Foto: Hermes Polycarpo

Aos poucos, mais um ano se despede de nossos domínios. Sem dúvida alguma, é outro ciclo de realizações que completamos no transcurso histórico da revista. É impagável manter a chama acesa, ter vontade permanente de seguir com um projeto editorial dessa monta. Acima de tudo, é incomensurável o retorno que emana como resultado das ações todas. O ânimo se renova cada vez que percebemos o interesse das pessoas em alimentar nosso caminho com colaborações que são fruto de suas vivências e mergulhos no fértil terreno da Arte. E aqui decompomos o termo para abarcar as expressões literárias, cinematográficas, musicais, teatrais, a fotografia, a pintura, as ilustrações e desenhos dos mais variados participantes. Enfim, inúmeras são as possibilidades de atuação no contexto da Diversos Afins. Ao mesmo tempo, notamos que se forma um movimento espontâneo de pessoas em torno do projeto, dinâmica tal que move encontros nos campos da palavra e da imagem. Realizar é preciso. Coisas precisam ser ditas. O pensamento necessita da amplitude dos horizontes. A Arte é instrumento de comunicação. Mais ainda, é território de expansão das nossas humanidades, da consciência do nosso lugar no mundo. Ela também é ferramenta de partilha social em plena contemporaneidade, era que vem apresentando tensões em escala global, seja no aspecto geopolítico, seja no quesito ideológico, para não dizer em outros muitos mais. Cada autor que aqui desfila suas criações é, em última instância, alguém a dividir conosco (editores e leitores) saberes e sabores desse complexo denominado existência. Para além dos instintos mais básicos, de que realmente temos fome? Arriscamos em considerar que temos fome de poesia, dessa a que aludem os versos de gente como Alex Simões, Clarissa Macedo, André Rosa, Bárbara Bittencourt e Pedro Vale. Desejamos também os sinais da perplexidade presentes nos contos de Viviane de Santana Paulo e Rodrigo Melo. Agora somos contemplados com a reinvenção do humano abordada nas pinturas de Canato e que estão dispostas pelas vias da nossa nova edição. É Helena Terra quem nos mostra suas reflexões sobre o livro de estreia da poeta Priscila Pasko, Como se mata uma ilha. Com sua verve analítica sempre atenta, Guilherme Preger fala a respeito do instigante filme sul-coreano Parasita. Numa entrevista, a escritora Lelita Oliveira Benoit expressa reflexões sobre seu novo livro, bem como areja ideias em torno de sua trajetória e outros afins literários. Vinicius de Oliveira discute aspectos do romance Rio Negro, 50, obra de Nei Lopes que traz à tona abordagens históricas sobre a questão racial brasileira. Apresentando suas observações sobre a peça Nastácia, que é baseada na obra de Dostoiévski, Vivian Pizzinga adentra as vias da seara teatral. Com sua pesquisa musical sempre ativa, Pérola Mathias desfila entre nós as suas sensações para o disco Na Base do Cabula, do cantor e compositor Roberto Mendes. A julgar pelo acervo aqui apresentado, há um conjunto de partilhas disponíveis. E é com grande prazer que anunciamos que ele faz parte de nossa 133ª Leva. Boas leituras e mergulhos!
Os Leveiros
Rodrigo Melo

SÓ ELE VOLTOU
Alguns dizem que ele a matou e a jogou, com carro e tudo, num dos brejos lá da serra, um daqueles que ninguém sabe direito como chegar. E, acredite, tem uma porção de brejos assim por lá. Mas a maioria acha que tudo realmente aconteceu: que eles foram levados para algum tipo de experiência e que, por algum motivo indecifrável, só ele voltou. Eu mesmo não sei dizer o que é verdade. Cada um tem a sua opinião e a depender do jeito que falam, acabo acreditando em quase tudo.
A história que todos conhecem é que eles tinham saído para jantar. Era uma quinta-feira como outra qualquer, sem nenhuma data comemorativa ou algo assim. Alguém lembrou depois que eles quase nunca saíam juntos, mas há muitas coincidências na vida e essa pode ter sido apenas mais uma. De qualquer modo, foram até uma pizzaria, aquela que fica na esquina do cinema, e se sentaram em uma das mesas da varanda. Ele deixou Norma escolher o tamanho, família, e os sabores, e ela pediu metade de calabresa e a outra metade de manjericão roxo. Comeram sem conversar, como muitos outros casais, cada um sentado em um lado da mesa. Ela bebeu refrigerante e ele, uma lata de cerveja. A garçonete disse que Norma perguntou se era possível embrulhar os dois pedaços que haviam sobrado e que ele, ao descer o batente da pizzaria, disse:
– Cuidado, querida, para não tropeçar.
Entraram no carro e partiram. E, depois disso, tudo o que a gente sabe foi o que ele contou.
Ele disse que seguiram pela estrada que leva aos brejos. Era o caminho mais longo, mas ela gostava de ir por ali. Escutavam música francesa: Allan Barriere e Charles Aznavour. Conversavam sobre o desabamento de um prédio que tinham visto na tv. Tudo ia bem, quando, depois de passar pelas velhas fábricas, ao entrar à direita para pegar a grande reta que os levaria para casa, o carro de um segundo para o outro parou – não havia desligado, assim como não parecia haver qualquer problema mecânico. Apenas deixou de ir para a frente, de seguir a linha que vinha seguindo. E o mais estranho daquilo era que, mesmo acelerando e quase afundando o pé no assoalho do carro, continuavam sem sair do lugar. Era como se um enorme ímã os segurasse. E então, abruptamente, o carro ficou suspenso no ar e começou a se afastar do chão. Ele disse que não demorou a deduzir que estavam sendo abduzidos por alguma nave espacial, pois era a única coisa que poderia estar acontecendo. E ela, a nave, era enorme e muito clara, tão clara a ponto de quase cegá-lo, por isso teve que fechar os seus olhos. E apagou. Quando despertou, horas ou dias depois, se deparou com aquelas duas criaturas curvadas sobre si. Eram bem diferentes das que vira em qualquer filme sobre aliens, pois tinham o corpo gelatinoso e andavam sem esforço algum, como se flutuassem a dois palmos do chão. Curiosamente, ao invés de lhe causarem medo ou asco, lhe davam uma surpreendente sensação de paz e segurança. Elas o colocaram numa espécie de redoma de vidro, que chacoalhou por algum tempo e depois parou. Nesse tempo, ele acabou apagando mais uma vez.
Na manhã seguinte, encontrava-se completamente nu, deitado sobre o asfalto, quando um cachorro veio e lhe lambeu o rosto. Não havia nenhum sinal do carro, muito menos de Norma. E ele, sem ter mais o que fazer, simplesmente se levantou e correu para casa, de onde ligou imediatamente para a polícia.
Tem cinco anos que isso aconteceu. O caso continua em aberto, pois nunca acharam o corpo, mas a bem verdade é que quase todo mundo acreditou na história que ele contou. Às vezes, até eu. Nos finais de semana, quando o tempo está bom, alguns turistas aparecem e vão até a estrada que leva aos brejos, hoje tão movimentada quanto qualquer rua comercial. Procuram por uma queimadura no asfalto ou qualquer coisa que os convença de que tudo de fato aconteceu, e por vezes até encontram algo, e, alvoroçados, começam a falar alto e a sorrir, como se dependesse daquilo atestar que tudo tinha sido mesmo verdade. Em seguida, rumam em caravana até a frente da casa em que o casal morava, onde hoje há uma lojinha na garagem. Em alguns dias, ele aparece, acompanhado da nova esposa, uma loira, quinze anos mais jovem, e tira fotos, conta para todos como foi a louca e maravilhosa experiência que teve a sorte de vivenciar. E aquelas pessoas então o abraçam, lhe pedem autógrafos, e, ao seu modo, o reverenciam, porque, apesar de tudo, ele conseguiu sobreviver.
Parece que na semana que vem, lá na praça em frente à pizzaria, vão inaugurar uma estátua dele montado em um disco voador.
Rodrigo Melo é prosador e vive em Ilhéus, Sul da Bahia. Publicará, no início de 2020, o romance Riviera.
André Rosa

O poema da dor
À Heitor Brasileiro
O poema nasce da dor
Da indizível dor
A dor precária e suja
O poema é a própria dor
Narrada em desespero
A dor calada e velha
O poema traduz a dor
Sem rimas
A dor miúda e desvalida.
***
Giroscópios
Entretanto vigio a frase
Escorregadia membrana
Sob chuva de amarelos
Que preparam o dia
Vai-se o corte, a espera
A frase de magnólia
Que apodrece
As plantas, os giroscópios,
A escama, o chumbo do dia.
***
Faca do Sol
Me fiz rio navegável,
Faca do sol.
Nasci peixe feio
Sob as trovoadas de junho.
Banho as patas do gado,
Alimento seu existir.
Converso em água e sal,
Convulso o caminho
Em que me arrasto.
Sou verde, castanho ou negro.
Dependo dos olhos que fitam.
Sou agora rio: antes e depois.
***
Hábito
Onde os meus olhos
Eram noite e transitórios,
Julgo a tessitura do tempo
E transitório serei
Aos teus olhos suspensos.
Perdoa se me invento
A cada espelho,
A cada sumo da rudeza.
Ao arrepio dos pelos
Desprezo a demasia do hábito.
***
Nu
Durmo nu
Apesar dos latidos.
Sou ermo e rotina,
Spleen nos ilhéus.
Durmo nu e
Ninguém me anuncia
Mesmo que grite
O líquido da rua.
Durmo nu
E invisível.
***
Vento agrário
Quem detiver o tempo nos dentes
Irá quedar o desejo,
Conduzir águas ao extremo
No sereno em furta-cor,
No desmaio sumário do sol.
Quem guardar as ruas nas unhas
Irá dedilhar os rastros da noite
Antes que a morte navegue
O seu barco sírio.
Há um vento agrário no ranger da flor.
André Rosa é Ilheense, nascido na Maternidade Santa Isabel. Autor de “Morte e gênero: um estudo sobre a obra de Jorge Amado” e “Quintais do Tempo”. Coordena o Prêmio Sosigenes Costa de Poesia e compõe a comissão organizadora da Festa Literária de Ilhéus. Atualmente está presidente da Academia de Letras de Ilhéus.
Vozes que ecoam na síncope
Por Vinicius Gaudêncio de Oliveira
No carnaval de 2019, o samba-enredo da Estação Primeira de Mangueira contou a história não oficial do Brasil, a partir da versão de quem construiu o país e logo após foi largado à própria sorte. Desde a abolição da escravidão, tanto a história oficial quanto o senso comum contam que as pessoas escravizadas tiveram as mesmas oportunidades na dinâmica da sociedade. Porém, o Brasil foi o último país do Ocidente a por fim à escravidão. A vida brasileira foi marcada por um período cuja dor da experiência dessa violência permeia até hoje as relações sociais, e isso vai formando um imaginário pejorativo sobre os negros, relegando-os à ocupação de subempregos com baixa remuneração e de maior esforço físico, e sua produção artística e intelectual quase sempre é associada à cultura subalternizada.
Como o racismo sufoca o protagonismo negro e funciona como parte do projeto de desqualificação das camadas historicamente subalternizadas como produtores de saber e de cultura, Rio Negro, 50, do escritor e sambista Nei Lopes, reconta a história oficial dando visibilidade aos saberes e às culturas afro-brasileiras. Nesse sentido, vale destacar que o projeto que visa o apagamento das culturas, religiões e saberes do povo negro ainda se encontra em funcionamento, visto que a Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro detém em sua posse cerca de 200 peças, entre imagens religiosas e instrumentos musicais apreendidos na década de 1920 dos candomblés e rodas de capoeiras, em uma época na qual o Código Penal (de 1890) criminalizava os centros de umbanda, os terreiros de candomblé, a capoeira e o samba.
Já no prólogo do livro, vêm à tona duas cenas de racismo. Na primeira, com algumas doses de machismo e homofobia, após a derrota da seleção brasileira de futebol na Copa do Mundo de 1950 para a seleção uruguaia, um grupo de jovens “confunde” um homem que salta do trem da Central do Brasil com Bigode, meio-campista da seleção brasileira, e por motivos puramente associados à cor da pele, começam os xingamentos e os tapas, um verdadeiro linchamento físico e verbal na então capital da república, tudo isso em uma manhã de segunda-feira: “Negro sem-vergonha! Cadê o outro viado, seu filha da puta? Mete-lhe a ripa! Toma, seu puto caga-leite! Para aprender a ser homem”.
Na segunda, Nei Lopes dá algumas pistas e deixa que o leitor tire suas conclusões. O diálogo entre um jovem professor e um embaixador, no qual este desaconselha aquele de trabalhar no Itamarati, sugerindo-lhe o trabalho no cais do porto devido ao seu porte físico musculoso, é confirmado pelo narrador como se fosse outro caso de racismo: “Se tivesse esse físico, esses músculos, eu ia era trabalhar no cais do porto, meu filho. Você nunca vai conseguir entrar para o Itamaraty. E, assim, o professor foi saindo do palácio sem ver nem ouvir nada, nem mesmo o outro linchamento que acontecia na velha Rua Larga de São Joaquim”.
Intelectualidade e cultura
O narrador apresenta uma rica galeria de personagens — ora nominadas, ora anônimas, ora do mundo real que se atravessam, desarquivando a história do Brasil, reafirmando e confirmando os saberes daqueles que a todo o momento têm sua cultura subjugada. O Café e Bar Rio Negro e Bar-Restaurante Abará, ambos na região da Cinelândia, são pontos de encontro da intelectualidade negra, que ali discute as contradições de uma cidade que se pretendia moderna. Mobilidade urbana, moradia, favela e política são temas recorrentes nas mesas dos bares.
Entre intelectuais, músicos e compositores, o encaminhamento narrativo indica que a cena intelectual e cultural da década de 1950 é composta, a rigor, por negros. Paula Assis é um advogado negro que denuncia ao Ministério Público o referido crime da Copa, cujas suspeitas recaíam, por todo o romance, sobre os três jovens negros. Após nove anos do crime, foram identificados os responsáveis, porém eram filhos de pais com cargos importantes na sociedade. Quando o novo promotor assume o caso, dispensa a ajuda de Paula Assis (lembre-se que este é um advogado negro que se empenha para a elucidação do crime) e se posiciona a favor da manutenção do status quo “tudo não teria passado de um caso fortuito, de uma triste obra do acaso”. Outros intelectuais recriados na narrativa são Esdras e Paulo Cordeiro. Este é sociólogo e jornalista com estudos e reportagens sobre tradições populares, principalmente a do povo negro; aquele é ator, dramaturgo e militante pelos direitos dos afro-brasileiros, além de um transgressor destemido, tendo como sua maior ambição formar um grupo de teatro de negros.
Além de dar visibilidade à intelectualidade negra, o autor formula com maestria o encontro de duas potências culturais de resistência do povo negro, o samba e o jazz, evidenciado na chegada do trompetista americano Dizzy Gillespie ao Rio de Janeiro: “Apresentou-se na moderníssima TV tupi, tocou com a magnífica orquestra do maestro cipó, saxofonista dos grandes… E agora, antes de pegar o avião de volta, aproveita para dar uma chegada até a estação de Oswaldo Cruz, à Portela, para conhecer o samba”.
Muito além de visibilizar o protagonismo de personagens negros a partir de uma intelectualidade acadêmica, os temas da negritude também são discutidos por personagens cuja simplicidade de expressão linguística, normalmente, marca o lugar social das camadas subalternizadas: “Esses doutô que me desculpe, mas tem preto que despreza o próprio preto. É só melhorar um tiquinho…Tem mãe é que quer é ver as filha com branco. Tem homem que só quer saber de mulher loura”.
O diálogo entre João (apelidado de Mani no bar Rio Negro) e Tia Caetana revela uma prática social vigente em uma época cujo estímulo à educação eugênica era política de Estado, tanto que os três ministros de Educação da Era Vargas, Francisco Campos, Belisário Pena e Gustavo Capanema, eram adeptos deste ideal de base racista. Nesse sentido, apesar do cruel imaginário formado do negro, João é contundente “De tanto escutar que preto é inferior, feio, sujo, preguiçoso, a pessoa de cabeça fraca acaba acreditando nisso”.
Mani foi separado da mãe quando pequeno e criado em um orfanato no interior de São Paulo, ouvindo das freiras que sua mãe era uma vagabunda e por este motivo teria que viver distante dela. O menino jamais soube que fora criado por pessoas com ideais higienistas. “Tudo isso dentro de uma orientação política que eliminasse qualquer traço que impedisse o Brasil de se parecer uma nação europeia”.
O documentário Menino 23: infâncias Perdidas no Brasil, dirigido pelo cineasta Belisário Franca, resultado da tese de doutorado do historiador Sidney Aguilar, conta a história de 50 meninos negros levados de um orfanato do Rio de Janeiro para trabalhar em situação análoga à escravidão na fazenda Santa Albertina (SP), cuja dona, a família Rocha Miranda, era adepta ao eugenismo. Nele, chama a atenção uma observação feita pela historiadora Ediogenes Santos sobre práticas racistas da época, na qual os operadores dos bondes — chamados de motorneiros, em sua maioria negros — não podiam aparecer nas comemorações e nas fotografias dos passageiros.
É contra os resquícios da escravidão que Rio Negro, 50 reverbera na síncope as vozes dos silenciados, recontando a história oficial através da voz (oprimida) e do violão (que chora), criando dissonância e contraponto ao enredo oficial da história do Brasil.
Vinicius Gaudêncio de Oliveira é carioca formado em Letras/Literatura. Atua como crítico literário nas temáticas sobre produções literárias e culturais cariocas.
Por Pérola Mathias
ROBERTO MENDES – NA BASE DO CABULA
“O samba já existia antes do samba?”. A frase é um verso de uma das canções que Roberto Mendes reuniu em seu último disco, Na Base do Cabula, que é mais um passo da construção de uma obra que retoma as raízes do samba do recôncavo da Bahia em seus diversos formatos, como a chula ou a cabula – expresso já no título do disco.
O álbum, que chegou depois de um intervalo de 11 anos desde o último lançamento de Roberto Mendes, reúne diversas músicas que ele já havia gravado em discos anteriores e algumas novidades. A grande diferença aqui é que desta vez ouvimos apenas voz e violão, e todo o ritmo das tradições musicais pesquisadas por Mendes em sua composição vêm trabalhadas no seu instrumento despido de qualquer acompanhamento.
Da parceria de uma vida com Jorge Portugal, escutamos no disco novas versões para as faixas “O samba antes do samba”, “A beira e o mar” e “Baianos Luz”. A primeira, a qual o verso que cito no início deste texto pertence, reivindica o recôncavo baiano como berço do samba, onde supostamente o gênero teria nascido – discussão que é divertida quando se trata de poesia, mas um tanto caduca quando levamos pro lado acadêmico da pesquisa.

“A beira e o mar” pode ser considerada um clássico. Gravada por Maria Bethânia em 1984, a música também deu nome ao álbum da cantora. Também filha do recôncavo, do clã Viana Teles Veloso, Bethânia gravou diversas músicas de Roberto Mendes, como “Yayá Massemba”, “Olhar Estrangeiro”, dentre outras. É difícil escolher os versos mais bonitos ou marcantes dentre os cantados por Roberto Mendes, mas merece destaque a imagem trazida na poesia de “A beira e o mar”: Mesmo que desamanheça e o mundo possa parar / Nem nada mais me pareça, invento outro lugar / Faço subir à cabeça o meu poder de sonhar / Faço que a mão obedeça o que o coração mandar”. Na versão gravada por Bethânia, Roberto Mendes gravou os violões junto com Toninho Horta, que fez o arranjo. É interessante o exercício de ouvir a versão da cantora; a do próprio Mendes no disco Tradução, de 2000; a versão de Moreno Veloso no disco Solo in Tokyo, de 2011; e a que é apresentada em Na Base do Cabula.
Por se tratar de uma homenagem, “Baianos Luz”, que vem por último no disco, talvez seja a de menos destaque. Mas não menos carregada de significados, já que a música relembra o legado dos baianos que mudaram a forma de pensar e fazer arte no Brasil – os tropicalistas -, fazendo com que depois deles déssemos um salto para o futuro, em diversos sentidos.
Na Base do Cabula foi produzido pelos dois filhos de Roberto, que também são músicos: Leo Mendes, o mais velho, e João Roberto Caribé Mendes Filho. “Deu foi dó”, inclusive, é uma parceria entre Roberto e João que acrescenta mais novidade ao disco.

Por fim, o sincretismo religioso do Recôncavo surge em forma de poesia musicada em faixas também anteriormente já gravadas como “Mãe Senhora”, faixa de abertura que pede a benção para começar. Além de “Bom começo, parceria com o poeta José Carlos Capinan, para se cantar em forma de oração a Oxalá e Senhor do Bonfim. Com Na Base do Cabula podemos mentalizar um fim de ano tranquilo e continuar com ele até pelo menos a segunda quinta-feira de janeiro, dia de subir a colina sagrada, sem enjoar.
Pérola Mathias, doutora em sociologia, pesquisa música contemporânea e é autora do blog Poro Aberto.
Bárbara Bittencourt

a contragosto
.do relógio
cujos ponteiros
só apontam
em uma direção
decidi andar
…pra
trás
e encarei espelhos
me olhando
…..de frente
o caminho
é este
……aponto
***
o verso
às vezes
surge do avesso
querendo ser
palavra contra
meus pensamentos
n…só quem entende
n…meus problemas
n…são os próprios
.n..poemas inteiros
***
meu poema favorito
tem no título
o mês do seu aniversário
tem na capa do livro
de capa dura
o teu rosto
que nem está ali
de fato
mas tem
tenho estado comigo
tenho pensado muito
tenho dormido mal
tenho nós num porta retrato
…………….empoeirado
***
tudo dói
inclusive teu nome
..que salga
..minha boca
…..seca
.e meus lábios
…ásperos
de tanto
repetir vogais
***
vejo um caminho
de formigas
pelos vãos
da casa
carregam um pouco
de mim
em suas costas rasas
quantas voltas
até levarem
todo o meu eu ?
***
é fina
a linha do teu traço
que marca
a tua mandíbula
e o contorno
das gengivas
como o rejunte
que cola
e sustenta
nosso quarto
***
nas extremidades
dos meus dias
lembro de nós
..de
………..ponta
…….a
ponta
Bárbara é capixaba, mas mora no Rio de Janeiro. Médica Veterinária de formação, escreve contos e poesia na tentativa de fugir do caos cotidiano.
Viviane de Santana Paulo

CENTO E ONZE
Parado em cima da ponte Rio-Niterói. A voragem. Um ponto indefinido lá no alto, na ponta de uma reta de metal, betão, piche. Carlos Henrique vacila. A dor dilacera o pensamento. A dor arranca-lhe o coração e o estômago. A dor é uma pesada pedra no peito. A imagem de seu filho perfurado, ensanguentado e morto. Fixada na memória como ferro quente. Queima, arde. A ponte, a água dura e profunda. Ele vacila. O vento passa pela face molhada. Não chove. O sol embaçado de poluição e mormaço. O calor derrete. Os olhos chovem. A injustiça abissal. O indestrutível Golias. O sofrimento maior. O peso do mar imóvel. E de novo a imagem do filho perfurado.
Furo, disparo. Tudo o perfura, atravessa o corpo, estraçalha a alma. Dói a realidade dentro dele. Na sua mente perfurada de chumbo. Tiros que o acertam e destroem a vontade de viver.
Esquecer é um bálsamo. Mas a memória dispara a imagem centenas de vezes. E tudo à volta o acerta, fura-lhe os olhos, a boca, o ouvido. Fura o pescoço. O sangue escorre e flui pelos olhos, pelas narinas, pela boca, pelos ouvidos, pelos furos nas veias…
Cento e onze.
No meio de um dia qualquer de novembro, o raio de sol refletia na janela. Nina lia o jornal, sentada no sofá da sala, no apartamento no Rio de Janeiro. Não gostava de ler jornais, raramente abria as páginas de um. Mas comprava de vez em quando no jornaleiro. Ele vendia exemplares do seu livro.
Ao ler os jornais parecia que tudo se tornava um problema. Desde que o povo acordou para a democracia era uma manifestação atrás da outra. Era cansativo! Ela se perguntava quando isso teria um fim e ela podia viver em paz sem as vicissitudes políticas e econômicas, sem ter que responder sobre sua opinião política nos eventos de literatura. Para ela, literatura não tinha nada a ver com política.
Lendo o jornal, os assassinatos a incomodavam. O artigo dizia que mais de sessenta mil pessoas morrem assassinadas em solo brasileiro, por ano. Quarenta e cinco mil, em acidentes automobilísticos. E mais adiante: Cento e onze tiros de pistola e fuzil contra o carro no qual estavam os jovens. Neste ano, são mais de onze mil, quinhentos e sessenta disparos pelos policiais do Batalhão de Irajá. Os policiais de São Gonçalo deram quinze mil setecentos e sete tiros. Somando com os do Batalhão de Niterói e do Bope chegam a quarenta e dois mil e quatrocentos e oitenta e sete mil disparos em um ano, e ainda faltava o mês de dezembro. A foto dos jovens Roberto de Souza Penha, dezesseis anos, Carlos Eduardo da Silva de Souza, dezesseis anos, Cleiton Correa de Souza, dezoito anos, Wilton Esteves Domingos Junior, de vinte anos, e Wesley Castro Rodrigues, vinte e cinco anos, horas antes do fuzilamento, mostrava a cara alegre e inocente de jovens afro-brasileiros.
Os ruídos dos disparos ecoavam. Muitas balas perfuraram o tronco, muitas balas entraram por cima, por trás e pelo lado direito do carro. O policial que mais atirou deu onze disparos com uma pistola Taurus e dezoito com um fuzil imbel M-964 FAL. “É um vazio no coração um pai sepultar um filho assim. Você nunca supera essa dor”.
Ela passou na casa de seu editor, no condomínio CXI, na Av. Costa Barros. Um homossexual com cara de Oscar Wilde e gestos de Woody Allen. Ele, sentado na sala do escritório desarrumado e cheio de livros, propôs: — Escreva sobre isso, então! Se está te incomodando tanto! Há meses que ele parou de fumar e engordou. Mas começou a fazer uma dieta rigorosa com o auxílio de uma jovem nutricionista. E fez um tratamento de branqueamento dos dentes. Sorria um sorriso imaculado. A editora é pequena e o número de leitores restrito, mas ele consegue financiamento de algumas empresas conhecidas do marido dela.
Nina sem inspiração. Não era ruim porque tudo o que ela escrevia seria publicado. O marido possuía amigos influentes que possuíam amigos influentes, e o irmão dela era jornalista. Seu círculo de leitores eram a maioria mulheres e ela vendia bastantes exemplares nas reuniões das instituições de caridades, promovidas pelas empresas dos conhecidos de seu marido. As boas resenhas nos jornais eram por conta dos amigos de seu irmão.
Cento e onze. Wesley Castro deixou um filho de dois anos. Wilton ia se formar como técnico em administração. Carlos Eduardo tinha acabado de concluir um curso de Petróleo e Gás e se preparava para tentar concurso para a Marinha. Roberto era Jovem Aprendiz no Atacadão de Guadalupe. “Primeiro emprego. Estava rindo à toa, estava bem com a vida. O primeiro salário que recebeu foi brincar no Parque Madureira com os colegas dele”.
Antes de voltar para casa, Nina passou no supermercado e fez a compra da semana. E cinco ramos de copos-de-leite brancos. Quando seu marido chegasse a janta estaria pronta. Ele reclamava que ela perdia tempo escrevendo ou lendo, mas quando alguém nasceu para escrever, ele somente poderá ser impedido se de alguma forma for morto. Como ela não se deixava matar, ela escrevia ainda mais. Seus três filhos quase a assassinaram, mas a empregada salvou-lhe a vida. Sem a Val ela jamais seria o que é agora, uma escritora mediana, casada com o superintendente de uma grande empresa, com três filhos homens adolescentes e o sobrinho que veio morar com eles depois da morte dos pais, em um acidente de automóvel.
O PM botou o fuzil na cara de Márcia Ferreira, mãe de Wilton. “Ninguém se aproxima do carro”, berrou. A mãe viu o seu filho e o amigo Carlos ainda vivos, gemendo. A mãe foi ameaçada por policiais, ela viu quando um deles colocou uma arma no chão, ao lado do carro, e tirou a chave do contato, jogou-a no porta-malas do veículo. “Minha cunhada queria ver o filho dentro daquele carro, mas o PM botou o fuzil na cara dela e disse que ia atirar em quem se aproximasse do carro. Quando chegamos deu para ver que o Wilton e o Carlos agonizavam e ainda estavam vivos. Pedimos para socorrer, mas eles não deixaram”.
Cento e onze pássaros alçaram voo. O bando estava pousado na árvore e no muro do grande jardim. Cinco ninhos nos galhos das árvores. A tarde caía. Nina sentou-se à mesa e não conseguia começar. Não sabia o que narrar sobre os cinco jovens assassinados pela polícia dentro de um Fiat Palio branco, enquanto voltavam para casa. Roberto tinha recebido seu primeiro salário como auxiliar de supermercado e os cinco amigos foram comemorar. Moravam no Morro da Lagartixa, no Complexo da Pedreira, onde os jovens negros morrem ou nas mãos dos bandidos ou da polícia, um bairro distante de onde Nina mora. Era como se fosse em outro país, em outro continente. Precisar conviver com a incerteza se o filho será vitima ou algoz. Era como uma guerra civil, um genocídio camuflado de perseguição e execução de criminosos. Horas antes a polícia tinha recebido um aviso sobre um roubo na redondeza e os suspeitos estavam dentro de um carro e uma moto. Na Curva Vinte e Um apareceu um carro e uma moto e isso foi o suficiente para a polícia atirar. Despreparo. Salário baixo. Risco de vida. Psicopatas. Psicologia. Despreparo.
Um dos países onde mais se mata.
Nina tinha medo de ir àquela região da cidade, mas buscava escrever uma história autêntica e para isso queria conhecer as famílias, as mães, pelo menos uma, precisava conversar com ela, saber sobre a vida dos rapazes. Soube, por meio de outro artigo de jornal, que o pai de Roberto foi um dos primeiros a chegar ao lugar da chacina, e não consegue esquecer a imagem do carro perfurado com o filho dentro. O adolescente recebeu 16 tiros. Soube que o alarme de Roberto toca regularmente às 6h30. O pai não sabe mexer no computador do filho para desativá-lo, e ouve o alarme tocar de segunda a sexta. O filho, de dezessete anos, nunca mais acordou para ir à escola.
O alarme tocou, seis e meia da manhã. Nina levantou-se e foi ao quarto acordar os meninos. Cinco luzes acesas. Eles tinham que ir à escola. O mais velho era o que mais lhe dava trabalho e era o último a se levantar. O sobrinho era o primeiro a se levantar. Eles não tomavam o café da manhã, se arrumavam e logo saíam.
— Não se esqueçam de passar o protetor solar. Vocês têm a pele muito sensível!
Dois iam a pé, caminhavam pelas ruas do bairro até chegar à escola, atrás de uma praça arborizada. O sobrinho e o de dezesseis anos pegavam o ônibus especial da escola particular que passava na rua de cima.
Cento e onze. Gritos. Eram amigos de infância. Cinco amigos. No selfie, um deles sorri metálico com o aparelho corrigindo a felicidade. Cinco vidas. Josita, mãe de Roberto, morre três anos mais tarde, sem forças, anêmica, aos quarenta e quatro anos. Wilkerson, quinze anos, irmão de Wilton, que estava em uma moto com um amigo e conseguiu fugir dos disparos, morre de aneurisma cerebral, um ano depois.
Nina falou com a Val, que morava no bairro vizinho, sobre a possibilidade de vir a conversar com alguém da família.
— Você enlouqueceu? Foi a pronta resposta de Val. Eu não conheço ninguém daquele bairro. Não piso os pés lá.
— Mas você não poderia ver se alguém conhece uma daquelas mães?
— De jeito nenhum! E como você vai até lá? Nem táxi circula naquela região.
— Mas as pessoas vivem lá. Há muitos que vivem lá e não são todos criminosos. São a maioria gente como nós. Não são? Como eu e você que batalhamos na vida!
Uma série de argumentações passou pela mente de Val. Ela não era como a patroa. E respondeu apenas, “eu não posso lhe ajudar. Pergunte ao seu irmão, ele é jornalista!”.
De repente, a chuva.
— Val, tira a roupa do varal. Está começando a chover! Val correu para o quintal. Mas, não demorou muito, a chuva parou. Cento e onze gotas de chuva na poça no quintal.
“Não atira! Somos moradores!” O braço para fora do carro em sinal de aviso. “Não atira! Somos moradores!”
O maxilar solto por causa da potência das balas, pendurado
Cento e onze.
O advogado pediu ao Tribunal de Justiça que obrigasse o Estado a custear atendimento psicológico para mãe e filha. Em primeira instância, o pedido foi negado — a juíza considerou que a solicitação só poderia ser atendida após a condenação dos PMs.
Cento e onze.
Nina pensou que a Val sempre a teve nas mãos. Ela era de confiança, rápida no serviço, prática, gostava de crianças e Nina não sabia de onde ela tirava tanta sabedoria sobre o relacionamento entre as pessoas. Há vinte anos que ela trabalhava na família. Com a convivência se afeiçoaram uma a outra. Val era determinada, Nina podia se dar ao luxo de se perder na realidade, o luxo do devaneio.
Adriana, mãe de Carlos Eduardo parou de falar. As palavras estraçalhadas dentro dela, a mudez sufocando. E o grito, a agressividade, os antidepressivos. As tentativas de suicídio. O mar. As ondas para engolir a dor. A dor acorrentando os pés. O caminhar no pântano. Na mão uma carta do filho, presente do Dia das Mães: “Escrevo essa carta para te dizer que tenho a melhor mãe do mundo, não porque seja a minha, e sim porque, se buscasse no mundo inteiro, não vou encontrar outra igual, nem parecida”. Monica Aparecida Santana Corrêa, mãe de Cleiton, vive à base de antidepressivos e medo de sair de casa.
O marido chegou do trabalho. Nina preparou a janta que Val cozinhou. No prato, cento e onze grãos. O filho mais velho fez dezoito anos, no mês anterior, e ganhou um Audi A3 sedã branco de presente. Desde então ele não respeitava mais o horário da janta. Nina o orientou a não sair do bairro, não dirigir o carro por aí, longe. Aquele bairro era seguro, os dois bairros vizinhos também, mas ao se afastar para a zona norte, poderia acontecer roubo ou rapto. Nina se preocupava. Quatro jovens em casa, quatro filhos lhe davam trabalho. Nervoso. Paciência. Paciência. Nervoso. O de dezesseis anos costumava deitar a cabeça em seu colo, no sofá da sala, vendo televisão. Ele tinha crescido. Desta vez, Nina deitou a cabeça no peito dele. Cento e onze batidas do coração. — Lembro de quando você nasceu, um bebê gorduchinho! Meu fofo!
Cento e onze. Márcia Ferreira de Oliveira, mãe de Wilton: “Que segurança é essa nossa que a gente é patrão deles porque o pagamento é a gente que paga com o nosso suor e a gente paga para eles poderem matar os nossos filhos da forma que o meu filho e os amigos deles de infância foram mortos? Não tinha bandido dentro daquele carro não. Tinha um bando de adolescente querendo se divertir, querendo fazer de um sábado um dia diferente, um dia de alegria, e hoje eu estou aqui, na porta do IML tirando o corpo do meu filho dali. Que UPP é essa? Ele acabou com cinco famílias. O meu filho tinha 18 anos, mas era uma criança. Ele deitou no meu colo e falou ‘mãe me faz um cafuné?’, como se fosse um bebê. E amanhã eu tenho que enterrar o meu filho”.
A mãe saía para trabalhar, Wilton fazia o jantar e cuidava da irmã pequena, de 6 anos. De vez em quando, ela o chamava de “pai”.
Um ano depois, Nina sentou-se à mesa e não conseguia escrever. Não sabia o que narrar sobre os cinco jovens assassinados pela polícia dentro de um Fiat Palio branco, enquanto voltavam para casa.
No apartamento de seu editor, sentado na sala do escritório desarrumado e cheio de livros, ele propôs: — Escreva então sobre os refugiados! Faça uma viagem pela Europa e escreva sobre os refugiados. Este é um tema que está em voga atualmente, e é um tema internacional. Seus avós eram húngaros, seu marido é descendente de italianos. Conte a história de sua família! Seus avós fugiram, na época da guerra, eram judeus, não eram? Escreva sobre isso! Para ser sincero, eu sabia que você não conseguiria escrever sobre estas mortes. Elas acontecem demais! Fazem parte do cotidiano brasileiro. Nós, brasileiros, lemos isso nos jornais o tempo todo! Esses jovens não são os primeiros e não serão os últimos e a maioria da população não se importa. Este é um tema muito vinculado à vida na favela e as favelas não são o Brasil. Favela é favela! Isso não é um tema internacional e você não conseguiria vender os livros nas instituições importantes. Eles não gostam destes temas polêmicos! E poderíamos ter problemas com a polícia e com o financiamento para a publicação. Eu somente sugeri para você pensar e se ocupar um pouco. Você mesmo veria que não é pra você, e foi o que aconteceu. Escreva sobre os refugiados na Europa, sobre a ditadura e a imigração brasileira! A matança nas favelas é horrível, mas a maioria não consegue se identificar com isso e não quer saber de violência, droga, crime, policiais despreparados, corruptos, sanguinários ou bandidos cruéis ou jovens inocentes. Já chega os filmes norte-americanos! É um tema muito pesado! É um tema masculino! Você não é Paulo Lins ou Drauzio Varella! Escreva sobre a ditadura! O tio-avô de seu marido não esteve preso? Você me falou disso certa vez. Uma namorada dele sumiu. Ela era professora na universidade e foi depor, depois disso nunca mais foi encontrada. Vamos pensar em um livro que possa lhe trazer prêmios internacionais!
Uma centena, uma dezena, uma unidade. Um número harshad mais um. Jorge Roberto Lima e Penha, pai de Roberto, trabalhava de montador da Odebrecht e faz faculdade de Direito. “Ele era quase um bebê, e não vai poder nem me ver de beca. Não é por mim, em si, porque tudo que sempre fiz foi pelos meus filhos.”
Cento e onze.
“Quando ando com essa cara triste pelo morro escuto as piores coisas que uma mãe pode ouvir. Dizem que vai doer menos se eu me conformar, que não sou a única no mundo a ter perdido um filho, que eu quero ficar famosa. Já me falaram até que não tenho motivo para sofrer porque fiquei rica com a indenização do estado. O governo não nos deu dinheiro algum, e a verdade é que não quero um centavo. Só quero sair daqui. Preciso salvar meus outros filhos.”
“Às vezes, ela volta do trabalho chorando o caminho todo. Era o único filho. Só tinha o Wesley!”
Nina partiu para a Europa, passou três semanas. Os rapazes foram junto. Visitaram diversos pontos turísticos e Nina recebeu autorização para visitar um campo de refugiados, na Grécia, mas não quis expor os rapazes àquela realidade deprimente de pessoas presas. Guerra, miséria, pobreza, promessa, ilusão. Ainda mais que o sobrinho terminou o tratamento psicológico há pouco tempo. Dois anos fazendo terapia por causa da morte dos pais. Nina dedicava-lhe, às vezes, especial atenção e pedia para os outros garotos terem paciência com ele, ajudá-lo. Eram bons rapazes, carinhosos, bons filhos. Levou-os para curtir a praia turquesa e mansa. Crepúsculo rosado. Cento e onze estratos transparentes no imenso azul do céu.
— Não se esqueçam de passar o protetor solar. Vocês têm a pele sensível!
Ela escreveu um romance sobre uma fotógrafa apaixonada por um refugiado sírio, engenheiro, que consegue falsificar os documentos e acompanhá-la para o Brasil. Menção à ditadura grega e brasileira. Ganhou um prêmio internacional.
Cento e onze disparos atravessaram a lataria branca do automóvel, entraram no corpo macio e quente dos jovens, perfuraram os ossos, transpassaram o tórax, o quadril, o abdômen, o pescoço, estraçalharam o queixo, a cabeça… o sangue gelatinoso e escuro espalhou-se no assento, no chão. Cento e onze balas de ferro, duras e mortais, geladas e inanimadas. No céu o final da tarde. À noite as estrelas caladas. Sem brilho. Assustadas.
“Quem deveria nos proteger está nos matando”.
Cento e onze.
“Cada vez que escuto um tiro penso no que Cleiton sentiu quando entrou a primeira bala. Não consigo parar de pensar nisso. Nenhuma mãe suporta ver um arranhão em seu filho, imagine vê-lo transformado em picadinho. Meu filho foi enterrado nu, porque não era mais um corpo que pudesse ser vestido.”
O filho mais velho de Nina, agora com vinte anos, conseguiu o seu primeiro emprego como assistente de auditoria, através da recomendação do pai. O seu curriculum foi o menos atrativo, ele não tinha experiência e estudou em uma faculdade particular. O mais velho nunca foi de estudar, faltou muito nas aulas e pagou amigos estudiosos para escrever os seus trabalhos. Mas no final, tudo deu certo e ele conseguiu o diploma de administrador de empresas. Um mês depois ele recebeu o seu primeiro salário. Estava feliz. Encontrou os irmãos, na quadra de tênis do prédio, e um amigo dele. — Vamos pro restaurante, no shopping?
Naquele início de noite, vento fresco e cheiro adocicado no ar. Alegres, os cinco jovens saíram com o Audi A3 sedã branco e foram comemorar.
Viviane de Santana Paulo é poeta, tradutora e ensaísta, autora dos livros, Viver em outra língua (romance, Solid Earth, Berlim 2017), Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Publica poemas em revistas e jornais, entre eles, Suplemento Literário de Minas Gerais, Inimigo Rumor, Jornal Rascunho, Poesia Sempre e Coyote; assim como nas revistas Argos e Alforja (México). Atualmente, vive em Berlim.