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81ª Leva - 07/2013 Galeria

Ilustração: Mario Baratta

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Ilustração: Mario Baratta

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80ª Leva - 06/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

 

 

Foto: Peterson Azevedo

 

 

Realizações e projeções fazem parte de qualquer trajetória. Não é diferente com o projeto levado a cabo pela Diversos Afins. Hoje, perfazer a marca de 80 Levas é uma conquista que se deve a inúmeros fatores. De todos eles, talvez a persistência, travestida em teimosia, seja um atributo mais adequado. São 7 anos de uma jornada trilhada especialmente pela reunião de desejos e expectativas harmonizadas em torno de um propósito: descobrir e propagar vozes. Durante esse tempo, chegamos à conclusão de que tudo aponta para um exercício de aprendizado constante. Certezas são questionadas e outras visões de mundo se apresentam. Atestar a qualidade desse ou daquele autor, tanto no terreno das palavras quanto no das imagens, não vem necessariamente de pontos de vista cristalizados. Sem deixar de lado os aspectos que robustecem, de fato, uma determinada obra, tentamos privilegiar o modo como ela pode ser interessante aos olhos dos leitores. É algo complexo de conduzir, mas a experiência tem demonstrado que temos conseguido aproximações importantes. Para quem edita, é recompensador, vez ou outra, ser surpreendido por alternativas diferenciadas de criação. O universo de colaboradores que estão dispersos por todas as edições da revista é nosso maior legado. Sem eles, não seria possível falar em continuidade. A Leva de agora é marcada pela reinvenção de territórios trazida pelos olhos do fotógrafo Peterson Azevedo. Em matéria de poesia, juntam-se a nós as expressões de Neuzamaria Kerner, Leonardo B., Ana Peluso, Edson Bueno de Camargo e Maria da Conceição Paranhos. Nossa sabatinada da vez, a poeta, atriz e professora Rita Santana, tem muito a dizer de suas andanças literárias e da sua lúcida condição de mulher. Os contos de Jorge Mendes, Márcia Denser e José Aloise Bahia chacoalham nossa zona de conforto. Em suas pesquisas musicais, Larissa Mendes descobre o disco do cantor e compositor Baia. O escritor Marcos Pasche nos convida a conhecer o novo livro do poeta cearense Assis Lima. Em meio ao panorama teatral de Brasília, Geraldo Lima destaca a trajetória do Grupo Cena. Noutro ponto, uma leitura para o aclamado “O Som ao redor”, filme de Kleber Mendonça Filho. Como todas as outras, essa edição comemorativa de aniversário celebra o desejo de se prolongar caminhos. É com muita alegria e disposição que agradecemos a todos, leitores e colaboradores, por nos ajudarem a construir essa história. Sejam sempre bem-vindos!

 

 

Os Leveiros

 

 

 

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80ª Leva - 06/2013 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

TRADE LIGHTS

Márcia Denser

 

Foto: Peterson Azevedo

 

Adriana,

23:00 horas. O relógio deu uma volta completa sem que eu pudesse detê-lo, de forma que inapelavelmente é noite outra vez, ou seja, um insulto, golpe desferido à traição pelos ponteiros do relógio, bicos vorazes a perfurar-me miudamente e de vários pontos da cidade, notadamente os luminosos.

No entanto, restam-me ainda alguns ínfimos prazeres, como contemplar teus lábios quando pronuncias meu nome, traçando no ar a curva palavra de sempre. Tu, sem o saber, me devolves ao rol dos vivos, suave e abstrata Adriana, ainda a sobrescritar envelopes endereçados ao ilustríssimo senhor Raul Kreisker, num papel cujo timbre evoca remotamente uma ave (águia? escaravelho? a impressão é péssima) contudo quanto te sou grato pela delicada omissão do meu segundo nome, o ominoso Nepomuceno, omissão que não exclui a piedade, bem sei, como uma lembrança que se apaga cada dia mais um pouco, prenunciando o genuíno esquecimento, and yet, and yet…

Todavia não te parece absurdo estar escrevendo a apenas algumas horas do nosso encontro quando o mais sensato seria recorrer ao telefone, bastando esticar o braço, usar o, digamos, bom senso, perguntar como está, se queres ir ao cinema, puxa faz um frio do capeta, tenho saudades mas não, obstino-me a não ceder ao código imposto por este objeto que muda a forma mas não permite variações do alô fatal mesmo porque o que preciso te dizer não começa assim, é um pouco como o teu corpo desnudando-se sob minhas mãos e o fato de você tê-las guiado me lembrar extraordinariamente essas excursões onde está tudo previsto, das visitas aos monumentos às gorjetas, sem contar que também tinha algo de peregrinação a santuários feita por beatas em idade  provecta (imagina o teu Raul num xale trescalando a naftalina, vela entre os dedos, o transe apoplético). Como se incontáveis peregrinos não me tivessem precedido, e uma nova multidão já não pressionasse às minhas costas para cair fora do sancta santorum do teu corpo obcenamente branco e lascivo e ainda querendo acreditar ser o primeiro, único e último tolo a te possuir – eu e meus pudores provincianos, eu, o deflorado a depositar minha flor murcha sobre teu altar, esquecido que já corre o ano de 1995 DC. e do que mais particularmente me interessa, isto é, o travo amargo na boca, a contração na alma e – já que estamos no assunto – a tua indiferença é alguma espécie de distinção? É com isto que contemplas mesmo o mais ocasional dos teus amantes?

Porque sequer isto, Adriana, não te serviste de mim, nem permitiste que eu o fizesse negando-me a loba faminta que ronda tuas insônias, tantas vezes falamos nela como dessa culpa acorrentada que ata tantas mãos, que silencia nossa boca, esta culpa que anda por aí e que parece ter existência própria junto à trôpega humanidade da qual, se não fazes objeção, ainda faço parte.

Não negue, Adriana, havia uma sentença sobre minha cabeça – pelo arco triunfante do teu orgasmo eu não passaria a despeito da alucinadas ternas furiosas arremetidas do meu membro exausto: mais fundo te penetrava, mais fugias, me devolvendo a mim, a quem retornava ainda mais só e nu e perdido. Era como se percorresse interminavelmente um túnel ao fim do qual me esperasse uma escada que bruscamente morresse no nada, um vácuo sem chão, sem teto, sem limites previsíveis e sempre o mesmo tema a se repetir insuportavelmente nada, nada, nada.

Assim seja, Adriana, assim foi e nada (sim, nada) poderá mudar este vertiginoso martírio (perdoa esta linguagem, este devassar daquilo que, de outra forma, seria uma amálgama de sons indistintos, disto que intraduzivelmente no engolfa neste cotidiano feito de contas de luz e extratos bancários, esta hidra a que chamamos realidade, não?).

Ah, minha suave e abstrata Adriana, não premeditei este encontro, acreditarias? Que aquela noite eu quisesse unicamente a ti? Apenas não sabia ser tão tarde, tão inútil.

Sim, te dou o direito de falares em auto-piedade e o mais: tens a ti mesma e ao teu querido Francisco, lá no Midwest – aquele envelope azul no tua cabeceira, a letra era dele, não?

Depois fiquei imaginando o que poderia conter esta carta à qual sequer aludiste porque, veja Adriana, não pensas que escapou-me por detrás desta dupla negação (porque antes foi  teu corpo, eu ainda sei contar) do teu velado riso perverso de quem agita o osso diante do olhar molhado dum cão.

Minha dríade, se ao menos me tivesses negado três vezes eu te perdoaria, atento que sou aos passos do Cordeiro, todavia foram duas e, de resto, o que poderia esperar de ti, tão geminiana e dupla e ainda por cima com Mercúrio perfidamente empoleirado sobre o grau 19 de Gêmeos, a cavalo do teu ascendente, maldito doppelgänger, são quatro, são oito, são infinitas em tua casa de espelhos e, a propósito: qual delas é a imortal? E qual a que mente? Dos teus infinitos de perversidade… Ah, sim, as mulheres são criaturas esplêndidas, como gatos ou papoulas, guardiãs do que não sabem, feiticeiras do Grande Silêncio Estuporado, pisando distraidamente sobre envelopes azuis do Midwest, afrouxando sagrados laços impronunciáveis.

Lembra-te (e isto é uma ameaça), ainda sou o Inquisidor da Treva, o Destruidor Florido, então como negar-me a co-autoria de um ato consumado a dois? Acaso ficaste boba? Ou acaso fiquei eu? Hein? Optando pela segunda hipótese, inclino-me a confessar que me recuso categoricamente a prosseguir no papel que a vida inteira me propus (não ria, por favor) porque afinal de contas, minha cara, falando francamente, diga-me se viver por procuração não é um péssimo negócio? Deixar que as coisas aconteçam sem jamais dar as caras (e as costas) ao destino? E, por favor, esqueçamos a demiurgia, um homem se esconde porque tem medo e é tudo.

De modo que, desde o começo estavas certa, Adriana, não havia mesmo ninguém ao teu lado. O que julguei ser um triângulo (você, Francisco e este seu criado) desabrochou num terrível pentagrama: cinco são as pétalas da rosa, os dedos das mãos, as pontas da estrela do demônio, o número sagrado de Hermes três vezes Trimegisto, quintís e biquintís proliferam nas cartas estelares de Mozart e Van Gogh (Francisco, a esta altura, estará rindo, olá, Francisco, meu velho! Tão cioso quanto imodesto do próprio talento, diga-lhe isto assim que puder, por favor. Estás autorizada a fazê-lo. Eu deixo…).

Ah, Adriana, finalmente! Como aquele sujeito que não conseguiu fazer ponto algum na loteria esportiva, posso proclamar: esta máscara tornou-se meu verdadeiro rosto! Talvez seja por isso que te desejo ainda mais, já te disse, não? Não, não disse.

Doravante tu e Francisco são para mim a mesma pessoa (por obséquio, não me interrompa) – não a contraparte masculina e feminina, não é tão simples, diria antes que ambos são simétricos: opostos, mas perfeitamente iguais, correspondendo-se num salutar intercâmbio de livros, flores do campo, rótulos de vinho, passagens de trem, postais e originais extraviados, do que estou rigorosamente excluído, salvo na condição de personagem ou fantasma ou ambos.

Não. Ele não me mandou dizer uma só palavra para que minha alma seja salva.

Treva, silêncio e o vento a agitar os arbustos em torno do parque que avisto da janela deste hotel, aliás muito recomendável para suicidas.

Lembra daquele almoço em casa de Miranda quando, na volta, nos assombrou uma sinistra construção à beira da rodovia com a tabuleta “Hotel”? Júlia foi a primeira a falar: “Lugar ideal para suicídios. Principalmente por causa da placa. Está claro que isto é um hotel. Tão absurdamente hotel que o dono nem precisava comunicar-nos por escrito, o mesmo que botar placas explicativas em tudo, como mesa, cadeira, poste, Raul”. Rimos. Tu, Belisa, Francisco e até a arquiduquesa-ao-volante que no seu afã de arquiduquesa voltou-se toda para o banco detrás, permitindo, ato contínuo, que o automóvel coincidisse com uma valeta pouco menor que a fossa de Mindanau. “Par delicatésse ainda vai matar a todos nós”, gemeu Belisa que abomina qualquer entidade ao volante. Lembrei: “Nos romances ingleses do século XVIII todas as estalagens se chamam Star and Garter”, e Belisa, “e todas as matronas lembram um pudim de franjas”, e Júlia, “já Ulisses é infinitamente chato”, e provocando Francisco: “Também detesto Virgínia Woolf. Consegue ser ainda mais chata. Quando as mulheres entram numa parada, ganham longe…”, donde se seguiram quarenta e cinco minutos dum implacável e minucioso elogio do Passeio ao Farol (  só agora percebo que neste nome um presságio) até porque Francisco  sempre morde a isca, tendo a bondade de nos excluir da conversa, dirigindo-se ostensivamente à Belisa e à arquiduquesa que concordavam entre divertidas e irônicas, já esquecidas do “Hotel”, embora Júlia e seu olhar cúmplice me fizesse saber que não, que nada seria esquecido.

Uma última inconfidência, minha pomba: quem é Maximilian? O nome cem vezes garatujado naquele teu caderno ginasiano? Teu novo amante? Não te preocupes, nada direi a Francisco, e mesmo que o faça, tenho impressão que nem ouvirá, últimamente suas cartas mais parecem esses diálogos de surdos.

Na última falava duma luz azulada, ou melhor, absolutamente não falava de luz alguma, contava uma história de fantasmas ou algo assim, todavia quando terminei a leitura, a atmosfera estava embebida de saudades e tristeza e desolação e todas essas palavras cujo frio espectro envolvem o sofrimento de alguém mergulhado no azul longínquo das pradarias do Midwest.

Então era quase natural que eu me sentisse como Jay Gatsby, como alguém a cumprir uma invisível lei não escrita, precisamente como Gatsby ao divisar, pela primeira vez, na luz ao extremo do ancoradouro, o farol do destino.

Ele (assim como eu) viera de muitíssimo longe e seu sonho, naquele momento, deve ter-lhe parecido tão próximo. Ambos, ainda que em extremos opostos (talvez minha luz fosse azul e não verde como a de Gatsby) acreditamos na luz distante, num esplêndido futuro que, sem saber, ano após ano, nos afastava um do outro (a mim e a Francisco) obrigando-me incessantemente a retornar, voltar ao passado, refazer o sonho gota a gota, tentar possuir uma mulher ou outro homem quando é por ele, apenas por ele, unicamente por Francisco que meu corpo arde em febre.

Exatamente como Gatsby: eu e meu segredo, eu e meu destino, minha irremediável servidão.

………………………………………………………………..Eternamente seu, Raul K.

 

 

(A escritora paulistana Márcia Denser publicou, entre outros, Tango fantasma (1977), O animal dos motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), A ponte das estrelas (Best-Seller, 1990), Caim (Record, 2006), Toda prosa II – obra escolhida (Record, 2008). É traduzida em nove países e em dez línguas. Dois de seus contos – “O vampiro da Alameda Casabranca” e “Hell’s Angel“ – foram incluídos nos Cem melhores contos brasileiros do século, organizado por Ítalo Moriconi, sendo que “Hell’s Angel“ está também entre os Cem melhores contos eróticos universais. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, é pesquisadora de literatura e jornalista. Foi curadora de literatura da Biblioteca Sérgio Milliet em São Paulo)

 

 

 

 

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80ª Leva - 06/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Ana Peluso

 

Anna O.

 

 

Bertha Pappenheim não se contorce à toa, perdeu-a / a língua // Freud diria que Bertha Pappenheim ainda não sabia, mas quando seu pai não prestou atenção no casal que formou com suas bonecas, perdeu / -se-(a)tempo // A Grande Mãe levou o pai de Bertha Pappenheim, perdeu / -à morte // Bertha Pappenheim fez um filho imaginário com Josef Breuer e, perdeu-lhe / a imagem // O clima em Viena nunca foi dos melhores para Bertha Pappenheim, perderam / -lhe a senha // Bertha Pappenheim acredita na pureza que seu pai e Josef Breuer desconheciam mas perderam / e sabem // Ninguém está a par de como Bertha Pappenheim curou-se / Sabe-se que ela sorria quando emulava palavras de segunda mão com o nunca encontrado / Paul Berthold

 

 

***

 
a esperança respira Zyclon B

 

eu vivo dentro de um presídio chamado Nothingtrix
todos os dias judeus-coreanos azuis-royais me acordam
com toda a conta do mundo débito
préstima a pagar
creditam em mim as falácias do comando
em cinza neon sobre a pele
e eu saio por aí cor análoga
de brilho fosco
coração pequeno
que ainda abate
por cima os sonhos
porque é obediente ao comando
é rocha em vez d’água
quando água era sereno
sempiterno-romântico
só reconhecia o cinza na vitória vã
agora é tic-tac sem ruído
cor de sangue vencido
e nem um agosto é próximo

 

 

***

 

É produtivo fabricar tijolos. Um tijolo sozinho é obra de arte, com mais alguns é parede, é quarto, sala, é banheiro. Raro dizer poesia a céu aberto. E só bate sol quando se atravessa tijolos e é você do outro lado. Não me lembro de já ter visto tantos tijolos. Nem de nada como quando você perguntou o nome de uma estrela olhando diretamente pra ela.

 

 

***

 

 

Sentado o poeta torce pela chuva que não cai/ em sua manga guarda a relíquia dos dias/ em forma de pergaminho bruto/ couro de pele/ de um árcade nômade/ feito de horas mornas e cansadas/ que o poeta lê em livros de ciências e encíclicas/ Em sua casa ouro de Jeslade/ o poeta bebe siderado/ o sonho de amanhã/ era mesmo amarelo laranjal/ Suas entranhas não carregam mais os dias/ seus olhos não lembram do presente/ abotoados em um sonho soturno/ encontram as mesmas natividades festejadas/ Sentado o poeta suspira/ saudade inaudita/ logo esquecida/ O que seria mesmo a relíquia em qual manga?/ O poeta sonha

 

 

***

 

 

Cada um tem seu limite
De fundar uma âncora
Uma terra no fundo do mar
Pernas pra cima sentindo o mundo
Pernas sentindo o mundo
De água
O peso do mundo nos ombros
De ossos carne sistema nervoso
Boca aterrada
Ouvidos mucos
De areia
Cada um tem em seu limite aterrar a cabeça na areia
Seu limite de não voar
Daí advém o surto
Etimologicamente falando

 

 

(Ana Peluso, paulistana, experimentadora da palavra, participou de algumas antologias, não possui livro solo)

 

 

 

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80ª Leva - 06/2013 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Fabrício Brandão

 

O Som ao redor. Brasil. 2012.

 

Em que ponto de nossas existências é possível atravessar as situações sem que nelas deixemos vestígios? Como entender a nossa quase incapacidade de ouvirmos genuinamente a nós mesmos? Certamente, são indagações por demais complexas que atendem tanto a demandas externas quanto as que derivam dum processo consciente. O exercício da individualidade frequentemente encontra obstáculos, sobretudo quando o horizonte a ser vislumbrado reflete intervenções paralelas e, ao mesmo tempo, alheias à nossa vontade.

Tal sensação parece também costurar a narrativa de um filme como O Som ao redor. Com um olhar sobre a rotina de um bairro de classe média de Recife, o diretor Kleber Mendonça Filho expõe muito mais do que uma mera sucessão dos dias na vida de seus moradores, fazendo-nos perceber o quanto estamos imersos num fluxo de eventos paralelos com os quais dialogamos impensadamente.  Aos poucos, uma infinidade de sons, que normalmente são pano de fundo da realidade acostumada, aparecem propositalmente evidenciados. Barulhos de construção, de carros, pessoas a gritar, latidos de cachorro, ruídos de eletrodomésticos, dentre outros tantos, configuram uma sinfonia que mais caminha para a dispersão do que qualquer outra coisa.

A incapacidade humana e urbana de concentração, dada a variedade de coisas que nos abraçam incessantemente, aparece elevada à enésima potência. E isso tanto pode estar no plano meramente sonoro como também na forma como interagimos com o outro. Daí, também, pensarmos na questão da alteridade dentro de um mosaico de cenários que permeiam o cotidiano de quem quer que seja.

São muitos os objetos de interferência que passam despercebidos com frequência, banalizados que estão pela força da repetição. Com notória habilidade, o filme pinça os recortes da rotina sem insinuar vanguardismos estéticos. Basta amplificarmos a orquestração dos sons que estão no mundo para percebermos que, involuntariamente, dialogamos com o externo, o alheio. Ao mesmo tempo, o crescimento desordenado da grande cidade deixa claro que a grande presa do progresso continua sendo o próprio homem, na medida em que amarra, em nós bem cegos, a possibilidade de achar-se livre de fato.

Mesmo se tratando de um cenário ambientado em Recife, mais precisamente no bairro onde o diretor mora, o filme abarca sentimentos e características bem peculiares a qualquer cidade do país e quiçá do mundo. A valorização de uma cultura local com seus usos e costumes não aponta para um cinema que mira o próprio umbigo. Ao passo que expõe os efeitos descontrolados da urbanidade, é capaz de redimensionar seu foco para uma gama de assuntos comuns a um país de proporções continentais como o nosso.

Cena de O Som ao redor / Foto: Divulgação

O patriarca Francisco, personagem interpretado por W. J. Solha, é algo contundente quando assinala uma transição de uma sociedade originalmente agrária e que agora demarca seus territórios em pleno panorama desordenado duma metrópole em crescimento. O latifúndio aqui é o do concreto, principalmente porque, em meio a um mercado imobiliário predatório, Francisco detém uma quantidade significativa dos imóveis do bairro em questão. Mesmo assim, as memórias flutuam na trajetória desse personagem, sobretudo quando as lembranças apontam para um ambiente rural que não mais existe em sua magnitude histórica. A passagem dos engenhos para a selva de pedra pernambucana também não apaga a manutenção das relações de poder. Assim, patrões e empregados continuam protagonizando uma secular dissonância de expectativas e desejos.

O contrário de O som ao redor é o silêncio. E este, se pensarmos numa perspectiva de provocação, pode gerar mais incômodos do que supomos, principalmente se levarmos em conta a ausência do alheio e, por conseguinte, a duríssima condição de nos encerrarmos em nós mesmos. Nesse sentido, quem resistiria à presença teimosa de um silêncio pleno, cujos embates propostos fossem apenas os da consciência? Mesmo não tendo a onisciência precisa de tudo o que nos rodeia, é possível imaginar que a inexistência absoluta dos sons externos produziria, por si só, um efeito capaz de dimensionar o quanto somos curiosamente dependentes da tresloucada sinfonia de uma rotina urbana.

Recife é algo recorrente na filmografia de Kleber Mendonça Filho, cineasta cujas marcas apontam para um cinema autoral e orgânico. Ao mesmo tempo em que critica o tecido sócio-econômico que atravessa a cidade, o diretor também deixa entrever a sua paixão por ela. Isso acontece em Recife Frio, por exemplo, filme que, ao submeter a capital pernambucana a um inexplicável e incessante inverno, acaba pondo em xeque toda a forma de pensar de uma sociedade, notadamente gerando reflexos do ponto de vista comportamental.

A quem verdadeiramente interessaria um cinema que se volta para o exercício do senso crítico e dum olhar mais aprofundado da realidade? Parece uma indagação pertinente se considerarmos que, mesmo tendo sido exibido e aclamado em diversos festivais dentro e fora do país, O Som ao redor ficou restrito a parcas salas de exibição no contexto nacional.

Mesmo engendrando discussões complexas, a obra não enaltece posições ideológicas inflamadas. Aos poucos, envolvidos que estamos por ruídos de toda ordem, somos tomados pelo reconhecimento de coisas que, estranhamente e pela via cíclica, são íntimas de todos nós. Se, como diz Chico Buarque numa de suas canções, a dor da gente não sai no jornal, imaginemos só como o turbilhão do cotidiano por vezes aniquila toda e qualquer tentativa de dar sobrevida à pessoalidade. O tempo dirá se soubemos resistir.

 

 

 

 

 

 

 

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80ª Leva - 06/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Maria da Conceição Paranhos

Foto: Peterson Azevedo

 

 

1. SANCTUS

 

¡Ay, qué larga es esta vida!
¡Qué duros estos destierros,
esta cárcel, estos hierros
en que el alma está metida!
Sólo esperar la salida
me causa dolor tan fiero,
que muero porque no muero.
“Vivo sin vivir en mí”. Santa Tereza D’Ávila.

 

É o planger desse som e o breviário,
odor de incenso percorrendo o ar:
joelhos macerados no calvário
e a visão dos mistérios no olhar.

Que segredo se esconde entre essas linhas?
Falo? Quem ouve? Para quem falar?
Ó Deus, se escutais, por que tão longe?
Por que estais ocluso nesse altar?

Procuro Vossa face na cidade,
Vossa voz nesse canto (ouço cantores),
mas outros, que não eu, têm santidade,
isentos de pecados – e eu, Senhor?

E nós? De que matéria somos feitos,
nosso corpo é errado, esse errador?
O que fazer do corpo, então, Senhor,
tão dúbio na vertigem e desespero?

Mas os santos, tão puros, que segredos?
Pureza é que convive com Amor –
então, Senhor, um corpo para quê,
casa de tanto erro e tanta dor?

O amor, rito de vestes e metais,
entrevisto ao sopé desses altares,
na bela e poderosa liturgia,
nos proíbe do Santo e nos exila!

Nosso espírito se abre à voz dos monges,
e nós, neste desterro, neste adro.
O canto que sabemos vem do corpo,
mas, esta alma de carne e dor e sangue?

E tangem os sinos e sinos só tangem,
e ver, então, que nada nos desdoura,
pois tudo é Cristo em corpo, amen, amen,
é o Corpo de Jesus em nosso corpo.

(Anima Christi, sanctifica me.
Corpus Christi, salva me.
Sanguis Christi, inebria me.
Aqua lateris Christi, lava me.
Passio Christi, conforta me.. )

…que estamos a naufragar,
que soçobra nossa nave
nas profundezas do mar!

Todos silentes, todos tão ordeiros,
dentro das igrejas, e esta capela
e esta roupagem então? É esta, a que tenho,
joelhos tenros postados no lenho,

expiar. Mas o quê? Que mal fizemos?
Nascemos já marcados para o nada:
nada sabemos, nada consentimos –
ébrios de Deus, mas prestes a pecar.

Sangue de Cristo, vinde e revertei-nos
a Vós. Sem Vossa mão, não há salvar-se
do pecado insensato – não saber
das dores da Paixão de Vosso amar.

Sanctus, Sanctus, Sanctus,
Dominus Deus Sabaoth.
Pleni sunt caeli et terra gloria tua.
Hosanna in excelsis.
Benedictus qui venit in nomine Domini.
Hosanna in excelsis.

 

 

***

 

 
2. REMEMORARI

 

¡O lámparas de fuego,
en cuyos resplandores
las profundas cabernas del sentido
que estava obscuro y ciego
calor y luz dan junto a su querido!
San Juan de la Cruz.

 

Da rua vinham vozes e segredos,
as aulas matutinas, mas o medo –
as grades e essas ruas, deslumbrando,
a visão de vitrines – quê comprar?

Passam freiras no pátio dos canteiros
(os da infância, tão bons nos seus sossegos,
mas, estes, de formosos e esmerados,
confrangem a alma, tão desacordada).

As mãos cheias de terra, já me lembro
daquele cheiro denso e do vapor
das horas tênues no fragor do tempo,
ah, se me lembro, e quanto é o pensamento

da terra, terra, terra – tu es pó,
e ao pó reverterás em dia a vir,
tão próximo, a pulsar nesta carótida –
e estes ventos lunares, ventanias,

as mortes antevistas nas gravuras
nas paredes da casa, nas fissuras
do tempo consumido, ah, ainda ontem
olhávamos os rostos das pessoas!

Sem despedidas partiam a mirar-nos
perenes, altas, mãos de tochas frias,
e das ruas revinham vozes fartas:
manhã a pino, ouviam-se cantigas.

A morte assim não se assemelha à outra,
na Paixão vislumbrada, luz de fogo,
porque o Filho do Homem abriu a porta,
a porta estreita e a dor por nos salvar.

Soluçam e gemem no verão de tons
flavos no amanhecer de resplendores
e o tempo trota tonto em seu tropel
de sibilos e sustos, seus ginetes.

Visitando os filósofos, tão cedo,
ingressando nos templos, a buscar
os nexos em suas rimas, rumas, remas
de sons provocativos, solfejar.

Os ouvidos se apuram, e o verbo ausente,
dos dicionários. Uns mínimos verbetes
permitiriam o humano soletrar
e sempre mais e mais, sempre cantar

aos ouvidos cerrados dos incrédulos,
a tudo o que se ouvisse e se quisesse
em folha de papel, essa hora branca
(soluça essa memória, agora estanca).

Ouviu-se um som fulgente, e ledos versos
que se escreviam e iam, sem parar,
beleza movediça – levantando
dilatados espaços – nas procelas.

Desejo de partir, entrar na esfera
de um mapa-múndi ileso. Os oceanos
plenos de água mortal, gelo e punhal
atravessando o ser que freme e geme.

Em momentos assim, por que poesia?
Rumor aceso, sempre, recorrente –
esta lâmpada, em fogo, alumiando
as profundas cavernas do sentido.

Anima mea, e esta voz em surtos
desde a primeira ação – tirar do caos
um outro mundo, e deste, mais e mais,
descortinando vidas, tão ocultas,

com o poder que me destes de plasmar
com estes barros e lamas esquecidos,
escondidos, mas fartos no pulsar
de uma artéria recôndita. Ó vida,

que estás a nos chamar, doces esquinas
de onde se vê o coração sangrando
de um ser imaculado, a nos pedir
para darmos à luz coros de anjos.

A limpeza dos dias, os mais puros,
qualquer que seja a força desses luas,
que podem nos lançar em noite obscura,
pedra e limo na boca de recursos

muito cedo entrevistos, mas atados
a esta escassez humana. Ah, que voos
privados de umas asas, em alar-se
para abrigo ou canção, um nosso porto,

que estava obscuro e cego o meu farol.
E os estranhos primores descerraram-se,
no calor e na luz dos meus amores
a face rutilante como sol.

Mas existem as âncoras suicidas
e mergulho pesado para o orco,
ralentando o fadário de uma vida
sem tempo e espaço – é hibernal tesouro.

Ó barca, vida desmemoriada,
ilhas do Amor, além do navegar!

 

 

***

 

 

3. AS VOZES

 

Amago de la humana arquitectura,
ejemplo de la vana gentileza,
en cuyo ser unió naturaleza
la cuna alegre y triste sepultura.
Sor Juana Inés de la Cruz

 

Cidade, teu recorte sem postais,
repele os estrangeiros da baía
de fulgores azuis – e nossos ais,
e a serpente nos pés, Santa Maria!

A emoção no rosto, a criatura mira:
ali contempla os céus, o seu segredo,
brancas mãos de aleluias invadidas,
e palavras na boca, redizendo.

Que já doem os caninos, a tez sangra
neste ranger tenaz, a ouvir as vozes,
e o ditado abismado nunca estanca
nos ouvidos antigos dos consortes

na dor, na dor da luz, e é só silêncio,
e solidão, silêncio, quem me ouve?
Os sóis se esparramam nesta ausência.
nesta falta de haveres, só os sons

são destino e guarida, desertores,
se se os deixa sem boca, sem contorno.
Ah, que quero outros mares, mais azuis,
que a traição se faz além da Cruz –

na qual o vulto imenso se abateu
em Gólgota. Te vejo, e ali estou
ao teu lado direito, aonde vou
após vasto mergulho – mar Egeu,

além destas iradas geografias,
num tempo de titãs, aonde Atlântida
há muito foi tragada. Geofagia
de terracota ingente no meu cântaro,

todavia partido. E há viagens
no tempo amarroadas e sem espaço,
de onde já descortino essas imagens
de mártires e heróis, daqueles santos.

Oh, miragem suprema, estar ali,
despedida do corpo penitente,
tão castigado e só e tão doente,
fitando largos céus vistos daqui,

dessa pequena greta de angustura.

 

 

***

 

 

4. AS AULAS

 

Ultima hominis felicitas est in contemplatione veritatis.
Summa Contra Gentiles, III, 37.
Santo Tomás de Aquino

 

– Por que me procuráveis, pai e mãe?
O meu destino, então, não pressentistes?
Não pertenço a família, terra ou raça,
concerne ao Pai a estrada do meu fado.

– Mas nos afadigamos e choramos,
ó Filho que sois nosso aqui na terra,
não será crueldade nos deixares
pranteando e buscando nessa esfera

em que nos foi legado o dom de ter-Vos
no calor de um abrigo, nosso lar,
seu pai, na sua oficina, a abastecer-nos,
trocando dia e noite em Vosso amar?

Mas que amor é esse amor, que só retira
o fruto de meu ventre, a mim entregado
pelo Deus de Moisés e de Davi,
nossa casa em palácio transformada,

com o filho de Javé? Assim soubemos,
e assim os nossos passos Vos seguiram..
O Arcanjo me exortou fosse serena
em laborar na fé dos já ungidos

por palavra de nosso Pai eterno.
Ó filho meu, tamanho que sejais,
sede pequeno. Aonde, a humildade
que nos disseste ser das propriedades
gratas a Vós, a Vós, Filho de Deus?
– Reflete, amada mãe, pois não sabeis
das coisas de que devo me ocupar?
Por que me procuravas? Vai-se o dia,

e há uma Cruz já talhada para mim.
Naquele alto aonde irei morrer
padecerei na dor em morte humana,
sê forte, Mãe, meu espaço é o infinito.

 

 

***

 

 

É a pregação da Lei, da lei do Amor,
proclamada no espaço em que vivemos.
Três dias se passaram e os doutores,
ali refletem, atônitos, e só ouvem

o ensinamento sábio do Menino.
Eis o modelo grato, esse tesouro,
e o Senhor, ressurreto, neste altar –
feito carne o seu verbo, e este verso.

Contemplar a verdade é ser feliz,
mesmo se a vida é acre no conforto
num mundo sagitário e que não diz
dos olhos que se voltam para o outro.

Antevê-se, na fé, a recompensa
das horas amargadas em exíguo tempo.
A visão do antevisto banha os dias
em dissabor do sal dessa alegria.

 

 

(Maria da Conceição Paranhos Pedreira Brandão nasceu em Salvador, Bahia. Poeta com vários livros publicados. Exercita outros gêneros, nos quais também tem livros publicados (ficção, crítica de literatura e outras linguagens, teatro, vídeo, tradução, outros). Doutorada em Literatura Comparada pela Universidade da Califórnia, Berkeley. Professora aposentada da Universidade Federal da Bahia. Seu mais recente livro publicado de poesia é “Delírio do Ver” (Rio; Salvador: Imago Editora, 2002). A maioria de sua obra é inédita (nove livros prontos e três em elaboração). Promotora cultural, fundou a Divisão de Produção Literária da Fundação Cultural do Estado da Bahia. Os poemas aqui publicados fazem parte do, ainda inédito, “Poemas Místicos”)

 

 

 

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80ª Leva - 06/2013 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

BAIA – COM A CERTEZA DE QUEM NÃO SABE NADA

 


À primeira vista, Maurício Simão de Moraes – que atende pela alcunha de Baia – mais parece um híbrido de Raul Seixas com Chico Science. Astrologicamente, arriscaria a classificá-lo como de signo solar baiano, com ascendente em Pernambuco e Lua no Rio de Janeiro, traçando um paralelo entre sua naturalidade, raízes familiares e o local onde sua alma habita. Aos 40 anos, e pelo menos há duas décadas na estrada, o cantor, compositor e instrumentista, lança o sétimo CD de sua carreira – e seu terceiro trabalho solo. O artista estreou na música nos anos 90, já no Rio de Janeiro, à frente da banda Baia e Rockboys, gravando em estúdio Na Fé (1995), Overdose de Lucidez (1998) e Entrada de Emergência (2001).

Depois de um hiato marcado pela morte prematura do guitarrista e amigo Tonho Gebara, Baia aventurou-se em voo solo, o que resultou em Habeas Corpus (2006) e Baia no Circo (2009), alusão ao Circo Voador, lendária casa noturna da Lapa, onde o show também foi registrado em DVD numa celebração aos seus 18 anos de carreira. No final da década, ao lado de Gabriel Moura, Rogê e Luis Carlinhos – todos expoentes do atual cenário musical da Guanabara – fundou o projeto paralelo 4 Cabeça (2009), que resultou na gravação de um álbum homônimo e lhes rendeu, no ano seguinte, o Prêmio de Música Brasileira como Melhor Grupo de MPB.

Baia já bebeu na fonte de Raul e de Bob Dylan, dividiu o palco com Zé Ramalho, promoveu e participou de diversos festivais nacionais e internacionais. Seu carisma e presença de palco aliado à inteligência e irreverência que destila em suas canções garantem ao músico tecer críticas sociais com a mesma “doce doçura” com que fala de amor. Lançado em abril pela gravadora Som Livre (também disponível na loja virtual do iTunes) e intitulado Com A Certeza De Quem Não Sabe Nada, as 11 faixas do álbum revezam-se entre MPB e pop-rock, e têm na construção das letras, ora reflexivas, ora provocadoras, seu maior apelo.


Maurício Baia / Foto: Divulgação

A contagiante Essa Moça abre o disco e narra as estripulias de uma desinibida e libertária donzela. Talvez a mesma da canção Baia e a Doida, do álbum Entrada de Emergência, o último na companhia dos RockBoys. A acústica Desafio e seus contrastes estão presentes na regravação do cantor Edu Krieger, lançada originalmente em 2006. O quase ska Passa e Fica (passou, como tudo passa/e algo em tudo que passa, fica/passou porque tudo passa/porque tudo se pacifica), parceria com o cabeça Gabriel Moura, é um dos pontos altos do álbum, juntamente com a canção que nomeia o trabalho, Com A Certeza de Quem Não Sabe Nada (e esse vazio que nos inspira e apavora/já não judia/distância versus tempo/produto bruto desta história/que se anuncia). Enquanto Pousando (fora muitos desenganos/após todos esses anos/entre o agora e o quando), parceria com outro cabeça, Luis Carlinhos, tem ares intimistas, o pop-rock Solto Pelo Ar (se não parte com vontade/não vai dar nem pra saída/se só vive com saudade/aproveita muito pouco a vida) deixa sua mensagem de positividade.

O Primeiro – provavelmente a letra mais inspirada, também co-autoria de Gabriel Moura, que desta vez assume os backing vocals contempla todo o universo substantivo, ordinal e cardinal (pois tudo pode estar por um segundo/posso te perder para um terceiro/trancar-me aflito no meu quarto/lançar-me ao ar do quinto andar/tudo está no seu sexto sentido/na ultima das sete vidas/entre o oito e o oitenta/noves fora zero). As três canções seguintes, Em Nome da Fome, Os Dias de Hoje e Quando Eu Morrer – as únicas inéditas em seu registro ao vivo no Circo Voador – ganham versões de estúdio e enaltecem, respectivamente, o apetite de viver/amar, a atualidade nostálgica e o sossego da morte. Oração de Regresso, quase um cântico de louvor, finaliza o álbum pedindo a Jesus bênçãos sobre os homens (mostra o teu poder/dá o teu perdão/guia teu rebanho/para a salvação/e acaba com essa eterna luta/pelo vinho e pelo pão) e demonstra que Baia continua sendo um camarada de fé, como sugeria sua versão para Santa Fe, de Dylan, nos primórdios de suas investidas sonoras e ainda hoje um de seus maiores sucessos. Não resta dúvida de que Com A Certeza De Quem Não Sabe Nada é um álbum agradável e consistente, que carrega a brasilidade de um homem maduro com olhos contestadores de menino.

 

 

 

 

 

(Larissa Mendes, compartilha das mesmas [in]certezas de Mauricio Baia e também abriga milhões de eus)