Desenho: Victor H. Azevedo

Uma centena é muito mais do que um mero marco numérico. Em se tratando de caminhos editoriais, significa um avançar teimoso ante as curvas do tempo. Há quem resuma esse conjunto de ações que agregam literatura e artes como sendo uma prova irrefutável de resistência. Tal atributo é positivo na medida em que a valorização do presente seja a tônica central das considerações. A revista Diversos Afins tem passado, tenciona um futuro, mas volta seus olhos especialmente para o agora, pois este representa a confirmação de apostas e expectativas múltiplas. É difícil mensurar com precisão como um projeto dessa monta pode vir a se consolidar. Quem vasculhar nossa história perceberá quão diferente estamos hoje para aquela primeira Leva de escritos e expressões. O ano era 2006 e tudo começava de modo bastante incipiente, quiçá até pueril. Mas o fato de maior relevância é saber que não havia um produto fechado em nossas mãos. Quando se fala em desengavetar expressões, não se pretende apenas idealizar colaborações, mostrá-las ao mundo, mas, sobretudo, aprender com elas. O caminho de publicações até aqui trilhado mostra um permanente desejo de seguir adiante por meio do experimentar de novos saberes e sabores. Não há verdades hegemônicas, apenas um processo de intercâmbio de manifestações através das quais se constrói uma valiosa rede de encontros. Cada autor traz em si sua própria epifania, maneira particular de vislumbrar o mundo. Com isso, opera-se um vasto painel de sensações e leituras, todas elas estabelecendo sinais espontâneos de convergência. É quase impossível definir o quanto todo o numeroso contingente de colaboradores impactou o perfil da revista. Diga-se de passagem, entendemos que pomos em prática um projeto em permanente construção. Portanto, nada está esgotado em si, pois é sempre tempo de olhar ao redor. Ao longo de todas as edições, presenciamos também outras tantas investidas editoriais que nos auxiliaram no entendimento do nosso papel enquanto suporte cultural. A via digital rompeu barreiras e aproximou-nos de pessoas dos mais diferentes lugares do mundo, todas elas com sua importância peculiar. Para nós, está claro que avançar é preciso. O atual momento de celebração contempla a poética presente nas fotografias de Gabriel Rastelli Quintão. Deparamo-nos com os arremates narrativos de Marcus Vinícius Rodrigues, Natália Borges Polesso e Sérgio Tavares, especialmente selecionados para a ocasião. No território da poesia, emanam os fluxos líricos de gente como Wesley Peres, Demetrios Galvão, Adriano Scandolara, Francisco S. Hill e José Carlos Sant Anna. Com o olhar sensível sobre o mundo e a vida, a poeta Neuzamaria Kerner concede-nos uma entrevista, na qual aborda principalmente as energias emanadas do seu mais recente livro. São de Larissa Mendes as percepções a cerca de “1977”, novo disco do cantor e compositor Wado. O escritor Marcos Pasche chama-nos atenção para obras de quatro autores contemporâneos: Maíra Ferreira, Juliano Carrupt do Nascimento, Leandro Jardim e Anderson Fonseca. O novo filme dos irmãos Dardenne é tema das anotações de Guilherme Preger. Fabrício Brandão ousa penetrar nas veredas do mais recente livro de Dênisson Padilha Filho. É tempo de centésima jornada, caros leitores! Celebrem conosco!
Os Leveiros
Natália Borges Polesso

Clichê
Comprei uma caixa de morangos no supermercado. Comprei uma caixa de amoras também. E duas cervejas. Cheguei em casa, guardei as frutas na geladeira e bebi as duas cervejas. Às vezes penso se não é por vergonha que também compro as frutas.
No outro dia, depois de jejum forçado por gastrite conjugal e falta de apetite, por obrigação, peguei os morangos. Precisava comer algo saudável, algo que me alegrasse o estômago, o paladar e a alma. Puxei o invólucro de plástico da bandejinha também de plástico. Quanto plástico, pensei. Nem sei mais o gosto do morango ainda sujo de terra, de mijo de cachorro, do que fosse, só conheço o gosto das coisas plásticas. Quando terminei de abrir a bandeja, olhei os morangos ali tão vermelhos, pareciam ter asfixiado, estavam mofados. Era uma merda de um clichê intelectualoide sobre minha mesa. Um fracasso de prateleira e um sucesso de estante. Sobre a mesa, dois cotovelos encardidos, dois braços bronzeados, duas mãos ostentando dedos de unhas vermelhas apoiando uma cabeça pesada, cheia de mofo também, como os morangos. Como os morangos, soco goela abaixo, como prêmio de consolação. Penso nas coisas incompletas ou mal cuidadas. Um após o outro, os morangos. Uma após as outras, as coisas. Minhas unhas tão suculentas, bem mais vermelhas e eufóricas que aqueles morangos. Como as unhas também? Como a raiva? A audácia? A inércia? A própria pele? O próprio desagrado?
É tempo de pensar o irreal. Comprei uma caixa para caber tudo o que fosse falso. Comecei pelos desencontros e todos os diamantes que guardava no cofre. Arrastei tudo com a mão, joguei tudo para dentro. Depois foi a vez da cabeça, em repetidos movimentos, para cima e para baixo. Em seguidos consentimentos, sim, sim, sim. Tudo caía, se desprendia sem esforço. Pensei se em algum momento aquilo tudo teria feito parte de mim. Transbordava a caixa. Eu ficando vazia. Grandes lacunas entre todas as afirmações, sim sim sim. Pequenas ilhas de certeza boiando num vácuo oceânico de hesitações. Quando terminei, encarei os morangos. Eram angústias reais.
Lembrei de um saco onde eu guardava medalhas, cartas, mechas de cabelo, desenhos e instruções. Minha mãe jogou fora, sem o meu consentimento, há muito tempo. Pensou que aquelas coisas não tinham valor. Hoje eu não sei dizer se tinham, elas não fazem diferença. Talvez elas pudessem preencher as lacunas em mim. Mas eu não sei, nem vou saber. É melhor ocupá-las com outra coisa, como morangos ou unhas vermelhas. Ou ainda com grandes clichês. Uma estante cheia de papel saturado de palavras, grandes nomes, grandes clássicos, pequenas dores. Pequenas epifanias.
Lembrei dela, não sei se era um arremedo de ideia ou um arremedo dela? Estava tão magra e espinhenta. É inevitável, tu és a minha pequena epifania, aquilo que me faz descobrir mais em mim – não havia muito a ser descoberto – mais do que eu gosto e mais do que eu desaprovo em mim mesma. Tu és minha pele, meu conforto, meu conto favorito. As memórias soterradas pelo vazio de agora tinham um gosto distante. Pareciam novidades, descobertas, as velhas coisas que a paixão ou o engano fazem, distorcem, e faziam sentir os arrepios do primeiro beijo roubado – talvez não seja um arrepio, mas sim um mau pressentimento –, e a dor do último tapa – que não foi o último, posto que ainda houve tanta agressão/violência.
Lembrei de uma chinelada que levei da minha avó. Com cinco anos de idade eu resolvi ir embora de casa. Arrumei uma mochila com roupas velhas, viveria na rua, logo, na minha cabeça infantil, só poderia usar roupas rotas. Quando ia atravessando a quinta rua, levei um puxão de orelha e uma chinelada. Minha avó me agredia com todo aquele amor ressentido. Tapas e choro contidos e nunca mais faça isso. Gradearam a casa, dali em diante eu só brincava no pátio com portão trancado e sob o olhar magoado da minha avó. Ontem foi aniversário dela, liguei.
Lembrei dos meus irmãos que já não eram os mesmos. Uma vez brincávamos num montinho de areia, numa construção ao lado de casa. Enterrados até os joelhos na areia, ríamos sem nos dar conta do quão rápido cresceríamos e perderíamos a vontade de brincar assim. E teríamos nojo de areia em construções. Somos tão diferentes apesar da mesma cara borges-polesso.
Eu queria alargar as lacunas ainda mais, balancei a cabeça novamente. Erosão de lembranças, as distâncias mais simbólicas, as memórias menos tenazes, quase nas imediações do mito. Lembrei. Lembrei. Lembrei de algo que não era mais meu. Lembrei do gosto da tua boca depois de comer os morangos mofados.
Natalia Borges Polesso é escritora, professora e doutoranda em Teoria da Literatura na PUCRS. É autora de “Coração a corda” (2015) e “Recortes para álbum de fotografia sem gente”, obra vencedora do Prêmio Açorianos (2013) na categoria contos, e também da tirinha tosca “A Escritora Incompreendida”, publicada via facebook.
Demetrios Galvão

palavra-mágica
quando os pés adoecem
e esquecem os caminhos
o corpo precisa inventar voos.
os peixes nadam na profundidade da costela direita
na obscuridade do entre-ossos
migrando para o aconchego do litoral carnudo.
……..(a língua quando bem plantada
……..atinge veios profundos
……..manancial voluptuoso de fabulações)
busco então, a sobrenatural beleza:
as ancas africanas, a envergadura monárquica,
a anatomia incendiária.
me visto de asas e de lâmpadas
e vou ao teu encontro
com uma palavra-mágica adornando os olhos.
***
pescaria noturna
embarca tua forma épica
……..– delgadas linhas-curvas de alumbramento.
……..era de gozo que teu olho escorria
……..o perfume do primeiro encontro aniversariando
……..eram as terras novas: anônimas: sendo conquistadas.
……..nossa pescaria na madrugada
……..e o alimento festivo armazenado por anos na memória.
……..o tecido-de-peixes nos fez cardume na fileira dos meses,
……..nos fez náufragos de carnes unidas.
infante, tu me aprisionou no baralho como carta-salva-vidas.
tuas armas são atalhos úmidos
teu vocabulário: indomável:
…………………..revolta de mar solto.
o que se escreve do teu corpo não tem nome:
…………………………..esôfago de veludo
…………………………..onde me dissipo por tuas cavernas-entranhas.
……..se usasse brincos eles seriam satélites
……..rodopiando em volta de tua existência celeste.
teu peito-abajur vibra uma luz rara:
……………………cor de céu medular.
teu riso é vitral bizantino flamejante
……………………na arquitetura dos gestos translúcidos.
………………– ainda te guardo nos dedos daquele dia –
***
o silêncio, o barulho
ao som de philip long
o silêncio do sono é trabalho de imagens profundas.
o barulho das ruas são palavras praticando o alfabeto.
o silêncio da menina lara é uma ideia danada sendo gestada.
a cor do sol faz um barulho que arde na pele.
quando o violão toca, estremece o silêncio que vive dentro do peito.
o barulho é bom quando feito com amor.
o silêncio das fotografias traz um passado que, às vezes, amansa a alma.
o ronronado da hilda é um barulhinho que traz felicidades.
o silêncio de um olhar perdido ecoa na orelha do espectador.
o barulho é gostoso quando estala no rosto.
o silêncio do escuro é um segredo em absoluto.
o barulho do alfaiate é roupa nova no armário.
o barulho do menino assis é
o silêncio que vazou da barriga da mãe.
***
esticar o mundo
ainda é possível esticar o mundo com a palavra poética
se aliando ao balé das arraias
aos porteiros que abrem os caminhos do mundo
às armas de misericórdia dos infames
aos livreiros da diáspora
às mercearias que sediam confrarias fugazes
aos tuaregues mensageiros dos ventos-suburbanos
aos engenhos e cachaças mágicas
aos taxistas sobrenaturais que detêm a arte dos atalhos
ao cinema do oriente abandonado
às musas que habitam os labirintos da memória
aos andaimes dos cemitérios da carne
aos carteiros que espalham pontes silenciosas
às chuvas que inventam estradas aquáticas
aos jardineiros que curam e fazem partos nos canteiros
aos gatos que amaciam os recantos da cidade
aos pintores alados que enfeitam os muros
aos bem-te-vis arquitetos do assovio
às crianças que dominam gramáticas horizontais
… é possível esticar o mundo.
***
para uma criatura encantada vol. 5
era cedinho quando inaugurou existência cremosa
fez apostas e arremessou expectativas
gastou verbo edificando mansidão
……..– seu perfume é como o som perdido que enche a casa.
é de uma timidez imperial
carrega um mapa de 2 pintores – encontro difícil de avaliar
sabe um pouco sobre receitas, vive pela cozinha entre temperos
……..– seu mundo é vocabulário em aprendizagem.
não manipula números, mas inventa sorrisos particulares
desde muito cedo aprendeu a domesticar cactos
provinciano é seu esconderijo infantil: o casulo mimético
……..– seu rosto é lua-cheia-de-poesia.
não tem tias ou avós, pertence a uma família incomum
do pai, herdou os sons graves e, da mãe, o gosto pelo efêmero:
são gestos refinados e aconchegantes
……..– sua herança é um limiar tênue na percepção.
é sempre mais afável pela manhã
momento em que enterra segredos em cofres vigiados por bromélias
e ensaia uma virgindade aristocrática sem tradução
……..– sua beleza é violência estalando pelas praças luminosas.
em seu canto arrebata o sentimento das palavras e lança:
………………………………….a felicidade é uma invenção macia.
***
para uma criatura encantada vol. 7
não viveu na companhia de uma única pessoa
tinha uma movimentação instável.
seus meridianos quase sempre desalinhados
não favoreciam um mapa astral seguro, solar.
de personalidade selvagem, demonstrava uma simpatia sussurrada
frequentou uma escola nômade-heterodoxa
colecionava sermões do sub-mundo e liturgias marginais
quase nunca tinha bagagem e nem falava de sua família.
só teve lares de fantasia e uma casa que existia em sonho,
que lhe visitava com frequência, aquecendo sua esperança.
exibia um olhar ansioso e uma tristeza erosiva
se gabava das cicatrizes eloquentes.
em conversas, pronunciava sons graves, dissonantes.
nem sempre tinha razão
sabia quase nada de poesia, era displicente com as palavras
não se interessava pelas intimidades desbotadas dos outros
vivia a ambiguidade de um passado caótico e de um presente incerto.
foi a festas que tocavam david bowie, lou reed e se embriagou
sua gentileza insólita era uma marca latente
carregava um fogo indolente como amuleto protetor
nunca foi a um médico. tratava suas dores com solidão-analgésico.
antes de desaparecer, comentou que a saudade é
………………………………….privilégio dos que amam.
Demetrios Galvão é habitante da província de Teresina (PI), historiador e poeta. Publicou os livros Cavalo de Tróia (2001), Fractais Semióticos (2005), Insólito (2011) e Bifurcações (2014). Participou do coletivo poético Academia Onírica e foi um dos editores do blog Poesia Tarja Preta (2010-2012) e da AO-Revista (2011-2012). Tem poemas publicados em diversos portais e revistas. Atualmente é um dos editores da revista Acrobata.
Por Larissa Mendes
WADO – 1977
“O norte sem norte: o não se repetir”. É sob esta bússola errante que o release do oitavo álbum de Oswaldo Schlikmann Filho – que atende pela alcunha de Wado – nos é apresentado. Celebrando 10 anos de carreira, o compositor catarinense radicado em Maceió desde criança, já transitou com desenvoltura pelo samba, rock e vertentes da MPB. Com uma discografia composta por títulos sugestivos, vide O Manifesto da Arte Periférica (2001), Cinema Auditivo (2002), A Farsa do Samba Nublado (2004), Terceiro Mundo Festivo (2008), Atlântico Negro (2009), Samba 808 (2011) e Vazio Tropical (2013), dessa vez o músico optou por batizar o álbum com seu ano de nascimento: 1977. Wado assina a produção das 10 faixas do disco, que conta mais uma vez com a participação de convidados/amigos de todos os cantos: Uruguai, Portugal, Argentina e Brasil, garantindo uma latinidade peculiar. Lançado sem alarde no início de março e disponível em streaming no YouTube, o álbum possui download gratuito no site do artista e o formato físico tem distribuição pela gravadora Deckdisc.

Lar, primeiro single de 1977, abre o álbum com o peso de guitarras, sintetizadores e um refrão vibrante que brada: “eu era seu lar/era em mim que você costumava morar!”. Cadafalso (pelo cadafalso/ando descalço/à beira do salto/de cada falso amor) – composição de Wado e Marcelo Frota que nomeia o disco de Momo, de 2013, – traz a participação de Lucas Silveira (Fresno), desta vez numa versão menos intimista que a original. A ensolarada Deita – que dá vontade mesmo é de levantar e sair cantarolando –, dueto com o músico português Samuel Úria, flerta com o pop e aborda algumas [in]utilidades da vida, num dos momentos mais aprazíveis do álbum. Na nostálgica Galo (é raso, mas não tem como alcançar/é profundo e sem abismo/quantos becos têm saída/o galo cantou tarde demais/eu desprezo pontos de vista/eu descarto ideais), Wado divide o microfone com a mexicana Graciela Maria – que lembra muito a voz de Julieta Venegas. Mais miscigenada ainda, Condensa, reveza nos vocais o alagoano João Paulo (Mopho), o português Martim e a argentina Belen Natali.
O segundo bloco da obra inicia com a [contraditoriamente] dócil Mundo Hostil (é nesse mundo hostil que eu moro/é nesse mundo hostil que estou/ah, eu já não moro/ah, eu já não estou), em nova parceria com o uruguaio Gonzalo Deniz, que já dividiu os vocais com Wado em Carne, de Vazio Tropical. A grandiloquente Menino Velho aborda “a metade inteira, o nada enquadrar e o nada pertencer” da geração de 1977 e afins. A bateria eletrônica e os sintetizadores de Sombras contrastam com a poética Palavra Escondida (qual a palavra escondida/embaixo da língua/em que suicida/deixou de saltar/qual dos dois é a medida/o amor ou a sorte/um beijo da morte/te perdi no altar), bela composição dividida com Zeca Baleiro. A versão de Um Lindo Dia de Sol (se você encontrar/alguém perfeito eu vou rezar/vou ficar, vou morrer) – canção da banda Mopho – encerra a obra com uma aura instrumental de Beirut e um sopro de saga.
Assim como uma bússola sem ponteiro, Wado parece transpor gêneros a sua poesia. Se Vazio Tropical era intimista e delicado, 1977 tem uma verve rock, porém é multifacetado como o próprio passar do tempo. Aliás, durante os 27 minutos de audição fica evidente que as raízes roqueiras tradicionais vão se dissipando e apontando para um universo musical atemporal. Mais uma vez o músico rompe fronteiras linguísticas e imprime um trabalho de qualidade indiscutível: sua Rosa dos Ventos está pronta para nos guiar entres pontos poéticos, sonoros e sensoriais.
Larissa Mendes é uma velha menina, conterrânea do mesmo mundo hostil de Wado.
F. S. Hill

Às vezes,
quando os cotovelos apontam em direcções
opostas,
impelidos pela força de um espreguiçar,
gostava que as minhas costelas se abrissem
e a carne se rasgasse
e eu, feito petroleiro,
a derramar-me pelo ar.
***
poema em forma simples como um quadrado
poema em forma simples como um triângulo
poema em forma simples como
a dor que trago no sapato
que é novo
não de hoje
tem semanas
mas andou pouco
andar é simples
quando não se tem um pé quadrado
ou um sapato em forma de triângulo.
***
todos os silêncios caminham para
o abismo sentimental e eu que sou
morte permaneço apenas
pesado pelas ideias que constroem
de mim
em mim
a carne torna-se pedra
o tempo perda
crescem-me vazios nos olhos
e sombra no estômago
e eu que sou morte
duas vezes
não distingo as coisas das outras coisas
e as coisas do que não são
fico
quieto
seguro
da infinitude
***
Os dedos pousados sobre o dorso da loucura.
Memória do elefantário plantada à janela.
Mil vezes matei a criança que me urticava.
Cresci velho.
Segui o lado de dentro do caminho.
Desenhei cavernas em redor
e esfreguei o sexo para manter o fogo.
Ficcionei-me.
Deus abandonou-me.
Eu agradecido, fiz-me maior.
***
Hoje sonhei com a tua boca.
Sonhei que ela era uma casa,
onde víviamos nus e mudos.
As paredes cobertas de palavras
escritas por nós, com as unhas.
Todas as palavras de que precisaríamos
até ao fim da tarde.
Era uma casa húmida
como todas as casas onde a vida acontece.
Havia uma simplicidade branca no sentir.
Tu beijavas-me as mãos pousadas
no teu olhar.
Eu desenhava silêncios na tua pele.
E estremecíamos a cada brisa irregular.
Não pares, não agora.
FS Hill (Portugal) – Com formação superior em Teatro, decidiu, em 2011, dedicar-se à escrita poética, para tal abriu um laboratório poético online, através da rede social Facebook, onde a escrita e respectiva publicação do seu trabalho, numa perspectiva de experimentação, permitiram um diálogo direto com o público. No início de 2014, viu o seu primeiro e único livro – “Livro das Coisas Breves” – ser publicado pela editora MEDULA, de Coimbra. Tem publicado nas revistas Flanzine e Nicotina Zine e participa, em 2015, de dois livros coletivos: 70 poemas para Adorno e Mitoblina. Em 2014, foi um dos autores do POEMANIFESTO da editora Flan de Tal.
Sérgio Tavares

A fuga
O menino foi antes. Fazia uma semana. Agora era a vez dos pais prepararem-se para a fuga. A mãe foi a primeira a aprontar a mala. Sentada no sofá da sala atravessada pela penumbra das cortinas cerradas, ouve os passos do marido num vaivém acelerado do escritório à cozinha. Arrasta objetos, joga-os no chão, rasga papéis. Dá vida a um descontrole que não a alcança. Ela apenas ouve.
Então o cheiro adocicado de fumaça recende pela casa. Logo o ambiente fechado é preenchido por uma massa nebulosa. A mãe se levanta e dirige-se até a soleira da cozinha. Vê o marido intranquilo, queimando, na boca do fogão, documentos, fotografias, relatórios mimeografados e páginas do manual de guerrilha e de jornais clandestinos. Em volta dele, a porção de vapor é mais densa. Como se ao incinerar o passado, incinerasse também a si.
A imagem lhe resgata a memória de uma canção antiga. Passa um tempo olhando-o, enquanto a letra flui remansosamente em sua cabeça. O marido não a percebe em momento algum. Focado em não deixar vestígios e tampouco ser flagrado na janela, embora coberta há dias. A mãe se cansa e retorna ao sofá. O corpo já não é mais o mesmo com o chumbo sobre os ombros. Toca na mala aos seus pés, abastecida com mudas de roupa, cartas do irmão, passaporte falso, livros de poesia e um álbum de retratos do filho. Sente vontade de pegá-lo, mas sabe que mexer no interior pode gerar um contratempo, e precisam partir o mais breve. Fugir e reencontrar o menino.
A cozinha ainda despeja fumaça e cacofonia. Não será agora, aparentemente. Põe-se de pé outra vez e caminha até o quarto do filho. Afasta a porta. Está do jeito que ele deixou, uma desordem encantadora. A cama desfeita, gavetas expostas. Uma passeata de brinquedos pelo tapete. O menino não pôde levar nenhum deles, imagina que deve sentir falta. Agacha-se e pega um soldadinho de plástico. Enfia no bolso de trás da calça jeans. Passa somente a observar. A ausência. Um quarto infantil sem uma criança é a reificação da saudade.
Quando volta à sala, o marido está de cócoras diante de uma mala aberta. O olhar inquieto denuncia o desgoverno sobre os gestos, quase um rompante. Vai atulhando roupas, sapatos, cintos, livros de economia e de história do Brasil, passaporte falso, um revólver automático, cartuchos e uma fita magnética de rolo. Transpira excessivamente, o linho da camisa se emplastra no tórax. Ela o observa, não trocam palavras. Ele fecha a mala. Ato contínuo, dispara até a estante e pega uma folha de papel e caneta. Debruça-se sobre a mesinha de centro e começa a manuscrever uma relação com nomes de empresários, diretores de agências de publicidade e de jornais que apoiam o regime. Patrocinadores de prisões arbitrárias, de torturas, de desaparecimentos. Produzir, com o próprio punho, a lista é seu último ato de resistência.
Termina e deixa a folha explícita sobre o tampo. Pega a mala, a esposa faz o mesmo. Caminham agora juntos até a saída dos fundos. Com cautela extrema, destranca a porta e abre uma ínfima brecha. O ar fresco os atinge. A mão na maçaneta treme. Sabe que não podem se precipitar ou irão cair. O ponto não é mais seguro. Eles estão lá fora, à espreita, os agentes disfarçados. O sujeito de ray-ban tomando café no balcão da padaria. Aquele outro de perfil, a cabeça encoberta pelo capacete do orelhão. Encostado na lateral da kombi, de mangas de camisa. Atrás da face externa do portão. Ao redor dos muros baixos da casa. Quantos eles são? Não deve perder o foco, assim versa o manual. Tem de proteger a esposa, a companheira.
Mete os dedos pela bainha da camisa e segura o cabo da arma presa ao cinto. Encosta o ombro na madeira da porta, olha para a esposa, assente e dá um tranco seco. A abertura é sucedida por uma escapada pela garagem, até a traseira do cupê Uirapuru azul-ferrete. Abre o porta-bagagem e joga as malas. Mantendo o ritmo frenético, separam-se pelas laterais e embarcam nos assentos dianteiros.
Os vidros fechados logo condenam a cabine ao gás tóxico de suas respirações. O medo, a aflição, a possibilidade de um ataque a tiros. Precisam sair dali o quanto antes, precisam da chave. O pai vasculha os bolsos com agressividade, até que encontra o pequeno estojo. Ali está, a chave para que possam finalmente fugir. Ele retira a tampa e exibe as cápsulas de cianureto. Ele pega uma, a esposa fica com a outra. Colocam delicadamente entre o vão dos molares. Entreolham-se, por alguns segundos. Em seguida abraçam-se e as mastigam.
Os corpos entram em convulsão, dirigidos pelo veneno. A boca aflora em espuma, os olhos reviram. Passam a enxergar o mundo interior, onde a mãe vê o menino e o marido. Estão na praça, jogando futebol sobre a grama. É um domingo. Eles não deviam se expor assim, mas uma criança precisa de diversão, mesmo em tempos sombrosos. Então a bola corre para além do gradil de proteção. O menino dispara atrás. A praça está à margem de uma autopista, a bola corre para lá. O menino não se detém. Os carros zunem.
A mãe berra e corre. O pai berra e corre. A bola corre. O menino não se detém. O caminhão não se detém. Porém, desta vez, o motorista consegue desviar a tempo e o menino salva a bola. O pai estanca e serena. A mãe o ultrapassa e choca-se contra o corpo frágil da criança. Segura-a, beija-a, chora. Tem contra si, para sempre, o filho que é seu. O filho, para sempre, envolto em si. A morte não é uma luta, é um abraço.
Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Tem textos publicados em jornais, revistas e sites literários nacionais e internacionais. “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012), sua obra mais recente, foi finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura.