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71ª Leva - 09/2012 Galeria

Pintura: Sylvana Lobo

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Pintura: Sylvana Lobo

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70ª Leva - 08/2012 Ciceroneando

Ciceroneando

Foto: Viviane Rodrigues

O quanto de nós vem, de fato, impregnado nas leituras que realizamos? Até que ponto nossos anseios estão dispersos por entre as mais difusas formas de expressão artística? Tais questionamentos são plausíveis quando procuramos associar as representações mais variadas de mundo àquilo que sentimos ou projetamos de algum modo. Experimentar pela arte é atestar a impossibilidade de se negar a própria existência, por mais passiva que seja a conduta. Entre sujeitos ativos, partícipes e os que se enquadram numa mera e distante perspectiva de observação das coisas, há um hiato que jamais pode ser desprezado. Tênue ou não, este intervalo prenuncia que, na grande teia de nossas relações, o trunfo da arte é o de preencher espaços de aproximação. E campos como o da literatura e das artes visuais podem ser importantes aliados desse mecanismo de convergência humana.  As dimensões atingidas por este processo revelam-se amplas, sobretudo no que se refere aos aspectos sociais e quiçá também políticos. Logo, é ingênuo pensar numa perspectiva de criação alheia à influência de tais características. Dessa enorme teia de interações, brota toda uma sorte de percursos dotados de uma individualidade que, para efeito de permanência das obras, se faz necessária.  Poder testemunhar como o fluxo das palavras e imagens transita pelas mais diferentes mentes para depois se converter em objeto de apreciação dos nossos sentidos é algo fabuloso. Então, surge a pergunta: será que tudo realmente já foi dito? Busquemos, talvez, a resposta contemplando as fotografias de Viviane Rodrigues, cujo trabalho remonta a uma exaltação da essência das coisas. Trilhemos as vias transmutadas em versos por Daniel Gonçalves, Adriana Zapparoli, L. Rafael Nolli, Davi Araújo, Gabriel Resende Santos e Luiz Otávio Oliani. Numa pequena sabatina, ouçamos o artista plástico português Rui Cavaleiro num diálogo com o poeta Hilton Valeriano, entrevista regada a percursos pelos signos da arte. Pelas narrativas de Gladson Dalmonech, Marcia Denser e Maurício de Almeida, restam-nos algumas pistas sobre complexos itinerários humanos. Larissa Mendes ousa-nos atrair, em dose dupla, a viagens cinéfilas e musicais. O escritor W. J. Solha penetra com avidez no primeiro romance de Marília Arnaud. Andemos, pois, a desatar nós, estabelecendo conexões, cedendo espaços no entendimento da alteridade e privilegiando a escuta. Quem sabe daí não derivem, mesmo que desavisadamente, algumas preciosas respostas. Hoje, 70 Levas se traduzem numa busca sublime pela compreensão do que é estar no mundo.

 

Os Leveiros

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70ª Leva - 08/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética III

 

Foto: Viviane Rodrigues

 

 

Poema # 5

L. Rafael Nolli

 

Que se desabroche como flor
em um vaso sobre a mesa –
alimentada por lâmpada fluorescente
………& água de cloro da torneira

(ou
às margens de uma estrada
que segue o curso do rio: onde
o sol faísca nos olhos dos cavalos)

Que se desabroche como as flores
no canto escuro da casa –
regada pelo encanamento rompido
…..& o árduo trabalho intestinal

(ou
no peito do homem
que entre tantos outros caminha
para libertar a cidade sitiada)

 

 

***

 

 

Inventário de um rio # 2

 

1
Aquele havia sido o meu Eufrates.
Ainda que inexpressivo
– sequer constava no mapa –
não teria havido nada sem ele

(a água era tão pouca
e de tão má qualidade
– pombos sedentos agonizavam
……………… às suas margens –
que nada sobrevivia em seu bojo
[além de vermes aquáticos
e caramujos da esquistossomose])

Aquele havia sido o meu Aqueronte.
Quando corria –
quase sempre estava engasgado
……..com o cadáver de um cão –
conduzia a inframundos
………………sobre o domínio de Hades

(pouca era a sua água
………e de tão má qualidade –
espessa como a baba de um enforcado –
que ela se mostrava incapaz de refletir o céu
[senão simulá-lo
………com um azul de olho vazado])

2
Aquele que havia sido o meu rio
se arrasta por galerias de concreto
– como um fantasma do Lete –
roendo pacientemente os pilares da cidade

 

(L. Rafael Nolli nasceu na cidade de Araxá, MG, no ano de 1980.  Publicou Memórias à Beira de um Estopim (2005). Pode ser lido semanalmente no blog Stalingrado. Contatos: nolli@bol.com.br.Twitter: @nollirafael)

 

 

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70ª Leva - 08/2012 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

 

Foto: Viviane Rodrigues

 

REFLEXOS

Márcia Denser

 

(para Filadélfia Jones, onde quer que você esteja)

“Marco,

Hoje abri a janela para o domingo chuvoso e inerte. Entediada, liguei o computador onde uma jovem marquesa triste molhava a pena e começava uma carta:

‘M,

Chove esta manhã. Não obstante o tempo, será impossível mandar selar Juno. Quando desci ao pequeno salão, fui informada por Artémise que Mme. Berthe mandara Lorin à Meséglise, de onde só retornará à noite. Creio não ser possível nos avistarmos no local combinado. Prevejo um serão melancólico com o senhor cura e M. de Charlus a jogar gamão e Berthe, minha carcereira, vigiando os postigos. Como sofro ao saber-te tão próximo e inatingível. Desgraçadamente, partiremos amanhã para Ostende. Estaremos separados durante todo o verão sem o derradeiro consolo de uma despedida. Nuvens carregadas me afligem com maus presságios, todavia tu não mereces que te faças sofrer. Manda a razão dizer-te que estás livre, mas meu coração é teu prisioneiro. Basta por ora, meu amigo, Berthe se aproxima…”

Marco, suponho que você saiba que a carta da marquesa é essencialmente igual a minha, embora também desta vez eu me escondesse por detrás do estilo rococó de espartilho e anquinhas, através do qual todo sentimento humano soa frívolo e melodramático. Como se a autora os ignorasse quando, no fundo, tem medo. Meus múltiplos disfarces já não te divertem mais. Aos reflexos do que não sou, você responde com suas próprias imagens deformadas.

Lembro do que disse naquele dia de fevereiro – lembro-me bem porque o sol fervia e Cortázar havia morrido – obrigando-me a ouvi-lo, a te encarar frente a frente: Cortázar que vá para o inferno! Onde está você? Está aí, e me sinto só, entende? Sei que não estou sendo objetivo, mas veja: você está em cima, embaixo, atrás, na frente, mas não ao meu lado, ao meu lado nunca. E seus punhos esmurravam as paredes quando era minha cabeça que você queria quebrar para enfiar um pouco do teu desespero lá dentro. Lá, onde se pressupõe que viva a compreensão, lá, onde mantenho aprisionada uma andorinha ferida embora ela se debata e bata e me atordoe e enlouqueça.

Não sou a marquesa encerrada em seu castelo pela governanta, o mau tempo ou um cavalariço, nada impede que eu tire o carro da garagem, recapitule o itinerário, o traçado de ruas e avenidas que em quinze minutos me fariam estacionar em frente à tua casa, debaixo da árvore de flores amarelas cujo nome não sei, buzinar até que teu belo rosto jovem apareça no terraço, rever tua expressão de resignado desgosto, te pressentir descendo as escadas com brusca lentidão a contragosto dos teus próprios passos que lentamente atravessariam o jardim, detendo-se do lado de dentro do portão com os antebraços apoiados na grade numa tentativa de sorriso que os lábios não obedeceriam. Trocaríamos cumprimentos à distância, talvez eu dissesse que passava por acaso ou talvez não dissesse nada; educadamente perguntaríamos pela família, pelo trabalho, pela saúde, pelos amigos, acrescentando comentários a respeito das próximas eleições, da catástrofe do México, do último filme e até da meteorologia, sempre tão incerta, aí talvez você arriscasse um elogio falsamente bem-humorado sobre meu corte de cabelo que eu retribuiria com um sorriso complacente (aquele que você detesta) acendendo um cigarro enquanto buscavas teu maço no bolso, retesando o frágil arco do silêncio até que presumivelmente eu o rompesse com um soluço, um palavrão ou uma súplica, cedendo ao impulso de estilhaçar este muro de vidro a que chamamos realidade e boas maneiras e tanta cordialidade, para, mais uma vez, encontrar do outro lado a máscara sem rosto da tua infinita, obstinada negação.

Levanto a cabeça e, debaixo das lágrimas, vejo a chuva, o domingo, as duas da tarde: não, não sou a marquesa, não me é permitido padecer de irrealidade. Mas continuarei tentando.

Saio e ligo o carro. A cena martela meu cérebro: teu belo rosto, o desgosto resignado, um ramo de flores amarelas, tuas pernas lentamente, a tua boca, a tua boca insuportavelmente formando palavras que você não quer dizer e eu não quero ouvir, e mais uma vez o silêncio das palavras não ditas, dos gestos desfeitos, o muro de vidro que um dia atravessarei quando abandonar a marquesa, o sorriso complacente, minhas medalhas de religião, uma cicatriz que deformou minha alma, minha inteligência, minha cultura, meu saldo bancário, meu prestígio, sobretudo meu prestígio, mas que importa tudo isso se conseguir atravessar os espelhos e passar para o outro lado, para dentro do teu abraço, finalmente libertando a andorinha.

(A escritora paulistana Márcia Denser publicou, entre outros, Tango fantasma (1977), O animal dos motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), Diana caçadora/Tango Fantasma (Global, 1986, Ateliê, 2003, 2010, 2ª edição), A ponte das estrelas (Best-Seller, 1990), Caim (Record, 2006), Toda prosa II – obra escolhida (Record, 2008). É traduzida em nove países e em dez línguas. Dois de seus contos – “O vampiro da Alameda CasabrancaeHell’s Angel – foram incluídos nos Cem melhores contos brasileiros do século, organizado por Ítalo Moriconi, sendo que Hell’s Angel está também entre os Cem melhores contos eróticos universais. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, é pesquisadora de literatura e jornalista. Foi curadora de literatura da Biblioteca Sérgio Milliet em São Paulo)

 

 

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70ª Leva - 08/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Foto: Viviane Rodrigues

 

 

alter et idem

Davi Araújo

eis que a ave volátil declama o peixe solúvel
e de repente a geografia de uma rasura
conta a história d’alguma literatura

e são os ininteligentes elegíveis
na universalidade intraduzível
ismismos mesmo preferíveis
à grande banalidade indigerível

que a biblioteca me preserva a ignorância
porque o pior labirinto é uma linha reta
se nas leituras solitárias desde a infância
tornar-me um outro e o mesmo é a meta

contemplo o duplo na reflexão volúvel
altero-me só um pouco e no reflexo
outro é um eu de mim desconexo

***

Eus em Pessoa

Sou essas mil e uma almas que encarno & osso
Desde aquelas calmas às mais carne de pescoço

É uma infinidade de outros estranhos reunidos
Que há nos nós mesmos dos meus conhecidos

Em triz teço uma teia de nojo & metamorfoses
Do coral que me encanta com as minhas vozes

Uma corja de caráteres que trago personificados
Camaleões de fragmentos & tons resignificados

Iluminações de espelhos refletem o que emano
Contra a sombra que me usa de escudo humano

Nunca subo ao palco do qual sempre despenco
Engendro pequeno monólogo & grande elenco

 

(Davi Araújo é poeta, ficcionista, tradutor, ghostwriter e conselheiro editorial. Autor do blog Não Fique São, atualmente finaliza dois grandes livros de poemas, continuações da trilogia iniciada com Livro Ruído (Eucleia Editora, 2011), publicado em Portugal. Contato: davis.eu@gmail.com)

 

 

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70ª Leva - 08/2012 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

 

Por Larissa Mendes

 

Late Bloomers – O Amor Não Tem Fim (Late Bloomers). França/Bélgica/Reino Unido. 2011.

 

 

“Não somos bebês enrugados!”.

No livro Homem Comum, o escritor Philip Roth afirma que ‘a velhice é uma batalha em que não há chance de vitória’. Diante de tal prenúncio, nos questionamos de modo cada vez mais recorrente se o aumento da expectativa de vida e a segmentação do mercado consumidor na terceira idade são suficientes para que estejamos de fato preparados para o envelhecimento. O cinema também se deu conta de tal filão e o enredo que poderia facilmente cair na dramática armadilha Mal de Alzheimer, ganha um novo sopro de inspiração na comédia agridoce Late Bloomers – O Amor Não Tem Fim (traduzido em alguns países como 3 Vezes 20 Anos). Os Bloomers que dão título ao segundo longa-metragem de Julie Gavras são Adam (William Hurt), consagrado arquiteto que revolucionou o sistema de aeroportos há 3 décadas e hoje atua como sócio de um modesto escritório de design, e sua esposa Mary (Isabella Rossellini), professora aposentada em busca de trabalhos voluntários que preencham seu dia-a-dia. Casados há 30 anos e com 3 filhos adultos, Adam e Mary passaram mais da metade de suas vidas juntos, o que hoje, diante de tantas divergências, já não parece fazer tanto sentido, desencadeando assim uma crise conjugal que afeta seus respectivos afazeres, seus familiares e amigos próximos.

Ambientado na Inglaterra, quase nada caricato e muito cativante, Late Bloomers (trocadilho, suponho eu, com a expressão baby boomer) faz uma bela reflexão sobre o amor e a vida de forma atemporal. Aliás, de modo bastante autoral, Julie Gavras (sim, filha do cultuado cineasta grego Costa-Gavras, hoje com quase 80 anos) parece ter o dom de transformar assuntos delicados em substantiva delicadeza. Se em A Culpa é do Fidel (2006) Julie apontava para a revolução socialista sob uma ótica infantil, em seu segundo longa ela se vale da outra extremidade da vida justamente para não transformar a “melhor” idade (afinal, melhor pra quem?) em discurso de experiência e sabedoria. Não que o roteiro da cineasta em parceria com Olivier Dazat e David H. Pickering escape ileso de alguns lugares-comuns próprios da idade, como as síndromes de Peter Pan e do ninho vazio, mas, se o faz, compensa na dose de humor e ironia, caracterizada, sobretudo, pela inversão de papéis de seus personagens. Enquanto Adam resiste até mesmo em participar de um projeto para a construção de asilos de luxo, a personagem de Isabella Rossellini aceita com um pouco mais de naturalidade o fato de envelhecer – o que seria bastante doloroso para uma mulher considerada ícone de beleza –, desistindo da clichê hidroginástica e adaptando sua casa com um telefone de teclas enormes, barras de apoio no banheiro e mesmo com uma cama hospitalar de controle remoto. A tradição e moralismo, quem diria, ficam por conta da reação dos filhos diante da provável separação dos pais sexagenários. Vale destacar também o papel de Charlotte (Joanna Lumley) na trama, como amiga de Mary e líder das Panteras Grises, exercendo uma função essencial na epifania dos protagonistas.

Com diálogos refinados, belas sequências – sobretudo a cena inicial e final – e ancorados por uma dupla de atores de qualidade e renome (com destaque para o charme e elegância da filha de Ingrid Bergman e Roberto Rossellini), que baseados, ironicamente, apenas em sua experiência, talvez já valesse o ingresso, Late Bloomers traça um retrato bastante franco e desmistificado sobre a velhice. O filme adverte ainda que nem mesmo o amor pode deter a individualidade, a passagem do tempo e a iminência da morte. Vida longa à Julie Gavras e ao seu cinema de livre [e sensível] faixa etária, que finalizará sua trilogia autobiográfica de protagonistas femininas de várias gerações com The Chocolate War (título provisório da película), sobre o papel de uma mulher na faixa dos 40 anos (idade da cineasta) na sociedade contemporânea.

 

 

(Larissa Mendes é catarina de berço, turismóloga por opção e cinéfila convicta)

 

 

 

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70ª Leva - 08/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética V

 

Foto: Viviane Rodrigues

 

 

cinegrafias

Gabriel Resende Santos

 

Na poltrona, desperto. Os ruídos
soprando grandes triângulos.
Pirâmides. Cilindros. Em
filas de cinema vislumbrei os pesados volumes
da terra sem lei. No Odeon as mímicas automáticas
de luminosas tesouras de titânio, cortando os tíckets
amarelos. As musas sob a pesada lona
exaltavam Wagner e as danças de mãos juntas.
As musas não se entendiam. Forçavam a trilha-sonora
nos narizes. Nas testas. Onde assinavam as cifras
e o roteiro da obra-prima.  Na poltrona, sabia ser Gigante
e subtrair espíritos em pequenos grunhidos. Era permitido
obter a glória na cabeça do vilão. As palavras flexíveis
viriam das bocas das ninfetas e bem antes das letrinhas.
Porque as musas são de bronze. Porque o céu é de couro.
E depois, porque o depois é fim, na última nota do violino e
no último crédito de figurante, todas as películas do sonho
se tornam uma una e imensa gota corporal
fugindo de olhos entreabertos.

 

 

***

 

da arte de versar cimento

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxao João

 

Hoje o dia de louvar o Mestre
que me confessou o criar
……………………….a partir do partir do criar.

Hoje o dia de lembrar do Arquiteto
sua cal antiga sua pedra antirocha
o comprimido      e       o      comprimento
…………………..mili-métricos.

Hoje o hoje do Canônico
as rosas inomináveis
..a desrazão lógica
os retalhos sem berço

…………………………..Ontem Neto
…………………………..Hoje Primogênito
………………………….. …do Poema.

explicar

Borboletas furiosas
invadem minha privacidade: extrair segredos
que souberam das folhas.

Peço que saiam. Com delicadeza.
Mas elas me fuzilam: o que significa essa di  agr  ama  ção
essa TIPOGRAFIA
essa questão metalinguística:
explica o poema fora do poema
explica a lagartixa o tigre o grifo
explica os segredos do fracasso.

Atiro uma receita de remédio
para os problemas de fibra
e acerto o coração lepidóptero. Ela pousa
meio trêmula

azulada

não pela morte
mas por uma fria ignorância.

Os segredos eu não conto
para nenhuma fúria.
No máximo aponto – sem autocalúnia –
o que me redescrevo.

 

(Gabriel Resende Santos nasceu no Rio de Janeiro, na última década do século passado.  Tem alguns textos publicados em revistas eletrônicas. Atualmente trabalha no que pode se tornar seu primeiro livro. Mantém os blogues Occam, big bangs e outras explosões e Os Escritores Invisíveis)