Foto: Ricardo Stuckert

Eis que a Diversos Afins completa 14 anos de existência. De lá para cá, navegamos muitas águas, movidos sempre pelos atrativos da palavra e da imagem. Acostumamo-nos ao flerte constante com todas as possibilidades narrativas que dialogam com nosso projeto editorial. Por ser um território difusor de expressões do pensamento através da arte, a revista tem logrado êxito porque, acima de tudo, conseguiu fomentar encontros. Sempre é bom lembrar que, por trás de cada colaboração presente em nossas páginas e galerias, há rostos que subscrevem suas criações, gente de carne e osso que nos conduz pelas alamedas de suas obras. A riqueza maior do nosso trabalho tem sido a construção de uma valiosa memória coletiva de textos e imagens, todos eles tributários de diversos segmentos culturais, tais como a literatura, o cinema, o teatro, a música e as artes visuais. Desde a fundação da revista, em 2006, um grande e plural acervo foi sendo construído e contempla, ao fim e ao cabo, registros de tempos, de movimentos internos dos escritores e artistas que foram sendo expostos voluntariamente ao longo dos anos. Todo o conjunto de publicações advoga pela defesa incontestável da manifestação do pensamento através da criação artística, e é sempre bom reafirmar isso, ainda mais no momento em que vivemos, o qual traz consigo a energia de algum obscurantismo a tentar nos devassar. De todo modo, não cederemos ao ideário de destruição que, por exemplo, teima em dinamitar o campo cultural brasileiro. Seguir adiante é mais do que resistir, significa exaltar vidas, mostrar que cada uma delas tem algo a nos dizer. Por isso, seguimos, prestando atenção nas vozes que se aproximam. E o momento traz até nós os poemas de gente como Ricardo Thadeu, Elizabeth Hazin, Galvanda Galvão, Wesley Peres e Ângela Coradini. É especial a entrevista que Sérgio Tavares fez com a escritora Ana Paula Lisboa, cujo pensamento nos instiga a refletir sobre demandas urgentes de nosso tempo, como é o caso do racismo. Girando no nosso Gramofone, está “Cinzento”, o novo disco de Marcos Valle pelas impressões de Pérola Mathias. Nas linhas de Geraldo Lima, uma leitura para “Cinevertigem”, livro de Ricardo Soares. Nossos cadernos de prosa, são embalados pelas narrativas de Jonatan Magella, Maria Lutterbach e Aleilton Fonseca. Com todo seu apreço pela sétima arte, Guilherme Preger nos brinda com uma atenta análise sobre o filme brasileiro “Piedade”, do diretor Claudio Assis. Nas reflexões de Gabriel Morais Medeiros, a temática da necrocidade perpassa a poesia contemporânea. São as colagens digitais de Claudio Parreira que, com o brilhantismo das inquietações, povoam todos os recantos de nossa nova jornada editorial. Dedicamos a 137ª Leva a todos aqueles que tiveram suas vidas ceifadas pela covid-19, pois para nós essas existências jamais serão meras estatísticas. Nosso muito obrigado a todos os leitores e colaboradores das mais distintas eras. Salve!
Os Leveiros
Galvanda Galvão

3la
ela acendia todos os cigarros
adorava a memória dos dias
a pressa e as caixas
globos de fogo nas mãos, a corrosão
no burburinho do barco ouvia-se toda a família
a mãe o irmão da mãe o pai numa fotografia obscurecida
não se falava ali
ela insistia numa cantilena
não a conheço e a amo
inventava sinais pra abrir labirintos
vozes nos corredores
a indeterminação
a sombra
a repetição – fica
demoro-me numa obra aberta
espero o mar
***
se você me encontrar? atravessa-me
ela sob a muralha da China
instinto de liberdade diz
a companhia presente de solidão
mão pé um corpo nas manhãs
a noite não tem cor
grafava as linhas caídas do papel
abstraía vendaval com barbitúricos
a massa gritada no comercial atrás da porta
a raiz quadrada
o fazer
havia um nome no indeterminável
não ser ela resquício de existência
meudeus
triturava as correntes o sal
a barbárie no giro do relógio
quebrar a cabeça
soprar as minhocas
estamos e não estamos
num mundo voluntariamente sibilino
precisão de certeza
***
protocolo clinico e diretrizes terapêuticas
essas palavras ecoaram quando desenhava o risco
Michaux num alfabeto não nomeado
todas as letras escapavam
davam-nos sinuosas sombras
fechava os olhos
círculos birutas prolegômenos ou introdução
o feminino são dois
pedras adensavam a ventania
meu suor e medo estáticos
raízes em doses homeopáticas
um bárbaro pinta Beatriz vermelha
performance erótica de um anjo
contra uma identidade trágica a violência da serpente
rasgava a bula
não acentuava palavra
***
ela pensava as trilhas com K
no Egito o sol tem os braços peludos
nos mínimos detalhes
o pertencimento
a realidade no caos reverbera
perto desarranjava
a língua os objetos
fora de lugar
único e multiplicado
pele transparente
pulsa ante a força aquática
o que está junto se mistura
palavra-mão
o infinito
pergunta insistente
sem pressa continuar
o vão o silêncio a montanha
na pedra o deserto
superfície, abismo
memória instantânea
o corpo extraviado
o que fica da aparência
vigor destilado
cadente morte
…………………………………………. [outra
***
o peixe elétrico
saltava Sodoma
em verso Dionísio
havia de beber
uma precisa liberdade
cogitava montanha
era rio
singular obsceno
tocava estrelas
viragem
explodia num corpo seu outro
guelra sangue coadunado
na pedra penetrava
lusco fusco burburinho
memórias acendiam o presente com cara de homens
a rede a morte
estendia olhos e dentes
ele sabia voar guardava um desassossego
***
Ela n.2
as mitologias nas prateleiras
num não lugar, diz-se, virtual
ela observava catálogos
páginas abertas para uma expressão singular
uma repetição contínua
a obsessão e o jogo
amianto na cidade, sufoca e protege
pulmões, árvores condicionados
o destino não enxerga correspondência
uma cartomante entrega muiraquitã numa piscadela
lembro de Levi Strauss
as palavras dela são as primeiras apagadas
vício de linguagem, sobrevivência
esta carta deve ser enterrada
afirma
já nem sei quem fala
os funâmbulos em páginas
mensuraram questões pontuaram
voltava às prateleiras
…
não lembrava o nome do deus
***
eu era Ana
avesso Cesar
cigarros e bombas
pensei
imaginava estrelas
queria enxergar longe
tocar estações
galo e sol enredados
cartografar continentes
carregar questões
ruminar o vazio na barriga do rei
varar geleiras
adentrar a pele
colar a sombra
descabelada voar
Galvanda Galvão, videoartista, colagista, fotógrafa, professora e escritora do livro UMLANCEDEDENTES da Edições Do Escriba & uxi.cão, 2017, reedição, 2019 e AMENINAANOLIMOC da editora uxi. Cão, 2013. Sou pesquisadora do PPGARTES-UFPA em Cinema sob orientação do Prof. Dr. Orlando Maneschy. Participo do Projeto plataforma Kaquiado do Preamar de Cultura e Arte da Fundação Cultural do Pará coordenado por Felipe Pamplona 2020.
Por Guilherme Preger
Piedade. Brasil. 2019.
Piedade é a última obra do diretor brasileiro Cláudio Assis. Lançada no Festival de Brasília de 2019, lamentavelmente por causa do período de pandemia, o filme não passou nas salas de exibição pública, sendo transmitido gratuitamente num único dia por uma plataforma de mídia digital sob demanda. Assim, infelizmente a assistência individual prejudicará a recepção coletiva dessa importante obra que coloca em questão os marcos econômicos, afetivos e civilizatórios da sociedade brasileira contemporânea.
A história do filme se passa numa praia próxima à cidade de Recife, denominada exatamente Piedade. A localidade é ficcional, não sendo necessariamente a praia de mesmo nome em município contíguo à capital pernambucana (na realidade, a produção da filmagem ocorreu em Cabo de Santo Agostinho). No filme, a praia se encontra ao lado de um estaleiro de uma empresa de Petróleo denominada PetroGreen. O estaleiro lembra o Porto de Suape real (na verdade foi filmado a seu lado), cuja construção é considerada como o principal motivo dos constantes ataques de tubarões das praias ao redor. Na praia do filme também ninguém pode tomar banho de mar por causa dos tubarões, problema que se repete nas praias metropolitanas de Recife, inclusive na própria Piedade real.
A história envolve o bar de Dona Carminha, matriarca viúva vivida pela atriz Fernanda Montenegro. Aurélio (vivido pelo ator Matheus Nachtergaele) é enviado pela empresa petrolífera para comprar o bar que está à beira da praia de Piedade. O bar é o centro de uma comunidade local que se sustenta trabalhando no estabelecimento e dividindo comunitariamente os ganhos. A empresa de Aurélio pretende se expandir para a faixa litorânea onde o bar se situa. A oferta de Aurélio é tentadora, pois, devido à presença do estaleiro, os terrenos litorâneos estão desvalorizados. No entanto, o filho mais velho de dona Carminha, Omar (vivido por Irandhir Santos), se coloca contrário à venda.

Omar é contrário ao negócio, pois, embora a praia esteja degradada pela presença lateral do estaleiro e a proibição do banho de mar pelo perigo dos tubarões, o bar ainda é um pedaço de natureza que resiste ao avanço da economia predatória. A vida livre e despreocupada da comunidade se dá num terreno fronteiriço, exatamente no limiar entre a economia extrativista do petróleo e a economia solidária, baseada no atendimento pessoal, na alimentação e na culinária marinha. Mais do que uma porção preservada de natureza, o que há na comunidade é uma amostra de sociabilidade nativa, que guarda a memória afetiva e histórica do território.
Mas Aurélio é um personagem fáustico que tem não apenas o dinheiro das indenizações a oferecer, mas também traz o discurso empreendedorista, com seus argumentos meritocráticos e individualistas, capazes de levantar a cobiça e a ambição dos moradores de Piedade. Contra a resistência que ele encontra da comunidade, em particular de Omar, ele desencava uma obscura história familiar de Dona Carminha que conduzirá a família a Sandro (vivido por Cauã Reymond), que é dono de um cinema pornô no Centro de Recife. Essa história irá emergir como uma bomba traumática no seio antes pacificado da família de Carminha e de Omar.
O enredo de Piedade então se constrói na oposição ferrenha entre dois modos de existência quase incompatíveis: o da comunidade livre e autossustentável e o da economia extrativista e predatória. Esses dois modos estão representados na caracterização antagonista entre o demoníaco Aurélio e o idealista Omar. Aurélio é um típico emergente paulistano, cínico, oportunista e endinheirado, que leva uma vida hedonista de conforto padronizado e inautêntico; enquanto Omar, sempre de bermudas, chinelo e cabelos longos desalinhados, tenta desfrutar da vida como ela se apresenta, sem grandes ambições. No entanto, há ruídos nessas caracterizações: o idealismo pacificado de Omar esconde sua insatisfação e sua revolta com a degradação ambiental do suposto progresso econômico ao seu redor, e a homossexualidade desabrida de Aurélio parece esconder a recusa vexaminosa de seu passado provinciano e conservador, representado por sua mãe, com quem conversa virtualmente.

Neste filme de Cláudio Assis há semelhanças com o também pernambucano Aquarius, de Kleber Mendonça (2016), pois em ambos vemos a defesa de personagens contra a especulação imobiliária e a favor da memória afetiva, em Aquarius mais individual, enquanto em Piedade mais coletiva. Em ambos se apresenta o conflito entre os modos de vida locais e o avanço destruidor do progresso econômico. A comunidade nordestina algo idílica da praia ficcional de Piedade também lembra a existência livre da comunidade dos jovens artistas do filme Febre do Rato (2012), do mesmo Cláudio Assis. Os três filmes trazem também de semelhante a presença do ator Irandhir Santos. Mais do que influências mútuas ou mesmo referências comuns é preciso compreender a relação entre esses três filmes como uma espécie de conversação cinematográfica. Todos esses filmes colocam em questão a lógica da voracidade consumidora do modelo de extrativismo econômico das últimas décadas no Nordeste. Esse modelo devora não apenas os recursos naturais, mas também as linguagens, os modos de vida, as memórias e as esperanças dos personagens.
Daí que o protagonista do filme talvez seja mesmo o tubarão. A primeira cena deste filme de Cláudio Assis é de jovens surfistas nus e mascarados em cima de suas pranchas protestando por não poderem mais tomar banho de mar por causa do perigo dos tubarões. Mas a suposta agressividade desses peixes é tratada no filme não com temor, mas com solidariedade: os tubarões são tão vítimas quanto o povo pernambucano dos desequilíbrios ecológicos provocados pelo modelo extrativista. Na verdade, o tubarão-peixe é uma alegoria do verdadeiro tubarão-humano representado pelos empresários cínicos e diabólicos como a personagem de Aurélio. O modelo extrativista traz em seu bojo a lógica monocultural que se manifesta nos trajes acinzentados e na postura higienizada e desafetada da personagem ficcional de Nachtergaele.

Pela via metafórica da imagem do tubarão pode-se entender a perspectiva fundamentalmente alegórica e memorial de Piedade. Nesse aspecto o filme está mais próximo da obra anterior de Assis, Big Jato, com o mesmo Matheus Nachtergaele, que era uma construção memorialística e alegórica da infância de seu autor, também escrito pelo roteirista Hilton Lacerda. É possível dizer que o filme trabalha com um deslocamento metonímico e alegórico em relação ao retrato da sociedade brasileira: há uma praia brasileira de Piedade que não é a mesma do filme. Há um estaleiro de Suape que também não é o mesmo retratado no enredo. A empresa poderia ser a Petrobrás, mas denomina-se PetroGreen. O cine-pornô de Sandro se chama Mercy, que é o termo em inglês para Piedade. Vários atores do filme, inclusive seu próprio filho, participaram de obras anteriores do diretor. Numa das cenas, que ocorre no cine-pornô, o projetor passa imagens do filme Baixio das Bestas (2006) e por um momento o corpo do ator Cauã Reymond é filmado em meio às projeções iluminadas do filme anterior de Assis.
Essas conversações cinematográficas com obras anteriores compõem um enredado de imagens que não apenas reflete e confronta outras representações mais diretas da assumida realidade brasileira do novo século, ou suas formações ideológicas, mas tecem uma trama figural daquilo que é e do que poderia ser. Ou seja, são figuras de mundos possíveis. Essa figuralidade fílmica ganha então uma potência onírica que é ambivalente, e por isso capta não apenas a guerra de poderes, mas também os desejos, as memórias e as esperanças de seus personagens. Justamente, em Piedade, a cena mais crucial do roteiro é indecidivelmente ambígua: trata-se de um sonho ou de uma cena vivida?
Assim, de modo contrário ao filme igualmente onírico Bacurau (2019), também de Kleber Mendonça, se o desfecho será de vitória ou de derrota para a resistência popular é de menos importância. Cláudio Assis tem desmontado a própria necessidade trágica dos desfechos catárticos ou sublimes. Piedade traz em seu título a recuperação de um afeto básico que está em falta nas elites dominantes e nos códigos monoculturais de seus modos de produção e exploração. O afeto da compaixão não tem sentido nesse mundo unidimensional, mas é ele que colore com maior ou menor melancolia as lentes desta obra mais recente do diretor pernambucano.
Guilherme Preger é natural do Rio de Janeiro, engenheiro e escritor. Autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Oito e Meio/2014). É organizador do Clube da Leitura, principal coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro e foi organizador de suas quatro coletâneas de contos. Atualmente é doutorando de Teoria Literária pela UERJ com a tese Fábulas da Ciência. É colaborador do site de produção poética Caneta Lente e Pincel. Escreveu sobre cinema para o site Ambrosia.
Maria Lutterbach

Fuga número 1
No meio do país ainda se acredita em Deus e no casamento, as pessoas vão à praça, fazem festas na calçada da igreja, sorriem e comem carne em churrascos civilizados lá no meio, longe de tudo, perto do mato e da água, onde poderiam ser mais selvagens, acreditam no progresso e confundem progresso com:
Deus
emprego
casamento
previdência
e morte
A gente não cresceu ainda, então é mais fácil fingir de doida e escapar da catequese para ir nadar, correr léguas da catequese e zunir da missa, cruzar a rodovia na garupa de uma moto e queimar a batata da perna, beijar atrás de um caminhão pisando em galho seco, fazer gangue para roubar bombom, se depilar na casa de uma tia
estranha
voar para muito longe dali
e nunca mais voltar
***
Fuga número 2
Se tudo começa quando a gente fala, então as palavras eram:
mapa
mala
festa de adeus
(último) contra-cheque
salto
medo
vontade
Socar tudo em duas portas de armário, vender a mãe e a sogra num mesmo pacote, telefonar para aquela prima distante, cavar uma carona no sete de setembro e varar as montanhas para pegar essa garoa que molha a alma e às vezes demora a secar.
mas seca
e a gente aprende que é bom
carregar capa de chuva
***
Fuga número 3
Ali está um bueiro (a palavra é alcantarilla, em espanhol) feito para quem não teme passeios pelo subsolo dos diabos brancos, como o da carta do tarô.
– desça, diz o lobo
no eco de um bom mistério
Metros abaixo, a vista embaralhada de desejo e perdição, exploro corredores compridos, sem bússola nem lanterninha. Viro menina-morfina sob um feitiço amoroso que abraça e paralisa.
– dance, ri o lobo
ao som dos seus maiores medos
Nas galerias que servem como salões de baile, sou vestido, maquiagem, laço grande no cabelo. Quase não sei por qual buraco entrei e tenho um arranhão vermelho no pescoço quando a festa termina.
– fuja, rosna o lobo.
com uma boca enorme que me morde forte
mas assopra sempre que o primeiro raio de luz
atravessa nosso quarto
Maria Lutterbach (1982) é mineira e vive no Rio de Janeiro, onde escreve e realiza projetos audiovisuais. Foi cronista do jornal “O Tempo”, de Belo Horizonte, e colunista convidada no blog da saudosa Cosac Naify. Seu romance de estreia, “Baixo Araguaia”, será lançado em breve pela editora Quelônio (SP).
Por Pérola Mathias
MARCOS VALLE – CINZENTO
Claro que em janeiro não sabíamos o que estávamos prestes a viver pelos próximos 7 meses: uma pandemia. Mas já tínhamos fatos e dados suficientes para saber que, sendo brasileiros, teríamos um ano difícil – ou, no mínimo, desafiador. Ao menos em termos econômicos e políticos. E parece que o disco de Marcos Valle, lançado ainda no primeiro mês do ano, parecia já dar conta desse ar no qual estamos imersos. Seu título é “Cinzento”, e traz na capa uma foto em que Valle aparece sério, envolto por um plástico transparente.
Marcos Valle tem quase 60 anos de carreira. Seus discos marcaram fases e períodos diversos da música brasileira, justificando que um crítico o considerasse, ele mesmo, um gênero musical; caracterizado pelo “estilo valleano”, na qual cabe bossa, cabe experimentação, cabe jazz e cabe pop.
Ao ouvir “Cinzento”, três aspectos parecem saltar aos ouvidos. O primeiro são as letras e os arranjos. Elas soam atuais, urgentes, feitas mesmo com a consciência de que o agora precisa ser transformado para continuar existindo. O segundo é que o disco foi composto por parcerias diversas: a clássica de Marcos com seu irmão Paulo Sérgio e também com uma geração bastante conhecida de músicos cariocas, mais novos que Valle. Entre eles, Moreno Veloso, Domenico Lancellotti, Kassin e Bem Gil. O músico também recuperou uma parceria sua com Zélia Duncan, ainda inédita. Somam-se ao time, ainda, Jorge Vercillo e um dos maiores cancionistas do país, Ronaldo Bastos. A faixa de abertura e a faixa-título do disco são de uma parceria inusitada, porém bem sucedida, entre Valle e o rapper paulistano Emicida. O terceiro aspecto é a leveza com que o disco consegue ir de um retrato da realidade ao tema do amor. O que lembra o feito do músico no seu clássico “Previsão do tempo”, de 1973. E é preciso dizer que essa “leveza” é implícita no som característico de Valle, e não resultado de uma negação da aspereza da vida real.

Logo no primeiro minuto, é impossível não se render ao groove de Valle somado aos versos “Se tudo é ciclo, me reciclo e volto mais bonito, ano que vem/Em tudo eu acho graça/Mesmo em meio à desgraça/Entendo e rendo graça/Que a vida ainda é de graça”, que soam como profecia ou mantra. “Cinzento” também traz o tema do tempo, cita o deus Cronos como um ser de fome voraz. Mas sem o movimento do tempo, não há aprendizado. Admitindo a grandeza do tempo, é possível libertar a alma. E Valle e Emicida deixam o recado: “Pra ciência e outros campos que aciono/Alinhado com cada cromossomo/Grisalhos cabelos dizem bem como somos/Bem tranquila nos aguarda num domo/A cinza sabedoria de cajado e quimono”.
“Se proteja”, parceria com Bem Gil, também parece trazer um recado de como enfrentar dias difíceis: olhando para si mesmo. Diferente das composições que Valle assina com Moreno, Kassin e Domenico, nas quais predomina a temática amorosa. As músicas são “Redescobrir”, “Lugares distantes” e “Pelo Sim, Pelo Não”. Nesta última, a cantora Patrícia Alví, também esposa de Valle, canta junto a ele.
A letra de Jorge Vercillo em “Só penso em Jazz” faz tremer as teses críticas escritas por José Ramos Tinhorão nos idos dos anos de 1960. Nela, o sujeito revela uma completa paixão pelo jazz, que poderia ser completamente sem sentido, já que “cê fica louco” e “cê ganha pouco”, diz. Mas a alegria do som vale a pena e ele termina ligando nomes de diferentes vertentes da música brasileira, não apenas da bossa nova, ao jazz, como Ivone Lara, Capiba e Luiz Gonzaga.
“Cinzento” saiu pelo selo brasileiro Deck Discos, menos de um ano depois do disco “Sempre”, lançado em junho do ano passado pelo britânico Far Out Recordings. Esse último tem uma sonoridade mais ligada à bossa, enquanto o último soava mais funky e pop. O disco pode ser um belo afago para sua quarentena, caso ainda não tenha escutado.
Pérola Mathias, doutora em sociologia, pesquisa música contemporânea e é autora do blog Poro Aberto.