Foto: Pedro Alles

Tudo está mesmo por um fio? São acometidos por alguma volatilidade nossos pensamentos, verbos e ações? Ao que pode parecer, sim. Conclusão afirmativa, mas sem apresentar requintes de um horizonte definitivo. No eco das horas fugidias, tomamos emprestado algum fôlego para prosseguir. Entremeando cenários, despistamos as investidas da finitude que nos ronda desde o berço. Mas viver é levar em conta a necessidade de se realizar algo, seguindo as pistas cotidianas sugeridas pelas travessias que nos se apresentam. Nunca é demais supor que o presente é a coisa mais certa de todas as coisas. O resto mergulha no fosso abissal do indecifrável. A cada ato expelido, é curioso perceber que um sentido de permanência se desloca mesmo diante de um mar de incertezas em cujas águas sempre navegamos. No universo sobre o qual flutuam as individualidades, é reconfortante saber que o mosaico do mundo é também constituído pelas dissonâncias de ideias. Disso se alimenta a arte, quando nos provoca e nos faz romper com territórios confortáveis. De tamanha inquietude bebem poetas e tantos outros criadores. No fundo, o que almejam não é a conformidade ou a harmonização dos discursos e pontos de vista, mas a perspectiva de apreender os recortes da existência como uma via de compreensão daquilo que respiram. Para nossa sorte, tais exemplos se multiplicam e, por força do acaso ou não, surgem diante de nós. É o caso de autores como Ana Estaregui, Alberto Bresciani, Victor Prado, Carolina Calvo e Adriane Garcia, que desfilam diante de nossos olhares a multiplicidade contida em seus versos. Nos contos de Lucia Fonseca, Myriam de Carvalho e Lourença Bella, testemunhamos o modo como o retratar da vida é abraçado pelo imponderável. Num diálogo regado a reflexões sobre a criação, o escritor e jornalista Claudio Parreira concede uma entrevista a Sérgio Tavares. W. J. Solha escreve sobre “Glacial”, novo livro de poemas de Jorge Elias Neto. O novo disco do rapper Criolo é contemplado pelas linhas de Larissa Mendes. O filme “Relatos Selvagens” é destaque da resenha de Bolívar Landi. A partir do Prêmio Nobel de Literatura, Rodrigo Conçole aborda algumas relações entre o teatro e o mercado editorial no Brasil. Entrecortando as expressões de nossa nova edição, uma exposição com os desenhos e pinturas da artista plástica mineira Cristina Arruda. Na 97ª Leva da Diversos Afins, uma nova gama de leituras se faz presente. Aproxime-se, caro leitor!
Os Leveiros
Victor Prado

(sem título)
É estranho dormir
sem os cachorros latindo.
É estranho esse exercício mental
de relembrá-los.
Me acostumei a dormir sozinho no escuro
mas o silêncio é excruciante.
#
…..Teu silêncio sem matéria
………..é excruciante
………..(Teu silêncio sem corpo)
#
…..Sem corpo teu silêncio possui órbita
…………………………..em torno de mim.
***
O mundo regira infinito
enquanto eu canto refrigérios pra acalmar
minha alma
eu desmonto desse potro-tempo
dessa comiseração que são as lembranças
são esmolas
e me deixo acomodar no aconchego
me deixo definhar esperando
a gente cansa de esperar, (mas tá demorando pra isso acontecer comigo)
Então saio,
pra me esconder
***
Movimento Dialético
Faço-te bruscas lembranças,
aquelas de nascentes,
antes de desembocar
no teu sentido.
E tinham estradas de terra
que cortavam o fundo da casa.
Nessa hora nem te sei,
Mas é fato que as formigas ensinavam minúcias
e mapeávamos juntos as árvores.
Demorei-me com coisas digitais,
Quando voltei-me ao manual
já haviam asfaltado as imaginações.
Procurei-te
Sem mapas
Pra facilitar
O caminhar.
Tu estavas repleta,
Despi-me de tudo que carregava
e te envolvi,
Então, o mundo se reconstrói
protuberâncias divisadas.
Tu és sequoia
e de ti surgem cataclismos em vermelho.
***
Epifania 3
…tudo que carregava era pouco. desse pouco, tudo era poroso. e essas frases em branco continuam a aparecer. próprias, conscientes de si e de sua abrangência descontextualizada.
…me vejo andar. ando e me vejo andar. a consciência é mais forte que o fazer.
…não é momento, nem passagem. não é um mito. nem um ritual. não é porra alguma.
…as fendas se abrem.
…eu caio, despenco: aceito.
…te submeto. te encaminho. te mando pelos correios. por sedex. com aviso de recebimento e tudo mais. me despeço, despedaço. extravio.
…desmantelo, e nem mesmo sei onde se encaixam as lacunas, os nós, os conchaves. nem mesmo sei o que é desmantelar.
…entendo bem de inutilidades, desmoronamentos, laços, maquinações, permanências e substantivações.
…o centro de tudo é consequência, por isso generalizações se formam na minha continuidade e as pausas necessárias remontam céus azuis de dias regulares. tudo isso para que o fio da meada não me perca como perco a mim em botões de repetitivas funções padronizadas e opções limitadas.
…a gente é cópia. transmutação; sei a prática. nossa teoria é sombra embaixo dos pés.
Victor Prado tem 19 anos, é do interior de São Paulo. Reside em Franca (SP) e cursa Relações Internacionais na UNESP. Tem poemas publicados pelo Canal SubVersa, Revista Grito, Portal Guata e Jornal RelevO, além de uma menção honrosa no XV Concurso Nacional de Poesias – Edição Álvares de Azevedo realizado pelo CBE. Em outubro de 2014, lançou para leitura e download gratuitos o e-book de poesia Mamute (edição independente).
Por Larissa Mendes
CRIOLO – CONVOQUE SEU BUDA
Três anos se passaram e Criolo – codinome de Kleber Cavalcante Gomes – permanece honrando as raízes africanas do pai (meu lado África, aflorar, me redimir) e subvertendo a candura cearense da mãe (é que eu sou filho de cearense/a caatinga castiga e meu povo tem sangue quente). O álbum com nome de mantra é o terceiro registro de estúdio do rapper e um dos mais aguardados do ano. Lançado em novembro e novamente produzido por Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral, ambos integrantes de sua banda, o disco está disponível para audição e download gratuito no site do artista. O trabalho comprova o amadurecimento sonoro do homem com olhar de profeta, que quase abandonou a música antes de gravar o impactante Nó Na Orelha (2011).
É preciso lembrar que no ínterim de um álbum e outro, o músico lançou o CD/DVD Criolo & Emicida – Ao Vivo (2013), filmado todo em GoPro (vencedor do 25º Prêmio da Música Brasileira), além de canções para projetos específicos. A exemplo de seu antecessor, as 10 faixas de Convoque Seu Buda (Oloko Records) continuam aproximando o rap aos mais diversos ritmos, como samba, reggae, soul e até mesmo ao baião. Criolo não só imprimiu definitivamente o gênero na música popular brasileira, como dividiu o palco com alguns de seus maiores expoentes, como Caetano Veloso, Ney Matogrosso e Milton Nascimento, comprovando que, de fato, não existem barreiras para sua poesia.

A faixa-título, o rap-oriental Convoque Seu Buda (ao trabalhador que corre atrás do pão/é humilhação demais que não cabe nesse refrão) abre o álbum invocando Shiva, Ganesh e demais deuses para que mantenham nossa fé e equilíbrio diante do panorama atual. A letra incisiva de Esquiva da Esgrima (hoje não tem boca pra se beijar/não tem alma pra se lavar/não tem vida pra se viver/mas tem dinheiro pra se contar) mantém a tônica social, tecendo críticas que vão do racismo ao abuso de autoridade: é o ‘céu da boca do inferno esperando você’. O contagiante soul setentista Cartão de Visita – um dos momentos mais ensolarados do álbum –, parceria com Tulipa Ruiz, discorre sobre o consumismo-ostentação e relembra com bom humor a controversa entrevista concedida a Lázaro Ramos no programa Espelho, do Canal Brasil (Lázaro, alguém nos ajude a entender!), que virou meme na internet. Casa de Papelão (prédios vão se erguer/e o glamour vai colher/corpos na multidão) aborda a especulação imobiliária do centro de São Paulo, enquanto o samba Fermento pra Massa (eu que odeio tumulto/não acho um insulto manifestação/pra chegar um pão quentinho/com todo respeito a cada cidadão) – que bem poderia integrar a roda do Pagode da 27, nos domingos do Grajaú –, discute as manifestações populares.
Enquanto o reggae Pé de Breque (o Criolo Doido respeita o rastafári/e pede licença pra poder cantar/essa nossa teoria secular/és responsável por tudo que cativar) celebra o estilo Bob Marley de ser, o baião Pegue Pra Ela tem um quê de Chico Buarque e deixa qualquer um com vontade de puxar seu par para dançar. A densa Plano de Voo (e por mais que eu tente explicar, não consigo/de tornar concreto abstrato que só eu sinto/é como se eu ficasse aqui nesse cantinho/vendo o mundo girar no erro abusivo), que flerta com o hip hop de Ainda Há Tempo (2006), seu primeiro álbum, tem a intervenção do rapper Neto (Síntese) e atinge o clímax do álbum. Duas de Cinco (e eu fico aqui pregando a paz/e a cada maço de cigarro fumado/a morte faz um jaz entre nós), lançada inicialmente em 2013, em EP homônimo, faz as honras para ‘tombar o mal de joelhos’ no experimentalismo regional de Fio de Prumo (Padê Onã), que tem participação de uma onipresente Juçara Marçal e fecha o álbum no melhor estilo africano.
É notável que o discurso de Criolo está cada vez mais contundente e aprimorado para além da crueza periférica. Em sua poesia abstrata, ele responsabiliza a miséria, a inveja, o desamor e principalmente o consumo de drogas pela falência do ser humano. E cita ainda a depressão como “a peste entre os meus”. Os arranjos estão cada vez mais experimentais e ousados, assim como a arte do álbum, que se apropriou do acervo digital liberado pelo Museu Nacional da Holanda (Rijksmuseum) para construir uma bela colagem, onde a figura central é um oficial da Corte da Ilha de Java (Indonésia) de saiote, pintado a óleo, em 1820, por um artista não identificado – e que se assemelha muito ao rapper.
Em tempo: assisti o terceiro show de lançamento da nova turnê, no teatro do Sesc Vila Mariana, em São Paulo, que contou com os convidados especiais Síntese, Tulipa Ruiz e Ricardo Rabelo (Pagode da 27) e afirmo que Criolo continua em perfeita comunhão com seu público. Ao final da celebração – como costuma chamar seus espetáculos –, o artista recebeu calorosamente os fãs. Posso dizer que o abraço apertado do messias do Grajaú conforta e abençoa. Convoque Seu Buda é o relicário do ano e Criolo não passará tão cedo.
Larissa Mendes não é uma pessoa de muitas crenças, mas ainda acredita no ser humano.
O teatro e o mercado editorial: um olhar a partir do Nobel de Literatura
Por Rodrigo Conçole Lage

Quando Mo Yan conquistou o prêmio Nobel de Literatura de 2012, tivemos a publicação de um de seus livros, Mudança, traduzido direto do chinês. O fato de Alice Munro ter conquistado o Nobel em 2013 teve um impacto muito maior no mercado editorial, como podemos ver pelos muitos títulos publicados posteriormente. Com Patrick Modiano, em 2014, não tem sido diferente. A editora Rocco vai relançar três obras que já estavam esgotadas há muito tempo e outras editoras irão publicá-lo também.
A partir disso, podemos dizer que o fato de um escritor receber o Nobel de Literatura tem impacto no mercado editorial, despertando o interesse das editoras. Anatole France, Thomas Mann, Ernest Hemingway, Albert Camus, Jean-Paul Sartre e outros ganhadores tiveram um grande número de livros publicados no Brasil e, hipoteticamente falando, também poderão ter sido “beneficiados” pelo fato de terem sido premiados, algo a ser devidamente estudado.
Contudo, quando olhamos para os dramaturgos que receberam o Nobel, vemos que o mercado editorial nem sempre os acolheu com o mesmo interesse. Das mais de sessenta peças de José Echegaray, foram traduzidas, por R. Magalhães Júnior, apenas a Mancha Que Limpa e A Morte Nos Lábios, as quais estão esgotadas há décadas, o que é muito pouco. No que se refere a Jacinto Benavente, não foi diferente. Das mais de cento e setenta peças escritas por ele, foram traduzidas, também por R. Magalhães Júnior (um dos mais importantes tradutores de teatro do Brasil), somente Os Interesses Criados e Rosas De Outono, também esgotadas.
Maurice Maeterlinck, importante nome do teatro simbolista, também teve somente duas de suas peças traduzidas: O pássaro azul, por Carlos Drummond de Andrade, e Peléas e Melisanda, por Newton Belleza. Do importante dramaturgo Gerhart Hauptmann, também temos somente duas traduções: Michael Kramer, de Herbert Caro, e a de Os tecelões, de Marion Fleischer e Ruth Mayer Duprat.
Harold Pinter foi ainda menos valorizado, pois a única peça traduzida, por Millôr Fernandes, foi A Volta ao Lar. Outras peças foram traduzidas apenas para o teatro, nunca tendo sido publicadas em livro. Da imensa produção teatral e teórica de Dario Fo, temos somente as peças reunidas no livro Morte Acidental de um Anarquista e outras peças subversivas (que inclui História de uma tigresa e O primeiro milagre do menino Jesus), tradução de Maria Betânia Amoroso, e o livro Manual mínimo do ator, traduzido por Lucas Baldovino e Carlos David Szlak.
Elfriede Jelinek e Mario Vargas Llosa têm uma importante obra teatral, principalmente Elfriede, mas as editoras brasileiras têm se concentrado em seus romances e não publicaram nenhuma de suas peças.
Dentre os dramaturgos, George Bernard Shaw foi o mais traduzido, com mais de uma dezena de peças (Pigmaleão, Quatro peças curtas, O homem e as armas, O altruísta, O discípulo do diabo, Santa Joana, A profissão da senhora Warren, Aventuras de uma negrinha que procurava Deus, Major Bárbara, A Conversão do Pirata, O homem do destino, Casa de Orates, Matrimônio Desigual e César e Cleópatra). Contudo, as traduções não correspondem à metade de sua produção.
T. S. Eliot teve todo o seu teatro traduzido por Ivo Barroso para o segundo volume de sua Obra completa, publicada pela editora Arx (2004). Eugene O’Neill foi outro dramaturgo com várias traduções (Longa jornada noite adentro, Quatro peças, Além do horizonte, Dias sem fim, Desejo, A juventude não é tudo, Piedade cruel e Electra enlutada).
William Butler Yeats também teve seis peças traduzidas por Paulo Mendes Campos, publicadas no livro Teatro da Coleção Prêmio Nobel, e O Poço do Falcão, traduzida por Fernanda Mendonça Sepa no livro O Teatro de William Butler Yeats – teoria e prática.
Albert Camus tem uma produção teatral pequena, seis peças, sendo que quatro foram traduzidas (Oração para uma negra, Calígula, Estado de sítio e Os justos). Jean-Paul Sartre também foi bem traduzido (As moscas, Entre quatro paredes, A prostituta respeitosa, As mãos sujas, Os Sequestrados de Altona, O diabo e o bom deus e As troianas).
Luigi Pirandello tem uma grande produção teatral, contudo, as seis traduções existentes (Seis personagens à procura de um autor, Os Gigantes da Montanha, O Enxerto: o Homem, a Besta e a Virtude, O Marido de Minha Mulher, Assim é (se lhe parece), Vestir os nus e Liolá) correspondem a uma pequena parte de sua dramaturgia. As traduções têm se concentrado principalmente na sua obra ficcional.
A produção teatral de Samuel Beckett também foi pouco traduzida (Esperando Godot, Fim de Partida e Dias felizes), diante da importância de sua obra. As editoras também têm se concentrado em sua ficção.
Por fim, podemos dizer que, com algumas exceções, a dramaturgia dos ganhadores do prêmio Nobel de Literatura não despertou o interesse das editoras. Mesmo os que o despertaram foram, com o passar dos anos, esquecidos e a maior parte das traduções está esgotada. Isso, em parte, se deve ao fato de que o público leitor contemporâneo não tem o hábito de ler textos teatrais, e do próprio papel secundário que o teatro exerce na contemporaneidade.
A leitura teatral não tem sido incluída no processo de formação dos leitores, e mesmo o público frequentador de teatro não tem por hábito a leitura de peças teatrais. Consequentemente, o mercado editorial dedica pouco espaço à publicação de textos teatrais, seja de traduções, seja dos grandes nomes do cânone da literatura brasileira.
Rodrigo Conçole Lage é professor de história. Possui artigos e resenhas sobre Literatura e História publicados em revistas acadêmicas.
Myriam de Carvalho

Monção
Este ar irrespirável. Quente. A chuva, o vento. Pela janela, olha a agitação que vai no Mar de Java. Onde ela veio parar.
Que raio de homem, maldito anúncio, maldita a hora em que respondi. Mais temível que a aproximação da monção, mais asfixiante que a atmosfera sulfurosa do Krakatoa que ainda paira sobre a cidade, a tempestade que ele veio cravar na minha vida. Uma mulher nativa, e uma concubina – o que eu vim encontrar. Vá para o inferno – mais a posição, o exército, a carreira, e mais o dobro da minha idade. Alcoólico. Violento. O que é que eu faço? Meus dezanove anos, que mal empregados…
Mas ela não perde tempo. E esta sensualidade esculpida nos deuses e deusas que bailam nos portais e paredes dos templos hindus, o corpo é sagrado, o amor para ser completo, tem rituais a cumprir.
Gostei do templo de Krishna. Experimentar a escola do templo. Aprender as tradições, tudo o que é daqui. As danças, a música, é que me fascinam.
Regresso à Europa. Decide-se. O divórcio.
Paris é e será sempre a cidade dos exílios famosos, dos grandes recursos. A cidade das artes, do livre pensamento. Lady MacLeod. Um nome exótico, bom para uma amazona de circo. Ou uma modelo de artistas. Usar o nome do ex-marido? Que é que isso importa? Funciona. Funciona muito bem. Mas não chega.
Começa a ganhar fama como bailarina exótica. Vê que pode competir com Isadora Duncan, ou Ruth St Denis. Toda a gente vai procurar inspiração à Ásia, ou ao Egipto.
Felizmente, não perdi tempo enquanto estive em Jakarta. “Princesa de estirpe sacerdotal, educada nas artes hindus desde a mais tenra idade”. Oh, como fui prevista. E como o público gosta de ser enganado!
Mata Hari, o olho do dia, ou do sol, na realidade, o sucesso das noites. A ostentação do corpo com uma mística única, a cativar o público em geral, e um mundo mais privado, restrito, cada vez mais no círculo dos poderosos, quanto mais abastados, melhor.
Quem na Europa está preocupado com as longínquas Índias Orientais Holandesas? A história que eu conto não oferece dúvidas.
*
E a tômbula da fortuna vai novamente desandar. Ninguém ignora que quando se sobe com tanta avidez, se desce com grande estrondo. Antes da guerra, era vista como uma artista livre, independente, boémia. Mas agora, à medida que a guerra se aproxima, começam a falar da artista. Libertina, devassa, promíscua. Pior, uma perigosa sedutora.
Os seus apoios começam a afastar-se. Olho-me ao espelho, e só confirmo que a idade começa a notar-se… Ai a beleza vai-se-me diluindo.
As suas deslocações através da Europa, em tempo de guerra, chamam a atenção. É a cortesã das muitas altas patentes entre os aliados. É interrogada pela espionagem britânica. Diz que trabalha como agente para a espionagem francesa. Os franceses não confirmam.
*
1917. Da janela da prisão, vê a sua vida deslizar na sua frente. Sabe que não passa da folha de Outono, muito bela, do ocre ao vermelhão, mas que cai da árvore porque está morta. Ninguém a pode suster. Sabe que alguém deixa que seja acusada para se ocultar. Foi assim com Dreyfus. É o que faz ser mulher, mulher só. E essa barriga atulhada de leis, inútil e sem alma, de que é que me serve?
41 anos. Será que vivi tudo? E a soturna da sotaina, a dançar ao vento como uma bandeira negra, não me vai salvar das armas… 41 anos… Já?! Tão depressa?
***
No Café, com Mrs Robinson
Esqueci-me de apontar na agenda que trago sempre comigo o número do seu telefone. Despachei-me cedo, mais cedo do que pensava, entrei no café para lhe telefonar, quem sabe, talvez você estivesse livre, quem sabe, poderia querer descer aqui ao Café. Poderíamos dar à língua.
Mas contrariada constato que me esqueci de apontar na agenda o número do seu telefone. Não percebo por quê.
A alta-fidelidade põe no ar canções dos velhos Beatles. Quanto mais o tempo passa, mais belas são. Mary Lane. Cantam em surdina os amplificadores do Café. Abafam-lhes o som os motores dos carros que passam na rua, as máquinas das bicas*, as conversas das mesas ao lado e as do balcão. Mrs. Robinson. Acho que vivias sozinha, Mrs. Robinson. Há coisas que doem muito, na medula dos ossos da alma é que certas coisas doem. Mrs. Robinson. Onde se meteram os filhos que criaste, o homem, ou os homens quem sabe, que tu amaste?! E agora, imagina, poderia falar com este fulano, se ele estivesse livre, claro, mora mesmo aqui por cima. E depois, o que é que ele pensaria de mim?! Chiça, é melhor estar quieta, quer dizer, é uma sorte não ter aqui o telefone dele. Oh, Mary Lane, sabes muito bem como odeio os homens. Odeio os homens. E detesto as mulheres! Mesmo assim, eles ainda conseguem ser mais sofríveis do que elas. Mary Lane, nunca confies numa amiga. Nunca confies em ninguém. Olha, Mrs. Robinson, venho das compras. Ouves? É o Paul Anka. Há quantos milénios não ouvia o Paul Anka! Interessante, não é? Crazy Love.
Crazy Love. You are my crazy love. De facto, minha querida Mrs. Robinson. É mesmo uma loucura. Porque um amor morre e uma pessoa procura logo outro. Não é a força da vida, nem o tanas. É auto-destruição. Uma pessoa, enquanto tem um pouco de esperança, consome-a. Não a utiliza em proveito próprio. Consome-a, desbarata-a. Claro, é isso mesmo, destrói-se. Depois, quando fica sem nada, vem para aqui como nós, senta-se à mesa do café e fala com as cadeiras. Sabes, Mrs. Robinson, tenho pena da Mary Lane. Ainda tem esperança. Ainda tem quem lhe dedique canções de amor. Ainda tem com que se auto-embalar. Ainda não lhe bateu à porta a hora da verdade. Sweet Caroline. Sweet Caroline. Há pouco eras Mary Lane, agora és Sweet Caroline. Mas daqui a pouco serás apenas a velha Mrs. Robinson, a pobre da vizinha a quem alguém mandará um pratinho de filhós (as que sairem quebradas ou um pouco mais fritas do que a conta) no dia de Natal, coitadinha, consola-se a velhota.
Bem. Ainda bem que não apontei na agenda da minha mala de mão o seu número de telefone. Sinceramente, gosto de falar com homens inteligentes. Sabem coisas que eu não sei, pensam em coisas que eu não penso, analisam a vida com lentes que eu não tenho nem nunca terei. Aprecio isso. As mulheres não. Mas ainda bem que não apontei nesta agenda o seu telefone. Hoje, estou triste.
O meu irmão veio visitar a nossa mãe, com a mulher e o filho. Há anos que não me telefona. Não sei que bicho lhe mordeu. Foi o bicho da vida. Já lhe disse tantas vezes o quanto isso me magoa que hoje preferi ignorá-lo. Pronto. Fui às compras. Comprei muito e gastei pouco. Até me portei muito bem. Claro. Depois não tenho aonde levar tanta roupa, não vou a nada, meto-me em casa a fazer festas aos gatos, a ver o canal 7, até fico com a sensação que tive alguém a conversar comigo sobre coisas que eu gosto. Mas tudo espremido, desliga-se o aparelho, não ficou cá nada. Os gatos são mudos, os filmes dão saltos nas partes conclusivas, passou tudo muito depressa. É só tempo perdido.
Tempo perdido.
Bem vistas as coisas, meu caro, ainda bem que não apontei o seu telefone nesta agenda, não sei porquê, cheira-me a medo.
Com efeito. Imagine que você percebia como estou triste. Imagine que você se punha a pensar que eu lhe estava a pedir apoio. Qualquer coisa como apoio.
Chiça! Mil vezes melhor é ir às compras. Gastar dinheiro que não tenho, gastar tempo que me falta, comprar coisas que não preciso.
Mentir a mim própria. Imaginar que existo.
Myriam Jubilot de Carvalho, 1944, portuguesa. Foi professora. Representada em várias antologias e revistas. Divulgadora da cultura e poesia do período do Al-Andalus. Colaboradora no jornal “O Autarca”, de Moçambique. Publica no site brasileiro “Recanto das Letras”. Dois livros de poesia publicados.