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91ª Leva - 05/2014 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Memória e rasura: a “Pedagogia do Suprimido” de Zeh Gustavo

Por Leonardo D’Avila

 

Um poeta não se forma sozinho. Ao mesmo tempo, não há pedagogia ou maneira de ensino que dê conta dessa tarefa. Não apenas por uma questão de intersubjetividade, mas principalmente porque, paradoxalmente, a poesia não surge das conclusões, porém das passagens, das metamorfoses. Assim, a artimanha poética precisa de algum tipo de fetiche para que alguém se coloque nas fronteiras do funcionamento da linguagem. Quando o poeta não conta mais com alguma aura de heroísmo ou prestígio social, atividades muito mais corriqueiras podem ser o impulso inicial da escrita para o vates contemporâneo. A cena do escritor perante a máquina de escrever para ver o que simplesmente “sai de dentro dela” é clássica, mesmo ao se saber que a máquina em si seja vazia de conteúdo. Suponhamos, pois, que o poeta tenha perdido seu objeto-oráculo, esteja ele no teclado do computador, no papel A4 ou na caneta “bic”. Sim, a poesia é queda, mas que se tente imaginar por um momento o que acontece quando o poeta já não está tão afinado com seu instrumento de trabalho, isto é, toda a sua parafernália, que já era frágil. A “Pedagogia do Suprimido”, livro mais recente de Zeh Gustavo, põe o leitor diante dessa tentativa. Enquanto em seu trabalho anterior, intitulado “A Perspectiva do Quase”, havia uma boa dose de recursos que demonstravam erudição, metaliguagem e experimentalismo, em uma tentativa de evidenciar a potência vazia que tece o fazer poético, em “A pedagogia do Suprimido”, editado pela Verve no final de 2013, o foco não é mais esse. Pelo contrário, nota-se um menor comprometimento formal acompanhado de coloquialismos e pensamentos que fluem de maneira direta até serem violentados com as palavras, a exemplo da proliferação viral de neologismos, e da impressão forçada de sons rompendo com o sentido que seria esperado, como já se anuncia no título.

A supressão que nomeia o livro não cabe na dialética entre oprimido-opressor (com uma alusão clara a Paulo Freire), pois não persiste a esperança de sujeito emancipado, formado, lúcido ou qualquer coisa do gênero para sustentar utopias como a emancipação ou a desalienação. Os prefixos são extremamente significativos para entender essa mudança de sujeito oprimido para suprimido. Na (ob)pressão ainda existe olho no olho, combate frontal no qual um leva a pior. Na (sub)pressão, não existem dois sujeitos de mesmo nível num confronto. Há apenas o resto da tentativa de formação do impossível, um vestígio de sujeito que nunca consegue se estabelecer, que nunca se forma de maneira definitiva. Na verdade, diferentemente da opressão, na supressão já não há nem mesmo confronto, senão uma miríade de pisadas tão vertiginosa que já torna impossível a separação daquilo que pisa daquele que sofre. Em suma: quando o tédio ou a descrença chegaram em palavras e em coisas, “neste giro sem sina / sem sal nem viço”, não há mais um privilegiado: principalmente a função “poeta”, afinal, o artifício já se emancipou. A face daquele que escreve está na perda dos dispositivos (de máquinas de escrever a princípios poéticos) e não mais apenas na do sentido.

 

CONTO FUNESTO

Perdi um som quando ele tava a se encostar
Na ponta da minha língua
Perdi depois a língua.

Perdi uma palavra quando ela pendia já do traseiro
Para a ponta de minha caneta.
Perdi depois a caneta.

Achei um cinzeiro desbarafutado de utilidades.
(Eu que achara tão-cedo as inutilidades!)
Despejei as minhas cinzas
Que não havia visíveis.

Achei minha face.  (p. 47)

 

Zeh Gustavo demonstra que o desespero de um mundo pré-governado por dispositivos só não é maior do que o de um mundo no qual já nem mesmo haja a interação com os dispositivos. A perda da língua, da caneta e da urna funerária para depositar as cinzas chegam a dar um tom nostálgico do momento em que as coisas tinham função, seja a palavra para escrever ou o caixão para sepultar. Contudo, o poeta não quer uma volta à funcionalidade. Apenas constata que, por mais que as coisas continuem a fazer sofrer, pois talvez até não tenham nunca deixado de operar, não é mais possível interagir com elas. Por isso, neste seu último livro já não há um escrever sobre o escrever ou um escrever sobre o não-escrever, como acontecia em “A Perspectiva do Quase”, já que os instrumentos, se não se perderam, estão completamente desafinados. E não há nem corpo, nem linguagem nem inconsciente suficientes para acalentar o suprimido.

O principal gesto que se destaca em “A Pedagogia do Suprimido”, diante dessa condição da supressão, está no fato de que quem perde a sua caneta “bic”, seu mecanismo de escrita, arranha com prego mesmo. A grande força da lírica de Zeh Gustavo está na rasura, procedimento indeterminado, porém teimoso daquilo que descreve como “ânimo-vândalo”. Se são observados traços da inventividade de Paulo Leminski no autor, este, ao brincar concomitantemente com o som e a escrita das palavras, já não causa a mesma liberação de tensão típica do cômico. Neologismos como “teimoazia” ou “autoboicorte” imiscuídos em variações de tons menores, expressam-se na recorrência do grito, do rabisco. Rasuras insistentes de um livro de poemas com um forte teor autobiográfico, sem velar sua ficcionalidade, sendo, possivelmente, “desmemorialístico”, à maneira de Manoel de Barros. Nesse sui-gênero, o autor até consegue prender a atenção do leitor a ponto de fazê-lo acreditar brevemente, como em um sonho, na investida introspectiva, fazendo jus a uma pedagogia apenas por um lapso, em uma prosa-poética de formação. Isso se reforça ainda mais pela coloquialidade e pelo descompromisso de muitos pensamentos, os quais, muitas vezes fazem parecer que há perante o leitor um sábio contador de histórias. Porém, o próprio texto se assume eventualmente como nada mais que um texto, e todo um hermetismo que parecia surgir entre os poemas sem mais nem menos vai ser comparado, de uma hora para outra e sem aviso prévio, por exemplo, a uma tela de pintura, uma justa superfície mais a ser observada do que propriamente lida. Eis que surge para aquele que lê um autoarremeter, uma troca de olhar para destacar a pura tipografia, meros caracteres sobre uma tela, antes de ser um fluir da imaginação proustiano sobre papel A4 ao qual o leitor fora previamente induzido. É o que discretamente se declara no poema “Na gare, com Delirium Tremens”: “Eu me exprimo em papel-tela / Qual prosa já sem contador nem / Personagem / Só fatos tortos jorrados em borro tarde morta / Tetos em desabares sob picotes-edifício do céu / Texto surrupiado”.

Fatos tortos e desafinados porque estão borrados pela superposição de sílabas a surrupiar o texto a todo momento. É bem notável a esse respeito que o título convidativo do livro já na contracapa vem como “Pedagogia do Suprimido”, o que também acontece na subdivisão interna, onde os capítulos aparecem tachados. Essa rasura, também mostra seu incômodo e sua força, desmontando um fluir lírico, nos inúmeros neologismos e paronomásias, através dos quais o poeta é pródigo ao rabiscar sufixos e prefixos constantemente. Como ele mesmo superpõe, a escrita da rasura no “ânimo-vândalo” vem em conjuntos notáveis de experimentação, por exemplo, quando o autor aproxima as palavras descalamento, desrecalcado, dessupressão, desvio, desafogo e desabrigo. O uso do prefixo des-, entre muitos exemplos, prova que aquele que escreve não se interessa mais tanto pela linguagem como promessa de desconstrução (diferença e adiamento), tendo em vista que faz dela um vírus, uma des-qualquer coisa. No vaivém de cair no poema e grifá-lo, para logo acordar do sonho, é provocada uma imersão em uma experiência expressionista que parte de uma autobiografia declaradamente ficcional, mas muito envolvente, que é logo marcada pelas repetições dessas rasuras, em que os sentidos são concentrados até a estafa sem que se consiga fazer uma transubstanciação. Qualquer tentativa de heroísmo se esvai quando Zeh Gustavo arranha o disco com suas repetições de um experimentalismo despretensioso, porém de extrema sensibilidade, algo que se relaciona com o que o autor chama de “alto exaustão”.  Paralelamente ao rumo da introspecção que não chega nunca a formar um personagem, manifesta-se o gesto deformador (mas não formalista) da rasura, como de um vândalo que descobriu que todo objeto à sua volta lhe pode lhe ser útil como projétil quando abre mão de encontrar a marreta perdida. O risco de prego, a escrita que grita com o rabiscar sobre o sentido, é capaz de concentrar toda a dúvida, a agressividade e a impulsão dos que assumem que já perderam a caneta ou o papel, isto é, que há força, mesmo quando se põe em dúvida a formação, esteja ela em entusiasmo ou em procedimentos poéticos.

Doutorando em literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina, Leonardo D’Avila é tradutor da poesia latina de Arthur Rimbaud, publicação do editorial Cultura e Barbárie (no prelo).

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91ª Leva - 05/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Winston Morales Chavarro

 

Arte: Marcantonio

 

ABEL

 

Caín
Hermano de vientos, nubes, diluvios y ríos
Un mar de luces opalinas gravita en los guáimaros de la ciénaga
Y se aglutina en mi espejo
Como un prisma que nos dice:
La muerte es una puerta
Y el tiempo una ventana
Por donde nuestros pasos presurosos
Perciben otras cosas, otros mundos.
Bello Caín
La quijada de burro con la cual me mataste
Tenía el olor de las encinas y los pinos,
De tus labios venían hasta mi norte
Unos chopos amarillos
Que enhilaban mis pétalos melancólicos
En el hilo de la muerte.
Hermano profanado por los cielos
El dolor de tu hacha cavernoso
Penetraba mi topografía más remota
Mi geografía y mi valle más sagrado.
Ante el golpe subceleste
Que yo he encontrado sutil y generoso
Y que tú asestaste con una sabiduría infinita
Yazgo en la orilla de tu río, pensativo.
Oh, amado Caín
Tus huellas de madreselva
Van decorando mis entrañas,
Van vistiendo de semillas, de hiedras y resinas olorosas
Mi cuerpo fatigado por los viajes.
Mi sudor se impregnaba de tus frutas;
Tus piñas, toronjas y zapotes
Decoraban mi cabeza
Con coronas tejidas por cientos de cuchillos.
Nada soy sin tu golpe
Herrero milenario;
Tus manos son el yunque
Que moldean, a la sombra de estas islas misteriosas,
La herradura, los cristales y los cuarzos
De otras Islas en el hado de la muerte.
Caín
Hermano de mis antepasados
Hay en ti un pretexto para silenciar la historia
Como si la memoria de las dagas
No aceptaran la muerte de Goliat
Como una templanza de David,
Mi muerte es una templanza tuya.
Amado Caín
Por tu golpe y tu palabra
He conocido el paraíso.

 

 

***

 

 

A EVA EN EL DESTIERRO

 

Qué hermosa es Eva
Qué hermosa la serpiente que le rodea
El árbol que crece en su talle
El fruto carnoso que despliegan sus labios
Al posar sobre la ocarina
Su música en las orillas del bosque.
Qué hermoso su cabello
-Grajillas oscuras que caen sobre sus hombros perfumados-
su nariz que respira otros mundos
y crea para tantos laberintos
el azahar y las guirnaldas que los sustituya.
Qué hermosa es Eva
Qué hermosos sus tobillos
Las huellas que dibuja sobre la arena
Para marcar el camino hacia la luz y hacia las sombras.
Qué hermosos los hijos que le ha arrojado al mundo
El río que desciende por las colinas de su vientre
El volcán de sus ojos de fuego.
Qué hermosa esta costilla pensante
Este polvo sagrado
Esta caña aromática
Que guarda en sus pechos fragantes
Otra manzana para las épocas de lluvia.

 

 

***

 

 

CARTA  DE UN ESCRIBA A MAGDALENA

 

Yo no sé de dobleces de campanas
De sanear o purificar sepulcros
Pero un torbellino de hojas secas me conduce hacia tu vientre
Y alguna parte de esa música secreta
Que tú reinventas y traduces.
Yo no sé de multiplicación de pájaros y peces
Ni siquiera escanciar las ánforas de vino
Pero busco tu cuerpo Magdalena
Como si fuera ese santuario
Donde redimir mis carnes y mis velas
Agobiadas por los golpes de las sombras.
Yo no sé de resurrecciones
-Acaso mi carne no soporte tantas instancias-
No se perdonar las querellas con el polvo
Pronosticar las épocas de lluvia
Pero estoy seguro Magdalena
Que mi amor te reivindica de las culpas
Y talla en tu ofertorio
Una parvada de pájaros azules
Donde sopesar tus deudas y tus vinos.
Yo no sé de estrellas y ovellones
De esferas cuyo fin esté más allá del cosmos,
Pero mi conocimiento en tu cabello
Quiebra los mapas
Y mis manos no poseen otro lenguaje
Que el mismo que tú diagramas
En el río de la muerte.
Desde las selvas sirias
Hasta el mar occidental,
Desde el monte Nebo
Hasta el río Rogitama
Irá mi ancho y dulce amor, bella Magdalena,
Revestido de luz para tus hombros
Y un collar de caracolas
Hará tejido con peces de distintas geografías
Para adornar tu pubis
Y tus cabellos crispados por los astros.
Yo no sé de oratorias y viejas enseñanzas
Mi lenguaje no supera los silencios de la tierra
Pero acaso me domina la palabra
Y un Te Amo
No sea otra respuesta
Que el peso enamorado de esta cruz.

 

 

***

 

 

LÁZARO

A Jader Rivera Monje.

 

Ahora que soy tantas cosas al tiempo
Ahora que asumo mis vidas pretéritas
Y las lanzo a la carne o al barro
para que se vuelvan poemas
o pequeñas hojas que se enfrenten
al aire rizado del Zaire
me llaman Lázaro.
Soy Lázaro
El hijo de Betania
El hermano de Martha y de María
He conocido la muerte
Su río de rosas, gladiolos, violetas, mirtos y lirios
Que he transitado, navegado y respirado
En los cuatro días que duró
Esa odisea por el mundo fascinante de las sombras.
Soy Lázaro
Tengo setenta nombres
Música, viento, pájaro, buey, lluvia
Son algunos de ellos
Creo en la resurrección
En la pervivencia
En el soplo cálido que trasciende
Más allá de estas tribus.
Me he levantado del barro nueve veces
Y ahora
Soy el polvo que no vuelve al polvo.
Mis manos y pies
Todavía están atados con envolturas de entierro
Pero también es cierto
Que bajo mi cuerpo crece la hierba
Circundan el gusano, el ciempiés, las calambrinas olorosas,
La gaviota que remonta su vuelo
En busca de otras corrientes de aire.
Soy Lázaro
Habitante de Betania
Amigo de las sinagogas
De Canaám, de Cafarnaum, de Nazaret, de Galilea
Y de otras tierras lejanas
Cuyos nombres no entenderían
Tengo el rostro cubierto con un paño
Pero cada vez que me levanto a la vida
Cada vez que una mariposa
Me recuerda que he nacido de nuevo
El paño va cediendo paso
A otras estrellas, a otras luces, a nuevas especies de animales,
A otros caminos.
Soy Lázaro
Y en este viaje al final de la vida
Me sentaré sobre otra roca
A hilar el cordón sagrado
El pedazo de río
Que me devuelva a otra corriente
En donde todas las voces clamen,
Todos los músicos canten,
Todas las lluvias digan:
“Lázaro, levántate!”

 

Winston Morales Chavarro nasceu na Colômbia, em Neiva. É jornalista e professor universitário. Seu trabalho poético logrou vários prêmios dentro e fora de seu país. Dentre outras obras, publicou: Aniquirona (Trilce Editores, 1998), De regreso a Schuaima (Ediciones Dauro, Granada-España, 2001), Memorias de Alexander de Brucco (Editorial Universidad de Antioquia, 2002), Camino a Rogitama (Trilce Editores, 2010) e La Douce Aniquirone et D’autres Poemes, Somme Poétique (Editorial Gente Nueva, 2014).

 

 

 

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91ª Leva - 05/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Mariza Lourenço

 

Arte: Marcantonio

A HERANÇA

Os pequenos olhos de Lúcio ficaram ainda menores quando viu a mulher pendurar cuidadosamente na parede, e em lugar de honra, o enorme retrato de seu tio-avô Aurélio, morto recentemente.  Feio demais, pensou o marido. A boca, no entanto, salivou, quando pensou que a feiúra nada significava se comparada à fortuna do velho.  Após a leitura do testamento, que foi presenciada por meia dúzia de gatos pingados escolhidos a dedo, a mulher não deu um pio. Ele esperou pacientemente por uma boa notícia, mas o tempo passou e nada. A conta bancária continuava da mesma maneira. E ele em queda vertiginosa rumo a mais absoluta miséria. Rico jamais havia sido, é bem verdade, mas nunca, como agora, precisara tanto de dinheiro. Questão de vida ou de morte, mais de morte, se computadas as ameaças dos agiotas a quem devia uma boa quantia. Resolveu perguntar a ela o que, afinal, o velhote lhe deixara. “Ora, o retrato e a coleção de armas brancas. Ele sabia que eu adorava polir suas facas.” “Estúpida! Em que mato sem cachorro fui me meter!” Ela não deu um pio. Em homenagem ao tio, escolheu as segundas para polir as armas. Lúcio observava a mulher desembainhar as facas, limpá-las e, novamente, guardá-las dentro das bonitas caixas de madeira. O ritual exasperava Lúcio. Ela sabia. E gostava. Ela sabia dos jogos, das mulheres, das dívidas, da ganância, do desprezo. E do coração fraco, além do caráter. Ela sabia. Tão pequena e serena. Tomou gosto. Todas as segundas desembainhava e polia. Todas as segundas experimentava o fio e o corte. Às vezes, nos dedos, outras, nas coxas. O sangue ralo gotejava como uma mísera torneira sem conserto. E a tudo ele espreitava. Com irritação, de início. Depois, com pavor. Pior era a calmaria dos olhos de Emma, a placidez medonha da satisfação. O coração era fraco, ela sabia. Mais fraca e providencial, porém, foi a veia partida, esmigalhando a razão. Melhor tivesse morrido. “Adonaldo, por favor, apronte Lúcio, vista-lhe um terno bem bonito. Hoje, às dez, vem aqui um retratista argentino, o mesmo que pintou o quadro de meu falecido tio. Não sei se já lhe contei, Lúcio, mas conheço muitos artistas e o retrato de titio foi um presente meu, pouco antes de sua morte. Ficou tão feliz, o pobrezinho. Tão vaidoso.” “Senhora, será que ele a compreende?” Ela não respondeu. Colocou-se cara a cara com o homem na cadeira de rodas. Olhou-o demoradamente e, com satisfação, percebeu os olhinhos apequenarem-se ainda mais.

 

 

***

 

 

TERROR NOTURNO

 

Acordou suado à hora de sempre. Nessa noite, no entanto, além do suor, sobreveio o sufocamento. Não aguentou, cutucou a mulher. Ela abriu um olho.

— Na festa do nosso casamento você me perguntou quem era aquele ‘cara estranho e triste’, e eu respondi que não sabia, lembra?

— Não…

— Mas eu sabia, ele era bacana demais. Bem mais do que um amigo. Inseparáveis: cama, mesa e banho. E eu sacaneei. Arrependimento, se matasse…

Ela abriu o outro olho. Não fez questão de conhecer o resto da história.

— Peça desculpa a ele, ué.

— Nem sei por onde ele anda.

— Peça perdão a Deus, dá no mesmo.

— Você sabe que eu não acredito em Deus.

— Então não encha a minha santa paciência.

Voltaram a dormir. Pela manhã, à mesa do café, ele estava recomposto e ela, absolutamente encantadora, enfiada num vestidinho lilás.

Mariza Lourenço, advogada e escritora, é coeditora da Germina – Revista de Literatura & Arte e do site Escritoras Suicidas.

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91ª Leva - 05/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética VI

 

Pedro Du Bois

 

Arte: Marcantonio

Paredes

 

Ficamos juntos
….na indivisibilidade dos opostos:

………..anéis de casamento
………..filhos da mesma casa.

O corpo banhado sobre a cama
e a janela entreaberta: a justeza
da imaginação prisioneira
entre quatro paredes frágeis.

 

 

***

 

 

Textos

 

Sonâmbulo
…..perambulo textos

…………….navego pessoas
…………….e me oriento
.……………em ícaros
…………….de asas cortadas

tudo feito
na minha passagem.

 

 

***

 

 

Igualdade

 

A igualdade sonhada
.não se revela
.no que mostra.

…..A conquista
…..é passo inicial
…..na desigualdade.

…………O caminho
…………percorrido em entregas
…………e o desmoronar
…………do corpo no ferimento
………………………….aberto.

 

 

***

 

 

Grandeza

 

Fui começo
…….sou metade
….fui princípio
……sou continuação

o final se oferece
em lendas
e o mito
perde sua grandeza
na igualdade do mistério.

 

 

***

 

 

Janela

 

Nada me vale a janela
se não posso
ver as construções
de igualados prédios
em vistas circunscritas
aos arredores: a janela
…………………..do novo prédio
…………………..me contempla.

 

Pedro Du Bois é natural de Passo Fundo e reside em Itapema, SC. Escreve poemas e contos. É editor-autor, com livros feitos em casa, em tiragens mínimas, não comercializáveis. Foi vencedor do 4º Concurso Literário Livraria Asabeça, categoria poesia, com “Os Objetos e as Coisas”. Em 2009, “A Criação Estética” foi publicado pela Editora Corpos, Portugal. Em 2013, seu livro de poemas “O Senhor das estátuas” foi publicado pela Editora Penalux (SP) e “Iguais” pelo projeto Passo Fundo.

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91ª Leva - 05/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Paulo Bono

 

Arte: Marcantonio

 

Jaca, os peitinhos e a galinha

 

Noite fria. Eu esperava na padaria da esquina. Olhei as horas. Precisava de um cigarro. Se pelo menos eu fumasse. Passavam das dez quando Jaca apareceu. Entrei no carro.

– E a cachaça? – Jaca disse.
– Tá aqui – eu disse.
– Tranquilo, então. Eu trouxe a galinha.
– Que galinha?
– Roque da Lua foi claro. Uma garrafa de cachaça e uma galinha.
– Porra, acho melhor deixar a galinha de fora.
– E o bode?
– Que bode, caralho?
– O bode que enterram em seu quintal?
– Ok. Cadê a galinha?
– Na mala.
– Na mala?
– Lavei o carro hoje.
– A porra vai morrer sufocada.
– Fique tranquilo. A galinha tá na dela.

Jaca era um amigo dos tempos de escola. Daqueles meninões idiotas que levavam a culpa de tudo. Seu apelido naquele tempo era peitchola, por causa dos seus peitos grandes e pontudos. Ficava puto. Hoje trabalha como segurança de loja. Acontece que eu andava numa fase daquelas. Havia deixado a velha agência, e Regina era coisa do passado. Para os diretores de criação, eu não tinha o menor talento. As mulheres pensavam a mesma coisa. Nada dava certo. Sem dinheiro, sem trabalho, só na punheta. Então eu estava por aí, na merda, quando encontrei Jaca. Contei minha situação. Jaca teimou que aquilo devia ser praga de Regina. Macumba, essas coisas. E disse que esse tal Roque da Lua podia me ajudar.

Quando chegamos, convenci Jaca a pegar leve com a galinha. Primeiro, daríamos uma conferida no terreno. E se fosse necessário, pegaríamos o animal. Parecia um lugar agradável. Só aquele som de tambores que arrepiava os cabelos mais crespos do meu ovo. Havia essa figura no portão de entrada. Negro, alto, jovem. Não sei o que esperava da vida, mas segurava uma vela com as duas mãos.

– Boa noite – disse Jaca – o Roque da Lua está?

O garoto não respondeu. Só olhava para frente. Reto. Ele e a porra da sua vela. Parecia um rapaz determinado. Pelo menos a não dar as boas vindas a Jaca.

– Boa noite, amigo – Jaca insistiu – Eu marquei com Roque da Lua.

Nenhuma resposta. Somente o som dos malditos tambores.

– Esse merda não vai falar nada – eu disse.
– Será que é doente?
– Quero que ele se foda.
– Ô maluco! Tá me ouvindo? EU QUERIA FALAR COM ROQUE DA LUA!
– Vamos sair daqui, caralho!
– Tô quase metendo a porra nesse moleque.
– Cuidado, esses caras manjam de capoeira.

Então surge do nada esse baixinho todo de branco segurando a porra de um cacho de bananas. Pelo jeito que rebolava, eu não tinha mesmo certeza por onde ele ia ingerir aquelas bananas.

– Jaquinha! – disse o mestre das bananas – chegou bem na hora.
– Seu Roque – disse Jaca – o garoto aqui não queria colaborar.
– Ah, esse é Tico-Tico. Tico-Tico tá de castigo. Pra aprender a se comportar.
– Esse é Paulo – disse Jaca – o amigo que lhe falei.
– Ah, o que tá desempregado e não consegue trepar.
– É, tô no cu da cobra – eu disse.
– Vem, vamos entrar, vamos entrar. Tico-Tico, você se comporte.
– Aguente firme, Tico-Tico – eu disse.

Lá dentro, havia esse pátio de terra. Cercado de uma varanda com portas e de algumas árvores. Havia também essa roda de gente. Vestidos de branco. Aquela batucada. “Cadê Roque da Lua?” – Jaca perguntou. O danadinho das bananas desapareceu do nada. Então ficamos por ali como dois imbecis. Volta e meia alguém pulava no meio da roda e arriscava alguns passinhos. Até que veio essa morena. Começou a sambar. Nova, pele escura e os dentes mais brancos da noite. Seu corpo? Bem, digamos que eu saberia o que fazer com seu corpinho num quarto escuro. A moleca dançava. Girava. Levantava a saia, ia até o chão, revelava as pernas e, por milésimos de segundo, sua calcinha. Não é por nada não, mas eu já estava de pau duro.

– Será que ela toca berimbau? – perguntei a Jaca.
– Ham?
– Tá sentindo o quê, porra?
– Calor da porra!

Então aumentaram a batucada e a morena enlouqueceu. Começou a revirar os olhos e a retorcer o corpo. Em um desses solavancos, seus peitinhos saltaram da blusa. Como se gritassem por liberdade e quisessem participar da festa. Eram peitinhos firmes, santos e loucos. Eu pensava, por que essas porras parecem mais gostosas quando estão dando santo? Aliás, o santo devia saber que havia um gordo por perto que estava doido pra cair de boca naqueles peitinhos. Eu estava em pânico. Tentava não pensar em sacanagem. Mas só conseguia pensar naquela xoxota em chamas. Nessa hora, algum escroto que gosta de ver o circo pegar fogo soltou uma galinha no meio da roda. Vou dizer uma coisa. Nunca havia visto nada mais inocente do que aquela galinha. Querendo aparecer. Caminhando para o meio da putaria. Balançando a cabeça. No ritmo dos tambores. Pelos olhinhos, estava drogada. Parecia sorrir. Quando a morena a pegou pelo pescoço e ZAP! Passou a faca no animal.

– Puta que pariu – eu disse a Jaca – esquece a galinha.
– O quê?
– Porra, você tá suando pra caralho.
– É o calor, porra.

Adivinhe quem apareceu do nada. Sim, ele mesmo. Roque da Lua. Dessa vez, sem as bananas. Mas com um charuto que não tinha mais tamanho. Dançando, se remexendo e dizendo coisas que eu não conseguia entender.

– O que é que esse porra tá falando? – perguntei a Jaca.
– Não sei. Entendi, não sei o quê Paca Capim, Paca Capim, Paca Capim…
– Jaca, você tá branco.
– Dor de cabeça…
– Porra, será que você tá dando santo?
– Eu tô tranquilo…

Enquanto isso a roda pegava fogo. A morena, os peitinhos e Roque da Lua. A galinha perdeu o melhor da festa, fazer o quê? E do nada, Roque da Lua largou o charuto e começou a dar saltos. Grandes saltos. Saltava e girava rapidamente para todos os lados, fazendo o Mestre Yoda em ação parecer uma velha tartaruga manca. Roque da Lua pulava sobre as pessoas na roda, dizendo coisas e dando gargalhadas. De repente, esse merda veio em minha direção, com os olhos ardentes. Pensei, fudeu. Só deu tempo de pensar isso mesmo, porque logo depois Roque da Lua me empurrou para o lado, apertou os peitos de Jaca e berrou com uma voz fininha “PEITCHOLA! PEITCHOLA! PEITCHOLA!”. Jaca tentou se defender empurrando Roque da Lua, que saltou para trás, dando um desses golpes de capoeira e raspando o pé no queixo do meu amigo.

Três minutos depois, Roque da Lua seguia seu show, enquanto Jaca e eu nos despedíamos de Tico-Tico e entrávamos no carro.

– FOI VOCÊ QUE DISSE! – Jaca berrava
– Vai tomar no cu, Jaca!
– FOI VOCÊ QUE DISSE!
– Como é que eu ia dizer alguma coisa? Eu nem conhecia aquele viado. Você que me trouxe aqui, porra!
– E como é que ele sabia desse negócio de peitchola?
– Sei lá, esses caras sabem tudo da nossa vida.
– Ele me pegou desprevenido.
– Mas você viu aqueles peitinhos?
– Jesus é mais forte!

Bem, o que resta contar é que passei um bom tempo ainda sem trabalho e sem mulher. Que Jaca segue sua vida como Segurança. E que a galinha na mala do carro sobreviveu.

Paulo Bono é baiano e nasceu na Lapinha, tradicional bairro do centro antigo de Salvador. Formou-se em relações públicas, é pós-graduado como roteirista, trabalha como redator publicitário e escreveu o blog de contos e crônicas Espalitando Dente durante 6 anos. Em 2013, lançou o livro de contos Espalitando (Editora Cousa). 

 

 

 

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91ª Leva - 05/2014 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Fabrício Brandão

 

Tatuagem. Brasil. 2013.

 

O ano era 1978. No Brasil, experimentava-se um cenário de ditadura ainda inglório e obtuso. Nem o que se convencionou chamar de “abertura lenta e gradual” serviria como motivo para amenizar o efeito altamente negativo que tal estado de coisas causou à nação. A cidade de Recife abrigava em seu seio tradicionalmente cultural um coletivo de seres impactados pelas vias da arte. Em seu microuniverso, pautado por uma expressão marcantemente libertária, a trupe do cabaré “Chão de Estrelas” afirmava-se como sendo muito mais do que um espaço de expressão artística.

Comandados por Clécio Wanderley, personagem vivido por Irandhir Santos, os artistas daquele espaço ousavam ser algo além do seu ofício natural. Com seus espetáculos críticos e sarcásticos, intentavam resistir a um tempo no qual as liberdades individuais há muito estavam minadas. Diga-se de passagem, essa noção de liberdade possui uma dimensão especial, pois vai tocar no delicado terreno das amarras do corpo e da mente.

Olhando por esse prisma inicial, Tatuagem até poderia aparentar ser um filme motivado pelas torpezas da ditadura militar oriunda do Golpe de 1964. Mas logo fica claro que esse não é o mote da obra. O período negro de nossa história é mero coadjuvante diante da necessidade que a produção traz de evocar a temática da liberdade em sua acepção mais vasta possível. A um só tempo, o filme engendra temas complexos como homossexualidade, amor, crítica social e política, dentre outros.

O romance que se estabelece entre Clécio e Fininha (interpretado por Jesuíta Barbosa) opera aproximações entre dois mundos fundamentalmente opostos. Enquanto Clécio representa um símbolo de irreverência e contestação, utilizando-as como ferramentas de difusão artística, Fininha, um jovem soldado do exército, traduz um universo até certo ponto pueril, cuja inocência aponta para a afirmação de suas descobertas pessoais em meio aos primeiros passos da fase adulta. Quando se encontram pela primeira vez, os dois correspondem à paixão numa fluidez de entrega que só respeita à lei do desejo irrefreável. A questão da homossexualidade é muito mais uma aspiração libertária e genuína do que qualquer outra coisa. Longe de trabalhar com rótulos, o filme explora a relação de amor entre dois homens da forma mais natural possível, sem levantar inúteis tensões de gênero.

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Fininha e Clécio em cena de Tatuagem / Foto: divulgação

De modo especial, Tatuagem é uma obra que se impõe pelo seu caráter fortemente teatral. Assim, os espetáculos do “Chão de Estrelas” parecem transbordar para o mundo circundante, instaurando uma estética muito voltada para os apelos da representação. Nesse ínterim, vida e arte se confundem e proporcionam a compreensão de mundos através duma atitude encenada da existência. E o que parece favorecer esse ambiente de criações é justamente o espírito de comunidade que permeava a trajetória do grupo. Todos eles moravam num mesmo casarão do Recife, compartilhando os territórios de uma verdadeira república das artes.

Dirigido por Hilton Lacerda, a obra merece destaque por enaltecer o saber e o sabor da experiência coletiva das sensações. Os movimentos de câmera são soltos e mergulham nos ambientes de forma a conferir um sentido de naturalidade aos cenários abordados. A própria câmera, ao flagrar as ações teatralizadas, deixa de ser um corpo estranho e invasivo para se tornar um componente intrínseco da obra.  E é justamente nesse ponto que Tatuagem revela um comportamento híbrido quando propõe uma valiosa interposição entre teatro e cinema.  O resultado dessa zona de convergência aparece muito bem pontuado pela forma como a narrativa, nalguns momentos, é dividida em esquetes.

Outro ponto forte do filme é a utilização do corpo como instrumento máximo de representação, seja sob a forma de resistir à ordem sócio-política do contexto, seja na afirmação das potencialidades de construção dos diálogos da arte. As apresentações do “Chão de Estrelas” serviam como um painel vivo para as expressões corporais de seus artistas, sobretudo porque simbolizavam um rico cenário de expansão da consciência.  Para os membros da trupe, o ato de estar no palco significava ir mais além duma aparição exaustivamente ensaiada. Servia também como uma perspectiva de integração ao mundo através de um prisma notadamente ideológico. Tudo isso bem longe de qualquer atitude panfletária.

 

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A trupe do Chão de Estrelas em ação / Foto: divulgação

Por se tratar de uma produção na qual a expressão teatral é traço abundante, era de se esperar que o trabalho do elenco tomasse o centro das atenções. E isso ocorre com a maioria dos atores. No entanto, é impossível não mencionar as destacadas atuações de Irandhir Santos e Jesuíta Barbosa, na pele de protagonistas cujas sinas pessoais sustentam densamente os polos de tensão principal da história. Outro ator que se destaca por sua relevante aparição é Rodrigo García, ao encarnar o espalhafatoso personagem Paulete.

Com seu enredar de delicadezas, Tatuagem é uma obra atemporal, sobretudo porque privilegia o exercício ativo e consistente do pensamento. Dentro de nós, é bem provável que tenhamos alguma dificuldade em saber lidar com toda a vastidão de um horizonte que sempre se delineia complexo, o da liberdade. E isso o filme nos lembra a todo o tempo. Então, resta a pergunta: se marcadas a ferro e fogo, até onde nos levam nossas aspirações e desejos?

 

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91ª Leva - 05/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Juliana Krapp

 

Arte: Marcantonio

casa

no teto um alçapão
madeirame entrecortado de conduítes
onde o escuro nasce
e os ratos passeiam

a noite exibe as evidências
não há fantasias não haverá mais
reviravoltas possíveis
sobre nossas cabeças sob a cumeeira
….em casa
…….vibra
a clausura dos ratos

não estão em nós
….– vivem além
de nossos crânios
à revelia
dos emaranhados de beleza ou pavor que se enroscam ao sono

entretanto nossas coisas são suas coisas
e delas fazem ninhos
onde se embaralham
e proliferam

sobre nossas cabeças
sem asas sem remédio
respiram conosco
……….guincham
e permanecem

não estão como nós
…..baratinados
porém sua verdade
é nossa verdade – mesmo eles
……..têm um corpo quente
……..a carne magra o esqueleto oblíquo que guarda um único coração
……..exausto ao cair da manhã

mesmo eles
morrem e então fedem
sobre nossas cabeças

quando isso acontece
em alguns domingos
abre-se a portinhola
e a pá retira do escuro um volume flácido
..– a infância estranha
a falta de sangue

à noite voltamos a mergulhar
juntos
na viscosidade cada um em seu avesso
da casa apartados
pela irmandade impossível

um pai uma mãe tentam ordenar
que torne surdos os ouvidos
que estanque a todo custo
a corrosão da pureza

querem dizer
que há simultaneamente
o alheio que é o do outro
e o alheio que nos é
indiferente
– ante a opressão das paredes
…..sobre nossas cabeças
…..a alteridade se excita

os ratos passeiam
e vem a época de nos caírem os dentes
estranhos inexplicáveis núcleos sem dor
que precisam ser jogados para o alto
para o teto da casa
como indica
a etiqueta doméstica
e o folclore desta parte do mundo

ainda estão úmidos
mas não parecem
saídos de uma boca
– talvez de uma fenda ou concha de alguma
…..cavidade morta

serão lançados
à zona secreta onde agora prevalece
o silêncio
após o êxtase desconhecido
……– e para sempre irá nos assombrar a extravagância
……..dessa inútil oferenda

 

 

***

 

 

tipografia

 

às vezes
em geral domingo
eu o vejo: coágulo
escuro massa estanque que se instaura
pedra singrando
ao redor da qual o dia vai crescendo
e apodrece

porque no centro da verdade há um viço
e eu olho simplesmente olho impossível não reparar camada
após camada a casca reluz seu calcário arregalado e já não somos mais
eu e você mas sim espessuras
singulares silhuetas de arvoredo passando em velocidade difícil
distinguir as formas por trás do vidro quando somos apenas
duas melodias ou melhor duas
ênfases de melodia como se disséssemos sempre
um píer não é uma margem um píer é o ponto
de ver o estuário de esperar o espalhafato
com que a água ameaça a membrana que é este domingo um posto
de observação onde a ideia de arbítrio extingue os procedimentos
familiares a esta cama e você se torna fantasmagórico com sua espessura tão
diferente da minha já que estou só
com esse coágulo na mão uma substância órfã que aninho enquanto
temo o viço da verdade a mentira que não se insinua apenas passa
em sua marcha secreta um novo ponto agora talvez mais claro
não o coágulo em si só outra fruta
inútil apodrecendo na correnteza

 

 

***

 

 

Roteiro

 

O vaivém das galés contracenando com os diques
A emboscada da neve ao redor das vidraças
As nervuras da pedra
que enregelam o olho da atriz
– Essencial mesmo é o cenário
onde tudo acontece
foi o que ele nos disse
antes de partir

Arranje um lugar
para que o salto das feras
fuja aos radares
Para que as escarpas acobertem
a possibilidade do crime
– A cidade, muito ao longe
apenas reluz

Para contar uma história
uma savana
deve parecer um insulto:
arvoredos esparsos
sob o risco constante de incêndio
O incômodo do barro contrastando
com a arruaça da topografia

Uma nevasca
é sempre um bom começo
Por detrás da janela há uma garota
mordiscando o próprio coração
Um bicho dorme, uma tevê
silencia. A paisagem inibe os loops

Ou um lugar conveniente pode ser apenas
massa de negrume condensado
Um buraco no meio da testa
Uma angra escura
onde a sujeira
se enrodilha à superfície
e o herói morre
num tenebroso acidente

 

Juliana Krapp é jornalista e vive no Rio de Janeiro. Publicou poemas em revistas como Inimigo Rumor e Modo de Usar&co. Teve poemas incluídos na antologia espanhola Otra línea de fuego. Quince poetas brasileñas ultracontemporáneas, com organização de Heloísa Buarque de Hollanda.

 

 

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91ª Leva - 05/2014 Destaques Olhares

Olhares

Retrato do artista em virtuosa busca

Por Fabrício Brandão

 

Arte: Marcantonio

 

Se indagado sobre as razões que movem seu ofício, um artista poderá ofertar como resposta toda a gama de sensações advindas dos seus percursos pessoais. Mais do que isso, usará dos dotes complexos do oceano da subjetividade para dar vazão ao que fundamentalmente alimenta seus caminhos de criador. Mas o que é, então, a arte se não a soma de todas as variáveis contidas no âmago de cada ser?

Sem didatismo, podemos evidenciar, sobretudo, uma espécie de revolução que parte de dentro para fora. E não se trata de um mero ato de expelir visões íntimas da existência, mas principalmente de externar ao mundo um componente possível de transformação. É, na verdade, um fluxo cujo dinamismo opera efeitos consideráveis sob o ponto de vista que harmoniza ação e pensamento. Assim, materializar em obras uma multiplicidade de sentimentos, implica também num ritual de inconformismo perene, especialmente marcado pela ruptura com a passividade estética.

Um artista motivado pelos cenários de seu tempo acaba por gerar um resultado fortemente efetivo quando a questão é retratar o mundo sobre o qual põe verdadeiramente os seus pés. Transitando pelo hiato de aproximações entre o vivido e o inventado, o criador apresenta suas versões para tudo aquilo que explode ao seu redor. Nessa esteira de sensações, trajetórias como as de Marcantonio servem como parâmetro valioso de constatação de que a vida ganha mais consistência ao afugentarmos verdades imutáveis. E não são poucas as argumentações que podemos utilizar para considerar tamanha epifania artística.

De forma substancial, há três eixos fundamentais que permeiam a sólida obra de Marcantonio. O primeiro deles reside no importante trabalho de observação de um fenômeno que assola indistintamente nossos estratos sociais: a violência urbana. Tomado pelos efeitos gerados por tragédias como as da chacina da Candelária e de Vigário Geral, ambas situadas no Rio de Janeiro, sua terra natal, o artista transpõe para suas telas as pungentes marcas assinaladas nas páginas dos noticiários. A série, intitulada “O avesso do jornal”, ousa tocar em feridas que compõe um delicado painel de nossa duradoura perplexidade social.

Ao passo que a linha do tempo desenrola seus ímpetos, Marcantonio se depara com a necessidade de buscar novos rumos para suas criações. É então que surge o segundo eixo importante em suas andanças, a série “O julgamento de Páris”. Marcada por elementos da mitologia grega, essa coletânea de telas intenta uma representação erótica do corpo feminino. Diga-se de passagem, é possível notar que tais trabalhos apontam também para uma aspiração libertária da mulher, conciliando vigorosamente força e delicadeza.

Arte: Marcantonio

O terceiro eixo é, segundo o que o próprio artista confessa, uma espécie de ápice de sua busca. Vivenciando o gosto de uma maturidade no nível da linguagem e da elaboração conceitual, Marcantonio traz à tona a série “Melancolia”, a qual explora essencialmente as perspectivas da liberdade de representação. Mesmo tendo atingido um sentido de unidade a partir desse conjunto de trabalhos, o artista rechaça qualquer condição de uniformização dos caminhos, deixando abertas as possibilidades de adesão às transformações futuras. Com isso, exalta o dinamismo sobre o qual se funda uma verdadeira obra de arte.

Na percepção constante de que nunca estamos inteiramente prontos, é que alongamos os dias pela terra. Quiçá o desvencilhar das facilidades sedutoras ofertadas no meio do caminho seja artifício a se ter na boa medida do equilíbrio. Ao que tudo indica, há quem nos dê indícios de tamanha lucidez. Negando a rapidez ilusória dos atalhos, é válido testemunhar as epifanias pretendidas a partir de um ser espantado como Marcantonio.

Arte: Marcantonio

 

 

* As telas de Marcantonio são parte integrante da galeria e dos textos da 91ª Leva.

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91ª Leva - 05/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Dheyne de Souza

 

Arte: Marcantonio

 

Quando eu digo saudade e sinto outra coisa

 

vezes caminha em mim uma saudade que é um pouco arredia, um pouco insolente.
Ela vem com esses passos de noite como quem acorda um escuro.
Ela toma a mão dos meus sonhos e começa a cerzir metragens curtas.
Como se minha vida fosse uma fita me fita, essa memória meio insalubre, com os seus olhos de carpir montanhas. Com esses olhos de um tema curvo. Com essa displicência do momentâneo. Paisagem que dorme sem leito.
Mas não é sempre que me toca a pele esse vestido leve de sentir o peso.
Muitas vezes querendo que me perca me bato me espanco me ergo me enleio sentindo saudade desse modo específico de sentir falta.
É que ela me espinha o passado.
É que ela me aborta o presente.
É que me faz esquecer de ser para lembrar o que podia se fosse.
É que ela me ensina a ser forte, a ser grosso, a ser firme com seu meio ríspido de me tirar daqui. Com o seu gesto insípido de me lembrar que o instante é tudo o que tenho e deixo. Com o seu freio de desapego. Com o seu jeito, enfim, me devolve praticamente ileso.
Assim. Tem dias, confesso, que me pega bem preparado e eu lhe chamo de nomes bem feios – da forma que eu consigo dizer, que nunca fui muito afeito a maltratos. Mas digo mil coisas vis. Minto que esqueci de todo o berço. Grito que tenho costas limpas. Urro que no meu olho há cílios secos. Corro tanto a lembrar o quanto sou que tropeço e quando me aqueço azulejo já nem ri.
O que eu dizia mesmo?
Que às vezes ela não pisa nos meus medos.
E eu fico assim em vigília.
Eu fico assim dia a dia.
Sabe?
Eu vou ao supermercado e compro uma bala azeda.
Eu corto o cabelo em outra.
Eu rio uma piada negra.
Mudo de endereço. Danço. Corro.
Vou à academia louco a levantar esses pesos.
Bebo.
Mas ela me assiste em uma poltrona macia. Porque sabe que quando sento, quando meu olho esbarra na janela, que pena.
É uma ressaca pelada, sabe?
Assim meio desencapada.
É quando falo com meu cigarro.
Quando me abro com um café, me banho um blues.
Quando tenho alma feito desmaio.
Olhando buracos.
Catando sílaba.
Medindo o vácuo.
Sentindo uma saudade oca de senti-la.

 

 

Dheyne de Souza está em Curitiba, escreve poesia, prosema, caos e guaritas.

 

 

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91ª Leva - 05/2014 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

De modo pungente, os caminhos que levam a um entendimento sobre a condição humana nos tomam de assalto. Com eles, algumas cômodas certezas vão sendo questionadas e muitas vezes colocadas numa complexa perspectiva de reformulação. No universo das palavras, o ato primevo e substancial da leitura representa uma experiência impactante sob o ponto de vista da alteridade. O que seria, então, de nós sem essa vigorosa perspectiva de olhar o Outro como uma imprescindível fonte de compreensão das coisas que nos cercam?

O fato é que a Literatura, com seu acentuado caráter de revolver mundos, é capaz de nos dar indícios de que tudo gira ao nosso redor como as imagens de um caleidoscópio. Nesse processo, leituras e escrituras são faces de uma mesma moeda: a do desejo irrefreável de nos vermos com certa dose de profundidade. Por mais libertário que possa parecer, o ato de ler revela também uma necessidade que temos de exercitar um mergulho em nós mesmos. Com isso, se o que buscamos são respostas, as dimensões vividas ganham proporções verdadeiramente abissais.

Sob o ponto de vista de quem escreve, o ofício não é menos ruidoso. E o ato contínuo de vislumbrar os recortes humanos é um elemento deveras motivador da criação. Nesse sentido, autores como Helena Terra parecem nos ofertar uma bússola para algum tipo de orientação. Quem se permite desfolhar as páginas do romance de estreia da moça gaúcha, alcunhado de A condição indestrutível de ter sido (Ed. Dublinense – 2013), pode suspeitar por quais veredas sua criadora transitou. Num tempo em que nos acostumamos a tratar a temática do amor com certa reserva, o livro de Helena nos mostra que, para além da viciada noção efêmera, o terreno das relações não se presta a observações reducionistas. Engana-se quem pensa que o escapismo do outro diante de nossos projetados domínios é a razão de ser da obra. Um lapso temporal da delicadeza move a narrativa de tal modo que flutuamos pelas acepções possíveis da incompletude humana. Especialmente pela atmosfera que emana desse seu rebento literário, Helena acolheu a Diversos Afins para um breve diálogo. Para nós, fica o testemunho de uma autora altamente comprometida com as implicações de seu tempo, vertendo, de modo favorável, suas íntimas imagens em hábeis letras.

 

Helena Terra / Foto: Arquivo pessoal

DA – “A condição indestrutível de ter sido” marca sua estreia no romance e traz um tema cuja presença na contemporaneidade é bastante emblemática.  O amor, da forma como o percebemos hoje, não lhe parece impregnado de uma substancial volatilidade?

HELENA TERRA – Não. O que me parece é que há uma urgência em encontrá-lo e em se dizer eu estou amando, o que complica as relações afetivas contemporâneas e as torna sujeitas a inúmeros equívocos. Primeiro, porque o amor não é um produto disponível nas melhores lojas do comércio ou em sites de internet. Amor não é algo que se escolhe em uma vitrine, que se digita no google, se diz quero esse modelo e se veste, consome, exibe para depois ser devolvido no setor de produtos com defeitos ou descartado diante de uma nova oferta. E segundo porque o amor é um sentimento exigente, que implica sabedoria emocional, virtudes de caráter e constância, trabalho mesmo. Como a felicidade, o amor exige trabalho. Raduan Nassar e Charles Bukowski escreveram duas frases relevantes sobre ele. Escreveu Raduan, no Lavoura Arcaica: eu que não sabia que o amor requer vigília. E, Bukowski, em o Amor é tudo que nós dissemos que não era: o amor é uma palavra usada muitas vezes e muitas vezes cedo demais. Concordo inteiramente com eles.

DA – A protagonista do seu livro transita pelos, digamos assim, territórios protegidos do amor. Nesse aspecto, há a presença dos mecanismos de defesa proporcionados pelas redomas tecnológicas que tanto nos envolvem.  Como você percebe tal questão?

HELENA TERRA – A narradora do livro me parece ser, por natureza, uma pessoa reservada e, até conhecer Mauro, estar intensamente focada em sua relação com as palavras e com os livros. Em algum momento, o leitor sabe que ela esteve dentro de uma relação afetiva com alguém do que entendemos por mundo real, mas não há pistas sobre como esse encontro/desencontro se desenvolveu e porque acabou. E não há de propósito. Não acredito em modelos amorosos e em espaços perfeitos para o amor e para as paixões. Os motivos que levam casais a se unirem e desunirem, não importando o tempo em que permaneçam juntos, fogem da nossa compreensão e fogem também das partes envolvidas. O, digamos, diferencial da internet é que ela permite uma maior ousadia e uma maior velocidade no processo de se conhecer ou desconhecer outra pessoa. Mas essa ousadia e essa velocidade são opções e não uma regra. As pessoas que criam personagens de si mesmas no mundo virtual costumam fazer o mesmo no real. As que tendem a mentir, mentem. As que tendem a exagerar, exageram. As que tendem a enlouquecer, enlouquecem. E as que tendem a amar, amam. Os simulacros não se sustentam a longo prazo. A internet é um dos espaços mais democráticos para a circulação das verdades e da maturidade emocional de cada um.

DA – Ao passo que sua protagonista e o Mauro, objeto da paixão dela, vão estabelecendo aproximações no campo do real, o impacto das sensações se modifica e vai perdendo um tanto do vigor inaugural. Em que medida a intimidade pode ser também um lugar de desconstrução?

HELENA TERRA – A intimidade, paradoxalmente, pode ser a nossa zona de conforto e também a de confronto. Fantasia e realidade ganham dimensões diferentes com o convívio com outra pessoa.  Ela, de certa forma, funciona como um filtro em que o incompatível com a natureza de cada um e com suas expectativas é eliminado ou purificado. Na relação da narradora com Mauro, o impacto das sensações se modifica porque, apesar da sintonia virtual, eles não esperam o mesmo um do outro e, porque, como é comum na internet, a sedução se estabelece por meio da literatura e das palavras. Os dois não deixam de ser uma ficção, mesmo depois do encontro na cidade em que ele mora, porque fazem o recorte de si mesmos, selecionam as facetas e o que desejam que o outro saiba quando se escrevem mais por impulso que por tempo de maturação do relacionamento.

DA – Há algum aspecto marcante desse turbilhão chamado pós-modernidade que moveu fundamentalmente suas escolhas narrativas?

HELENA TERRA – Não, creio que não. Não optei por uma narradora em terceira pessoa porque queria dar a sua voz o máximo de carga dramática e optei por ter como pano de fundo desse discurso o ambiente virtual porque ele se constrói a partir da palavra. Na internet, ela é o carro chefe. Por mais que imagens possam contribuir para o desenvolvimento de qualquer tipo de relacionamento, sem a linguagem escrita não se tomam decisões nem se avança em direção alguma.

DA – A afirmação de algumas bandeiras de gênero parece tomar significativa proporção no debate literário moderno. É o caso, por exemplo, de se considerar a existência de distinções como literatura gay, feminista e etc. Essa territorialização limita as possibilidades criativas na medida em que volta suas atenções para focos de resistência?

HELENA TERRA – Não compactuo com essas distinções e considero qualquer uma delas como uma forma de auto-exclusão. Essa ideia de se encaixar em um grupo é redutora e alimenta preconceitos. Não me considero uma escritora de literatura feminina por ser do sexo feminino, não me considero uma escritora gaúcha por ter nascido no Rio Grande do Sul. Sou uma escritora de língua portuguesa por ser essa a minha língua mãe. E é dentro dessa circunstância, livre dentro do imenso vocabulário e de todos os recursos gramaticais que o nosso idioma nos oferece, que exerço meu potencial criativo e a minha sensibilidade. Literatura implica humanidade e humanidade está acima de rótulos.

 

Helena Terra / Foto: Arquivo pessoal

 

DA – Quais aspectos você julga serem os mais importantes na composição do atual cenário literário brasileiro?

HELENA TERRA – Não sei exatamente pontuar o que é mais importante. Mas o cenário atual me parece mais generoso no sentido em que hoje há uma série de instrumentos a favor da profissionalização de um escritor e da divulgação de um livro. Na última década, surgiu uma quantidade significativa de cursos, oficinas, laboratórios etc., buscando a qualificação dos textos; surgiram novos prêmios, alguns com incentivo financeiro; o interesse estrangeiro pela literatura brasileira se confundiu um pouco com o interesse pelo próprio Brasil, criando um novo público de leitores e um novo mercado editorial fora do país; e também houve uma abertura maior, uma curiosidade maior de público e de editoras em conhecer o que está sendo produzido agora. Isso não significa que esteja tudo em ordem. A cultura no Brasil está, como nós todos, buscando cidadania.

 

DA – Uma outra feição sua é a que lhe faz trilhar os caminhos das artes plásticas. De que modo você vislumbra o mundo a partir desse lugar?

HELENA TERRA – Por natureza, sou uma criatura estética. Procuro e vejo beleza, expressão, força, emoção, mesmo que em um recorte pequeno de algo, em tudo. Tenho no olhar e na linguagem os meus dois interesses mais desenvolvidos, e os dois se misturam. Vejo uma imagem configurando-a em som e palavras. Escuto palavras e sons atribuindo a elas imagens. Do ponto de vista profissional, são universos, embora artísticos, diferentes, em que as carreiras seguem com completa autonomia.

 

DA – Gabriel García Márquez dizia que, para escrever, um autor deve saber muito bem quais rumos sua narrativa vai tomar. Há pouco tempo, você deu indícios de que um novo livro já faria parte de seus planos.  Nesse futuro trajeto da criação, como você engendra a arquitetura da obra?

HELENA TERRA – Não sei até que ponto esse saber muito bem quais rumos uma narrativa vai tomar é realmente importante. Os processos criativos são inúmeros. No meu caso, preciso saber sobre o que quero escrever, saber qual o ponto a ser carregado por toda a narrativa. No A condição indestrutível de ter sido, meu foco era a confiança tanto nas pessoas quanto nas palavras, mas eu não tinha um projeto definido que envolvesse início, meio e fim. Tinha o título em mente como um fio condutor. Nesse novo livro, a escrita está se construindo de outra forma. Escrevi, em uma caderneta, uma espécie de mapa e de quebra-cabeça da narrativa e algumas instruções em causa própria de como proceder para manter a disciplina. Aparentemente, a Helena que está escrevendo esse novo livro não é a mesma que escreveu o outro. Mas é. E o interessante em ser gente é exatamente isso: ser um podendo crescer, se transformar e ser quem se é sendo também outro.

 

DA – Na fluidez de palavras e imagens, o quanto Helena Terra conhece Helena Terra?

HELENA TERRA – Bastante. Dois caminhos me conduziram nesse sentido: a literatura e a análise psicanalítica. Na literatura, lendo mais que escrevendo, ainda que o processo de escrita exija muita reflexão. Lendo autores de várias gerações, geografias, estilos, ampliei minha visão de mundo. Com Dostoiévski, por exemplo, compreendi que os homens nunca sentem da mesma maneira, então, os castigos a eles impostos serão sempre desiguais. Temos de levar em conta o significado de cada sanção para cada espírito. Os livros, e aqui me refiro aos livros corajosos que servem à vida e não às vaidades, nos provocam, sacodem e reconfiguram.