Tempo é a sucessão dos anos, dos dias, das horas. Permite ao homem ter noção do presente, passado e futuro. É irreversível.
Dar um tempo é a nova droga do momento. Vou dar um tempo. Estou dando um tempo.
Indicação deste produto para pacientes que durante uma relação amorosa passaram a sofrer de: choro súbito, olhar perdido, dor no peito, estresse com o vizinho que não tem culpa de nada, ódio da prima que mora a mil quilômetros de distância e nem lembra de sua existência, vontade de comer dúzias de bombons depois de um churrasco, secura na boca, aumento do consumo de bebidas de teor alcoólico, overdose de cigarro, cantar Yesterday em pagode, ímpetos de matar o açougueiro que substituiu a alcatra por chã de dentro, mandar pra puta que pariu o porteiro que não lavou seu carro, desejar a maldição de Montezuma para todos os vendedores de telemarketing, gritar pro filho que o som está alto, rever novela no Vale a Pena Ver de Novo, sentir raiva dos bonzinhos e uma vontade imensa de ser mau, muito mau. E bota maldade nisso.
Informações
No século XX, resolveram que dar um tempo nas relações afetivas é eficaz. Desde a antiguidade o tempo é considerado o melhor remédio para tudo. Há relatos de que com o tempo a verdade aparece. Foi comprovada essa tese em alguns detentos que passaram a juventude inteira presos injustamente, mas na velhice tiveram a inocência declarada. Morreram livres e hoje usufruem lápides com escritos lindíssimos!
Efeitos colaterais mais comuns (que não melhoram com o tempo)
Saudades, ódio, esquecimento e morte.
Advertências
A saudade costuma causar depressão. Se você sentir vontade de ver fotos e cartas antigas, fechar os olhos e reviver momentos passados, cantar Matriz e Filial no banho, suspenda imediatamente o tempo e tome Prozac, concomitantemente.
O ódio pode levar a desejos estranhos, como querer a ditadura de volta, sonhar que a cunhada caiu na rua, comer o fígado do ex.
O efeito esquecimento é extremamente perigoso, costuma causar o adeus com cinco letras que não choram.
Se estes sintomas ocorrerem, consulte imediatamente seu coração. Caso você morra antes, dane-se. Acreditou que o tempo cura, porque quis. Este medicamento é contra-indicado na faixa etária superior aos sessenta. Pode não dar tempo de retomar à antiga posição.
Dados complementares
Vovó e vovô fizeram bodas de ouro antes dessa solução afetiva que muitos afirmam revigorar a saúde da relação! Só não fizeram de diamante, pois apesar da penicilina ter sido descoberta antes desse recurso, vovô pegou pneumonia por conta de um vento e faleceu.
Não houve tempo para o efeito do medicamento.
Dar um tempo é a grande saída para se chifrar parceiros sem o perigo de ser malvisto por terceiros. Quem pede um tempo, quer se livrar da relação. Eficaz apenas para amor de ocasião, daquele que começa num verão e não chega a outono nenhum.
***
Art. 214*
Tinha apenas uma hora para chegar ao aeroporto. Seu corpo parecia uma bomba-relógio. No táxi, começou a rever o que estava levando e o que havia deixado. Tinha certeza de que havia colocado todos os seus vestidos de alça, não abria mão deles nunca; todos os remédios, não se acostumava com similares, muito menos genéricos, tinha grilo deles, já estava acostumada com a cara da embalagem tradicional, em remédios a gente tem que confiar, só fazem efeito se forem antigos amigos; documentos (trouxe todos ou lá é sem lenço e sem eles?); a sandália preta; aquele ratinho de pelúcia; o travesseiro rasgado; o CD dos Beatles; as fotos companheiras da night.
Não queria revirar o armário da memória, as gavetas das lembranças, a estante das reminiscências e mandou o taxista acelerar ao máximo. Não queria mais tempo para se revirar, não pretendia ficar novamente enfurecida com a constatação de que o atual coração é genérico, daqueles em que ela não confia. O antigo, aquele que adorava os vestidos de alcinhas, a sandália preta, o ratinho de pelúcia, o travesseiro rasgado, os Beatles, que botava o seu sorriso nas fotos, foi roubado por um traficante de heart.
Foi presa por atentado violento ao pudor, quando saltou do táxi, literalmente nua, sorrindo pra dedéu. O motorista afirma que ela se estressou no engarrafamento e saiu jogando tudo pela janela.
*Atentado violento ao pudor (Código Penal Brasileiro)
(Natural do Rio de Janeiro, Rosa Pena é escritora, professora especialista em recursos audiovisuais e artes cênicas, administradora de empresas. Trabalhou na Divisão de Multimeios da Educação, na secretaria de Educação e Cultura do Rio de Janeiro com projetos ligados a cinema, teatro, música, literatura. Compulsiva em ler e escrever, considera a Internet a grande biblioteca contemporânea. Possui inúmeros e-books, compartilhou com outros escritores de oito antologias, tem participações em livros da Tribo e três livros de crônicas e contos editados: PreTextos (2004), UI! (2007) e Tarja Branca (2010))
Uma sombra devora uma outra sombra
metamorfoseando pedra.
E um desejo mergulha
suas verdes mãos
na correnteza do sol.
***
O HOMEM QUE MORA NO MENOR QUARTO DA CASA
Ele é o homem que mora no menor quarto da casa.
Suas mãos contorcem os fios e
soldam as memórias dos computadores que conserta.
Mas não conectam seus elos com o passado.
O homem que mora no menor quarto da casa
lava roupa suja dentro do armário e
não se olha no espelho. A água derrama
a sujeira da roupa dentro do armário,
que a esconde.
O homem que mora no menor quarto da casa
faz arroz na leiteira e não toca na louça suja.
Ele pensa que não vai ficar livre.
O homem que mora no menor quarto da casa,
não está sozinho.
Ele é o mais inteligente entre cinco irmãos.
Ele é diversos pedaços entre o parto e a maturidade.
E conserta computadores.
O homem que mora no menor quarto da casa
desenha estórias em quadrinhos.
Adora futebol.
E vê a bola, e sonha bola nos pés
dos super-heróis que consertam computadores.
O homem que mora no menor quarto da casa
tranca a porta.
***
ÓDIO OCULTO
Danem-se os conceitos do mundo!
Vou para a Amazônia, lá onde meu coração está,
traduzir a água na poeira das horas,
ouvir o uirapuru de Vila-Lobos
e qual esta lâmina que me corta os pulsos,
arrancar o ódio nos dentes
e repousar na terra úmida que cheira à vida oculta.
E tocar o ódio, ………………………e saborerar o ódio, ……………………………………………………e transmutar o ódio
em fina seda que, bordada pelas mãos de muitas mulheres,
reveste a alma gloriosa.
***
MEMÓRIAS
Em brasa, o véu de seda ………………………………….revela
imagens vermelhas que eriçam ………………………………….Memórias
Surpresa da selva no limiar da …………………………………….noite.
Será dia?
Seca a escuridão na fogueira
queimando estórias. Fragmentos
de mata atlântica replicam:
acabará em cinzas?
A imaginação se arvora
no sonho rubro da noite.
O tempo lapida a alma …………………………..inquieta.
***
ADEUS
O tempo se afoga nas pedras
moendo grãos da memória
Adeus …………um deus ……………………….se desgoverna.
Teço seu nome no barro
por onde escorrem …………………………meus olhos.
Mônica Mello é formada em Letras pela Universidade Gama Filho- UGF e Especialista em Literatura Brasileira pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ. Participou da exposição de pintura do Centro Cultural da UERJ – Coart, em 2014.
“E é sempre sobre ruínas que se faz uma vida”. Este é um dos muitos aforismos com que topam os viajantes que aceitam embarcar nas histórias cruzadas e ardentes de Osencantos do Sol, último livro de ficção de Mayrant Gallo, lançado no início de maio deste ano pela editora Escrituras. Conhecido como poeta e contista perspicaz, Mayrant agora resolveu nos fisgar com uma narrativa mais longa, que carrega, no entanto, a marca registrada do seu estilo muito contemporâneo: o ritmo acelerado que prende a nossa atenção desde a primeira palavra até a última ironia, assim como a fragmentação narrativa, os cortes de cenas, as mudanças temporais e espaciais; tudo no estilo do melhor cinema moderno, nos envolvendo de maneira irredutível numa espiral movente, que, não raramente, nos faz sentir certa vertigem.
Aliás, é preciso dizer que a novela (conforme o autor classifica o livro), cujo título nos guia para o lado místico e fantástico que compõe todas as coisas comuns, pode ser encaixada entre as narrativas pós-modernas, não apenas pelas técnicas apresentadas, mas, sobretudo, pelos assuntos que movimentam os personagens, tão improváveis como são todas as pessoas de carne e osso, com as quais esbarramos durante a nossa brevíssima caminhada.
A vida de um escritor de meia idade, confuso e deslocado dos espaços em que transitava, e que parece precisar entrar em contato – quase sempre superficial – com as vidas de outras pessoas para se convencer de que jamais poderá ser e sentir como elas, aparece como ponto de partida para as histórias. Ele não compreende as necessidades alheias, e quase nunca quer compreender. Percebe-se mesmo inabilitado para entender o que ele próprio demanda, ao mesmo tempo que se sente apático demais para mudar as situações que vivenciava.
Então Dino Endre, como se chama o personagem, é o retrato de um homem que tem problemas para definir coisas que geralmente julgamos cruciais para traçarmos os roteiros de nossas viagens, como o tipo de afeto que sentimos pelas pessoas, o objetivo de estarmos ao lado delas e, principalmente, o que devemos esperar da vida.
Mayrant Gallo / Foto: arquivo pessoal
Casa-se, descasa-se, aceita fazer trabalhos que não lhe apetecem, bem como manter relações que não o satisfazem, e tenta conviver com tudo que lhe espinha a alma, como se portasse um enorme peso inútil, mas de cuja presença incômoda já não pode prescindir. Aliás, sabe que suas questões insolúveis são as únicas coisas que de fato lhe pertencem. Então, o que tem o narrador d’Os encantos do Sol em comum conosco, homens e mulheres destes tempos? Quase tudo, a não ser por uma certa indiferença com relação ao acaso que governa todos os destinos. Dino sabe que não adianta lutar contra a mais impalpável das verdades: A vida é incontrolável. Daí o narrador citar Albert Camus, que nos aponta de forma contundente: “Não existe destino que não se supere pelo desprezo” (CAMUS, 2013, p. 113)
Os acontecimentos da vida de Dino são dispostos em vários capítulos, alguns suportando narrativas independentes, que imprimem marcas e deixam ecos no todo da história, que nunca chega a ser inteira. Condiz perfeitamente com os retalhos da colcha que se tornam nossos dias imersos em mil pequenos acontecimentos e que, chegando ao final, nos deixam apenas uma sensação estranha de um delírio incoerente. Assim, Os encantosdo Sol acontecem a partir da ideia de que, como disse alhures o poeta espanhol Calderón de La Barca, “A vida é um bem ilusório porque tem a duração e a consistência dos sonhos”. Talvez por isso os capítulos do livro sejam curtos, alguns representado flashes de pensamentos.
Nos relatos, está presente tudo que é demasiadamente humano, inclusive as nossas ficções de cada dia, sem as quais talvez, sequer, existiríamos. Há também a reflexão acerca da ideia midiática de amor que se tornou tão banal quanto irreal; a impossibilidade de felicidade na profundidade do eu e de sua manifestação fácil, quase sempre no que há de mais material e superficial, como no sexo, nos desejos que sentimos e, principalmente, nos que esperamos despertar. Ainda comparece ali o pavor da solidão e da rejeição, e as formas de como nos deixamos cooptar para não termos de enfrentá-lo. Mas, para além de qualquer outra coisa, Os encantos do Sol nos ensina que são nos abismos mais obscuros que encontramos o germe mais genuíno da vida.
(Luciana Oliveira é doutoranda pelo programa de Pós-graduação em Literatura e Cultura da Universidade Federal da Bahia (UFBA), e Mestre em Literatura e Diversidade Cultural pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS))
Não seria exagero afirmar que o cantor e compositor Wado tem o mesmo atrevimento daquele [quase] homônimo falecido que o separava por uma letra ene. O catarinense radicado em Alagoas entrega-se à variedade rítmica e poética com a mesma paixão de um colecionador excêntrico. A voz metálica que já derivou álbuns de sonoridades diversas e títulos criativos, como O Manifesto da Arte Periférica (2001), Cinema Auditivo (2002), A Farsa do Samba Nublado (2004), Terceiro Mundo Festivo (2008), Atlântico Negro (2009) e do elogiado Samba 808 (2011), assume agora um tom delicado, melódico e, por que não, mais acessível. Lançado em junho, Vazio Tropical é fruto do Festival MPTM (Música Para Todo Mundo), promovido em 2012 pela Oi, que premiou quatro artistas com a gravação de um disco físico pelo selo Oi Música (os outros contemplados foram Bárbara Eugênia, com É O Que Temos; Nevilton, com Sacode e Pedro Morais, com Vertigem). Produzido por Marcelo Camelo – que tocou vários instrumentos no álbum e já havia colaborado na faixa Com a Ponta dos Dedos, em Samba 808 – e abarrotado de convidados, o sétimo trabalho de Wado evoca um sentimento bem próximo ao do título sugerido e da ‘doce solidão’ já proposta pelo eterno hermano.
A primeira faixa, a bela Cidade Grande, abre o álbum tecendo uma crítica social à nossa própria trivialidade (e segue os mendigos nas multidões/já são tão normais que nem mais emocionam). A canção seguinte, Rosa, parceria com o músico Cícero, ensina que, como quase tudo na vida, ‘vai doer, mas depois vai passar’. O lirismo fica a cargo de Canto dos Insetos (co-autoria de Cícero e Momo) e Flores do Bem, única canção não-autoral, assinada inteiramente por Momo. Em Carne, Wado faz dueto com o uruguaio Gonzalo Deniz, do projeto Franny Glass e discorre sobre a iguaria em todas as suas acepções (me chamam carne dentro do açougue/me chamam carne, temos açoite).
Cícero, Wado, Marcelo Camelo e Momo / Foto: Divulgação
A ciranda Quarto Sem Porta, faixa mais ensolarada e suingada do álbum, tem a discreta participação [e a risada] de Mallu Magalhães (pra um casal um quarto sem porta é mais que um tormento/como qualquer visita depois de um certo tempo). Zelo e Tão Feliz são, indiscutivelmente, as melhores canções do disco. Na primeira, o músico divide os vocais com Cícero, amparados por solos de instrumentos de sopro que lembram muito a sonoridade de Los Hermanos; na segunda, é a vez de Marcelo Camelo e Wado revezarem os microfones na faixa que possui certa aura de Radiohead (eu me sinto tão feliz/a ponto de explodir/e divertir um campo inteiro de futebol). Se Primavera Árabe (é que quando você cala/é que mais você me fala) e Cais Abandonado (eu mantenho a língua afiada/mastigando o vidro da ilusão despedaçada) apontam para o melhor da poesia musicada, a instrumental Vazio Tropical, que intitula o trabalho, em menos de um minuto de duração, parece sintetizar a agradável melancolia do álbum, tal qual um passeio por uma praia deserta num entardecer frio e nublado.
Mesmo sendo um disco de inéditas “canções-sobras” de trabalhos anteriores do músico, em nenhum momento isso compromete a atemporalidade e homogeneidade das 11 faixas. Ao contrário, despido de recursos eletrônicos e orgânicos, os versos de Wado soam introspectivos e confessionais, representando uma nova MPB [sub]tropical, porém temperada de sensações.
O corredor da sala ficaria com o azul rosado, o quadro das embarcações. Para o quarto distante e agora mais feliz levaria as tulipas aquáticas que antes eram da sala. Na onda embranquecida pela violência do mar já se haviam dizimado os motivos do choro. O coro de lamentos sumira no lume da primeira embarcação – máscaras e caracóis vestidos na véspera. O vazio prenhe de elipses entre decisão e ardor, ascendia num horizonte lívido de silêncios sem voz. Quisera correr e agarrar-se aos remos com os braços fortes de outrora. Quisera haver ainda sais para remar a vontade de parar.
***
Som
Esquecera há quanto ocultara na falta de tempo as leveduras do pó e seus milhões de ouvidos. Abriu o compartimento de onde viriam as notas. Um clique. Debussy. Massenet. Guardava o som na memória que esquecia títulos, composições. Só a melodia a vagar o sentido que não oblitera. A leitura disforme e veloz como as mudanças tecnológicas. A fome por som continuaria somente até a segunda ideia navegar a distância da aproximação, portas presentes. Meditação para Thais e Clair de Lune. Viu partituras. Ouviu piano, violino. E segregou-se no retrato de um homem que possivelmente teria amado.
***
Debrum
Revestia-se humílima no breu da razão onde esmigalhara vertigens irresolutas, esmiuçada no equilíbrio de uma desordem no fio dos lábios exultando um ontem mínimo e indispensável à perfeição do hoje, hígido, servil. Estremeceu a voz numa hiperbólica vigia “ah se não fosse se não viesse se parasse o que possui dores”. Via no branco espalmado apenas a liberdade feita de algemas. “E esse céu que se vai tecendo num fulcro de impossível”. A fadiga solúvel, uma fragrância irrecusável de alecrim e calêndulas – um gesto súdito a reveste derramando-lhe um cetim consútil – sua noite de pêssegos.
***
Eco lógico
O peso do elo pode não ser um pesadelo. Na urgência que tem para que o tempo demore já não demora nem retorna à raiz a árvore que cai – apenas o corte finge que o cinge quase esquecido do seu gosto de nozes. Como uma película de lagos entre os braços tinha para si a modorra que movia. Sequer existia. Rodava nas horas que imaginava. Ramagens. O cansaço não adormecia nem o dormir acordava. Uma angústia exausta não aceita ordens; quer exaurir e o faz tombando de forma macia, sem a tristeza de não dar arborescência ao próprio reflexo.
***
Açucena
Uma forma de driblar a solidão e derreter as coisas que fermentam, erroneamente refreadas – deixar um pensamento para depois é correr o risco de perdê-lo – já não ousa correr riscos nem deixar de correr porque o tempo tem pressa. Aprende a falar sozinha para não desaprender a falar, perde o apetite na proporção que lhe cresce o pássaro do peito entre roupas sujas e ninhos limpos. Quer olhar coisas onde coisas não há para estreitar… caça às escuras, entre simbioses e moedores de letras, algo que aproxime a distância entre os abraços. Do voo suprimido de asas vê o vácuo, bebe o céu. Seu sim.
***
O Alienista
A perspicácia o faz ainda re-ver algumas provas. É agradável o deslindar dos pensamentos à sua frente. Fragilmente forte não reagiu quando bateu a chave com força e fez cair a porta. Talvez se assemelhasse àquela fechadura muda que lhe abriu o chão para vê-lo enrijecer o esquecimento de todas as coisas que por insegurança o fizeram útil. Um exclusivista ligou para ser ouvido. Quando quis fazer-se ouvir “só um minuto” não teve garras – seus ouvidos eram os erros da casa – os labirintos de Borges.
***
O menor de todos
Eu visto outra pele sem ser a minha alma uma pele que visto. Não me escondo senão por uma timidez ou um desejo de ser o nome obtuso estreitando livremente a ameaça de mostrar-me. Como se nunca sucumbisse a luz errante da sombra. A confiança erra ao não ter compaixão. Vale a pena sonhar, me antever quase totalmente arrependida nessa terra estranha que se tornou a minha figura. Minhas fotografias são essas palavras, e algumas palavras são sapos. Não há sentidos feios, apenas almas. Não há palavras feias, apenas sentidos. Papel de bala.
***
Mata
Num oceano de folhares o néctar vive com o trivial cerne da comoção. Quem nunca teve uma grande ferida para saciar? Toma a sua cicatriz aberta e desperta do que não é, em absoluto, um pesadelo, um caule impoluto. Uma foice cruza o último solstício tropeçando sem saber se ainda serve aos admiradores da resistência. “Melhor se não vivas” diria a teimosia peregrina ao luto das ramarias. Talvez um imbecil soubesse de matemática quanto sabe a sorte do semeador. “Não julgariam se me vivessem; sou uma eterna grade, herdeira sentenciada pela casca que me veste como quem despe”.
(Tere Tavaresé escritora e artista plástica. Autora de três livros publicados: “Flor Essência” (2004), “Meus Outros” (2007) e “Entre as Águas” (2011). Integra a Academia Cascavelense de Letras. E-mail: t.teretavares@gmail.com)
Teu Tutor Torna Todas Tuas Temperanças Trovões. Ou. Titubeio.
Para Thainá Cardoso.
I.
Estou em débito de dores contigo.
Não pelo livro do Paes Loureiro,
Ou pelo filme do Peschkowsky.
Há algo de insípido nos teus olhos.
Desengraçado mesmo.
Desinteressante
E fácil.
II.
Uma escada é posta na tua frente.
Ela fica em pé sem apoio.
E tu não mostras ao mundo nada disso.
A escada lá fica.
Não a usas
Nunca.
E justamente por causa da hialóide não demonstras nada.
Não tens humor nem no humor vítreo dos teus olhos.
E teu desespero é mais gasto quando tens os olhos abertos.
Sabendo que humor é um fluido líquido contido em corpos organizados
Não temos humor, nós dois.
Do humor negro, sobra-nos apenas o negro.
E é quando eu me sinto abraçado.
III.
Eu não gosto de covardia.
IV.
Esse teu jeito pretensiosamente chistoso irrita.
– Tu me chamas de pedante –
Eu não vou mais te adivinhar
Entediei-me.
Eu não vou mais entender.
V.
Agora eu sou teus olhos.
O nulo deles.
Sou teus olhos me afrontando.
N’uma nebulosa.
E em câmera lenta
A destruição
De uma vida
Ínfima
Nos faz
Parecer
Livres.
E o conjunto dos pássaros
Poetas
Ou estrelas
Não
Nos
Fará
Mais soltos
Por
Mais
De
Cinco
Minutos.
Chateie-se.
VI.
Eu faço isso, pois começo a achar que me serves mais morta.
Me serves mais seca.
Por que teus olhos já não me dizem nada.
Além de colo.
E eu tenho os joelhos doídos demais para ceder às pernas.
Tuas.
VII.
Deverias usar mais lilás.
E passar menos maquiagem.
Maquiagem não combina com lua.
– Não te justifica.
Só justifica quem muito pensa. Lua não pensa.
A Lua só é pensa quando…
Quando…
VIII.
Morre, Lua.
Morre, Pássaro.
Morre, Poeta.
Nada mais faz senso.
Nada mais faz questão.
Os teus olhos não me dizem nada.
Nada.
Absolutamente nada.
IX.
Para de molhar.
Para de molhar.
Para de molhar.
Não adianta
Nem adia
Continuar
Olhando.
Para de olhar
Que eu paro de escrever.
X.
Para de ler que eu paro de escrever.
Eu nunca vou parar de escrever.
Teus olhos não me dizem nada.
(João Urubu é músico, poeta e compositor da cidade de Belém – PA, graduando de Licenciatura Plena em Letras com Habilitação na Língua Francesa pela Universidade Federal do Pará – UFPA. Dos três anos como poeta e compositor, passou um ano especificamente trabalhando como compositor de trilhas e diretor musical de teatro)
Depois de três meses desempregado, o que me apareceu foi uma vaga na livraria da Praça 1817. Eu nunca gostei muito dessa coisa de livro, leitura… mas, diante de uma carteira vazia, era minha única opção. Foi lá que descobri que era… Atchim, atchim, atchim… alérgico à poeira. Mas, não precisa se preocupar comigo não, já descobri um remédio que é tiro e queda. O nome dele? Cetirizine. Você conhece? É ótimo, um santo remédio. Aqui, meu trabalho é tirar a poeira dos livros, levá-los do estoque para a loja e organizá-los nas prateleiras. Depois, é só esperar que cheguem os clientes.
– Moço, o senhor tem o livro do Valter Hugo… Caramba, esqueci o nome do homem! Você poderia consultar no sistema se existe algum autor com esse nome?
É sempre assim, quando consigo engatar uma conversa legal com alguém aparece uma criatura dessas, que não sabe o nome do livro, muito menos o do autor. Dá vontade de matar uma pessoa dessas. Sei não, viu! Só um minutinho que eu já volto para continuarmos conversando.
– Pois não, senhor. Só um instante.
Ora, pois não, pois não… Eu só falo isso porque fui ensinado, mas a vontade que dá é mandar um cliente desses para aquele lugar. Ora, onde já se viu chegar a uma livraria sem saber absolutamente nada do livro que procura! Só se eu fosse um adivinho, daqueles com bola de cristal e tudo, pra acertar o livro que a pessoa mais perdida que ele procura.
– Não, infelizmente não temos nenhum autor cadastrado com esse nome.
– Mas, você não sabe dizer se chegará algum livro desse Valter Hugo?
– Infelizmente não, pois os pedidos deste mês ainda não foram feitos.
Quando não trabalhamos em uma livraria achamos que as pessoas que vão até lá são pessoas objetivas, que chegam sabendo o que querem. No entanto, olha aí esse carinha pra comprovar que as coisas não são bem assim.
Mas, continuando nossa conversa, aqui é sempre muito calmo. Ficamos sempre a esperar que o cliente nos aborde fazendo algum questionamento sobre o livro, o autor, o preço, essas coisas. Eu evito chegar junto ao cliente assim que ele entra na loja. Não quero parecer com aqueles vendedores de sapato chatos que, mal entramos na loja, já nos mostram sapatos ou sandálias que jamais compraríamos, mas, que para eles: “olhe só que coisa mais linda!”. Não, isso não! Prefiro aquele atendimento de loja chique lá do shopping da granfinada, que o vendedor apenas observa quem entra e, ao perceber alguma dúvida ou ao ser chamado, aparece perto do cliente para atendê-lo. Tem gente que acha que vendedor assim é vendedor esnobe, que atende com simpatia dependendo da cara de riqueza do cliente. Eu não penso assim, não. Acho até melhor esse tipo de atendimento, sem pressão.
– Moço, o senhor sabe dizer se tem o livro “O fio das missangas”, de Mia Couto?
– Deixe-me ver, só um minuto. Sim, temos sim. Irá levá-lo?
– Ah, que bom! Já procurei demais por este livro. Onde é o caixa?
– É só ir em frente. Muito obrigado!
A rotina aqui é essa, meu amigo. E, numa loja como esta, num país como o nosso, onde poucos lêem, a começar por mim mesmo, não vemos muitas pessoas por aqui. Agora, dá um pulinho na loja de sapatos da esquina pra você ver a diferença. Está apinhada de gente essa hora. Bom pra mim, só assim não tenho que ficar o tempo todo atrás de um e de outro pra atender. Sei que, nessa brincadeira, eu já estou trabalhando aqui na loja da dona Amália há umas oito semanas.
Logo nos primeiros quinze dias de trabalho – que, diga-se de passagem, foram semanas muito nubladas e chuvosas – apareceu aqui na loja um cliente muito diferente. Ele é magro, tem uma barba branca e longa. Parece um árabe. Mas, quero logo deixar claro que não tenho nada contra esse povo. É que não é muito comum por aqui pessoas com a feição como a daquele cliente. Mas, além de tudo isso, ele tem outra peculiaridade muito engraçada, apesar de trágica. Ele carrega o peso morto de uma das pernas com uma muleta. Por que é engraçado? Claro que não é a circunstância em si da perna morta, mas o fato de que ela parecia querer entrar na outra perna, assemelhando-se a uma vírgula. Sim, com o detalhe de que ela estava coberta com gesso, como para esconder sua própria deformidade.
Quando ele chega à loja, taciturno e com o semblante fechado, anda entre as estantes de livros, não sem alguma dificuldade – outra vez ele bateu a muleta num monte de livros que eu havia organizado um minuto antes na forma de espiral e derrubou todos eles – escolhe um livro e lê cada linha dele em voz alta, como que para uma platéia invisível, que observa atentamente cada sílaba, ponto e vírgula pronunciados. Como ele fica muito tempo no mesmo lugar, lendo o livro sempre em voz alta, nunca sei exatamente o quanto do livro ele consegue ler. Se não o lê todo, chega bem pertinho. Isso eu tenho certeza. Eu nunca o vi acompanhado por quem quer que seja, pai, mãe, irmão, esposa ou filho. É sempre sozinho que chega aqui na loja. O mais interessante é que antes dele aparecer por aqui eu nunca o tinha visto por essas bandas da Praça 1817. É claro que passa muita gente nessa rua, mas, quando você vem trabalhar todos os dias, você começa a ver que são quase sempre as mesmas pessoas que circulam por aqui.
Semana após semana ele vem à livraria e repete seu ritual, sempre às três horas da tarde, nem antes nem depois desse horário. No início, eu fiquei muito curioso para saber quem era aquela figura tão inusitada. Enquanto ele permanecia na loja, a cada minuto eu desejava que ele me chamasse para fazer uma pergunta que fosse, só para eu tentar ao menos descobrir o nome dele e de onde ele era. Mas, confesso que até hoje não consegui descobrir nada disso.
– Alberto, deixa de conversa com esse aí e vai atender o cliente ali!
Alberto, Alberto… Eu já disse para dona Amália que podia me chamar de Beto mesmo; todo mundo me chama assim desde a minha infância, tanto que às vezes até esqueço que me chamo Alberto. Eu já nem sei mais o que fazer para dona Amália me chamar de Beto, mas não vou mais ligar pra isso não, afinal, meu nome não é mesmo Alberto? Então!?
– Pois não, senhor! Posso ajudá-lo?
Como eu vinha nessa divagação sem futuro sobre meu nome, se era Alberto, Beto, essa coisa toda, nem me dei conta de quem era o cliente que dona Amália mandara atender. Pois não era o carinha da perna morta de quem eu estava falando! Meu susto foi tão grande que quase gaguejei ao perguntar o nome dele. Acho até que ele pensou que eu era gago de verdade. Mas a surpresa foi ainda maior quando ele respondeu que o nome dele era Alberto. Ele era meu xará! Você acredita nisso? Fiquei tão desnorteado que minha reação foi sair dali o mais rápido possível; o que fiz assim que ele respondeu à minha pergunta:
– Não, obrigado.
Saí dali direto para a sala da dona Amália, para contar-lhe o pouco que eu sabia da rotina do homem aqui na loja.
– Dona Amália, aquele cliente que a senhora pediu que eu atendesse vem aqui na loja toda semana, religiosamente. Ele lê alguns livros em voz alta e depois vai embora. Nunca apareceu aqui acompanhado.
– Será que ele não está observando o movimento da loja para nos assaltar, Alberto? Sei lá, hoje em dia está tudo tão perigoso. Morro de medo de assalto.
– Onde é que um homem desses, com todo respeito, tem condições de assaltar alguém, dona Amália?
Dona Amália é daquelas empresárias que vivem soltando fogo pelas ventas, manda aqui e acolá, dá grito em gente e tudo mais. No entanto, é só falar em assalto que ela fica mansinha, mansinha. Ela é muito nervosa com essa coisa de assalto, faz de um tudo para ter segurança aqui na loja. Já instalou câmeras de vigilância dentro e fora da loja e, além disso, contratou um segurança que passa vez ou outra aqui em frente para conferir se está tudo em ordem.
– Alberto, desde quando esse homem vem aqui na livraria, que eu nunca o vi por aqui?
– Já faz algumas semanas, dona Amália. A senhora nunca o viu porque ele só vem aqui às três horas da tarde e a senhora raramente está aqui nesse horário. Mas, não se preocupe não, dona Amália, ele parece ser totalmente inofensivo. A senhora não vê que ele mal consegue andar direito carregando aquela perna?
Ela não respondeu. Ficou na sala com uma cara de espanto, meditando sobre nossa conversa. E eu voltei para o salão de vendas, também refletindo, mas, não sobre a mesma coisa, e, sim, no meu encontro estabanado com o meu xará. Depois desse incidente, nunca mais falei com ele, pois ele nunca deu brecha para maiores diálogos. E assim os dias foram passando, as horas se somando e ele sempre a nos visitar, com dona Amália já sem ter medo do pobre. Eu tinha pena dele, solitário a entrar e sair de estórias, como se quisesse ser uma delas; com aquela perna morta, em crise por ser membro, querendo ser vírgula e eternizar-se, emaranhando-se nas linhas e parágrafos daquelas fantasias,
(Leitora assídua, desde a adolescência, Lizziane Negromonte Azevedo, monteirense de criação e coração, é advogada, cofundadora e coeditora da Boca Escancarada: Revista de Literatura e Arte. Possui diversos contos publicados pela Câmara Brasileira do Jovem Escritor, pelo Correio das Artes – Suplemento Literário do Jornal A União, do Estado da Paraíba – e pela Revista Boca Escancarada)
Conferir olhos ao mundo é atestar a complexidade da nossa própria existência. E, certamente, essa conclusão não é novidade alguma para grande parte das pessoas que se enveredam pelas vias da fotografia, ora como criadores, ora como simples apreciadores. Em termos artísticos, representar o mundo através de imagens vem deixando de ser um exercício meramente contemplativo para dar margem a uma série de possibilidades. Dentre estas, uma das mais importantes é a que sugere um profundo direcionamento de atenções aos tipos humanos e suas noções de pertencimento.
Frequentemente, homens e seus lugares são objeto das observações emanadas da fotografia documental. No entanto, poucos são os fotógrafos que sabem captar com valoroso viés diferenciado a caracterização desse nicho. Fala-se aqui duma perspectiva de abordagem de mundo que procede de forma harmoniosa, mantendo intactos os usos e costumes do universo observado. Não bastasse esse cuidadoso penetrar de cunho antropológico, um atributo também poético ao olhar é capaz de fazer dos registros especiais celebrações de vida. E tudo o que aqui tratamos em matéria de qualidade no ofício de captar a luz se aplica ao trabalho do baiano Peterson Azevedo.
Agregando sua formação de geógrafo à de fotógrafo, Peterson vislumbra nas imagens uma representação poética do mundo. Ao revelar, de modo sensível, a trajetória dos homens, intenta a descoberta de outros territórios. Em seus registros, podemos abstrair o que vemos imediatamente em matéria de constatação de um plano físico imediato e somos conduzidos a testemunhar outras esferas de convívio. Novos signos afloram, sobretudo quando o tema é refletir acerca das questões ligadas à cultura popular. Para falar um pouco sobre seu caminhar pela fotografia, Peterson nos acolheu para uma conversa, diálogo que evidencia, de maneira bastante especial, um percurso por outras terras.
Peterson Azevedo - Autorretrato
DA – Quando observamos suas imagens, percebemos o quanto faz sentido pensar na questão das territorialidades, algo forte em seu trabalho. Para além do que chamamos de real, a noção de transcendência sugere outras fronteiras aos homens e seus lugares. Qual o significado disso para o exercício do seu olhar?
PETERSON AZEVEDO – Sim. As questões de identidade sempre me acompanharam. Quando me encontrei com a geografia e suas categorias, logo me apaixonei pelo universo do popular e de seus imaginários. A territorialidade que construímos, ao longo de nossa vida, se apresenta sempre em forma de comportamento e atitudes sociais. O que tento fazer é eternizar esses movimentos em forma de imagens, como você bem disse, transcendendo para o meu mundo particular, onde as territorialidades das imagens que faço se misturam com a minha identidade. Essas ações significam muito, no sentido de observar o mundo como geógrafo, colocando uma pitada de imaginação individual.
DA – Nesse mergulho no universo popular, que tipo de desafios você destaca como sendo os mais significativos?
PETERSON AZEVEDO – Realizar um registro etnofotográfico requer uma paciência tibetana (risos). Os desafios são muitos. Primeiro, deve-se ter a compreensão de que aquele grupo social ou indivíduo, além de sua história pessoal, possui uma relação de pertencimento ao lugar que vive e suas relações com os “iguais” não podem e nem devem ser vistas como um simples modelo para seu olhar. Antes de levantar a câmera, é importante que estabeleça um breve vínculo identitário e/ou social com o ambiente, para entender e compreender o que se vai registrar. Acredito que esse seja o grande desafio. Conseguindo estabelecer essa relação, vem então a recompensa. Não nego o valor documental da fotografia, mas prefiro pensar que ela é muito mais do que um mero registro e sim uma oportunidade de eternizar momentos com poesia e arte.
O popular e seus encantos não podem ser alvo mercadológico do ato fotográfico, deve ser respeitada a construção de seus espaços geográficos e suas territorialidades e é por isso que estou evitando ir a festas populares na Bahia. Esse respeito no tempo e no espaço está, cada ano, sendo invadido, de maneira abrupta e tumultuada, com um único objetivo que é fazer o registro simples e descontextualizado, atropelando os rituais, descaracterizando-os irresponsavelmente. A foto nunca deve ser mais importante que o ritual simbólico popular construído há milhares de anos. Acho que hoje é meu principal desafio, esperar essa enxurrada tecnológica acalmar, e/ou outro foco de interesse na fotografia baiana surgir, para que possa me debruçar novamente ao popular, mas com o devido respeito que merece.
DA – Acredita que essa inabilidade de alguns fotógrafos em lidarem com temas tão ricos e profundos, emanados da cultura popular, está numa obcecada e, portanto, distorcida busca pela representação do real?
PETERSON AZEVEDO – Pergunta delicada, mas sim, a busca pelo real, muitas vezes, cria em nós uma “cegueira imagética”. A realidade é, no tempo e espaço, construída com valores e instantes dinâmicos e imperceptíveis, carregada de signos, ou seja, é humanamente impossível retratá-la de maneira verossímil. François Soulages escreveu que uma foto é um vestígio da realidade, mas qual realidade? Do objeto retratado ou de um fragmento dele mesmo? Um vestígio de quem fotografa ou de quem é fotografado, ou mais de quem vê a foto? Acredito nisso também, acho que os fotógrafos devem criar sua realidade no tempo e espaço, uma realidade permanente própria e que só é possível após a perda de um instante, e é, neste momento, que entra em cena a arte, o fazer artístico que por si só transcende a noção do real e passa a fazer parte do mundo filosófico.
DA – Numa entrevista concedida à Diversos Afins, o fotojornalista Evandro Teixeira considera que as facilidades da era digital foram responsáveis por uma banalização do ato de fotografar. Como você avalia essa mudança de paradigma? Há, de fato, muitas rupturas conceituais em curso?
PETERSON AZEVEDO – Não importa como se vê, o importante é ver! Hoje, vivemos num mundo cada vez mais veloz e repleto de informações e é, nesse sentido, que a imagem vem assumindo uma importância muito grande, no nosso dia-a-dia. A sociedade moderna é, por si só, uma sociedade orientada pela imagem, onde a TV, a internet, os dispositivos móveis como o ipod,o ipad e o tablet, outdoors e a mais antiga de todas as representações imagéticas do mundo, afotografia, têm papel decisivo na forma como entendemos a realidade. Entendo a crítica que Evandro faz, só não posso concordar com o termo “banalização”. O que ocorre é que o avanço na Tecnologia da Informação e da Comunicação possibilitou, sim, uma democratização do olhar. É complicado entrarmos na discussão do “belo” e do “feio”, que é completamente complexa, em temos epistemológicos e estéticos. Se lembrarmos, já vivemos essa dialética com o cinema, no qual os críticos diziam que iria acabar com o teatro, que a televisão acabaria com o cinema e que a fotografia destruiria a pintura.
Todos somos representantes de nossos mundos, responsáveis pelo que construímos e registramos na nossa história. A imagem é um elemento fundamental para contarmos os nossos tempos.A fotografia deve ser encarada como elemento de escrita e o nosso olhar como a ferramenta desses rabiscos. Não importa se a foto registra arte ou documento, se a câmera é digital ou analógica, pin-holeou de celular, cara ou barata, pequena ou grande. O importante é como você vai usar essa ferramenta poderosa, possibilitando a construção de um olhar mais crítico sobre a realidade e, assim, de um mundo melhor.
DA – Numa acepção mais ampla do termo, considera que o seu olhar sobre o mundo assume um caráter politizado?
PETERSON AZEVEDO – Sim, somos seres sociais, logo, politizados. Vivemos em um sistema de organizações e leis, vivemos em um sistema de relações interdependentes, e esse sistema nos condiciona a viver em constante interação, fazendo escolhas de acordo com regras e/ou ideologias. Com a fotografia não é diferente. Ela é a representação de nós mesmos, carregada de histórias de vida, formações ideológicas e escolhas de mundo. Às vezes, não temos essa percepção imediata, mas se você analisar seus registros, vai encontrar algo de questionador, pode ser uma indignação, uma constatação ou até mesmo um grito revolucionário. No meu caso específico, sim, considero meu olhar politizado, e muito influenciado pelo meu lado geógrafo, tento sempre retratar meu mundo de maneira crítica, mas colocando sempre uma pitada de cor, de esperança, e nunca de maneira catastrófica ou apocalíptica.
Peterson Azevedo - Autorretrato
DA – O quanto sua formação de geógrafo demarca trajetos em torno da fotografia?
PETERSON AZEVEDO – Meu encontro com a fotografia se deu na faculdade. Na época, a realidade digital ainda não tinha aportado no Brasil. Um amigo recém chegado do exterior tinha comprado uma câmera SLR e não conseguirá vender, ela acabou caindo no meu colo, não entendia nada de fotografia, foi quando um professor solicitou a turma que fizéssemos um registro fotográfico e etnográfico de pescadores e marisqueiras de uma cidade no Recôncavo Baiano, foi então que surgiu o primeiro desafio: aliar geografia e fotografia. Foi um desastre, imagens tremidas, sem foco, mas serviu como estímulo para minha aprendizagem. Desde então não larguei a fotografia, ela passou a me acompanhar em minhas caminhadas como pesquisador e professor. A fotografia que faço esta impregnada de conhecimentos ligados à geografia, principalmente aos ensinamentos de dois grandes mestres, o Professor Milton Santos e o Professor Josué de Castro, que me inspiram constantemente. A territorialidade de quem ou o que fotografo, é o que busco sempre colocar em meu olhar.
DA – Você sustenta que a fotografia documental não é a única via a seguir. Esse modo de pensar está ligado a uma impressão de que essa modalidade fotográfica está excessivamente relacionada a uma perspectiva antropológica, na qual o outro é sempre um objeto estranho e, portanto, passível de pactos, mesmo que silenciosos, de aproximação?
PETERSON AZEVEDO – Sim. Entendo que os estudos etnográficos devem sempre caminhar junto com a fotografia documental. Se pularmos a etapa de contato e convívio, a meu ver os momentos serão sim, um universo de escolha, mas apenas isso, perdendo a oportunidade de mergulhar no universo do fotografado e estabelecer o encontro com o universo de quem fotografa.
DA – Quando o assunto é o olhar sobre pessoas, parece haver, em alguns momentos, um processo de coisificação do homem, reduzindo-o a mero objeto de observação. O que pensa a respeito disso?
PETERSON AZEVEDO – Como já conversamos anteriormente, o mais importante para mim é o encontro. O encontro de mundos. Quando eu fotografo, procuro realizar esses encontros de maneira tranquila, sem amarras mercadológicas, sem interesses politiqueiros, mesmo sabendo que, como ser social, fazemos política a todo segundo de nossa existência. Acho que quando se refere a “objeto”, entendo que essa discussão se dá no pós-registro, o que será feito desse instante capturado. O que se deve discutir são os interesses por trás da câmera, e muitas vezes é aí que se estabelece a coisificação do humano, como elemento de contradições ideológicas.
DA – Em matéria de linguagem, a transgressão é um atributo que lhe soa familiar?
PETERSON AZEVEDO – É complicado e difícil realizar uma crítica do próprio trabalho. Se transgredir é ultrapassar o limite, não se preocupar sempre com regras e técnicas, acho que poderia dizer que sim. Gosto de trabalhar com policromáticos, sem me preocupar com palheta de cores. Costumo pensar que é a imagem que escolhe seu “destino” (risos). Quando estou editando, não penso o que pode e o que não pode ser feito, mas compreendo que esse processo só é possível quando seu trabalho é livre e liberto das encomendas e amarras publicitárias e de mercado (não tenho nada contra a publicidade). Quando estamos em um processo de criação, devemos estar abertos a todo o universo criativo, se isso é transgredir, que bom que sou um “transgressor” (risos).
DA – Quais marcas de nosso tempo merecem a especial atenção de um fotógrafo?
PETERSON AZEVEDO – Essa discussão da contemporaneidade é bastante complexa. Será que já saímos da modernidade? Pois bem, nós somos desafiados a ser criativos a todo momento, seja no nosso dia-a-dia, seja na nossa profissão, e, como seres inquietantes que somos, temos que dar respostas imediatas a essas demandas. A fotografia é para mim o subterfúgio destas angústias, procuro entender o ato fotográfico como um dialogo comigo mesmo, logo, um diálogo no meu tempo e espaço. Na dita contemporaneidade não será diferente. Acredito que com a revolução técnico-científica-informacional a fotografia vai junto nessa enxurrada, e terá também que dar respostas a esse clamor. Quando esse tempo chegar, vou tentar me afastar um pouco desse turbilhão informativo, e olhar mais para o interior do País, para questões que sempre me interessaram, mas por vários motivos ainda não tive a oportunidade de dialogar com esse universo – que é o Sertão. Sinto-me mais maduro e preparado para mergulhar no mundo sertanejo, buscando, em algum lugar, a minha territorialidade.
*Alguns trabalhos de Peterson Azevedo estão expostos em nossa 80ª Leva
O amor cãibra sobre o assoalho
dá voltas em torno da sua inadequação
e rala os joelhos.
Não transita. Não se ergue.
Não se transforma em a asa ou em barco.
Da porta mesmo volta
e macera.
Ele é aprisionado no corpo, o amor
e quase nunca conhece
a maneira dos pássaros.
***
Subtraído
teu coração de exíguo
e indefinido amor
descansa entre um domingo e outro
põe a água para ferver
e esfria.
não espera o equinócio, o saldo
o próximo aniversário
o cabelo crescer pelas costas
enquanto vaga nas proporções
e quedas previstas pela exaustão.
meu coração
sobrancelha sobressaltada
no teu vulto
“cogito, ergo sum” sem a prova dos nove
meu batom terra glaise 74.
***
Acordo
não lhe faria mal algum pela manhã.
deixaria o saldo ………………. ….o ocaso
o escaldo da colheita ………………….tardia e enunciada
e a centena de mal-traçados
escritos em breves
e em permanentes polissílabos.
me devolveria o livro …………………………….o centauro
a minha concuspicência.
sem olharmo-nos.
com o distanciamento
recomendável
aos que se amam em demasia
e se arremessam.
***
Anímico
anuncia o princípio anímico
e todas as coisas se enchem
de alma.
vela o Verbo
espia a pena
ratifica as Escrituras, o Talmude, ………………………………………………o Tao.
Deus imana e eu amo as hortaliças
de verde enluarado.
e o centeio e o peixe e o orvalho
e a pedra e a trovoada e a magnólia.
tudo exala. nada transcende.
o vácuo é composto de falenas.
***
Vigília
Havia ternura:
a cor da fruta
sombreava as palavras
o cavalo-marinho
ia de amarelo
e sem ver
todos os nossos braços
suspensos em tempo irregular
de afago e festa.
Então, reiventarei
por necessidade
novas guardas.
Trazes o crisântemo
e a ófris esquecida
e a alma
desalinha-se no leito:
minhas horas são feitas
de inseguro tear.
Antecipas o agosto
em tempo hábil
e o talha em jaspe:
a melifluidade
do amor raro
resvala na pedra.
Tuas mãos cheiram
a silício e abandono.
Nenhum louva-deus.
Nenhuma flor imprevista
salta das letras.
De madrugada
assim tão tarde
nem as tangerinas maduram
e nem o céu responde.
Tua metafísica monitora
o fólio, a promissória
e a minha poética insiste, azul
como anil dissolvido na água.
***
Amarelo Por Dentro
A tua letra é amarela
como a nêspera, a gema
o fruto em véspera e ocre
saltando da árvore, da página
da costura no dobrado do paletó.
Devolveu-me a vida enquanto escrevias
e sublinhavas o termo, a epígrafe
a semântica clara de cuidados.
Trouxeste o castiçal, o sol
a lâmpada
a última literatura.
O teu amarelo a escorrer-me, por dentro.
(lolanda Costa (Itabuna-BA) é graduada em Filosofia e especialista em História Regional. Editou, artesanalmente, folhetos de poesia Às Canhas as Palavras Realizam Mil Façanhas (1990), A Óleo e Brasa (1991) e Antese (1993). Tem poemas publicados em jornais, antologias e blogs. É autora de Cinema: Sedução, Lazer e Entretenimento no Cotidiano Itabunense (2000), Poemas Sem Nenhum Cuidado (2004), Amarelo Por Dentro (2009) e Filosofia Líquida (2012))
Deixar que o tempo manifeste seus desígnios livremente, apontando direções a seguir. Intuir o curso das águas rumo ao mar que espelha a relativa eternidade das coisas. Um pouco de nossas infinitudes marca o pensamento, e navegar adiante é, sobremaneira, atracar o barco da esperança num cais onde impere a serenidade. O tão projetado porto seguro insiste em ser a grande metáfora da busca imprecisa que carregamos em vida. A partir disso, existir é tão somente uma questão de reter os sinais da odisseia que frequentemente empreendemos.
Há quem nos sirva de guia numa jornada que sabe ao desejo de chegada, e divide conosco o aportar em cada novo lugar como sendo uma experiência de profunda descoberta de si mesmo. São peregrinos como Mario Baratta, que, superando procelas, instauram em nós um sentido sublime para a existência.
Ilustração: Mario Baratta
Ao trilharmos uma rota comum à do artista, percebemos que o fluxo das coisas resiste às intempéries, fazendo com que outros cenários se mostrem com todo o vigor da simplicidade. Se o caminho da revelação é tortuoso por natureza, a arte de Mario subverte as limitações impostas e pretende reinvenções. É, então, que águas bravias sucumbem diante da beleza, esta senhora que apazigua os caminhos do mundo.
Natural de Belém, no Pará, Mario Baratta é íntimo do mistério das águas. Desde a mais tenra idade, acostumou-se a enxergar além das paragens físicas do Rio Amazonas, absorto que estava pela curiosidade de tentar entender a simbologia incontida das águas.
Ilustração: Mario Baratta
Assim, deixou-se conduzir pelos ensinamentos do pai, primeiro cicerone na sua lida com tintas e papéis. Formou-se em arquitetura e, no meio do trajeto, apaixonou-se pelo ato de lecionar na área, missão da qual não mais se apartou. Entre os feitos de seu currículo, o artista considera como especiais as ilustrações criadas para livros infantis. Aquarelas inspiradas em barcos também são outro ponto importante de sua carreira.
Com uma temática que agrega a arquitetura, as cidades, os rios, o mar, os barcos (batizados por ele como arquiteturas flutuantes), pescadores, trabalhadores urbanos e pessoas, enfim, traços da simplicidade da vida, o artista é testemunha cabal de que tudo se traduz num dinamismo incessante. Nele, percebemos que o muito de que se precisa para viver é estarmos atentos às manifestações singulares que nos cercam. Um sentido de liberdade está impregnado em sua obra, a tal ponto que partidas e chegadas da permanente viagem humana são faces duma mesma moeda. Parafraseando Milton Nascimento, a arte de Mario Baratta inventa um cais e sabe a vez de se lançar.
Ilustração: Mario Baratta
*As ilustrações de Mario Baratta são parte integrante da galeria e dos textos da 81ª Leva.