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75ª Leva - 01/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Jorge Vicente

 

Desenho: Luiza Maciel Nogueira

 

 

sei que as mãos se mantêm
no mesmo lugar subliminar,
adiante das palavras e mais perto
do poema que gira

sei que há uma árvore
e que existem troncos que dizem da
árvore [dizer é caminhar incólume
entre os versos]

sei que há palavras,
mas não digo delas
senão para decifrar
que tudo o que escreve morre cedo.

 

 

***

 

 

a língua lembra e purifica. mas não diz dos orgasmos, da pequena sombra plantada junto à árvore branca. não diz do corpo quando se toma de decadência e horror ao esplendor. não diz dos silêncios que não são silêncios. [debaixo da raíz, apenas fico eu e um enorme deserto vermelho]. a língua não diz da semente e da grande voz que alcança. do inverno, da ânsia das flores, do pecado que aberto é à vida e ao desarranjo dos olhos. a língua não pode suportar pernas, braços, sexo, liberdade de sentir e entregar-se ao chão. a língua abre-se e encolhe, escolhe as vontades, escolhe as sílabas certas, o modo único de dizer o nomeado.

o inominado tem um pecado único: não suporta a fala e diz que o poema é uma cobra gigante, plantada na base do sexo. o resto são as pernas e o que fica entregue no acto da raíz.

 

 

***

 

 

poderás ter a experiência da carne,
mas apenas tens o chamamento da
palavra viva,

aquela que, de artéria em artéria,
vai construíndo o ramal das sílabas:
ordem geométrica do sangue.

a experiência chama
e o oceano transforma,
trazendo o poema de volta
à sua raiz de árvores:

ao cimo do vento
e abaixo da copa dos dedos.

 

 

***

 

 

destrói o poema
aniquila toda e qualquer possibilidade
do livro transpirar palavras

o poema não foi feito
para a estante desarrumada,
para os limites que as páginas impõem
à memória

constrói uma nova realidade,
em que as coisas sejam apenas coisas,
em que as palavras não representem,
nem tenham significados nem conceitos

explora do corpo o seu devir
explora da vivência a tua memória
e do saber oceânico da pele

o teu antro de sílabas.

 

 

(Jorge Vicente nasceu em 1974, em Lisboa, e desde cedo se interessou por poesia. Mestrando em Ciências Documentais e em processo de formação na Escola de Biodanza de Portugal, tem poemas publicados em diversas antologias literárias e revistas. Participa activamente nas listas de discussão Encontro de Escritas, Amante das Leituras e CantOrfeu. O seu primeiro livro de poesia, Ascensão do Fogo, foi publicado em 2008, sendo seguido por Hierofania dos Dedos, editado sob a chancela da Temas Originais, em 2009)

 

 

 

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75ª Leva - 01/2013 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Bolívar Landi

 

Django Livre (Django Unchained). EUA. 2013.

 

 

Django Livre (Django Unchained), a mais nova incursão cinematográfica do diretor Quentin Tarantino faz uma homenagem ao filmes Western spaghetti italianos, muito famosos nas décadas de 60 e 70. Além do nome do personagem principal e da música tema, contudo, a obra não apresenta muito em comum com o filme homônimo dirigido em 1966 por Sergio Corbucci e estrelado por Franco Nero (que faz uma participação especial na trama). O Django original passa todo o filme arrastando um misterioso caixão movido pela necessidade de vingar o assassinato de sua mulher. Em sua versão, Tarantino recria toda a história, mas preserva o instinto de vingança do protagonista, aliás tema recorrente em sua obra.

A película é ambientada no sul dos Estados Unidos, dois anos antes da Guerra Civil americana. A mácula da escravidão serve como pano de fundo ideal para a violência apresentada no filme, que, por mais extremada que possa nos parecer, será ainda menos cruel que a que realmente ocorreu. Jamie Foxx, vencedor do Oscar de melhor ator por “Ray”, personifica Django, um escravo liberto pelo arguto Dr. King Schultz, um caçador de recompensas, brilhantemente interpretado por Christoph Waltz, austríaco vencedor do prêmio de melhor ator em Cannes ao dar vida ao nazista Hans Landa de Bastardos Inglórios. Os dois irão formar uma dupla imbatível e partirão em um segundo momento da história em uma longa jornada para procura e resgate da esposa do herói. O filme conta ainda com nomes de peso no elenco, como Leonardo DiCaprio, no papel de um latifundiário escravagista, e de Samuel Lee Jackson, quase irreconhecível, encarnando extraordinariamente o velho lacaio negro de DiCaprio, racista e totalmente insensível às agruras sofridas por sua etnia.

Christoph Waltz e Jamie Foxx na pele dos protagonistas / Foto: divulgação

Esta versão Livre de Django traz todas as qualidades que consagraram o diretor e lhe conferem um estilo inconfundível, imitado por muitos seguidores. Uma direção ágil, movimentos de câmera não usuais e precisos, um texto afiado e irônico, a história que foge da linearidade comum e, óbvio,  sangue, muito sangue… Pulp Fiction – Tempos de Violência (1994), seu segundo longa, por exemplo, se tornou um marco para a sétima arte, introduzindo novos parâmetros que influenciam até hoje a linguagem do cinema.

Assim como em outras obras, Tarantino assina em Django Livre o roteiro original, extremamente inspirado e agraciado este ano com o Globo de Ouro. A trilha sonora, escolhida a dedo pelo próprio diretor, “para variar”, é uma preciosidade à parte e cai como uma luva ao filme. Temos a impressão que as cenas são construídas para se moldar a ela, tão grande é a sintonia. Há músicas clássicas do Western, além de algumas liberdades como James Brown, 2Pac, John Legend e o rapper Rick Ross. A obra concorre ao Oscar 2013 em 5 categorias: ator coadjuvante (Christoph Waltz), roteiro original, fotografia (deslumbrante), edição de som e melhor filme.

O filme foi alvo de inúmeras controvérsias. O diretor Spike Lee (ícone do cinema afro-americano) chegou a declarar que não assistiria ao filme por considerá-lo desrespeitoso à memória de seus ancestrais, outros o acusam de ser racista pelos termos depreciativos com que trata os negros. Polêmicas à parte, o Django de Tarantino se posiciona Livre, acima de qualquer convenção e purismo. Em muitas cenas, chega a ser mais eloquente contra os horrores da escravidão e da discriminação racial que muitos militantes extremistas que sobem ao púlpito para proferir discursos vazios.

Quentin Tarantino brinda mais uma vez seus admiradores com uma obra instigante, cheia de reviravoltas e diálogos sedutores que encantam e prendem o espectador em suas quase 3 horas de exibição. Confesso que fiquei meio com pena de Spike Lee por perder este grande filme.

 

 

(Bolívar Landi é formado em Comunicação Social e História, permanentemente encantado com a capacidade do cinema de reunir em um só espaço múltiplas linguagens e expor confidencialmente as minúcias da alma humana)

 

 

 

 

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75ª Leva - 01/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Alexandra Vieira de Almeida

Desenho: Luiza Maciel Nogueira

 

 

O pescador e o mar

 

Os murmúrios das ondas martelam
molhando os lençóis amarelados
de areias mescladas em branco e preto

Vaga a grande asa do barco no ar
e o céu escurece as ondas do mar
indo o rastro do mastro diluir-se

Moroso o pescador move o leme
sem medo do vento ventando alto
busca o consolo do leito límpido

E ruidosas as águas o bebem
sorvendo o seu sossego no mar.

 

 

***

 

 

Deserto

 

Canibalismo no deserto, aridez dos astros. Não há mágoa numa névoa. Somente a faca é minha carne. O desejo se escondeu num olhar amargurado. Facas e garfos não são sensações. O astro cresce à minha volta. Não é possível contornar a outra margem, o deserto é meu silêncio. A névoa cai nos meus braços, sustento-a até a capacidade do meu olhar. Olhar de deserto, não espero estações. Na virada das poeiras que oscilam ao vento quente do deserto, pássaros se comem antropofagicamente. Formigas, maçãs, garfos, facas na sua ordenação neblinam minha face. Face neutra na passagem da névoa. Névoa paira, cai, se esbarra nos ventos da minha passagem pelo deserto, anímico, auditivo, mais do que a minha vida.

 

 

***

 

 

Confusão

 

Deus habita o castelo de meu devaneio noturno
Abnego a abulia de um ser inconsequente
A alavanca contorce pêssegos na estrada da razão
Não sonhe com anjos e demônios em contenda
O camundongo toca a campainha da loucura
Casta, a moça fia a rede de uma agonia
Angústia de uma cômoda sobre o solo vazio
Concerto de uma concha no ouvido de um menino
Eclode a doçura de uma vértebra quebrada
Não há paixão numa corda esticada por Deus
Infecta, a pele queima ilusões de monstros
Madrigal eterno ecoa no cérebro de um vegetal
Opulenta manobra de um orangotango no escuro
A poeira sacode as núpcias de um casal
Preta é a cor de sua urina, carvão soturno
Uma prisão de um feto na coxa de um deus pagão
Ferramenta de um escriba é um feixe de seu cabelo
Não deixe a memória esvaziar a sua solidão
Devoto, um peixe apanha sua isca
Retrato de uma cova na abertura de seu crânio
O coveiro joga a pá num mar de serpentes
Cisne deixa o castigo inverter sua cicatrização
Cego, o homem censura a postura de sua demência
Doure um pedaço de carne podre com o sol de seu saber
Confusa, a mente não escolhe a esfera de um poder.

 

 

(Alexandra Vieira de Almeida nasceu no Rio de Janeiro. É agente de leitura, tutora de ensino superior, poeta, contista, cronista, ensaísta. Publicou o livro de crítica literária Literatura, mito e identidade nacional, pela Ômega Editora, em 2008. Tem vários ensaios literários publicados em revistas acadêmicas e livros. Participou da Antologia Scortecci de Poesias, Contos e Crônicas, em 2011. Tem dois livros de poesia publicados pela editora Multifoco: “40 poemas” e “Painel” (2011))


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75ª Leva - 01/2013 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Eleonora Marino Duarte

 

 

Desenho: Luiza Maciel Nogueira

 

 

O Guardião

 

Habitava um ódio sem limites e um rancor de dar veneno ao ar, não havia quem lhe sensibilizasse além do desprezo, era de fel a saliva que expelia para manchar a calçada, na desova diária de seu cuspe. Aliás, tinha um prazer enorme ao imaginar alguma mulher, das que nunca lhe olharia a cara, pisar seu cuspe e levar a sentença de sua escarrada para a casa.

Trabalhava bem em frente a um irritante chafariz, uma grande farmácia e um lugar de servir café. Não gostava de lugar nenhum, gostava mesmo era do ponto de bicho, no beco, onde apostava na sorte de ter alguma sorte para poder se livrar de viver junto aos miseráveis.

Conhecia o ser humano de dentro para fora, de trás para frente, acreditava e assim gostava de dizer quando lhe censuravam os mais chocados pelos seus comentários. Não tinha nada que lhe convencesse da possibilidade de existir gente que prestasse. Chegava mais cedo ao trabalho só para poder ver o movimento de pedestres apressados e ir fazendo as histórias daquelas vidas sujas em sua cabeça. Os que passavam todos os dias eram vítimas de crueldades no julgamento, sem nenhum pudor ou trégua, fosse adulto ou uma simples criança choramingando. Todos eram, no fundo, no fundo, gentinha.

Em um dia inesperado, depois de já haver visto todo o tipo de gente ruim, apareceu o pior ser humano de que ele já teve notícias: Francisca Martins! Dona de um andar glorioso em sensualidade inocente, deixava claro o grande desprezo que ela tinha pelos outros, ao levar os quadris de uma lado a outro, como um pêndulo que faz hipnotizar quem para ele olhou por mais de uns segundos… Vestia-se de roupas humildes para disfarçar alguma coisa, com toda a certeza! Dizem que era solteira e que jamais fora envolvida em nenhum tipo de escândalo ou comportamento mais ousado, quando trabalhou no bairro vizinho. Mas ele, com sua habilidade incomparável para detectar porcaria, percebeu na primeira hora que se tratava de uma farsa! Decidiu que iria dedicar algumas de suas análises mais profundas a ela, a tal Chiquinha…

Ia juntando os fatos à medida que convivia na mesma atmosfera que a moça. Os porteiros dos outros prédios diziam que se tratava de uma moça bonita vinda do Norte e chegaram a demonstrar certa queda pelo sorriso brejeiro na fala arrastada da mulherzinha. Ele não! Manteve-se digno de seus princípios e castigava-a com a língua, sempre que havia oportunidade.

Trabalhava há 25 anos no mesmo edifício e jamais havia sido atingido por uma energia tão maléfica quanto a da moça. Propositalmente, ela adquirira o hábito de ser gentil com toda a população do quarteirão, as velhas beatas achavam que ela era abençoada, os homens a queriam proteger, as crianças sorriam frouxo ao seu toque. Se continuasse assim, em breve ela acabaria levando para a lama a rua inteira… Pensava ele.

Desde cedo ele decidira não se casar, era uma grande bobagem o casamento, jamais dormiria tranquilo ao lado de alguém que poderia queimar-lhe com água fervente ou cortar-lhe o sexo com uma tesoura. Ele sabia do que as mulheres eram capazes, ouvia com atenção a conversa das empregadinhas, sabia das mandingas e pragas que elas distribuíam quando contrariadas. Entretanto, inexplicavelmente, a cobra maldita, Francisca Martins, lhe perturbava o sono com aquele encantamento do maligno, aquele véu de bondade, aquela promessa de prazer, aquilo tudo que faz parte da caixa de truques do maldito, o sibilar da serpente com o qual devemos sempre nos preocupar quando lutamos contra as forças do mal.

Foi em um dia de feriado que ele resolveu dar cabo ao tormento. Acordou um pouco antes do relógio, mas esperou pelo despertador. Detestava quebrar rotina. Barbeou-se e reparou novas marcas pelo rosto. Gostava das rugas. Combinara com um amigo que, se alguém perguntasse, para todos os efeitos, estaria com ele durante aquela manhã.

Morava Francisca em uma espécie de pensão para moças, assim como fazem as prostitutas, obviamente. Não era muito difícil conseguir entrar pela porta da frente, principalmente para alguém com as habilidades de porteiro. Subiu as escadas estreitas e fedorentas do cortiço, deparou-se com uma senhora sem importância. Não tardou a achar a porta da devassa, havia nela uma foto de padre Cícero, uma clara afronta ao padroeiro. Bateu devagar e a moça abriu. Nos olhos de Francisca um evidente espanto por ver aquele homem ali, parado. Para ele, uma inexplicável inércia diante dos olhos da moça. De repente ela sorriu e foi como se o diabo cavasse um abismo em seu peito. A comoção que o gesto lhe causou transformou o dia em noite, a vida em morte, o sangue em gelo. Saiu correndo imensidão afora.

Não tornou a ser visto no trabalho, nem em casa, nem no beco do bicho. Dizem que virou uma espécie de profeta mendigo no centro da cidade, que canta salmos em uma língua estranha e alerta as pessoas sobre a doçura do demônio.

(Eleonora Marino Duarte mora no arquipélago dos Açores, em Portugal. Nasceu na cidade Serrana de Petrópolis, Estado do Rio de Janeiro. Aos 12 anos, mudou-se para a Ilha do Governador e no mesmo ano ingressou como atriz no mais antigo grupo de teatro em atividade da cidade do Rio de Janeiro, o G.A.T.I.G., fazendo parte da companhia por vinte anos. Formou-se em Alta Gastronomia pela UNIRIO. Em 2005, criou o pseudónimo Betina Moraes. Publica seu trabalho como escritora na Internet mantendo o Blog Versos & Ideias e mais outros sete de sua autoria. Participa do Blog coletivo Falsidade Ideológica)

 

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75ª Leva - 01/2013 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

ORQUESTRA IMPERIAL – FAZENDO AS PAZES COM O SWING

 

 

Se no começo da década passada Los Hermanos e seu Bloco do Eu Sozinho indagavam Cadê Teu Suín-?, quase num poema concretista, 11 anos depois a Orquestra Imperial – coletivo de músicos nada solitários radicados no Rio de Janeiro – parece responder: aqui está! Lançado em outubro pela Universal, Fazendo As Pazes Com O Swing celebra os 10 anos da big band e é dedicado a Nelson Jacobina, integrante do grupo desde sua fundação, morto em decorrência de um câncer poucos meses antes do disco ser finalizado. Não por acaso, uma espécie de Jacobina-Frehley verde-amarelo – que apesar da enfermidade participou ativamente como compositor, instrumentista e/ou arranjador em todas as faixas – estampa a capa do disco numa tônica da sempre aflorada brasilidade e irreverência da banda.

Formada pela vanguarda da cena musical atual e composta por mais de 20 nomes – entre eles, Wilson das Neves, Domenico Lancellotti, Moreno Veloso, Rodrigo Amarante, Rubinho Jacobina, Kassin, Duani Martins, Thalma de Freitas e Nina Becker, para citar alguns – e com apresentações ao vivo repletas de convidados especiais do porte de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Jards Macalé, a Orquestra Imperial definia-se no início como um grupo de amigos dispostos a formar uma banda de gafieira descompromissada, que interpretasse boleros, marchinhas e clássicos de salão com novos arranjos. Dez anos se passaram e a definição foi atualizada (e sintetizada) para “jardim de infância para adultos”, tamanho o clima de alegria e diversão entre os integrantes, que fazem do grupo seu projeto paralelo-central.

Há muito tempo os bailes pré-carnavalescos da Orquestra Imperial movimentam os verões cariocas, desfilando em shows Brasil afora e em diversos festivais internacionais. Além de homenagear o eterno parceiro de Jorge Mautner, Fazendo As Pazes Com O Swing (batizado pelo bem-humorado percussionista Léo Monteiro, padrinho oficial dos dois álbuns) tem o compromisso de ser mais festivo e coeso que o estreante Carnaval Só Ano Que Vem (2007), quase unicamente composto por boleros e sambas-canções. Com produção de Berna Ceppas e Kassin, ambos componentes do coletivo, o álbum oscila entre bossa nova, samba, gafieira e demais ritmos latinos, com temáticas nostálgicas sobre o amor e os festejos de fevereiro. Salve às bodas [dançantes] de confete e serpentina.

Baile comemorativo 10 anos Orquestra Imperial / Foto: Caroline Bittencourt

Nina Becker introduz-nos ao álbum com a [des]aceleradora Moléculas e seu aglomerador de partículas eletrônicas e de percussão. Na sequência, a gafieira Tamancas do Cateretê, interpretada por Rubinho Jacobina, é uma boa prévia do tal swing que está por vir. Duani empresta sua voz e sua presença de palco à lá Tim Maia setentista (porém, sem os reclames) para, talvez, os melhores e mais carnavalescos momentos do disco: Cair na Folia e Velha Estória, esta última, composição de Domenico e Kassin. Completam o auge samba-no-pé, Aguenta Mais e a malandragem dos versos de Rubinho (pra viver na maciota dispensei o caviar/quando o santo não ajuda vou subindo devagar) e o sensacional pseudo-maxixe A Saudade É O Que Me Consola, onde Moreno Veloso e Wilson das Neves dividem os vocais. Thalma canta a doce Fala Chorando (ouço vozes que me dizem: nada tem explicação/pois mesmo a dor quer ser alegria), composição de Nelson Jacobina e Jorge Mautner, e a sexy Enquanto A Gente Namora, parceria com João Donato. Para os saudosistas dos barbudos, tem Rodrigo Amarante e a sua poética-temporal Pode Ser (que presente eu ganhei/se o futuro ficou pra trás/o quê o passado tem pra dar?).

A sequência final traz a literalmente adocicada Alcaçuz e seu eterno jogo do amor e da mágoa, mais uma dobradinha Jacobina/Mautner interpretada por Nina Becker, e o lamento lírico de Moreno em Ouvindo Vozes, no melhor estilo pierrô & colombina. O veterano Wilson das Neves e sua bela Apaixonado (a paixão dói um bocado/mas quem rasga cicatriza o corte) encerram com romantismo o segundo cd da banda. Possui ainda a instrumental Mocotó em Tijuana, do trompetista Altair Martins, que poderia ser uma perfeita vinheta introdutória com ares de filme de ação para o novo baile-show da Orquestra. Em suma, a verdade é que, apesar de ser um álbum de estúdio e de inéditas, as 13 faixas de Fazendo As Pazes Com O Swing parecem captar a energia contagiante que a banda possui ao vivo, em todas suas nuances, desde a urgência de um grito pré-carnavalesco, passando pela folia em si e pelos amores de quatro dias, até a melancolia de uma quarta-feira cinzenta. Quem disse que todo carnaval tem seu fim?

(Larissa Mendes é ouvinte-plebeia e faz mensalmente as pazes com as palavras escrevendo para a Diversos Afins)

 

 

 

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75ª Leva - 01/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Lílian Maial

 

Desenho: Luiza Maciel Nogueira

 

 

FONTE

 

em algum lugar
não cabe o todo
há muito mais de mim
em cada poro
ainda há o choro

o consolo
.
.
.
ignoro

 

 

***

 

 

DESENCANTAMENTO

 para Antônio Adriano de Medeiros

 

Primeiro é preciso encontrar a fome,
a necessidade. Porque todo poema é
alimento. Os versos são pão e vinho.
O poeta precisa aprender que o seu papel
não é colher a uva, mas se deixar embebedar.
Não é devorar a casca, o miolo,
mas aprender a semear o solo e o verbo.
Ser poeta é saber crescer na miséria
de carne, de pão, de uva.
É descobrir-se sedento e esfomeado
toda vez que um verso lhe ronda a face.
Um poema não sabe nada de Vida e de Morte:
ele é a magia, em si, que, se decifrada,
vira palavra no papel.

 

 

 

***

 

 

EU TENHO UM RIO

 

eu tenho um rio que brota de dentro
e traz à tona o que foi sedimentar

tenho margens estreitas, correnteza furiosa
sem escolhas, apenas desaguar

invado e erodo, aliso cascalhos
até escorregar no limo do verbo

eu tenho um rio que leva as paredes
que se erguem em meio ao lixão da poesia
e soterra a palavra viva

eu tenho um rio de inundadas faces
e chovo poemas de sangue

eu tenho um Rio de Janeiro no peito estiado
e expio a falta da lembrança do teu rosto

 

 

***

 

 

POEMA ESTÉTICO

 

Preciso urgentemente de um poema estético
eliminar a gordura localizada da palavra,
depilar o verbo e limpar a pele da poesia.

Necessito impreterivelmente de uma rima cirúrgica,
da assepsia do olhar sistólico,
laquear o peito lacerado.

Careço remover os resíduos de ossos triturados
na medula da saudade,
suturar a deiscência da canção.

Uma incisão limpa no músculo entremeado de versos,
cujas paredes bombeiam ausências.

Por fim, a cicatriz imóvel e cintilante
com o traço fino da pena.

 

 

(Lílian Maial é carioca, médica, escritora e poeta. Publicou, em 2000, “Enfim, renasci!”, com 135 poemas, e teve participação em dezenas de antologias, desde 1999. Coordenadora Regional no Rio de Janeiro para o MIP (Movimento Internacional Poetrix), teve poetrix publicados em “Antologias Poetrix”, de 2002, 2007, 2009 e 2010, além de ter organizado um e-book com poetrix de 10 participantes do MIP. Filiada à REBRA (Rede de Escritoras Brasileiras), participou de 04 antologias lançadas nas Bienais do Livro de São Paulo)



 

 

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75ª Leva - 01/2013 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

DA CARNE E SEUS SUBTERRÂNEOS

Por Fabrício Brandão

 

 

Para quem se embrenha pelo pantanoso terreno da criação literária, talvez não haja desafio maior do que adentrar as alamedas do erotismo. E não é simplesmente isso. O dilema que é posto aqui remonta à hercúlea tarefa de se transpor as muradas do óbvio e da gratuidade, construindo uma narrativa que se firme apartada de elaborações banais e, por assim dizer, descartáveis.

Se serve de consolo, há quem ainda consiga materializar em palavras impulsos valiosos numa literatura que se digne a decifrar certos esconderijos da carne. É quando um autor, utilizando-se de recursos cuidadosamente arquitetados, consegue efeitos que redimensionam a experiência de se estar vivo. Exemplo disso é o que acontece com Carnebruta (Ed. Apicuri/ Oito e Meio), livro de contos de Rodrigo Novaes de Almeida. Nele, o escritor, mais do que nos apresentar situações e cenários envoltos numa forte carga sexual, propõe um percurso por outros tantos becos do homem.

Conduzindo uma obra esculpida em carne e palavras, Rodrigo não nos conta boas novas nem tampouco atiça descobertas próprias do instinto humano. Se a cada um de nós é dada a faculdade de conhecer do próprio corpo um receptáculo portentoso do prazer, por outro lado, a mera representação de um desfrutar dos sentidos dá lugar a uma constatação de que o gozo maior se instala na crueza do ser.

Em Carnebruta, a pulsão sexual deixa de lado o simplismo da contemplação e canaliza suas forças para cruzar certos labirintos. E, assim, seu autor aposta em narrativas decididas, muitas vezes diretas, viscerais e ácidas, como se a intenção fosse golpear as percepções dos leitores mais desavisados. Não há espaço para devaneios, tampouco delírios baratos. Nesta viagem, somos convidados a perceber alguns aspectos que põem em xeque nossas vãs convicções, chacoalhando quaisquer enquadramentos que se pretendam moralistas.

Rodrigo é, antes de tudo, um provocador, tanto em seu modo de desarrumar os móveis da secular “casa dos costumes” quanto pelo fato de celebrar as pequenas epifanias da carne nossa de cada dia. Um jogo cênico vibra por entre seus contos, fazendo-nos crer que estamos diante de um livro de imagens. Numa aproximação com o cinema, os relatos desfilam arremates dignos de um bom curta-metragem. Seus personagens sabem tão pouco de suas imprecisas trajetórias como qualquer mortal que se preze.

Engana-se quem pensa que Rodrigo Novaes de Almeida, soando, alguns momentos, pornográfico, concentra seus esforços apenas numa frente. O percurso em Carnebruta visita todo tipo de paisagem, desde a mais cotidiana possível até aquela que é fruto de nossa projeção imaterial. Nesse ínterim, há espaço para uma curiosa nostalgia do futuro, marcada em passagens como as do conto inicial Valete-de-espadas. Nele, a “oportunidade única de uma segunda vida” contrasta com as inúmeras mortes que podemos experimentar quando nos achamos absolutamente vivos e respirando.

Com doses muito bem aplicadas de sarcasmo, algumas passagens do livro têm um arremate que lembra Nelson Rodrigues, sobretudo quando o assunto é a surpresa de certas revelações, encerradas no porão da consciência dos personagens. No confronto com o mundo de aparências ao qual estamos acostumados, Rodrigo posiciona o homem em toda a extensão de sua autofagia, traído que está pelos sentidos e pela miopia inerente à existência.

Carnebruta é um roteiro de percursos que retiram da vida seu véu sobejamente pudico. Demovendo excessos, seu autor forja os idiomas da pele e os converte em instrumentos hábeis das diversas e malfadadas travessias que fazemos. Mais do que desnudar a matéria que habitamos, é a alma quem aparece, arranhada e nada impune, a flutuar nas águas turvas do existir. Melhor assim, pois ao menos em parte estamos quites com nossos subterrâneos.

 

 

 

 

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75ª Leva - 01/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética VI

Alvaro Posselt

 

Desenho: Luiza Maciel Nogueira

 

 

Me enche de silêncio
O barulho da multidão

Me enche de barulho
O silêncio da solidão

 

 
***

 

 
Ouve
E aproveita
O silêncio do qual
A pessoa é feita

 

 

***

 

 

A gente nunca erra
Quando faz da paz
Nossa arma de guerra

 

 
***

 

 

Viver eu suponho
É montar a realidade
E chicotear o sonho

 

 

(Alvaro Posselt nasceu em Curitiba. É professor de português e revisor de texto. Participou de antologias de poetrix, haicai e miniconto. Já classificou haicais e miniconto em concursos. É colaborador do Jornal Memai – Letras e Artes Japonesas. “Tão breve quanto o agora” é seu primeiro livro. E-mail: alvaroposselt@yahoo.com.br)

 

 

 

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75ª Leva - 01/2013 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Natércia Pontes

 

Desenho: Luiza Maciel Nogueira

 

 

Sombra


No depósito do sr. B, uma sombra se recolhe todas as noites. Nenhum funcionário atinou com sua existência. O trabalho de estivador corre modorrento durante o dia — os homens cospem no chão — e, à noite, quando os portões são cerrados, a sombra surge dos cantos e se aninha entre os pacotes de lonas dos quais desconhece o conteúdo.

A sombra não fala a língua dos homens, mas tem dimensões dos homens e um andar elegante de cavalheiro. É tampouco fantasma. É sombra de ninguém. Este ninguém tem sentimentos e, todas as noites, antes de se aninhar nos pacotes encardidos, chora uma lágrima de poeira sem saber por quê.

A sombra é só e deita a cabeça no pacote duro. As treliças do depósito estalam, alguns morcegos gritam e a sombra soluça. Ela chora pouco até adormecer.

Quando um raio de sol entra por uma fresta do telhado e os passarinhos já estão piando em profusão, a sombra se dissolve em nódoa de parede, poeira, restos visguentos, antes que o primeiro estivador abra os portões do depósito do sr. B.

 

 

***

 

 

Alento

 

Expedito, está adiante. Na frente do teu nariz largo. Um Golias de gaze, um bolo de cabelo crespo amarfanhado na garganta. Engole e senta direito. A vida é assim. A vida é assim. A vida é assim. Olha lá para cima. Uma nuvem se forma. Parece que vai chover. Fechou as janelas? O prédio ainda está em construção. Invadimos os escombros como ratos. Às oito da manhã começa o teco-teco, a batucada no cucuruto. Uma hora ou outra os cavaleiros avançarão nossa sala, com suas lanças entesadas, faiscando. Nos daremos as mãos, nos curvaremos em reverência diante do engulho — coraçãozinho tremelicando de medo. A vida é assim. Senta, aceita minha mão no teu cabelo crespo. Olha para baixo, olha para trás. Para de respirar. Volta e escuta a chuva lá fora. Fecha o olho. Isso.

 

 

***

 

 

Agende sua visita com Medeiros

 

Medeiros está a seu dispor. Carcaças dos televisores de tubo solapam a porta da frente aos montes. Medeiros está bem, com saúde, são. Joga Sudoku, funga e estala o dedo do pé. O chato é que ninguém entra ali. Uma moça passa com o cachorrinho encoleirado. Uma senhora carrega com muito esforço um saco de verduras. O jardineiro ensimesmado do prédio ao lado pita um cigarro. Medeiros funga. Passou o caminhão do gás. Passou o carro de frutas. Passou um marmanjo montado na bicicleta. Passou uma vespa barulhenta. Medeiros estala a língua no céu da boca. Aterrissou uma maritaca. Uma papoula caiu. Um prospecto de mãe de santo voou. Medeiros desenha o número oito. Lá longe um orelhão grita.

Agende sua visita com Medeiros. Ele está a seu dispor.

 

 

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Rogo

 

O irmão dele acampou lá por uns tempos. O apartamento ficava colado no Minhocão, e os janelões da sala exibiam o vidro trincado — tentou remediar com fita crepe. A cozinha em pedaços: o ralo do esgoto emanava um cheiro ruim. No andar de cima, no único quarto onde se via um colchão, sem lençol e puído, uma vela acesa para Nossa Senhora de Lourdes, a padroeira dos enfermos.

 

 

(Natércia Pontes tem 32 anos, é cearense e mora em São Paulo. É autora de Az Mulerez (edição do autor), Copacabana dreams (Cosac Naify) e organizadora de Semana (Hedra))

 

 

 

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75ª Leva - 01/2013 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

A fotografia tem o condão de vislumbrar perspectivas que se agigantam cada vez que a subjetividade governa seus signos. O modo como um fotógrafo observa a vida e seus complexos fenômenos é especial quando se pode olhar tudo como se fosse a primeira vez. O real, atravessado pelos recursos advindos da alma humana, não é mais o mesmo. Muda sempre, como se estivéssemos mirando um caudaloso e intrépido rio. Assim, flagrar os instantes que nos agarram incessantemente e despertam nossa atenção passa a ser uma missão deveras intuitiva e sensível, mesmo considerando o necessário domínio técnico.

O que será que norteia o olhar frente ao universo de pontos de vista que está diante de nós? Talvez um alguém como a paulistana Mercedes Lorenzo saiba nos responder com a propriedade de quem percebe caminhos singulares por entre os dias. Dona de uma visão que associa poesia à imagem, Mercedes penetra nas sutilezas e retira delas a matéria que dá sentido ao seu ofício. Mesmo no registro da materialidade das coisas e seres, a fotógrafa consegue um resultado que vai além de uma noção concreta e acabada de tudo. Nela, um vigor abstrato e intimista é capaz de redimensionar o foco da criação, fazendo com que um novo impulso seja conferido à existência.

Formada em Desenho Publicitário e Fotografia pela Escola Panamericana de Artes (EPA – SP), Mercedes direciona suas ações para uma reflexão mais humanista das coisas, fato que a estimula a desenvolver novos trabalhos. Na entrevista que agora segue, a artista fala, dentre outros temas, dos motores de sua criação, da especial relação com a palavra e faz algumas reflexões sobre o papel da arte na contemporaneidade.

 

Mercedes Lorenzo / Foto: Rubens Guilherme Pesenti

 

DA –  Não há como passar por suas fotografias sem observar a forma como os espaços são captados. Disso, deriva uma escrita da luz que permeia o ambiente das intervenções humanas, de como divisamos ser e não-ser. Visivelmente habitados ou não, muitos de seus lugares possuem a marca vigorosa dos vestígios. Como lidar com isso na criação da imagem?

MERCEDES LORENZO – Há uma frase de Anais Nin, em meu blog, que resume fantasticamente esta questão: “não vemos as coisas como são, vemos as coisas como somos”. Isso pra mim implica que a criação fotográfica é uma conversa íntima entre o que é pré-existente no ambiente com o que necessita de via de expressão dentro da mente do fotógrafo. A partir desse diálogo mudo, das concordâncias e dissonâncias entre eles, vai se estabelecendo um ponto fino de equilíbrio e toda essa dinâmica acontece às vezes em questão de segundos. Mas sempre existe essa conversa íntima e ela determina o que será ignorado e o que será ‘focado’, usando metáforas da própria fotografia. É algo no qual não costumo prestar atenção consciente em relação ao processo em si. Por isso, talvez a dificuldade em te responder objetivamente. É intuitivo e orgânico para mim.

 

DA – Falando em caráter orgânico da fotografia, o que mais chama atenção é o menor nível de interferência possível por parte de quem faz os registros. Acredita que a poesia da imagem se inscreve no pacto silencioso entre o fotógrafo e o universo das coisas?

MERCEDES LORENZO – Sim, sua observação é pertinente. De fato, nos trabalhos fotográficos autorais/conceituais eu tento o mínimo de interferência possível, algo como uma busca da “legitimidade” da cena, embora isso seja ilusório: o olhar, o enquadramento, o foco ou qualquer outro elemento de escolha aleatória no ato de captar a imagem já é uma interferência, e ela se prolonga depois no tratamento da imagem em pós-produção. Não sou o tipo de fotógrafa “purista” nesse sentido, estou interessada justamente em transmitir uma linguagem poética. E quando penso em poesia, não penso necessariamente em coisas belas ou benfazejas. Esse pacto entre o meu olhar e o universo das coisas, como você diz, é uma espécie de transgressão ou licença poética. A não-interferência é quase que honrar a veracidade de algo que só eu estou vendo num determinado instante.

DA – Seus caminhos iniciais na arte apontam para um envolvimento com os desenhos. Você traz algum entendimento dessa fase para o olhar de fotógrafa? Diria que houve uma espécie de transição?

MERCEDES LORENZO – Desde pequena eu desenhava. Num determinado momento, na escola, percebi que desenhava um pouco melhor do que os colegas e então pratiquei com mais determinação. A princípio, copiando imagens que gostava e depois criando umas poucas. Mais tarde, nos anos 80, fiz o curso de Desenho Publicitário, especificamente pensando em aplicar aquele “dom” a algo que pudesse também me satisfazer profissionalmente. Trabalhei por alguns anos com desenho-animado comercial até me mudar de São Paulo para Santa Catarina, onde residi por 25 anos.

Nesse intervalo de tempo, tive outras atividades, trabalhei e estudei inúmeras coisas diferentes e me envolvi mais e mais com a linguagem, a palavra. Então, a transição não foi direta, embora eu tenha hoje consciência de que tendo a pensar sempre em termos visuais, quando penso em algo pela primeira vez. Isso é natural em mim, e provavelmente tem tudo a ver com a escolha da fotografia e o fato de me sentir tão à vontade nessa atividade.

Acredito, sim, que a facilidade do “entendimento espacial” das coisas, proporcionado pelo desenho, favoreça de algum modo o exercício da fotografia, bem como a dinâmica do mundo da publicidade seja um treinamento e tanto para determinados desafios da fotografia documental.

 

DA – Há também a Mercedes que se deixa envolver pelos enlaces poéticos, pela feitura de versos que sabem a delicados percursos existenciais. Em que medida a convergência entre palavra e imagem pontua sua trajetória?

MERCEDES LORENZO – O meu envolvimento com a poesia começou mesmo antes da fotografia profissional, e foi em parte incentivado por amigos que leram alguns escritos meus. Acredito que a palavra tomou destaque em minha vida também influenciada pelos meus estudos em Neurolinguística por volta dos anos 90. A poesia, a meu ver, é um imenso exercício de síntese desse mistério que chamamos Vida, com o pior e o melhor que ela possui. Essa síntese se vale da ferramenta “palavra”, assim como a fotografia é também uma outra forma de síntese que se vale da imagem. São signos que na minha vivência pessoal estão intimamente ligados e creio até que se confundem, na medida em que meus escritos carregam em si uma forte dose visual, e as fotos carregam em si uma dose igualmente grande de simbologia poética. De todo modo, não me considero poeta, apenas arrisco expressões escritas aqui e ali como parte da experiência de pensar o mundo.

Mercedes Lorenzo / Foto: Lais Simenikim

 

DA – Na sua opinião, qual o grande desafio da criação fotográfica frente às “facilidades” do mundo digital que nos atravessa? Não nos iludimos com uma revolução muito mais tecnológica do que inventiva?

MERCEDES LORENZO – Como disse anteriormente, não sou “purista” no sentido de evitar a manipulação digital da imagem quando se trata de buscar uma linguagem a ser transmitida e, claro, dependendo do contexto e finalidade do trabalho em questão. Fotojornalismo é diferente de fotografia conceitual. Mas, ao contrário do que muitos acreditam, a manipulação da imagem fotográfica já existia desde os primórdios da fotografia analógica, e muitos dos efeitos digitais hoje propagados têm sua origem justamente nos laboratórios químicos e em grandes nomes como o de Man Ray, para citar um. Isso não invalida de modo algum o trabalho conceitual que é isento de manipulação, acho que há lugar para todos os tipos de expressão individual. A qualidade da ideia final transmitida é o que deveria contar, não propriamente o processo em si, mesmo sendo ele uma parte lúdica e apaixonante do nosso trabalho. Cada fotógrafo tem habilidades específicas e preferências pessoais ao usar suas ferramentas disponíveis para chegar aonde quer. É a sua “paleta de pintor”, que apenas começa na câmera. O grande desafio, a meu ver, reside no mesmo lugar de sempre: a originalidade e consistência do trabalho, seja digital ou analógico.

 

DA – Seus registros para a publicidade possuem uma conotação artística deveras importante. Imagina rupturas ali?

MERCEDES LORENZO – Eu penso que a publicidade é um segmento que acompanha de perto todo tipo de inovação e consegue, talvez mais do que nenhum outro, absorver tendências de novas linguagens. Claro que estou falando da publicidade de alto nível. Então, nesse sentido eu acredito que, mais do que ruptura, é uma evolução constante. Meus registros para publicidade se querem sempre consoantes com essa maneira de assinalar uma valorização da inteligência do cliente e do seu público.

 

DA – Quando a arte não passa impune pelas questões de nosso tempo, seu significado ganha corpo especial. E você traz isso à tona na série Lançar Luz à Indiferença. O que lhe é mais caro nesse percurso?

MERCEDES LORENZO – Fico gratificada por você ter feito menção a esse trabalho, ele me é muito caro em vários sentidos. Acredito que a arte pode refletir as questões de seu tempo de forma implícita ou mais explícita, como uma crítica, que é o caso da série Lançar Luz à Indiferença. Minha experimentação com essa explicitude se deu transitando na linha tênue entre crítica e provocação. Toda a série foi produzida por mim com recursos fotográficos e de edição digital de imagens, de forma a chegar perto de um efeito “publicitário” muito mais do que propriamente “artístico”, pois se valeu dessa linguagem para dar ambiência ao questionamento proposto. A importância deste tipo de trabalho no meu percurso é a de me colocar em contato com todas as realidades sociais que me cercam, mas não apenas isso: pensá-las, propor um pensamento crítico e independente sobre elas, uma aproximação a elas por parte dos que ainda não o fizeram. São muitas ambições, eu sei, mas aprendi com a poesia que nós nunca sabemos exatamente onde uma ideia pode florescer e o quão longe ela pode alcançar.

DA – Chama atenção a forma como você aborda a perspectiva do masculino no ensaio Ecce Homo Nudus. A poesia do corpo revela um olhar especial sobre o homem, desanuviando tensões aborrecidas do gênero e propondo outras leituras. Estamos diante de um resgate necessário?

MERCEDES LORENZO – Sim, sem dúvida, eu acredito que estamos diante de um resgate necessário, em muitos sentidos. Apesar de aclamado na mídia e amplamente exibido na publicidade, o que observo é um recrudescimento em termos de moralismo no que se refere ao corpo na sua expressão natural. Esse recrudescimento se reflete inclusive nos espaços da web com uma censura indiscriminada que coloca a pornografia e o mau gosto no mesmo patamar de um Davi de Michelangelo, por exemplo. Também se reflete na reiteração de dogmas medievais travestidos de condutas contemporâneas. Este ensaio está entre os meus favoritos, não somente pelo resultado estético, mas também pelo que ele simboliza e tenta resgatar. Ele vem acompanhado em meu site de um texto introdutório, onde resumo essa visão que vai além do erótico, do comercializável, do corpo idealizado. O corpo aqui se quer parte indissociável do Ser. É incrível que em pleno século XXI ainda não tenhamos irrestritamente difundida a ideia revolucionária do psicanalista Wilhelm Reich, que nos mostrou que a mente humana está “espalhada” por todo o corpo e não reside apenas no cérebro. Esse conceito é a antítese da dicotomia repressora e moralizante, e mesmo sem essa clareza o ser humano o tem intuído ao longo das eras. Mas aí já vamos descambar em Foucault (risos).  Eu quis que fosse um nu masculino porque também nessa especificidade residem tabus, já que o corpo da mulher é muito mais exposto pela mídia em geral. A inspiração final, o start da coisa, veio quando pude obter num sebo (já que se encontra esgotado) o maravilhoso livro da fotógrafa Vania Toledo: “Homens, um ensaio”. Editado em 1980, ele traz várias personalidades masculinas da época (e ainda atuais) em fotos de nu absolutamente naturais, despojadas, e em situações que evocam particularidades de cada um deles. Fiquei me perguntando por que o livro não foi reeditado, pois existem tão poucos ensaios desse tipo no país. Considero esse trabalho transformador e poético num nível muito sutil, e por isso ele me é caro.

DA – Em termos artísticos, acredita que a contemporaneidade é um convite à transgressão?

MERCEDES LORENZO – Em termos artísticos, só entendo como possível a transgressão (risos). Só consigo conceber a criação como algo que transgride em maior ou menor grau o que é vigente. Isso se aplica, a meu ver, desde o começo dos tempos. Mas contemporaneamente acho que o desafio é maior, na medida em que existem já inúmeros referenciais para a arte de outras épocas. Transgredir sendo criativo, hoje em dia, exige ao menos um superficial conhecimento do que já foi feito, e isso não é pouco. As ferramentas que permitem a auto-expressão criativa podem ter sido ampliadas e/ou facilitadas, mas o conteúdo continua dependendo única e exclusivamente do elemento humano. A multiplicidade de nossos dias talvez dificulte exatamente a observação do cerne daquilo que é vigente, para então poder ser transgredido. Por isso a arte hoje, na minha opinião, tem a importância da síntese. Para chegar a essa síntese é preciso pensar – num momento em que a palavra de ordem é consumir.

Mercedes Lorenzo / Foto: Rubens Guilherme Pesenti

DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?

MERCEDES LORENZO – Vou tentar resumir, porque a pergunta é bastante abrangente. Acredito que muitos comportamentos dessa nossa era chamada pós-moderna são mais reativos do que pró-ativos, eles são consequência de um mundo sem garantias e em pleno processo de transformação de valores. Essa transformação não precisa ser negativa em si mesma, mas requer a todo momento a validação ou não de ideias que eram dadas como certas até o século passado. Nem todos têm a predisposição para esse constante questionamento e alguns se sentem sem chão, sem referências, e as buscam onde for mais conveniente segundo suas afinidades. Nesse sentido, o que eu não endosso de forma nenhuma, são todos os tipos de fundamentalismo: seja religioso, ideológico, político, etc. Também não endosso o automatismo consumista como fórmula de escape para o enfrentamento existencial a que todos estamos sujeitos. É uma vã tentativa anestésica num momento em que a humanidade precisa estar disponível e alerta para todo tipo de ideia que possa promover justiça social e a sustentabilidade do meio ambiente a longo prazo. E isso, na minha opinião, precisa ser feito não só urgentemente, mas com alegria, com vistas à felicidade.

DA – Por tudo o que você já viveu com a fotografia, o exercício do olhar implica mais em estranhamento, contemplação ou espanto frente ao existir?

MERCEDES LORENZO – O exercício do olhar… acho que é uma soma dessas coisas que você disse, e talvez mais algumas. Não poderia me restringir a uma delas, mas isso sou eu. O estranhamento é fundamental, me mobiliza, não me deixa acomodar e provoca a criação de novas sinapses o tempo todo. Sem o estranhamento não haveria o aprendizado. Confesso ter uma verdadeira satisfação diante do estranhamento, pois implica sempre que algo é novo para mim. O espanto é mais emocional, e implica mais na construção íntima daquilo que futuramente vai demandar uma expressão externa. A contemplação, sim, faz parte do exercício do olhar, porém ao contrário: para dentro. É ali que eu tento exercer a contemplação, como quem se pergunta “o que é que tem aí para se expressar?” ou “o que é que já assentou o suficiente aí dentro para ter uma possibilidade de síntese e/ou entendimento?“. Isso tudo se mistura, como você disse, frente ao existir. E acho que a arte não deve nunca dar respostas prontas, mas saber fazer as melhores perguntas, como na Cajuína de Caetano: “existirmos, a que será que se destina?”.

 

* Algumas fotografias de Mercedes Lorenzo fazem parte da nossa 72ª Leva.