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75ª Leva - 01/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Gil T. Sousa

 

Desenho: Luiza Maciel Nogueira

 

 

do teu nome

 

sobra de todo o silêncio
o raro acorde
do teu nome

a que solidão altíssima
me entregas
quando te deixas morrer assim
no abraço faminto
do tempo?

 

 

***

 

 

claríssimo lugar

 

e chega-se ao lugar
do saber
ao claríssimo lugar
de tudo se nos correr no coração
como luz
como um animal devotado
e louco
branco, muito branco
caído nos olhos fechados
no outro lado
como se fosse enfim
a morte

 

 

***

 

 

caçar a água

 

caçar a água
no veludo escarlate da sede
pela madrugada
no coração tenro
da neblina
antes que a maré suba
os labirintos

aos pássaros
revelar a pedra
ensinar o lado de dentro
do musgo
a curva macia
dos seixos

porque a loucura
deve ser rasgada por dentro
com as mãos cravadas numa ponte
acesa ao abismo

 

 

***

 

 

é preciso dizer

 

é preciso dizer
que não há mais nada a celebrar
nem os homens
nem as ideias
nem o tempo

essa fenda
que te atravessava a vida
esse rasgão generoso
que te aproximava os céus
fechou-se

estás perante o escuro silêncio
das coisas mortas

não abandones os espelhos

ainda que quebrados
eles são o palácio derradeiro
o último jardim
a gota impossível
de secar

guarda aí a semente
as palavras
as vozes
as imagens

porque o amor
é um minucioso trabalho do tempo
em direcção à morte

 

 

(Gil T. Sousa (1957) nasceu e reside em Vila Nova de Gaia e é Licenciado em Comunicação Social pela Escola Superior de Jornalismo do Porto. Escreveu:  poemas (2001), falso lugar (2004) e água-forte (2007), edições privadas do autor. É autor dos blogues: poesia, falso lugar e exercícios de esquecimento)

 

 

 

 

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75ª Leva - 01/2013 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa II

Bruna Mitrano

 

Desenho: Luiza Maciel Nogueira

 

 

Numa noite dessas

 

Chovia forte. Eu voltava do trabalho e via a gente da rua muito agitada, os pontos de ônibus alagados e os homens disputando espaço na sarjeta. Esperei um tempo debaixo duma marquise. Uma mulher esbarrou em mim com o guarda-chuva e uma criança negociou um trocado. A chuva estiou logo. Caminhei pesado, os tênis encharcados, até a calçada e subi num ônibus velho.

O engarrafamento era longo e o cheiro nauseante. Numa parada, um menino sujo e magro pediu carona ao motorista. Dizia: estou doente, acho que tenho febre. O motorista acenou que sim, mas amarrou a cara ao vê-lo entrar. Os passageiros, que se apertavam, resmungaram: cracudo filho da puta.

Ainda estávamos no espaço de meio quilômetro em que o ônibus permaneceu por duas horas, quando o garoto vomitou um visgo amarelo. Ignoravam-no, todos. Não demorou para que ele tombasse próximo a mim. Teve convulsões. Repousei a mochila num pedaço de chão entre minhas pernas e me abaixei para segurar sua cabeça. Os espasmos chacoalharam a carne mole dos meus braços.

Os olhos grandes remelentos do garoto olhavam meus olhos como se implorassem por socorro ou perdão. Um senhor gritou que chamássemos os bombeiros. Alguém pegou o telefone, embora soubéssemos que ninguém chegaria rápido ali.

De repente, a calmaria. Os olhos grandes muito abertos. Minhas mãos coladas à cabeça do menino, afundadas em seus cabelos grossos de poeira e suor. À volta, o silêncio: o garoto estava morto.

O motorista precisou levar o corpo à delegacia. Dei alguns esclarecimentos à polícia. Depois, peguei um ônibus mais novo e um pouco mais caro. As ruas já estavam secas e o trânsito fluía bem. Em casa, joguei as roupas na máquina de lavar e o tênis na lixeira. Tomei um banho quente, fritei uns empanados e sentei à mesa, sozinha, sem tristeza nem pressa, desejando que aquela noite durasse um pouco mais. Eu estava viva.


***

 

 

.fim

 

bomba-relógio, 6:00, levanta, lava a cara duas vezes, envelheceu muito esse ano. banho porco, roupa pronta, engole o café com leite e pão, e sai pela metade. sol, gente, sustos, dorme, chega. gritos, é assim. a molecada espera na fila. sala de aula, arrastam cadeiras, o giz no quadro, formiga a gengiva. cinco tempos, morre com farofa ao meio dia. almoça naquela pensãozinha xexelenta mas, tem papel no banheiro. volta, a mesa grande, cadê os óculos? médias, faltas, tá na hora. anda torto, a pasta pesa e cai, no meio do corredor. revoada, os papéis escapando das mãos. gritos, é assim. bomba-relógio, falta pouco pro fim do dia, pouco pro fim do mês ($), pouco pro fim do ano. quanto pro fim da linha?, conta nos dedos.

(Bruna Mitrano (1985) é carioca suburbana, professora da rede pública, mestranda em literatura portuguesa, leitora compulsiva, desenhista frustrada, bipolar e torcedora do Bangu. Escreve na revista Mallarmargens. Tem textos publicados no Jornal Plástico Bolha, no Fórum Virtual de Literatura e Teatro, na revista Germina e em outros espaços na Internet)

 

 

 

 

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75ª Leva - 01/2013 Destaques Olhares

Olhares

MUNDOS NO MUNDO: A ARTE DE LUIZA MACIEL NOGUEIRA

Por Fabrício Brandão

 

Desenho: Luiza Maciel Nogueira

 

A cada um, sua maneira de tingir o mundo. A cada um, a forma de emprestar significado às diferenças, espaços onde a singularidade aguarda ser descoberta. Uma poesia dos dias refugia-se em toda a sorte de recônditos. Ao artista, a tarefa de trazer à tona o despercebido, o algo que pulsa incessante nas camadas sensíveis da vida.

Quando a arte promove um encontro, celebra, sobretudo, as delicadezas da existência. Se alegria ou dor, pouco importa, a catarse ante a criação mais parece uma personagem bipolar, cujo temperamento firme e decidido nos projeta em múltiplas e inexplicáveis dimensões.

É bom identificar muito do que foi dito acima nos traços de artistas como Luiza Maciel Nogueira. Em seu ofício, a desenhista engendra mundos e confere a eles vibrações de mistério. Sua arma, a profusão de cores e formas que conclamam uma espiral do tempo. É como fazer uma viagem a paisagens familiares e, noutros momentos, a domínios distantes e inusitados.

Desenho: Luiza Maciel Nogueira

 

No apelo sugerido por suas marcantes cores, Luiza mergulha fundo no frágil fio da vida, como se fosse possível reter dali alguma espécie de acalanto para a alma. Neste trajeto, há muito por se deparar. Seja na representação do universo feminino, no olhar sublime em torno da natureza ou na dimensão conferida ao amor, a artista consolida a seu trabalho uma inalienável força lírica.

Fazendo girar o ciclo da invenção de outros mundos, alguns dos desenhos de Luiza Maciel Nogueira também incorporam arremates psicodélicos. Tal sensação experimenta percursos em outras tantas vias que os sentidos, nos mais variados níveis de abstração, podem ofertar.

Movida apaixonadamente pelos quadros de Van Gogh, a artista confessa que o desenho se manifestou em sua vida como instrumento de expansão da consciência e do autoconhecimento.  Abraçada à poesia da existência, Luiza vivencia caminhos, deixando se levar pela observação de tudo aquilo que é compatível ao ritual dos mistérios humanos.

 

Desenho: Luiza Maciel Nogueira

 

 

* Os desenhos de Luiza Maciel Nogueira são parte integrante da galeria e dos textos presentes na 75ª Leva

 

 

 

 

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75ª Leva - 01/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Daniela Delias

 

Desenho: Luiza Maciel Nogueira

 

 

 

Plano aberto

para Lalo Arias

 

as coisas são o que são:
o copo-de-leite sobre a mesa
o botão amarelo na caixa de costura
a espera da carta que você mandou

no mais, o mar
e as ruas vazias
a solidão e suas ilhas

visto daqui
o mundo é tão plano

 

 

***

 

 

Minúcias

 

desde ontem arrasto móveis
molho plantas, aparo pontas
cato minúcias

só não lembro
onde deixei aqueles brincos

aqueles que pesam
como os silêncios que saem da tua boca

 

 

***

 

 

Rotas

 

ontem refiz seus passos
guardei seus gestos
depus sobre a pedra
a solidão e os sapatos

nas mãos, o buquê de amarílis
nos olhos, antigas ternuras

na carne, os mapas em que traçamos
as mesmas rotas de silêncio e fuga

 

 

***

 

 

Amuletos

 

tenho pra mim que você me veria
num café ao largo do mundo
remoendo o azul das coisas
no centro de uma cidade cinza

tenho pra mim que você me teria
lábio vermelho, branco pelo
pó de arroz, rímel, cabelo
e dentro uma cidade cinza

tenho pra mim que você viria
com seus amuletos e orquídeas
e seríamos qualquer coisa
entre o belo e o absurdo

 

(Autora do livro Boneca Russa em Casa de Silêncios (Editora Patuá, 2012), Daniela Delias nasceu em Pelotas, Rio Grande do Sul. Tem poemas publicados no Livro da Tribo, em revistas literárias e no blog de poesia Do Lado de Cá. Apaixonada por literatura, música, fotografia, cinema e psicanálise, é também psicóloga e professora universitária. Mora na Praia do Cassino, em Rio Grande, extremo sul do país)

 

 

 

 

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Desenho: Luiza Maciel Nogueira

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Desenho: Luiza Maciel Nogueira

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Desenho: Luiza Maciel Nogueira

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Desenho: Luiza Maciel Nogueira

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Desenho: Luiza Maciel Nogueira