Foto: Luiz Bhering

A resistência através da Arte é uma demanda de nosso tempo. E tal frase pode até não trazer nada de novo no transcurso da história contemporânea, mas o fato é que a necessidade de se ressaltar a sobrevivência de nossas vozes e identidades diante de um mundo que ressuscita ideais fascistas é imperiosa. Indo mais a fundo, devemos assinalar que é a preservação das múltiplas subjetividades que transitam em nosso meio quem está em jogo. Sem dúvida alguma, o conjunto de subjetividades que mais precisa de nossa atenção é aquele pertencente aos grupos tradicionalmente postos à margem do processo social, econômico, político e cultural. Então, como calar as vozes que vêm das periferias urbanas? Como alijar os artistas integrantes de minorias reconhecidamente vulneráveis da partilha das oportunidades? Como não reconhecer, em mecanismos de pensamento e ação, as distintas faces que contribuem para fundar nossa nação? São perguntas que nos fazem companhia de modo constante. É impossível ignorar as mais distintas forças que compõem nosso quadro social. Nesse trajeto reflexivo, fica cada vez mais difícil crer numa existência artística cuja produção esteja dissociada daquilo que se vive e experimenta enquanto sujeito. Uma obra construída, por exemplo, em bases identitárias tem demonstrado estar intimamente relacionada à vivência íntima do seu criador. São sujeitos a reverberar suas origens, saberes e sabores, crenças e idiossincrasias como elementos impulsionadores de suas obras. Num mundo onde parecemos habitar em bolhas, o engajamento artístico que se mostra atento às questões coletivas ainda é capaz de nos tocar. Tal constatação se faz presente quando percebemos a expressão de um autor como Alberto Bresciani, que, numa entrevista, demonstra todo seu envolvimento com temas que, para além de sua produção literária, implicam na percepção da alteridade. Em nossa edição atual, vemos Guilherme Preger, ao nos ofertar sua leitura para o filme “Dor e Glória”, transitar pela marca autobiográfica do diretor espanhol Pedro Almodóvar. São de Raquel Almeida, Isabela Sancho, Wilton Cardoso, Pedro Moreira e Sofia Ferrés os poemas que atravessam nosso mais novo caminho editorial. Vivian Pizzinga, num texto eivado de reflexões, vem nos dar seu testemunho sobre os impactos causados pelo espetáculo teatral “Dinamarca”, do grupo pernambucano Magiluth. Por sua vez, Pérola Mathias traz à tona suas escutas para “Vox Populi”, o mais recente disco da Nomade Orquestra. Marcas profundas de nossas humanas idades aparecem registradas nos contos de Viviane de Santana, Héber Sales e Marithê Azevedo. É Lima Trindade quem discorre sobre “Por assim dizer”, o mais novo livro de contos de Yara Camillo. Em meio a todos os recantos da nossa 131ª Leva, somos agraciados com a exposição dos desenhos de Felipe Stefani. Assim, queridos leitores, construímos mais uma ponte para ressignificarmos a vida através das vias da Arte. Sejam bem-vindos aos novos mergulhos!
Os Leveiros
Isabela Sancho

No sétimo subsolo
há um pequeno alçapão
para o inferno.
A luz que o transpassa
se parece com esta.
Para abri-lo
basta
empurrar com um pé.
***
Essas coisas parecidas
consigo,
eu me pareço
cada vez mais comigo
e me saturo.
A essa altura,
meu corpo em rusga
já me tem
como corpo estranho.
***
Autoimune, o nome
daquilo que tenho,
tão mágico, tão certeiro
quanto a leitura
de um velho horóscopo.
***
Se eu puder arrancar
de mim o que me faz mal,
o que sobrará?
Uma centelha de teimosia
em meio
a uma ventania
sobre o campo seco
de meus gotejos.
***
Venta
com a força de uma pergunta
prestes ao paraquedas
Tens certeza?
Ouça,
eu não vou me jogar fora.
Vou apenas me desfazer
da sacola.
Troco-a
por uma bobagem qualquer.
Eu a doo,
quero nada em troca.
***
Os dedos em pinça
de um asco
que não ignoro.
Eu não consigo abater
a sacola.
Tem o valor
e o nojo de dez relíquias.
Com suas unhas crescendo
depois de mortas.
***
As dobras afinadas pelo tempo
se destacam sozinhas
e o papel me vincula
a estes pertences.
Que espécie de documento
não tem nem mesmo
uma data?
Vinco-o com minhas dúvidas,
eu procuro
pelo meu nascimento.
Isabela Sancho nasceu em Campinas, em 1989. Integra o corpo de poetas do portal Fazia Poesia e segue o Curso Livre de Preparação do Escritor na Casa das Rosas. É autora e ilustradora dos livros de poemas “As flores se recusam” (Editora Patuá, 2018 – finalista no Prêmio Literário Glória de Sant’Anna 2019, Portugal) e “A depressão tem sete andares e um elevador” (Editora Penalux, 2019). Ainda em 2019, terá sua primeira plaquete publicada pela Editora Primata e seu terceiro livro pela Editora Urutau.
No tempo da delicadeza
Por Lima Trindade
Publicado pela Patuá em 2018, Por assim dizer recusa neons e maneirismos. O livro vai na contramão de boa parte do exibido nas páginas das redes sociais e nos estandes das livrarias em que as capas das publicações precisam desesperadamente chamar a atenção de um público não mais tão interessado em atributos como discrição e elegância. Basta ver a predominância de best-sellers nas vitrines, suas capas carregadas de cores berrantes, seus títulos ofensivos (tanto pela gratuidade do uso de palavras de baixo calão quanto pela “originalidade” de sua poesia). Perto deles, Por assim dizer soa prosaico demais, dito quase como um sussurro para não incomodar a sensibilidade de seus possíveis leitores. No entanto, observemos que a utilização da locução por assim dizer enquanto nome da obra também guarda uma valiosa declaração de intenções, uma não aceitação de um único modo de se ver e se falar sobre as coisas do mundo, uma necessidade de relativização (e reflexão) que julgo extremamente bem-vinda para nosso cenário cultural contemporâneo.
São 16 contos a compor a primeira parte e a reverberar numa segunda. São 16 contos que tratam da condição humana num cenário muito, muito, muito próximo ao que vivemos, presenteando-nos cada um deles com uma centelha de emoção que jamais esbarra em pieguismo, retórica maniqueísta nem pirotecnias linguísticas.
Os temas são variados e estão divididos em “Dos amores”, “Das dores”, “Das viagens”, “Das memórias” e “Das paragens”, desdobrando-se em muitos outros subtemas e situações de conflitos em que os protagonistas lidam com diferenças sociais, violência, desamor, sonhos, esperanças e perdas, as personagens agindo e reagindo como seres autônomos, vivos, senhores e senhoras do próprio destino, muitas vezes nos surpreendendo por suas escolhas e pontos de vista únicos.
Yara Camillo nos faz adentrar a mente de um criminoso quando ele aplica um golpe por telefone num velhinho, permite que acompanhemos os impasses de uma mãe excessivamente protetora em admitir a escolha amorosa do filho, que compartilhemos as alegrias etílicas de uma sem-teto que não sabia rezar, o choro de uma cafetina pela morte de uma das suas protegidas, o pavor que um notório malandro tem de noites de temporal e escuridão, a estranha e compulsiva relação entre uma fã e uma escritora novata e, até mesmo, lança um petardo contra a indústria farmacêutica em sua ânsia monetária.
Esses são alguns exemplos que demonstram vividamente seu interesse em entender de maneira mais profunda a sociedade em que vivemos, mas que seriam vazios se ela não potencializasse a linguagem a seu favor, se não fizesse da técnica uma aliada.
Yara Camillo é adepta da economia verbal. Ela sugere muito mais do que afirma, mostra muito mais do que conta, diz muito ao dizer pouco. Segue o caminho dos mestres, sobretudo Tchekov, Cervantes e o uruguaio Juan José Morosoli, na delicadeza com que constrói suas cenas e explora a tensão de experiências aparentemente banais, assenhorando-se de um tempo com um compasso menos apressado, muito menos leviano. É o que constatamos na abertura de “Duas vias”:
“Ele abria a porta do carro para que ela entrasse.
− A velhice dando passagem à juventude?
− Não: a sabedoria dando vez à pretensão.”
Já neste começo entrevemos o jogo de poder entre o casal, a provocação inteligente, a sedução, o humor, os embates que terão no futuro.
“Com fatos banais e incidentes corriqueiros é possível entrever toda a transformação de uma vida passada a limpo”, diz Arlete Cavalieri ao comentar a síntese poética da narrativa de Tchekov, acrescentando ser essa vida “fragmentária, sem relações imediatas de causa e efeito, sem respostas definitivas aos conflitos e predisposta ao inesperado e ao inexplicável”, juízo esse que se adequa perfeitamente a Por assim dizer, um livro que se presta a mais de uma leitura e não se rende à pressa dos relógios nem à brutalidade das cifras dos mercados. Sua arte está inserida num tempo outro: o tempo da delicadeza.
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Lima Trindade é escritor e mestre em Teoria da Literatura pela Universidade Federal da Bahia.