atores contracenam com não-atores. O ganho em realismo é grande, com a câmera digital acompanhando de perto a movimentação vívida dos personagens, com suas hesitações, angústias e alegrias. Mas aqui é preciso cautela na observação: o apelo mimético dos filmes contemporâneos tem a ver diretamente com a complexidade dos arranjos afetivos e a indeterminação dos problemas abordados e não com uma suposta fidelidade aos esquemas sociais tradicionais.

 

Cena do filme Alcarrás/ Foto: divulgação

 

Em Alcarràs, temos como pano de fundo histórico a relação entre a agricultura familiar orgânica e as necessidades energéticas, em particular do contexto europeu. Normalmente, temos visto a demanda pela chamada transição energética, com o apoio dos governos à adoção das energias renováveis, em particular as de fonte solar. Esta transição energética é colocada como imperativa para que a humanidade consiga se livrar da dependência dos combustíveis fósseis, os maiores vilões do aquecimento global. A energia solar, com suas onipresentes placas voltaicas, é a “menina dos olhos” dos governos preocupados com o desenvolvimento “sustentável”. Mas o filme de Carla Simon traz complexidade a essa questão ao mostrar que o avanço das placas invade as terras dedicadas à agricultura orgânica. Trata-se, sobretudo, de uma disputa pela luz do sol, que é também a luz da vida. Ao misturar essa questão macroeconômica com a história íntima de uma família, a diretora catalã focaliza com sua câmera a imagem de um dilema planetário, conectando magistralmente o local e o global.  Alcarràs não é, portanto, um filme sobre o antagonismo entre tradição e modernidade. A família de Quimet não é a defensora tenaz das tradições locais catalãs; ela é ao mesmo tempo tradicional e moderna, a começar pelo fascínio pelas danças Tiktok, ou a defesa da autoprodução de maconha.

Alcarràs é então uma obra cinematográfica que se coloca no cerne de um grande problema planetário. Pois não se trata de um filme, como tantos outros, que mostra como as transformações tecnológicas impactam os modos de existência mais tradicionais, pois tanto a energia solar como a agricultura orgânica fazem parte de possíveis soluções para o enfrentamento contemporâneo do aquecimento global. É o próprio antagonismo entre tradição e modernidade que é questionado. A família de Quimet não é “tradicionalista”, no sentido de defensora dos velhos costumes. Ela é uma família contemporânea que deseja seguir adiante em seu modo de existência, que é maior do que apenas mais um modo de subsistência. O que o filme de Carla Simon aborda é justamente a beleza e a intensidade desse complexo desafio que atinge a todos os viventes e com o qual temos todos de lidar com nossos próprios meios.

 

 

Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor, doutor em Teoria Literária pela UERJ (2020). É autor de Capoeiragem (7Letras, 2013) e Extrema Lírica (Oito e Meio, 2014). É organizador do Clube da Leitura, coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro, atuante desde 2007 e foi editor das quatro coletâneas do Coletivo. É autor do blog Fabulação Especulativa e seus trabalhos acadêmicos podem ser visitados aqui.

 

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150ª Leva - 05/2022 Jogo de Cena

Jogo de Cena

Mostra a tua cara: o acerto de contas na peça Realpolitik

 Por Vivian Pizzinga

 

Cena de Realpolitik / Foto: divulgação

 

Pedro Osório e Oscar Calixto estrearam, em 9 de setembro de 2022, o espetáculo “Realpolitik”. O texto inédito é da premiada autora Daniela Pereira de Carvalho. A acertada direção é assinada por Marcello Gonçalves. A peça, apresentada em lugar inusitado, ficou em cartaz até 30 de outubro, e 30 de outubro de 2022 é 30 de outubro de 2022, mais autoexplicativa essa frase não pode ser. Assisti à peça nas vésperas do primeiro turno das eleições, é disso que se trata. Havia uma grande confusão nos gps dos táxis da cidade, pelo menos 4 deles, segundo informações colhidas, indicavam o endereço errado. Isso ocorreu não só comigo, na ida e na volta, como também com outras pessoas que, ao final, comentaram esses contratempos, na calçada em frente ao prédio da peça, na Presidente Vargas. Parece besteira, mas tudo isso faz parte daquilo que chamei de “rolê da peça”. Mas calma. Vamos aos poucos pra que a gente possa entender a importância do espetáculo, algumas de suas peculiares características e o excelente programa, pra quem gosta de dramaturgia, que Realpolitik certamente é.

Apontando o básico do enredo, sem dar spoiler, a trama diz respeito a um acerto de contas. Há um CEO que é o responsável pelo rompimento de uma barragem e pelas consequentes mortes de 150 pessoas (aquelas de que se tem notícia, pois em um acidente, qualquer acidente, nunca podemos afirmar o número de mortes com certeza, haja vista Chernobyl), sem contar todos os outros problemas que um tal acidente acarreta: problemas de ecossistema, de economia local, problemas sociais, enumerar é cansativo e gera tristeza. O jornalista que vai atrás do CEO adentra o escritório do ricaço, num prédio enorme de um centro comercial, e aí já começamos por uma característica interessante da peça: a produção se dá, ela também, em um prédio comercial que fica na esquina da avenida Presidente Vargas com a avenida Rio Branco, o principal entroncamento comercial do Rio, um ponto de muvuca, barulhos e fumaça que todo carioca depois de certa idade teve de enfrentar. Reproduz-se no real espaço onde se dá o espetáculo aquilo que é contexto e cenário do enredo. Fugindo, portanto, aos espaços cênicos tradicionais, assistimos à peça no 14º andar desse prédio, após subirmos elevadores espaçosos como não é tão costumeiro ver, mesmo em prédios como esse no centro do Rio. Lá de cima, enquanto aguardamos, podemos ver uma parte da confusão do centro se nos aproximarmos da janela: lá embaixo, desenrola-se um naco da confusa Rua Miguel Couto. Há também a exposição do artista plástico Victoriano Resende, por outro lado, que ocupa o espaço com uma exposição aberta ao público e que resultou numa intervenção no cenário da própria peça.

Outra curiosidade é que a peça, segundo Pedro Osório, foi escrita no decorrer da pandemia de Covid-19, essa que ainda não acabou de todo, e a ideia, segundo o ator, foi pensar “em como, após as grandes tragédias, os responsáveis pelas empresas tinham que lidar com as questões humanas, éticas, morais e financeiras”. Desse modo, é disso que se trata o acerto de contos em torno do qual o enredo gira, isto é, a peça que é um thriller, com seus momentos de tensão, de surpresa, de susto, com seus outros momentos de virada e de humor. Sempre algum humor é possível, nem que seja o escárnio comedido de si mesmo, no meio da dureza da vida e das histórias.

Todas as características mencionadas são uma maneira que reúne a oportunidade de que o público possa ter uma experiência além do teatro. Mas, em termos de teatro, naquilo que concerne ao tratamento dramatúrgico conferido à trama, estamos muito bem: Oscar Calixto e Pedro Osório estão ótimos, em preciosa direção de Marcello Gonçalves. Se eu pudesse fazer um adendo, como alguém que entende mais de texto (bem mais, muito mais, imensamente mais) do que de teatro, talvez a fala de Pedro Osório possa contar com palavras menos caracterizadas por sua forma escrita e mais próximas do oral e do coloquial. Mas isso seria o mais simples de ajustar, se fizer sentido ajustar alguma coisa. Pois, naquilo que me parece mais difícil, ou seja, no que tange aos ritmos e aos silêncios, algo que acho às vezes mais raro de encontrar nas peças que tive a chance de assistir, Pedro e Oscar estão perfeitos. Não ficamos com a incômoda sensação (que pode gerar uma falta de fôlego quando estamos assistindo) de que há um desespero para falar todo o texto antes que ele seja esquecido (a sensação pode não corresponder à intenção da velocidade na fala, nem mesmo à realidade, mas é essa a sensação que às vezes tenho quando estou ouvindo os atores e as atrizes em suas verborragias textuais, não só no teatro como também em séries, em especial as estadunidenses). Todos nós falamos de forma atropelada e pausada, a depender da circunstância, todos nós intercalamos ritmos e convicções, a prosódia é movida a algum cadência e raras vezes se assemelha a uma metralhadora giratória; todos nós falhamos na dicção, cometemos lapsos, isso é vida e é sujeito e é inconsciente e é afetação. Que possa ser reproduzido nos diálogos dos personagens, é fundamental, e isso acontece muito bem entre Henrique e Rafael, a dupla que duela no 14º andar de um edifício comercial. Porque uma das coisas que às vezes cansa esta espectadora que vos escreve (falo por mim) é a fala cuspida duma só vez em várias ocasiões de um espetáculo de teatro. Outra coisa que acrescento é que, quando houver erros de fala, erros reais, de fala do texto, que isso possa ser manejado de maneira que nós, da plateia, percebamos bem pouco, coisa frequente entre músicos. O improviso é também o do erro, do que fazer com ele. Se é que há uma coisa chamada erro.

Finalmente, para falar da importância da peça, basta remontar ao enredo sem spoiler que dei no começo. O fato de falarmos de um CEO que pouco se importa com as mortes causadas e com os problemas de bioma que uma barragem e sua ruptura ocasionam, o fato de mencionarmos capitalismo, exploração da força de trabalho, de populações inteiras maltratadas, de responsabilização, o fato de tudo isso ser debatido, tematizado, explicitado, já nos acena para a importância da peça e do acerto de seu contexto, temporal e geográfico. Estivemos às vésperas de escolher o rumo do Brasil, estivemos no entreato. Ora bolas, Realpolitik fala disso, e o esforço, a luta, o embate visam a muito além de momentos eleitorais. O fascismo está em vias de capturar o Brasil como tem capturado a Itália. O que todas e todos nós, dentro de nossos interesses, capacidades, talentos e oportunidades, temos a fazer para impedir esse avanço? Realpolitik faz sua parte. Daniela Pereira de Carvalho, Oscar Calixto, Pedro Osório, e Marcello Gonçalves têm feito, no Rio de Janeiro, sua parte. E a têm feito lindamente, diga-se de passagem. E nós?

 

Vivian Pizzinga é escritora e psicanalista. Lançou “Ruído nos Dentes” (Urutau, 2022, poemas), “A primavera entra pelos pés” e “Dias roucos e vontades absurdas” (Oito e meio, 2015, 2013, contos), além do romance epistolar “Extravios” (Oito e meio, 2018) em co-autoria com Igor Dias. Tem doutorado em Saúde Coletiva, gosta de gatos e prefere o outono.