tatuagem sonora nº2 para criança de seis anos e oboé
……………………….O HOMEM COISA CÓDIGO alguma
invertebração recifra a angústia substância limítrofe
e análoga ao silencioso gozo sonoro em sua morte
instilada nos poros gemidos bordas erógenas fazem
vibrar os átomos até sangrarem também o lugar do
corpus da palavra minério inervado resto vivo o
nada dos corpos ancestrais, rastros ventos pássaros
passaram alando túmulos de cadáveres vivos:
palavras. Gerações passadas restos de cotidiano e
restos pelos sonhos sonoras vertebrações em
vértebras vértices remoendo o corpo parolando com
a morte esse eutro na sala enquanto o meu pó da pele
ele se iluminam de objetos
***
atoms at work
para Campos de Carvalho
A maçã sobre a cadeira.
Uma noite, dentro da maçã.
A criança, sequer vê o vento,
senta-se, trincando a noite
da matéria
(Os cães, sim, latem — ..os únicos a escutarem o instante ..em que o mundo se torna o mesmo).
Um homem esperando o trem
adivinha a criança
é mais feliz do que o outro
aguardando a eternidade.
A chuva imóvel contém
nossos possíveis passos.
A infância é mesmo indestrutível.
***
Poema gerado de implosões do Levítico e de impressões deixadas por haver acontecido o que não acontece em Goiânia 1987
E ACONTECEU O QUE NÃO ACONTECE E DESCOBRIU-SE QUE AS foices
também podem ser azuis e foi um pássaro amitológico mortoabertorasgado
pela invisível lâmina azul que simulava cidade vista de cima e à noite no corpo nu
da mulher de longos cabelos dona do pássaro amitológico mortoabertorasgado
e foi na cidade de sol sólido e em setembro e o sol sólido da cidade e tudo
permanecia quando alguma pessoa tocar em corpo morto ainda que não
soubesse, contudo será ele imundo e culpado. Culpada, esse o veredicto dado
pelo polvo de mãos alando e espedaçando lápides sobre o caixão da menina
eviscerada pelo azul que não se vê. Porém pode-se usar da gordura de corpo
morto, e da gordura do dilacerado por feras, para toda a obra, mas de nenhuma
maneira a comereis. Invisível e sem cheirodor esse azul esse maldororazul que
captura vísceras e lambe-lambeu por dentro o corpo da menina eviscerada e
apedrejada por vozes uma verdadeira aletria sonora corpodecão outros
vitupérios singulares e plurais. E aquilo sobre o que cair alguma parte de seu
corpo morto, será imundo; o forno e o vaso de barro serão quebrados; imundos
são. E quem comer do seu cadáver lavará as suas vestes, e será imundo até à
tarde; e quem levar o seu corpo morto lavará as suas vestes e será imundo até à
tarde. E todo o homem entre os naturais, ou entre estrangeiros, que comer
corpo morto ou dilacerado, lavará as suas vestes e se banhará com água e será
imundo até à tarde e depois será limpo. E devorada de azul e pedras e
vitupérios tentaram fazê-la ela a menina eviscerada morrer uma segunda vez,
assim como Judas morreu uma segunda morte ao trair Cristo antes mesmo de
morrer a primeira. O corpo morto e o dilacerado não comerá, para que não se
contamine com ele.
***
AGORA SÓ ELA E SUA CAMA SÓ ELA E seu
corpo decalcado na cama. Fala decerto a
língua dos mortos, decerto menos deserta do
que a língua dos vivos. Ela, só, na casa-de-
receber-enfermos. Enfermo, essa palavra.
Recobre apascenta a boca da palavra ausente.
(O homem crê em Deus e nas pedras. Sonhou
a clareza de seus olhos implodidos densos de
um imenso sol soletrado pelo calmo ninguém
que habita o homem só com o seu corpo).
***
HOMEM, SUAS MORTES
iluminam Deus e os seus restos.
Guardo-me em qualquer silêncio.
Coleciono matérias.
O corpo é um Deus sem nome.
***
FALAR É OUVIR O VÔO DE UM pássaro que
não há, deslocar Deus de casa e não dar
nome. Falar é experimentar entre o olho e a
coisa dada o que há não há. E o pássaro que
voa, voa na polpa seca da chuva que aresta
os sonhos. Falar é haver morrido, tocar
outra voz.
Wesley Peres é escritor e psicanalista. Autor de As Pequenas Mortes (Rocco), Casa entre Vértebras (Record), Corpo de uma Voz Despedaçada (Martelo Casa Editorial), dentre outros. Mora em Catalão-GO
Estava morta a minha irmã, ali entre jasmins e rosas, minha mãe à cabeceira chorava. Era uma noite inquieta, essa do velório em vigília e prantos por Estelinha, de quando em quando se rezavam benditos. O enterro iria seguir no outro dia, no meio da manhã de sol.
Estela estava morta, aos treze anos. E eu sentia dentro de mim esta morte. Era um pouco também eu morto, sem tempo de me redimir e poder amar minha irmã, como — só agora! — eu sabia ser capaz. Ela não morresse, eu iria brincar com ela, nunca mais uma zombaria, nem desprezo, nunquíssimo a chamaria de “sua doida”.
Pois agora eu começava a compreender sua linguagem; logo agora, desde que ela se fora para o hospital, eu comecei a entender seus diálogos compridos com as pedras, com os tocos de pau, com as folhagens ao vento. O silêncio de sua ausência no quintal se mostrou dentro de mim em tons de uma saudade estranha. Mas, ainda ali, eu não suspeitava do que me vinha na alma.
Tudo fora a ordem do tempo. Ela nascera primeiro, três anos antes de mim. Agora a diferença encurtava, mas justo quando eu me afogava nesse deserto de lágrimas. Pela primeira vez, eu dialogava com a minha irmã:
— Estela, acorde, vamos conversar com as pedras — sussurrei no seu ouvido, ninguém me escutasse.
A madrinha veio me consolar, eu tivesse paciência, fora a vontade de Deus, o melhor para ela, tão doentinha, coitada. Tive raiva de madrinha, no meu mais íntimo sofrimento. Continuei a conversa, até que me puxaram pelo braço, pois minha mãe redobrava-se no pranto.
— Estela, acredite em mim agora. Vamos correr picula.
O corpo dela suava, dormindo sem ressonar. Um pano envolvia seus cabelos castanhos e descia para sustentar seu queixo — talvez para conter o sorriso? Minha mãe enxugava o suor da morta com o mesmo lenço em que depositava as próprias lágrimas. O tempo voltasse, meu Deus! Eu só implorava um único milagre. As imagens desfilavam na minha memória, eu a escutava como se fosse agora:
— Vamos brincar, Dindinho.
— Não me chame de Dindinho! Meu nome é Pedro — respondia áspero, sem sequer olhar, e ia saindo.
Eu pensava odiar o fato de ter uma irmã assim. Ela insistia, amorosa, que me dava um constrangimento.
— Não, ninguém sabe, mas é Dindinho, seu nome bonito, eu chamo — dizia, como se eu continuasse presente.
Eu fugia de ter essa irmã. Os meninos me abusavam. Várias vezes briguei por me chamarem de Dindinho, o irmão da doida. Dindinho, eu mesmo não! Minha mãe já ia pegando o costume de me chamar assim, nas vontades de sempre agradar a filha. No contra, eu me rebelei, fugi de casa um dia inteiro. Minha Mãe me deu uma surra, depois, mas nunca mais me chamou daquele nome.
Por que ela existia? Eu não me dirigia a Estela. Mudava de rumo, baixava os olhos para não dar com ela. Eu a considerava um estrago na minha vida. Quis muito que morresse.
Ela me surpreendia, às vezes, antes que me mostrasse irritado, como quase sempre acontecia:
— Quando você morrer, Dindinho, de que cor você quer suas asas no céu?
Uma coisa tão sem sentido, que eu sequer respondia. Apenas fazia uma careta de enfado, balançava a cabeça negativamente. Ela me cercava os olhos, inventava brincadeiras cada vez mais estranhas, para conquistar minha atenção. Isso tudo mais me afastava. Os meninos, meus amigos, considerassem que eu não tinha irmã, pois mencioná-la era já motivo de desavenças. Fiquei de mal com alguns dos melhores, tempos e tempos, por essas causas.
Diante de minha repulsa, Estela intentava uns modos de me sensibilizar, sem o menor sucesso. Um dia, posto que eu a estivesse atentando muito, ela imaginou uma proposta das mais descabidas. No começo da noite, ela, depois de tanto silêncio, me propôs com a maior certeza do mundo:
— Eu lhe dou uma coisa para sempre, aquela estrela grande será só sua a vida toda e depois, Dindinho.
— Ora, quem pode ter uma estrela, “sua doida”? — desdenhei.
— Pois pode, porque é minha e eu lhe dou só pra você, Dindinho. Mas só se você sorrir para mim, todo dia, uma vez… Só uma… Você quer?
Nunca soube sorrir para você, Estela, me perdoe. Quando eu tomava posse de mim mesmo em mais profundo, quando um sorriso germinava no fundo de minha alma — e seria seu! —, você já não estava aqui. Até hoje só me vêm as lágrimas que nunca tive antes, quando você vivia em seu mundo de imagens, que só percebi depois. Eu era mesmo um Pedro, o coração tinindo na dureza, você foi me amaciando. Você, aos quase quatro anos, me carregou no colo. Eu era seu neném, como a nossa mãe me contou, depois de tudo, tardiamente. Estela… Tudo podia ser tão diferente!
A noite ia avançando, em horas que eu não conhecia, os meus olhos já desistentes. Eu me debruçava sobre a morta, o sono me empurrava para ela, nos movimentos bruscos dos cochilos. Minha mãe me mandou dormir, e eu, depois de insistir negativo, enfim saí cabisbaixo da sala, a solidão me completava. Não me dirigi ao meu quarto, mas ao que ficava ao lado. E examinei os ângulos daquele lugar, tudo tão limpo e arrumado numa ordem que eu não conhecia. Ali, enxerguei os contornos deste vazio que até hoje carrego. Fiz meia-volta e caminhei para o meu leito, mas não consegui me acomodar. O sono me apertava os olhos, uma agonia no peito teimava-me pela vigília. Quis retornar à sala, mas nossa mãe me suplicou que não, com um olhar terno, tão raro aquele olhar… Eu voltei, mas não para o meu quarto. E me deitei na cama de Estela, deixando na alfazema do travesseiro o sal dos meus olhos.
Eu me vi vivendo o melhor que nossa realidade. Estela me sorria, corria de mim, eu não tinha pressa de apanhá-la, era talvez picula. O nosso quintal se alargava, o caminho de plantas, paus e pedras ia-se margeando em nuvens sem um fim que se avistasse. Eu tinha o saber de tudo, mas não me importava, o sorriso de Estela me preenchia e me fazia leve, que então voávamos. Eu queria alcançar minha irmã, mas não podia lhe pedir que parasse. Estela tinha um voo firme e certo, e eu, me parece que só voava no seu vácuo. Mas eu a queria, buscava-a para um abraço que faltava em mim, um toque que me transmitisse os seus modos de sorrir. Eu queria conversar com as nuvens, e as pedras lá embaixo já me sorriam, as folhas acenavam para mim. Estela ia-se distanciando, eu me surpreendi no cansaço desse voo, as nuvens perdendo sua leveza. Estela! Estelinha, me dê a mão! Me leve com você! Mas o seu sorriso já me abandonava. Ela se foi fazendo em cor de nuvem, aos poucos me vi sem olhos para tê-la. E era tarde, muito tarde: tive um sobressalto, e tudo que agora eu via eram as telhas vãs do nosso quarto.
A manhã se ia acesa como as velas, numa rapidez que doía em nós. Vi que minha mãe não dormira, velara nessa noite toda uma vida ao lado da filha. Era um olhar cansado, dela para mim, com um desencanto mudo, enxergando o nosso vazio. Acerquei-me dela, os seus braços me tatearam. E logo me acariciava os cabelos com a mão direita, com a outra acariciava os cabelos de Estela. Inesquecível aquele gesto de nossa mãe, em toda a nossa vida, por seu corpo passando a nossa última sintonia.
As pessoas iam chegando, a hora do enterro se aproximava. Madrinha apagou os quatro tocos de vela acesos ao redor de Estela. Começaram a distribuir os ramos de flores para o acompanhamento. Eu reparava nos meninos e nas meninas que se acotovelavam para ver a morta. Alguns que sempre zombavam dela. Uns me pareciam tristes, outros apenas viviam uma aventura. Eu me sentia completamente afastado de todos.
Iam fechar o caixão. Minha mãe despejou mais lágrimas e inquiria Deus pela morte da filha. E até madrinha, pela vez primeira, soltou as rédeas do seu pranto. Eu me guardei no silêncio, peguei um ramo de rosas que estava próximo ao rosto de Estela. Não me pareceu que eu pudesse beijar o seu rosto agora, já que nunca o fizera em vida. Então beijei as flores e pus de volta no caixão.
Era hora, o enterro ia seguir. Quando me mandaram olhar minha irmã pela última vez, não chorei, pois me pareceu que ela sorria um sorriso longe só para eu sentir. Então percebi que ela agora se tornava como nuvens. Eu quis seguir com ela, mas não me deixaram. E me levaram Estela de mim.
O cortejo dobrou a primeira curva de nossa rua. Os meus olhos continuaram buscando, até hoje parados naquela curva sem nome. Madrinha varreu a casa, dos fundos para a porta da frente, juntando as folhas e restos de flores e tocos de velas. Deixou o montinho no pé de jambo que Estela chamava de “meu segundo amor”. Era onde minha irmã costumava ficar à sombra, enfeitando-se com as flores rubras de jambo. Ali eu derramei as minhas derradeiras lágrimas.
Minha irmã, ainda hoje eu contemplo a tua estrela e tenho uma vontade enorme de que fosse minha. Eu vejo tua imagem se projetando de lá, num sorriso longe que não me deixa desamparado. Era essa luz que você me oferecia, por apenas um sorriso, que já era seu sem que eu soubesse. Quantas estrelas no céu — e eu não possuo uma sequer!
O tempo me deu estes cabelos brancos, mas a minha memória guarda os sinais do semblante de Estela, com suas alegrias sem nenhum motivo. Em nosso quintal, as pedras, os tocos de pau, as folhagens ao vento puxam conversa comigo, mas eu continuo mudo. No entanto, agora sinto: eu sou Dindinho.
*Conto integrante do livro “O desterro dos mortos” (Caramurê, 2018)
Aleilton Fonseca é ilheense de adoção, nasceu em 1959, em Firmino Alves-Bahia, viveu e cresceu em Ilhéus, dos 4 aos 19 anos, e reside em Salvador. Escreve poesia, conto, romance e ensaios. É doutor em Letras pela USP e professor de Literatura da UEFS. Estreou em 1981, com o livro de poemas Movimento de Sondagem. Tem textos traduzidos para francês, espanhol, inglês, italiano, neerlandês e alemão. Publicou diversos livros, como: As formas do barro e Um rio nos olhos (poesia), O desterro dos mortos, O canto de Alvorada e As marcas da cidade (contos), Nhô Guimarães e O pêndulo de Euclides (romances) e O arlequim da Pauliceia (ensaio). Pertence à Academia de Letras da Bahia e à Academia de Letras de Ilhéus.
Tenho tentado refletir sobre a cidade enquanto não-lugar, enquanto deserto gentrificado e militarizado, em poetas do Brasil contemporâneo. E, necessariamente, sobre os discursos de resistência que esse estado de cerco engendra, dialeticamente, em algumas vozes do tempo de agora.
Fábio Weintraub é autor de um verso que resume bem a contra-urbanidade que nos atravessa: a de um “país sem ruas” [Treme ainda, 34, 2015].
Rampas antimendigo, sistemas de sirene, a telepatia sibilante das cercas elétricas, drones de vigilância sobrevoando a churrasqueira e as cascatinhas pornográficas; guaritas e catracas cravejadas em canteiros que já foram públicos, num sonambulismo quase necromante; cartões magnéticos para carros blindados, que emergem de vidros elétricos brilhantes como rímel, nas portarias biométricas, à ponta de unhas sedosas (verso de Eugênio Gianetti), sob a carranca de seguranças impassíveis como totens, agentes secretos ou psicopompos. Bolsões residenciais cujo acesso é bloqueado por tonéis gigantes de concreto; rondas noturnas, esparsas ou constantes, camufláveis. Cidade de túneis, simbólicos ou cimentados, corcundas: numa palavra, necrocidades.
Chegou-se há muito ao estágio da arquitetura do medo como espetáculo de si mesma. Nas periferias-condomínios fechados, as clínicas de criogenia guardam em seus bancos de tutano as raízes de uns dentes-de-leite, em prol da des-utopia de futuro genético de alguns rebentos. “Você comeria um hambúrguer de células-tronco?” [Tudo pronto para o fim do mundo, 34, 2019], pergunta Bruno Brum, num verso que podia constar na tabuleta de cada mallzinho à entrada de um residencial de luxo, como a reposição do velho emblema diante da Cidade Dolente. Só que ao contrário: reconquistem toda a esperança, vocês que acessam este lugar.
Aos arredores dos recantos de segurança, minimiamis, vias de trânsito rápido, viadutos, ausências de linhas de ônibus e passarelas espaçadas, de longe a longe, como as pernas longilíneas dos elefantes de Dalí: um território, basicamente, onde é impossível andar a pé, por nele haver muitos campos-de-força que repelem quaisquer alteridades, mendicâncias, laços de fraternidade e/ou presenças alienígenas.
Do outro lado das autopistas, refletindo as gated communities, opondo-se aos macrocamarotes, estão periferias-quebradas, com corpos à mira de remotos helicópteros, que pipocam com sua “hélices de carne”, nas palavras de Bolaño.
“Hitch”: Claudio Parreira
II
Nos belíssimos versos de Mar Becker [A mulher submersa, Urutau, 2020] pode-se ver, por outro lado, o que terá ocorrido com a necrocidade. Seu tempo é o da rememoração e, justamente por isso, o da composição profética. Em Becker, a necrocidade é eixo quase abstrato, evanescente, que aguarda a desaparição.
Para a autora, o meio urbano é o sussurro de uma falência, de uma hecatombe anunciada. “Vem, precisamos fugir da cidade/para muito longe”, dizia Lichtenstein, num poema chamado O passeio [Der Ausflug, 1913].
Becker também estoura esse tipo de aclimatação urbana. O mundo vai acabar. E este mundo, no entanto, o atravessamos! Por isso, A mulher submersa cintila como uma barra de transferência fluorescente, bruxuleando no leito de uma cratera oceânica, num enigmático código-morse.
Assim, a linguagem dos mortos, e sobretudo das mortas, dirige-se a nós através desse livro, por meio de uma cartografia doméstico-marítima, e enquanto marítima, imapeável, desolada e insubordinável:
“a mulher da região da serra sem fim lava a calcinha sempre no
banheiro, sob esse outro paradigma náutico – quando no vapor
o espaço-tempo resgata o mar como desolação.”
[serra sem fim]
Paralelamente ao tempo diluvial, A mulher submersa reergue uma cidade de baldios e assombrações, que nos prometem meandros e ressignificações, transmitidas sempre do país desconhecido. Este é um dos motivos que talvez insira a poeta numa categoria de vocalização da transcendência. Na poesia de Becker, as ruínas reemergem das lagunas, e os mortos apontam as saídas:
“na casa fabula-se outra casa. em ruínas”.
[serra sem fim]
A necrocidade, para Becker, é fase-em-devir, e não categoria estanque. É algo que se vasculha no passado, redimível após a catástrofe que a poeta profetiza. As ruas e os dias se apagarão nos azimutais congelados sob o granizo das calotas polares. Cada época sonha a próxima.
Faz-se necessária, por fim, uma palavra sobre a forma de seus textos.
Ela bem reflete essa condição de transitoriedade diluível. De vias-vascularizações diferentes: as ruas de um inferno que pouco a pouco resfolega, inundado, encharcado, rompidas as barragens de Guarapiranga.
Porque os fluxos verbais e compassos da poeta são longas frases rítmicas, aquáticas, cadenciadas, como uma lagoa de neve sombria sob o manto de Desdêmona, lua de Urano; os versos de Mar Becker demoram, aparentam e segredam melancolia e agouro. São um Grande Oceano da Espera, uma paisagem lunar; um golfo de metais pesados, muito tempo após a extinção do Antropoceno.
Só que, pensando em seus dizeres, será que neles não germina, da mesma maneira, uma intensa felicidade? A que nos promete um outro mundo possível, num reino que não é deste mundo?
Não nos injetaria a poesia de Becker, na superação da necrocidade, uma dose cavalar de alegria?
“Sempre!”: Claudio Parreira
III
O grande poeta Reuben, com seus falares estranhos e enigmáticos, também atravessa a necrocidade, mas de forma diversa. A temporalidade de seus mundos é mais a do presente, a do acúmulo, a dos lixões, e a do empanturramento.
O mundo-lixo, em Reuben, é zigurate colossal; em Becker, já foi varrido do mapa há 400 milhões de anos, numa inundação mítica. A coordenada de Reuben é a de hoje; a de Becker, o que terá sido hoje.
Cercadas por um labirinto em decomposição, as vozes de Reuben abrem caminho, cavam trincheiras, comungam desejos, mas também enxergam transcendências: emissões pélvicas de luz, amoras glórias da terra, reggaes das bacantes, peixes boi de boa: vê-se que a natureza é que lhe assobia com fulgor, com fins em eternos-retornos. E também as visões espaciais, dimensionais, com ele se comunicam. Estive aqui muitas vezes/ainda acho bonito é um texto que bem o demonstra, com seus lindos heptassílabos.
E o mencionado amontoamento de monturos, entroncamento da necrocidade, e umas caçambas abarrotadas, mas cercadas pela transcendência (a natureza e o espaço sideral), por sua vez, os vemos em:
“d vz em qd a areia me visita
urubus reviram o meio da ilha
boto fogo no corpo a pé na ponte a
astronauta a pé no gargalo do dia
longes lobos guarás assoviam”
De maneira análoga, o sujeito em Reuben é o das corporalidades múltiplas, que nunca se esvaziam ou desvanecem; ameaçadas, no entanto presentes num território não abandonado, e ainda não varrido pelos paredões aquáticos da hecatombe.
Ameaçados, estão à mira: os caiapós, os kanoés, os ka’apor e os mendigos.
Os drones os caçam – porque toda necrocidade estende-se aos céus, e se fundamenta no domínio dos céus, a fundo. Suas raízes são as nuvens, os limites do globo. Teoria do drone.
/ temporada de caça / ao índio ka’apor / drones tele guiam / kanoés / caiapós / varis vivos / encobrem a cova rasa urubus farejam / temporada de caça / / a navalha / some / na mão do mendigo / noite revirada / corpos d caídos estrelas brilham / mastigam lixo / incorporo a navalha da prosódia dos mendigos / cada narciso / come da / própria sede / a cabeça do justo / / esmagada na parede/ sentenças / vendidas por / juízes / / sentenças vendidas /por juízes / / fazendas maiores que países /
[Escaldante, Livros-fantasma, 2017].
Estrelas brilham/mastigam lixo: os olhos carecas das câmeras dos drones abatedores, por um lado, e a corporeidade dos caçados, por outro. A garra drônica da necrocidade, abstrata e letal como o capital, versus a fuga entocada do catador, térrea e teimosa como a vida. A morte que pode vir do céu ou da canetada jurídica, etérea e abstrata em ambos os casos.
Noutras palavras, agressão versus resistência.
Não à toa, o poema, ao denunciar a caçada humana, bate de frente com o latifúndio, o hectare produtor de covas: o latifúndio, metáfora última da necrocidade e de sua contra-utopia, projeto necropolítico de um país sem ruas.
Gabriel Morais Medeiros (Campinas-SP, 1988) é autor de ‘Pornografia em extinção’ (2019) e de ‘Andrômaca, quarenta semestres’ (2016), livros de poesia publicados pela Patuá. Tem trabalhado como professor de literatura no ensino médio, desde 2007, em diversas cidades do interior paulista. É responsável pela Ofícios Terrestres Edições, micro-editora voltada a humanidades e literatura, criada em 2019.
há coisas tão bonitas
ditas com seus olhos
que devia,
como já faz,
desenhá-las na minha história
e mais,
em mim
***
31.
e prendo na memória
o vo-lu-me
das suas palavras
reouço, ouço,
lambo
o tom da sua voz
e a graça
nunca se gasta
***
32.
o que mais desejo
é que o que me toma
sobre você
seja só desejo
que seja uma piada espúria
um rouco choro
uma tristeza forasteira
uma sede de saliva
que me nega todos os dias
que seja apenas efêmero
e que me coma
só agora
um pedaço de vida
do riso
do cérebro
que suas ignorâncias
dias sim, dias nãos
me arranhem a sensatez
como você
me arranha
a carne
que me aperte
ao invés de entristecer
que deixe suor nos corpos
e não sombras sob meus olhos
que esse seu maldito riso
endoidecido
quando me mira doida
sobre você
embebede
minha língua
minha vida
que você seja corrosivo
e que com seu grito leve
sua voz breve
deixe sob as minhas unhas
sua pele
desejo de infinita sorte
que se chame apenas paixão
que seja, assim só,
espasmo de pequenas mortes
que será árduo
e irresistível
que leve de mim a luz
me tire do silêncio
que cobre cada curva
me arranque o medo
desejo que tudo que saia de mim por você
seja perto daquilo que leva o nome de ligeiro
que me consuma
o sexo
em fogo
e ausência de ar
que me rasgue
o dia
que me queime
e deixe para o vento
só pó
e mais nada
e se só você me deixar
a ruminar esse desejo
rogo que não sejam seus dentes
irreversíveis
porque quero poder enfim
num dia, talvez,
soprar suas cinzas
todas elas
de mim
***
e
prendo
na memória
o ritmo
dos versos
de todos os teus
não ditos
***
o tempo desafinou
e você estava lá
estando apenas em você
***
que não eu
era meio da tarde,
e sob a luz esbranquiçada
que criava sombra sob os seus olhos,
testemunhei sua boca explodir numa curva festiva
um leve balanço no rosto
um riso mudo
desacelerando em uma expressão de ternura
e eu senti ciúmes
ciúmes do emaranhado de coisas
atrás daquela tela para a qual você sorria
que não eu
***
não venha mais
trazia um bilhete entre os dedos
deixou-se no centro da sala, soturna
sem soluçar, sem desabar sobre nada
escorregou o papel pela mesa
três palavras escrita
“não venha mais”
adorava o passado do papel na madeira
odiava a alma molhada na face dela
ultimas palavras, última atenção
tudo ressoava a mesma agonia
e no verso do mesmo bilhete
com o lápis de alumbrar seu olhar
ela escreveu, no verso da dor
“(…)
e são horas mortas
nós vencidas
cada nota dessa lamúria
dá cor a minha sangria
ritmando a farsa dela
e no embalo do que nos toca
entrando pela fresta dessa porta
sinto a amargura apertar
entregue e pedante ela
emparedada eu
presa na minha mania de amortecer
e enquanto ela se vai em tempo
peço perdão, mais uma vez, ao medo”
Ângela Coradini é uma contadora de mentiras na poesia, na teoria e nos roteiros audiovisuais. Tem doutorado em Cultura Contemporânea (UFMT) e é editora na revista eletrônica Ruído Manifesto. É autora dos livros “…já não podem ser amanhã” (Carlini Caniato, 2020), “Imagens-Espectro de Futuridades no Amplo Presente” (Edufmt, 2020) e “Quatro nós” (Carlini Caniato) no prelo.
Uma leitura de Cinevertigem, livro instigante de Ricardo Soares
Por Geraldo Lima
Cinevertigem, de Ricardo Soares, é um livro inovador, provocador, escorregadio. Publicado pela Editora Record, em 2005, é obra que cruza a fronteira dos gêneros literários e busca, com certeza, ampliar os horizontes da criação literária. Durante a sua leitura, o leitor provavelmente indagará: isso é prosa ou poesia? É um romance ou um longo poema?
Num primeiro momento, o leitor, certamente, será tentado a ler essa obra como um longo poema, já que o ritmo, as aliterações, as rimas internas e as imagens atestam isso: “veloz dentro dessa noite oriunda quem, quem, quem me acende a boca do fogão que está entupida, quem que me frita um ovo do avesso, quem me paga comida, compra ração para o cão, entende que os livros estão espalhados pelo chão porque assim eles são…” A repetição do pronome “quem” enfatiza e reverbera o desejo do eu lírico [ou seria do narrador?], assinalando mais ainda o caráter poético do texto. Assim se inicia o texto: “quem, quem, quem, quem, quem é que me cobre de beijos? Quem, quem me lambe a ponta do nariz…?” Essa repetição, que se pode dizer também icônica, já que indica um sentido de urgência, de obsessiva solicitação, aparece ora no início da estrofe [ou parágrafo?], ora no meio, mas sempre introduzindo um novo núcleo de ideias, de pedidos, de coisas desejadas, um novo rol de objetos, lugares, pessoas, profissões etc.
Cabe salientar aqui, e creio que sem perigo de dar spoiler, que estas são, também, as palavras que encerram o texto, expondo sua estrutura circular, ou inscrevendo-o no rol das obras que começam pelo final. O autor, num gesto tipicamente machadiano, marcado pela ironia, parece brincar com o leitor, querendo surpreendê-lo numa falta. Senão, vejamos: “para os que começam lendo um livro pelo fim devo dizer que morri no meio da história; sou um defunto que jaz e pergunta: quem, quem…?” Há que se observar, também, que “veloz dentro dessa noite oriunda” é uma referência clara ao livro de poemas de Ferreira Gullar, Dentro da noite veloz, publicado pela Editora Civilização Brasileira, em 1975. Aliás, a referência a outras obras literárias, a personagens de ficção [“quem, quem, quem me dá essa vida de Macunaíma, brincando com o pau dentro do jirau…”], a nomes de autores ou figuras de destaque no mundo intelectual [“quem, quem, quem me dá a vida do cabeludo pajé Darcy, boca seca de tanto falar”] será, ao longo do texto, um procedimento bastante usado por Ricardo Soares, mas evitando, sempre, o tom de exaltação ou de discurso elevado.
Mas aí, na ficha catalográfica, diz que se trata de um romance. Entendemos que o romance é um gênero híbrido, que acomoda em sua estrutura outros gêneros, como bem nos mostrou Bakhtin, mas seria esse o caso deste livro do jornalista, diretor de TV e escritor Ricardo Soares? Se formos enumerar nele a presença de elementos próprios de um texto narrativo ou ficcional, talvez nos frustremos. O narrador, no caso, se confunde com o eu lírico da poesia. Há mais uma voz que explicita seus desejos, sua subjetividade, do que um ser fictício que conta uma história. É mais uma voz que clama, como numa oração, ou num cântico pagão, do que uma voz que narra. Não se trata nem mesmo de um poema narrativo, de caráter épico, já que não há a figura de um herói realizando grandes feitos, tampouco o tom elevado do discurso que caracteriza essa forma literária. [Da página 70 à 73 há de fato um poema, com versos, estrofes, rimas e composto num ritmo próprio da poesia feita pelos cordelistas; mas a inserção desse poema, claramente narrativo, no corpo do romance, – aqui admitindo-se que se trata de fato de um romance – encontra-se, ainda, dentro do caráter híbrido desse gênero narrativo.] Os personagens, ou pessoas referenciadas, melhor dizendo, não chegam a mover-se, dando início a uma ação concreta, progressiva. Vez ou outra surgem fragmentos de histórias que poderiam se desenvolver, mas logo se esgotam e somos introduzidos em outro núcleo de coisas evocadas pela voz masculina ou consciência desejosa de experimentar novas vivências. Os espaços são variados, já que há um vagar constante da alma ansiosa desse ser que se agita no texto. Desse modo, a narrativa em si, ou o escoar poético da voz que fala no texto, resulta num amplo passeio por vários lugares da nossa geografia, por vários aspectos da nossa cultura e da de outros povos, nessa tentativa angustiada de alcançar, realizar ou incorporar aquilo que se reitera com a pergunta: “quem, quem, quem, quem, quem é que me…?”
Para ampliar ainda mais o seu aspecto de obra fora do convencional, há a sua aproximação dos recursos da montagem cinematográfica. Cada bloco que se inicia, quase sempre com a pergunta obsessiva “quem, quem…”, parece expor um fotograma que registra uma unidade de desejo ou súplica que vai se desdobrando e agregando outros elementos ao núcleo temático, justapondo sensações ou ambientes, para ser, logo em seguida, substituída por outra, criando sempre uma atmosfera de vertigem. Mas, ainda que aparente ter uma estrutura fragmentária, há um sentido de encadeamento, de ligação, de amarra entre os parágrafos, ou as estrofes, ou as cenas, como queira. Como se dá isso? Às vezes a unidade seguinte ganha corpo a partir da retomada de uma palavra da unidade anterior, sugerindo a técnica de “palavra puxa palavra”. Um exemplo: “… este velho na ativa dava inveja a outros tropeiros…” Inicia-se, então, a unidade seguinte retomando a palavra “tropeiros” no singular: “quem, quem, quem me dá essa vida de tropeiro absoluto…” O vasto painel de realidades díspares que o autor vai agregando ao texto, ora com visão crítica sobre questões sociais e políticas, ora movido pela ironia e pelo espírito de carnavalização, cria a imagem de um mundo caótico, de cinema glauberiano, em que a câmera gira nervosa, registrando tanto o delírio poético do cineasta quanto o seu olhar que desvenda criticamente a nossa sociedade.
Em suma, o Cinevertigem de Ricardo Soares é esse passear delirante, aflitivo, obsessivo, desejoso por vários meandros do fazer humano, da experiência de vida do outro, enfim, da cultura, numa sequência que se processa entre o ritmo e a imagética da poesia e o possível novelo da narrativa ficcional que vai se desenrolando num único fôlego, até desembocar num final que é puro cinema, ou referência/reverência ao cinema.
Geraldo Lima é escritor, dramaturgo e roteirista. É autor de “Uma mulher à beira do caminho” [contos, Editora Patuá, 2017], “Trinta gatos e um cão envenenado” [peça de teatro, encenada em 2016 em Brasília] e “O colar de Coralina” [roteiro de um longa de ficção dirigido pelo cineasta Reginaldo Gontijo]. E-mail: gerallimma@gmail.com
Os discos de heavy metal,
O último discurso do condenado,
O recado na agenda do ministro,
O bem, o mal, a torpeza
E a bunda em rede nacional.
Somos abonados pelo futuro.
E não há tropeço.
Há caminho. ………………Apenas um.
E seguimos por ele, em fila indiana,
Adiando o regresso.
***
BAQUE
Aposentei o velho discurso.
De longe,
Acompanho o curso da história.
Há tantas célebres frases
E nenhum acelerador de partículas.
Há tantas formas de amoldar
E nenhuma de embrutecer.
Penso nos debates, nas contendas,
Nos homens minúsculos,
No mormaço dos becos;
Penso na sorte dos imaculados
E no monge, na montanha,
A descobrir novos silêncios.
De longe, muito longe,
Acompanho o cerco da morte.
***
REALEZA
A corte do passado
Passou dessa ……….Pra uma pior:
O príncipe pop
Virou ator pornô;
A rainha do rebolado
Mendiga likes e views;
O imperador ……….Do reality show
Foi achado morto.
A corte do passado ─
Quem diria? ─
Passou dessa ……….Pra uma pior:
Subiu às nuvens
Em arquivos virtuais.
***
ESCONDERIJO
Só acredito no que não sinto,
No mistério, na pergunta eterna.
Inferno? Deus? Extraterrestres?
Creio no enigma que os cerca;
Creio nos poemas não escritos,
Na poesia que emana do engano.
Não espero respostas definitivas,
Nem que um sábio dê o Veredito.
A face oculta das coisas táteis:
Eis aquilo no que (só eu) acredito.
***
MAKE DEATH GREAT AGAIN
Não estamos na Idade das Trevas,
Mas não estamos ……………..No Século das Luzes:
Estamos na época
Dos homens fartos ……………..De coisa alguma,
Das cruzes que viram espetáculo;
Dos celulares incríveis,
Dos dedos sujos apontados pro errado;
Dos argonautas virtuais
Presos em suas bolhas, ……………..Barcos naufragados;
Das dietas malucas,
Dos corpos de fast food,
Dos que não comem carne …………….E dos que não plantam …………….Uma só semente.
Não estamos na idade das trevas
Mas já não temos ……………..Tanto tempo assim.
***
ENCHENTE
Inquilinos tiram móveis
E rezam pro Santo de devoção.
Além das histórias,
Dos homens cobertos de lama
E da bondade dos abutres,
Há uma falsa esperança:
As águas do Jacuípe
Encontrarão novo caminho.
***
DAS MEMÓRIAS
Vejo tudo com bastante nitidez,
Mas não posso revogar o tempo:
Minha mãe mexendo o café,
Seu rosto sumindo entre nuvens;
Meu pai estacionando o Chevette,
Toda tristeza embaixo do bigode;
E eu, desperto, nutrindo planos
Que não realizo antes de morrer.
Vejo tudo num fio de memória
Tão nítido quanto não deveria ser.
Ricardo Thadeu (1989), nascido em Riachão do Jacuípe-Ba, é mestre em Estudos Literários (UEFS), professor e escritor. Publicou diversos livros, sendo “Você não deve pensar nessas coisas” (Penalux, 2020, poesia) o mais recente. É integrante de mais de uma dúzia de antologias, dentre elas: “Tudo no mínimo: antologia do miniconto na Bahia” (Mondrongo, 2018, miniconto).
Ana Paula Lisboa é uma das grandes vozes da atualidade. “Favelada e carioca de nascimento, a mais velha de quatro irmãos, filha de dois pretos”, como se define, seus textos em prosa e em poesia trazem toda a potência, a riqueza e a representatividade da cultura afro-brasileira, chamando atenção, com igual vigor, para a ancestralidade, a produção cultural das mulheres negras e também se manifestando contra ações que silenciem, infrinjam direitos e tirem espaços dos negros dentro e fora do Brasil.
Dividindo a vida entre o Rio de Janeiro e Luanda, dirige a Aláfia e a Casa Rede, espaços de produção de arte e cultura na capital angolana. No Brasil, escreve regularmente para o Segundo Caderno, do jornal O Globo, um desejo que vem de muito jovem, um desejo de ser lida que nasce aos 14 anos, quando escreve seus primeiros contos e poesias. Hoje, seus escritos estão em coletâneas nacionais e internacionais, porém, mais que uma escritora, prefere ser reconhecida como artista textual, utilizando da palavra escrita e da falada em diferentes plataformas, com o intuito de promover a visibilidade na narrativa e na gramática negra no mundo.
Em entrevista exclusiva a Diversos Afins, Ana fala sobre sua vivência com a literatura, suas experiências com a leitura de mulheres negras, aborda o problema da educação e do racismo, além de denunciar o desvirtuamento do que se entende como “literatura negra” e a falta de espaços para a publicação de autores negros no mercado editorial brasileiro. Com respostas francas, marcadas por um misto de indignação, inteligência e personalidade, a autora aponta problemas antigos e da política atual, celebrando nomes como Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo e Machado de Assis, sem nunca baixar a guarda no que se refere ao respeito às tradições africanas. “Para mim, é imprescindível que Machado de Assis seja negro, não por uma fantasia de representatividade, mas por uma reparação histórica do apagamento. Não conseguiram apagar suas palavras, porque ele era um gênio, então apagaram seu rosto, porque era inaceitável um gênio negro”, sentencia.
Foto: arquivo pessoal
DA – Um dos pontos centrais, tanto de seus textos ficcionais quanto de suas crônicas, é chamar atenção para a cultura afro-brasileira, em especial para a literatura produzida por mulheres negras. Queria saber, a princípio, sobre a sua primeira experiência de leitura de um autor negro. Quando ocorreu e o que representou para você?
ANA PAULA LISBOA – Eu sinceramente não me lembro da primeira leitura, o primeiro lugar em que me senti representada pela cultura afro-brasileira foi na música e na dança. Pensando agora, talvez a Elisa Lucinda fosse alguém que eu sentisse algo especial, uma poesia de voz feminina mas que não representava a “mulher universal”, tinha ali questões que eram só dela. Eu me lembro bem quando li “Ponciá Vicêncio”, da Conceição Evaristo, que a sensação era de que tudo que era possível escrever sobre ser uma mulher negra no mundo estava naquele texto. Eu, inclusive, fiquei algumas semanas sem escrever nada porque parecia que não havia mais o que escrever.
DA – Dentre outros meios, você escreve regularmente para o Segundo Caderno, do O Globo. Baseado nessa experiência de colunista, como analisa a importância de tratar de temas representativos, sobretudo no que diz respeito às mulheres negras, num jornal de larga circulação nacional? Encontra ainda algum tipo de resistência?
ANA PAULA LISBOA – A resistência que eu encontro é do próprio pensamento e estrutura do Brasil, um país em que, por mais que não tenha passado pela experiência do Apartheid, os lugares para pretos e os lugares para brancos estão muito bem definidos, não numa placa, mas no próprio imaginário das pessoas. Então, ter uma mulher negra jovem escrevendo um jornal de grande circulação é ainda estranho para muitas pessoas. Eu adoro escrever no jornal, era um desejo desde muito jovem. Escrever, pra mim, nunca foi sobre só escrever, mas sobre ser lida, então, quanto mais pessoas lendo, melhor. Os orixás trabalham para que as coisas aconteçam da forma que elas têm que acontecer. É muito bom chegar em pessoas fora da minha bolha, de outros estados, de outros países, ou em salas de aula.
DA – Entrando no universo da literatura, o livro “Silêncios prescritos: estudo de romances de autoras negras”, da doutora da USP Fernanda R. Miranda, traz uma informação espantosa de que, em 200 anos de literatura brasileira, apenas oito autoras negras publicaram romances. Você acredita que, neste caso, a mínima quantidade de obras está diretamente associada a um processo sistêmico de silenciar as mulheres negras? E como isso ocorre?
ANA PAULA LISBOA – Está ligado a vários processos, não há um motivo único, porque o racismo é um monstro com muitos tentáculos. A questão principal, nesse caso pra mim, é a publicação, porque tem muita gente escrevendo, mas não tem tanta gente sendo publicada. Todos os anos, os mesmos nomes estão nas estantes. Depois, há também outras coisas: eu estou passando pela experiência de escrever um romance e é uma coisa muito difícil. Escrever uma narrativa longa é muito trabalhoso, requer concentração, tempo, espaço e, às vezes, dinheiro para bancar essa escrita. Quantas pessoas têm isso? No buraco de tempo que a gente consegue entre tantos trabalhos domésticos e na rua, o que dá para fazer muitas vezes são só as narrativas curtas, as poesias. Isso também é um dos motivos porque muitas mulheres e homens negros publicam em coletâneas, como, por exemplo, são os Cadernos Negros, que existem há mais de 40 anos. A outra coisa é que, além de criar espaço nas editoras que já existem, é preciso também que sejam abertas novas editoras, de donas e donos pretos. Esse também é um espaço que podemos e devemos ocupar.
DA – Outra questão forte e alarmante está na afirmação de que, no rol de todas as expressões artísticas, a literatura é aquela menos acessível ao artista negro, pois tem o poder de colocá-lo como figura central, de projetar sua voz. Penso que isso gera um deslocamento do campo literário e prova um racismo que transcende a ficção. Sendo assim, você acredita que o preconceito é o mal que explica a escassez da literatura produzida por negros, ou é um pensamento muito limitado, que encobre outros problemas?
ANA PAULA LISBOA – Todas as opressões cabem dentro da literatura, é uma grande luta para saber quem vai narrar o Brasil, qual Brasil é válido de ser contado em palavras escritas. A educação é uma grande questão, porque os negros foram proibidos de ter acesso a escola, era um tal de “vou aprender a ler, pra ensinar meus camaradas”. A entrada na universidade continua a ser uma luta, um espaço que a todo momento tentam retirar. E mesmo dentro, a luta por um conteúdo que nos inclua também permanece. Tudo é um grande plano para nos afastar e não nos deixar emancipar, um plano que todos fazem parte de uma forma ou de outra, ainda que não percebam. Por isso eu acho a ficção tão importante, ela não se desloca do tempo e do espaço que nos prende. É o contar histórias dos griôs, é só inventando mundos outros que vislumbrarmos sair desse em que estamos.
Foto: arquivo pessoal
DA – Em 2018, o romance “Torto arado”, do baiano Itamar Vieira Junior, ganhou o Prêmio Leya de Literatura, dando voz a duas personagens negras num épico passado num Brasil profundo. Pensando na questão do lugar de fala, de alguma forma um homem dando voz a personagens femininas é um problema? De que forma a ausência de uma autora vocalizando questões ligadas ao universo feminino impede com que se chegue a uma verossimilhança representativa?
ANA PAULA LISBOA – Eu não li o romance do Itamar ainda, mas ouvi coisas muito bonitas sobre ele. Eu acho que ser um escritor é a possibilidade de ser outros, de ter outras vozes, de estar em outros mundos, então não vejo um homem criando as histórias de mulheres como um problema. As coisas são só coisas, nós é que damos funcionalidades a elas. A questão, pra mim, da escassez de personagens negros na própria literatura é porque o homem branco escritor do sudeste, que é o publicado, só fala de si.
DA – Neste caso, há também a questão do Machado de Assis branco, mulato ou negro? Qual a relevância dessa discussão para você?
ANA PAULA LISBOA – Eu sou apaixonada pela literatura de Machado de Assis. Na verdade, voltando à primeira pergunta, eu me lembro da primeira vez em que li “Dom Casmurro”, e ele começava escrevendo algo como pegar o trem para o Engenho Novo. Na época, eu morava no Engenho Novo e, pra quem conhece, sabe que não é um bairro pra se ter muito orgulho. Mas foi naquele dia em que eu me apaixonei pelo Engenho Novo. Para mim, é imprescindível que Machado de Assis seja negro, não por uma fantasia de representatividade, mas por uma reparação histórica do apagamento. Não conseguiram apagar suas palavras, porque ele era um gênio, então apagaram seu rosto, porque era inaceitável um gênio negro.
DA – Tratando agora de autoras negras, um caso marcante é o da mineira Carolina Maria de Jesus, cujo livro de estreia, “Quarto de despejo: diário de uma favelada”, é considerado um best-seller e segue encontrando novas gerações de leitores e de admiradores. Contudo, é uma literatura que paradoxalmente não trouxe larga visibilidade para a figura da autora, ou mesmo seu devido reconhecimento. A que se pode imputar tal discrepância dado o caráter livremente autobiográfico do livro?
ANA PAULA LISBOA – São várias as questões, porque Carolina, diferente do Machado, tinha rosto, tinha traços, tinha corpo, um corpo preto retinto. Carolina era uma mulher muito forte, ela se conhecia e conhecia o Brasil, esse Brasil racista. Ela não se deixou ser colocada na caixa da “favelada”, como se essa fosse a única narrativa que ela pudesse escrever. Como não conseguiram apagar seu rosto, tentaram apagar seus escritos, também geniais.
DA – Outra autora em foco é a também mineira Conceição Evaristo que, em 2018, esteve no centro de uma campanha nas redes sociais para que fosse a primeira escritora negra a ser eleita para a Academia Brasileira de Letras (cadeira que acabou sendo preenchida pelo cineasta Cacá Diegues). Na ocasião, um dos assuntos mais discutidos foi se o estofo de sua obra lhe garantiria força para disputar a vaga ou se sua escolha se devia a sua representatividade no meio literário. Qual sua percepção sobre essa questão?
ANA PAULA LISBOA – Conceição Evaristo é, pra mim, a maior escritora do Brasil. Conceição não entrou para Academia Brasileira de Letras porque a branquitude não gosta de ser questionada, não suporta ser racializada e não tem nenhuma vontade de reconhecer seus privilégios. Reconhecer privilégios é reconhecer a sua culpa em tudo isso e ninguém quer se sentir culpado. No Brasil, o racista é sempre o outro. Mas Conceição não perde em nada, na verdade quem perde é a Academia Brasileira de Letras. Ela é uma deusa e deusas já nascem imortais.
Foto: arquivo pessoal
DA – Você tem contos e poesias publicados em coletâneas nacionais e internacionais. No entanto, numa visão ampla da literatura contemporânea brasileira, ainda há poucos autores negros publicando. Por parte das editoras, em especial os grandes selos, você percebe que ainda há resistência para se publicar autores negros ou preconceito sobre temas ligados ao universo afro-brasileiro?
ANA PAULA LISBOA – Para que existam na literatura publicações de literatura negra, é preciso que haja editores que saibam ler essa literatura, e há muita gente nesse mercado que não sabe ler. Depois é o mercado, que está percebendo lentamente que os negros compram livros, leem livros e que nós não lemos de qualquer coisa. É engraçado porque se um carioca da Zona Sul resolve comprar um livro só porque conhece o autor e a história se passa no Leblon, ninguém acha isso estranho. Mas se eu disser que comprei um livro só porque ele se passa na Complexo da Maré, ou porque ele foi escrito por uma mulher negra, acham que eu estou à procura não de boa literatura, mas de representatividade.
DA – Falando em preconceito, temos hoje, no governo federal, um presidente da Fundação Palmares que explicitamente menospreza a história de resistência e luta dos negros no Brasil, reiterando declarações racistas. Você acredita que essa é a pauta de um indivíduo completamente transloucado ou há, por trás disso, toda uma ação institucional para sufocar e anular as políticas públicas e reconhecimento histórico-sociocultural do negro no Brasil?
ANA PAULA LISBOA – Eu acho que nada é por acaso, não acho que buracos se abrem do nada, a gente sempre caminha até o abismo, mesmo que não se dê conta disso. A minha sugestão, inclusive, é a que mudemos o nome da Fundação Palmares enquanto o senhor esteja presidente. A luta ancestral não merece ter seu nome tratado assim.
DA – Há uma máxima de que o esporte é um instrumento para socializar e dar oportunidades reais a crianças situadas nas áreas mais pobres do país. Porém, não deveria ser o único a ter essa disponibilidade. Você acredita que a cultura, em especial a literatura, poderia ser também um caminho? E essa ausência não explicaria o baixo número de autores negros em atividade no Brasil?
ANA PAULA LISBOA – Ninguém tem muita paciência com a criança e o jovem negro, há pesquisas que falam que professores são mais agressivos e se recusam, às vezes, a explicar para crianças e jovens negros na escola, que crianças negras passam mais tempo chorando ou sujas nas creches. O adolescente branco, de classe média, geralmente quando começa a dar problema vai para terapia, isso não acontece com jovem negro. Então, é mais fácil botar ele para jogar futebol, gastar energia, colocar para fora aquilo que tá incomodando do que sentar com ele e efetivamente explicar o mundo. Ao mesmo tempo, eu acho que a cultura ou o esporte não tem o dever de salvar ninguém, a criança e o jovem preto não precisam de salvação, precisam de repertório de mundo, terem acesso a estímulos para que possam fazer boas escolhas para a vida. Esse é um direito que está inclusive na Declaração Universal dos Direitos Humanos.
DA – O que pensa sobre a expressão “literatura negra”? Há, na confirmação do termo, um fator de representatividade, de força para esses autores? Ou literatura brasileira deve ser vista em sua multiplicidade, incorporando temas e contextos sem que seja distinguida por qualquer partição?
ANA PAULA LISBOA – Eu não sou acadêmica ou crítica literária, eu sou só uma escritora. Hoje eu percebo que o que eu escrevo é literatura negra e não vejo nenhum problema em ser colocada nessa estante. O que me incomoda é a classificação “escritora negra”, porque geralmente quando me colocam nessa caixa quer dizer que eu só possa escrever, ver, ou falar a partir das questões do racismo. Se eu pensasse ou escrevesse sobre racismo 24 horas por dia, eu já teria morrido de depressão. É óbvio que ser uma mulher negra vai aparecer no que eu escrevo, assim como Clarice Lispector ser ucraniana criada no nordeste aparecia na literatura dela. Ser negra não é a minha limitação, na verdade é o que me amplia.
DA – Para os leitores que querem acessar a literatura afro-brasileira, o que você recomenda de contemporâneo? Quais autores ou livros são fundamentais hoje?
ANA PAULA LISBOA – Leiam qualquer coisa da Conceição Evaristo, até receita de bolo. Meu preferido, nesse momento, é “Becos da Memória”. “Um Defeito de Cor”, da Ana Maria Gonçalves, é tipo a bíblia. “Meio Sol Amarelo”, da Chimamanda Ngozi Adichie, é de destruir emocionais. Nesse momento, estou lendo as poesias da Ryane Leão, em “Tudo Nela Brilha e Queima”, e os contos da Cidinha da Silva, em “Um Exu em Nova York”.
DA – A literatura, por si só, tem o poder de ser um instrumento de representatividade social, ou depende de uma combinação de fatores?
ANA PAULA LISBOA – Não sei responder. Eu acho que a literatura como qualquer outra arte está inserida no tempo e no espaço de uma sociedade, então de alguma forma ela sempre vai representar algo. Representação não é um problema do escritor, o problema do escritor, ou a tarefa do escritor, é escrever: é criar histórias, mundos, pessoas e esperar que quem esteja do outro lado entenda a história que a gente queria contar.
Sérgio Tavares nasceu em 1978. É crítico literário e escritor, autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês, o espanhol e o tâmil. Participou da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris. Edita o site de crítica literáriaA Nova Crítica.
Quem de nós é capaz de juntar os cacos do tal velho mundo? Essa pergunta ecoa há alguns bons anos em minha cabeça desde que escutei pela primeira vez “Pra começar”, canção composta por Marina Lima e seu emblemático parceiro e irmão, o poeta Antonio Cicero. À época, já sabíamos sobre qual contexto aquela música fincava suas bases de inspiração, principalmente a ideia de se pensar o mundo como algo passível de reinvenção a nosso modo. E a energia ali presente apontava para a cíclica dinâmica de um ir e vir, ou seja, desconstruir para reconstruir, respeitadas as devidas maneiras de compreensão pessoal das coisas, repertórios da individualidade.
Passadas algumas décadas, o hoje cada vez mais nos desafia a prestarmos atenção ao fluxo constante de transformações as quais estamos submetidos até mesmo inconscientemente. A própria ideia de não sermos produto acabado põe em xeque a tentativa de se cristalizar convicções. E estar em processo, num incessante devir, pode não ser questão de escolha, mas sim de como a torrente dos fenômenos que nos cercam demonstra nos afetar. Haveria, então, uma linha tênue entre desejar algo e mudar a rota pessoal pela interferência dos fatores externos a nós?
De toda forma, nosso mundo é um imenso mosaico de sentimentos e ruídos. E há de se desconfiar de quem apregoa linearidade absoluta em seu trajeto pela vida. Perpassada por idas e vindas, nossa existência dentro de uma complexa teia social cada vez mais não nos parece permitir uma passagem despretensiosa ou desavisada pelos fatos.
Dentro da lógica que reinventa as paisagens da nossa tenra humanidade, testemunhamos a expressão artística de um alguém como Claudio Parreira. Ao observarmos as colagens digitais feitas pelo artista, não há como o impacto não ser imediato se considerarmos muito do que foi abordado nos trajetos iniciais deste texto. Ora, vejamos: Parreira faz saltar diante de nossos olhos o rearranjo desse fragmentado mundo em que vivemos. E o faz com a habilidade de nos comunicar que os tais cacos de nossas experiências podem ser ajuntados sob outras formas de ser e sentir.
“Casal”: Claudio Parreira
Volta e meia, o pensamento de que não há nada de novo debaixo do sol insiste em nos rondar. No entanto, falar disso não simplifica e nem reduz as experiências tidas em matéria de criação. Pelo contrário, virtude maior é ressignificar os sintomas mais pungentes da vida. E é isso que Claudio Parreira faz com seu trabalho quando nos apresenta sua própria maneira de configurar as paisagens humanas e seus enleios.
As colagens de Parreira não são uma mera reconfiguração de formas e contornos. Elas nos mostram o rico vocabulário que advém de outros modos de se pensar a experiência dos mortais no planeta cada vez mais esquálido em que vivemos. É patente a verborragia que se abriga na arte dele, sobretudo por trazer à tona o poderoso efeito discursivo de suas imagens. E assim vamos sendo guiados por um imenso cenário no qual as inquietações afloram. Num mix que agrega provocação, crítica, memória, espanto, ironia e indignação, dentre outros atributos também possíveis, a expressão do artista em questão parece em muitos momentos representar um clamor. Diante de tamanhos ímpetos, caberia indagar ao que ou a quem tal demanda estaria direcionada.
Na confissão do próprio Parreira, quiçá uma revelação ou resposta: “gritos ao silêncio que querem nos impor”. Suas colagens digitais flertam com a ideia de manusear o absurdo e o incomum, ele ainda sustenta. Muitos conhecem o Claudio Parreira autor de contos e romances, contribuições literárias que já assinalaram alguns caminhos de reconhecimento pela palavra. Mas o que se agiganta agora, com a perspectiva visual, é saber que outras narrativas assumem seu protagonismo na trajetória do criador, aquelas engendradas a partir do gesto imagético que ousa desafiar apagamentos. A recusa ao silêncio é, em grande medida, um ato de rebeldia diante do avanço obscurantista que insiste em turvar o pensamento e as ações contemporâneas no quesito sócio-político, para não dizer em outros mais.
Na profusão de cores, caracteres e tipos, Parreira lança mão do diálogo entre o velho e o novo, da harmonização do clássico com o moderno, da coexistência entre seriedade e irreverência. E seu êxito maior é nos ofertar outros modos de abordar as nossas humanidades, deixando entrever a pulsação permanente da lucidez, espírito incomodado e atento, mas que não deixa perdidas pelo caminho fatias necessárias de bom humor, leveza e esperança.
“Contabilidade”: Claudio Parreira
* As colagens digitais de Claudio Parreira são parte integrante da galeria e dos textos da 137ª Leva
Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras.
“A insustentável leveza da rosa”: Claudio Parreira
MORTE
Morte não é quando se morre apenas
quando os dias já não tornam
e a música cessa:
morte é sempre
ou de repente
é vez por outra
morre-se para tantas coisas
não só para a vida que escorre em fios
(por vezes entrelaçáveis)
também morre a palavra
se não diz o novo
se ao atingir a forma cristalizada
não a dissolve.
***
ENIGMA
O poema não chega à mão
quando se quer
movido pela fria
aragem do pensamento
mistura de nuvem e armadilha
tampouco nos salta do coração:
as palavras têm seu preço
e muitas vezes só nos resta
o sonho da noite anterior
fragmentado e mudo.
***
NOTURNO
Noites, a difícil travessia:
são manhãs escuras
compridas de silenciosas
e vazias. Vazias de tudo.
Sobretudo de sonhos
única possível alegria
em tempos de miséria.
De tanto não dormir
começo a discernir no escuro
o cinza das horas
matizes do tempo
e cavalgo a noite de pouca lua
adivinhando a cada instante
a manhã salvadora.
Acompanho no céu o percurso de Júpiter
ou dos resquícios da lua minguando sempre
e sei:
a de hoje não é a de ontem
e a de amanhã será menos
(uma ambulância rasga o espaço da rua).
Como não durmo, descubro:
as noites não são iguais
cada uma tem seu nome
e o traz no dorso
impresso
( por que não o leio?)
Do lado avesso do sono
resta-me apenas meu verso.
***
SILÊNCIO
Fio de silêncio o meu amor
(só o silêncio é permitido)
e aturdida escuto o eco
do silêncio mesmo – ó castigo –
reabrindo sempre a ferida
– a mesma – em que ponho o meu dedo
ó sangue esse rio corrente
em que – de medo – afogo o medo
de excluir para sempre o silêncio
com que fio o amor e desfio
as cordas que batem no peito
essa canção afogada no rio.
***
EU E BORGES
A cada noite
repito o gesto
de abrir os olhos ………………no sono
e – pelo avesso –
olhar e ver
– por dentro da noite –
do outro lado
o descomeço.
***
URGÊNCIA
sempre escrevendo
alguma coisa mentalmente
sem coragem de mergulhar a cara no papel
e me perder no emaranhado de linhas
sempre
essa vaga necessidade de escrever
(de dizer algo
terrivelmente essencial à minha vida)
jamais concretizada
preciso anotar
todas as minhas lembranças
todos os meus sonhos
todos os livros que li
todas as brincadeiras da infância
todas as receitas de minha avó
todas as luas que vi
antes que tempo e pó
tornem ilegível a página.
Elizabeth Hazin (Recife-PE, 1951). Publicou Poesias (1974), Verso e reverso (1980), Casa de vidro (1982), Arco-íris (1983), Espelho meu (1985), Martu (1987), O arqueiro e a lua (1994). Em 2006, a Vieira & Lent reeditou uma segunda edição — revista e ampliada — de Martu, livro vencedor do Prêmio Rio de Literatura (1986) e foi publicado Lêgo & Davinovich (7Letras) escrito a quatro mãos com Davino Sena. Em 2010, a Vieira & Lent republicou Arco-íris e em 2014 publicou Mágica de Carrosel (infantil). Atualmente é professora Associada Plena junto ao Programa de Pós-Graduação da UnB, líder do grupo de pesquisa Estudos Osmanianos.
O amor deles fedia. Fedia porque depois de nascer, crescer e reproduzir-se (tinham uma filha), o amor morreu. Mas não houve coragem para o sepultamento e o amor deles tornou-se um cadáver jogado em cima do sofá.
Nascera aquele amor num ponto de ônibus, em um desses insuportáveis fins de tarde de primavera no subúrbio carioca, quando voam os mosquitinhos ao redor das luzes.
Ele viu Lucília toda atrapalhada, entre pernas de trabalhadores exaustos que esperavam a condução da volta pra casa. Eram jovens e não havia nem sinal do que se tornariam com o tempo. Lucília abanava-se e às vezes batia em si mesma, por causa dos insetos sobre a cabeça.
– Você deve ser uma pessoa muito iluminada.
– Por quê? – Lucília deu um tapa rente ao próprio rosto.
– Porque esses mosquitos ficam quietinhos no inverno. Mas no calor voam, se guiando pela lua. O problema é que quando encontram outra fonte de luz, se confundem.
– Tipo uma lâmpada?
– Ou um rosto luminoso.
A partir desse dia, Lucília cingiu aquele homem – que entrou no mesmo ônibus que ela dizendo, sim, esta é a minha condução, mas depois pegou mais dois para chegar ao seu verdadeiro itinerário, não sem antes conseguir um beijo e o número de telefone.
O amor cresceu rápido. Não à toa. Eles o alimentaram à base de pipoca e cinema, de chocolate e bolo, de pizza e cerveja. Mas o erro do amor foi ter se considerado autossuficiente. Se amigos convidavam um ou outro para sair, em vez de ir e apresentar o namorado novo, eles diziam em uníssono, não, melhor ficar. E assim foram ficando. Cada vez mais solitários. O amor deles se trancou no quarto e ficou antissocial. O amor ficou mimado, o amor ficou narcísico, o amor perdeu a noção de mundo. O amor deitou na cama e ficou olhando o teto. (O amor ficou um chato!).
Foi assim que o amor deles cresceu mais do que deveria (relacionamentos acabam por amor de menos, também por amor demais). E ficou gordo. A ponto de Lucília, vinte e poucos anos, não aguentar mais carregá-lo em si, de modo que seu marido (casaram-se no civil, depois de algum tempo) teve que conduzir sozinho aquele sentimento morbidamente obeso.
Nessa disparidade de esforços, o tempo passou. Ele começou a se olhar no espelho e sentir-se velho, sozinho, a despeito de ter trinta e cinco anos. O mesmo não ocorria com Lucília. Ela – que até gostava da solidão – ainda sentia-se jovem, uma jovem mãe (o rebento veio logo após o casamento), e essa diferença geracional os distanciou. O que um queria, o outro não estava a fim. Sempre.
Foi a essa altura que o amor morreu e ficou jogado em cima do sofá. Mas o casal não reconheceu o corpo. Não assinou atestado de óbito. Não fez um enterro digno. Ambos empurraram a situação com a barriga (talvez por isso, perto dos quarenta, tenham começado a fazer crossfit – mas cada um numa academia). Enquanto isso, a filha (já uma adolescente) chorava pelos cantos num luto que não acabava nunca. O mau cheiro do cadáver dentro de casa a fazia lacrimejar.
Foi num dia de tristeza extrema da filha (a menina cortara os pulsos com lâmina de barbear), que o homem decidiu ir embora. Não tinha uma amante. Só estava exausto. Lucília também estava, mas feito um mosquito de luz depois do voo, perdeu asas.
– Vamos pensar uma última vez – ela propôs.
Era inverno e ambos se convenceram a recolherem-se em suas solidões e olharem-se sem automatismos. Foram dias de silêncio naquela casa-área-de-desova.
Dias depois, eles se reencontraram e, olhando-se nos olhos, souberam que finalmente era hora da cerimônia fúnebre.
Primeiro ele se abriu. Até as entranhas. Depois foi a vez de Lucília se abrir. Eram as palavras voando depois de semanas em hibernação.
E foi assim, abertos, que tiraram aquele corpo podre de dentro de si; era o amor em putrefação. Havia uma porção de ossos entulhados. (Com o tempo e a serenidade, poderiam remontar o esqueleto do que fora aquele sentimento, e deixá-lo à exposição numa das salas da memória).
Quando saíram do quarto, a filha finalmente conseguiu respirar. O cheiro funesto tinha desaparecido e a adolescente se alegrou genuinamente ao ver a rara alegria nos olhos de seu pai e sua mãe. Abraçou-os, como um padre a benzê-los:
– Eu abençoo essa separação, desde que nunca se separem de mim.
Os dois passaram as últimas semanas de inverno quietos. Cada um em sua nova casa, trabalhando, vendo televisão, olhando a rua sem coragem de ir lá fora. Mas no primeiro fim de semana quente da primavera, como se a separação tivesse acendido uma luz, ambos saíram dispostos a encontrar nova companhia (a filha incentivou a aventura). Meio desorientados, avançaram sobre a noite feito mosquitos avançando nas lâmpadas. Ele encontrou uma jovem num bar. Lucília encontrou um colega de trabalho. Voaram ao redor de suas novas lâmpadas, com a leveza de quem encontra a lua, até se cansarem e caírem nas camas exaustos, sentindo ao redor a lascívia da perda de asas depois do voo e a vontade de estar no casulo de um toque novo.
Foi assim que fertilizaram a terra onde nascem os afetos novos: com prazer. E só prazer.
De amor, por enquanto, nem o cheiro.
***
Substituição
Há meia hora atrás eu era criança, um menino pensando em como melhorar o time da Internazionale para vencer o Milan do meu vizinho, após quatro meses de derrotas humilhantes, no Play Station da lan house do Nino. E agora, deitada no braço do sofá com a saia erguida, a amiga da minha prima me pergunta, você tem camisinha?
Notei que ficou maior a sombra do meu corpo que pedalava com pressa – mais pressa que o Kaká quando puxava um contra-ataque no vídeo-game. Na verdade, até minha bicicleta pareceu uma CG 125 cilindradas; e eu, um homem feito e habilitado a pilotar rumo à farmácia, onde estacionei e perguntei, moça, tem preservativo?
A balconista estranhou. Não que alguém aos catorze anos não possa fazer sexo, mas ir à farmácia comprar camisinha, ainda mais sem constrangimento algum, lhe pareceu demais; meio a contragosto, ela apontou a prateleira, aquela ali, ó. As camisinhas pareciam guloseimas – descobri posteriormente que algumas são. Voltei com três. Era para o que dava meu dinheiro, que iria para a lan house do Nino, mas foi para o sexo.
No caminho, porém, entrei em colapso, como se meus pensamentos não coubessem na cabeça que os pensava. Me perdi pelas ruas que conhecia e, parado numa encruzilhada, sem saber pra onde ir, eu disse a mim mesmo, pensa, pensa cara, a garota tá à sua espera. Na dúvida optei pela esquerda – ainda opto hoje em dia. Então eu reencontrei a amiga da minha prima, e ela ainda estava de saia erguida sobre o braço do sofá.
Tentei ser romântico, passar o dorso da mão no rosto dela, coisas que eu tinha visto na Malhação. Mas logo a mão se perdeu em outras tramas. Se foi rápido ou devagar eu não sei. Quando temos prazer não nos preocupamos com o tempo. Sobretudo esse prazer primicial: a sensação da primeira penetração da vida é algo tão drástico quanto nascer, quando você sai de um corpo familiar; a diferença é que, sobre o braço do sofá, eu entrava num corpo estranho. Depois que saí pela última vez, nos abraçamos e ela disse, amanhã a gente faz mais, pode ser?
Sem saber que esse amanhã nunca chegaria, guardei as outras duas camisinhas como Maldini guardava a zaga do Milan, o time do meu vizinho. Vizinho que, quando me viu na rua andando a esmo – eu ainda revivia as lembranças recentes – me propôs: vamos jogar?
Respondi que estava sem dinheiro. Eu pago, ele disse, e já fez um gol rápido com Seedorf, porque eu ainda pensava no corpo da amiga da minha prima. Empatei com a classe de Figo; Pirlo fez de falta pra ele e logo em seguida meu Recoba provocou um alvoroço em sua zaga e colocou 2 x 2 no placar. Meu vizinho assustou-se: hoje você tá inspirado, não sei o porquê, mas calma que ainda tá no primeiro tempo. Só eu sabia por quê. Inexplicavelmente, consegui segurar o resultado. Eu mal pude acreditar que o jogo já estava no final (quando temos prazer não nos preocupamos com o tempo). Mas eu ousei, queria o improvável! Substituí Figo, o mais velho do time, e coloquei o jovem Adriano, o mais novo; tão novo que parecia uma criança perto dos outros. E foi Adriano que, após um chutão despretensioso, ficou sozinho contra o goleiro adversário. Meu vizinho e eu nos levantamos. De pé na frente da televisão 29 polegadas, parecíamos dois fiéis reverenciando um altar. Seu semblante era de desespero, porque eu finalmente poderia vencê-lo após quatro meses. Ainda há pouco eu era um adulto, pensando em como dar prazer a uma garota, e agora a vida se resumia a fazer valer a substituição do mais velho pelo mais novo, e, com os pensamentos novamente confortáveis dentro da cabeça, vencer aquele clássico italiano do Play Station, na lan house do Nino.
Jonatan Magella nasceu em 1990 e vive em Nova Iguaçu/RJ. Publicou Vidas irrisórias (contos, 2018) e Desculpe o transtorno (dramaturgia, 2019). Tem dezenas de contos em revistas e coletâneas nacionais. Organiza o evento literário Aleatórios.