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89ª Leva - 03/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Tere Tavares

 

Arte: Leonardo Mathias

 

Tempo de Lírios

 

E nem era primavera. Ajustou as meias e os cordões dos sapatos. O tom flamingo se espelhava em cada partícula da paisagem. Dialogando com as abstrações, o instinto persistente da consciência desprovido de qualquer disfarce. As formas brancas, curvas, de centros amarelos e perfumes inolvidáveis permaneciam num emudecido encontro com tudo. A intolerante pergunta era só mais um pássaro entre outros dez mil pássaros pousados em suas vestes. Por que tudo é encontro? A partir dali não haveria brisa.

Reconheceu de imediato o desassossego entrelaçado das árvores. Chegara, finalmente. E era como se também tivesse chegado o ardor pulsante do que não se extinguiria.

Quem sabe do regresso, quem pode dizer sobre o que parte e acorda da sombra, da saga vulgar dos impulsos, das substâncias e rupturas floridas da ilusão que, a cada irromper do amanhã, desprezam algo de si mesmas?  Desabrochar é um vício necessário. Do espírito.

Haveria de se perder tantas vezes quantas fossem sublimadas as suas forças. Tinha a impressão de levar consigo mais do que lhe era possível.

Soprando de um lugar ignorado um retalho igualmente irreconhecível debruçava-se sobre a nudez da claridade – a segregação de tudo quanto era conhecido e tênue. “Talvez não fosse eu” disse sobriamente.

Tudo parecia se materializar, a despeito das folhas caídas e dos anseios impacientes.

No jardim, no instante lento e perplexo do luar, nem o pai, nem o irmão, nem os filhos. Só uma crédula brancura. A que, irredutivelmente, colhia na sinuosidade do próprio rosto.

 

 

 

***

 

 

 

Me ninas dos olhos

 
“A nitidez é uma conveniente distribuição de luz e sombra.”
Goethe

 

Resolveu conversar com as pupilas. Não havia como isentar-se dos reflexos – apropriar-se é perder.

Voltou para a rua. Sentiu, secretamente, uma indizível sensação de alívio ao perceber a possibilidade de atravessar grande parte do percurso sem permitir atormentar-se com sentimentos comuns. Multidões de visões perdidas. Afinal, quem assumiria sem o risco do erro, a licença para aferir com exatidão, ou total isenção, o condenável?

Investigou com toda a suavidade possível, detendo-se nos semblantes, tentando não infringi-los, como se adentrasse em sulcos intermináveis – usava materiais conhecidos e desconhecidos para percorrê-los, acreditando ter desenvolvido, ainda que rudimentarmente, um método eficaz de observação. Não se curvaria diante de nada imóvel, opaco. Altares da alma – assim chamava os olhares – como afugentar aquelas perseguições vivazes?

De algumas pupilas retirou distâncias, sorrisos plásticos, todas as fundições do arco-íris.  De outras, frases inteiras que mais pareciam um enorme lual de estampas confusas e céu.

Era possível ver um imponderável manto de cores e interpretar o que nem imaginava compreender. De modo que lia os olhares difusamente e, retratados na sua incredulidade interior, também seus corações.

Não havia outra aparência que não fosse a que definitivamente se destacava da estranha profundidade de todas elas, pela simples razão de não haver razão para serem diferentes do que realmente eram.

Havia um par, pulsantemente castanho e singular, que conseguiu prendê-lo, talvez, por toda vida: o que vagava dizendo-lhe o que via sem nada revelar, e que o fez absorver-lhe a voz com selvagem interesse: “Sou a dos sentidos de cristal, a afortunada sofredora que tem à sua frente o rol das futilidades repletas, a que nada promete, exceto que haverá encanto enquanto durar o mistério”.

 

 

 

***

 

 

 

Clemente

 

O sol sumia por entre as pedras entristecidas. As ondas, como enormes maços de nostalgia, esparramavam-se incansavelmente sobre a imensidão difusa da praia.

Era uma vez um desvairado pairando sobre a vastidão. Atravessou a crueza da sombra e foi ter com os rochedos. Era possível que estivesse num lugar onde provasse toda a sorte de sensações. Seu objetivo era o lado oposto. Lá encontrou ondas maiores e ameaçadoras. Alguém vendia ilusões a cinco reais.

Resolveu retornar ao lugar de onde viera. Sentia-se vigiado. Sequer se lembrava dos seus. No brilho dos finos grãos de areia, como redigidos por uma estrela de meio-dia, lia-se o motivo de cada ser que ali houvesse aportado. Seriam legíveis aos outros os passos que dava na mesma proporção que lhe eram nítidos os rastros dos outros?

O desvairado, contorcido pelas bifurcações do pensamento, almejava estar diante de outro cenário.  Mal podia conter o torpor da sua terrível ansiedade. “Deves sentir cada direção escolhida, seja como for”. Aplaudiu ao sinal como quem se agarra ao intransponível. “Terás de sentir também esses ares recém plantados, e os infinitos. Queres? Quem sabe as areias movediças? Não recomendo que te satisfaças tão rapidamente”.

Atendeu sorrindo com a febril consciência de um ponto sem ponto. Provara a todos e a si mesmo – a mente liberta o fazia sentir-se lucidamente fecundo, eufórico. O primeiro nascimento, o segundo viver, o terceiro término. Não lutou contra a canção espiralada no peito. Brincou com os seixos. Guardou alguns búzios. Não se tornaria opaco outra vez. Era como se repartisse a própria vida sobre um tabuleiro interminável, o delírio cinza e sublime – sem perceber a loucura que o acompanharia até o céu.

 

Tere Tavares é escritora e artista plástica. Autora de três livros publicados: “Flor Essência” (2004), “Meus Outros” (2007) e “Entre as Águas” (2011). Integra a Academia Cascavelense de Letras.

 

 

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Janela Poética I

Leandro Rafael Perez

 

Arte: Leonardo Mathias

 

Gosto das coisas que às vezes não existem:

gelo e formigamento,
covinhas, a ficha
criminal de um amigo,
simetrias no escuro,

a necessidade de uma estrofe,
o prazer em ler Clarice.

 

 

***

 

 

POÉTICA I

 

A visão fura a maquiagem de olho aberto
sem rasgar as pálpebras fechadas de leve
Há cães e dedos nesta pequena enxergância
densa como o mundo quando vê.
Uma inocência a pôr óculos em pedras:
Seres maiores e estranhos.

 

 

***

 

 

O medo que sinto desta chuva baixa e traiçoeira
que a gravidade se casa com o vento para derrubar
das árvores molhadas até o chão encharcado
não me deixa ir ver o buraco que um vizinho fez
para do teto da varanda com um cabo de aço
pendurar um vaso de flor abaixo do chão do quintal.

 

 

***

 

 

POÉTICA II

 

O espelho me conta mais uma vez a lenda
deste duplo círculo de cílios vivos, –
mas eu reconheço a morte na ponta de um dedo
quando me deparo com tamanha falta de agulha
negra xenófoba temerária frígida primeiro-batalhão
contra a sedução tátil de qualquer imagem vista,
não este pequeno projeto de sombra platelminta
que faz do espelho uma sala de espelhos alcova.

 

 

***

 

 

alinhaves de misericórdia
encerram um animal colérico
contra aquela criança que sonha
um céu inteiriço de nuvem azul
durante tardes nem tão amenas assim
de uma vida um senfim de promessas:
Não chego a cumprir sequer percurso.

 

 

***

 

 

Pronto a abandonar o navio
pela primeira vez percebi
a ilha de barcos em chama
que era o sol a se pôr
na ânsia do mar, horizonte,
este ciúme incurável
que as ondas regressam contra
tudo que ondula sem sal, mágoa,
esta partilha perfeita que o mundo fez do espelho,
cacos inconsúteis, o marulho das árvores na espiral das
conchas,
a nuvem verde da criança que sonha o silêncio astronauta,
o mar nunca deixou de berrar
e eu só ouço agora no zunido dos meus braços abertos,
meus pés pedalam ainda na órbita do encouraçado estéril,
a vastidão me espera em vão gorada nas orlas
e de uma crueza triste junto ao cerne mofado.
Eu sempre soube que odiaria as gaivotas.

 

 

***

 

 

QUOTIDIANA

 

Depois do alento,
há uma vitória ingrata
aos que não sabem cantar,
todos nós, ao fim do mundo
já descalços tropeçamos em saltos
ainda, ruído ainda lamento
melancolia perdendo sons por dentro:
desalento descanso desdém dia
até sobrar uma única letra
a ser acrescida antes que tudo fim:
Algo algo antes que tudo some,
melodia.

 

 

Leandro Rafael Perez nasceu em 1987 e tem a altura da Carmen Miranda com chapéu-coco. Mora quase em Diadema, SP. É autor de Pálpebras Amareladas (pdf, 2008) e Lança além do real só (Patuá, 2011). Turnê a meio mastro será o próximo. Mantém o blogue fumante entre cavalos.

 

 

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89ª Leva - 03/2014 90ª Leva - 04/2014 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Clarissa Macedo

 

“Eres la fórmula perfecta
que el tiempo formó para mis manos.”
May Rivas

 

A poesia atravessa, não se sabe ao certo desde quando, um processo descontínuo de rejeição e acolhimento. Rejeição, por um lado, de um grande público, e acolhimento, por outro, de uma leva de escritores que algumas vezes não têm um verdadeiro compromisso com a palavra – objetivo maior. A produção literária, em especial a poesia, requer um ciclo de estações imprecisas, com tempos longos, por vezes intempestivos, para que o sumo necessário à existência da obra seja esgotado e colhido.

Por isso, quando nos deparamos com uma poeta de carreira sólida, construída com base num pacto com a leitura e a escrita, somos, inquestionavelmente, levados a notá-la, ao menos, com maior atenção.

Uma dessas poetas de tempos trabalhados é a peruana May Rivas de la Vega, que tive o presente de conhecer no XX Encontro Nacional e Internacional de Mulheres Poetas em Cereté, na Colômbia. Desde o princípio, não apenas pela sua poesia precisa e madura, mas pelas suas ideias equilibradas, May Rivas despertou meu interesse. Com uma postura poética decidida, arejada por imagens corpóreas, seu trabalho com as palavras revela o movimento da vida em direção ao embate amoroso e à consagração ao enigma “natureza”, condensando uma poesia de sombras luminosas. E é a mulher – a mulher May e todas as outras – que sublima reinos e fomenta a saga lírica, feminina, humana e universal quem habita os poemas da escritora.

Gestora cultural, editora, poeta da geração de 80 e feminista, May Rivas tem seguido um percurso de força na literatura, com vasto e feliz currículo. Formada em literatura e também em ciências políticas, trabalha pela promoção do Livro e da Leitura. Participou de diversos programas e eventos literários, além de publicações em revistas, e como jurada de concursos. É autora de Con ojos propios, de 1996, pela Magdala Editora, e Si Dios fuera mujer, de 2006, pela AzulVioleta Editores. É frequentemente convidada para vários eventos literários pelo mundo.

Faz sua estreia na Diversos Afins, contando-nos um pouco de sua trajetória poética, suas inclinações literárias e posicionamentos ideológicos e políticos como gestora cultural, ativista da leitura e feminista que é, num mundo no qual as mulheres ainda precisam de leis para conseguir outros espaços.

 

May Rivas / Foto: Alberto Schroth

 

CLARISSA MACEDO – Assinalando uma experiente jornada na matéria poética, seu livro mais recente, Camino de Regreso, marca uma carreira literária de mais de 20 anos. A poesia, no entanto, geralmente indica uma origem que precede quaisquer datas. Por isso, May Rivas, conte aos leitores brasileiros quando, melhor, como a poesia apareceu na sua vida chegando mesmo a determinar sua atuação profissional.

MAY RIVAS – Pois sim, são muitos anos de carreira literária. Sempre penso que é a poesia quem escolhe seus adeptos. Em meu caso, poderia dizer que começou com as leituras em voz alta que minha mãe me presenteava desde muito pequena e a bem nutrida biblioteca que meu pai deixava ao meu alcance. Porém, minha escrita poética começa em meu primeiro ano de universidade, aos 16 anos. Primeiro vieram as publicações em revistas universitárias, logo revistas literárias, para dar lugar, posteriormente, aos poemários próprios e antologias nacionais, assim como de outros países. Através dela é que de alguma maneira se conduziu minha atuação profissional, não somente no aspecto laboral, mas na forma como percebo o entorno. Desde sempre, tenho trabalhado como gestora cultural, conduzindo a gestão no campo literário em todos os seus aspectos, desde a criação, passando pela edição, até a indústria do livro e da leitura. Com a firme convicção que o consumo da leitura alimenta uma parte importante do ser humano: a alma. Assim mesmo, se converte em sanadora de quem a escreve e de quem a lê.

 

CLARISSA MACEDO – Partindo desse alimentar da alma de que você fala, e de sua íntima convivência com a literatura, qual o significado disso para você?

MAY RIVAS – É a porta para o conhecimento não apenas das pessoas que participam de sua criação e do processo pelo qual passa um livro para chegar ao leitor e leitora, mas também de quem se relaciona com ela. Através da literatura, encontramos a liberdade e a integração com o outro. Também poderíamos dizer que a literatura cumpre uma função de terapia, de cura. E como disse o escritor Mario Vargas Llosa, prêmio Nobel de literatura: “A literatura é uma forma de insurreição permanente e ela não admite as camisas de força”.

 

CLARISSA MACEDO – Lendo seus poemários, percebemos algumas nuances insistentes: o próprio tema da liberdade, através de uma espécie de “grito de livre-arbítrio”, os caminhos traçados ao longo da vida, o elo materno, o desconforto do estar no mundo e, ao mesmo tempo, a necessidade de sê-lo; há um grande tema, ou grandes temas, em sua poesia? Se sim, quais são eles?

MAY RIVAS – O tema da reafirmação e reconhecimento como mulher independente é um eixo bastante presente em minha poesia, contudo, não é o único. Como sabemos, o que escrevemos é totalmente autobiográfico, somente em uma porcentagem, portanto, é o que percebo também em outras mulheres. Por outro lado, o escritor ou escritora é um testemunho de sua época. Ao sermos testemunhas de um momento determinado em um mundo como o que nos rodeia, dificilmente estaremos em conformidade com o que vemos, sentimos, etc. Portanto, há desconformidade. De outro modo, a literatura é insurreição pura.

 

CLARISSA MACEDO – “O tema da reafirmação e reconhecimento como mulher” é, certamente, uma tônica bastante abordada na literatura. Embora nem sempre tenha sido assim e isto seja uma das molas propulsoras desse ciclo. Nesse aspecto, há algo que, me parece, a inquieta: a situação da mulher, não só na literatura, mas na política e em todos os setores da sociedade. Como você vê este processo nesses últimos anos e como está sendo no Peru?

MAY RIVAS – É um tema bastante abordado na literatura e, efetivamente, é um assunto que me interessa em sua totalidade como feminista que sou. Em meu país estas reivindicações têm tomado corpo, com idas e vindas. Entretanto, o constante trabalho organizado dos grupos feministas tem logrado uma certa autonomia da mulher em diferentes campos da sociedade. Isto não quer dizer que o trabalho tenha culminado, pelo contrário. Por exemplo, faz uns poucos anos, temos um Ministério da mulher, que, de acordo com diferentes governos, se dá maior ou menor importância; também há uma maior presença de mulheres no campo político, o que originou a lei de cotas que estabelece uma porcentagem mínima de mulheres em altos cargos do Estado. Porém, neste momento não vem sendo cumprida pelo governo, mas se está trabalhando para reforçá-la. Sem dúvida, é fundamental que se siga trabalhando em cima da mudança de mentalidade, sobretudo das mulheres: a consciência de gênero e equidade em todos os âmbitos.

 

May Rivas / Foto: Alberto Schroth

 

CLARISSA MACEDO – Pensando nas suas respostas anteriores e nesse envolvimento declarado com o feminismo, é possível dizer que sua poesia seria de alguma maneira comprometida com tais questões?

MAY RIVAS – A poesia, assim como a literatura, não tem que estar circunscrita ou a serviço de um movimento ou ideologia política.

 

CLARISSA MACEDO – Vinda de uma escola literária, digamos, moderna, como você vê a poesia contemporânea, que está permeada pelo fascínio da velocidade e do alcance das redes sociais?

MAY RIVAS – Pessoalmente, gosto, já que também se pode dialogar com outras disciplinas. As redes sociais facilitam a difusão e conhecimento do que acontece, desde o ponto de vista da literatura, em outros lugares, e chega a muito mais pessoas de maneira mais direta.

 

CLARISSA MACEDO – Partindo desse ponto, há um espaço genuíno para a poesia hoje?

MAY RIVAS – Sim. Todavia, há que se seguir fomentando o consumo da poesia, que, dentro da literatura, é um dos gêneros que menos se consome.

 

CLARISSA MACEDO – Diversos poetas partilham dessa opinião: a poesia como um dos gêneros que menos se consome. A que se atribuiria isso?

MAY RIVAS – Diria que não só vários poetas compartilham deste ponto de vista, mas também editores. Aventuro-me a dizer que a razão poderia ser que não é um gênero que se saiba ensinar adequadamente nas escolas e/ou que não aproxima a poesia dos meninos e meninas nos primeiros anos.

 

CLARISSA MACEDO – Em sua carreira como escritora, é notória a participação que você desempenha em encontros literários em várias partes do mundo, como Cuba e Colômbia. Em que medida estas experiências enriquecem a matéria poética?

MAY RIVAS – Enriquecem muito, porque se aprecia olhares diferentes sobre o que se escreve e de como se é percebido por outros públicos, assim como escritoras e escritores de outras latitudes, com uma carga diferente da nossa.

 

CLARISSA MACEDO – E daqui pra frente, quais são os planos de May Rivas como escritora?

MAY RIVAS – Terminar o terceiro poemário que estou escrevendo, e, claro, os que estão por vir. Não sou uma pessoa que tenha pressa em publicar, mas bem, sou das que frequentemente demoram nas publicações. Por outro lado, e de maneira paralela, continuar com o trabalho de editora e gestora cultural focada em projetos que tenham a ver diretamente com a criação, o livro e a promoção da leitura, este último como um compromisso.

 

Clarissa Macedo (Salvador – BA). É licenciada em Letras Vernáculas (UEFS), mestre em Literatura e Diversidade Cultural pela mesma instituição e doutoranda em Literatura e Cultura pela UFBA. Atua como revisora e professora. Ministra oficinas de escrita criativa. Está presente em diversas coletâneas. É autora de “O trem vermelho que partiu das cinzas” (2014). Sua poesia está sendo traduzida para o espanhol. Edita o blog Essa coisa que é o eu.

 

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Janela Poética II

Luiz Brener

 

Arte: Leonardo Mathias

 

Das vantagens da ficção

 

Como de costume,
sem ter hora ou ocasião,
a verve me espreita
os sonhos mais sórdidos.
Ela se debruça sobre mim
e com seus lábios melífluos
me beija
ardentemente.
Somos o próprio caos.
Depois de algumas horas de
gozo trocado,
eu, ainda distante de mim,
me lembro de Dulce,
a bibliotecária que lambe
dicionários.
Recordo-me também de Agenor,
o velho que cultiva bonsais
em torradeiras.
Me vem a mente, por último, a persistência
de Hugo, o menino que empilha grãos de arroz
com um apuro sobrenatural.
O que
por acaso
nos aproxima
é justamente
o fato
de que sonhamos sozinhos.
O que
curiosamente
nos mantém ligados
é  aquilo que
nos denuncia.
A consciência de que meu eu
só existe em lírica
não é um incômodo.
Muito pelo contrário,
é o que
dá ao meu aglomerado de células imprecisas
alguma verossimilhança.
O mundo seria ainda mais infindável
se todo espírito pudesse desfrutar do
prazer
de
inexistir.

 

 

***

 

 

Como fazer

Aos companheiros ourives Renato Silva e William Delarte

 

Mantenha
em território livre.
O recomendável é que se
refugie na parte da cabeça onde
a verve
nunca anoiteça.
Regue de três em três instantes,
com choro, suor, sangue ou qualquer
outra fagulha humana.
Se possível,
acenda um incenso.
Não são poucos os que apregoam
que o gesto confere ao objeto
um certo ar de efeméride.
Não se preocupe
em lapidar.
Não se deixe assombrar
por devaneios quanto
a forma.
O único desejo que deve prevalecer
é o de que
a joia floresça.
A coisa estará perto de se concretizar
quando estiver menos matéria sólida e
se tornar algo fino.
Mas ainda assim tão tátil
quanto o próprio vento.
E, por fim,
para assegurar
a garantia
de todo o processo,
sem remorso ou indecisão
você deve
atirar a pedra
no meio
do
caminho.
Observação pertinente: você deve atirar
a pedra
no meio do
SEU
caminho.

 

 

***

 

 

A aranha

 

A aranha,
sempre humilde tecelã,
constrói a própria cama.
Eu atiro-me a minha
sem contestar sua
origem.
A aranha, essa decorosa mãe,
faz da cama
berçário para
acomodar sua
numerosa prole.
Eu abrigo na minha
pesar e ossos cansados.
A aranha, sábia raposa,
sabe que sua cama também
é engenhosa
armadilha.
Eu deito na minha, certo
de que é um santuário
de sonhos concernentes.
A aranha, sempre inventiva,
também faz da cama
um modesto refeitório.
Eu me vigio pra não manchar
os lençóis da minha.
A aranha, indubitavelmente,
sabe se virar.
Eu só durmo de bruços.

 

 

***

 

 

Sob nova direção

 

Herdei do velho dono
uma coleção de LPs
e um cão de olhos gastos.
O quadrúpede choraminga
toda vez que a vitrola evoca
a voz de Joplin
ou a juventude inesgotável
dos Besouros.
O cheiro de incenso perdura.
Há dezenas de pinturas mal-acabadas.
Tentativas frustradas
de autorretratos.
Nada é igual.
Nada é unânime.
Tudo se condensa de forma que
cada um dos arredores percorra
uma ala do coração do
antigo inquilino.
Cada um dos móveis,
cada peça que compõe a mobília,
tudo reverbera a falta.
A saudade é um hino estridente
que ressoa de forma violenta e é
cantado por cada um dos tijolos que
integralizam a ossada de
minha nova residência .
As inúmeras infiltrações soam
como veias puídas
que pulsam lembranças
em tom de sépia.
Eu, tão ausente, quanto
o avoengo proprietário
destoo desta alvacenta cenografia.
Sou elemento sobressalente de
uma plástica já sacramentada.
Um fio de azeite temeroso
em meio a um oceano de decomponível
quilometragem.
Não tenho feito nada a não ser
esperar.
Sonhar com o dia em que, finalmente,
hei de me habituar
à maneira indecorosa
com que esta casa
respira.

 

 

***

 

 

Visita

 

Servira-me uma dose
generosa
de uísque na xícara.
Corria pelos seus aposentos
ilustrando seu vigor com
gestos efusivos.
Entoava de novo seu
cancioneiro de
auspiciosos
anexins.
A. estava feliz.
Na poltrona,
o acordeão.
Ao que consta,
ele fora recobrado.
Partituras se acumulavam
pelo chão a exemplo de post-its
de toda a sorte de cores
nas paredes.
Minha querida A. dispunha
de um vestido amarelo.
Imitação original da luz do dia
e tão radiante
quanto ela própria.
Valsávamos incautos ao som de um
de seus blues.
Quando, por alguns breves minutos,
ela se ausentou
me aproximei de um
dos coloridos memorandos
que vestiam sua alvenaria.
Em todos eles
estava escrita, com a mesma delicada
caligrafia,
uma audaciosa máxima: o câncer
não sobreviverá
a mim.

 

 

Luiz Brener nasceu em Caraguatatuba/SP em 1994. Segundo a cultura de prognósticos, o mês e a hora exata de seu nascimento indicam que ele é capricorniano e o seu signo ascendente é o de peixes. Em outras palavras: Luiz é um obstinado sonhador. Publicou nas antologias literárias O Segredo da Crisálida e Entrelinhas-Vol.2, ambas da Andross Editora. Fotogramas é seu livro de estreia e integra a Coleção Patuscada, premiada pelo ProAC- 2012 – Programa de Ação Cultural da Secretaria de Estado da Cultura.

 

 

 

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Olhares

A poética dos intervalos

Por Fabrício Brandão

 

Arte: Leonardo Mathias

 

No diapasão tempo-espaço, a matéria apresenta suas diferentes formas de estar no mundo. Revestida com seus tons aparentes, ela ora explicita muitos de seus significados, ora cumpre um ritual que permanece oculto diante do nosso imediatismo questionador. Quando a margem para a revelação se processa além das esferas físicas, algo marcante instaura-se em torno das nossas percepções. Nesse novo e enigmático território, resiste o verbo segredado e habitante de uma morada regida pelos imperativos do ser.

A busca pela essência é em muito representada pelo enfrentamento dos mistérios, sobretudo quando adentramos um ambiente que desafia nossa mais primitiva capacidade de compreensão das coisas. Assim, vislumbrar cenários contidos nas entrelinhas do ser é como se voltar ao eu tentando captar dele seus sinais genuínos. Noutros momentos, pode também ser uma espécie de déjà vu por entendermos que certas paisagens nos soam curiosamente familiares.

Em meio a tais caminhos, feitos de delicada e inexplicável substância, Leonardo Mathias deixa correr soltas suas visões da existência. Entre desenhos, ilustrações e aquarelas, inscreve-se um tempo marcado pelo sabor dos intervalos. No jogo que permeia a visão imediata de pessoas e objetos, esse artista elege os recônditos como sendo os símbolos preferenciais de seu trabalho. Interessam-lhe desvãos e sendas, elementos que protagonizam o indizível.

 

Arte: Leonardo Mathias

 

Ao passo que sua arte preconiza um recorte intimamente compartimentado das coisas, Leonardo também prefere a antevisão dos cenários e ações, característica que torna robusta a sua perspectiva de conceber a um tudo com olhares de experimentação. Dentro dessa ótica, a vida mesma pode ser recriada segundo uma ordem que equaciona saberes e sabores. O mecanismo que antecipa sensações não é apenas uma tentativa de enxergar o essencial nas entrelinhas do mundo, mas, principalmente, um modo de vivenciar as nuances complexas que se abrigam no interior dos dias.

Outro aspecto que merece ser destacado na obra de Leonardo é o modo como se processam as intervenções humanas nos ambientes.  Aqui, o interessante é notar que se opera uma convergência entre corpos e lugares permitindo a ambos uma espécie de translucidez não somente física, mas também algo abstrata. Nesse hiato de territórios que se fundem, o artista encontra a poesia capaz de engendrar recortes da alma.  A luz que atravessa os pontos de observação do criador redimensiona o caráter conceitual das coisas e, como ele próprio confessa, intenta consolidar uma matéria de encantamento.

 

Arte: Leonardo Mathias

 

As frentes de atuação de Leonardo Mathias não se restringem apenas ao campo das artes visuais e do design. Na seara literária, tem devotado especial atenção à poesia. Seu livro “De Pé” foi recentemente reeditado pela Editora Patuá. Possui colaborações em jornais como O Estado de São Paulo e Folha de São Paulo, bem como nas revistas ZUPI e InPrint Magazine. Participou de várias mostras coletivas, sendo que, em 2012, realizou sua própria exposição individual, intitulada As Janelas de Rilke, premiada pelo ProAC Artes Visuais (Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo). No meio editorial, sua participação tem sido bastante expressiva, pois ilustrou e assinou projetos gráficos de mais de uma centena de livros.

Dada a aguçada sensibilidade do artista, suas imagens estão à serviço de uma compressão na qual tempo e espaço se conjugam de modo a transmitirem uma peculiar noção de unidade. O olhar que vislumbra o viés orgânico de corpos e objetos transcende a materialidade e nos faz contemplar um universo densamente etéreo. Seu porta-voz, Leonardo, se encarrega de nos ofertar os códigos da sutileza para um deleite autônomo.

 

Arte: Leonardo Mathias

 

* Os desenhos e ilustrações de Leonardo Mathias são parte integrante da galeria e dos textos da 89ª Leva.

 

 

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Janela Poética III

Marcelo Ariel

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Marcelo Ariel nasceu em Santos, em 1968, e vive em Cubatão. É poeta e pensador. Autor dos livros “Tratado dos Anjos Afogados’ (LetraSelvagem), ‘Conversas com Emily Dickinson e outros poemas’ (Multifoco), ‘Cosmogramas’ (Rubra Cartoneira), ‘A Segunda Morte de Herberto Helder’ (21 Gramas), entre outros. Lança em breve seu décimo livro de poesia, ‘Retornaremos das Cinzas para sonhar com o silêncio’, pela Editora Patuá. É colunista dos sites Cinezen e Musa Rara, e um dos editores da Revista Mallarmargens.

 

 

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Dedos de Prosa I

Maurício de Almeida

 

Arte: Leonardo Mathias

 

Atlântico-Noite

 

Jogado no sofá à espera de nada, combalido no marasmo de uma ansiedade entorpecida por mais uma dose de uísque, ouço ao longe uma rebentação e imagino as ondas primeiro num refluxo tímido e assustado para depois acertar numa violência desnecessária a noite que observo posta à janela. Ao suspiro desses marulhos, deixo-me quase em vigília na esperança de compreender esse sentimento oco que se agrava ao som de ondas e as ondas aos círculos no copo que seguro, uma agonia desnecessária minha vida feito gelo sumindo aos poucos como se não sumisse: o tempo que se mantém véspera, Sartre delirando com o suicídio de Quentin nos livros que pairam quietos pela sala. E nessa pasmaceira, sonho alto com a bunda de Simone de Beauvoir e o mínimo instante de prazer no qual me evadirei do acúmulo desmedido de pudores e arrependimentos que me naufragam numa apatia e me colocarei outra vez em movimento, a vida pulsando para além de tudo que agora conspira desistência nesse sofá-arquipélago sobre o qual me abandono apático.

Desacreditado no torpor de uma angústia que se espraia sem razão e me engole na ideia de que neste momento o mar é tão-somente um imenso vazio, noite refletida e inquieta gestando ameaças em profundezas, assalta-me sem pressa essas pernas que irrompem a sala forjando desinteresse, meus olhos subindo ao umbigo, os peitos pequenos e os braços abrindo asas sobre a cabeça para enrolar uma toalha no cabelo: Isabela nua indo à estante e decidindo numa linguagem ancestral qual livro escolher me deixando quase às mãos sua cintura, as curvas suaves de sua bunda

(Simone de Beauvoir ao acaso desta noite)

o corpo molhado que ela então e de repente esconde com a toalha antes na cabeça para inventar um mistério que me subjuga a uma necessidade de resolução

(Sartre e Quentin delirando)

e ao qual, apesar de me animar prometendo escapes e evasivas, impeço-me reações, reafirmando ansiedades & marasmos, o uísque me comovendo em preguiças. No entanto, observo-a capturar um livro e colocar uma cadeira à minha frente para folhear páginas e inventar sons que deveriam soar plenos de sossegos

ein jeder Engel

mas, ao contrário, explicitam carências em fonemas que não entendo

ein jeder Engel ist schrecklich

acentuando este não-lugar ao qual já pertenço, um tempo que insiste vésperas jogando-me de um lado ao outro ao acaso de ondas sem início ou fim. Todavia, me encanta ver a forma definida de cada músculo contraindo-se ein jeder e distendendo-se Engel ist sem acidentes schrecklich e sem acidentes ela coloca as pernas ao meu redor prendendo-me ao seu cerco, um estranho sorriso esses lábios que me convocam e aos quais não resisto um beijo, os dedos dela firmes aos puxões no meu cabelo e nesse êxtase ainda discreto não prevemos a queda do livro que nos toma num susto: ela salta e recua como se tímida ou assustada e me nega o segredo mínimo de suas pernas abertas, prenúncio de vida enfim realizando-se mas logo pondo-se distante, refluxo.

Acompanho-a caminhar até a mesa e servir-se de uma dose de uísque antes de pegar um cigarro. As mãos dela se movem muito lentamente como se desenhassem os sinuosos fios de nicotina que somem sem anúncios e, entregue outra vez a uma apatia sem tempo, não a percebo armando-se num golpe que afinal me acerta o corpo num rebentar ao tê-la inteira sobre o meu colo, eu surpreendido por ela me afogando num beijo e murmurando de olhos fechados

todo anjo é terrível

nossos braços desfazendo-se das roupas num movimento de nado, nossas pernas entrelaçadas numa agitação imprevisível de cardumes, um estado de graça Isabela me exigindo ação em violentas assertivas

(todo anjo é terrível)

certa de que o prazer da entrega não está na constância, mas na intensidade, e eu quero dizer que preciso de continuidade, ela me pesando indefinidamente o corpo para me sentir vivo, a sensação de que as ondas me endereçam de uma forma muito particular a qualquer praia. Contudo, indiferente aos meus suplícios que não conseguem articular palavras, ela me amarra os ombros num abraço para nos embalar em cadência e finalmente me vencer num estampido, um torpor correndo leve que me enfia um sorriso melancólico no rosto, porque a vida que se fez presente volta a fazer-se véspera

(Sartre aos prantos no ombro de Simone de Beauvoir)

Isabela enrolando-se novamente à toalha antes de sentar-se ao meu lado e voltar a folhear o livro em silêncio, negando-me fonemas e versos, pernas e sorrisos, e outra vez e sempre um marasmo desnorteado, a sala cheia de tormentos e marulhos e não me resta senão aguardar que nada se mova sobre a face do vazio que é o mar durante a noite no qual me esqueço à deriva na espera por nada.

 

 

Maurício de Almeida é autor de Beijando dentes (Ed. Record), livro de contos vencedor do Prêmio Sesc de literatura 2007.

 

 

 

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89ª Leva - 03/2014 Galeria

Arte: Leonardo Mathias

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