Ciceroneando

Nunca é demais lembrar do grande poeta Drummond quando este exortava, em versos, que deveríamos seguir de mãos dadas. Mesmo que não saibamos ao certo para qual futuro rumaremos, cabe a partilha dos instantes, os caminhos construídos coletivamente, pois talvez jamais cheguemos a muito longe sozinhos. Ah, o mundo, essa construção dialógica e difusa que não cessa de propagar seus sintomas! Esse verdadeiro painel de contrastes, desacordos, discordâncias, ao mesmo tempo em que agrega gente afinada e disposta a estabelecer trocas úteis por um bem comum. Mas o que seria de nós sem as diferenças de pensamento, sem o contraditório? Um estado de coisas no qual tudo permaneceria inerte? Um cotidiano atravessado pela visão permanente e totalizante sobre tudo? O menor esforço em ensaiar tal cenário uniformizante já nos causaria desassossego. Certamente, há algum saldo construtivo dentro da lógica das oposições de pensamento, daquelas que não se furtam a debater ideias com respeito e equilíbrio. No território das artes e da literatura, por exemplo, é deveras positivo ver a profusão de temas e ideias que sustentam as mais diferentes expressões. Cada autor ou artista confere a uma obra seu próprio tom, sua narrativa, ao nos mostrar olhares peculiares sobre o mundo. E assim vamos movimentando essa gigantesca e complexa roda da vida, estabelecendo pontes dentro e fora de nós mesmos. Na estrada que vai seguindo, encontramos mais gente disposta a somar. É, por sinal, o caso dos poetas Michaela v. Schmaedel, Ramayana Vargens, Samantha Abreu, Tales Pereira e Léa Costa Santana, cujos versos comunicam nuances da vida. Gustavo Rios vem nos trazer ao centro de sua análise a nova obra de Ney Anderson, o livro de contos “O Espetáculo da Ausência”. Por sua vez, Kátia Borges entrevista o escritor Lima Trindade, conversa regada a percursos sobre literatura, música e quadrinhos, dentre outros temas. Guilherme Preger é quem nos oferta seus olhares atentos para o filme brasileiro “Meu nome é Bagdá”. Nossos cadernos de prosa abrigam agora as densas narrativas de Dênisson Padilha Filho, Anderson Fonseca e Wilfredo Lessa Jr. Na seara musical, o disco “<atrás/além>”, da banda O Terno, é tema das anotações de Rogério Coutinho. Nas linhas de Geraldo Lavigne de Lemos, há instigantes mergulhos na obra “Sonetos em crise”, do poeta Jorge Elias Neto. Esta edição está entrecortada pelas imagens do fotógrafo Ricardo Stuckert, cujo trabalho evidencia também um sensível e importante olhar sobre os mais diferentes povos indígenas do Brasil. Sobre esta exposição fotográfica e outros apontamentos em torno da obra de Ricardo, há uma breve análise de Fabrício Brandão. Sejam, bem-vindos, queridas leitoras e leitores, à nossa 138ª Leva!
Os Leveiros
Dedos de Prosa II
Anderson Fonseca

Aforismos
para um ensaio autobiográfico
(Fragmentos de uma obra em processo de criação)
1. …Maria, minha mãe, de 57 anos, tem esquizofrenia.
2. …Nada é mais doce que a tortura cotidiana para deformar o espírito de uma pessoa. Mamãe explicava com muita clareza o método de vovó.
3.…Porque o dizer importa! – exclamava Maria a seu marido. Não, ela não dizia a ele sequer uma frase completa. Maria dirigia sua voz ao invisível que habitava as paredes. Contradizendo o valor do inaudito, ela ressignificava o dizer. A ruptura do silêncio era o emergir de uma nova percepção do espaço que a envolvia. Percepção essa manifestada na palavra. Cada elemento desse objeto sonoro, apenas exercia a função narcisista de realçar a subjetividade de Maria. …quanto mais falava, mais percebia a si mesma.
4.…– A esquizofrenia de Maria obedece à 2ª lei da Termodinâmica. É irreversível. A desordem tende a aumentar até um estado futuro em que você não mais a reconheça. Antes desse dia chegar, é melhor não estar com ela. – sentenciou o médico.
5.… Em 1992, mamãe saiu de casa. Desde então, vivo em 1992.
6.…Existem três verdades sobre Anderson:
………a) Ele, enquanto nome e sujeito, não passa de uma crença reforçada pelo tempo.
………b) Houve cinco Andersons em três décadas e meia. O atual é a soma dos anteriores.
………c) O atual existe em conflito com os anteriores.
7.…Quanto a Anderson não sei o que afirmar, porque:
……..a) O original durou do nascimento até o dia em que uma tempestade se manifestou em sua cabeça.
……..b) O segundo apareceu em 1992, levando à morte o primeiro*.
……..c) Já o outro veio a surgir na virada do século 20, durante o curso de Letras.
……..d) E o quarto sorriu em 2012, assim que suas mãos envolveram a pequena Ana Clara.
……..e) Mal conheceu a traição, o quinto emergiu.
…. Daí a impossibilidade.
Estou certo disso: o segundo é uma constante que molda todos os posteriores.
8.…Um parasita controla o cérebro de minha mãe. No exato instante em que o ingeriu, perdeu o domínio das emoções. Agora não sei dizer se ainda há algo nela que possa ser Maria.
9.…Em 26 anos, ela desapareceu.
10.…Mas antes de esvanecer, Maria foi:
………………a) A mão que rascunhou minhas fantasias.
………………b) Os cabelos encaracolados que enovelavam-se em meus dedos.
………………c) O riso ante o grito e a angústia.
11.…Em 26 anos, percebo agora que eu também esvaneci; mas para quem?
12.…Deus ama os seres mutilados.
13.…A ordem era que, com oito semanas, o prepúcio que envolve a glande fosse cortado. Mas, somente com oito anos, tive esse privilégio.
14.…Quando a pele foi arrancada, Deus tirou de mim o prazer. Em seu lugar, a graça de uma vida clemente.
15.…A Bíblia tornou-se minha penitência. E após um tempo que não sei determinar, me converti.
16.…Na conversão perdi o meu nome. Perder o nome é o mesmo que cindir o ser.
17.…Eu sou um homem mutilado.
18.…As mutilações foram três sequencialmente:
………………a) Maria.
………………b) O prepúcio.
………………c) A traição.
19.…Deus me ama.
20.… A loucura constitui-se em um crime contra seu possuidor. Há quem o converta em poesia. Não o louco. Com que paga seu crime? Barganhando o corpo. É uma oferta generosa: perder um pouco de si para ganhar alivio à dor.
21.…O louco, meu amigo, é um penitente.
22.… A oferta teve um lucro: Kelly.
23.…A avó não permitiu que Maria cuidasse da própria filha. Kelly foi tomada. O louco não é apto para cuidar de uma criança. Que pena! Ninguém permitiu que criasse os filhos. Nem Deus, nem o marido, depois nem o primogênito. Acusada, foi banida.
24.…Internada em um hospício, fugiu.
25.…Em um instante de frenesi, quando o delírio toma as feições do espírito e o poeta manifesta-se cantando o porvir, Maria gritava nos corredores do hospital.
26.…Sem filhos, assim ela passou o resto da vida.
27.…Maria morreu em uma cama de hospital sem estar cercada pelos próprios filhos.
28.…Morta, Maria foi sepultada.
29.…Kelly esteve presente, apenas.
30.…Sem Maria tudo é permitido.
31.…Sem ela, Anderson é responsável por qualquer dor que a escolha lhe trouxer. Não pode mais culpá-la.
32.…É tarde
* N.A.: O primeiro não é o mesmo que o original, cujo sentido etimológico é creatio ex nihilo.
Anderson Fonseca é autor dos livros “Sr. Bergier e outras histórias (2016)” e “O que eu disse ao general (2014)”. Atualmente, cursa Mestrado em Filosofia na Universidade Federal de São João Del Rei.