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79ª Leva - 05/2013 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Desbravar visões e depois incorrer na tessitura das palavras. Qual semeadura de ventos, o ofício do poeta retorna da viagem com a colheita marcada por gestos infindos. Se pensamentos incomuns ou um mergulho na escuridão do mundo, saberemos em parte quando os sentimentos tomarem a forma de texto. Aquele que se põe a escrever, com propriedade e certa dose de resignação, deve saber que as incursões lhe reservam a sagração do mistério. Certo de que o caminho traçado não lhe confere status de impunidade, o artesão da palavra saboreia um banquete cujos ingredientes mesclam catarse e desventuras.

Entre nós, mortais que reinvidicamos a patente da racionalidade, habita o ímpeto de revolver o desconhecido, beijar-lhe a face e se enveredar por seus labirintos insones. Nesse trajeto, há quem não se deixe levar por meros devaneios e se dedique a olhar a existência com necessária porção de lucidez. Imbuídos dessa percepção, testemunhamos as escrituras de um autor como Heitor Brasileiro Filho. Sem esquecer os imperativos do lirismo, esse baiano de Jacobina ergue a sua expressão poética como quem vislumbra alguma ordem no caos que nos abraça. Ao poeta interessa moldar a palavra até que ela amplie suas frentes e atinja um patamar no qual o conformismo seja instância esvaziada.  Rechaçando a uniformidade das coisas, Heitor escreve como quem não está disposto a pactuar com verdades inventadas nem tampouco limitações de cunho moral. O efeito que extrai disso torna seus versos dotados duma provocação que arregimenta signos e outros tantos sentidos. Dentro de um caminhar de dedicada cumplicidade com as palavras, o que inclui a participação em antologias como “Diálogos: Panorama da Nova Poesia Grapiúna” (Editus – Via Litterarum) e “Bahia de Todas as Letras” (conto – Editus – Via Litterarum), eis que o momento presente celebra a aparição do primeiro livro solo do poeta, “O Chão & A Nuvem” (Editora Mondrongo). Nessa entrevista, Heitor fala sobre o significado do seu mais recente rebento literário, chama atenção para a obra do poeta Sosígenes Costa e pontua reflexões sobre o fazer literário. Depois dessa conversa, não há dúvidas de que estamos diante de um artífice que talha palavras numa busca que sugere uma virtuosa inquietude.

 

 

Heitor Brasileiro Filho / Foto: Marcos Penalva

 

DA – Depois de alguns bons anos de maturação e de estrada, você publica seu primeiro livro solo de poemas, reunindo versos recentes e outros guardados de outrora. Nesse sentido, julga ter achado o momento certo para romper o silêncio das palavras?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – Demorei a publicar o primeiro livro individual. Entretanto, não há espaço para o silêncio nesse processo. Participo de umas duas antologias. Participei usando os veículos de que dispunha desde o jurássico mimeógrafo aos blogs modernosos, jornais tradicionais, suplementos sarados, revistas, cadernos culturais, parcerias musicais, levamos a poesia em parceria com músicos e bandas, como a experiência do projeto Rock & poesia, por exemplo. Fechamos o livro O Chão & A Nuvem, atendendo a uma solicitação da Mondrongo Livros, modesta e ousada Editora do Teatro Popular de Ilhéus, a pedido do poeta e editor Gustavo Felicíssimo. A editoração de livros neste País é uma aventura inconsequente, pra usar uma expressão análoga à Bandeira, por isso fui solidário à Mondrogo, fundada em 2012, em Ilhéus, no interior da Bahia. E estimo que ela a mim.  Lá estão poemas recentíssimos, cutucando o cão com vara curta e não menos flecheira. Juntei-os a outros testados pelo leitor mais exigente. Creio que deu bom resultado.

DA – Na apresentação que faz de seu livro, o escritor Gustavo Felicíssimo atribui à sua voz poética algo entre o lírico e o incendiário. Como concebe tais atributos?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – Com naturalidade e certa resignação. Como ainda não conquistei a heteronomia (risos) com a qual se refugiou o genial Pessoa, concluo que a verve do poeta manifesta fidelidade ao temperamento do homem. Está em LIRIUM: quem / bem me / quer / não me // despe / ta / la, poema que me é cobrado desde 1983, não poderia deixá-lo fora deste livro. A assertiva é presente também em A Outra face: A poesia não aceita algemas / nem acredita em bombas de efeito moral // (…). Podemos denunciar a intransigência, o horror liricamente, veja em Burka da alma: Os arcanjos e as crianças / pegam em arma / como se tocassem o rosto do criador. O Gustavo estudou alguns dos meus textos e desenvolve trabalho analítico da nossa poesia contemporânea, trabalho de fôlego, ele que pretende publicar. O que me enobrece, vez que me situa entre meus pares e em boa companhia. Sua apresentação no meu livro é pouco econômica, mas não é cabotina, não erra com a afirmativa. O lirismo mais que convence, comove. Quando  “a dança das palavras entre as ideias” (vide Pound) rompe o cerco da indiferença, ainda que não demova a apatia coletiva ou vença a insensatez, avança contra toda essa brutalidade. Se a prosa libertária enfeixa bananas de dinamite, senhor dos interstícios é o lirismo. Penetra e vai além das reentrâncias. Implode estruturas de falsa solidez. A poesia nesse estado é glicerina pura.

DA – Em “O Chão & A Nuvem” vemos um olhar que parte dos cenários regionais, íntimos e, portanto, afetivos da memória rumo ao mundo globalizado que nos atropela a todo o tempo com suas complexidades. O que cabe melhor ao poeta: a contemplação ou o enfrentamento?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – São dois lados da mesma “moeda”, que não se rendem a escambo. Mais que uma questão de temperamento é um estado de espírito, não há recuo na contemplação. O enfrentamento em mim é um princípio pessoal impulsionado pela necessidade de me expressar para o mundo. Deem-nos infância e memória / e ficaremos para o grande espetáculo da terra (in, O Grande espetáculo da terra). O melhor lugar está dentro de nós. É com isso que iremos ao longe. Parto do princípio de que dignificar o mundo infantil é fazer adultos saudáveis, ou ao menos razoáveis. Sou neto de modestos fazendeiros de gado do semiárido baiano. Filho de um caminhoneiro com uma dona de casa. O natural era que aspirasse ser médico, advogado, engenheiro. Se o Drummond dizia-se fazendeiro do ar, que posso dizer? Fazendeiro do árido (risos). Foi aí que começou todo o enfrentamento. Mas nada sou sem minhas raízes. Daí, a importância do locus, o nosso lugar é nosso ponto de partida. Nessa ordem fui educado. Primeiro a escuta, depois a fala. O problema nosso é quando o silêncio conspira contra a dignidade humana, quando o fenômeno ocorre nas relações sociais e contamina até a famigerada política cultural. O desafio do poeta é o fazer literário. Chegamos ao ponto em que a contemplação já é um enfrentamento. Não o único, felizmente. Mas quando as relações se amesquinham ao ponto, não deixa de ser uma afronta à necessidade de ascensão social a qualquer preço, da avidez de poder e mando, pior, sob o manto sinistro da corrupção. Ao poeta cabe o fazer poético sem melindres e sem peias. Se isso vai mudar o mundo, responda-me quem o lê. A primeira mudança ocorre na gente, é de atitude. A literatura muda apenas a maneira como a gente vê o mundo.

DA – A lucidez é uma espécie de companheira quase inseparável de seus versos. Aceita, sem ressalvas, a condição de poeta inconformado pelo espanto que é existir?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – Aceito, com as devidas ressalvas (risos). “Viver é muito perigoso”, diz Guimarães Rosa na voz do jagunço Riobaldo. Mas é preferível que seja gozoso. A materialidade da vida, a existência reduzida a efemérides, o cotidiano torpe e mesquinho zoando nossas perplexidades, enfim, o sublime e o grotesco são matérias-primas e combustível para minha criação poética. Não posso encarar a vida sem essas prerrogativas na formação de meus versos. Não posso reclamar do destino que escolhi, posso sim transformá-lo. Tampouco, posso aceitar o arremedo como opção de vida para meu semelhante. Ninguém é obrigado a aceitar a esculhambação que fazem com nosso país, nem uma ditadura midiática mijando a nódoa em nossa cara. Digo em A República & o Newmonarca: A res é pública \ mas não é pudica \ pasto de sacripanta \ posto que nos fornica.// (…) Pública é a res! / dita um monarca / bobo de outros reis / que regem a fuzarca. De fato, não há poesia sem perplexidade, ou “espanto”. Não tenho vergonha de ser feliz, tenho a mulher que amo, temos o filho que escolhemos. Gosto de dizer que felicidade não é conformismo. Como pode haver conformidade com um mundo em ebulição?

DA – Todo poeta é, em certa medida, um impostor?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – Jamais. Ou é poeta ou não é. A poesia não representa, a poesia é. Ao fazer uso da verdadeira linguagem poética, o poeta não “quer dizer”, o poeta diz. O fato de ser uma das características da poesia a multiplicidade de sentidos, essa riqueza expressiva revela sua capacidade de revolver e expor os prismas de uma verdade. A verdade da arte. Poesia é transparência da alma. Entretanto, se a pergunta se refere à limitação do indivíduo em viver de sua arte, digamos que sim. Se é que é possível ser impostor de si. Sabendo que a impostura parte do mercado, a relação com o mercado editorial é esquizofrênica. Onde já se viu emprego de poeta? Não podemos viver sem poesia, mas não podemos viver de poesia. Isto não é uma escrotidão? É. No meu caso o eu-peão é quem sustenta o eu-poeta, quando ambos são indissociáveis, a mesma pessoa.  O mais incrível é que por essa condição a poesia ainda é uma arte livre, que não é escrava do mercado, não se curva à sevícia. Veja como a ostentação é a cara da pobreza. Meu sonho agora é ganhar dinheiro escrachando, poeticamente, toda essa escrotidão (risos). Não apenas o lirismo, mas, o humor e a ironia são badogues que valem por uma ogiva nuclear. A gente morre, vira lama, e a poesia fica aí… levitando. Como pode ver no poema “Poesia é ouro sem valia”, com título homônimo de um artigo de Ferreira Gullar, a quem dedico, estabeleço seguinte diálogo: perdoe-me a gula / o Gullar // poesia / não é ouro / é valia // ouro vale / quanto / o pesar // o quanto flutua / a poesia.

Heitor Brasileiro Filho / Foto: Arquivo Pessoal

DA – Sua trajetória aponta para um caminho em torno da obra de Sosígenes Costa, um poeta de cunho notável e que ainda permanece desconhecido por muita gente. O que o fez debruçar-se nessa pesquisa?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – O desafio. Minha primeira impressão sobre a arte de Sosígenes foi de estranhamento. Apesar de todo um domínio, de uma técnica, ele recusava a moda. Fui entender melhor. Havia apenas um exemplar de “Obra Poética” (1959) na biblioteca pública. Depois consegui cópia de  “Obra poética II” (1978) e “Iararana” (1979). É injustiça um poeta ficar mofando por mais de 30 anos. Embora o material fosse escasso, o escolhi como objeto de estudo para minha monografia de conclusão do curso de especialização na UESC. Só havia dois livros sobre sua poética: “Pavão parlenda paraíso”, de José Paulo Paes e “Sosígenes Costa: O Poeta grego da Bahia, de Gerana Damulakis. Li toda a bibliografia disponível, poemas, uma entrevista, e as crônicas que revisei para o livro de Gilfrancisco Santos, organizado por Hélio Pólvora. Garimpei alfarrábios, juntei textos esparsos tentando montar o quebra-cabeça. Mais escassa ainda é sua biografia, muita lenda, poucos fatos. Os contemporâneos estavam morrendo. Aproximávamos de seu centenário, procurei seus familiares e amigos em Belmonte. Uma epopeia: levei gravador e máquina fotográfica. Preparei minha “Violeta”, uma moto XR2000R que guardo até hoje, embarcamos em Canavieiras para Belmonte. Seguimos pelo Rio Pardo até o Estuário do Jequitinhonha. Em Belmonte, sua sobrinha Ana Rosa me confiou documentos. Colhi depoimento da Professora Mariinha, contemporânea de infância e também no Rio de Janeiro. Segui de moto para Santa Cruz Cabrália pra gravar entrevista com Naçu, o irmão caçula que tinha 79 anos. Não pude retornar por Belmonte para pegar o barco devido às chuvas. Enfrentei tempestade na estrada pra Porto Seguro. Tinha recursos para uns três dias. Fui acolhido na pousadinha Pôr do Sol em Trancoso. Retornei sete dias depois pra Ilhéus, debaixo de chuva impiedosa. Embora levasse material para uma Universidade e a Fundação Cultural na qual trabalhei, viajei às minhas expensas. Sou grato ao apoio da família e amigos, aos quais conquistei amizade e respeito. Retornei pra proferir palestra. Essa viagem me serviu para remontar sua ambiência de origem, sua formação de leitor, seus primeiros escritos, e desmistificar a imagem divulgada do poeta. Já nesse período, quando afirmei que  Sosígenes, com dicção própria, espírito combativo exprime solidariedade, preocupação com a pesquisa histórica revelando um rico vocabulário que não dispensa o coloquialismo da gente do povo, fruto da vivência e da pesquisa de termos de origem indígena e africana, as duas raças mais sacrificadas na constituição do povo brasileiro(…), os donos da cultura na Bahia deram de ombros. Recentemente, Herculano Assis, reuniu documentos colhidos em Belmonte e, no Rio, lançou Cobra de Duas Cabeças. A obra só confirma que Sosígenes não era apenas um poeta habilidoso, o sujeito tinha senso crítico, às vezes era ácido, mas bem humorado, antenado com a obra de autores então em evidência e com o desenvolvimento das letras nacionais.

DA – Quais traços julga serem marcantes nos escritos de Sosígenes Costa?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – A busca da originalidade, algo difícil de edificar em qualquer arte. Mas, sobretudo, a quebra nos paradigmas no que concerne o “enquadramento crítico-convencional da nossa Teoria Literária”. O cara era invocado, tinha integridade e não buscava sucesso fácil. Até sua poesia dita clássica, a sonetítisca dos pavões, admirada por dez entre dez acadêmicos dentro e fora dos quadrantes da Bahia, usa uma roupagem parnasiana rigorosamente metrificada, e ainda com floreios barrocos para incutir-nos um conteúdo moderno e com as cores locais, anseio do nosso Romantismo que conhecemos com uma das principais bandeiras do Modernismo, corrente que ele ainda implicava e batia através de sua Coluna de Sósmacos , em 1928, porque ainda não havia digerido completamente seu conteúdo. “Búfalo de Fogo” passou pelas mãos de muita gente boa como um poema meramente simbolista, telúrico, etc. Subestimaram o mestre-escola das roças de Belmonte, recém-chegado a Ilhéus, com apenas 27 anos de idade. Por trás daquela capa simbolista, o que temos lá é um épico denunciando o horror da invasão e da pilhagem. Imagine a cidade de Ilhéus, cidade-mãe da “civilização grapiúna” (vide Adonias Filho), qual “Búfalo de Fogo”, “fosfóreo”, “florescente”, sendo perseguida por centauros (“Centauras”), bichos perversos dados à desordem, invasão de lares, e cuja representação simbólica na mitologia clássica nos remete à barbárie? O Simbolismo, em essência, preconizava “a arte pela arte”, a contemplação e não o conflito. Em  “Búfalo de Fogo”, literalmente, o bicho pega! Portanto, um épico a ser estudado com maior acuidade. Veja que Sosígenes abre o poema da seguinte maneira: “Anoiteceu. / Roxa mantilha suspende o céu no seu zimbório / que noite azul, que maravilha / sinto-me, entanto, merencório”. Olha que tristeza retada… Depois faz um passeio pela Bíblia, pela história, pelas mitologias, com vocábulos nossos tão rebuscados que mais parece outra língua, uns duzentos versos depois encerra de forma emblemática: “(..) Protervos ventos em mantilha / como cem feras em regougo, / fazem da noite na Bastilha / revoluções de demagogos. / Ventos, ladrões de uma quadrilha, / depois do crime, vão pra o jogo. / dentro da noite, Ilhéus rebrilha qual Búfalo de Fogo.” De lá pra cá, passaram-se 85 anos. Agora repare na atualidade do tema! A sua poesia Modernista, talvez a mais visitada, novamente foge às regras vigentes. Menotti del Pichia, na Semana de Arte Moderna, em 1922, provocou a plateia: “Morra a Hélide!” Sosígenes seguia próprio caminho, depois criou o mito da falsa Iara (“Iararana”), fruto do estupro contra a Iara pelo centauro Tupã-Cavalo, “Mondrongo vindo das oropa” para invadir e usurpar a cultura nativa. “Iararana” remonta as origens da colonização portuguesa e vai até o processo histórico da formação da nossa cultura do cacau. Inadmissíveis para os primeiros modernistas eram os mitos da nossa civilização de origem indígena junto à mitologia clássica, portanto, de origem europeia. Os “ouropeis”, pra usar uma expressão irônica de Mário de Andrade. Sosígenes inovou no conteúdo ante a orientação modernista-primitivista desta primeira fase, a chamada fase heróica, e o fez ao seu modo. Usou elementos da tradição clássica para fazer uma poesia essencialmente brasileira, contudo, universal. Elementos presentes em outros textos, escritos a partir dos anos 30. Embora acusado de anacrônico, ele fez o diferencial e o complementar. Digo sempre que não é tudo que Sogígenes escreveu que eu gosto incondicionalmente. Mas, justiça seja feita, em toda área que atuou deixou peças de comprovada grandeza.

DA – De que modo a tradição pode dialogar melhor com a modernidade em matéria literária?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – Não podemos negar aquilo que desconhecemos. A história tem sua dinâmica e a referência é a tradição. Não significa estacionar o olhar numa zona de conforto. A vanguarda de hoje pode vir a ser a tradição amanhã.  Na história dos movimentos literários uma tradição se sobrepõe à outra – não a suplanta – nem sempre por um processo de ruptura, mas de associação e superação. A boa leitura não apenas alarga os horizontes, às vezes deixa marcas indeléveis que vão além do consciente. É preciso saber ouvir a voz que habita nosso espaço interior. A partir de então, saber o que fala, como fala, de onde fala e para quem. Tudo isso, sem se privar da descoberta constante que é o fazer literário.

DA – Uma de suas máximas é afirmar que alguns de seus poemas foram premiados e outros ainda não foram corrompidos. Esse pensamento é uma espécie de antídoto contra a vaidade?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – Mera tentativa. O antídoto ainda não foi inventado. Quando brinco com a vaidade humana, revelo meu jeito de ser vaidoso.

DA – Escrever aponta algum caminho de salvação?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – Sim. A poesia salvou minha vida.

 

 

 

– DOIS POEMAS DE “O CHÃO & A NUVEM” –

 

 

 

 PEDINTE

 

A loucura bate à porta

do vaso das flores
sirvo-lhe o copo d’água

amanhã virá a consciência
em busca de comida

 

 

A REPÚBLICA & O NEWMONARCA

 

A res é pública:
mas não é pudica
pasto de sacripanta
posto que nos fornica

a res é pública:
como quer a grei
que escreve & publica
& não reconhece a lei

a res é pública:
se não ultrapassa
a verdade e a justiça
à venda e à mordaça

a res é pública:
não é de ninguém
de quem mais se furta
é do que menos a tem

é pública a res:
como será sempre
magarefe o rei
& o gado a gente

é pública a res:
como sempre foi
covarde a sangria
da farra com o boi

a res é pública:
mas livre de arbítrio
ao biltre da política
se eleito o estrupício

é pública a res:
privada só pra súcia
evacuar de vez
seu voto de astúcia

– pública é a res!
dita um monarca
bobo de outros reis
que regem a fuzarca

 

 

* Outros poemas do autor podem ser lidos aqui

 

 

 

 

 

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79ª Leva - 05/2013 Destaques Olhares

Olhares

Uma Dama, Uma Damas

Por Carla Diacov

 

Desenho: Bárbara Damas

 

Desde que a simplicidade se deu, Bárbara resenha, desenha, põe gente, passarinhos e medos pra voar no papel:

A primeira vez que Bárbara pegou numa folha, a folha tragou a Bárbara.

Era de cheirar dum tudo o que tocava.

Conhecia as coisas pelo tato que no tato da coisa, dizia, pequenininha, dizia, que no tato das coisas está a cor e o contorno em luz e sombras.

Tinha muita dó de apontar os lápis, achava que podia doer, não nos meninos, os lápis, mas nela. Podia doer fundo nela, ela a Bárbara. E desde sempre que é desde então, desde que a simplicidade se deu, Bárbara desenha, por conta daquela primeira vez em que a folha tocou nela e porque tudo, pele de coisa, urubu, estado, gente-coração, minhoca vendida, violão velho, gato fedido, pensamento doente, pedra jogada e pedra contente, Monalisa estragada, tudo-tudo, tem cheiro de cor e de mundo e de gente:

Aos dez anos já fazia gente e chamava URUBU aos pássaros que fazia. Vestia pessoas com corações, dava bolsinhas, sorvetes e bracinhos aos corações.

Entrou para a escola de desenhos aos treze anos e abandonou a escola de desenhos aos treze anos quando o professor mandou que desenhasse a Monalisa igualzinho a Monalisa do Leonardo. Onde já se viu? Igualar as coisas? Professor mandar?

Pisoteou a faculdade de artes visuais em 2004 pelos mesmos motivos, ora, onde já se viu?! Onde?!

Desenho: Bárbara Damas

Desenhou, seguiu desenhando e foi parar na faculdade de direito no mesmo período, onde, porque ninguém mandou, graduou-se. Nesse tempo torto, deu-se sua primeira exposição e Bárbara encontrou-se com seus traços. Foi em 2007, no SESC AMAPÁ, no evento “Aldeia SESC Povos da Floresta”.

No ano seguinte, convidada para ilustrar seu primeiro livro infantil, lançou-se no “Macapá – a capital do meio do mundo” pela Cortez editora. De lá, então desenha ali, resenha aqui. E aqui está: Penso que Bárbara Damas tem a arquitetura lúdica, os traços mais leves que conheço. É um estado. Pois que é de se estar debaixo duma árvore muito da chapeluda, verdíssima, quando se tocam os olhos nos traços de Bárbara. É de se estar, mas também pode-se estar a precisar dum lugar assim, sim, porque Bárbara é fornecedora. (Tenho pra mim, tenho para dar, que as linhas de Bárbara Damas elevam a qualquer estado de se estar.)

Há quem desenhe para expurgar, há quem desenhe para se ornamentar, há quem, há quem. Bárbara Damas, como se vê logo ao pingar vistas num de seus desenhos, Bárbara Damas desenha para que o mundo aconteça. O mundo e tudo o que há no mundo: pele de coisa, urubu, estado, gente-coração, minhoca vendida, violão velho, gato fedido, pensamento doente, pedra jogada e pedra contente, Monalisa estragada, tudo-tudo. É de se estar e Bárbara sempre estará, pondo tudo pra voar.

Quem disse que gente não é coração?

Desenho: Bárbara Damas

* Os desenhos de Bárbara Damas são parte integrante da galeria e dos textos da 79ª Leva.


(sou carla diacov. de qualquer forma. não me importa tanto ser. e também vou e volto e babo durante. nasci (09/04/1975) e moro em São Bernardo do Campo e brinquei na praça-dos-meninos. morei a Londrina e ela a mim. fiz teatro e me desfiz. então escrevo e sei que vou, mas volto. de qualquer forma. e gosto tanto de pão de forma com amendocrem. de qualquer forma, que é como eu sou, mas volto. Babando)


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79ª Leva - 05/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Virgínia do Carmo

 

Desenho: Bárbara Damas

 

 

No avesso dos voos

 

Há pássaros que me doem no avesso
dos voos. Como se engolisse a vertigem
de um caos de penas e perdas. Acentos
graves em desassiso na queda invertida das
lágrimas

………do fundo de mim para a superfície dos teus
…………. olhos.

E sei que não há outra pele que me salve
da solidão. Porque tu corres-me por dentro
do corpo. Qual seiva espessa do ar que me
atravessa. Um abismo de sopros a romper-me
o peito. Tempestade de reversos. O oposto do
teu toque.

Há pássaros que me doem no avesso
das asas, sabes. Como se a vida fosse este caminho
de pernas para o ar. Um horizonte desenhado
ao contrário. Um céu que piso sob o peso da terra.

Há pássaros que me doem, meu amor.
No avesso dos voos.

 

 

***

 

Decomponho-me

 

Sitiada na hora da torção da luz, decomponho-me.

Em excertos de estrada húmida. Em filamentos
de solidão.

Entorno o meu corpo nos intervalos das tuas mãos
recorrentes, e contemplo a agonia amplificada dos
ruídos na crosta arfante da terra.

…………[Consubstanciação do impacto da memória.]

Como as gotas de ti no vidro sujo.Como aquele
cheiro a interior prescrito.

…………. [Como se não pudesses
habitar-me mais.]

E no movimento perplexo dos olhos golpeados
de horizontes intermitentes, respira-me o lamento.

O meu grito lentificado,

…….. [pedestal do teu aceno]

a sangrar visões de nós. Um uivo grave, desnorteado,
a ser-me eco mortificante na pele.

E sitiada, ainda, na hora da torção da luz,

……………decomponho-me.

 

 

***

 

 

O silêncio das pedras

 

Apetece-me o silêncio das pedras
A quietude das areias primitivas de um chão
sem dono
A lonjura sem fundo
nem pele
que me doa

Apetece-me a nudez das escarpas
salgadas
A liquidez inabraçável
do mar

O alívio de não ter peito
O descanso das mãos

Apetece-me o silêncio das pedras

 

 

***

 

 

Um rosário de dias sem nome

 

Sobre a mesa do meu jardim de pó e ar,
um rosário de dias sem nome. Dias
(in)seguros na compressão de dedos partidos.
Dias memoriados em cacos de porcelana azul.
Contas de um céu por limpar.

É um rosário de dias sem rosas nem chão. Dias
desfiados em mistérios de um tempo menor, a tremer
por dentro das coisas, a doer nas dobras dos dedos
partidos.  Atravessado de vestígios da salvação
por encontrar.

É um cordão de pedras e nós a engolirem silêncios
irrespiráveis.
Estranha cadência de uma procura qualquer.
Três terços de um todo por acabar.

 

 

***

 

 

Cansada

 

Cansada de me ser um relevo abstracto na textura das coisas que piso.
Cansada de percorrer esta cordilheira insular de abraços possíveis.
Aprendi a respirar vazios estranhos ao meu corpo e dói-me já o peito
de tanto me salvar dos espaços contaminados.

Cansada de calcar a ternura em gavetas que já não fecham e depois
partir para um mundo onde não cabe todo o tempo que ainda falta.

cansada.

Cansada de tudo o que me sobra do chão.

 

 

(Virgínia do Carmo nasceu em Champagnole, França, mas foi em Trás-os-Montes (Portugal) que cresceu e aprendeu a escrever. Licenciada em Comunicação Social, o seu percurso profissional passou pelo jornalismo, mas foi no mundo livreiro que encontrou a sua verdadeira vocação. Atualmente leva adiante um projeto (Poética – Livros, arte e eventos)  que, mais do que uma livraria, pretende ser um espaço de verdadeiro e profundo encontro de livros e pessoas. É autora das seguintes obras: “Tempos Cruzados” (poesia), Pé de Página Editores, Coimbra, 2004,“Sou, e Sinto” (poesia), Temas Originais, Coimbra, 2010,“Uma luz que nos nasce por dentro”, Lua de Marfim Editora, Lisboa, 2011)

 

 

 

 

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79ª Leva - 05/2013 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Andréia Carvalho

 

Desenho: Bárbara Damas

 

heliose

 

6:00 am. o dia a encontra. com um martelo de feiticeiras. o vapor do café é a fogueira que decide ativar. poderia poupá-la do fotoenvelhecimento interior, com seu rosto abstrato: nenhuma lua, nenhum quadrúpede. esfenoides imóveis, asas absortas. apenas o cálculo, criteriosamente revelado, em expressionismo facial de espécime taxonômica. Ela, zoomorfa como quadriga apocalíptica em autoestrada planejada, o sonda com o neurocrânio odonata, preparado para os aparatos curiosos do laboratório solar. com uma esferográfica mental, rabisca sobre sua testa simétrica: uso externo.

12:00 pm. Semáfora, a libélula fêmea deposita seus ovos em estacionamentos lotados. A luz refletida pela lataria dos automóveis imita espelhos d`água.

6:00 pm. festins, repugnâncias, minas de carvão. exauridas. e as mãos de querosene, com um incêndio astuto a escorrer sobre a gravitação das almas devastadas. pelas instalações mais infernais: onde os opositores ancestrais são envernizados em corpos de gigantes cogumelos polimorfos. inocentes e jovens, frente à barbárie dos querubins em santuários de fast-food. banalizados  pela melancolia industrial de madonas dopadas. lógicas e fálicas. Ela pressente suas mortes cifradas. quando desconecta o interruptor. carbonizam em alegoria de betume, políticos, no fermento escuro. stercus diaboli.

12:00 am. se as lâmpadas fossem navalhas, cerraria as pestanas de lobo-guará sobre o córtex dos corredores mortiços desta massa cinzenta que impede o símbolo da faísca selvagem pelas escadarias. mas os olhos de tungstênio não se fecham.

 

 

***

 

 

A curandeira do império solar

 

Em meu tratado particular de esquizoanálise, a alma chocalho canta teus mortos e artefatos.

E, xamã de ti, canibal de ti, índio de ti, espalhando barbáries mínimas em teu dorso iluminado, entorpecida de síndrome luciferina, aguardo a noite e a visto como um hábito de monge. Por pura exaustão pirofágica. O lodo no escalpo dos pés, queimando nas estrelas, com a baba de teus anjos: os viscosos generais, empalados em cerveja e tintura vermelha.

Até que tu, mal amado, desperte-me de um sono de eras selvagens e puras, e tiquetateie minha sombra mais uma vez, esquartejando-me com as engrenagens desligadas de meus ancestrais.

Meu proceder escambo me pesa os nervos. A pele escalpelo cicatriza fácil demais.

Olíbano libidinoso, tu és. É preciso, sol do império, ferver teus exóticos  inimigos, em óleo quente.

 

 

***

 

 

poesia para bruxas órfãs

 

Meu livro das sombras, todos os livros. Meu oceano monocromático. Os livros enchem o refrigerador. O guardião das linhas efervesce sua sombra líquida pelas almofadas. Em minha crueza, mastigo os fantoches que dormem nas forminhas para gelo. São de vários formatos, gatos, rinocerontes, cabides vazios, hexágonos. Seus olhos lendo minha laringe lacrada. Seu sal escuro pelo apartamento, seus braços infantis, agitando a parafernália marinha com moinhos de abracadabra. A sombra efervesce. Como uma vitamina em mutação. Invoco raios, primeiro os pequenos, a esquizofrenia de tesla, o curador de pássaros obcecados. Depois os maiores, de alturas extintas, os que caem cheios de deuses empalhados pelo pó dos homens. Em minha jaula inventada, fabrico uma densa população prensada contra as cortinas, a coleção de vagalumes. Ainda sorrindo para mim. Tão elétrica quanto o vapor de uma pavorosa respiração. Não há médico-monstro que supere os impropérios luminosos que lanço para ti, carbonífera existência.

O tinteiro está lotado com o sangue azul-petróleo de meus pais.

 

 

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Um corpo herege no cemitério de néon

 

A terra roxa, a bisavó benzedeira. Sodalita, nunca quis teu azul. O slogan portfólio. A aura escarlate, o passo amarelo, cuidado atenção.
Enquanto escrevo abraxas, nos terreiros degolam o bode e o galo. E a fogueira, acesa só para mim, seiscentos e sessenta e seis micro-ondas.

Vivo a escrita dos grimórios. Meu tempo caça às bruxas ainda fresco nas praças de alimentação. Babalon sadia nos rótulos de uma barra de cereais. O tridente de fiat lux espeta a carne frigorífica de uma maçã domesticada.

Tenho um punhal medieval, colorizado e intacto, para algum ritual cibernético. Cultivando à sombra, livros e mais livros, transgênicos. E gado marcado, com alguma dócil indolência, apresento formal (por fora) o desgastado erregê. Limpo a seco.

Sodalita, nunca quis teu azul.

Mantenha-me longe do alcance dos iluministas de celofane.

 

(Andréia Carvalho (Curitiba/PR) é autora dos livros A Cortesã do Infinito Transparente (Lumme Editor, 2011) e Camafeu Escarlate (Lumme Editor, 2012). Participa do corpo editorial de Mallarmargens – revista de poesia e arte contemporânea)

 

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79ª Leva - 05/2013 Destaques Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes


CLARICE FALCÃO – MONOMANIA


 

 

 

Para a psiquiatria, monomania “é a definição de uma obsessão doentia por uma ideia, objeto ou pessoa”. Em seu álbum de estreia, a atriz, roteirista e compositora Clarice Falcão parece ter apenas uma fixação: a meiguice. Filha do cineasta João Falcão e da escritora Adriana Falcão, esta pernambucana criada no Rio de Janeiro transita desde cedo entre diversas esferas da arte. Aos 23 anos, Clarice já possui um extenso currículo – como atriz e roteirista – na televisão, teatro, cinema e principalmente na internet, onde há pouco mais de um ano e meio começou a postar vídeos de suas canções de voz e violão, somando mais de 10 milhões de visualizações. Aliás, sua primeira composição foi a trilha sonora do curta-metragem Laços (2007), também estrelado por ela, que ganhou o concurso mundial Project: Direct, do YouTube. Parte deste sucesso virtual deve-se ao canal de humor Porta dos Fundos, onde a multifacetada artista escreve e participa ativamente das esquetes, muitas vezes ao lado do namorado Gregório Duvivier, um dos idealizadores do coletivo.

Suas canções de amor – de rimas fáceis e melodias suaves –, repletas de ironia e humor negro, são na verdade pequenas construções narrativas, o que talvez justifique a ausência de refrão da maioria das faixas. Lançado pelo iTunes no final de abril, Monomania não possui gravadora ou formato físico oficial, visto a relação direta que a cantora já estabelece com seu público. Atualmente, o álbum figura entre os mais baixados na Apple Store brasileira e é comercializado, de forma quase artesanal, apenas em suas apresentações ao vivo. Com influências de Magnetic Fields, Kate Nash e Chico Buarque e comparada à atriz e cantora Zooey Deschanel (da dupla She & Him), Clarice soa como um mix da canadense Feist com Mallu Magalhães. O primeiro registro de estúdio da menina de voz doce e canções despretensiosas ganha arranjos mais elaborados do que as versões acústicas disponibilizadas na internet e conta com a consultoria e produção musical da sogra, a cantora Olívia Byington.

“Só pra você saber”, como um mantra, Eu Esqueci Você abre o álbum enumerando as vantagens de superar um amor do passado. Na sequência, a insensata Macaé (e se eu mostrar o cianureto que eu comprei pra gente se matar/você manda me prender no amanhecer?) e Monomania (se juntar cada verso meu e comparar/vai dar pra ver/ tem mais você/que nota dó) elucidam a tal patologia do título. A minimalista Um Só talvez seja uma de suas letras mais inspiradas (o meu desespero/é que quando acaba/você fica inteiro/e eu fico o pó), juntamente com o filmete-dançante Fred Astaire (mas, cuidado/me deixa no canto da sala/que se eu tiver alguma fala/eu mudo pra “amo você”), que ganha também uma versão em inglês no encerramento do álbum. A divertida Talvez (se eu não tivesse um troço/lá dentro da barriga/que eu sinto que está dançando a dança da garrafa) e Qualquer Negócio são sussurradas quase à capela – a última na companhia do violoncelo de Jaques Morelenbaum, que assume o instrumento em outras três faixas do disco.

A segunda metade de Monomania inicia com a balada De Todos os Loucos do Mundo – uma declaração à Duvivier – e fala do encontro de dois seres pra lá de criativos (de todos os loucos do mundo/eu quis você/ porque a sua loucura parece um pouco a minha). A etílica O Que Eu Bebi narra as mágoas amorosas que todos já tentamos afogar (o que eu bebi por você/dá pra encher um navio/e não teve barril/que me fez esquecer), enquanto A Gente Voltou oferece um clima circense à reconciliação do casal da canção (não entra na bad, Romeu/Julieta morreu/mas a gente voltou). O ponto alto do disco fica a cargo do dueto de Clarice com o capixaba SILVA (que também toca violino em algumas faixas) na valsinha Eu Me Lembro, com as impressões masculinas e femininas do primeiro encontro. A deliciosamente mórbida Oitavo Andar, uma de suas letras mais teatrais, (e aí, só nos dois no chão frio/de conchinha bem no meio fio/no asfalto riscados de giz/imagina que cena feliz) reforça toda sua veia literária, bem como a singela Capitão Gancho e sua listagem de coisas que fizeram Clarice ser quem é. Definitivamente, a graça da autora/obra é a simplicidade, doçura e frescor adolescente. Sua audição provoca aquela sensação de riso bobo nos lábios: quando você se dá conta, já está totalmente arrebatado.

 

 

 

 

(Larissa Mendes, falco-monomaníaca)

 

 

 

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79ª Leva - 05/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Demetrios Galvão

 

Desenho: Bárbara Damas

 

alguém comeu minhas mortes

 

minha boca suja de sono no teu sonho sujo desata novelos e subtrai gengivas: gosto de deserto em prato de cerâmica, língua escorregando pela geometria defasada. arapuca armada: impossível resistir ao ato de se abismar. a janela cega revela nódoas, sequelas atrás dos tijolos. o silêncio costurado com barbante faz lembrar que as raízes cortadas fazem falta: – onde furtaram meu quase nada há um incêndio infinito e asas longe do tronco.

 

 

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no quintal de nossos umbigos

 

o teu riso desata um solstício – ( suprimimos os travessões, os dois pontos, as vírgulas, atropelamos a semântica com beijos salgados. retiramos do relento os balões desgarrados, retiramos também do guarda-roupa os sonhos velhos e os refizemos para o uso diário. nos encontramos quando erramos os caminhos, quando na interseção dos itinerários brincamos de nos perder e de nos achar e de trocar de pele.) – a cada gesto… um poema de amor, um samba, uma brincadeira no quintal de nossos umbigos.

 

 

 

 ***

 

 

 perdi muito mais que uma orelha

 

e tudo vaza pela ferida do pé: as árvores sorumbáticas, os peixes dopados de barbitúrico em mazeladas coreografias. a paisagem cabe em garrafas, enfio os fantasmas em um cordão e os penduro no pescoço. os dentes estão sujos, o corpo livre, os ossos antes oxidados sentem a velocidade retomar seu lugar, os espinhos nascem fortes novamente, devo a alguém o que me foi de vazio. o telefone está mudo e o colchão acolhedor em sua extensão longitudinal, província dos sonhos que arrebenta o nervo dos álbuns de fotografias, capitania tremembé guardada na memória das pedras. – e tudo vaza pela ferida do pé.

 

 

***

 

 

a espinha de março

 

i
a espinha de março atravessa a garganta do abismo.
um relâmpago indigente cai no deserto de presságios
perpendicular às asas verdes inoxidáveis que me pertenciam.

mordida pela nevralgia do cão andaluz
a menina conseguiu apanhar a mão no vazio da rua,
………………………………………………….antes que as formigas
………………………………………..chegassem.
quando no entardecer chovia no sol-laranja
os últimos demônios que ainda esperneavam se iam,
deslizando lentamente pelo orifício do horizonte
acompanhando o movimento do astro sumindo.

 

 

ii

21 gramas é o peso da alma dentro da anatomia rígida do caroço,
…………………………………….do hermetismo flácido da certeza
……………………………………..quando os pássaros caem feito folhas
……………………………………………..no chão abjeto,
……………………………………………..um quase-som do violinista verde.

 

impossível saber que código contém aqueles rostos:
………………………………………..quase poço sem fundo.
………………………………………..não importa.
fazendo a barba dos olhos com navalha
eu deixava a assonância dos acordes criar sons de cor,
……………………………………..jardins sinestésicos
………………………………………pra alimentar camaleões.

 

iii
março passa a conta-gotas em pingos diacrônicos,
um gole no líquido baldio da xícara
e um gosto suave insiste em permanecer,
………………………………imitando os dias teimosos.

as alpercatas do tempo acariciam degraus,
………………………a tangente dos cílios,
……………..o astigmatismo do olho d’água:
a diáspora das figuras-carcomidas que moravam nos armários,
……………………………………………………………gavetas,
…………………………………………….estantes da lembrança.

 

iv
– os insetos digerem o mundo na sua enzimática-paciência-atemporal,
tal como as ostras em seu silêncio-de-calcário-inacessível
guardam os pecados do mar num cofre impermeável.

 

(Demetrios Galvão é Historiador e poeta. Nasceu em Teresina-PI, cidade onde reside. Publicou os livros Cavalo de Tróia (2001), Fractais Semióticos (FUNDAC/PI, 2005), Insólito (ed. Corsário, 2011) e o cd Um Pandemônio Léxico no Arquipélago Parabólico (2005). Foi membro do coletivo poético Academia Onírica e um dos editores do blog Poesia Tarja Preta (2010-2012) e da AO-Revista (2011), além de ter participado da produção do cd Veículo q.s.p – Quantidade Suficiente Para (2010). Atualmente edita a revista Acrobata)

 

 

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79ª Leva - 05/2013 Galeria

Desenho: Bárbara Damas

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Desenho: Bárbara Damas

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