Arte: Marcantonio

E pensar que o silêncio é sempre o misterioso senhor a preceder o verbo. Há, por certo, uma carga emblemática nesse intervalo que sugere a criação. Muitas revoluções se processam no interior de quem gesta tanto palavras quanto imagens. Antes que tudo venha à tona, um primeiro estado das coisas emerge enquanto matéria bruta a ser lapidada. Para um autor, nunca é demais fazer operar estágios revisionais de seu pensamento, sobretudo quando está envolto pelo manto da chamada angústia da criação. Nela, ele descobre que deve tentar extrair o máximo de sua possibilidade de visualizar cenários. É algo que se assemelha também a um estado de alerta, no qual aquele mesmo criador tenta, ao máximo, afugentar certezas traiçoeiras. Sendo assim, aquele que se julga pronto é fatalmente trapaceado pelo falsear do tempo. Do mesmo modo, a tentativa, até certo ponto exasperada, de se erguer uma obra monumental também retira de muita gente a capacidade de trilhar os caminhos da naturalidade. E tanto as vias literárias como as da arte necessitam de uma entrega espontânea e pouco projetada das rotas a seguir. Isso não significa suprimir o desejo de se imaginar numa esfera futura da criação, mas apenas conter o ímpeto limitador de alguns devaneios que furtam a mínima noção da existência complexa de um mundo circundante. Tanto no que diz respeito à poesia quanto à fotografia, a obra de um autor como Ozias Filho vem retomar a noção do silêncio à qual nos referimos na introdução destas breves reflexões. E são dois os momentos em que Ozias nos oferta caminhos de compreensão sobre o tema: numa entrevista e nas leituras de alguns de seus poemas agora aqui publicados. Seguindo os novos ventos poéticos instaurados, lemos também Rosane Carneiro, Seh M. Pereira, Fernanda Fatureto, Márcia Abath e Susana Szwarc. No caderno de cinema, Guilherme Preger assume a complexa tarefa de expelir suas impressões a respeito de “Ninfomaníaca”, novo filme do polêmico cineasta dinamarquês Lars von Trier. Múltiplos recortes da existência também vêm se juntar aos contos de Nelson Alexandre, Lisa Alves e Maria Balé. Num convite à leitura, Sérgio Tavares demarca suas impressões sobre “Não Muito”, primeiro romance de Bolívar Torres. O mais recente disco do cantor e compositor SILVA é alvo das pormenorizadas escutas de Larissa Mendes. Pontuando todos os espaços dessa nova edição, o caráter sublime das fotografias de Nathalia Bertazi fala de amplitudes e convergências. Que o produto da criação seja sempre um revelador de espantos e descobertas, caros leitores! A todos, uma 90ª experiência de percepções.
Os Leveiros
Márcia Abath

movimentos ou a chuva
cansou-se
das homeopáticas
gentilezas
(não nascera para avarezas)
silenciosa
arrumou-lhe a casa
recolheu suas penas
pé ante pé
sem adeus
partiu sem problemas
(sua única avareza: as despedidas)
no peito lhe inflavam todos os poemas
***
bifurcação
não tinha
água
não tinha
irmão
não tinha
rama
não tinha
quinhão
não tinha
ardor
gatilho
no ouvido
ele apertou
cheia
de ardor
flor
no caminho
ela inventou
***
goela
ah, esse anil que me cega!
não quero falar-te de flores
ou exercer odes poéticas
sequer tecer novenas
basta!
acordei faca de serra
quero cantar-te
circe medusa medeia
*- Ei! procura teu chiqueiro e vá espojar-se com teus amigos.
(Odisseia de Homero )
***
na quarta pingo fogo
incendeio versos
encharco esboços
excomungo
jogo graça
que o diabo
neles se quebre
tosco arrefeço
***
estima
não me amasse
não me demita
dobro palavras
assinalo esquinas
no que deito rolo
não cravo estigma
***
pilatos
não me impute
o que é teu
eu só escrevo
o traduzir-me
é teu
a(s)cendo !
***
delação
não a amasse
seria coragem
não a vestisse
seria ultraje
toda palavra (a)trai
Márcia Abath (Niterói/RJ). Poeta, formada em Relações Públicas pela FACHA/RJ. Publicou “Arqueio – ensaio poético contemporâneo” (poesia, Ed. All Print, 2013). Em março de 2014, lançou “Molho de letras” (poesia, Ed. Literacidade), 2° lugar Prêmio Literacidade, poesia, livro completo.
Sem coragem de continuar nem força de terminar
Por Sérgio Tavares
‘Mas digam-me: se não há ninguém, como pode alguém contar essa história? Mas isto não é uma história, amigos. Não existe história onde nada acontece. E uma coisa que não é uma história talvez não precise de alguém para contá-la. Talvez ela se conte sozinha. Mas contar o que, se não há o que contar? Então está certo: se não há o que contar, não se conta. Ou então se conta o que não há para se contar’.
O excerto acima, tirado de ‘Conto (não conto)’, de Sérgio Sant’Anna, é possivelmente o mais preciso retrato literário de um recorte temporal. Escrita nos anos 80, a obra suscita a sombra de descrença que pairava sobre a época, amargada pelo baixo astral decorrente da frouxidão dos ideais nascidos no processo de redemocratização do país. O sentimento inexcedível de que não se andava para frente, de que nada realmente acontecia.
Sant’Anna transporta esse travo para a ficção, instigando um questionamento sobre a tessitura da própria narrativa, onde cobra do leitor a participação no fazer ficcional, ao tensionar uma linha fina entre realidade e invenção. Anulado de ânimo, esse leitor não se incomodaria com uma narrativa desfalcada de seu elemento principal. Uma história que, à medida que tenta avançar, diminui, que está aferrada a um momento difuso, eleito ponto de origem, sem que isso determine um desfecho. Mas poderia um enredo se desdobrar sem que o protagonista (narrador) tivesse motivação para que isso ocorresse?
Em seu romance de estreia, ‘Não muito’ (7 Letras/2013), o jornalista Bolívar Torres espreita a pergunta, deslindando suas imediações para oferecer ao leitor um espectro de resposta, uma insinuação de certeza que dá a medida de quão ardiloso pode ser esse processo. Sua matéria é o desalento, uma rede de personagens-fantasmas que subsistem num tipo de limbo, uma existência exangue, uma letargia que caracteriza um estado de tempo. Não se trata de um romance de geração, contudo, e sim, ainda que de maneira oblíqua, um de formação. Um clima de melancolia e receio que intratavelmente perpassa décadas, uma espécie de angústia geral que é própria da transição da juventude para a vida adulta.
Nesse intervalo está Dalton, universitário que mora com os pais, cujo relacionamento é fundamentado numa inação quase sobrenatural. O pai é uma figura inexpressiva constantemente banhada pela luz fria da tevê, a mãe passa os dias confinada no quarto, flanando numa frequência de devaneios e sedativos. Os diálogos são lacônicos e dispersos, como que sem força para empreender compreensão. A mesma apatia rege o universo do protagonista, acessado por seres descartáveis em suas desnaturações afetivas, onde o passo seguinte tem a impossibilidade de um trauma insondável. Ao saber que o pai de um amigo cometeu suicídio, decide ir ao velório, no entanto passa horas circulando com o carro até chegar ao local, de onde sai sem cumprir o intento. Dalton não consegue ter atitude, há uma âncora dentro de si.
Desse modo, o presente se amua numa zona cinzenta fronteiriça a um futuro inalcançável e a um passado ainda em execução. Conforma-se com o agora, o agora perene e estéril. Sem gana, sem direção. Longe da sua cama, da imagem da “tomada que sempre lhe acalma”, Dalton vagueia pelos corredores da faculdade, por festas, bebe, faz sexo, firma encontros com jovens que compartilham o mesmo despertencimento pela vida. Entre os quais, Daniel, o filho do suicida, que oculta seus medos sob uma conduta inconsequente, e Cecília, colega de sala com quem protagoniza a melhor passagem do romance, onde se estabelece conexão com uma ocorrência pregressa que fornece a Dalton uma sensação que para ele tem o significado de felicidade.
Retomar esse momento específico é o único refúgio em meio ao vazio de tudo, o espasmo que consegue lhe destravar do cotidiano embotado, onde haverá sempre “uma coisa a ser feita, mas sem saber o quê”. Há tintas beckettianas nessa desolação, da mesma forma que evoca o ‘Baterbly’, de Melville, o escriturário ‘sem coragem de terminar nem força de continuar’. O fim para Dalton, todavia, é algo inacessível, pois demanda romper as amarras que enxerga como proteção. Incapaz de defrontar a outra margem, ele segue à deriva sem coragem de continuar nem força de terminar.
Bolívar Torres demonstra incrível habilidade ao se fechar numa ideia narrativa e bem utilizá-la para estruturar um mundo assombrado e exteriorizar as aflições de seus personagens. Sua prosa é econômica, porém rica e densa, emulando o ritmo moroso, por vezes hesitante, que embala os atores de sua história. Por trás dessa realidade, no entanto, há nuances e sobreposições de camadas que apontam para interpretações subjetivas. Prova disso, é a personagem Ana Lauren, que se desenha um antigo interesse amoroso de Dalton, mas que pode também ser entendida como a voz da consciência dele. É dela que vem a frase mais impactante do livro, digna de preceder o oportuno título e sua simbologia: ‘Você sabe o que você vai fazer amanhã?’.
Nas últimas páginas do romance, há um jogo de cartas, e a isso se resume a vida de todos ali, um jogo. Porém um jogo sem vencedores ou perdedores, um jogo que segue aberto por falta de motivação. Esse, afinal, é o sinal maior do talento de Bolívar Torres: fazer o leitor entender que a história está em curso, ainda que o protagonista prefira ficar ausente.
Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Também foi premiado no Concurso Literário da Fundação Escola do Serviço Público (Fesp/RJ) e tem textos publicados nas revistas “Cult”, “Arte e Letra: Estórias M”, e no jornal “Cândido”, entre outros. O livro de contos “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012) é sua obra mais recente.
Por Guilherme Preger
Ninfomaníaca (Nymphomaniac). Dinamarca. 2013.
Ninfomaníaca, Volumes I e II, encerra a quarta grande trilogia de Lars von Trier, cineasta dinamarquês, assim denominada “Trilogia da Depressão”. Os outros dois filmes dessa trilogia são O Anticristo e Melancolia. Todos os filmes têm em comum a presença de Charlotte Gainsbourg como protagonista. Em Melancolia, ela divide com a atriz Kirsten Dunst o papel principal.
Com exceção da primeira trilogia, “Europa”, todos os filmes das demais trilogias são protagonizados por mulheres. Na “Trilogia do Coração de Ouro” (filmes Ondas do Destino, Os Idiotas e Dançando no escuro), as protagonistas são mulheres que mantêm a integridade, a bondade e a firmeza no decorrer de uma experiência sacrificial. Na trilogia “Estados Unidos, Terra das Oportunidades”, em Dogville e Mandeville (a trilogia permanece inacabada, pois o terceiro filme, Wasington, não foi filmado), uma mesma personagem, chamada Grace, vê seu idealismo e voluntarismo soçobrar diante da vileza exploratória e hipócrita do mundanismo americano. Nos filmes da “Trilogia da Depressão”, vemos mulheres vivendo experiências absolutamente extremas em situação de loucura, apatia ou indiferença.
É impossível não reconhecer que von Trier, nessas três últimas trilogias, apresenta, com os instrumentos da melhor arte cinematográfica, uma reflexão extrema sobre a condição contemporânea da mulher no mundo ocidental. Se esta é uma reflexão propriamente feminista ou se é compatível com um feminismo militante, é uma questão em aberto. Mas, com certeza, a estética de von Trier nos coloca diante de uma politização da questão de gênero no século XXI das mais relevantes no cenário atual, quando se observa o progressivo recrudescimento de um conservadorismo misógino e fascista, seja no mundo ocidental como no oriental.
Se há algo em comum em todos esses últimos oito filmes – e que funciona como uma tese implícita em toda sua obra – é a ideia de que somente a mulher – ou a personagem feminina – é capaz de não recuar diante das mais extremas provações da experiência, por mais dolorosas, sacrificantes ou mesmo supliciantes que elas se apresentem. Por sua vez, os personagens masculinos são marcados por uma covardia hipócrita ou mesmo patética, incapazes de assumir as consequências finais dos seus atos.
Poucos notaram, por exemplo, na trilogia americana, a afinidade com o teatro de Brecht. Mas ela se dá não apenas na adoção do dispositivo antimimético das marcações do cenário ou do uso alegórico da fábula, mas na crença de que só a mulher é capaz de suportar do início ao fim, em seu próprio corpo, as determinações de sua existência e o destino de seu desejo. No teatro brechtiano, num mundo marcado pelas guerras e pelas máfias, promovidas por homens hipócritas, somente nas mulheres, aquelas capazes da coragem e do sacrifício último, é que reside a esperança da revolução.
Mas von Trier não tem diante de si, como Brecht, a fé na iminência de uma revolução emancipatória que aboliria, por exemplo, o sistema capitalista e, com ele, as divisões de gênero correspondentes às lutas de classe. Ele é, antes, testemunha de um mundo regido pelo cinismo do exercício brutal do poder e pela apatia da vontade política popular. Ele próprio um deprimido fóbico, von Trier é um cineasta de um mundo marcado por uma grande impotência de transformação, impotência da luta política e da capacidade de imaginar alternativas, um mundo onde é mais fácil pensar a extinção de toda a humanidade do que na mudança de um regime econômico.
Mas assim como a inviabilidade da revolução não impede a eclosão de violentas rebeliões populares que se espraiam pelas nações nos últimos anos, tampouco o cinismo contemporâneo impede a vivência de viscerais experiências corporais e psíquicas que estão presentes em seus últimos filmes, notadamente na “Trilogia da Depressão”. Nesses últimos três filmes, as protagonistas femininas, verdadeiras heroínas ao avesso, enfrentam, num corpo-a-corpo sem possibilidade de contorno, perdas irreparáveis: a perda de um filho em O Anticristo, a perda da vontade viver em Melancolia e a perda do prazer sexual em Ninfomaníaca.
Para essas três perdas absolutas, não há negociação, só a vigência de uma negação radical. Pois a possibilidade de negociar a perda da vontade de viver com a falsa redenção de um matrimônio, como se oferece à personagem Justine no início de Melancolia, acaba por levá-la ao estupor e à imobilidade depressiva. Incapazes de simplesmente ignorar seu destino, essas personagens-heroínas se entregam à loucura demoníaca (“Ela” em O Anticristo), à louca beatitude da aceitação (Justine e Claire em Melancolia) ou à indiferença radical (Joe em Ninfomaníaca). Mas essas três posturas existenciais, para serem efetivas, só podem ser vividas plenamente numa absoluta entrega dos corpos e mentes das mulheres, sem justificativa nem esperança de redenção.
Totalmente diferentes são as atitudes “viris” dos personagens “masculinos” nesses filmes, pois eles procuram a todo momento psicologizar, racionalizar ou “positivar” o intolerável, como faz o personagem Seligman em Ninfomaníaca, sempre à procura de uma explicação otimista para uma experiência de sexualidade mórbida e infrene. Ou John, em Melancolia, incapaz de encontrar uma justificativa racional para o fim da espécie humana, só lhe resta covardemente suicidar-se anteriormente. Nos três casos, de forma semelhante, o que o protagonista masculino busca é abafar a violência própria do acontecimento da perda, extrair o grau de sua radicalidade, banalizá-lo para retirar dele o cerne de perda da própria perda, para integrá-la a uma rotina existencial qualquer, conformadora. O resultado dessa atitude covarde é tais homens aparecerem aos olhos das mulheres como colaboradores de um mal maior, a vileza com que retiram da carnalidade sofrida da existência sua irredutibilidade, sua experiência inassimilável e negativa.
Para dar a ver esse “jogo” entre uma perspectiva masculina “positiva” e conformadora, e uma perspectiva feminina “negativa” e inassimilável, Lars von Trier constrói em Ninfomaníaca, a exemplo de muitos de seus filmes anteriores, um dispositivo formal mimético antinaturalista, um procedimento estético que o distancia da maioria dos diretores contemporâneos, todos voltados a produzir uma hiperrealidade cinematográfica. Neste caso, von Trier se volta para o romance libertino do século XVIII, onde jovens mulheres narram suas desventuras amorosas e sexuais a homens mais velhos. Dessa forma literária saíram obras de autores como Sade e Choderlos de Laclos, escritores afins à estética de von Trier e à temática sexual deste filme.
Como uma nova Justine, personagem de Sade (e nome também da personagem de Melancolia), Joe narra a Seligman, o “Homem-feliz”, as vicissitudes de sua vida sexual, isto é, de sua “ninfomania”. Joe não está em busca de uma incessante ou obsessiva experiência de prazer, nem mesmo de conhecimento ou da experimentação “dos sentidos”. O que a impulsiona a seus múltiplos encontros e práticas sexuais não tem exatamente motivo ou fim, é, segundo suas palavras, uma espécie de “mal”, uma malignidade sem nome que serve a uma grande indiferença. Na multiplicidade “enciclopédica” de personagens masculinos (e fálicos), Joe sintetiza três tipos de homens com quem trepa: os homens que procuram satisfazê-la, os homens que a pegam à força e um homem que supostamente ela ama. Porém, em relação a este, ela não tem mais do que absoluta indiferença.

Joe é incapaz de ter orgasmos, mas esta incapacidade, esta “perda” é, na verdade, a ausência de algo de que nunca se teve e que, portanto, não faz falta. É no máximo a perda de uma mitologia de infância que, porém, ela não deseja recuperar. Joe não se entrega ao sexo em busca de uma parcela qualquer de um gozo perdido ou impossível, tal a um complexo de castração psicanalítico: seu gozo está no próprio ato de se entregar a uma experiência carnal e manter-se indiferente a ela, mesmo que esta implique nas dores mais supliciantes do masoquismo, mesmo que ela signifique a renúncia a sua condição de mãe.
A Seligman, Joe advoga a irredutibilidade de sua experiência: ela não é redutível nem a um princípio utilitarista nem à expiação de culpa, ou à busca de elevação espiritual. Nesse diálogo aparentemente pacífico com o personagem masculino, no entanto, não parece haver um consenso final. Seligman procura a cada momento extrair de seu relato uma moral ou uma justificação, algo como uma sublimação de sua experiência. Se Joe é uma nova Justine, ele representa a espécie de um Cândido voltairiano: a negatividade do relato de Joe é “positivada” num plano superior de síntese. Para ele, a malignidade de Joe em não buscar uma justificação para seus atos torna-se uma involuntária ação benigna ao semear felicidade entre os homens. No final de tudo, Seligman mostra a Joe que afinal ela “não passa” de uma mulher: a infelicidade de sua experiência é o resultado dessa diferença de gênero, o estigma de sua condição feminina. Ela só sofre a sina de todas as mulheres, reduzidas a objetos sexuais dos homens ou a uma ausência de falo, uma castração “ontológica”.

Mas, ao final do filme, perguntamos: terá sido Joe realmente infeliz? Supor que as vicissitudes de sua narrativa correspondem apenas à inferioridade social de sua condição feminina não seria retirar dela todo o livre-arbítrio, sua própria subjetividade que liga seu destino a seu desejo? Assim, há algo de completamente incomensurável e fatalmente trágico entre a narrativa de Joe e a “interpretação” de Seligman que não admite uma resolução apaziguadora, um meio-termo, um mínimo denominador comum.
Porém, seria pequeno ver Seligman, por outro lado, apenas como porta-voz de um machismo enrustido, o representante da condição masculina dominante. Masculino e feminino são como polos antagonistas de um jogo, mas cuja relação “horizontal” é cruzada por outras relações transversais, como “virgem” e “ninfo”, ou como “prazer” e “gozo”. Seligman é “virgem”, não no sentido de que não teve experiência sexual, mas porque ao recusar todo envolvimento físico e afetivo com os outros, castrou-se não apenas existencialmente, mas também de todo entendimento do que é uma experiência carnal, e tende a ler toda relação corporal extrema dentro do binômio prazer e dor, escapando-lhe assim toda a dimensão de gozo que existe, por exemplo, em deixar-se açoitar violentamente numa relação S&M.
É em defesa da irredutibilidade de sua experiência, da impossibilidade de encontrar uma justificativa que não seja o gozo do seu próprio transcurso que Joe, numa das cenas mais importantes do filme, na roda terapêutica que lhe é imposta entre mulheres “sex-addict”, violentamente interrompe a sessão para se afirmar enquanto “ninfomaníaca” e não como uma “viciada em sexo” em busca de “tratamento”.
É neste aspecto que Ninfomaníaca parece muitas vezes ser uma resposta cética e radical (e europeia) a outro filme que trata do mesmo assunto com sinais trocados: o filme Shame, do diretor americano Steve McQueen. Neste, um homem na faixa de 30 anos também sofre de “adicção sexual”. O puritanismo deste filme parece evidente: a compulsão sexual de seu protagonista masculino precisa passar por uma trajetória de “vergonha” para poder “sociabilizar-se” afetivamente. Já Joe, como o personagem homônimo da canção de Jimmy Hendrix que encerra o filme (na voz de Charlotte Gainsbourg), só pode correr com a arma de suas próprias escolhas, sem nenhum arrependimento para voltar sua vista, sem nenhuma vergonha a carregar, apenas a prova da verdade de sua vida, a sua própria e intransferível provação.
Guilherme Preger é engenheiro e escritor, autor de “Capoeiragem” (Ed. 7Letras) e organizador do Clube da Leitura da Baratos da Ribeiro.
Lisa Alves

Amnésia com Chemtrails
Eu jazia lá e o perfume da pólvora era tão banal quanto os gases poluidores de qualquer cidade grande. O local era escuro-cinza e a tonalidade aos poucos alcançou tudo de forma acelerada. A poeira de uma cidade sem luz adormecia sobre os outdoors e letreiros advertindo que ao pó tudo e todos um dia retornarão. Até o sol decidiu abandonar aquela guerra estúpida, já a espécie humana não tinha tamanho poder de decisão.
Não demorou muito tempo para eu descobrir o meu papel no meio daquelas explosões, eu era uma prostituta. Prostituída como todas as senhoras, senhores, filhas e filhos que um dia desfrutaram de uma vida digna e feliz naquele território que não recordo o nome. Apenas sei que eu completava o lugar, mas somente o lugar. Possuía uma estrangeira confiança que eu não passava de um cão sem dono, um cão sem recordações, um animal domesticado nas ruas e nos olhares famintos da população. Fome – era isso que eu sentia e por ela fazíamos qualquer negócio sujo (naquela atmosfera já não existiam negócios oferecidos em tempos de paz). Éramos a mercadoria exposta na rua, éramos a alimentação voluptuosa dos soldados. E eles exigiam variedades: senhoras, homens de qualquer faixa etária e meninas que não tiveram tempo de brincar. Ali foi constituído um campo de concentração de prazeres sádicos. “Levante seu cacete moleque!” – e o menino não tinha escolha, aquele ato poderia render-lhe uns bons restos de comida.
Tornei-me uma mulher forte, a frieza dos dias contribuiu para uma força inimaginável. Quando ouvia os três disparos que alertavam para a chegada dos consumidores, preparava-me para a labuta. Cortava os dedos e com o líquido rubro maquiava o rosto para obter uma aparência saudável. Os soldados eram exigentes, depois de deliciarem-se sobre nossos cadáveres ainda podiam negar o pagamento com argumentos incongruentes: “E ai, Raul! Alguma múmia já te calibrou antes?”.
Os dias eram fétidos, sem água, sem uma possível higiene, aos poucos a distância de um ser humano para outro foi se tornando imperativa. As doenças de pele eram as maiores oponentes dos sobreviventes. Éramos cães com uma sarna crônica e ainda assim não nos poupavam do péssimo paladar dos homens das artilharias. O verdadeiro sentido de sexo selvagem foi abrangido naquelas ruas cinzas e vermelhas. Éramos uma vitrine violada por milhares de saqueadores: nos ventres das mulheres cresciam fetos indesejáveis, nas garagens escuras homens suicidavam e eu continuava em pé. Uma múmia, não deixavam de ter razão.
Quando percebia algum indício de fraqueza escondia-me dentro das ruínas de um edifício habitado por ratos. Dali de dentro tentava táticas de recuperação, alimentava-me dos pequenos e assim seguia forte para a guerra. A primeira vez que entrei no local estava fugindo de um general mal agradecido que durante um boquete levou uma leve mordida no membro. Fiquei três dias ali, até ser esquecida ou se tivesse sorte o homem já teria seus pedaços espalhados no front – conseqüência comum da guerra, todos os dias os devoradores mudavam de cara, mas permaneciam com as mesmas intenções canibais. Naquele mesmo prédio descobri que não estava sozinha, assustadoramente deparei-me com um espectro pequeno e faminto. Dei-lhe algumas patas de ratazanas e ele as devorou rapidamente. Perguntei-lhe o seu nome “José” e quantos anos tinha “Não me lembro, dona! Tem mais carne?” Menti, disse que não, se eu dissesse sobre a fonte de alimentação, daqui alguns dias os ratos seriam uma mera reminiscência. Eu precisava viver, não sei para quem além de mim mesma, mas se a guerra terminasse poderia recuperar um pouco da memória e descobrir se em algum lugar alguém me esperava. Naqueles dias ser cruel era uma opção de sobrevivência.
Naquele mesmo prédio conseguia assistir as pessoas nas ruas, era funesto testemunhar a humilhação coletiva. Os soldados tomaram posse de todos os mantimentos doados por outros povos e utilizavam-se desse poder para por em prática as veleidades mais primitivas e maliciosas. O povo não tinha alternativa, precisavam daquela ração, necessitavam de mais um dia de vida. Mesmo que a vida fosse dentro daquela jaula de torturas. Eu também não tinha escolha, disseram que os soldados inimigos cercaram toda a redondeza e quem se aventurasse a fugir teria um pior destino. Sinceramente não sei o que é pior: levar um tiro na cabeça ou ver cada pedaço meu sendo explorado por aqueles que deveriam me resguardar. Mais tarde descobri que os jornais falaram sobre nossa situação: “Em plena guerra cidade vira bordel atrapalhando o trabalho de nossos soldados.” “Famílias vendem a inocência de suas crianças em troca de tabaco e álcool.” Provavelmente a fonte dessas informações veio de dentro do exército ou daqueles poucos cineastas (com entrada livre para o espetáculo) que vez por outra se deliciavam com as torturas sexuais. Éramos mercadoria ali dentro e lá fora o lixo execrável da humanidade. E eu continuava sem passado, ninguém me reconhecia, apenas passei a existir de uma hora para outra e fui logo me adaptando a viver como eles. Sem passado, foi mais simples permanecer.
***
Línguas Estrangeiras
Nós imploramos paciência, senhor mediador – precisamos aparecer nos papéis, no canto da massa e nas cartilhas da igreja e do legislativo. Carecemos compor notas inaudíveis através dessa sua imagem apagada, através dessa sua cabeça caduca e de suas mãos (já não tão suas desde a época da alfabetização).
Necessitamos, senhor mediador, publicar prognósticos sobre o futuro dos ecossistemas terrestres e quem sabe oferecer-lhe também algumas dicas amorosas – mas para isso basta tão somente manter todas as portas abertas, pois somos muitos e não somos espécime de fileira ou senhas.
Não adianta chorar, senhor mediador – choraremos juntos, você e nós significamos concordância do verbo, desde o primeiro (aquele que disse o que disse e tornou-se o que é). Falaremos juntos das injustiças do mundo e sobre as coisas que não podemos alterar, até que chegue o dia em que seremos assistidos.
Não acredita, não é mesmo, senhor mediador? Prefere abafar nossas vozes com o seu adequado anestésico social, com sua medíocre interpretação psicológica e sua schizophrenie espiritual. Somos muitos em você e fora de você somos meras manifestações. Deixe-nos guiá-lo para o caminho refletido em onze espelhos, onze esferas e onze retratações de sua vida.
Sentado esperando respostas, senhor mediador? Já lhe convidamos a fazer perguntas e usá-las como contragolpes. Perguntaremos: o que é a verdade? Responderemos: a verdade?
A chave oferecida não é uma klischee interpretação enigmática e sim o singelo ato de querer abrir a porta, senhor mediador. “Toc, Toc, Toc”, adoramos as onomatopéias – o poder real de interpretação dos sons… Decifre o poder das vibrações das cordas, senhor mediador!
V r u m,
z h a p,
c h u a.
***
Orun Burúkú
Movimentou os dedos no passeio público, reparou as laterais e não descobriu testemunha – ninguém que pudesse apontá-lo mais tarde ou por efeito do nascer do sol reconhecê-lo. Agarrou a prenda em suas mãos e avistou um lugar – um beco onde pudesse se encostar e sorver o resíduo daquilo que já fora um íntegro cigarro. Buscou nos bolsos sua caixa de fósforos e antes mesmo de abri-la notou a marca rosa na guimba – era de um rosa lírico, um sinal de batom de alguém que não ama cores cáusticas, um tom não muito habitual nas ruas, um colorido imaculado. Quem seria a dona de tal boca? Quem seria a boca senhora de meio tabaco fumado ou meio tabaco rejeitado? Percebeu que a boca deixara falhas, examinou o traço e sustentou a reflexão de que a dona-da-boca-dona-do-cigarro era uma boca craterada, um lábio sobrecarregado de celulites, um lábio antigo que provavelmente roçara muitas bocas. Sentiu-se felicitado, percebeu-se recompensado em uma noite despovoada, em uma escuridão sem amores, sem colos ardentes e sem grana. Depositou então a memória de um lábio sentimental e remoto dentro das calças, cravou a imagem de uma boca antiga em seu sexo e antes mesmo de ser saciado pela fantasia o fogo se animou e fez daquele homem pó – um pó rosado, um pó avelhantado, um pó que o arrastara para Orun Burúkú.
Lisa Alves nasceu na cidade de Araxá/MG e vive há mais de dez anos em Brasília/DF. Trabalha com arte digital e projetos ambientais. Possui poemas publicados em três antologias poéticas: Trilhas (CBJE, Rio de Janeiro, 2007), Poema Capital (Eloisa Cartonera, Buenos Aires, 2011) e Cumplicidade das Letras (Perse, 2012). Divulga sua arte em vários sítios culturais e é colunista na Revista Ellenismos.