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75ª Leva - 01/2013 Galeria

Desenho: Luiza Maciel Nogueira

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74ª Leva - 12/2012 Ciceroneando

Ciceroneando

Foto: Catharina Suleiman

VI

Tudo vive em mim. Tudo se entranha
Na minha tumultuada vida. E porisso
Não te enganas, homem, meu irmão,
Quando dizes na noite, que só a mim me vejo.
Vendo-me a mim, a ti. E a esses que passam
Nas manhãs, carregados de medo, de pobreza,
O olhar aguado, todos eles em mim,
Porque o poeta é irmão do escondido das gentes
Descobre além da aparência, é antes de tudo
LIVRE, e porisso conhece. Quando o poeta fala
Fala do seu quarto, não fala do palanque,
Não está no comício, não deseja riqueza
Não barganha, sabe que o ouro é sangue
Tem os olhos no espírito do homem
No possível infinito. Sabe de cada um
A própria fome. E porque é assim, eu te peço:
Escuta-me. Olha-me. Enquanto vive um poeta
O homem está vivo.

(Hilda Hilst em Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão)

***

Mais um ano se prepara para desferir seus últimos golpes. Em seu derradeiro canto, quiçá traga até nós o gosto pelo saber e sabor das coisas fugidias. Não pelo curioso prazer de sermos tentados pelo efêmero que nos espreita permanentemente, mas sim pela ideia através da qual somos impelidos a acreditar que a única coisa que existe de fato é o presente. Já que nos são caros os efeitos da passagem do tempo, convém evitar desperdícios e marcar o solo do mundo com a marca indelével de nossas epifanias. Por isso, necessitamos enxergar além do óbvio. Por isso, urge seguir adiante mesmo com os equívocos que nos assolam os sentidos. Se ainda assim a devastação for sombra constante, é porque uma suposta normalidade nos conduz à margem de precipícios edificantes. Quem serão os arautos das novidades amanhecidas entre nós? Talvez todos aqueles que ousem perpetrar os caminhos pouco convencionais da existência. Qual um balançar de águas que nunca mais tornarão a ser as mesmas, viver pode representar a revelação de notícias pouco confortáveis e, por assim dizer, incompatíveis com nossas minicertezas. E como é bom não brigarmos pela patente da razão. Quem sabe os poetas, muitas vezes tidos como delirantes e loucos, possam nos servir de guia nessa delicada jornada rumo ao centro de nós mesmos. Onde a nostalgia do futuro a nos sorrir em toda sua tirania? A arte, então, vai prolongando nossa espécie, fazendo-nos tatear cada vez mais as paredes pelas quais imaginamos algum resquício de liberdade. Que sejamos, pois, perpetuados pelos ecos incontidos nos versos de gente como Nina Rizzi, Marcelo de Novaes, Helena Terra Camargo, Dheyne de Souza e Marcus Groza. Entre palavras e outros tantos destinos por aqui lançados, há espaço inconteste para os sensíveis registros fotográficos de Catharina Suleiman. Noutro ponto, interpelamos o escritor André de Leones numa conversa sobre suas travessias literárias. No Jogo de Cena, Geraldo Lima promove incursões no teatro de Arthur Miller. Outros enlaces de vida nos são contados por Mariza Lourenço, Rodrigo Novaes de Almeida e Nelson Alexandre. A escritora Adriana Zapparoli nos convida à leitura de Nagasakipanema, livro de poemas do uruguaio Victor Sosa. O olhar atento de Larissa Mendes atravessa a delicada temática de Amor, novo filme de Michael Haneke. Sob a agulha de nosso Gramofone, gira a sonoridade da banda mineira Transmissor. Fecha-se mais um ciclo na Diversos Afins e o gosto por novas descobertas se agiganta. Que 2013 revele-nos, como versificava Hilda Hilst, o escondido das gentes!

 

 

Os Leveiros

 

 

 

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74ª Leva - 12/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Marcelo de Novaes

 

Foto: Catharina Suleiman

 

O gato anterior ao gato

Um vulto que se esgueira
à sombra da sombra.

Às vezes, volta ao breu,
como a bruma se afoga
num rio.
Seus olhos são mais
claros que os olhos
claros.

Ele é o gato anterior
ao fato anterior.

Mesmo anterior ao fato
anteriormente dado
a ele mesmo,
gato.

Isso não se explica:
acende-se uma vara
de incenso de mirra.

Nasce e existe,
salta e volta a
saltar, do início.

Salta sobre o meu colo e,
de novo, volta a saltar do
chão, sobre o meu colo.

Se eu me visse
pela primeira vez,
pelos seus olhos anteriores,
não me acharia humano,
nem me acharia.

Mas saberia da dor
de não me saber,
se multiplicada
por cem
pulos.

Ele veio por entre as
teclas do piano de
tampo fechado.

As copas das árvores
as sombras das árvores
se dobraram,
em arco.

Patas postas na soleira
da porta, sem pó.

Unhas arranhando
o chão de terra.

Ele me ensina névoa
de musselinas.

Ele é o gato anterior
ao fato
anteriormente dado.

Roça o tampo do piano
como se fosse
vidro.

Tira escamas
dos meus ouvidos,
e medo dos meus pés.

Ávido, porque
sem lugar
no mundo.

Seu lar é a fresta da música,
o intervalo entre as teclas
branca, preta e branca.

Listras, ele não tem:
qual lince, cor de
laranja.

É o gato anterior a mim,
anterior à minha volta,
anterior à minha
dúvida,

anterior à música,
anterior à pauta.

Zaratustra.

 

 

***

 

 

Chão Absoluto    

 

A respiração presa. Desde que perdi a noção do amor e o sentido da distância. Desde que não pude mais [nem soube mais] atrair as flores, comandar o vento. Desde que me vi no Exílio antevendo, da morte, a antecâmara. Deveria ser amplo. Poderia ser. O sentido do ar me dando sentido [e estufando o plexo]. Deveria ser sol, e o céu não pareceria tão alto. E a terra não seria O Abismo. Deveria ser Amor, e não Intelecto. No entanto, é a este Chão que estou preso.

 

 

***

 

 

Acrílico

 

Ninguém tocará teu rosto
por detrás da máscara de
acrílico [onde há fumaça,
há fogo].

E o coração, muitas vezes,
parece ser órgão cansado e
estúpido. Clange e se arrasta
e plange, como carro de boi.

E ainda que não te possa tocar
a face, posso ouvir [e devo dizer
que ouço] esse roçar de carroça
em chão vermelho e pedregoso.

Olhe pra cima e respire
fundo: Aquilo é o Sol.

 

 

 

(Sou psicólogo por formação. Já trabalhei em AMEs e UBS nas periferias da zona sul de São Paulo, em ONGs [SOS Aldeias Infantis, CVV], consultório particular. Sei das artes um tanto, do mundo cão sei também um bocado. Escrevi alguma coisa que está espalhada na web [Corsário, Cronópios, Mallarmargens, Casa dos Poetas – Portugal -, dentre outros] e em alguns blogs. Publiquei o romance Cidade de Atys pela Ateliê Editorial, em 1998. Por escolha e ideologia [discordância com as regras do mercado editorial, fundamentalmente], só escrevo na net, agora. Assumo a escrita como ofício sem fins lucrativos)

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74ª Leva - 12/2012 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

A casa Azul

Nelson Alexandre

 

 

Foto: Catharina Suleiman

 

 

Eu apoiava a cabeça no ombro de Helena todas as vezes que ela chegava de mansinho. Seu toque era meigo e delicado. O meu toque era possuído por uma leva de palavrões e atitudes irracionais. Era como se o mundo inteiro explodisse e eu não pudesse recolher seus pedaços por causa da confusão. Quando a explosão iluminava meus olhos, eles pegavam fogo e eu cuspia morcegos cegos em voos malucos. Rasgava os próprios intestinos e não podia aguentar o meu próprio cheiro.

Alguém pode comer a própria merda e falar em nome da bondade e honestidade sem mandar merda na cara de quem está prestando atenção? Será que isso é possível?

Eu recolhia a cabeça e deitava novamente em seu ombro, enquanto ela lia e me fazia perguntas sobre aquilo e isso… minha cabeça dormia sobre o amor em forma de mulher. Cantava numa frequência pirata a música da carência, enquanto o céu vinha pra cima de mim, como os destroços de um avião desgovernado caindo em cima da minha falta de vontade, bem em cima da minha total ignorância sobre o assunto.

Eu olhava pro tênis encardido e sentia a podridão. A sujeira encarando meu olhar com reprovação. Eu não queria levantar a cabeça do seu ombro, do meu conforto, por nada desse mundo, mas nós não temos sempre o domínio da situação, por isso, eu não gostava muito quando ela se levantava de forma rápida e sem me avisar. Minha cabeça levantava como um morto retirado das ferragens retorcidas de um carro detonado. Sem muito jeito, sem muita delicadeza.

Ela partia e eu ficava hipnotizado com seus passos, sempre apressados, em direção a todos os cantos da casa. Parecia uma grande atriz atarefada, vagando pra lá e pra cá na sua pequena atmosfera ornada por enormes margaridas empalidecidas como fantasmas gigantes.

Você sabe o quê é o amor?

Eu, até aquele dia, não tinha muito conhecimento, como pensava que tinha. Eu pensava que dominava o amor, mas confundia complacência com amor, enquanto as feridas brotavam no meu coração como plantas carnívoras. Eu colocava as mãos no rosto e pensava: “mais um dia”.

Quando você está morto, você perambula por aí, sem muita preocupação, nem aí com o mundo ou com as pessoas que também perambulam por ele. No estágio da morte, seus pés são facas fazendo cortes, deixando pra trás profundos abismos de você mesmo.

Nós olhávamos pra nossa casa, e aquele era o nosso céu. Era o nosso lugar dentro do que é perfeito. Helena gostava de ficar sentada fazendo seus desenhos, fumando um cigarro que soltava uma fumaça que dançava na minha garganta como uma serpente.

A morte, às vezes, bate à sua porta mais cedo do que o esperado. O azul da casa salvava os olhos cansados, a mente perturbada, a carnificina pronta pra brotar no peito. O azul era a cor da purificação, e por alguns instantes, a cor de uma plenitude desconhecida e aceita.

“vamos pintar de amarelo, minha querida?”

“Não… o azul é o mar repetindo-se sobre nossas cabeças”.

Então ficava azul, sempre o mesmo tom de azul…

Foi numa noite de chuva que a casa azul ficou triste como um peixe fisgado pelo anzol. Tomado por uma dose de toxinas e assuntos mal resolvidos que viviam saltando na frente da minha paciência como fantoches de discórdia, peguei uma vassoura e girei o cabo sobre minha cabeça dominada por um milhão de vozes dizendo “esmague”, e desferi vários golpes contra a luz que iluminava a garagem. Ela se fez em vários pedacinhos, da mesma forma como se encontrava o coração de Helena, que chorava sozinha no quarto principal da casa azul, na periferia de Space City.

Outra vez, foi a toalha esquecida em cima da cama. O terror do colchão encharcado por um líquido extraído com o aperto dos braços delicados da inocência.

“Foi você que esqueceu ela aí, não eu”.

Não adiantava argumentar, minha “razão” cega e sem preocupação com a inocência se desmanchando em lágrimas, tampava os ouvidos e abria a boca, apenas, para emitir o rugido da barbárie.

Por isso, hoje, digo e defendo que, antes de você emitir um som ensurdecedor e se transformar num macaco violento, lembre-se… o cristal se rompe a qualquer toque sem amor.

Outra vez, foi o puro descontrole unido a uma dose sadomasoquista de cólera, que mandou o pobre do nosso gatinho fazer uma viagem ao redor do ódio. Metáfora pura. Coisa que vem em primeiro lugar na cabeça cheia de um rancor exasperado.

Às vezes você está acompanhado com o diabo e não percebe… ou será que o diabo pode ser uma alegoria que produzimos em nós mesmos para não deixar brotar uma flor de bondade, mesmo que pequenina e tímida?

É o cão… sem dúvida, diz uma das vozes dentro da minha cabeça. É apenas um distúrbio de comportamento, retruca uma outra.

Com isso, posso dizer que, não deixe a estrutura do cristal ir à tona toda estilhaçada. Não deixe esse maldito ódio (digo isso lutando desesperadamente para não ser contaminado novamente) pegar você pelo dedão do pé. Recuse suas carícias em seu corpo.

Vamos dançar?

Vamos entrar no esplendor do azul?

Você despertou meu lado Cérbero… o quê realmente você quer, meu senhor?

Quer que eu saia do meu buraco, depois de alguns anos, metralhando o ódio ou o amor?

Meu coração quer ficar azul. Não tem mais a cobertura do manto vermelho. O quê estou dizendo?

Entende de vozes, meu senhor?

O sol nasce como no cinema, morno, cheio de uma luz artificial, onde, de mãos dadas, nos iludimos e voltamos a ser seres humanos novamente.

“Será que amarelo é bom mesmo? Você quer imitar o sol? Amor, você vai acabar com as mãos queimadas”.

“Vai ser a nossa obra prima, baby, vai ser a nossa passagem para a eternidade, isso eu juro pra você”.

Quando ela ia dormir, eu ficava ainda algum tempo na sala, sentado no sofá, ouvindo música clássica, sentindo minha cabeça ser comprimida pelas vozes da minha consciência. Eu tinha vontade de gritar até a garganta explodir. Queria ter uma bomba na fala… confidenciar explosões nucleares com os dentes. Sentia o negrume feito coisa podre bem no meio da minha cara, olhando a consciência dentro de uma vala comum, apodrecendo, definhando, sendo devorada por uma grande demanda de vermes asquerosos.

Na madrugada, sobressaltava dos sonhos mais mesquinhos e sentia demônios colocando seus dedos sobre o meu ombro. De joelhos, pedia a Deus o azul. Pedia o supra-sentimento para a redenção de uma alma escura e lodosa.

Eu era um monstro que um dia foi um peixe dourado.

 

 

(Nelson Alexandre nasceu em Maringá – PR. Já disseram que seus contos parecem com os de Charles Bukowski, John Fante e até mesmo uma mistura de William Burroughs e David Cronenberg, mas o autor descarta todas as possibilidades e afirma que seus escritos pertencem a ele mesmo e mais ninguém)

 

 

 

 

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74ª Leva - 12/2012 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

TRANSMISSOR – NACIONAL

 

Não há nada mais valioso do que poder usar dos recursos da liberdade e fazer ecoar a própria voz. Na seara musical, isso até pareceria uma mera redundância não fosse a perspectiva de também se poder passar algo coerente através das canções. E é aí que entra a veia autoral a atravessar espaços com sua sedutora proposta de autenticidade.

Talvez seja um exagero falar de originalidade abundante em matéria de criação musical. Mesmo a máxima caricatural do “nada se cria, tudo se copia” revela em si o germe da transformação das coisas que, ao final das contas, sempre estiveram no mundo, seja de modo latente ou explícito. Importa mesmo saber quem percebeu a faísca inicial de algo e, com isso, promoveu a aparição do supostamente novo?

Escutar o trabalho da banda mineira Transmissor pode servir como uma sucinta e serena resposta a isso tudo. E predicados não faltam aos moços de Belo Horizonte quando o assunto é converter olhares sublimes sobre a vida em forma de letra e música de qualidade. Da reunião de Thiago Correa, Leonardo Marques, Jennifer Souza, Henrique Matheus e Pedro Handam, surge um ambiente sonoro carregado de sensibilidade e, o que é melhor, conteúdo.

Nacional, segundo disco da banda, é desses álbuns que atrai pelo conjunto. Há lugar para tudo ali, tanto para densidades típicas de nosso incorrigível trajeto pelo mundo quanto para a leveza necessária ao olhar por vezes aborrecido de todo o tipo de gente. É assim que, sem levantar falsas esperanças e tolas bandeiras, a trupe do Transmissor chega desnuda aos nossos ouvidos e nos apresenta um trabalho cuja simplicidade nem de longe representa um raso mergulho por sobre as coisas da existência.

Transmissor / Foto: divulgação

Pensando um pouco sobre essa miríade de sensações, é que conseguimos entender porque uma canção como Bonina merece ser eleita uma espécie de síntese do disco. Há ali uma leitura possível sobre as relações que suplanta a gratuidade tão recorrente do tema. Fala-se de amor sem, no entanto, repetir fórmulas, apelos desgastados ou subestimar a inteligência de quem escuta cada uma das faixas. Nesse percurso, músicas como Vazio, Outra Ela, Longe Daqui e Hoje ilustram bem a habilidade do grupo em se mover pelo pantanoso território das emoções.

Ao traço pop rock de Transmissor vem se juntar um repertório cujas escolhas melódicas refletem um cuidado com arranjos e outros importantes detalhes. Além disso, o revezar de vocais entre Jennifer Souza, Leonardo Marques e Thiago Côrrea é um retrato lírico de como as composições são interpretadas no seu mais preciso teor. Transportar, por exemplo, a especialíssima Nada Será Como Antes, canção de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, e que é verdadeiro símbolo do Clube da Esquina, para Nacional só trouxe mais vigor ainda ao disco. Sem dúvida alguma, um ingrediente bem digno de uma valiosa referência das férteis paragens mineiras.

Num cenário no qual se multiplicam artistas e bandas das mais distintas frentes, não seria precipitado apontar Transmissor como sendo um grupo que tem muito ainda a oferecer. Pelo engajamento de seus componentes e, claro, o resultado direto de seus dois trabalhos já lançados, o caminho futuro afigura-se aberto. E a espera vale a pena quando se tem algo consistente e despretensioso a dizer.