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78ª Leva - 04/2013 Galeria

Foto: Rosa De Luca

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77ª Leva - 03/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Ilustração: Thaís Arcangelo

 

Em que medida a porção do sonho funda a matéria de que somos feitos? Onde o vigor da abstração quando necessitamos de um mergulho mais profundo rumo a nós mesmos? Refletir sobre o quanto estamos enraizados pelas nossas questões mais delicadas é algo desafiador ao ser humano. As motivações para se trilhar a jornada são intermináveis e, por isso, continuar é imperativo. Nesse trajeto, as revelações nem sempre são as melhores. Seja no confronto com a dor ou a beleza, o ato de criar teima em procurar abrigo de modo, algumas vezes, desavisado. A arte, enquanto instrumento de transformação, registra as marcas de nossa passagem pelo mundo. É como se houvesse uma necessidade curiosa de também fazer ecoar aquilo que guardamos a sete chaves. Inquietação, espanto, busca, vaidade, regozijo, melancolia e efusão aparecem como alguns dos mais prováveis ingredientes duma humana mistura guiada ora por lucidez, ora pela mais crônica cegueira. E isso apenas explica em parte certos propósitos da criação. O interessante mesmo é quando somos levados pela fluidez sugerida pelas mais diferentes mentes, cada uma delas compondo uma ordenação própria e feita de lugares que frequentemente relutamos em visitar. Assim, saborear tais caminhos é um se deixar levar, permitindo que o efeito duma provocação se faça cativo. A cada um é dado saber o quanto o chamado importa num processo que traz à tona espelhamentos ou negações. Imbuídos um pouco desse espírito, perfazemos 77 edições com a revista. Em meio a nossa trajetória, nos acostumamos a tatear as paredes do indizível, embora entre palavras e imagens possam aparentemente brotar significados que se explicam pela força que lhes é peculiar. É muito pouco tentar definir, por exemplo, o que se encerra nas epifanias contidas na arte de gente como Thaís Arcangelo, nossa expositora da vez. Nela, lidamos com o momento de harmonizar realidade e fantasia, o vivido e o inventado, tudo exalando uma aura de delicadeza a partir do prisma especialmente feminino. Também é tempo de acolhermos as investidas dos poetas Jorge de Souza Araújo, Ana Pérola, Alberto Boco, Raquel Gaio e Nestor Lampros. Compondo as janelas poéticas, a escritora Viviane de Santana Paulo traduz alguns poemas do autor alemão Dirk von Petersdorff.  A partir de um conto de Myriam Campello, o escritor Héber Sales reflete sobre alguns caminhos da criação. Larissa Mendes percorre duas frentes: o filme “Hitchcock” e o disco de estreia do cantor e compositor capixaba SILVA. Falando sobre literatura e de toda uma especial relação com os livros, o escritor e editor Eduardo Lacerda é o entrevistado da vez. Há, ainda, a presença marcante das imagens contidas nos contos de Sérgio Tavares, Maria Lindgren e Pedro Reis. Um novo coletivo de expressões está em rota, caro leitor. Boas incursões!

 

 

Os Leveiros

 

 

 

 

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77ª Leva - 03/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Raquel Gaio

 

Ilustração: Thaís Arcangelo

 

 

um desconhecido que me fala ao pé da noite,
possui entre os dentes
a calmaria de um rio.
em meus sonhos agudos,
sorve como um ventre
os esqueletos decadentes
e translúcidos de minha confissão.
(visões de um deserto que ninguém pressente)
esse sonho
transe alucinatório e místico
onde perco a dormência e o verbo,
nos inventa sem falta
sem desonra.

alegria cobiçada por Deus.

salto com violinos à beira-mar.

a fala desse desconhecido
se debruça sobre meu piano mudo,
e a cada nota costurada à goela,
desmancha qualquer pudor
qualquer lábio e cabelo
sem desastre
e escuridão.

reflexos da manhã

tudo nele é nada
gema de destroços
espinha de peixe
vastidão.

através de sua música onírica,
decomponho-me surrealisticamente.

/porque há um estrangeiro que me habita todas as noites
como uma avenca em perpétuas ilusões/

 

 

***

 

 

costurar na minha virilha
nosso enlace.
apertá-lo com as pernas nas noites
prenhas e insones.
(encontro frutífero de terrenos baldios-
benção de um deus que não reza.)

 

 

***

 

 

perpetuar  homicídios
abater  andorinhas
e retirar de cada mamilo o pouso.
as feridas continuam a se mover em círculos, você não vê?
o adorno dos corpos diz o destino
diz a escama escura e perpétua?
uma matilha de cães te ensaboando as vísceras
e no meio da guerra  compartilhando a romã da madrugada.

um explícito exu encosta em meu hálito,
e fecundo o chão grávido de nada.
(o chão me exige uma paternidade que não posso dar)

desejos de fim de ano
derramando o café
substituindo a borra pela combustão.

/eu tenho um relâmpago nas mãos e uma fratura na boca/

estou vendendo o tempo que esse poema consumiu pra ser feito,
quanto você pagaria?

 

 

***

 

 

um poema me começa
e invade minha saudade inventada.
tenho um sonâmbulo amor
e as costelas lúcidas da madrugada.
– sei que isso já foi escrito em algum lugar-
sou plagiadora desde nascença.
imito paraísos e tonturas.
tenho correspondências não lidas
que ocupam toda a mesa de jantar.
– ando preferindo ser horizontal e mística.
encerro esperanças na vodka
e minha sede se derrama pela noite.
cem estilhaços me dão a mão,
e no verão,
tenho contrações
devido ao número excessivo de verbos.

qual a palavra/gesto que costura
um abcesso?

observações pertinentes a esse plágio:
não possuo óculos escuros
e  antes de sair de casa,
esqueço de tirar os soluços do bolso.

 

 

(Raquel Gaio nasceu na cidade do Rio de Janeiro, é atriz, poeta e performer. Cursa o último período da Faculdade de Letras da UFRJ. No ano de 2011, lançou o livro de poesias “O Exercício no Mundo” com Luis Alexandre Louzada e Denise Fraga. Foi publicada nas revistas Um Conto, Diversos Afins, Estrelas Vagabundas e Zebra, estas duas últimas da UFRJ. Suas performances, algumas delas, são derivadas de suas poesias como “Retina” e “poemas vermelhos”. Mantém o blog Sensação de Violeta, onde publica suas poesias e algumas imagens de seus trabalhos)

 

 

 

 

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77ª Leva - 03/2013 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Maria Lindgren

 

Ilustração: Thaís Arcangelo

 

Sol de outono em pleno verão

 

Amanheço e anoiteço com a mesma dor, todos os dias. Indefinida, parece que veio para ficar. É uma dor que qualificaria como insuportável, porque não explicada. No telefone, o doutor me recomenda um Paracetamol de quatro em quatro horas e observação.

Ah! Meu Deus! Como é difícil observar a própria dor. Primeiro, sigo os caminhos ditados pela configuração de meu corpo: começo pelo ponto mais alto: a cabeça. A dor nas têmporas, por acaso minha companheira de muitos e muitos séculos – tempo de minha vida na percepção de hoje – não aparece. O órgão responsável pelo resto todo está intacto e indolor, qual bola de futebol na prateleira, antes dos chutes. Nem os ossinhos do rosto, nem o maxilar me incomodam. Nem mesmo os lábios desprotegidos pela falta de batom. Ouvidos ouvem, olhos veem, nariz cheira, queixo se assenta na mão sem desvio. O pescoço, revelador  de tensões, sai ileso da inspeção, tanto na parte das rugas e papeiras, como na parte de trás. Tronco: tem que ser o tronco o responsável-mor do que sinto. Percorro os ombros pesados de pouca carga física, mas de muito problema, vou direto ao coração. Nada diverso do dia a dia do batecum compassado. Nem o sopro outrora acusado pelos auscultadores sensíveis. Parto para as costelas:  frágeis, mas inteiras,  até bonitinhas em seu paralelismo encurvado, que é como as vejo nas radiografias. Detenho-me nos  órgãos de comer e descomer: ultimamente, funcionam à perfeição, talvez pela marmita de remédios que engulo diariamente ou pelos pozinhos cor de poeira de deserto que a nutricionista me faz engolir, em lugar do feijão com arroz bendito. O local do xixi e das sensações sexuais….:  tudo comme il faut. Agora, faltam os membros. Os inferiores me atrapalham, sobretudo quando chego às extremidades, aos pés de pele fina e aos dedinhos, que me impedem de usar sapato fechado de salto alto e bico fino e me obrigam a ridículos saltinhos da última moda de jeune-filles en fleur. Retorno ao andar de cima, diante do espelho e constato os ombros levemente inclinados para a direita, por conta de escoliose caduca de velha. E uma vez ao espelho, sigo a olhar os braços e as mãos, sem grandes discrepâncias ou desilusões, um tanto gastos pelo tempo e ponto. Pulo para os joelhos e paro por instantes. Talvez lá encontre motivos para  a dor, como de hábito. Hoje não chiam nem fazem troc-troc os miseráveis, que atazanam as senhoras de setenta em diante. Estão santos e sanos como neném adormecido. As pernas, ou melhor, as coxas, encontro-as  musculosas, de muito exercício físico, mesmo assim, forradas da celulite a que me conformei. Nada de agudo, de diferente. Na pele, um ou outro sinal pretinho encabulado, sem importância, desses que jamais viram câncer de pele, umas poucas manchas brancas, provocadas pelas longas exposições ao sol que, uma vez instaladas, grudam para nunca mais sair, nem com os inúmeros cremes descobertos pelos cosmetólogos.

Viro de costas rápido até porque a visão não é inteira. Meio de lado, noto barriga e nádegas protuberantes:  desafiam a elegância tábua dos dias de hoje. Não gemem, entretanto. Costas ainda queimadas do sol de verão se recusam a me denunciar maus tratos. Vou desistir. Deixo a inspeção para a próxima ida ao médico generalista, uma das diversões das senhoras aposentadas de minha vizinhança, motivo para se colocar roupa mais caprichada e sair ao mundo exterior.

Decido ir à piscina azul de cada dia. Um friozinho de outono me faz crescer uns pontinhos de arrepio na pele dos braços, apesar do roupão preto e atoalhado. Continuo a passo de soldado, chego ao pleno ar livre, fonte de inspiração em todos os sentidos da palavra. Nem percebo a meia-luz do dia. Deito-me na espreguiçadeira, protegida por sundown 30 não sei para quê, ajeito a aba do boné de forma a não manchar a pele do rosto, imaculado pelo último tratamento facial.

Sinto-me pronta. Olho detidamente para a nesga de céu, doado pelos engenheiros de meu prédio. Flagro um solzinho friorento em luta vã  para furar a gigantesca nuvem cinza chumbo advinda da Gávea, sempre da Gávea. Não consigo me aquecer. Pingos de chuva iniciam seu itinerário de molhar minha toalha, meu corpo, meus cabelos, o chão. E enrugar a piscina.

Tenho que voltar para dentro de minha dor.

 

 

(Maria Lindgren é professora aposentada com Mestrado em Educação (PUC-RJ). São de sua autoria os livros “Uma Rolha na Lágrima” (2004 – Editora Mondrian/RJ) e “Habitantes de mim” (2008 – Editora MEMVAMEM/RJ). Tem textos publicados em sites e revistas eletrônicas)

 

 

 

 

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77ª Leva - 03/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Alberto Boco

 

 

Ilustração: Thaís Arcangelo

 

 

Fotograma

 

Para Daniel Tubío

ni una sola hoja el árbol ese
contra el cielo espeso de julio

desafía la fuerza de la gravedad y la brisa
fuera del tiempo detenido el dibujo del árbol
en esa luz diciendo que para mirar
el ojo es nada más que un aparato

lo que ve y lo que mira
el capricho estocástico del día*
es otra cosa

 

* Contraluz, Thomas Pynchon, P.943

 

 

***

 

 

La fuerza de la ilusión

 

…sospechar que tal vez todo
no sea sino páramo como luz
de casualidad puede crecer algo
(puede que flor u otra cosa)
hasta que la cosa muere y al tiempo
aparece lo igual y lo distinto
y el evocar de cada flor o lo que sea
lo real (si existiera) y lo imaginado
por todos los recuerdos
de cada uno y de todos
hacen la historieta del páramo
que se hizo a su vez otro cada día
sin saber primero
como sospecha después
acaso por querer conocer
y siempre la duda en el final
ahí donde se oye cuando
suena más fuerte la risa
que cualquiera voluntad.

Así también se ama, dicen algunos.

 

 

***

 

 

Oniricón

 

Para Alfredo

mientras el sueño  visita las tardes
donde todavía el calor no hizo su estrago
en espera de la sombra que trae cuando se retira
el sol como si fuera vaya uno a saber qué
decimos y se desviste o desvive por ahí…
no
en este borde no hay modo de saber qué
va a suceder entre todas las cosas
que los dados del sueño fabrican
(…el azar..la rareza..)
soñamos como los niños que miran
las cosas que se preservan
cuando cierta música los arrasa
… sabemos bien que más allá
de toda reflexión somos aquí los garantes
del sueño de la ferocidad
y la ternura de las cosas de la vigilia
en que las cosas pasan porque
pasan las cosas que  hacemos que pasen
sin descanso ni pensar al pasar
en cada paso dado del nosotros
nosotros responsables del sabor
el ruido y el perfume de las comidas
que comemos e imaginamos y el olor
de las pieles que dan testimonio
como una forma de respuesta con alegría
sobre la luz de las  calles donde todas
todas estas palabras están de más.

***

 

 

Pylon*

 

Para Ida

 

imaginar los postes y el plano vacío el giro
la figura que repite y se repite hasta la duda
perro en suspenso del que busca
sabe y descubre que no son los postes
más que la pobre ilusión del punto fijo
no hay más que órbita y vacío
mirada y pulso sueltos en la última curva
y dejar el dibujo
con breve bamboleo de las alas
volar al abierto en propia luz y sombra
propios el vacío y el plano
los recuerdos
el olvido …eso sí…
el olvido

 

 

* Pylon é o título de uma novela de Willian Faulkner, de 1935. Narra a história de pilotos que realizam competições de acrobacias aéreas. Também se denominam “pylon” os pontos de referência que indicam o circuito através do qual os pilotos devem percorrer. Chama-se “giro em pylon”, a manobra típica de uma aeronave ao redor de um ponto fixo, denominação oriunda do tipo de acrobacia realizada pelos competidores.

 

 

***

 

 

Estar callado y saber

 

Todas las cosas acontecen en nosotros mucho antes de que sucedan
Novalis (Georg Friedrich Philipp Freiherr von Hardenberg)

 

…a veces aquello que parece que no sirve crece
cuando lo apartamos
y a pesar de la ternura y el dolor de la pena
cuando se descarta
(¿cuánto hay que cuidarse del odio y el amor a la ternura?
¿tanto como de la ternura vana, de la ternura misma?)
lo que parece que no sirve permanece en una zona
de la espera como en un cuarto desconocido de la casa vieja
uno de los rincones del tiempo que olvidado supo
resguardarse de la sabia demolición de la memoria
y espera callado que un verbo
vaya y lo rescate como decir callar
en vez de amar y callar
en vez de amar callar temer no estar
como un (¿inútil?) morir anticipado

lo que sabe dentro de nosotros
bien podría ser un color de lo que siente
una nota muda en la música
del silencio nuestro
y de nuestro valor.

 

 

(O poeta Alberto Boco nasceu em Buenos Aires. São de sua autoria os livros de poemas “Arcas o pequeñas señales” (1986), Ausentes con aviso (1997), “Riachuelo” (2008), “Malena” (2012), dentre outros. Por sua obra, recebeu prêmios e menções na Argentina. Em 2007, coordenou o Café Literário “Mirá lo que quedó”, junto com Alicia Grinbank, Alfredo Palacio e Rolando Revagliatti. Publicou poemas e artigos em revistas literárias impressas da Argentina e do exterior. Prepara o livro de poemas “Evanescentes, In Propios Y Pequeño”)

 

 

 

 

 

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77ª Leva - 03/2013 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

O Exercício da Musa

Por Héber Sales

 

Ilustração: Thaís Arcangelo

 

Regrinha básica para uma boa leitura de ficção ou de poesia, que até alguns críticos profissionais ignoram às vezes – falta-lhes generosidade, um pouco mais de atenção, de paciência, de humildade? O que, numa leitura superficial e apressada, pode parecer um movimento errado, grotesco ou mal coreografado, talvez seja na verdade um belo golpe de imaginação, tramado para produzir um efeito de sentido necessário, inevitável até, se considerarmos a obra em seus próprios termos e propósitos – um golpe sem o qual o texto literário não vence a desconfiança e a indiferença do leitor.

Acabei de pensar nisso ao reler O Olho, conto de Myriam Campello, que um dia me desagradou por uma ou outra metáfora mais tosca. Como poderia ser diferente, porém, se o narrador, logo no primeiro parágrafo, avisa-nos: “Não sou escritor, isso vê-se. […] Se deito ao papel notícias do vendaval que no último mês desmantelou minha vida é por justamente sentir-me em pedaços”?

É natural que um sujeito desses, poeta amador e casual, apele para imagens banais e cafonas do tipo: “Se só entre nós permitimos que a espuma do amor flua e se derrame?”. Como também é muito verossímil e ficcional que em outros trechos, arrebatado pelos acontecimentos excepcionais da narrativa, lhe ocorram observações mais agudas, bem arrematadas e poéticas. Acontece quando ele se refere, por exemplo, a “um bom dia reservado que marca limites”, ou ao comentar um desejo muito intenso e proibido, descrevendo-o como uma “avalanche que se nutre do próprio excesso para melhor derrubar e engolir”.

Está claro para mim agora, claríssimo: o fato de haver algumas metáforas mais preciosas do que outras nessa história nada tem a ver com a qualidade da autora e da sua prosa; é uma exigência do mundo ficcional do conto O Olho, um mundo animado pelo espanto de um narrador literariamente mal equipado para retratar uma experiência extraordinária.

O valor estético dessa irregularidade poética seria flagrante para o hermenêuta profissional, um perito em prestidigitação literária, muito capaz de fazer ver o todo nas partes ao mesmo tempo em que mostra as partes no todo, aproximando os dois planos até que eles se confundam, do mesmo jeito que a gente consegue fazer com o céu e o mar num dia bem azul, muito liso e manso.

Apesar de todo o meu respeito para com tal ciência interpretativa, que não é pouco, eu não havia pensado nela até o último parágrafo, confesso. Tentava apenas adivinhar o movimento de imaginação que fez Myriam Campello por o protagonista a misturar poesia com clichês. Se a manobra ressuscitou ou não a musa de O Olho, eu não sei, e, para ser bem sincero, nem me interessa saber, pois o que eu queria mesmo era dar um pouco mais de exercício à minha.

 

(Héber Sales, administrador, publicitário, escreve. Tem poemas, crônicas, ensaios e entrevistas publicados na revista Germina, Portal Cronópios, Digestivo Cultural, Portal Literal, Mallarmargens e nestes Diversos Afins)