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100ª Leva - 03/2015 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Dois dias, uma noite. França/Bélgica/Itália. 2014.

 

Dois dias, uma noite

 

Dois dias, uma noite, dos diretores belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne, conta a história de Sandra (vivida pela atriz Marion Cotillard), trabalhadora de um negócio fabril numa pequena cidade da Bélgica, que ao retornar de uma licença médica devida a um problema de depressão, de origem desconhecida, descobre que seus colegas de trabalho votaram pelo seu afastamento definitivo, em troca de trabalhar um pouco mais e receber um bônus de mil euros.   Sabendo que a votação teria sido aberta e que seus colegas foram pressionados pelo gerente, Sandra convence seu empregador a ter mais uma chance com uma nova votação, dessa vez secreta. Assim, ela teria um fim de semana para convencê-los a abrir mão do bônus e obter seu emprego de volta.

Com esta trama simples, como em geral ocorre em seus filmes, os irmãos Dardenne, como são conhecidos, alcançaram uma imediata empatia com o público. Dois dias, uma noite já é o maior sucesso comercial da dupla, com muitos méritos. Seguindo a habitual “câmera na mão” dos diretores, sempre focada na corporeidade de seus atores, os espectadores acompanhamos como num filme de suspense a trajetória de fôlego de Sandra, indo de casa em casa para, face a face com seus colegas, mostrar que já está disposta novamente e que precisa do emprego para garantir o ganha-pão de sua família. O problema é que seus colegas também precisam do dinheiro e se mostram pouco inclinados a abrir mão dele. Na verdade, além de uma suposta solidariedade de classe ou simplesmente de um sentimento de fraternidade, há poucas razões para que abram mão de seu bônus. Afinal, trabalharam alguns meses com um colega a menos e a rotina do trabalho não teria mudado muito, mostrando que a presença de Sandra talvez fosse supérflua…

Na atmosfera crua e fria, sem ornamentos estilísticos e estéticos (que lembra muito, em sua sobriedade os filmes da maior referência dos diretores, o cineasta Robert Bresson, sem, no entanto, o fundo metafísico e religioso deste), somos levados a acompanhar tensos diálogos nos quais os personagens apresentam suas razões de conduta e escolha. A personagem de Sandra está presente em todos os diálogos, inclusive aqueles com seu marido, cujo apoio parece estar muitas vezes no limite da pressão para que ela recupere seu posto. Sandra só pode contar com seu próprio corpo e com suas palavras para defender seu argumento e a sua verdade.

Como muitos de seus filmes anteriores, somos confrontados no cinema a cada diálogo com um dilema ético que muitas vezes parece insolúvel, pois as razões dos personagens são ancoradas em suas necessidades concretas e limitam suas decisões. A obra dos irmãos Dardenne aborda como poucas na contemporaneidade a crise de ética do mundo do trabalho nesses últimos tempos de avanço e crise neoliberais. Os diretores, aliás, começaram sua carreira cinematográfica justamente fazendo documentários sobre a classe trabalhadora belga e a precarização das relações trabalhistas.

 

Marion Cotillard na pele de Sandra / Foto: divulgação

 

A este respeito, é importante observar que, apesar de ter sido aclamado pela crítica em muitos países, o filme dos irmãos Dardenne também recebeu algumas críticas sobre supostas inverossimilhanças do roteiro. Uma das críticas, por exemplo, destacou que em vários países (inclusive no Brasil) há leis que protegem trabalhadores nas condições vulneráveis em que Sandra se acha em função de seu problema psíquico e de sua licença. Outra análise, que justamente partiu de uma abordagem socialista do movimento dos trabalhadores, critica os diretores pelo fato de terem reduzido uma questão política e trabalhista numa questão da ordem ética e moral. Por que afinal Sandra, em vez de se humilhar à frente de seus colegas para recuperar seu posto, não acionou os sindicatos contra seus patrões, que provavelmente perderiam uma ação trabalhista? Por que afinal não resolver seu drama politicamente?

As críticas são pertinentes, mas em defesa da opção dos diretores, é importante destacar que a estrutura narrativa do filme, apresentada como uma parábola alegórica, não estava interessada em compor um retrato realista da sociedade trabalhadora belga (apesar do filme ser livremente baseado numa história real, lida pelos diretores numa matéria de jornal), mas de compor um microcosmo ficcional  despido de referências contextuais e mesmo despido de transcendência para concentrar sua objetiva no fim de semana de uma trabalhadora que poderia ser belga ou não. E com esta escolha, se o filme perdeu em contextualização, ganhou em universalidade, transformando a travessia de Sandra numa pequena odisseia da época do capitalismo terminal.

Pois o universo que os diretores abordam em toda sua obra é justamente o de um mundo do trabalho que perdeu suas referências de luta histórica e suas bases de legitimidade para retornar a um extremo modo de exploração do corpo e da psique dos trabalhadores. Em Rosetta (1999), por exemplo, filme que recebeu a Palma de Ouro em Cannes, acompanhamos a luta de uma adolescente para conseguir seu emprego além de toda moral e a um ponto de sua desumanização. Curiosamente, a repercussão deste filme ajudou a mudar a legislação trabalhista na Bélgica relativa à contratação de menores. Neste caso, portanto, a dissonância do filme com relação à realidade ajudou a transformar esta última.

Em Dois dias, uma noite acompanhamos e torcemos para que Sandra recupere seu emprego e nos angustiamos junto com ela em sua jornada pelo fim de semana. No entanto, mesmo que não saibamos o resultado de seus esforços, paira desde sempre, na personagem e nos espectadores, uma suspeita de que sua batalha já esteja perdida. Afinal, a própria situação já é uma derrota. Que o destino de um colega de trabalho seja decidido numa votação por seus outros colegas, que o sistema coloque uns contra outros (poupando o peso da decisão a seus patrões), que o uso de um instrumento democrático seja utilizado contra os próprios trabalhadores, é sinal de que o sistema já ganhou a batalha, de que a solidariedade já não seja o sustento das relações e de que cada um esteja entregue à própria sorte. Sandra se encontra só num mundo do trabalho esfacelado e a ela só resta, após acordar de um longo sono (a primeira cena do filme é justamente a de seu despertar), fazer a “boa luta”. Pois é na boa luta que ética e política afinal se encontram.

Finalmente, neste filme é preciso louvar o excepcional trabalho cênico de Marion Cotillard. Os irmãos Dardenne são conhecidos por preferirem atores desconhecidos ou mesmo não atores. Sua escolha por Marion como protagonista se deveu ao reconhecimento de seu trabalho no filme Ferrugem e Osso de Jacques Audiard, filme do qual foram produtores.  Em sua compostura física, em seu rosto cruamente melancólico, não sentimental, com suas roupas despojadas e em seu andar entre recuos e avanços, a atriz carrega as angústias da personagem e de nós espectadores. O realismo do filme está nesta vivência compartilhada por muitos do trabalho como uma luta contra a depressão, contra o empobrecimento das relações e contra o egoísmo de um mundo no qual estamos jogados.

 

 

Guilherme Preger é engenheiro e escritor, autor de “Capoeiragem” (Ed. 7Letras) e “Extrema Lírica” (Editora Oito e Meio) e também organizador do Clube da Leitura da Baratos da Ribeiro no Rio de Janeiro.

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100ª Leva - 03/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética V

José Carlos Sant Anna

 

Gabriel Rastelli Quintão
Foto: Gabriel Rastelli Quintão

 

 

Descabido no orvalho, penso diferente
do que sonho porque o inefável me acena
palavras que me fazem tão leve, por acaso
mais leve do que claro, sem que firam o ser
ou o corpo que contraio. Logo, não me aferro
ao sonho, ao amor da existência que me
fere a pele, que aguça a minha sede, aflige
o meu sono e me abandona às margens
dessa vida em que me diluo sem saber
se o que estava em mim me subjugava
ao nada ou é o excesso que se move como
um rio ou é uma febre que só a si mesma
se compara, movendo-se dentro de mim,
distendida, como se fosse um par de asas.

 

 

 

***

 

 

 

Qualquer dia que me cale fundo,
…….paciente,
seguirei o teu chamado

Será um mergulho por esplanadas
e um livre entender
…..das ondas de dentro
……..no curso de um rio que se pressente…

 

 

 
***

 

 

 
tudo o que ela queria
era um flash,
um instantâneo
nada, nada mais que isto,
ou talvez, quem sabe,
tudo isto.

epígrafes nas páginas ímpares,
escritas ao léu,
filmes
gibis
baralhos
tarôs
bricolagens
ou imagens bruscas do Aleph de Borges
ou um bouquet de Simone de Beauvoir
no café da manhã

e o coração bumerangue
não estaria nem aí
para a histeria de Freud com pane
no seu imaginário

ou para as linhas tortas do império romano
sem as agruras de César
e, mesmo assim, para um Balzac caricato
o que ela faria do seu diploma
de anjos radioativos,

se o levassem a um cruzeiro
em mar constelado
cheio de metáforas de incertezas?

o que seria da maquete
de frutas silvestres adornando o salão de arte?

o desvario do seu idioleto é
a estupefação da sua poesia

Ah! e como ela oscila nos lapsos
da reinvenção da palavra.

 

 

 
***

 

 

 
Meus olhos compassivos andam postos,
Em minucioso silêncio e vínculo perfeito,
Sobre um horizonte de estrelas tatuadas
Que alumbram o signo traçado do mundo
E soletram palavras para a mão da noite
Que repousa sobre o dorso de uma lua
Prata, pasmada em céu aberto, a revelar
Uma alegria imensa a correr por suas veias,
Como a urgência de um rio, venturoso,
Liberto do jugo incerto, sem temer
As ribanceiras. É nessa serenidade ante
Os ritos de passagem que a mão do Pai,
Substantiva chama oculta, ensina a este
Peregrino as razões do ser para essa busca.

 

 

 

***

 

 

 

Afastar-me é o remédio para livrar-me do convívio
com esse vírus ignominioso, de palavras ásperas,
insensatas, dizer não à caverna, ao deserto aberto
fechando a porta ao vento de areias premeditadas;
apagar os frágeis sinais da ponte, dos cipós, da lua
feroz erguida dentro de vós porque a tua doença
faz desmoronar tudo num instante, sem que a arte
aceite esse veneno em sua raiz; deixar que outro sol
cante em minhas entranhas como a sombra da tarde
pois, uma vez decepada a minha haste, o sangue
espesso jorra ao ouvir a sirene de uma engrenagem
muda. Morte e movimento se esbatem nessa margem;
minhas braçadas não aguentam o tamanho desse rio.
Quase morto, visto-me a rigor para a noite de luto.

 

José Carlos Sant Anna é professor aposentado da Universidade Federal da Bahia. Atualmente é o editor da  Quarteto. E já andou publicando os seus alfarrábios pela vida afora.

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100ª Leva - 03/2015 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Nunca fomos melhores

Por Fabrício Brandão

O herói está de folga

Em tempos de alguma pungente desesperança, redentores são figuras cada vez mais escassas. Para desejar que tais seres existam e assumam devidamente uma função entre nós é preciso sentir o peso de um incômodo maior que nos acomete. Entre um arremate e outro, ter fôlego para respirar significa tencionar caminhos entre luz e sombra. Assim, a quem poderia interessar a existência de heróis? Ao nosso medo de lidar com as investidas indecifráveis da vida? A uma velha necessidade de delegarmos coragem a alguém que está fora de nós?

É interessante refletir um pouco sobre tamanhas questões após a leitura do mais novo livro de Dênisson Padilha Filho. Prontamente, o título já nos toma de assalto: O Herói está de folga. Publicado pela Editora Kalango, a obra reúne nove contos que perpassam cenários compatíveis com as indagações feitas no parágrafo inicial desse texto. A primeira história já é por si só um abre alas para os territórios que iremos cruzar. Batizada de Com essas mãos, a narrativa inicial nos fala da pesada sina de um matador de encomenda (espécie de justiceiro, se assim é possível considerar), cujo peso maior está na maneira como o personagem lida com o inventário das vidas que ceifou.  Admirado por uns e temido por outros, o assassino confronta seus fantasmas, contabilizando as mortes promovidas num ritual de incessante sensação de culpa.

Dênisson não faz do assassino de seu primeiro conto um alguém a simplesmente purgar pecados. Os dramas e fardos são os piores, os da consciência, mas a maneira como esses processos mentais são conduzidos faz-nos pensar que ninguém passa impune pela vida, de um jeito ou de outro. A, digamos assim, humanização de um protagonista aparentemente execrável dá-se muito mais na via de um resgate do que pela assunção dos erros.

Eis que é preciso fôlego para tocar a leitura adiante. Parafraseando o autor, todos vamos bem até a hora em que começamos a desejar demais. Mas o fato é que é inegável não querer ir além, dada a proposta da obra, sobretudo porque no entremear das narrativas abriga-se uma intangível pretensão de reconhecermo-nos desnudos e sós. A sensação de desamparo instaurada é, no caso das escrituras de Dênisson, uma provocação ao status quo de nossos ocidentalizados sentimentos.

Quem protagoniza as ambientações do conto Onde demora aquele fogo dos teus olhos? pode, por exemplo, ser qualquer mortal cujas percepções estão à flor da pele.  Ali, reconhecer-se um homem comum é gesto que implica muito mais no saldo numeroso das desventuras, um olhar o compasso dos dias com o filtro polarizador da apatia. Assim, quiçá a projeção de um tempo ideal retido na memória se configure um antídoto ao caos intimista de um alguém que é tudo, menos herói.

Dênisson Padilha Filho é hábil em colocar seus personagens no olho do furacão. Dali, eles só podem escapar se lançarem mão de algo semelhante a uma espécie de expansão do tempo, o que fatalmente não acusa um sentido tradicional de libertação. Pelo contrário, a via da inexistência de mártires adotada pelo autor recusa saídas honrosas e meritórias. Por tal razão, a desgastada dicotomia entre bem e mal sequer importa. Subsiste uma dimensão na qual a reinvenção da memória parece ser substancial válvula de escape.

Em A pin up que caiu do céu, a capacidade do criador de modelar os recursos da fantasia humana é, sem dúvida, um elemento de destaque. A figura do vaqueiro Miquéias é símbolo do vigor de um imaginário bem típico dos rincões brasileiros. Para dotá-lo de um componente diferenciado, Dênisson flerta com o realismo fantástico. Reinventando-se, Miquéias busca refúgio noutras dimensões, conferindo ao seu desejo algum caráter de salvação.

Não é de agora que o autor de O herói está de folga sabe amarrar cenários e construções de personagens com destacável domínio. Exemplo disso está nos contos e novelas presentes em Menelau e os homens (Ed. Casarão do Verbo, 2012). Dentro desse controle narrativo, há muito mais do que saber contar uma história. Seres e lugares estão amalgamados por uma perspectiva de cronologia interna, através da qual as histórias resultam num elemento orgânico e equilibrado.

Em se tratando de percorrer as complexas paragens humanas, não há nada mais apropriado do que reconhecer aquilo que somos. Talvez por isso Dênisson ouse nos mostrar trajetórias de vida marcadas pelo traço lancinante da imperfeição. Já contabilizamos milhares de anos sob o planeta e, no entanto, resta sempre a indagação sobre o que pretendemos de nós mesmos. Não há saída. O incômodo está conosco até os ossos. De que adiantam heróis se debaixo do sol tudo está feito?

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100ª Leva - 03/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Adriano Scandolara

 

Foto: Gabriel Rastelli Quintão

 

Hesitação

 

O ralo do chuveiro entupiu

farto de engolir restos de nós
o que como tumor
sem ver se consumiu,
e menos que os restos o todo restou.

Uma teia no canto
formada reformada por uma aranha,
órgãos tecem e anseiam, enquanto
longe o macho ainda
inútil respira,

enquanto bêbada
………………….entre os
prédios uma
…………equilibrista
na corda bamba hesita.

 

 

 

***

 

 

 

Ode ao edifício Ricardo

 

para Roger Alberto Meluso, in memoriam

 

 

Eu, sozinho, no prédio todo
não ouvi os estertores:
ia ao banco, quando
………………………quase
tropeço no
cadáver.

Correndo desesperado o pobre diabo desceu os degraus
delirante perdendo
a calça a perna falsa toda
dignidade

o caco que restou na calçada deitou, a Deus
clamou que não morresse
e como chama em cachimbo de crack nos becos da noite

apagou.

E eu
quase tropeço no cadáver.

 

 

 

***

 

 

 

Camus nos infernos

Há muito que as mãos
são mordidas pelas bocas que alimentam.
Entre as sombras não há nome
nem rosto:
se cansadas, revezam-se
como tratadoras de Cérbero.
E fumam nos intervalos,
apagando bitucas nos asfódelos,
foi para o treino desses momentos
que afinal viveram.
Feridos, os dedos levam
o cigarro aos lábios
num fumacento suspiro,
sonho invejoso, ser Sísifo.

 

 

 

***

 

 

 

Ode à serpente

Baixo demais para a virtude,
………………………..rastejar
sobre vidro, palavras
de ordem
…………de ódio,
…………………rastejar
tragando borras do amor
como rato
……….serpente
que devora o rato,
rastejar
……….sem pranto
que uma a uma essas gotas salgadas fracassaram
em redimir as gotas amargas
o gosto
………de ferro na boca,
rastejar
…………..a espinha sustentando a verdade
quebrando no meio
o pescoço
………quebrando no meio
o rosto preso virado pra baixo
………………………………….rastejar
seria talvez canção
este resto de voz
………………….alhures,
sem suas plumas de corvo
………………………..estes versos
pobres e feios.

 

 

 

***

 

 

 

Um dia qualquer

 

A tormenta sobre o
centro cemitério
de guarda-chuvas
retorcidos nas sarjetas e lixeiras
e as poças
sempre mais que o previsto
profundas.

Uma sombrinha intacta
descartada
a desistência
essa coisa tão humana
inunda os bueiros.

 

Adriano Scandolara é poeta e tradutor, nascido em Curitiba em 1988. É graduado em Letras e mestre em Estudos Literários pela UFPR, onde atualmente desenvolve um doutorado sobre poesia e filosofia da linguagem. É um dos editores do blogue e Revista Escamandro. Seu livro de estreia, “Lira de Lixo”, foi publicado em 2013 (São Paulo: Editora Patuá). Seu segundo livro, PARSONA, de poesia conceitual, e sua tradução de Prometeu Desacorrentado, do romântico inglês Percy Bysshe Shelley (1792 – 1822), estão no prelo e deverão ser publicados este ano, respectivamente, pelas editoras Kotter e Autêntica.

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100ª Leva - 03/2015 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

Alguém que utiliza as palavras como ponte para um entendimento sobre si mesmo certamente confere à vida ares diferenciados. Se o sopro, matéria-prima das horas, é a primeira razão de ser de qualquer um de nós, o engajamento pelo verbo expande fronteiras do pensar e agir, propondo uma passagem não menos impune pelo mundo. Deixar-se guiar palas palavras significa também tentar equilibrar naturais tensões entre o racional e o emocional. Parece ser equação que não se resolve cartesianamente na medida em que cada polo encerra componentes travestidos de individualidade.

Não há receita para apreender as epifanias de um criador. Postulados, cânones, referências, todos eles nos falam de um pensamento analítico. No entanto, vivenciar a leitura e dela retirar algo é experiência movida fortemente pelos subterrâneos de nossa consciência, ambiente regido por uma divindade que até hoje não se sabe bem quem é: a tal subjetividade.

Escrever é um agarrar-se a incertezas. É conferir ao mundo um olhar que afugenta determinismos. Um flerte constante com a dúvida e o mistério. Tarefa de mortais apenas. E a escritora Neuzamaria Kerner demonstra entender bem a dimensão desse hercúleo ofício na medida em que nos oferta sua obra. Durante toda uma vida dedicada às letras, maior parte dela tomada pela poesia, essa autora renega rótulos e classificações. Para ela, o que importa mesmo é apresentar caminhos, não estabelecer verdades. Talvez por isso não é à toa que sua criação mais recente, O Livro-arbítrio das Evas – dentro e fora do Jardim (Editus – 2014) é um momento em que se exalta a liberdade em duas perspectivas cruciais: a do criador e a do leitor.

Antes de chegar ao seu “livro-arbítrio”, Neuzamaria vivenciou saberes e sabores em publicações como Fragmentos de Cristal, Eu Bebi a Lua e A Presença do Mar na Prosa Grapiúna. Nasceu em Salvador, Bahia, e vive hoje em Vitória, no Espírito Santo. Sua trajetória de escritora também se mescla à carreira de professora, feição que marcou de modo pungente sua vida. Ajudou a fundar a Diversos Afins e agora retorna à nossa presença para falar especialmente sobre seu novo rebento literário, além de recordar passagens importantes de sua manifestação poética no mundo.

Neuzamaria Kerner
Neuzamaria Kerner / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Seu mais recente livro já desperta a atenção pelo título emblemático que possui. Nele, você deu voz e vez a personagens femininas silenciadas pelos seus respectivos tempos. O que há dentro e fora desse jardim mundano? O que dizer e o que calar?

NEUZAMARIA KERNER – Dentro do Jardim, há as muitas vozes abafadas das Evas que não tiveram o direito à expressão da própria alma. Fora do Jardim, por incrível que pareça, ainda existem Evas silenciadas por um mundo que começa a acordar (ufa!) para ouvir os sentimentos que brotam de almas aprisionadas. Apesar dos “alardes” femininos, ainda reina – na atualidade – o silêncio por causa de um medo ancestral: de dizer que ama e quer ser amada, de dizer que sofre, que se alegra, que tem raiva, que tem fome de justiça e direitos respeitados, que tem desejos. Como eu mesma nunca paro de me fazer perguntas, busquei nelas as respostas de que necessitava para entendê-las e me entender. Se me permite dois exemplos: Lilith, que aparece em textos da Babilônia, foi execrada de outros “ambientes” e acusada até de ser a serpente que tentou Eva (a primeira). Ela reage e se defende dizendo:

Mostro-me para sair do exílio
no qual me colocaram.
Quero que todos ouçam
a voz que de mim tiraram:
eu feria os princípios do recato,
assim foi o relato dos escribas
que me condenaram
a ser poeira do livro oficial.

Em seguida, Eva – a que está nos Livros -, baianamente retada, me disse que Deus lhe deu o jardim e depois a expulsou por causa da natureza que Ele próprio lhe deu:

 

Fui Tua cria e Te louvei
Tua alma habitando em mim.
Me deste o conhecimento
da bondade, da malícia, da perícia em parir.
Não carrego culpa ou dor
dentro ou fora do jardim,
posto que onisciente
me soubeste pura e sã,
e eu Te sei meu conivente
no episódio da maçã.

As Evas não querem mais calar porque têm o livro e o arbítrio.

DA – A sua escolha por mulheres bíblicas encerra algum sentido especial? 

NEUZAMARIA KERNER – A Bíblia, apesar de sempre ter sido uma fonte de inspiração, foi também o lugar da opressão feminina. Para mim, independentemente da questão religiosa – e não foi essa minha motivação para escrever – era intrigante como mulheres com histórias tão bonitas não tiveram lugares de destaque oferecidos pelos intérpretes da Bíblia. A mulher de Lot, a que virou estátua de sal, não tinha nome? Veja o que ela, Irit, me diz:

Que mal houve no meu gesto
qual meu crime, meu pecado?
Fui salgada, fui punida
apenas por ter olhado?
Olhei talvez por saudade
dos filhos que quis rever;
não foi ceticismo ou bravata
tampouco por ser voyeur.
Provoquei do comando a ira,
foi duro comigo o juiz,
mas pergunto a quem me sente
qual mãe não faria o que fiz?

Também sem nome foi a mulher de Putifar; mil Madalenas ou Magdalas existiam, à época, e no final virou uma sagrada confusão que no meu “inocente” olhar todas essas eram as prostitutas. Posso rir? A fala de Madalena sobre o seu encontro com o Pregador me causou profunda alegria. Que mulher corajosa para amar!

Na verdade, o sentido de tudo está na reinterpretação que dou à vida dessas mulheres porque acho injusto que fiquem relegadas ao limbo. Não foram as Evas que tornaram imperfeito esse nosso jardim. Esse jardim foi ressignificado e a ele todas nós podemos voltar porque com todas as circunstâncias que envolvem um jardim é dele e nele que nos alimentamos.

DA – As Evas do nosso tempo têm conseguido fazer do mundo um lugar menos inóspito para elas?

NEUZAMARIA KERNER – Mais ou menos. As Evas de nosso tempo estão mais conscientes do seu papel no mundo, que continua razoavelmente inóspito tanto para elas quanto para os Adãos. O feminismo – que também não é o foco desse livro – trata os textos sagrados e patriarcais dos tempos de outrora como antagonistas das mulheres e da condição feminina. Mesmo considerando que esses textos ainda influenciam a vida de muitas. No entanto, não podemos nos perder nos dois tempos: ontem e hoje. As Evas da atualidade, na maioria das culturas, são livres para explorar o que é relevante para as suas vidas e vivenciar suas próprias descobertas, como elas nos dizem nos poemas A Morte da Cinderela, Contenda, Aprendizados em Quatro Segundos, entre outros. Elas querem o amor em toda a sua plenitude e no sentido mais puro da palavra, mas rejeitam a cruz que foi imposta (ou auto-imposta) em algum momento da nossa história. Por isso Tereza de Ávila, a santa, veio espontaneamente ser uma das Evas do livro.

De tu
– não sei bem o que querias –
mas meu coração, Tereza,
não pode ser só de Jesus
e nem quero por alegria
as dores da Santa Cruz.
Sei que me sabes, Tereza,
pois que me vistes mergulhar
em olhos de mar nascidos
nos claros da luz solar.
De um outro anjo lanceiro
– qual teu poeta João –
recebi o que poucos entendem:
o prazer de ficar na prisão

É dentro da poesia que o mundo é menos inóspito.

DA – Quantas falas cabem na verdade de um poeta?

NEUZAMARIA KERNER – Muitas falas! As do próprio poeta e as dos outros (que são muitos), incluindo os invisíveis para o que chamamos de realidade. A fala poética não é feita somente de palavras escritas com lápis depois de pensadas, mas também das palavras sonhadas que o poeta transforma em sua realidade e sua verdade, posto que esta pode ser relativa porque depende da perspectiva de cada um. Por isso Rebeca – em sua fala – nos pergunta: quantas falas cabem numa verdade?

Permanentemente o ser humano, que pensa muito e investiga, busca a verdade que lhe alimente, pois sempre questiona o que foi estabelecido pela sociedade, e nem sempre fica satisfeito com o que tem nas mãos; o que está posto. Por isso acolhe muito facilmente o que lhe vem na imaginação e transforma numa fala real. Por isso, como no poema Anjo no Espelho, não há muitas preocupações com as verdades das falas porque…

(…) Como poeta
me atrevo ao desrigor da razão
e não busco o enigma inominante
que exubera nesse espelho frente a mim…
Apenas me alimento dessa fonte de inspiração.
(…)

DA – Além do percurso denso e íntimo pelo universo feminino, seu livro-arbítrio se dedica a outras paisagens e observações. Tem-se a sensação de que nele você consolida toda uma trajetória poética. Quais reflexões você vislumbra nisso?

NEUZAMARIA KERNER – É verdade que além do universo feminino os poemas e os contos no final do livro se ampliam pelo universo onde habita o ser humano com suas alegrias, tristezas, reflexões, certezas, dúvidas e celebração da vida acima de tudo, mesmo quando há turbulências na caminhada de cada um de nós, homens e mulheres. Das reflexões feitas tomamos a consciência de que somos parte de tudo o que forma a comunidade global. E só pensar nisso já é algo poético. Ser tudo e parte de tudo.

O que talvez consolide – como você diz – uma trajetória poética seja mais a consolidação da maturidade que vem sendo construída pouco a pouco. É dentro dessa maturidade que reencontramos a ligação da nossa alma com a alma do mundo, daí os reflexos dessa consciência (paradoxal) de sermos felizes, mas também angustiados e, para mim, a única forma de dizer desses sentimentos é poemando  – até na prosa. No pequeno conto O Livro-arbítrio é possível ver uma prosa poética sofrida de alguém que viaja provavelmente de um plano para outro a fim de encontrar uma pessoa. Há poesia densa nas falas ditas e nas subjetividades da situação. Repare:

            E eu que vim de tão longe para vê-lo… E eu que atravessei tantas nuvens para vê-lo. Sabe quantas eternidades furei para chegar no lugar exato onde você estaria para me encontrar? Pareço em atrasos. Pereço nos prazos, só pareço. Aqui estou diante da boca dos favos de beijos que nos tempos passados você prometeu. Vim pegá-los. Vim colocá-los neste corpo almado que ainda é seu.

            Cheguei! Vim com livro e com liberdade. O livro-arbítrio meu. (…)

Se há, então, realmente algo consolidado, é a poesia que existe na vida e na morte. Aqui e acolá. Só não enxergamos essas diversas realidades porque ficamos em estado sonambúlico e não damos ouvidos aos anseios de nossa alma, que tem um vislumbre diferente do ser puramente carnal.

Neuzamaria Kerner
Neuzamaria Kerner / Foto: arquivo pessoal

DA – A presença de um componente místico é algo que, de alguma forma, sempre permeou seus versos. Percebe isso como um possível sentido de transcendência?

NEUZAMARIA KERNER – Sim. É isso que busco para minha vida e que aparece nos meus textos (mesmo quando não está explícito). O sentido da minha existência está na busca de tudo o que transcende a experiência da carne. Creio realmente que somos tudo. Arte e parte de tudo, entendendo que não estamos entregues a um destino sem direção, pois que caminhamos dentro de uma perspectiva iluminadora: lúmen na dor de viver! Porém quando eu falo a palavra “dor”, não a imagino como des-graça, mas no exercício de aprender a viver entremundos e entretudos, buscando acordar as forças da vida universal que moram dentro de nós. Todos os seres se comunicando e intercambiando a seiva cósmica em harmonia e em movimento na plenitude de um Amor maior que nos acolhe e nos embala. Todos os seres sentem dor para crescer, pensar, mudar, evoluir… é como adquirir condicionamento físico por meio da ginástica. Isso se aprende vivendo, errando, acertando, consertando, doendo, mas sempre vivendo aqui ou acolá.

Voltando um pouco à coisa da dor – simbólica ou não – de que falei, há um poema chamado Contenda onde está dito que remo e navio navegam, mas o remo funciona como um chicote que espanca o mar. Em verdade, chicote que espanca é o mesmo que faz com que a navegação (vida) aconteça.

Também o sentido de transcendência está bastante acentuado no poema Passageiro nas Catedrais. O personagem, digamos assim, nos apresenta uma realidade que pode ser percebida através dos sentidos (vários) e que independe de um mundo a que chamamos natural. Outra realidade. Uma situação de intermitência em idas e voltas, transpondo barreiras, tempos, espaços… O verbo transcender (transitivo direto e indireto ao mesmo tempo) – já que estamos falando de transcendência – exige dois complementos e, mal comparando, esse personagem para existir necessita de várias realidades as quais nunca buscamos entender direito. Assim é como o meu texto que faz com que eu me entenda a partir de realidades múltiplas, buscando todos os sentidos possíveis, incluindo o sentido místico em tudo.

(…) Sou viajeiro
passageiro nas catedrais
que permanecerão nas lembranças
……………….nas ruínas
……………….nas reformas
dos tempos que me levam para a próxima catedral
até quando for mudado
o meu estado de matéria
(…)
Mas sei que a distância entre as catedrais
e meu destino
se encurta e me alonga por igual…
afinal é para isso que tenho viajado
de catedral em catedral.

 

DA – Você é acometida pelo que chamam de angústia da criação?

NEUZAMARIA KERNER – Muito raramente eu sinto essa angústia de que falam sobre o ato de criar. Quem escreve, recria realidades, formata o que não tem forma dentro de certo caos porque às vezes o texto começa pelo meio ou pelo fim do pensamento e é preciso reordená-lo. Às vezes dá uma sensação de vazio quando busco uma palavra e vejo que as que me vêm à mente não se encaixam no que estou querendo dizer porque é muito importante dar sentido ao sem-sentido aparentemente. A palavra específica que não vem na hora da necessidade dá uma ligeira aflição. Num outro momento, quando termino um texto, vem uma sensação de esvaziamento e alívio como de uma necessidade fisiológica. Em outras vezes, quando tenho uma vaga ideia do que quero escrever e não escrevo, sinto uma espécie de ausência, de alguma coisa que precisa ser preenchida. Se sinto uma urgência em extravasar algo, escrevo onde estiver e a hora que for… O problema é que estou sempre extravasando (risos), inclusive dentro dos sonhos. Sonho muito. De verdade. Dormindo. Muitos textos vêm desses momentos. Frases soltas, uma palavra que fica pulsando repetidamente. Às vezes acordo e escrevo a ideia ou a palavra, o que vier, mas não dou ousadia ao sonho em me tirar o sono pra não viciar. Volto a dormir.

Venho escrevendo um livro de pequenos contos onde o personagem é uma espécie de andarilho. Há vários dias que ele não fala comigo, não me diz aonde vai parar, com quem vai se encontrar, sobre o que vai conversar. Nada… Ele me olha e eu o olho de volta. Estamos tendo paciência um com o outro e acho isso muito interessante… Essa calma, mas o dia inteiro eu penso nele cheio de silêncios. Sinto inquietação por isso, mas não angústia. Se eu tivesse me comprometido com alguém que me desse prazo, talvez eu sentisse a angústia para criar obrigatoriamente uma realidade a qualquer custo. Mas os prazos são comigo mesma e sempre negocio.

Segundo alguns textos religiosos, Deus criou o mundo em sete dias. Foi de uma rapidez formidável! Provavelmente tinha pressa, mas tenho certeza de que não sentiu angústia. Já pensou em um Deus angustiado? Se ele teve angústia, deve ter sido ao criar o ser humano cheio de complexidades. Claro que não estou me comparando com Deus, mas, com certeza, aprendi com Ele a paciência, daí não crio dentro da angústia.

DA – Durante algum tempo, você esteve envolvida com projetos de formação de leitura. O que dizer dessa experiência? Inciativas desse porte podem mudar efetivamente nossa realidade?

NEUZAMARIA KERNER – Trabalhei com projetos de leitura em várias instituições de ensino, mas ainda continuo, de maneira informal, falando da importância de ler. Continuo falando sobre leitura, produzindo leitura e motivando para a leitura quando presenteio as pessoas com livros.

Atuei no PROLER (UESC) fazendo oficinas de literatura e transcodificação da leitura; também em projetos sociais como voluntária, alfabetizando jovens e adultos através de textos verbais e não-verbais. Durante todo o tempo em que estive como professora, meu olhar sempre esteve voltado para apresentar a leitura como “objeto de consumo” indispensável que deve ser repartido para que a leitura de textos diversos sempre estivesse enriquecendo a viagem que cada um faz para dentro de si próprio e na amplidão do mundo. Em todas as escolas (do Ensino Fundamental ao Superior) por onde passei meu trabalho foi sempre pautado, antes de tudo, na formação de leitores.

Não foi muito fácil em muitas instituições porque revalorizar a leitura na sala de aula ainda é coisa que fica no papel. No discurso. Na prática é diferente porque é necessário ampliar a carga horária dos professores – principalmente de Língua Portuguesa, Literatura e Redação -, mas as escolas não podem ou não querem investir. Posso dar dois exemplos?

Eu dava aula de Língua Portuguesa numa Faculdade no curso de Comunicação Social (Publicidade e Propaganda), que contemplava na ementa leituras de textos diversos. Levei para os alunos do 1º período uma revista com a propaganda de um automóvel, na qual Narciso, o do mito, aparecia debruçado olhando um carro dentro do lago. No canto inferior direito da página estava escrito assim: “Vectra, o mais bonito!”. Os 27 alunos disseram que o “cara” estava chorando porque o carro dele havia caído na água. Na verdade, quem chorava era eu ao ouvir essa interpretação. Imediatamente dramatizei o mito, distribuí textos com outros mitos para leitura. Acredite que alguns alunos queixaram-se à diretoria e fui chamada para explicações. A diretora acadêmica, uma bióloga (que Deus a tenha lá), me fez repetir três vezes o nome da minha disciplina e, em seguida, me disse três vezes: “atenha-se à sua disciplina”. Peremptoriamente. Isso na presença dos meus alunos.

Nem tudo foi tão terrível assim. Vivi experiências espetaculares trabalhando com formação de leitores, incluindo os que estavam ainda sendo alfabetizados. No sul da Bahia, perto de São João do Paraíso, havia um lugarejo chamado Vila Nova Esperança. Eu trabalhava no Programa de Alfabetização Solidária e, ao passar do ônibus na BR-101 vi, sob tendas de pau e plástico preto, homens, mulheres e crianças quebrando pedra (brita) com martelo. À noite, na sala de aula notei que o caderno de um aluno estava manchado de vermelho. Era o sangue dos dedos de um dos quebradores de pedra que escorria enquanto aprendia a escrever. Tristeza e alegria se misturaram às lágrimas. Daí o poema Quebradores de Pedra em Vila Nova Esperança:

(…)
Escola – mágica mutação:
martelolápis
sanguetinta
pedrapapel
pedregulholetra
que saltam da pedreira
para deixar o aprendiz escrever sua história.

Também foi desse tempo o poema Barqueiros do Rio Pardo, quando para chegar à escola, saltava na BR, descia o ladeirão e o barqueiro levava para a outra margem do rio (a terceira?). Era um sacrifício, mas as experiências vividas valeram. Os resultados obtidos também. Então, toda iniciativa é válida desde que a vontade de dar certo seja maior do que simplesmente a espera do salário, mesmo atrasado. Quando o governo pagava era outra alegria.

DA – Depois de tantas travessias, de que modo a sua lida com as palavras lhe permite olhar o mundo hoje?

NEUZAMARIA KERNER – Com muito mais cuidado. Hoje tenho maior consciência do espaço – vazio – que há entre a minha boca e o ouvido do outro. Nesse espaço o interlocutor pode preencher com o que quiser, de acordo com suas carências e iluminações. Por isso o cuidado, principalmente uma pessoa muito extrovertida e desatenta como naturalmente sou. Dá um cansaço essa vigilância permanente porque a palavra, o Verbo do Princípio, deveria ser sempre fonte de união e completude universal, mas nós nos esquecemos disso no momento em que usamos palavras não como ponte, mas como marreta que arrebenta tudo aquilo que pode nos ligar ao mundo. Pode ser também como armadilha na qual podemos cair ou jogar os outros, daí o cuidado. Por exemplo, no poema Jogo eu falo da palavra como num jogo de xadrez:

 

(…) Quando tomam vestes guerreiras
me aprisionam
me checam e matam.

Por outro lado, pela palavra nos comunicamos e estamos em comunhão o tempo inteiro, é a senha da vida, do mundo, como dizia Drummond em Palavra Mágica.

As palavras estão aí para nos servir, como Exu, o mensageiro dos caminhos, que não é nem bom nem mau, depende da energia que imprimimos nos comandos que a ele damos. Assim também com as palavras, daí eu ter falado na vigilância permanente. Até que eu me esforço, mas como tropeço!

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100ª Leva - 03/2015 Destaques Olhares

Olhares

As sutis inscrições do vazio

Por Fabrício Brandão

Gabriel Rastelli Quintão
Foto: Gabriel Rastelli Quintão

Há uma voz que, em meio ao tempo, pretende ocupar espaços. Essa voz transmuta-se no olhar daquele que cruza insones paisagens urbanas. E não há necessidade de que sua expressão maior seja percebida pelo verbo sonoro. Apenas o silêncio desafiador ousa permanecer e atravessar as zonas mais inusitadas da observação.

Quando o olhar revela-se um personagem dos cenários retratados, o ritual dos estranhamentos renova seu foco. Sem deixar passar o traço genuíno que cada ser ou lugar denotam, um fotógrafo vai além da dimensão externa das coisas quando experimenta tempos e espaços num mergulho físico ou intangível.

Gabriel Rastelli Quintão é um desses desbravadores de territórios. Máquina em punho, seus registros fotográficos perscrutam cenários em busca de vislumbrar o que está além dos vestígios. Atraído por uma espécie de decadência humana, o fotógrafo intenta o belo em meios aos escombros, quiçá alguma pista que possa renovar a crença num porvir.

Diante dos fragmentos deixados pelos homens, Gabriel parece se defrontar com a poética do vazio. Nesse ínterim, há um curioso processo de ocupação imaterial dos espaços, fazendo com que tais lugares representem pontos de recordações e alguma contemplação. Assim, a perspectiva do ambiente urbano deixa de ser meramente uma aglutinação de concreto e passa a algo indissolúvel na medida em que o tempo costura seu imprevisível fluxo.

Gabriel Rastelli Quintão
Foto: Gabriel Rastelli Quintão

O que Gabriel vê para além do vazio aparente é também um inventário de silêncios. Tanto na via das ações quanto na das hesitações, homens alteraram o curso de suas trajetórias e, mesmo que o artista tenha chegado após os fatos, os cenários denunciam seu farto enredo.

Nascido em Araraquara, São Paulo, Gabriel Quintão estudou fotografia na Escola Panamericana de Artes e hoje atua nas áreas de fine art, fotojornalismo, retratos e publicidade. Seu primeiro projeto autoral publicado, batizado de “Linha de Frente”, mostra as reações de fãs de rock que se comprimem nas primeiras fileiras de shows do gênero. Noutro momento, o fotógrafo exalta a série “Cinzas de Quarta”, cujas imagens refletem o abandono das alegorias carnavalescas que, outrora ostentavam a magia de um desfile, agora são relegadas ao esquecimento pós-momesco.

Apesar do trabalho de Gabriel denotar uma forte relação com as lacunas humanas visíveis ou não, outros pontos de observação são elegidos pelo artista. Composições de luz e sombra, flagrantes da natureza e epifanias urbanas também fazem da arte do fotógrafo paulista um caleidoscópio de sensações pulsantes.

Entremeando a tênue cortina que divisa o ser do não-ser, os olhares aqui apontados configuram uma estética que conjuga perenidade com volatilidade. E o interessante é perceber que há modos de se testemunhar presenças e marcas, mesmo que agora subsista algum vazio. Aquilo que o tempo ocultou ou até mesmo dissipou resiste, permanece intacto na maneira como lidamos com as artimanhas da memória.

Gabriel Rastelli Quintão
Foto: Gabriel Rastelli Quintão

* As fotografias de Gabriel Rastelli Quintão são parte integrante da galeria e dos textos da 100ª Leva

 

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100ª Leva - 03/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Wesley Peres

 

Foto: Gabriel Rastelli Quintão

 

o que as sereias O disseram. O disseram voz, O disseram peixavesávidas palavras líquidas estruturas, lâmina dáguaçólida, O disseram inscrições no corpo dele, palimpsestensionaram sua carne de açores e penínsulas, O disseram ruídos sutis habitantes da carne do cérebro e O disseram cérberos com plumas e outras figuras de linguagem infernais convexaconcavidades de formações violíneas de mulheres anjas bestiais d´avilas santas desejando travessia da própria carne por setas e cítaras dolorosas alegrias escorrendo pelas coxas adentro aforando as vísceras até dar de beber aos pássaros e a qualquer homem de nome ninguém

 

 

***

 

 

OS SONS ASSUSTADORES QUE OS PÁSSAROS CONSTRÓEM

 

Qualquer constelação que lhe ocorre num lapso, lembra-lhe as modulações do corpo, as pequenas rangeduras, nem escutadas, que inscrevem, na memória gelada do mundo, a mortificação tão viva dessa mulher, para quem olho, sabendo-a bela e jovem e que mesmo uma bela jovem é velha o suficiente para morrer. Ela olha para o mundo e sabe bem que só da coisa inerte a morte se ausenta, então, ela sorri e agradece a alguma divindade ausente (pleonasmo), o fato de a decomposição onipresente ser o mecanismo principal de todo e qualquer palimpsesto orgânico. Hoje pela manhã, quando ela me ligou, conversamos sobre futebol e origamis e obviedades do sr. Assange, sobre o vinho que não tomamos ontem e os olhos inexistentes do monstro do lago Ness e sobre os sons assustadores que os pássaros constróem cotidianamente no espaço entre a minha casa e a dela, o que, naturalmente, nos levou ao assunto “decomposição de todas as coisas vivas”. A ela, é bom que saibam, nunca lhe ocorre Deus, o que lhe diz respeito são as artérias das pedras, as rugas dos lagartos, a torção do tornozelo de Maria Sharapova (mulherzinha antipática, ela diz) e alguma chuva leve na tarde de Amsterdã ou de Araxá. Seus lapsos, nos quais lhe ocorrem constelações de todas as estirpes, sempre produzem, em mim, articulações sintáticas e sinápticas que desabam, líquidas, sobre o meu corpo, produzindo uma espécie de chuva que dissolve, parcial e momentaneamente, este nódulo duro — ser a coisa-homem.

 

 

***

 

 

Queira chamar esta taça de vinho de presença de Deus ou de o-nada, beba-a assim mesmo, acenda depois um cigarro ou um pássaro, caminhe por uma rua vazia ou pela constelação de letras que compõem o limiar de para-onde a mulher, na mesa ao lado, olha. Mais do que isso, se puder, deixe de lado essas coisas de Deus ou de o-nada, deixe que as palavras pensem, deixe-as em sua liberdade e seu aprisionamento que as unem e as abismam, as palavras. Fazendo isso, é possível que desista dessa história de salvação e, então, poderá beber esta taça de vinho, livrando o vinho (e a taça) de sua necrose-simbolismo-cristão, bebendo esse líquido de igual cor que os mares de Homero, sabendo, assim, que apenas ele lhe dará o gradativo sono, que imita a gradativa morte que experimentamos diariamente sem nos darmos conta disso.

 

Wesley Peres é escritor e psicanalista. Mora em Catalão – GO. Autor do romance Casa Entre Vértebras, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2006. São dele os livros: Palimpsestos (poemas), vencedor da Coleção Vertentes cegraf/UFG 2007, Rio Revoando (poemas) USP/COM-ARTE 2003; Água Anônima (poemas), vencedor da Bolsa Cora Coralina 2001, publicado em 2002 pela AGEPEL. Em 2014, publicou As pequenas mortes (romance) pela Rocco. No prelo: O corpo de uma voz despedaçada (poesia, a sair pela Martelo Casa Editorial)

 

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100ª Leva - 03/2015 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Marcus Vinícius Rodrigues

 

gabriel-rastelli
Foto: Gabriel Rastelli Quintão

O sabor dos anjos

Por trás da vitrine, o olhar e o doce. O sonho brilhava encoberto em açúcar, minúsculos cristais faiscantes sob a luz da vitrine. Abel, ainda pequeno, com os olhos na altura do doce, uns olhos arregalados para o recheio de goiabada que escorria, olhos de quem adivinha um sabor nunca experimentado. Do outro lado, além do sonho, o filho do padeiro, um pouco mais alto, um pouco mais velho. Eles se viram aquela vez e, por muitos anos, não se conheceram.

*

— Oi! Me vê aquele quindim ali?
— O maior?

A resposta foi um sorriso entre as bochechas gordinhas.

— Você eu não conheço.
— Meu pai é o dono.
— Ah! É verdade. Tinha um garoto aqui quando eu era criança.
— Eu.
— E…

O outro sorriu.

— Eu morava com minha mãe.

Abel sorriu um sorriso de compreensão. Agradeceu o doce e foi saindo.

— Meu nome é Amaro.

Abel se virou da porta interrogativo e apontou para o alto. Amaro fez um gesto conformado. Padaria Santo Amaro.

A padaria ficava numa esquina e o letreiro se repetia para cada uma das ruas. Letras vermelhas sobre um fundo amarelo claro. Há muito já não tinha a imagem do santo, de quem Abel tinha uma lembrança apenas vaga.

**

— Já pensou se fosse Santo Expedito?
— Ou São Basílio.
— Santo Antão.
— Sabia que tem um São Frutuoso?
— Nossa! Ia ser muito pior.
— Eu não gosto é do José.
— Eu também tenho José.

José Amaro e Abel José. Eles riram da coincidência e se reconheceram ainda mais como amigos.

— Uma prima me chama de Belzebu.
— Por quê?
— Bel, Zé, ela foi juntando e lembrou do danado. O apelido pegou.
— E você é assim endiabrado?

Riram. Amaro estendeu um doce para o novo amigo. Abel sequer perguntou do que se tratava. Colocou o doce inteiro na boca. Um gosto de amêndoas lhe invadiu a boca.

— Beijinho de freira.
— Humm!
— Gostou?
— Acho que comi o papel junto.
— Não é papel, não. É uma hóstia.

Amaro falou para o novo amigo do desejo de colocar novos doces para vender. Pensava em recuperar o ar de padaria portuguesa que tinha no tempo do avô. Estava experimentando receitas.

— Eu gostei. Vou querer experimentar todas.
— Vou querer que você experimente.

Quem acompanhasse a conversa dos dois jovens poderia perceber que havia ali um encontro.  Eles eram tão diferentes. Amaro era alto e magro, uma pele levemente morena, uma morenice mediterrânea, coberta por longos pelos negros. Abel era mais branco, uma brancura também mestiça, sem os avermelhados dos brancos do norte. Tinha os cabelos também muito pretos, mas não tinha pelos. Era gordinho. Braços e pernas roliços escapando das camisas e das bermudas. Amaro tentava disfarçar, mas quase sempre seu olhar escorregava para aquelas partes do amigo em que a carne forçava os tecidos das roupas. Tinha sido assim desde que o tinha visto saindo da padaria com um quindim. Abel tinha as pernas grossas sustentando uma bunda volumosa. As gorduras sem exageros doentios faziam curvas sinuosas e pareciam dançar quando ele andava. Amaro quis chamá-lo, retê-lo um pouco mais, mas não sabia como. Foi assim que gritou o próprio nome para o rapaz.

Depois daquele primeiro encontro, não viu a hora de ver o rapaz de novo. No dia seguinte, mesmo sem estar previsto, fez mais quindins. Escolheu de propósito formas maiores. Abel retornou, mas não quis o quindim. Preferiu uma tortinha de limão. Depois, no outro dia, quis um brigadeiro. No fim de uma semana, já tinha experimentado todos os doces da vitrine. Um por dia. Amaro percebeu seus olhos procurando alguma novidade. Lembrou-se do sonho.

— O recheio desse é de creme de baunilha.

Abel mordeu o doce num prazer genuíno. Logo depois, entretanto, o brilho nos olhos diminuiu. Não havia mais novidade. Ele comia o doce com avidez ainda, mas uma avidez tensa, de quem apenas se deixa levar.

— Você tem tempo?
— Hum?

Amaro foi para a cozinha. Uma rápida mistura: açúcar, manteiga, farinha de trigo, baunilha. Um forno quente, um pouco de conversa. Logo, os biscoitos ficaram prontos.

— O que é isso?
— Areias de Cascais.
— Bom!
— É o que há de mais simples em doces.
— Nunca tinha experimentado.

Amaro sabia. Abel gostava da novidade, sabores novos, mesmo que fossem simples.  Foi assim que ele começou a seduzir o amigo. A cada dia fazia um doce diferente. De simples biscoitos de natas a bocas de damas. Fez os mais diversos manjares, ambrosias, madalenas, pães-de-ló. Não faltaram os pastéis de Belém e outros doces de convento. Amaro seguia as receitas de um livro antigo do avô. Abel vinha todos os dias para experimentar a novidade. A cada dia, Amaro se mostrava mais próximo. Abel já não era um mero cliente. Era convidado para a cozinha onde podia ver os doces sendo feitos. Lambia as massas cruas das panelas, provava cada etapa até o doce estar pronto. Ele se perdia num labirinto de sabores às vezes tão iguais, mas sempre apresentados de maneira diferente. E enquanto o menino guloso se lambuzava nas delícias, Amaro se deliciava de ver as bochechas gordinhas, os braços roliços que pegava com as mãos cheias para mostrar ao amigo alguma panela fervente. Ele degustava o corpo do rapaz aos poucos, em esbarrões casuais, em gestos fraternos. As coxas de Abel eram tocadas na espontaneidade de uma piada. O corpo todo do jovem se debruçava sobre Amaro numa tentativa de alcançar um doce que lhe era negado. Eles viveram essa dança por semanas. Um encontro de desejos. Encontro? Assim pensava Amaro.

— Hoje à noite vou fazer papos de anjo.
— Hum. Eu gostei desses.
— Mas vou fazer diferente: papos de anjo na hóstia…
— Quer me ver fazendo?

Abel voltou à noite quando a padaria estava fechada. Amaro lhe abriu a porta dos fundos, apenas o suficiente para o rapaz passar roçando no outro. Amaro sentiu a bunda inteira do rapaz passar por seu corpo. Chegou a estremecer.

Abel perguntou dos doces, os papos de anjo de que já tinha gostado tanto.

—Antes você vai experimentar esse bolo dos anjos.

Era um bolo de claras, muito leve. A forma estava de ponta cabeça equilibrada no alto de uma garrafa.

— O que é isso?

Abel estava maravilhado.

— É um bolo tradicional americano. Tem de deixar esfriar assim, se não murcha. Tinha de aproveitar as claras, né.
— Podia ter engomado umas roupas.
— Da próxima vez traga suas camisas.
— Prefiro experimentar esse bolo.

Amaro desenformou o bolo. Era levíssimo. Abel comeu aos bocados.

— Parece mesmo comida dos anjos.

Falava de boca cheia. O bolo era tão leve que logo já tinha comido a metade. Enquanto isso, Amaro colocava a massa dos papos de anjo em hóstias, fechava-as como um pastel, besuntava de gemas e passava em açúcar.

— Agora experimenta os papos de anjo desse jeito.

Pegou um dos doces e ofereceu a Abel diretamente na boca. O rapaz mordeu o doce no meio. A Hóstia partida deixou escorrer o creme pelo braço de Amaro. Num gesto instintivo, o rapaz lambeu o braço do amigo. Junto com o doce, os pelos longos e negros do braço foram sugados. O suor se intrometeu no meio do doce. Uma mistura alegre e inusitada.

Amaro percebeu o maravilhamento do outro. Então, espremeu mais creme no braço e ofereceu. Abel hesitou. Antes, tinha lambido por reflexo, dominado pelo desejo do doce. Agora, sentia que não devia. Lamber um homem? Nunca tinha querido isso. Não gostava. Mas aquele gosto? O sal misturado ao açúcar e às gemas?  Ficou uns instantes parado olhando para o amigo. Entre eles, o doce. Amaro rasgou outro envelope de hóstia e espalhou mais creme. O braço estava todo lambuzado de papo de anjo.

Abel não resistiu. Dessa vez, talvez porque já não era um ato impensado, talvez porque sabia do passo além que dava, lambeu o braço devagar. Assim, o gosto lhe veio mais calmo, mais definitivo. Parecia que experimentava uma revelação. Depois daquilo, sentia que não se contentaria com nada menos.

Lambia o braço peludo do amigo. Lambia meticulosamente. Lambia o creme e lambia o braço sem creme. O doce e depois o sal. Abria a boca para sentir ambos na língua. Os olhos fechados. Deleitava-se.

Amaro extasiava de sentir aquela boca suave na própria pele. Sentia-se beijado. E, vendo na bochecha do outro um pouco de creme, não resistiu. Sentia que também tinha o direito de provar o doce e provar o outro. Avançou sua boca, primeiro no creme; depois, direto nos lábios de Abel. Não lambia. Beijava.

A reação foi susto e rejeição. Abel o empurrou com força quando a língua já lhe entrava pela boca a dentro. Não teve sabor, não teve prazer. Ele não saberia, depois, descrever o que sentiu. Não sentiu nada. Talvez, bem mais tarde, chegasse a compreender que era simplesmente isso: não gostou, não se sentiu atraído, não desejava. Aquela ausência de querer, para alguém que era movido pelo desejo de experimentar, era assustadora. Talvez porque fosse um homem? Talvez porque nunca tivesse pensado a respeito? Talvez porque fosse além do paladar e esse era o único sentido que importava para o rapaz. Abel fugiu.

Amaro se sentiu perdido. Até aquele momento achava que vivia um perfeito encontro de desejos; o seu pelo amigo, um desejo de pele e de amor; e o do amigo, um desejo talvez mais difuso, mas ainda assim um desejo por si. Ele acreditava nesse encontro, nesse ponto de chegada de dois caminhos. Só depois de ser empurrado com força — e Abel era forte—, é que se deu conta de que os desejos apenas se cruzavam e se atravessavam. Ele via a gula de Abel como um reflexo de seus desejos. Não era isso. Descobriu não um reflexo, mas uma refração. Um desvio, um trágico desencontro. Abel fugiu e ele ficou só em meio aos doces com nomes de anjo.

***

Abel saiu da padaria assustado. Pensou que talvez tivesse culpa pelo que tinha acontecido, mas repetia pra si mesmo: eu não imaginava, eu não imaginava. Dizia e não conseguia apagar as imagens do amigo tocando em seu braço, em sua perna. E no meio das imagens, os doces; tantos sabores delicadamente diferentes e iguais, como um contínuo crescente. Amaro tinha lhe seduzido com aquele desfile sem fim. Ele se deixava levar feliz, guiado pelo desejo de mais um novo sabor; e, então, o sal no braço do amigo, o suor nos pelos. Aquela incrível descoberta. Abel seguia pela rua meio tonto. Resolveu sentar numa escadinha de tijolos de uma casa abandonada. As mãos sujas de açúcar apoiadas no degrau descarnado. O açúcar, a gordura, o barro. Abel sentiu aquela textura. Olhou aquela nova mistura nas mãos. Um comando de aventura na cabeça. Será? Pensou uma última hesitação antes de lamber as pontas dos dedos.

Marcus Vinícius Rodrigues nasceu em Ilhéus-BA e vive em Salvador. Escreve ficção e poesia. Publicou os livros “Pequeno inventário das ausências” (Poesia, Prêmio Fundação Casa de Jorge Amado, 2001); “3 vestidos e meu corpo nu” (Contos, P55 Edições, 2009), “Eros resoluto” (Contos, P55 Edições, 2010),  “Cada dia sobre a terra” (Contos, Ed Caramurê/EppPublicidade, 2010) e “Se tua mão te ofende” (Novela, P55 Edições, 2014).  Participou de várias antologias poéticas, além de figurar no volume “Anos 2000 – Coleção Roteiro da Poesia Brasileira” (Global Editora, 2009). Mantém o blog Café Molotov.  

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100ª Leva - 03/2015 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

Breve notícia de literatura renovada

Por Marcos Pasche

gabriel R Quintão
Foto: Gabriel Rastelli Quintão

Para a memória coletiva, 2014 ficará marcado como o ano da Copa do Mundo do Brasil, com seus orçamentos faraônicos, com o ignorar do exoesqueleto de Miguel Nicolelis e com a goleada sofrida pela Seleção Canarinho, em jogo contra a Alemanha. Por sua vez, é provável que os engajados no debate político destaquem no ano a prisão de manifestantes que se posicionaram contra o que a Copa custou financeira e socialmente, sublinhando também o início da Operação Lava-Jato (sic), da Polícia Federal, que prendeu muita gente do alto escalão.

Sem me abster da coletividade, a mim pareceu que 2014 é um ano literariamente promissor. Reconheço que, nesses termos, promissor qualquer ano é, como arruinador de esperanças todos os anos podem ser. Portanto, a minha impressão alvissareira não esconde a obviedade pessoal: chegaram até mim livros que chamam a atenção pelo misto de juventude e maturidade de seus autores. São eles: a primeira morte, de Maíra Ferreira; Peomas, de Leandro Jardim (ambos de poesia); O que eu disse ao General (contos), de Anderson Fonseca; e Fagundes Varela, Poeta (ensaio), de Juliano Carrupt do Nascimento.

Sublinho a obviedade e o acaso para ir do relato pessoal à crítica do tempo: os livros de que tratarei aqui não figuraram nem mesmo nas notinhas de lançamento de grandes suplementos e jornais de literatura do Brasil. Seria injusto não reconhecer a pletora de lançamentos em contraste com a exiguidade de periódicos, mas não se pode ignorar que estes têm as suas lentes de grande alcance, o que se verifica todas as vezes em que um autor de alguma invisível periferia é anunciado.

Volto ao pessoal, sem dissociá-lo da crítica: eu sugeri aos jornais e suplementos que leio e com os quais colaboro resenhas sobre os livros em questão, mas houve recusa direta ou eloquente silêncio, e eu suponho que pelo menos de alguns desses periódicos seria diferente a resposta caso os livros fossem de editoras ricas ou se os autores tivessem guiado sua escrita por aquilo que pede a pauta contemporânea: a voz de uma minoria, a escrita em novos suportes de tecnologia, o cruzamento dos gêneros. A pauta é inegavelmente importante, dado que ela reclama atenção para o que, de modos diferentes, destoa de alguma hegemonia. Só que ela – a pauta – inegavelmente é transformada em moda, e assim àqueles em que não se verifica um determinado tipo de diferença não se dá a chancela de autênticos contemporâneos, ainda que sejam autênticos escritores. Mas aqui estamos num veículo não tomado pela tendência mercadológica, o que também é promissor, sobretudo num momento em que a promessa se cumpre pela centésima vez. A abordagem em conjunto inevitavelmente reduzirá a análise específica, mas tentarei fugir da mera informação.

Comecemos pela poesia, e comecemos por um começo. a primeira morte marca a estreia de Maíra Ferreira, e caso se junte o debute à idade da autora no momento da publicação (24 anos), causará espanto o fato de em nada o livro parecer o de uma estreante, dada a coesão da linguagem que permeia os poemas. Coesa também é a ambientação dos textos, via de regra num universo doído, repleto de desencontros, ainda mais cortantes porque a voz que os anuncia nunca cede ao derramamento emotivo, como se verifica no extraordinário “pequena princesa”: “se você diz que vem às nove, por/ exemplo, desde as sete estarei/ enrolando os cachos que não/ nasceram para ser cachos e preparando/ a comida com receitas que nunca/ aprendi e retirando os pelos/ de todos os lugares onde não se/ pode ter pelos e deixando à mostra/ a pele que precisa ser/ pelada a pele impelida/ pelo relógio marcando nove horas/ e alguns minutos que é quando/ descubro que na verdade você/ não vem e meus pelos agora/ entopem o ralo do banheiro/ desejando não terem sido/ expulsos da vida por tão/ pouco”.

O poema propicia um desdobramento: em a primeira morte a dicção geral é feminina, sendo alguns textos dotados de fortíssima sensualidade. E se a dor é dita com absoluta isenção de sentimentalismo, a pele pulsa de um modo surpreendentemente erótico e sutil, matéria de “náufragos”: “estou bebendo toda a sua água/ como quem mastiga o seu corpo/ como quem engole o seu rosto/ ou chupa/ a sua voz/ sem remorso bebo/ toda a sua água/ e entrego a minha inteira e intacta/ pra você/ beber”.

Peomas é o terceiro livro de poemas de Leandro Jardim, que também publicou um volume de contos, Rubores, de 2012.  No presente trabalho, a escrita aparece mais encorpada, fundindo o que havia de melhor nos livros anteriores – especialmente o tom despojado e as tiradas criativas – a uma visão abrangente do tempo em que se encontra. Acerca disso, as investidas metapoéticas não tratam apenas da escrita e seus códigos, mas sim de uma forma de pertencimento e recusa aos dias que se colocam aos poetas, conforme se lê no emblemático “De época”: “Eu poderia tornar drama/ épico o meu passado,/ tão simples e prosaico,/ tão contemporâneo.// Eu poderia erguer pirâmides egípcias/ de complexos de Édipo, palavras/ à sombra do império paterno,/ dourar o meu caderno.// Mas meu cotidiano foi mais/ humano, e não menos/ poético por isso:/ ser mundano é mais propício”. Registre-se com maior ênfase o (antológico) poema que lembra as andanças reflexivas de Drummond e Gullar pela rua, na medida em que a expressão poética, a um só tempo, rumina sobre o fazer do poeta e sobre seu lugar no mundo. Confinado em seu carro, igualado aos que se atolam nos engarrafamentos ubíquos, o poeta, no exato momento em que revela o nascimento do poema, diagnostica seus limites na república pós-moderna – “Nada grave,/ só mais uma obra,/ só mais um veículo,/ só mais uma via.” –, sem, entretanto, deixar de flertar com a ambiguidade que instaura uma nova possibilidade, de sentido textual e de via existencial: “Não grave nada,/ só mais uma poema,/ só mais um poeta,/ só mais um dia”.

Como a poesia está em pauta, convém citar um de seus novos e vigorosos intérpretes brasileiros. Falo de Juliano Carrupt do Nascimento, erudito e engajado professor do Ensino Médio do Sul Fluminense, em Volta Redonda. Apesar do vínculo universitário como aluno de pós-graduação, Juliano é um estudioso autônomo, o que se verifica de modo cabal com este Fagundes Varela, Poeta, tanto pelo objeto de análise quanto pelo próprio fazer do livro, que não resulta de uma demanda acadêmica específica, como dissertação de Mestrado ou tese de Doutorado. Juliano Carrupt do Nascimento é antes de tudo um apaixonado leitor e militante do saber, e se isso já se verificava em sua publicação anterior – O negro e a mulher em Úrsula, de Maria Firmina dos Reis (2009) –, acerca da desconhecida romancista maranhense, agora se mostra de maneira mais pujante e abrangente, na medida em que o autor percorre com fôlego a bibliografia crítica dedicada a Varela, inserindo seu trabalho nesta como nova e admirável contribuição. Como Juliano também é um pensador do Ensino Médio, sua crítica literária não dissocia a sala de aula universitária da secundária, fato verificável em seus eloquentes questionamentos: “Qual a imagem da vida e da obra de Fagundes Varela que nos chegam via veículos institucionalizados de ensino e aprendizagem da poesia nacional, tais como livros didáticos, ensaios e pesquisas históricas de cunho teórico e crítico? Ou, qual a situação de seu público e local de fala, nos XIX?”.

Os meios oficiais de comunicação e as redes sociais diariamente nos trazem a notícia de um mundo obscuro, tão desenvolvido quanto apegado a todo tipo de barbárie. É desse mundo estranho, gerenciado por totalitaristas – sejam ditadores ou democratas –, que se abastece O que eu disse ao General, primoroso livro de narrativas curtas com as quais Anderson Fonseca evoca cenas e personagens da política internacional para escancarar a selva globalizada. A poderosa síntese entre construção literária e referência histórica confere à obra um singularíssimo lugar na literatura contemporânea, quer pela originalidade do argumento do livro, quer pelo teor crítico estampado pelas páginas. Como exemplo, cito o irônico “Santa Ceia”, dedicado ao ex-presidente do Paraguai, recentemente deposto do cargo. Trata-se de leitura para a cabeceira da presidenta do Brasil: “O presidente amava cães. Em sua casa ele criava dez. sempre passeava com os cães, à tarde, nos jardins da casa presidencial; e a cada um alimentava. Embora fossem de linhagens carnívoras, não representavam nenhuma ameaça. Houve um dia, entretanto, que (sic) o Presidente enraivecido não deu a eles comida. Os cães, em troca, o devoraram”.

Esses quatro livros dão boa mostra da qualidade do trabalho de jovens autores no País. Agora é torcer para que a outra parte se cumpra, e que eles encontrem os leitores que suas obras demonstram merecer. Esse gol é do Brasil.

 

Marcos Pasche é crítico literário e informa que a palavra “foco” tem sinônimos na Língua Portuguesa.

 

 

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100ª Leva - 03/2015 Galeria

Foto: Gabriel Rastelli Quintão