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94ª Leva - 08/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Pedro Reis

 

Luciana Bignardi
Foto: Luciana Bignardi

 

Capítulo Ósseo

O travesseiro estofado de carpos e metacarpos tiritava ao movimento do crânio, me obrigando a levantar o tronco, insone. Como que por costume, viro os olhos, esperando que o breu me oferecesse alguma luz que fosse para ver o relógio a minha esquerda. O ponteiro menor permanecia entre os números 4 e 5, enquanto o maior, algo como no 36. O dos segundos, não havia, ou me despistava em sua velocidade. Esse dia haveria de ser uma segunda-feira, nada antes, nada após.

Sem olhar para o chão, evitando a vertigem, pouso os pés nas ossadas que encarpeteavam meu aposento. Ouço o estalar dos mais frágeis enquanto sacudia-os, cavando o chão por debaixo das mandíbulas a mordiscar meus tornozelos. Dou passadas firmes e lentas para não me ferir, e alcanço por fim a mesa. O relógio agora se atraiçoava atrás da nuca, e, como se não houvesse mesmo o ponteiro dos segundos, a engrenagem – podia jurar – não se ouvia.

O sono ainda ofuscava a fome daquele dia ainda não nascido, mas, sem acender as luzes, tateio as tíbias e rádios amontoados na altura de minhas canelas, à procura de algo com que ocupar os dentes. Encontro um fêmur levemente poroso e chupo um restante de cartilagem que se desprendia de sua extremidade.

Abri a primeira gaveta à direita e iniciei a checagem dos relatórios da noite anterior. Era um sem número de casualidades, anulações, aniquilações, espancamentos, mutilações, depredações e mais um tanto de hipotermias, náuseas, vômitos, tremores, cefaleias, mal estar, cansaços, dores musculares, diarreias e outros sintomas inespecíficos a preencher páginas e páginas lidas com um desconforto causado por aquela restolhada que assomava à minha cintura, me perfurando o tecido das calças, beliscando as coxas.

No intuito de libertar minhas pernas do acúmulo de escápulas, quase derrubo minha caneca de leite deitada à mesa. Era uma caneca longa, resistente e impecável, feita com um tipo de cerâmica incomum. Naquela segunda-feira, ela me era perfeita.

Já não sinto mais meus pés. Afogados naqueles restos extintos, não consegui movê-los e nem imaginar-lhes a situação. Minha cama certamente foi tomada pelo ajuntamento que me anavalhava as axilas, tilintando entre si ao mais leve movimento. Salvei os arquivos dentro das gavetas antes que estes fossem também engolidos, e levantei da mesa a inseparável caneca, prontificado a dar o último gole.

Com muita dificuldade sacrifiquei meu queixo e orelhas aos arranhões dos xifoides e sacros que me feriam o pescoço, e olhei novamente para o relógio escondido na bruma. O ponteiro menor, o das horas, se encontrava entre o 4º e o 5º número, enquanto o dos minutos era afogado por fíbulas, talos e mediais. Tive de cuspir alguns trapezoides para libertar minha boca ao derradeiro gole que me descia aos lábios. Com um rápido movimento dos dedos, pude ao menos limpar meus bigodes. A cor do leite se camuflava na cerração, enquanto me queimava a língua. Era negra, e tinha gosto de cinzas.

***

 

Matéria Assombrada

Acordo sem abrir os olhos. Aquela mão que me sobrevoa a testa e os cabelos tenta desviar-me do sonho anterior. Há como resgatá-lo, mantendo os olhos fechados. De uma carícia tão leve acima das sobrancelhas, não poderia sequer culpá-la, pois há anos não sonho, ou não lembro. Sigo a contar. Tenho uma vantagem em relação a minutos atrás, enquanto dormia. Meio desperto, acalentado por mãos pacientes, atento com clareza à história que se passava em minha cabeça, e posso controlá-la, controlar-me, com cuidado mover cada cor e gesto.

Havia uma ilha, cuja sinuosidade da costa se esticava de um lado a outro sem ceder à sua curvatura de contornos marítimos comuns às ilhas. E mesmo eu, ali pela primeira vez, a sabia ilha, talvez mais que ela. Sabia de sua cabeleira de folhas imitando com o vento o sussurro do mar, desajeitada, e que de seu topo pendiam pessoas, de lá nativos milenares. E olhando em direção a ela, com sua folhagem, com seus galhos colidindo entre si no balanço constante, guerreando espaço no universo acima da areia, tão úteis contra as chuvas, vejo que não rebatem a luz. Uma floresta espessa, mas tão clara quanto o litoral, refratava perfeitamente o sol. Sobre as árvores, não havia sombra.

Lembro-me intruso nesta ilha. Sim, mas não hostil, nem hostilizado pelos nativos. Quando, há cinquent’anos, cheguei aqui, vi do alto, despencando aos mil, os moradores daquele lugar. Aproximaram-se amigáveis, e de seus corpos, como que libertos do arco solar que acima clareava o dia em que cheguei, não possuíam também sombra alguma.

Mas talvez o mais interessante seja o modo como me olharam pela primeira vez. Seus olhos tinham uma cor chamuscada, não a cor baça dos cegos, mas uma queimada, fogueira morta, pela exposição perene durante o dia. Começavam a passear-me em volta, e contornavam cuidadosos a minha sombra indiferente. Uns mais corajosos chegavam muito perto dela, com os pés e as mãos e os olhos e as crianças, mas por medo não a tocavam. Alguns começaram a brincar com ela, pulavam de um lado a outro, enquanto eu ria. Vi alguns mais velhos reprimirem as brincadeiras, e seus olhos sem expressão se abriam inseguros. Minha sombra doía naqueles olhares.

Diferente das aventuras que li quando criança, não fui feito prisioneiro e muito menos fizeram festa pela minha presença. Puxado pelas duas mãos pelos nativos mais jovens, fui acolhido, sim, mas como um amigo mudado pelos anos, suficientemente distante para que qualquer tipo de rancor ou confiança se tivesse dissolvido no tempo. Para eles eu era um ser virgem, de natureza intocada. Eles me levaram por trilhas entrecruzadas na floresta, necessárias apesar da claridade que tonalizava de esmeralda reluzente o teto sobre nós.

Não havia palavras de agradecimento. Havia descoberto muito cedo que não havia palavra sequer por ali. Tive que adequar meus pensamentos aos gestos com os quais eles me envolviam durante os dias e as noites, enquanto as horas passavam, e eles passeavam a minha volta, numa ciranda lenta, comandada pelo sol, girando a minha sombra e consequentemente, eles. Queria falar para eles sobre o tempo, mas não pude.

Assustavam-se quando ela mudava de tamanho, se afinava e esticava quando o sol nascia ou se punha, e enfraquecia nas noites de lua. Pude jurar uma saudade naqueles olhos, olhando para ela. Via os mais velhos apontando os dedos para a sombra, explicando segredos para os mais novos de olhos curiosos. Perguntas curiosas sobre aqueles assuntos eram constantes, mas não conseguia tradução para os gestos que se seguiam, e permaneci ignorante àquelas histórias. Eu não tinha permissão de entrar nas moradas construídas nas alturas. Eles tinham medo de que minha sombra tocasse seus pertences, e pela primeira vez em vida tive de andar guiando minha sombra pelo tempo e pelo espaço da ilha.

Até o dia em que os mais velhos começaram a ficar sérios. Não frequentavam as histórias que eu gesticulava durante o dia, e começaram a acordar no meio da noite, sobressaltados por visões bizarras e escuras e incômodas. Não durou muito até eles chegarem a alguma resolução em relação a mim, e isto eu já esperava, dada a franqueza daquele povo.

Era final de tarde quando o grupo, representado pelo ancião de nome ingesticulável, iniciou diante de mim um complexo de movimentos, me explicando da forma mais clara e alentadora possível que eu precisava me desfazer da minha sombra. Dei um passo para trás, olhei para ela, para eles, para além das fronteiras de contornos marítimos. E com minhas mãos incipientes à comunicação dos assombrados, perguntei como poderia fazer o que eles me pediam.

Naquele mesmo instante, todos me guiaram até o litoral, de forma que minha sombra me seguia fina e enorme a minha frente, devido ao sol poente às nossas costas. Eles começaram um coro agudo e dissonante que se dissolveu em segundos nos meus ouvidos. O medo me ensurdeceu, meus pés se enterravam na areia, sem querer seguir em frente, a ponta da minha sombra quase a tocar a espuma branca daquele que a engoliria.

Eles colocaram a mão em meus ombros, me olharam enquanto cantavam e minhas lágrimas rolavam e meu peito doía e minhas pernas não mais me obedeciam, automáticas que estavam em direção ao mar. Minha sombra tocou as ondas fracas e calmas que forravam a areia molhada, dispersando os seus limites escuros no abismo. A metade dela já tinha seu destino para além das minhas reflexões, mas não sentia nada senão amor.

Quando senti a água fria nos calcanhares, já era noite, e afora o sopro das ondas e do coro eterno de meus companheiros, um coro que me espantava as memórias, vi centenas de olhos pálidos reluzirem em direção a mim. Todos eles me sorriam com os olhos, em círculo em volta do novo membro.

Mas em incertas manhãs, quando durmo com as marés, distante das árvores, tenho sonhos revestidos de saudade, e chego a sentir uma mão a me acariciar os cabelos, num gesto de calma e segurança. Se esta mão pertence a minha sombra antiga, nunca saberei. Sempre preferi manter os olhos fechados e a dúvida.

 

Pedro Reis (1987) mora atualmente em São Paulo. Lançou os contos Gorilas e As borboletas de meu pai pelo portal Cronópios, tendo participado também da Contologia, lançada pelo portal em 2012. Os contos Trancelim, Mosca Diuturna e Desejo você encontrará no periódico Diversos Afins. Com o conto Midas, entrou na Antologia de Literatura Fantástica, lançada pela Fliporto no final de 2012.

 

 

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94ª Leva - 08/2014 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Bolívar Landi

 

O Grande Hotel Budapeste. EUA/Reino Unido/Alemanha. 2014.

 

Grand Budapest

 

Wes Anderson consolida em seu mais novo trabalho, O Grande Hotel Budapeste, o estilo virtuoso e inconfundível de sua direção. Percebemos em cada enquadramento e movimento de câmera, em todo figurino e ambientação o toque minimalista de sua presença. Ele não é apenas o diretor, mas arquiteto, maestro, mágico que materializa um mundo fantástico, ao mesmo tempo onírico e real, povoado por personagens fascinantes.

Anderson tem se revelado um excelente contador de histórias. Temos aqui uma história dentro da própria história, deliciosamente relatada pelo enigmático proprietário do Hotel Budapeste. Cria-se um tom de confidência que vai envolvendo os espectadores, cada vez mais atentos e ávidos por desvendar os misteriosos acontecimentos do decadente, e outrora glorioso, Hotel Budapeste e dos excêntricos indivíduos que fizeram parte de sua história.

O filme se passa no período entre as duas grandes Guerras em Zubrowka, uma fictícia república do leste europeu. Ralph Fiennes personifica, de forma impecável, Monsieur Gustave H., o extremamente zeloso gerente do Grande Hotel, responsável por cada mínimo detalhe em seu estabelecimento (neste aspecto, uma espécie de alter ego do próprio diretor). Toda a trama da película gira em torno de um misterioso assassinato e da atribulada disputa por uma vultosa herança.

A produção conta com um elenco admirável, confirmando o prestígio do diretor no meio artístico. Além de Fiennes, Tillda Swinton, Adrien Brody, Jude Law, Owen Wilson, Williem Dafoe, Jeff Goldblum, Harvey Keitel, Léa Seydoux, F. Murray Abraham, entre outros, compõem personagens inesquecíveis. Alguns em pequenas atuações, mas com um desempenho sempre marcante. Edward Norton e Bill Murray, que participaram da última incursão cinematográfica de Anderson, Moonrise Kingdom, aparecem aqui, expondo o apreço do diretor em estabelecer parceria com seus atores preferidos, o que se configura em mais um elemento de identidade de sua obra.

 

Ralph Fiennes e Tony Revolori - Foto - divulgação
Ralph Fiennes e Tony Revolori / Foto: divulgação

 

O instigante e bem elaborado roteiro, coassinado por Hugo Guinness e Wes Anderson, é livremente inspirado na obra do austríaco, de origem judaica, Stefan Zweig, que durante a 2ª Grande Guerra utilizou o Brasil como um dos seus locais de refúgio. O escritor, encantado com a beleza de nosso país e com a miscigenação de nosso povo, foi quem primeiro cunhou a expressão “Brasil, um País do Futuro” (1941). Zweig vem a falecer em Petrópolis (RJ), em 1942, vítima de uma profunda depressão que o levou, conjuntamente a sua esposa, ao suicídio. Os escritos de Zweig e a pompa do Grande Hotel acabam servindo como uma contundente metáfora da própria Europa entre guerras, “um mundo de requinte que estava à beira do desaparecimento”.

A trilha sonora original, composta por Alexandre Desplat, é outro aspecto que merece destaque. Ela se inspira em músicas folclóricas russas e óperas clássicas e se adequa muito bem à proposta do filme, conferindo ritmo e uma grande dinamicidade à película. O filme foi lançado no Festival de Berlim em 2014, onde Anderson foi agraciado com o grande prêmio do júri, o Urso de Prata, por sua direção. A obra vem sendo considerada por uma expressiva parcela da imprensa como um dos melhores filmes do ano, sendo apontada como um dos fortes concorrentes ao Oscar.

Este talvez seja o filme mais popular do diretor. O clima de mistério e o ritmo, bem mais ágil que o verificado em produções anteriores, contribuem para prender a atenção do espectador. Há cenas de perseguição, fuga e tiroteios… Tudo isso embalado por um humor refinado e criativo. As falas são perspicazes e o ambiente, embora fantasioso e exagerado, não tem a intenção de criar meras caricaturas, mas busca captar a dimensão humana sob um novo aspecto.

O estilo de Anderson, entretanto, não é um consenso de público e crítica, não que desmereçam a sua obra, nem poderiam, mas estranham a sua excentricidade e o excessivo esmero que confere à lapidação do seu trabalho. Contudo, não é apenas a história ou os personagens ou o ritmo da trama, mas sim a forma, a estética (alguns falam de simetria) o que encanta o diretor. Para Anderson ela é mais uma linguagem, com seus signos e significados próprios capazes de despertar sensações únicas aos que conseguem apreender a sua mensagem. Isto se traduz em uma forma nova de contar algo, em um enquadramento novo, em diferentes perspectivas… Esta coragem de arriscar e produzir algo que fuja do convencional já seria em si um grande mérito e justificaria que dispensássemos um pouco de nosso tempo para conferir o resultado. Mas a obra vai além, produzindo um conjunto coerente e harmonioso, extremamente saboroso para os sentidos.

 

 

Bolívar Landi é formado em Comunicação Social e História, permanentemente encantado com a capacidade do cinema de reunir em um só espaço múltiplas linguagens e expor confidencialmente as minúcias da alma humana.

 

 

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94ª Leva - 08/2014 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

É PRECISO…

Antologia Cosmopolita de Oleg Almeida: uma leitura crítica

Por Marcelo Moraes Caetano

 

Antologia Cosmopolita

1

“O público justifica, em si, o trabalho do escritor” − alerta-nos, no pré-texto, ainda não apócrifo sob o talante mascarado do sujeito poético, Oleg, em primeira pessoa não lírica.

“O público justifica, em si, o trabalho do escritor.”

Mas o que é este “trabalho” do escritor? E, ainda mais sibilino, o que é o “público”?

O que é o trabalho do escritor é uma pergunta cuja resposta, se existe, até hoje não logrou ser satisfatoriamente empanzinada, como gostaria de ser. Sísifo (perpétuo), metonímia de todos os trabalhos das tripas (de que é cognato o substantivo assustador) que se expressaram após a expulsão do Éden, se me perdoam o hibridismo de mitologias aqui perpetrado com insídia. Tântalo famélico e sequioso, o escritor oferece aquilo que, muita vez, não possui. Rabelais sem banquete, Petrônio desprovido de Trimalquião, sussurrando loquaz a pergunta: “… quid putas inter Ciceronem et Publilium interesse? Ego alterum puto disertiorem fuisse, alterum honestiorem. Quid enim his melius dici potest?”ii

 O que faz um escritor, do nadir ao zênite das suas façanhas, talvez possa ser bosquejado em desterradas linhas: ele transita. Desenraizando-se a cada palavra que expele, o escritor não procura verdades: procura aventuras. Mundos, vastidões, confortos passageiros, mares e marés (trocadilho duplamente acentuado), navegar é preciso, viver não é preciso.

O escritor é o Odisseu que foi à guerra de Troia. O escritor aposenta-se ao tornar-se o Ulisses que retorna do repto e do libelo em busca do regaço do lar de Penélope e Telêmaco. Ílion é o palco do escritor; Ítaca, sua insopitável sepultura. Lembraram-me aqui as últimas palavras evoladas do grande Edvard Grieg, em seu berço de morte: “Bem, já que deve ser assim…” Trata-se praticamente do suspiro de um Mozart estepário de Hesse com quem Oleg, aliás, dialoga conflitantemente sob a polifonia de seu antípoda prototípico, Salieri.

Desenraizado que é, o escritor só pode vir a ser um eterno viajante cosmopolita. E cosmopolita dos mais graves: habita não apenas os ecúmenos, mas também os inóspitos. Não apenas as pólis e as urbes do orbe, mas também as quimeras e as fendas do cosmo. O escritor é antológico necessariamente, porque vive “Antes” (e “Diante”) do “Logos”. Habita enquanto houver diálogo, dialética, duelo, dualidade, desestabilidade concertante. Ao se instaurar a paz, irmã da pasmaceira, o escritor arruma novamente sua mala parcimoniosa e retira-se com pouco pão e muita mão para outros campos nunca idílicos, mas (com o outro inevitável trocadilho) campos ilidíacos. Ilíada é a terra do escritor, esteja ela onde estiver. O escritor vive em busca de Ílion. A Ilíada, e não a Odisseia, configura o tipo de Odisseu-Ulisses que o escritor consegue (nem sempre sem sofrimento) ser. James Joyce talvez nem desconfie da superficialidade intrínseca ao labor poético de escrever que fulgura em sua sado-masoquista novela gigante.

O escritor é um dos livros perdidos da Poética, de Aristóteles. Ponto de lacuna entre o Fedro e seu desprezo platônico-socrático pela escrita e a Gramatologia desconstrutiva de seu epígono, Jacques Derrida, amante da luxúria da letra grafada.

O trânsito que se instaura sob os pés e as talarias do escritor poderia dardejar-se do esquecimento à memória; e da memória ao esquecimento. Como um pêndulo de Foucault que Umberto Eco prognostica, muitas vezes mais cartesiano do que assume ser, o escritor viceja as antíteses resguardadas sob a campânula do ser humano. O símbolo inevitável que a palavra (sobretudo a palavra escrita) alberga em seu imo existe tão somente como síntese entre a tese da memória e sua fatídica e feérica antítese, o esquecimento. Croce e Cassirer diziam, de modos diferentes, que somos, afinal, “animais simbólicos”, sintagma que, francamente, me soa como o atestado derradeiro de que somos, em resumo, seres como centauros, sereias, reais e fantásticos.

 Fato e fada se casando qual Oberon e Titânia, rei e rainha dos seres mágicos, todos eles, de Shakespeare. Lembrar e esquecer, morrer e viver, Eros e Tânatos, Mnemósine e Letes. De tudo bebe um pouco o escritor, Orfeu em busca de sua Eurídice.

Mas muitas vezes é preciso frisar que se fala, aqui, do escritor, não do homem. O homem pode ser um perfeito Odisseu beijando a fiel Penélope com um púcaro de vinho adriático avermelhando rechonchudas azeitonas jônicas. Certamente Homero previa a dualidade (a dicotomia?) escritor/homem nas duas obras que deixou como legados maiores à humanidade. Feita a ressalva, sem mais haver o que se fale acerca dela, sigamos.

O escritor estabelece-se entre a desconfortável posição alçada pelo cientista e a mais desconfortável ainda composição alçada pelo artista. Já disse eu e aqui repito, para cravar uma vez mais o que é este lugar de buscas: o cientista observa para ampliar fronteiras, e o artista amplia fronteiras para observar. E vice-versa.

O responsável por este pêndulo incessante é precisamente o escritor. Não o filósofo, o trovador, o menestrel, o aedo, o bardo, o rapsodo, o orador, o sofista, o retórico, o músico, mas o escritor. Aquele que empunha a pena e grafa, como o bico de um corvo de Edgar Allan Poe, as negras letras plúmbeas e emplumadas sobre a palidez impávida e imaculada de Palas Atena. Há mesmo uma gota de sangue em cada letra, parafraseando a Bandeira manuelina.

O escritor é um eterno retorno. Por isso antológico inelutável. É o infatigável forjador de trocadilhos entre a ciência e a arte. O trocadilho é a arte da vida. Já dizia o Millôr, tão Fernandesmente quanto o Pessoa, que até Jesus se curvou ao trocadilho e mais de uma vez foi jocoso, como na epigramática sentença que estabeleceu: “Tu és Pedro e sobre esta Pedra edificarás minha comunidade”. Com efeito, diga-se em tempo, assim como nem Sócrates nem Buda, Jesus tampouco escreveu uma linha, porque todos esses queriam que coubesse ao escritor, posteriormente, a arte de criar ciências, com seus símbolos eivados de memória e esquecimento, daquilo que seus mestres falaram, apenas falaram, o fôlego da posteridade. Antologia cosmopolita acerca-se desse fôlego a que somente se acorre quando há o intercurso entre o escritor e seu leitor, cheios de cumplicidade. (Ah, sim, há outra ressalva: consta que Jesus uma única vez escreveu, mas inexatamente na areia, para que sua escrita gratuita fosse apagada pelas dionisíacas ondas do mar de Tiberíades ou da Galileia. A maré esqueceu aquela escrita).

Bernardo de Chartres, arquiteto da proverbial igreja (talvez basílica) com cujo topônimo compartilha o sobrenome, dizia: “Somos anões empoleirados nos ombros de gigantes. Assim, vemos melhor e mais longe do que eles, não porque nossa vista seja mais aguda ou nossa estatura mais alta, mas porque eles nos elevam até o nível de toda a sua gigantesca altura…”

O escritor, posto que é chama, é um alquimista: eterno enquanto dura.

Aqui talvez tenha eu respondido, de modo momesco e muito despretensioso, a segunda questão aberta há momentos, não sei se com tal intenção, por Oleg: o que é o “público” vertido por nosso autor ora esquadrinhado?

O público é tão pouco, tampouco, dizível quanto o é o trabalho do escritor. “Trabalho” e “público” permanecem, para deleite da imortalidade, irrespondíveis. Se a entropia do homem é muito menor do que a entropia da humanidade, dir-se-á sem exagero que a obra escrita é o fuste que toca a trave entre a eternidade e o tempo. Sabe-se, desde Jorge Luís Borges e antes, muitos séculos, dele, antes mesmo de Hermann Hesse ou de Nikos Kazantzakis, que o público sabe da eternidade do escritor, porque o público sabe ler.

E ler − alerta-nos Oleg ainda sem o cinzel que nos emprestará − “ler é regar as sementes da imortalidade”.
Dito isso, prossigamos à Antologia cosmopolita que temos em mão, em que as diversas línguas com que foi escrita acusam não o homem de gabinete, senão sim o boêmio passarinho que voa de Victor Hugo à América num estado eterno de alquimia, transe, libertinagem e ebriedade, loquaz e tímido como um Deus, intocável e gentil como um Sátiro.

2

Como anunciado no meu prólogo sobre esta Antologia cosmopolita, Oleg incute em seu estro dois elementos ora dicotômicos, ora dialógicos: o trabalho e o público. Incessante é o diálogo entre essas duas instâncias da criação artística; onipresente, a disputa de forças − por vezes empatada − dessas duas realidades.

 A obra transita, como aliás disséramos sobre o próprio poeta, pelos dínamos inquietos do desenraizamento, pelo “enérgon” e pelo “érgon”, ”Tätigkeit” e “Werk”, como diria Humboldt, “Processo” e “Produto” numa Estrada mestra em que a Questão crucial não se estagna nem na “infância”, nem na “paciência”, nem no inferno, nem mesmo no “clímax”, mas numa nostálgica Rapsódia outonal, em que a vernaculidade de Oleg transborda inexorável na esperança, na convicção e na ousadia de que

 

“[….]
tudo ainda está por vir,
e o futuro não fica longe demais,
e tu ainda retornarás para mim,
minha Musa indócil!” (Do poema Rapsódia outonal).

 

Há certo conflito temático, petardo do livro, que nos torna cúmplices do estranhamento tão ao sabor russo de Chklovski, em que a arte, como procedimento que é, guinda-se aos foros da mimese aristotélica em convergência com a “différAnce”de Derrida (palavra que sói ser traduzida como “diferência”, mas que eu, com anuência de duas de minhas orientadoras, Julia Kristeva e Élisabeth Roudinesco, traduzo com o blasfemo e herético vocábulo, qual o é em francês derridiano, como “diferenSa”).

 Esse conflito temático, que, por sinal, é também formal (isto é, fundo e forma encontram-se numa arena incessante, como a “serpente que morde seu rabo” do poema Estrada mestra), chama, clama e reclama à luz a necessária polifonia que Bakhtin atribuiu como elemento intrínseco não apenas ao texto literário, mas a todo e qualquer gênero discursivo cuja (tautológica) missão seja comunicar e expressar.

 Assim é que o desabrido e inocente sujeito poético pode sofrer por uma Musa indócil que ainda não retornou eternamente de vez, ou padecer a saudade de seu único amigo brasileiro, que na verdade é portenho, indefeso e frágil. Mas também não é paradoxal que desse mesmo sujeito poético evolem críticas acerbas e cínicas sobre o mistério da gênese bíblica entre o macho Adão e a fêmea Eva.

 Nem são gladiadores inférteis aqueles que voejam sobre os Alexandrinos (aliás, os primeiros gramáticos a coligar as engrenagens de funcionamento de um idioma à estética da criação literária, pois antes deles a gramática não passava de “speculum” ou “modus” do pensamento humano) e The american night, pragmática como uma “latrina” e uma latinha de “coca zero”, porque, afinal,

“[….]
tudo ainda está por vir,
e o futuro não fica longe demais,
e tu ainda retornarás para mim,
minha Musa indócil!” (Do poema Rapsódia outonal).

 

Por outro lado, somos cooptados a estranhar semioticamente o rigor parnasiano, quase beatífico (com a precisão de uma “beata Suíça” prenunciada em poema anterior), de uma Profissão de fé, poema em que há rimas, muitas vezes esquemas rímicos (o AABB) e estrofes isométricas de quatro versos cada uma, numa metalinguagem digna de Bilac, Alberto de Oliveira, Raimundo Correia, Vicente de Carvalho, Teófilo Dias, Francisca Júlia, Lisle, Banville, Gautier, Cesário Verde… Aqui, a metalinguagem, como ocorre com a franquia das “profissões de fé” parnasianas, tergiversa sobre o ofício de escrever, lugar provisório de que se falou tanto no prólogo a esta pequena leitura crítica, lugar entre o esquecimento e a memória, de onde emerge o símbolo que nos molda como seres quiméricos, animas divinos, céticos e místicos que somos.

 Sobre o estrato tecnológico do uso da palavra, pode-se observar uma tríade presente na obra. Trata-se de um sistema poético em face dos postulados de três epistemes linguísticas distintas e complementares que perpassam a história da linguagem e da literatura: a estrutura da “língua comum” ou logocêntrica; o avanço proporcionado à concepção de língua e linguagem que o advento e desenvolvimento dos estudos em Estilística fomentaram com seu novo foco; a revolução da visão de língua e linguagem como “forma de vida” e de semanálise da própria natureza humana.

 As epistemes acima mencionadas podem ser resumidas respectivamente como 1) teoria representacionista ou logocêntrica (em que a língua é vista como objeto dissociado do sujeito, precipuamente, instrumento unívoco de comunicação deste último); 2) língua com intencionalidade estética ou estilística (em que objeto e sujeito, no ato linguístico, já não se distinguem com tanta contundência) e 3) língua como “forma de vida” (em que sujeito, discurso e objeto já não se dissociam).

 Salientamos como exemplos da episteme 1) poemas como Grande elegia portenha, Palestra de botequim e The american night. Ilustram a episteme 2), dentre outros, Balada da minha infância, Ladra d´almas e Balada duma casa antiga. A episteme 3) se deixa representar pelos três poemas sem título da obra, e por outros como a Rapsódia outonal, os Cyberpoèmes/Ciberpoemas, Questão crucial.

 Explicitemos um pouco cada uma dessas três epistemes, buscando deixar clara a perspectiva de leitura crítica empreendida nesta resenha, no plano da forma e do conteúdo, expressos na linguagem, cujo centro será ora perquirido.

 Em primeiro lugar, a teoria representacionista, ou perspectiva semântica clássica da língua, é aquela que a observa como instrumento nomeador, logocêntrico, unívocoii, de que são expoentes nomes como os acima citados, além de Aristóteles, Santo Agostinho, o Wittgenstein 1 (autor de Tractatus Logico-Philosophicusiii) e outros.

Em seguida, a língua analisada segundo a intencionalidade autoral de se propugnar pela estética ocorreu com a intermediação proporcionada pelos estudos em Estilística. Aqui, a língua possui objetivo literário, poético, há predomínio da parole sobre a langue (de onde provém a noção básica de “estilo”) e funções que vão além da comunicação unívoca (que é a função referencial, de uso congelado, denotativo, como ficou acima explicitado), partindo-se, também, à concepção da língua como elemento de polissemia, afetividade e expressividade (cf. Bally), estranhamento (do russo ostranenie, cf. Formalismo Russo). A língua apresenta, nesta episteme, pois, outras funções para além da meramente referencial, como funções de “manifestação psíquica”, “apelo” (cf. Bühler)iv, que foram depois renomeadas como, respectivamente, “função emotiva” e “apelativa ou conativa”, e mais as funções “poética”, “fática” e “metalinguística” (cf. Jakobson), com expoentes do Círculo de Praga, da Escola de Genebra, Martinet.

Por fim, a terceira e última episteme que parece subjazer de modo sucinto à obra é a que advém do movimento mais incisivo e revolucionário na língua, um corte teórico, metodológico e epistemológico em que se observa língua/linguagem como “forma de vida”, proveniente do Wittgenstein 2, autor das Investigações Filosóficas, ou de Benveniste, quando afirma, por exemplo, que a língua não é uma invenção humana, um instrumento, como a roda, que auxilia nas tarefas da natureza, mas é a própria natureza humanav. Ademais, essa concepção de língua em que objeto, discurso e sujeito estão intrinsecamente ligados, aponta, também, para a importância tão proeminente na fala quanto na escrita, com ênfase no fazer poético-literário, focalizando, ainda mais de perto, a emergência e preeminência de significantes que, por exemplo, Derrida lhes atribui ao valorizá-los como os elementos por onde se deve iniciar a análise da língua ou langue. Aqui, destacam-se nomes como o Wittgenstein 2, Nietzsche, Kristeva, o último Barthes, autor de Elementos de Semiologia, Benveniste, Foucault, Deleuze, Auroux, Todorov, Silviano Santiago, Sartre, além dos teóricos da psicanálise ou da psicologia analítica, como Freud, Lacan e Jung.

 Em Oleg Almeida, a longa narrativa épica com laivos poéticos, ou o longo poema narrativo com laivos épicos, como salientou Affonso Romano de Sant´Anna ao sopé da obra, de fato se mescla, em sua liberdade libertina, ao ourives meticuloso e obcecado em seu sacrossanto espartilho de aço e seda. Assim é que, mais uma vez, na Balada de uma casa antiga, vai-se-nos deparar o proverbial “vaso chinês” e o mesmo ofício parnasiano que requer e solicita “caneta, tinta e papel!”. Em seu irmão, à moda de Esaú e Jacó, a Balada de minha infância, no entanto, há um sujeito poético municiado de crítica e agudeza, em cuja alma não reside o batel de ingênuos artífices da palavra e do remate d´ouro, mas sim a centúria dos cínicos à maneira de Maquiavel e Diógenes, ressentindo não a perda do sonhador e ledo Púchkin, mas a perda da leviandade capaz de digerir o escárnio alheio, talvez…

Enfim, os vinte e um poemas (desdobrados em outros tantos) que constituem a obra não se atrelam ao compromisso com um lugar fixo, nem no que tange ao tema, nem no que tange à técnica, nem no que tange ao papel epistêmico da linguagem. Há em comum entre eles apenas a paternidade de Oleg e a maternidade da palavra escrita.

 

i … qual é, a teu ver, a diferença entre Cícero e Publílio? A meu ver, um deles é mais eloquente, o outro mais honesto. Pode-se dizer algo melhor que isso? (Petrônio, Satíricon, LV).

 

ii “Assim, a vontade de clareza perseguida pela comunicação humana a exigir que ‘a um signo dado não correspondesse mais que uma significação e que, inversamente, uma ideia não se traduzisse mais que com um signo’” (Charles Bally apud Costa Lima).

 

iii O fato de se fazer a menção, no corpo desta resenha, dos títulos de obras somente de alguns autores se dá pelo fato de que são autores que mudaram radicalmente as concepções filosóficas em suas obras, verdadeiros Arquitextos, como diriam Charaudeau e Maingueneau. Assim, por exemplo, é comum falar-se em Wittgenstein 1, o autor do Tractatus Logico-Philosophicus, que via a língua como Aristóteles, Frege, Santo Agostinho, i.e., logocêntrica, nomeadora. Já o Wittgenstein 2 é o autor das Investigações Filosóficas, em que a língua aparece como causa e consequência, a um só tempo, do que o autor chama de “jogos de linguagem”, numa acepção muito mais próxima da perspectiva literária, pragmática, observadora da linguagem, pois, como forma de vida, intrínseca à natureza humana e de nenhuma forma dissociada desta como no par sujeito (homem) versus objeto (língua), o que será apresentado com mais detalhes neste projeto.

 

iv O austríaco Bühler foi além da função nomeadora ou de representação ou referencial da língua (Al. Darstellung), chegando às funções de apelo (al. Appel) e manifestação psíquica (al. Kundgabe), a que foram acrescidas, pelo Círculo de Praga e os semanticistas das escolas de Estilística (a partir, por exemplo, da Escola de Genebra, fundada por Charles Bally, aluno de Saussure e um dos compiladores do Curso de Linguística Geral, e outros), as funções fática, poética e metalinguística.

 

v Segundo Benveniste, coube a Freud o mérito de unir sujeito, objeto e meio numa só fonte: o paciente. Assim, o objeto do analista é o sujeito, e a análise é feita por intermédio do discurso, que é o meio pelo qual sujeito/objeto se apresenta. Essa concomitância de sujeito, objeto e meio (discurso) é, para Benveniste, uma das provas de que a língua é a própria vida do ser humano, e que não há nada que não seja subjetivo no objeto homem-língua, e que, portanto, já não se podem distinguir três categorias distintas no ato discursivo, senão uma única, que é a própria vida.

 

Marcelo Moraes Caetano é escritor, cientista e músico profissional, premiado no Brasil e no exterior. Doutor em Língua Portuguesa, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e da rede universitária transnacional IBMR Laureate International Universities. Autor de 21 livros publicados: A clara de ovo (2003), Romances de entressafra (2005), Gramática normativa da língua portuguesa (2007), Cemitério de centauros (2007), Gramática reflexiva da língua portuguesa (2009), Caminhos do texto: produção e interpretação textual (2010), entre outros. Titular da Comenda e Medalha de Vermeil (2011), atribuídas pela Academia das Ciências, Artes e Letras de Paris.

 

 

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94ª Leva - 08/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Anderson Fonseca

 

Luciana Bignardi
Foto: Luciana Bignardi

 

A Tarde

O Sol descansou a cabeça nos seios da noite rosada. As garças levantaram voo e se tornaram negras no âmago de um círculo intensamente amarelo. Quando o amarelo desbotou-se em laranjas, morangos e violetas, o Mar sussurrou seu nome. As garças lançaram-se do mar de cima ao mar de baixo e limparam o negro de suas penas. No interior do mar de baixo outro céu se abriu e era azul como o mar de cima.  Um cardume desgarrou-se dos dedos do oceano e foi agarrado pelas presas do vento. O vento levou consigo o perfume das águas até desmanchar-se nas cabeleiras de pedra. E a sombra pousou úmida e fria sobre a cabeça do pescador sentado, à beira do mundo, num torrão de areia, e ele, entregando-se à tarde, adormeceu.

 

***

 

 

O Corte

Éramos 30 homens, 15 mulheres e 12 crianças, espremidos num quarto. O general no dia anterior disse que faria um corte. Cada um especulou quem estaria na lista. Citaram-se nomes, números de identificação. Não sabíamos e a expectativa era atormentadora. 24 horas depois que o general nos tinha avisado, a porta se abriu, era bem cedo.  O soldado ordenou a saída apenas das mulheres e dos homens, as crianças ficaram no quarto. Caminhamos até o pátio. O general perguntou a idade de cada um e separou os mais novos dos mais velhos, depois pela data de nascimento a partir do menor número ao maior. De um lado do pátio estavam os homens, do outro as mulheres, divididos entre dois grupos: jovens e idosos. Um soldado aproximou-se do general carregando uma pequena caixa, dentro dela estavam as datas de nascimento de cada um de nós. A mão entrou na caixa e retirou um papel e, em seguida, a voz metálica disse:

– 14.05.56. Dê um passo à frente.

Novamente a mão entrou na caixa.

– 20.09.89. Um passo à frente.

As datas foram: 31.06.75, 20.07.93. 04.08.86, 03.05.94, 12.01.68 e 23.10.80.

Dois soldados puseram-se no meio dos convocados, eram quatro de cada lado.

O general disse: – Hoje vocês receberão o privilégio da compaixão do Estado. Não sofrerão mais. Serão libertados. Abaixem suas cabeças e recebam da Lei e da Justiça o perdão. Vocês serão cortados da lista de culpados.

O 03 abaixou a cabeça, depois o 04, 12, 14, 20, 23 e 31. Passou-se meio minuto e os dois soldados iniciaram o rito do perdão. Os que sobraram voltaram para o quarto à espera de um novo corte.

 

Anderson Fonseca nasceu em 1981, no Rio de Janeiro (RJ). Professor e crítico literário, é também um dos editores da revista de contos Flaubert. Publicou Notas de Pensamentos Incomuns (contos, 2011) e Sr. Bergier & Outras Histórias (contos, 2013). Organizou a antologia Veredas – Panorama do conto contemporâneo brasileiro (2013). Vive atualmente na cidade de Brejo Santo (CE).

 

 

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94ª Leva - 08/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Simone Teodoro

 

Foto: Luciana Bignardi

 

Dança lunar

 

O vento lambia
O mar em nós.

Eu singrava o mar em ti,
Dilatando os sais
De tuas paredes aquosas.

Cristais de areia
Feneciam
Sob as fibrosas esquinas dos joelhos,
Os meus,
Onde mora, inexpugnável,
Das quedas, a memória.

Sofrer de ausência tua
Em plena noite
De dança
De luas
Recém-descobertas!

Depois que choro
Troco de pele.

 

 

***

 

 

Jardinagem II

 

O jardim era belo
Visto por qualquer passante.
Visto de qualquer ângulo,
era incrivelmente belo.

Tulipas
Gérberas
Miosótis
E cravos.

De qualquer ângulo,
Não havia dúvida.

Mas não para quem
ousasse se deitar
Entre os canteiros.

Não para quem
atraído pelo pulsar das cores
enxergasse o jardim pelo avesso

ao se aproximar demasiado
deixando o olhar escorrer
por um caule
até encontrar
sob a umidade da terra
fixadas
monstruosas raízes.

 

 

***

 

 

Pedra

 

Súbito
um pedaço antigo de tempo
irrompe em meu peito
E transforma
em ruína de ti
meu coração contrafeito

 

 

***

 

 

Profanação na teia

 

Tirar a roupa dela
enquanto vermelha lua arde.

Romper cascas, desfiar casulos.

Contrair-me em
aracnídeo  inseto

Patas e pelos, perfurar
a pele profanada

E ela se contorce toda
presa em minha teia:
Era pétala amputada
tornou-se flor inteira.

 

***    

 

 

Distraídas astronautas

 

O céu sempre me pareceu
tão masculino
todo azul
e com um deus morando  dentro

(segundo as narrativas da mãe
quando eu ainda era o inchaço em seu ventre
e captava sussurros
pelas viscosidades da placenta).

Um deus de barba branca
no trono, ela dizia.
Trovejante voz paterna
ordenando o alternar dos dias
e das estações e dos tons de azul
do céu
que sempre me pareceu tão masculino
Porque lá tinha um trono.
Porque lá tinha uma ordem.
Porque lá tinha um grito.

Mas então vem a lua
e um império inteiro desaba.

Odores de fêmea
umedecem os ares.

A lua, inchada
como a barriga da mãe
quando me contava mentiras

A lua, pálida ou vermelha
ou quando uma sombra ameaça
sua estranha claridade.

E de perto (bem de perto)
-Por dentro-
Uma profusão de chagas escancaradas
Crateras
sobre as quais
distraídas astronautas
de tempos em tempos
vêm pisar
alargando feridas
fincando bandeiras
enlouquecendo
Para, em seguida,
desaparecerem para sempre.

 

Simone Teodoro nasceu em Belo Horizonte em 1981. É leitora compulsiva de poesia. Distraídas Astronautas (Patuá, 2014) é seu livro de estreia.

 

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94ª Leva - 08/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Myriam de Carvalho

 

Luciana Bignardi
Foto: Luciana Bignardi

 

POETRY

 

Though the rainbow is richly-coloured,
It will soon fade away.
Milarepa

1.

“Quem boa cama fizer, nela se deitará”
– Provérbio português

 

Hoje é dia 10 18
Data que me traz à rija têmpera
das palavras,
das mais doces às mais duras,

As minhas palavras são temperadas
como o ouro, como
o aço,

As minhas palavras são deusas consagradas,
da linhagem dos sentimentos os mais puros, mais
profundos, mais complexos, mais
sentidos,

Que as palavras são para ser amadas!
Entrego-me ao poder das palavras
como àquele único amante que me eleva
às âncoras onde se fundem corpo e alma.

As palavras são para ser amadas!
Com as palavras se salva ou se condena,
com as palavras se escraviza, ou se liberta,
com as palavras se louva, ou se despreza,

ou se ama,
Com as palavras se escolhe o destino –
a vida – ou a morte –
como quem faz a cama

 

 

2.

 

“Tão pobres somos
que as mesmas palavras nos servem
para exprimir a mentira e a verdade”
Florbela Espanca

 

A minha guarda não me larga.
Fétida, pútrida, maninha.
Algemada, a coragem que se apaga…
– Amanhã – dizem a mãe e a madrinha

– é outro dia; dorme agora,
descansa em paz, na brasa dos
grelhados. Deixa lá, que se tiveres a
tua hora, ela virá buscar-te a casa.

– Mas vem, Tu, vem de mansinho
como quem venha de longe… E
com jeito e com carinho,

de facto, vem me acordar!
Que urge o tempo que lá vai,
e eu nasci para Te cantar!

 

 

3.

 

 

A Mão escreve; e tendo escrito,
Vai embora; e nem tua piedade nem teu espírito
Lhe farão apagar nem uma linha
Nem lavar uma palavra, esses teus gritos.
Omar Khayyam

 

Preciso de palavras.
Para cumprir
os versos que me faltam.

Cadela esfaimada – acossada pela ramona –
a farejar migalhas,
cada rio, cada onda, árvore, ou nuvem – um oásis,

Cada momento
a sós contigo,
uma visão

 

 

4.

 

“É só com sangue que se escrevem versos”
Saúl Dias

 

Versos,
minutos,
momentos dispersos.
E a mulher-poema ambulatório,
eterno –
a comoção nos olhos –
caixeira-viajante, estrela
cadente,
clériga-vagante,
garimpeira de esmeraldas,

A carne
à procura de um ninho,
E só o Poema
abre o caminho

 

 

5.

 

Han Shan poems were written on bamboo, wood, stones, and cliffs.

Escrevemos nas rochas antiquíssimas da montanha gelada, nos troncos doridos das
velhas sequóias, dos embondeiros, testemunhas das dores da Terra,

Escrevemos na areia da praia, na espuma das ondas, que nos moldam as mãos, na
frescura das ervas, que nos moldam os dedos, nas nuvens que passam e nos moldam
os sonhos,
Escrevemos nas corolas humildes das flores silvestres, nos ramos dolentes dos
salgueiros, nas bordas das canoas, na água das ribeiras, nos juncos das margens.

Escrevemos na chuva, no vento, no verão, no inverno, na luz e no drama, em qualquer
momento,

Escrevemos na pele dos tambores, nos silvos dos comboios, nos sinos dos
campanários, nas sirenes das fábricas, nas marchas forçadas, nas fugas e retiradas, nos
campos minados,

Escrevemos porque dói a pele mirrada das crianças a quem roubaram o pão,
Escrevemos porque dói a mão ensanguentada das feridas das guerras,
Escrevemos porque dói os refugiados, condenados sem causa.

Escrevemos porque olhamos os ponteiros do relógio, atentos à declinação do sol.

Escrevemos porque amamos.
A Escrita é a comunhão dos xamans
– fundidos todos no fluir do Tempo

 

Myriam Jubilot de Carvalho, 1944, portuguesa. Foi professora. Representada em várias antologias e revistas. Divulgadora da cultura e poesia do período do Al-Andalus. Colaboradora no jornal “O Autarca”, de Moçambique. Publica no site brasileiro “Recanto das Letras”. Dois livros de poesia publicados.

 

 

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94ª Leva - 08/2014 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Dizer que Pernambuco, com sua multifacetada expressão artística, ocupa um lugar mais do que especial na cena cultural brasileira é revisitar uma condição que certamente muitos já sabem de cor. Desde manifestações populares até os ímpetos mais modernosos, a música daquele estado guarda relações cada vez mais universais e reforça uma dinâmica que vai de dentro de si para o mundo. Com os matizes peculiares de suas paisagens, a cultura pernambucana pode falar de suas ambiências a qualquer habitante desse nosso complexo planeta. E o interessante é perceber que, apesar das distâncias geográficas com outros recantos mundanos, o espírito das coisas vividas e manifestadas na via musical pode perfeitamente comungar com o pensamento de quem quer que seja.

Por trás das cortinas da virtuosidade, a capital Recife abriga artistas também comprometidos em não somente expandir as fronteiras de seus trabalhos, mas principalmente dotá-los de uma consciência crítica capaz de repensar o caos. Nesse aspecto, os chamados independentes, dada a sua condição de desbravadores de espaços, conhecem com propriedade o significado do que seja resistir ao tempo e aos ditames dum modelo fonográfico desgastado e desigual. E assim vão conduzindo seus trabalhos, tendo como mote a coerência presente em suas trajetórias pessoais. Um dos novos representantes dessa perspectiva lúcida de manifestação é o cantor e compositor Ricardo Chacon. Integrante de uma geração disposta a arregaçar as mangas e viver intensamente o ofício musical, Chacon traz em si uma visão bastante aguçada dos temas que compõem seu meio. Quando nos concede a entrevista que agora segue, sabe falar não somente dos caminhos que o motivam a seguir adiante, mas sobretudo da forma como vislumbra um cenário ideal para si e seus pares.

Em 2008, Ricardo Chacon, ao conceder, juntamente com Piero Bianchi, uma entrevista para a Diversos Afins, já dava mostras dos voos que pretendia alçar com sua carreira. Àquela época, o assunto girava em torno de seu primeiro disco, Terra Papagali Coffee Shop, trabalho que marcou de modo especial sua caminhada pelo fato de representar um consistente resumo de brasilidade. De lá para cá, outros trabalhos se desenvolveram, a exemplo do EP Chacon (2010) e o single Nonsense (2012). No meio dessa jornada, há que se considerar também o projeto conduzido com a banda Nós4. Mas ao chegarmos ao momento presente, vemos um artista profundamente comprometido com novas maneiras de se comunicar com o público. E isso fica bem claro quando escutamos Chaka Nigths, álbum que acrescenta ao rock do artista recifense uma pitada de psicodelia. Tal como é possível perceber do seu testemunho, Chacon se mostra pronto a dar continuidade a seu caminho. Com opiniões sinceras, enxerga seu tempo nitidamente, certo de que, apesar dos entraves vividos, elegeu a melhor maneira de respirar o ar que lhe foi confiado pela vida. Por aqui, fica o testemunho de toda essa atmosfera.

 

Chacon, divulgação - por Bruno V. Guimarães
Ricardo Chacon / Foto: Bruno V. Guimarães

 

DA – Antes de se chegar num determinado estágio, um artista sempre traz na bagagem as vivências de outras eras, sobretudo quando elas apontam para um projeto consistente já realizado. E aqui podemos falar na experiência marcante com o disco Terra Papagali Coffee Shop, álbum que revela virtudes duma brasilidade. Qual o legado maior desse trabalho para sua carreira?

RICARDO CHACON – A musicalidade do disco, acho, foi o maior legado deixado. A junção dos ritmos, os artistas que reunimos. Acho que a própria parceria musical entre mim e Piero, o momento que a gente vivia musicalmente, acabaram contribuindo para isso. Ousamos fazer esse disco, usamos as nossas economias e montamos uma viagem incrível, levando sempre conosco uma base gravada ainda em Recife. Foi um trabalho bastante rico, muito percussivo, muito brasileiro. Acho que o aprendizado desse disco, de todo o processo de gravação, é o que trago comigo.

DA – Depois do Terra Papagali Coffee Shop, a sua afirmação enquanto músico ficou impregnada de desafios mais complexos? 

RICARDO CHACON – A gente sempre busca algo novo, criar algo diferente, e depois do Terra Papagali busquei me encontrar, achar minha música ainda mais. O processo de gravar um disco é algo que consome você de uma forma, que você quer fazer aquilo novamente. É sempre um desafio expor algo, colocar para fora as músicas. Há sempre um grande aprendizado por trás disso.

DA – Ao chegar em Chaka Nights, seu mais novo disco, você aposta num caminho mais ligado ao rock, sobretudo com uma atmosfera de nuances psicodélicas. Como se deu o processo de concepção do álbum

RICARDO CHACON – Tive a ideia de fazer esse disco em 2010, mas não tinha dinheiro. Então gravei um ep com quatro músicas, chamado EP Chacon. Montei uma banda e fizemos alguns shows. Então, começamos a trabalhar novas músicas nos ensaios, junto com a banda, e foram surgindo os primeiros arranjos, até gravarmos o primeiro single, Nonsense. Foi uma fase difícil, porque fazer disco sem apoio e sem grana é muito desgastante. Consegui terminar o disco com muita dificuldade. E o som dele tem muito a ver com o momento e com os músicos que me ajudaram na produção. Busquei parcerias para as letras, já que não quis, nesse disco, escrevê-las. Foquei mais nos acordes, os poucos que eu sei…

DA – Diante daquelas dificuldades que você passou, infelizmente comuns à maioria dos artistas, esse disco surge como uma espécie de tentativa de se manter firme no ofício?

RICARDO CHACON – Eu precisava fazer esse disco e passar por todas essas dificuldades. Tudo para eu aprender cada vez mais e entender também o mercado atual. Como havia dito anteriormente, era algo que precisava fazer e fiz. Não pretendo passar por isso, sozinho, novamente. Um dia espero ter um bom material para mostrar para os meus filhos, e que outras pessoas também possam conhecer mais os meus trabalhos.

DA – Na sua tentativa de entender o mercado musical, a que conclusões chegou?

RICARDO CHACON – Percebo uma dificuldade muito grande de se conseguir meios que te deem acesso a recursos para financiamento dos projetos. Desde o Terra Papagali, buscamos participar dos editais, mas pelo menos aqui em Pernambuco sempre são as mesmas pessoas que conseguem ter acesso ao recurso, pessoas e produtoras que vivem de todos os anos “arrumarem” um projeto para obter o recurso, enquanto outros artistas que não têm certo perfil são ignorados pelas curadorias, muitas delas viciadas em aspectos que acabam desmotivando jovens produtores e músicos. Poucas bandas, com bons trabalhos, é verdade, quase todo ano aprovam recursos, às vezes altíssimos, e muitas vezes nem dão continuidade ao projeto. Em Pernambuco, é absurda a forma como as curadorias trabalham, sem levar em consideração o esforço de quem nunca conseguiu qualquer recurso público e sempre fez tudo do próprio bolso. Repito, apenas poucos têm acesso, os mesmos iluminados, escolhidos por critérios duvidosos e mil interesses. Pessoas e produtoras que todos os anos aprovam projetos e vivem dos recursos que deveriam ser mais democratizados.

DA – De alguma forma, a cena musical de Recife, quiçá Pernambuco como um todo, está dividida em antes e depois de Chico Science?

RICARDO CHACON – Chico, sem dúvida, resgatou algo muito forte, principalmente nos músicos da nova geração. Não muito diferente das grandes cidades, surgiu um movimento muito forte de novos artistas com diversas linguagens, num primeiro momento seguindo o formato de banda com percussão de maracatu. Mas junto com ele veio Mundo Livre, Otto, Eddie, China. Não menos importante, temos a influência gigante de Alceu e Lenine, que também sempre estão por aqui. Pernambuco é realmente um estado em que a todo o momento surgem novas bandas, buscando o que Chico fez: criar uma música, uma identidade, uma batida que é nossa, com nosso sotaque. Hoje o experimentalismo e a psicodelia estão superando um pouco o uso das alfaias, que passaram a soar meio clichês. Também tem muitos grupos que tocam música instrumental, naquela linha mais de trilhas de filmes. Pensar no movimento mangue é pensar muito plural porque também impulsionou novos cineastas e designers, ou seja, realmente revolucionou. Desde lá, ainda não houve outro movimento que realmente tenha causado tanto impacto, mas continuam tentando. Enfim, esse nosso país continente e seus diversos estados e culturas e “personalidades”.

ChakaNights, a banda - por Tiago Calazans
Chaka Nights, a banda / Foto: Tiago Calazans

DA – Somos um país que carece de vanguardas?

RICARDO CHACON – Fabrício, eu sinceramente acho que não. O que falta é espaço mesmo para essas vanguardas. Em algumas situações, também acho meio forçado alguns movimentos, repetições apenas do que já houve. Volta e meia, aparecem “novos baianos” (não necessariamente baianos), mas sem uma qualidade como os originais. A mídia e os espaços estão voltados para músicas de momento e de jabá. As rádios, que sempre foram canais de escoação de novas músicas, hoje estão também voltadas às músicas internacionais. O que resta ainda são festivais e editais. Mas como te falei, a mentalidade radical dos curadores em busca da “vanguarda” acaba por tirar a oportunidade de pessoas com talento em favor de outras que não são de verdade como aparentam ser. Não acredito que isso seja um problema apenas daqui de Pernambuco, onde muitas bandas e artistas bacabam desistindo de criar por falta de apoio. Se houvesse realmente uma política de incentivo que acabasse com a mamata que alguns têm de todo ano aprovarem algo, artistas e produtores viciados nesse esquema, outros que nunca tiveram acesso poderiam ter vez. Às vezes, ou melhor, muitas vezes, você até consegue fazer um disco, mas falta grana para uma divulgação, prensagem de cds, ou para fazer uma tour por algumas capitais. Hoje, os artistas autorais são verdadeiros heróis. Poucos mesmo ganham algo com sua arte, tendo que tocar na noite ou trabalhar no comércio, ou qualquer bico que aparecer. Nunca irei achar isso normal. Nosso país é desumano, as políticas públicas são logo corrompidas, sempre em favor de poucos. Quem já sabe como usufruir delas, não cede para os novos. E por isso nossa música está enfraquecida. Pouca coisa nova realmente aparece e tem continuidade muito por conta disso.

DA – Diante desse cenário, e como costumamos testemunhar o vaivém de ciclos, acredita que chegaremos num ponto no qual um novo e alternativo modelo possa surgir?

RICARDO CHACON – Como te falei, existem tentativas como foram o fora do eixo, coletivos, etc. As vanguardas sempre irão surgir ou, neste momento, estão acontecendo. Mas o mercado mudou, tudo caminha para novos modelos de distribuição dos discos, das músicas. Hoje é só jabá, muita grana para as assessorias caríssimas te divulgarem e pouca demanda, a não ser que a música toque numa novela da globo ou que a banda apareça em um dos seus programas. Mas às vezes nem é o que realmente almejamos. O que realmente queremos da música é podermos pagar nossas contas dignamente e ter apoio, sem cartas marcadas. Ou será que é só no futebol que acontecem os 7 a 1 da vida? Não, definitivamente.

DA – O fato de voltar a tocar na noite trouxe outros sentidos para sua carreira?

RICARDO CHACON – Eu, na verdade, sempre toquei na noite, foi a minha escola desde sempre. E assim toquei meus projetos paralelos, sem precisar de grana pública, principalmente durante a Nós4. Depois que a banda parou, em 2012, foquei no meu novo disco e busquei trabalhar mais nesse mercado, mas não tive apoio na minha cidade. Os festivais daqui não me deram espaço pelo preconceito. Preferiram artistas que forjam uma vanguarda, alguns até sem disco gravado, ao invés de valorizar o meu esforço e ouvirem meu trabalho, sem qualquer recalque. Por isso, em 2014, foquei em reconquistar meu espaço na noite pernambucana. Precisava voltar a ganhar dinheiro para pagar as contas. Mas a obra está aí. Quem sabe um dia irão ouvir melhor o Terra ou o Chaka Nights, sem qualquer preconceito porque não faço a linha vanguarda forçada. Sou de verdade.

DA – Há planos concretos para um possível retorno da Nós4?

RICARDO CHACON – Nada concreto, apenas sondagens.

DA – Muitos artistas, sobretudo os independentes, têm aderido à prática do crowdfunding como forma de bancar seus discos e projetos. Mais do que uma perspectiva de sobrevivência, essa realidade aponta para uma negação ao modelo imposto pela indústria fonográfica tradicional? Há muito mais por trás disso?

RICARDO CHACON – É um modelo interessante para quem tem um público ou para quem consegue de alguma forma mobilizar uma galera, principalmente através das redes sociais. Mas para a grande maioria é difícil mobilizar e arrecadar a quantia suficiente. Mas não deixa de ser uma alternativa de conseguir o recurso.

DA – No caminho que vai do homem ao artista Ricardo Chacon, quais sentidos melhor definem a música em sua vida?

RICARDO CHACON – Eu tenho plena ciência da minha escolha, de seguir esse caminho de incerteza, mas também de um prazer que nunca encontrarei fazendo outra coisa que não seja cantar e estar no palco. Neste caminho, a persistência e a paciência são extremamente importantes. Como te respondi certa vez, meu trabalho não para por aqui. Estarei sempre em busca de um aprendizado maior e da verdade no meu trabalho, mesmo que isso não signifique sucesso para os outros, mas para mim estarei realizado.

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94ª Leva - 08/2014 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Munique Duarte

Luciana Bignardi
Foto: Luciana Bignardi

 

Pintassilgo

Bateu a porta e se foi. Chapéu na mão e ideias definidas. Franzino e decidido. Daria muitas voltas ainda. Sentiria falta dos perfumes de mexericas, da cama arrumada e do pão amassado de pouco. Ela, toda pequena e de olhos arregalados, não saía de perto do fogão à lenha. Cabelos enfumaçados e vestido amarelo com barra preta de tanto passar a mão de cinzas. Feito um passarinho frágil, viu o José Fulgêncio, o Pintassilgo, bater a porta. Um suspiro subiu do estômago e espetou o coraçãozinho. Mas não o deixou escapar pelas narinas. Era nova para ter suspiros. Deveria só aspirar o pó da lenha cozida. Orelhas em pé, como gato-do-mato. Ouvia todos dizerem que Pintassilgo era muito arrogante. Queria sempre as coisas do seu jeito. Ninguém poderia contrariá-lo. Diziam todos com seus chapéus ensebados, pitos acessos e gestos com mãos sujas. Mariinha, toda borboleta, não estava nem aí para nenhum deles. Feios e sujos. Escutava as conversas todas sem nem ter copo de vidro grudado na parede. Ninguém a reparava no vestido amarelo imundo. Até quando o café estava ruim as pragas iam todas para a lenha. Rodopiavam no fogo e se desmanchavam na chaminé. Ela era invisível, esquálida e empoeirada. Ratazana completando o grupo que sempre rodeava o fogão quando o calor esmorecia à noite e os sapos coaxavam. Dormia sem perigos no quartinho dos fundos. Nem cadeado precisava. Enquanto batia a mão no vestido para limpá-la e mexer na panela, ainda ouviu o último que saiu da cozinha dizer que Pintassilgo era um fracote de pernas bambas. Dali a pouco voltaria para tomar café e se esconder na aba do chapéu amassado.

Isso não aconteceu. Pintassilgo sumiu três dias e três noites. Apressado, bateu à porta de Mariinha no meio da madrugada. Morrendo de susto, abriu. Ele cheirava mal e pediu para que ela guardasse um saco para ele. Estava pesado e ela o empurrou com o pé para debaixo da cama. Quando voltou para falar com ele, era só breu. Ainda escutou com as orelhas de gato-do-mato um barulho longe nas folhagens das bananeiras cortadas. Ele haveria de voltar e o suspiro saiu pela boca com vontade e ruído. E seria no meio da madrugada, batendo na sua porta com punho de macho. Adormeceu Mariinha sonhando até despertar no dia seguinte com o vestido amarelo surrado, assoprando lenha úmida, difícil de pegar fogo. Não mexeu nadinha no embrulho do Pintassilgo. O que importava para ela era o seu olhar pequeno e preto de passarinho afugentado. Freou o suspiro na garganta. Um sujismundo já pedia café com voz deseducada. O sumiço de Pintassilgo foi assunto que se apagava dia a dia na cozinha. Mariinha não se afligia. Sabia que ele voltaria para pegar o saco pesado. Não contaria a ninguém da visita. Era borboleta mirrada desacreditada. As pragas pulavam as lenhas e se desfaziam no ar com a fumaça escura.

Com a tempestade o dia terminou mais cedo na cozinha. Mariinha sem seu ofício era vela apagada no escuro. Voltou para o quartinho e pôs lata de azeite aparando a goteira perto da porta. Chovia água morna. Deitou na cama dura com os joelhinhos para cima. O vestido ensebado escorregou pelas coxas finas. Pensava nos olhos de passarinho dele. Nem se lembrava do saco escondido debaixo da cama. Cochilou e sonhou com Pintassilgo alisando seus cabelos enfumaçados de lenha. No sonho ela estava mais bonita, mais gorda, antes ainda das tosses e do quartinho frio. Ele abria o saco escondido debaixo da cama, revolvia a terra e tirava de lá um anel dourado grosso. Era para Mariinha. Ela suspirou com força diante dele. O suspiro deu cambalhotas no ar e sumiu como grilo miúdo. Ela sorria um sorriso que vinha com força do peito. Escutou batidas na porta. Abriu os olhos assustados e foi atender. Chutou sem querer a lata de azeite esparramando água. Antes de abrir a porta, ainda escutou um barulho de casco de cavalo. Pintassilgo empurrou a porta e arrastou o saco escondido para a luz do quartinho. Sem nem olhar nos olhos da borboleta, montou no cavalo e saiu sem palavra alguma. Ainda de relance, Mariinha viu a perna grossa de uma mulher vestida de azul. Não ouve barulho de folhagem de bananeira cortada. O suspiro saiu do estômago, espetou o coraçãozinho, e se desmancharia no calor da lenha pelos próximos dias.

 

***

Ampulheta amarela

Olho por olho. Sobre os dentes, deixemos aos vampiros. A areia fina passou pelo buraco estreito correndo com pernas inacreditáveis. O grisalho apareceu ali e depois. Dentro da cabeça ainda um resto de novas tentativas. Faria tudo outra vez. Ou não. Cada um sabe o que lhe cabe dentro das memórias encardidas. No meio da selva inteira havia resto de compaixão. Um olhar mais fundo, mergulhador sem pés-de-pato.

Cada centímetro da sala, do quarto, da cozinha, da casa inteira já havia sido percorrido em noite em claro. Tentativas inúmeras. Mãos na maçaneta. Mãos à obra. Sair com a roupa de sempre, cruzar a rua e fumar uma porcaria qualquer. Depois, ler de longe as manchetes salobras dos sensacionalistas. Daí, um café sem palavras óbvias sobre sóis ou temporais. Caminhar mais, mais longe, mais fundo, mais depois de quatro ou cinco esquinas. Sentir os pés querendo sentido contrário. Sentindo o coração querendo sentido contrário. Sabe que a mente não fará o contrário. Pedaços de rotina com pedaços de realidade. Realidade chata, necessária, ampla, morna.

Cruzou a última rua sobre o chão zebrado e bem na frente comprou duas dúzias de uma flor amarela que esqueceu o nome logo após ter perguntado. Era preciso salvar o dia, os amores, a azia, os temores. Calado. Voltou e fez o mesmo caminho. Nada de café, fumos ou jornais. Cumprimento rápido pela vizinha de olho vazado. Triste a vida daqueles que a vivem pela metade.

Flores amarelas sobre a fronha amarelada. Sonhos amarelados. Paredes amareladas. Justificativas amareladas. O amarelo tomou a casa inteira por um instante depois de tanto cinza nos cabelos. Dias, dias, mais dias. Mais areia passando pela cintura da ampulheta em forma. Mais dias, dias, dias. Flores amarelas se tornaram cinza-tempo. Tudo ficou de uma cor só. Em vão. Fora do tempo. O homem só acertará o tempo quando se transportar para dentro da ampulheta e sentir a areia inundando seus pés imundos de realidade.

Tarde demais. A fronha apodreceu e dali em diante a esquina inteira da rua perdida. Tarde demais para outras cores, outros vícios, outros entrementes. Tropeçando. Fim da escada.

Muitas areias depois, ele ainda a viu do outro lado da cidade, de vestido azul e presilha no cabelo. Ela estava muito mudada. Rosto mudado. Boca mudada. Perdeu a olhos vistos a cintura de ampulheta. Tão diferente. Tão sem forma. Tão sem a forma do tempo, de corpo de miss. Sentiu-se fora de realidade chata.

Foi ao lugar de sempre tomar café, e aceitou o bate-papo óbvio. Estava tudo tão estranho. O cinza da vida já não incomodava. Era o começo de uma nova fé. De novos estalos mentais. Tarde demais. Ou não.

Quer voltar logo para a casa. Tirar o cheiro de mofo do ar. Se jogar em novos jogos, novas ampulhetas. Os pés ardem há tempos sobre essa areia fina, amarelada, acinzentada, mal vestida e mal falada.

***

 

Os rios trotam

Era de se esperar que o dia nublado trouxesse a lembrança daquele rio barrento que vira muitas curvas até chegar à pequena casa de janelas rosadas. Duas janelas pequeninas, mas bem cuidadas, com cortininhas azuis com pequenas flores. Uma casinha a sós no fim do rio que se desmilinguia até ser fio fraco de água transparente. A saia verde surrada e os óculos grossos sempre observavam o que poderia haver dentro de uma morada tão minúscula. Era certo que vivia gente. O fogão de lenha soltava um cheiro que viajava depois das águas, depois do pasto. Uma pessoa morava ali, com certeza. A senhora de lenço xadrez que puxava da perna. Parecia ser boa pessoa. Parecia, somente. E a confiança não se estendia por tropeçar em dias sórdidos de modernidade.

Os rios trotam com patas d’água. Vento forte que revirava a saia verde, debaixo para cima, na sinfonia do ar morno. Depois das janelas mínimas e das cortinas coloridas, imaginava poucos móveis e pouca comida sobre a mesa. No varal, somente peças cinza. Um xale enorme amarelo que sempre estava a secar. Os rios trotam ruidosamente, e talvez nunca soubesse o tom de voz da velhota, com cara de solidão recente. Não tinha luz. Não tinha gás. Tinha chaminé com fumaça embocada da lenha que esquentou o bule de café. Ou de água quente para tantas e tantas infusões. A velha estava agora lavando batatas em uma bacia. Eram muitas batatas para uma pessoa só. O tempo agora estava cinzento, com ar agitado. Segurava a saia com as duas mãos. Maldita chegada do inverno. Hora de regressar.

As pedras dos rios são traiçoeiras. Nem sempre a água as doma. Pé sangrando e dolorido da passada mal dada. A casa ainda a três quilômetros de distância. Pensou na senhora e no chá de hortelã recém-fervido. Queria só observar, mas não tinha jeito. Atravessou mancando o ruído dos cavalos d’água. As janelas cresciam. As cortinas eram roxas, e não azuis. O xale amarelo imenso, com franjas embaraçadas, era uma toalha de mesa surrada. A bacia com as batatas não estava mais do lado de fora. Não sentia medo. Era lembrança de algo. Era cheiro familiar. Engasgou-se ao chamar pela senhora. Não podia confiar tão cegamente na bondade dos dias atuais. Mesmo estando tão longe, em mata limpa e rios caudalosos. Já havia entrado. Estava na cozinha, com o fogão de lenha. Nada de bule, café ou hortelã. Gotas de chuva ecoavam nas telhas ralas. Entrou no quarto da velhota. Na parede um terço pendurado. Nem sentia mais o corte no pé. Sentia moleza, vontade de ficar.

Ficou meia hora ouvindo o estalar da lenha queimando no fogão. De fato, a senhora de lenço xadrez não apareceu. Nem naquela hora. Nem nas seguintes. O calor do fogo é bom quando chega o inverno. A saia verde já não tremia. Naquela cadeira no canto da cozinha permaneceu até a noite chegar. O dia nublado traz lembranças de tantas casas, de tantos rios, de tantas cortinas pequenas.

 

Munique Duarte nasceu e vive em Santos Dumont-MG. É jornalista sindical, formada pela UFJF. Já colaborou em sites, revistas e jornais literários e foi participante da Mostra de Tuiteratura, em São Paulo. Em fevereiro de 2014, lançou o livro de contos “Espelho Oxidado”, pela Editora Multifoco. Em 2015, lançará seu primeiro romance.

 

 

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94ª Leva - 08/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Charles Marlon

 

Foto: Luciana Bignardi

 

“Conversaciones nocturnas”(*)

 

O poema ao
pôr-se na
página está
a perder-se
a desperdiçar-
se

e é como se
houvesse – agora –
amor de menos
para com a tua
voz belicosa. E
sei

que em tempos
de guerra, o
coração – desejoso –
de bater cansa
e – de cansaço –
pede

mais.

 

 

   
***

 

 

Não há sombra de alegria neste regresso

 

Sai-se à rua
para buscar fugir-
sem o obter –
ao itinerário
repetitivo
do calendário. Mas

há – ainda –
a espessura do ar
a preencher as
ruas vazias: ruas
de res-
sentimento, desejo
e desengano. Ou

a correspondência
de uma sobra de sombra
a correr a cortina
na contramão do
aceno que por força
do frio não chego a
ceder. Sob o fino

fio da iluminação
em led, arrumo
arrimo num muro
acendo um cigarro
e pre-
vejo ao longe o ruído
do trem que passa – quiçá –

em retorno.

 

 

***

 

 

O calvário

 

As folhas – sempre – em queda livre
e o calendário é como um homem calvo

quando chega o verão; pois
outro ano, transplantado,
há de sobrevir.

Os dias, o costume e as noites,
sim, principalmente, as noites,
não fazem mais que encher de

verdades vencidas, uma caixa
de mentiras. O próprio coração
é – agora – outra mera

f(r)icção.

 

 

***

 

 

Biografia não autorizada

 

Esta vida,
quem foi que autorizou?

Depois da primeira manhã,
tudo é atraso do fim que

não se vê, e já se sabe, a se
arrastar atado ao calcanhar.

Trocando minhas mãos pelas
tuas, o que? Viver é dividir

um engano, a vida:

outra coisa.

 

 

***

 

 

O pêndulo

 

As ruas não
indicam qual-

quer direção, e
não, é certo, darão

no mesmo lugar.

E, no entanto, só
sei ser o que me

ensinaram, estar sem-
pre a meio caminho:

Não dar um passo.

 

(*) Título retirado de “Cien años de soledad” de Gabriel García Márquez. Referência: García Márquez, Gabriel. Cien años de soledad. 1ª ed. Buenos Aires: Sudamericana, 2007. Pg.104

 

Charles Marlon Porfirio de Sousa é poeta e mestrando em Literatura Portuguesa – poesia contemporânea – pela Universidade de São Paulo- USP. Em julho de 2012, publicou seu livro de estreia, Poesia Ltda., pela editora Patuá e em junho de 2014 seu segundo livro, Sub-verso, também pela Patuá.

 

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94ª Leva - 08/2014 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

Pícaro

Por Pedro Reis

 

 

Manter sob controle a impossibilidade de controlar a vida. Umas das falas do Dr. Fiss, personagem misterioso que guarda uma estreita e não menos misteriosa relação identitária com Ahab, pai do narrador do livro intitulado Pequod, do escritor gaúcho Vitor Ramil, cujo título é também o nome da embarcação do capitão Ahab do livro Moby Dick, de Herman Melville.

Este primeiro emaranhado de relações que pus de início delimita somente algumas das muitas conexões que constroem o emaranhado da pequena novela, guardando uma significação que extrapola suas pouco mais de cem páginas.

A história ocorre de forma fragmentada, em vários episódios que separam o tempo atual – a relação de Ahab e seu filho – do tempo passado, onde se narra a infância de Ahab e a mudança de sua família para o Brasil, saindo do Uruguai. Há outros personagens na trama: os avós, a mãe e os irmãos, o estranho Dr. Fiss e alguns amigos de Ahab. Não há uma separação clara entre os dois tempos, e a descoberta da situação de cada capítulo deve se dar no decorrer da leitura.

Dois intertextos principais têm de ser destacados para o leitor deste livro. O primeiro é sua relação com o livro de Melville citado acima. Não é por coincidência que o nome de um dos principais personagens seja o mesmo do capitão do Pequod, Ahab. Os dois guardam uma obsessão monomaníaca: um, pela baleia branca monstruosa que dá nome ao clássico americano; outro, pela perfeição metafórica que vê nas teias das minúsculas aranhas encontradas em sua casa e sua relação com a linguagem poética.

O Ahab latino-americano tem um comportamento habitual de ajustar sempre um grande relógio em sua casa. Esse hábito, exato como o próprio funcionamento do relógio, por vezes perde o tino quando ele se tranca em um quarto, negligenciando o hábito de dar corda, esquecendo-se do tempo na reclusão do aposento. Ninguém de sua família sabe o que ele faz nessas ocasiões, mas o menino, investigando a relação de seu pai com o Dr. Fiss, entra escondido na casa daquele homem, mas é flagrado, passando pelo momento mais delirante do romance: a noite das oportunidades.

É neste momento que o doutor explica as motivações mais profundas de seu pai, e também um dos momentos mais interessantes do livro. Semelhante às temáticas borgeanas, Dr. Fiss, de posse dos poemas que Ahab escrevia, explica ao pequeno “espião” como cortava cada palavra dos escritos de seu pai, abria um livro qualquer de sua extensa biblioteca, procurava a palavra que havia recortado, e quando a encontrava, no livro, colava a mesma palavra por cima da palavra do livro, anotando de forma cifrada a localização daquela palavra do poema em sua biblioteca. Podemos encontrar uma dessas cifras em meados do livro.

O outro intertexto é com o pintor florentino renascentista Paolo Uccelo. Sua pintura, Relógio com Cabeças de Profetas, ou pelo menos seu esboço, serve de imagem inicial de cada capítulo, tendo no centro a fotografia que, descobre-se durante a leitura, é de seu pai quando pequeno.

A relação do livro com o pintor se colocaria na obsessão que Uccelo teve em vida com a perspectiva, técnica plástica inovadora na época. A novela de Ramil tem relação com esta técnica, pois também é estruturada em perspectiva, tendo como ponto de fuga o conflito entre o pai e o filho, e os acontecimentos que fazem a narrativa ocorrem em constante resgate do passado, que serve de centralização do presente, representado pelo filho.

A narração, apesar de posta na mente da criança, cria cenas ou situações líricas, em uma escrita onde prevalece o cotidiano simples, mas pincelado de visões poéticas. Ramil se arma da inocência infantil para adensar o lirismo das narrações, construindo cenas poéticas belíssimas, como quando ouve seu pai falar espanhol:

“O espanhol era então o idioma da sabedoria e da obscuridade. O espanhol era o idioma do silêncio. Ouvir Ahab falando espanhol era escutá-lo por dentro. Eu não precisava observar seus lábios, suas inflexões de rosto e voz. Não precisava escutá-lo. No fundo daquela poltrona, naquele saguão sombrio, eu estava no fundo dele, no fundo de Ahab em sua poltrona sob o relógio. O espanhol era então o idioma do pensamento e do tempo. Eu estava no fundo do tempo.”

Ou quando, em sonho, o menino chama ao pai, mas este não o ouve, e ocorre a pergunta fundamental:

“’Não ouviste eu te chamar?’ ‘Não. Talvez o ruído das ondas não tenha me deixado ouvir’, responde. Eu paro. E pergunto então como nunca em tempo algum: ‘Por que não gostas que eu te chame de pai?’ Ele para, me olha e diz: ‘Porque eu não quero que haja distância entre nós.”

Os dois personagens fisgam o leitor, por sua relação de poder, cumplicidade e fantasia. O narrador se vê como satélite de Ahab, mas também se vê como um semelhante, e vai carregar o legado vazio construído pelo seu pai para o futuro. Como dá por si ao final do livro: tratava-se, agora, de seu tempo.

Pequod é um livro sobre revelações, sobre descobertas. A descoberta da fotografia de seu pai, escondida pela avó. A descoberta da semelhança entre aquele ser enorme e admirável que é seu pai. A descoberta dos mistérios que cercam seu pai e o Dr. Fiss. O passado de sua família em Montevideo. Todas essas descobertas formam a narração do livro, bem como são parte importante da formação do pequeno narrador.

Pícaro é um dos termos que mais se repete no início do livro, quase um xingamento atirado pelos familiares ao infante narrador. Não pude deixar de notar que o adjetivo, que significa matreiro, malicioso e astuto, tem uma importância exemplar na história da literatura. Desde Homero, criando o Ulisses de mil ardis, costurando sua narrativa épica por meio das façanhas ladinas deste herói, nesta novela, Vitor Ramil, no papel do pequeno pícaro, trava sua batalha contra o caos incontrolável da vida, tecendo as palavras de seu passado, mantendo-as sob controle, sob a forma de literatura.

 

Pedro Reis (1987) mora atualmente em São Paulo. Lançou os contos Gorilas e As borboletas de meu pai pelo portal Cronópios, tendo participado também da Contologia, lançada pelo portal em 2012. Os contos Trancelim, Mosca Diuturna e Desejo você encontrará no periódico Diversos Afins. Com o conto Midas, entrou na Antologia de Literatura Fantástica, lançada pela Fliporto no final de 2012.