Foto: Adelmo Santos

São tempos duros estes em que vivemos. Era de discordâncias que perpassam de forma avassaladora o espectro político do país. Diante da instabilidade instaurada pela guerra de narrativas midiáticas, é preciso que tentemos buscar algum resquício de bom senso e lucidez. A fissura que nos abala enquanto nação tem raízes bastante profundas, muitas delas fruto de um pensamento anacrônico que insiste em nos empurrar abismo adentro. Assim, nossa descrença em melhoras faz sempre aniversário. Ano a ano repetimos os modelos de enfrentamento das questões, exaltando os problemas e deixando de refletir sobre soluções efetivas. Esquecemos de confrontar ideias e, em seu lugar, privilegiamos conflitos desarrazoados e por vezes distantes de qualquer equilíbrio. Se a pauta que aborda temas como educação, segurança, economia e o social já se encontra absorvida por tensões extremas e bem distantes de um entendimento harmônico, que dirá o tocante à cultura. E quando artistas são reduzidos a uma classe de desocupados ou aproveitadores de programas de fomento público, sentimos que algo grave nos ronda. Tal classificação odiosa atribuída aos trabalhadores da cultura mais parece uma profunda ignorância sobre o papel que estes exercem efetivamente no front artístico do que qualquer outra coisa. Some-se a tal perspectiva o fato de que tentam insistentemente relegar a cultura a uma condição secundária, como se esta não fosse algo prioritário para o desenvolvimento de um país e das pessoas que dele fazem parte. Através de sua obra, um autor pode refletir sobre seu tempo, colocá-lo em discussão para que outras pessoas também exercitem seu senso crítico a respeito do que está sendo sugerido ou mostrado. Mais uma vez, toda essa formação crítica voltada para o consumo da arte não pode vir dissociada de um embasamento propiciado pela educação. Não somente criadores, mas também os destinatários de suas obras, necessitam compreender em que tipo de sociedade estão inseridos. A fruição da arte enquanto reprodutora de uma alienação político-social pode representar um território morto para a expansão do debate sobre quem realmente somos. É preciso ficarmos atentos para que o antigo costume de relativizar as coisas não assuma o controle dos rumos. Diante disso, espera-se do artista que não oculte a sua verdadeira face quando provocado a vislumbrar os sintomas do seu tempo. Num cenário em que tentam mitigar vozes através de intenções claramente autoritárias, produzir arte é um legítimo ato de existência. Hoje, uma nova leva da Diversos Afins surge em meio ao conturbado ambiente em que vivemos. Ainda assim, resistimos em manter acesa a tão necessária chama da liberdade de expressão. E não recuaremos. Por tudo isso, tocamos a nau trazendo à lume os poemas de Sara F. Costa, Marcelo Benini, Matheus Arcaro, Julia Bac e Vítor Teves. É instigante ver a lúcida entrevista concedida pelo escritor Bruno Ribeiro a Sérgio Tavares, conversa que evoca reflexões críticas especiais sobre o fazer literário. No caderno de teatro, Vivian Pizzinga propõe densos mergulhos no espetáculo “Aqui jaz Henry”. O poeta e performer Alex Simões adentra as searas íntimas de “Espaço Visceral”, novo livro da também poeta e performer Daniela Galdino. Nos contos de Dheyne de Souza e Silvana Guimarães, pulsam vidas à mostra. É Guilherme Preger quem nos convida a ver o filme “Benzinho”, produção brasileira que aborda delicados percursos em torno da família. Nas linhas de Daniel Russel Ribas, leituras possíveis para “Retas oblíquas”, novo livro da poeta Roberta Lahmeyer. Por aqui, há também a importância de se falar em “Um Corpo no Mundo”, disco de estreia de Luedji Luna e que revela uma consciência identitária a resistir às investidas cruéis do silenciamento. Nossa atual edição é percorrida pela exposição das ilustrações de Ana Matsusaki, artista plástica paulista. Resistiremos pela arte a qualquer ameaça que nos tire a possibilidade de pensarmos e sermos. Eis a nossa 127ª Leva!
Os Leveiros
Dheyne de Souza

Ana, uma promessa
Eu sempre quis ter uma casa. Mentira. Na verdade sempre tive pavor de geladeiras fogões sofás essas coisas pesadas que querendo ou não atrapalham a gente a mudar. Se eu pudesse, se eu pudesse mesmo, era outra. É o que tento fazer todos os dias. Do mesmo jeito que todos os dias vejo as pessoas fazendo isso. Feliciando-se. Feliciando-se é quase que como emulando-se, estuprando-se, niilando-se, só que com a boca levemente curvada não rindo mas sorrindo. Aprendi na tv. Foi mesmo. Não vejo muito tv. Mas às vezes aprendo. Já fiz arguição sobre isso.
Eu quase nunca me apresento, não é uma falta de gentileza ou um esbanjar de arrogância, só. Odeio justificativas. Mas meu nome é Ana. Como sempre, vocês já devem estar sacando. Estou na verdade pensando que história conto ou invento sobre a minha vida. Há pontos de vista demais em mim.
Quando me pego pensando, acaricio meu lábio. Na verdade esse não é um hábito meu. Nunca fiz até então. Mas vi um dia. Um apartamento de Santos. Ela olhava o mar pela pequena fresta dos prédios. As pessoas conversando bebendo fumando rindo muito ao redor. Mas ela estava sozinha, com um ar francês. Ela de fato era da França. E eu do sofá fiquei olhando. Ela tinha as curvas bem finas dos lábios. E essa paisagem era realmente um campo no outono em algum lugar da minha memória europeia de películas. O olhar cor de nórdicos levemente parado. Quero dizer que se movia lentamente como se estivesse sugando não o mar da noite, mas subindo sorrateiramente pelas curvas das janelas. Às vezes inventava obstáculos nos lábios, acariciava-os com força e depois com leveza. Raramente o sentido anti-horário. Depois de um tempo, soltava a mão das montanhas finas. Parava no ar como se segurando entre os dedos um fio de ar. Exatamente isso porque eu podia ouvir dali seu som, um vento. Ela também levantava o pescoço. Digo, o queixo. Porque era mais belo. Às vezes alguém chamava seu nome. Ela virava a cabeça de lado, abaixava até o ombro e sorria, mas estava mais sentindo o cheiro do amaciante da roupa. Mas não me lembro como se chamava. Levemente da sua voz dizendo uma coisa que até hoje tento entender por que, e me arrependo de não ter perguntado. Nunca mais vou saber. Tinha um som de leite a voz dela.
Talvez assim funcione bem. Contando desse jeito, vocês entenderam, não foi? Posso fazer um trato, prometer a verdade, ainda que o caminho seja bem mais longo e com fissuras nas pontuações.
Esses momentos são mais tensos, não gosto. Vou pensar em uma história pra contar. Depois volto. Engraçado que quando voltei fiquei pensando um bom tempo se voltava e apagava um pouco ou se não. Idiota isso, mas sincero. Se é que se dá crédito ao mas depois de vírgula, hoje em dia. Quem é que sabe correr de justificativas.
As coisas ficaram mais difíceis. Minhas histórias das histórias diminuíram com o tempoa vidaacontaalamaoremoacamaaporradacultura.
Como as pessoas conseguem escrever fumando, me pergunto.
Eu digo, na minha cabeça mesmo. Eram mais ramificadas, digamos.
Não que eu não lembre. Assim, não muito cronológica e ordenadamente. Muitos buracos. Há espaços em branco impenetráveis. Talvez nem com a psicanálise. Aprendi muito bem como cerc(e)á-los.
Hoje, especificamente, não é um dia muito bom.
Uns dias atrás alguém buzinou e não soube se era para mim. Esse tipo de não resposta que fico guardando na memória. Não exatamente nessa proporção. Tentei ilustrar. Preciso pensar em alguma coisa rápido.
Às vezes me pego pensando que, se não fosse a Bíblia, eu teria me suicidado na adolescência.
Menos, bem menos.
Meu nome é Ana. Não tenho filhos, não tenho ninguém. Quase um aforismo.
Quem sabe na próxima tentativa eu possa ser melhor.
***
Cidade quente
A cidade quente gemia. Madrugada de final de agosto. A Avenida Goiás. Rua de sombra, de vapor, de um galho quebrado. Outro. Mais perto. O vento, ela pensava. O vento, na verdade, ia se aposentando aos poucos nessa época do ano. As folhas ao vento, dizia bem baixo. Quebrando galhos? Poderia parar, mas a possibilidade de ouvir o som mais perto, o som mais rápido, o som mais real, não. Uma moto passou tão devagar que escondeu o grito do galho. Mas foram instantes. Ela sequer olhou. Não estou com medo, tremia. O frio da madrugada na cidade quente é uma espécie de hálito móbil. Arriscou levantar os olhos do all star preto puído para uma fachada de prédio art déco. Se fosse outra cidade, todos tirariam fotos. Mas na cidade quente a gente se acostuma a olhar sapatos, anúncios, smartphones. Ela apertou a mão no bolso da calça jeans, mas desistiu das horas. Perdeu a contagem da proximidade do som do galho. Mas ele vinha. Sem certeza, atravessou a rua. Os bancos da avenida chamavam. Foi uma das primeiras avenidas que conseguiu identificar quando se mudou. Tinha 16 anos? Foram os bancos da Avenida Goiás. Os transeuntes da Rua 4 empatando os sebos. O Eixo Anhanguera cavando o sol no asfalto. Mas agora era madrugada e o asfalto urrava mudo. Tivesse coragem, molhava a mão na fonte onde tanta gente já se banhou. Mas faltavam só quatro quarteirões para subir pro apartamento, fumar um cigarro, tomar uma tequila ouro e fotografar da janela a memória do medo do som do galho na velha Avenida Goiás. Tinha o hábito de olhar o chão, o resto que fica no chão. E na cidade quente o chão é rico de história. Já descobriu pilhas, anéis, tickets, moedas, suores, seus relicários. Por isso cometeu o deslize de diminuir demais o passo. Era o braço de uma boneca. Não se abaixou para pegar porque sabia que estava muito perto tanto quanto não sabia que. O acaso? A última lembrança poderia ter sido o braço da boneca. Mas a mão no seio na calça em todos os seus buracos acordou de gritos alguns galhos que ainda não pegaram no sono no alto dos prédios cansados. Na Avenida Goiás, que lástima, logo agora que estava a dois quarteirões de casa.
Foda-se. Era só no que ele pensava enquanto andava mais rápido. Atrás da garota de blusa de alça. Poderia correr, mas. Foda-se. Uma moto quase. O cabelo dela tremia. Era bonito isso de os braços se abraçarem como se fosse frio naquela cidade de fogo atravessando a rua. A madrugada é uma solidão sem fome. Quando o braço da noite desliza. Se Deus quiser que assim seja, ela vai diminuir o passo.
Uma garota na Avenida Goiás sendo seguida, mas isso são horas. Vou devagar. Se ela estiver sem sutiã, não posso fazer nada, as pessoas precisam aprender a viver. Ela não tem a capacidade de olhar pra mim e pedir ajuda. O cara também nem me parece uma má pessoa. Agora quem procura acha. Quer saber foda-se.
Até pensei em chamar a polícia quando vi lá embaixo na Avenida Goiás aquela moça que parecia uma boneca quebrada, devia estar com um medo enorme, se fosse eu correria. Ou eu mesma vou. Mas com a dor que estou nas pernas até eu conseguir descer não vou sequer ver o que aconteceu. Ai meu deus uma moto. Hoje em dia moto é uma coisa que não dá pra aguentar nessa cidade. Se eu estou na rua à noite, mas não tão tarde, e passa uma moto, eu já mudo meu destino, sei lá. Nunca se sabe. Antes prevenir. Ela atravessou a rua, graças a deus vai dar tudo certo. Espera. Como assim, minha filha? Agiliza. Sai daí, sai. Ai meu deus do céu, misericórdia. Carlos André, acorda, me dá o remédio, corre! Esse calor do cão.
Adolescente é estuprada e morta na Avenida Goiás na madrugada desta terça-feira. Sem testemunhas no local, polícia segue investigação. Prefeito promete reformar asfalto. Os ipês-rosas estão morrendo enquanto florescem os ipês-amarelos. Bala perdida mata motociclista no centro. A temperatura continua alta na capital.
Dheyne de Souza está em Goiânia-GO. Tem um livro de poemas publicado (“Pequenos Mundos Caóticos”, PUC/Kelps, 2011). Em breve, lançará o livro, também de poemas, chamado “Lâmina”s (Martelo Casa Editorial). Publica poemas, prosemas e e-books no seu blog. Tem um canal no YouTube, em parceria com Helô Sanvoy, com leitura e vocalização de poesia.
Matheus Arcaro

É insuportável
não sentir
a dor do mundo.
A incompletude
inunda a vida
de tal modo
que o pasmo
esconde o rosto
sob o silêncio do instante.
A fresta de cada frase
o hiato do amor
o vácuo do olhar
engolido a seco.
Todos os sentimentos
acumulados na curva da alma:
lama tóxica que enrijece
a dança do tempo.
***
Silêncio
Não fere os amantes
as frestas
entre as frases.
Na língua em repouso
o desejo se dilata
até tocar o incontestável.
A ausência das palavras
é o palco dos olhos,
dos hálitos,
dos hábitos despidos.
Peles, pelos e peitos
entrelaçados,
bêbados de presente.
Um espetáculo
em que as proposições
são espectadoras.
E aplaudem atônitas
a eloquência dos corpos.
***
Temporais
Há os que estão sentados na esperança,
aguardando o fim de semana,
o mês seguinte,
o ano em que os astros se alinharão.
O alívio dos dias úteis.
Na casa das máquinas ao lado,
há os acorrentados.
Mastigando as migalhas
endurecidas de Cronos.
Suspirando pela ferrugem dos ponteiros.
Há, por fim,
os que intuem o instante.
Os que dançam
sobre a mortalha da eternidade.
Há os que vivem.
***
Despedida
Senti o perfume da saudade nos teus olhos.
Pressenti que não passaríamos de um passado
desprovido de peso,
nos teus beijos empoeirados,
nos teus abraços em branco e preto.
No lençol,
ato consumado,
eu não era mais do que um retrato,
um fato
avesso a argumentos.
Tu sabias que eu sabia.
Mas sempre preferiste os palcos à ciência.
Eu também.
Que bem nos fez esse fingimento mútuo:
o que é o amor, senão uma farsa partilhada?
O sol subiu e afundou meus minutos:
era tempo, tinhas que ir,
fazer-te completa como uma libélula.
Saíste sem mala
sem palavra,
sem sorriso,
deixando-me aos vãos da vida.
Desde aquela noite,
Evito pensar em ti.
Talvez,
Pra não gastar as lembranças
que tenho de mim.
***
A criança é uma noite
seca
na veia da cidade.
Com o vazio
encostado na vitrine,
derrama o futuro
pelos olhos:
Quando terá,
em seu estômago,
um pedaço mísero
daquela padaria?
***
Poesia Pura
Não aprendi a roubar do outono uma tarde virginal.
Não encontrei a organicidade da pétala no sorriso da mucama.
Não percebi a puberdade incrustada em cada amanhecer.
Por isso não faço poesia.
Procuro por causas e efeitos
e deslembro dos defeitos,
dos hiatos
que impulsionam a criação.
Sou filho da definição,
súdito do porquê,
dependente sintomático do juízo.
– Doutor, e o tratamento?
Não há desintoxicação.
Não há antídoto.
Não há haverá.
É tarde. Tardíssimo!
A criança que me habitava
esvaiu-se no labirinto da certeza
sem saber como cobrir o verbo de cor.
Não sei fazer poesia
porque cadaverizo os sentimentos
numa página pálida.
Matheus Arcaro é mestrando em filosofia contemporânea pela Unicamp. Pós-graduado em História da Arte. Graduado em Filosofia e também em Comunicação Social. É professor, artista plástico, palestrante e escritor, autor do romance “O lado imóvel do tempo” (Ed. Patuá, 2016) e dos livros de contos “Violeta velha” e “outras flores” (Ed. Patuá, 2014) e Amortalha (Ed. Patuá, 2017). Também colabora com artigos para vários portais e revistas.
Por Fabrício Brandão
LUEDJI LUNA – UM CORPO NO MUNDO
Qual é o nosso verdadeiro lugar no mundo? Certamente somos seres capazes de refletir sobre nossa própria condição em meio a tantas demandas e atravessamentos cotidianos. O fato é que temos essa possibilidade nas mãos, mas nem sempre o fazemos de modo a compreendermos quem realmente somos no complexo jogo da vida. Quando tal conexão com a realidade é negligenciada ou perdida, estamos distantes de nós mesmos e dos laços que podemos estabelecer com nossos semelhantes, sobretudo no que toca ao entendimento das diferenças.
De algum modo, nosso corpo é um instrumento de afirmação do ser/estar no mundo. E não há como fugir disso. Podemos ser o todo orgânico que, aliando mente, alma e fenótipo, se projeta ao ambiente universal das experiências sociais proferindo mensagens que intentam demarcar o território inalienável de nossa identidade. Diante do que falamos e executamos, temos potência quando alçamos nossas ideias em meio ao vento que dispersa vozes, este senhor que carrega as mensagens de um lado a outro das relações humanas, antevendo reações ou sendo tomado pelas surpresas de quem acolhe ou até mesmo rechaça os sinais emitidos. Paira sobre nós a noção de que falamos não apenas para nós mesmos e, a todo tempo, o exercício da compreensão da alteridade se impõe como desafio permanente.
Diante da vastidão de cenários que a vida nos apresenta, pode ser que não nos encaixemos em nada que signifique reduzir a níveis rasos demais nossa inteligência e coração. Ninguém passa impune pela vida em se tratando de mostrar sua face verdadeira. No esteio da voz que clama por se apresentar desnuda, haveremos de encontrar amparo em alguém como Luedji Luna, artista que nos provoca a repensar a responsabilidade que temos diante dos caminhos que escolhemos, frente a frente com o Outro que nos apresenta o vigor da diferença, ritmo pulsante de individualidades que nem sempre se conciliam naturalmente.
Parece ser cada vez mais necessário que alguém venha a nos lembrar que existir é colocar sempre em voga o entendimento de nossa trajetória, principalmente o que desejamos profundamente para nós mesmos e para os outros. Diante disso, temos algo em mãos, o primeiro disco de uma cantora e compositora baiana cuja trajetória é deveras promissora. Um Corpo no Mundo, eis o nome de batismo que, apenas sendo pronunciado, já é capaz de sugerir uma miríade de possibilidades. E a canção homônima ao título do álbum é uma preciosidade a definir o espírito do trabalho. Fala de ancestralidade, do lugar do sujeito no mundo, da condição de quem toma posse da própria existência sob a égide de uma marcante herança cultural. O indivíduo que fala por si, constrói suas rotas, afirma seus caminhos, seu rosto, mesmo que não queiram alguns, mesmo que outros se oponham e insistam em restringir a liberdade de quem deseja transitar pela vida sendo o que se é. Um corpo sem amarras. “Je suis ici”, canta Luedji num sonoro marco presencial de quem, lutando contra as negativas e contra a invisibilidade, insiste em dizer que está aqui. “Je suis ici, ainda que não queiram não/Je suis ici, ainda que eu não queira mais”. É o ser também dizendo que quem pode até mesmo determinar o seu não lugar no mundo é ele próprio, e mais ninguém.
Ao adentrarmos pelas faixas do disco, notamos que fica extremamente difícil eleger algo que seja um destaque isolado e, portanto, superior às demais escutas. Tudo demonstra se encaixar numa proposta que concilia os imperativos da lucidez com as vivências de uma contemplação leve e capaz de escutar o coração sem denotar mais do mesmo.

Banho de Folhas é uma dessas canções que tomamos como bastante representativa no que se refere a mostrar quais referências são caras ao álbum. A busca pelo Outro em meio à cidade que esconde rostos diversos na multidão vem luxuosamente contemplada pela força mística dos ritos africanos que purificam e protegem os caminhos da procura. Em Asas, vigora uma presença poética do vento, daquele que aponta rotas para quem se permite. A canção funciona como uma espécie de prece para que tudo se ordene por dentro. Mesmo advindo tempestades, há possíveis renovações, acalmando sentimentos, engendrando bons presságios.
Noutra porção do disco, mais precisamente em Iodo, Luedji deixa aflorar a consciência de um corpo político que se projeta em meio às intempéries cotidianas assomadas pelo desrespeito às mulheres, marcantemente as negras, pobres e homossexuais. Nela, há o clamor e o espanto que se insurge contra o rolo compressor de uma barbárie teimosamente cotidiana e naturalizada, aquela que violentamente nega a humanidade plena do Outro. “Eu sei ser/Trovão/E nada/Me desfaz”, arremata a voz que não se subalterniza.
“Quem vai pagar a conta?/Quem vai contar os corpos?/Quem vai catar os cacos dos corações?/Quem vai apagar as recordações?”, entoa Luedji em Cabô, diante do dizimar de um povo que se materializa em estatísticas. São questionamentos que nos provocam e assombram. E o cinismo com o qual temas como a violência contra o pobre e o negro são tratados atualmente aparece travestido no perene e tão danoso costume de relativização dos fatos.
Dentro Ali é uma forma sublime de falar de amor, sem incorrer nas obviedades do sentimento. Predominam nela gestos simples que reformulam a rotina da vida, equilibrando fardos e depositando esperanças no desejo mais sincero e puro de que uma leveza consolide sua morada em meio aos dias. Ao mesmo tempo, a vontade aqui presente é a de compartilhar a vida com o Outro com menos peso possível. Já Notícias de Salvador vem com a referência das memórias, duma ancestralidade que remonta a afetos e que impulsiona para os dias futuros. “Essa é a sina de nós todos/Janta, sobremesa, guerras e acordos de paz/ Plantar, regar, colher/Monossílabos de agouro, infernos astrais”, diz a canção conformando um espaço de ação diante das dificuldades da vida com o aconselhamento maternal que nos impele a atar os nós.
Um Corpo no Mundo é um belo começo de caminhada. Valioso por demais sob a ótica do discurso ali contido, mas também pelos elementos rítmicos e percussivos que delineiam seus arranjos. Não há melhor forma de se mostrar ao mundo do que falar de si, suas crenças, esperanças, do seu entorno e do que está além dele. Não há nada de mais verdadeiro do que mencionar que se é beleza e dor ao mesmo tempo. Lembraremos sempre de Luedji Luna a partir de agora.
Fabrício Brandão confessa que, definitivamente, não consegue sobreviver sem arte. Por isso, atira-se a livros, discos e filmes com o sabor perene da primeira vez. Por isso, edita a Revista Diversos Afins, é baterista amador e, atualmente, mestrando em Letras pela UESC, aliando Literatura, Comunicação e Cultura.
Julia Bac

existe um jeito certo
de arrumar a cama:
deve
puxar bem o lençol
nos cantos
deixar o tecido firme
passar a mão
para alisar os vincos
não deixar espaço
ou ar
entre uma superfície e outra
existe um jeito certo
de arrumar a cama:
deve
ser feito com calma
circundando o estrado
logo depois de acordar
para não querer voltar
e depois de pronta
olhar com satisfação
a cama lisa
perfeita
existe um jeito certo
de desarrumar a cama:
e isso depende.
***
a primeira coisa que fiz
quando você saiu pela porta
foi colocar uma pequena toalha
com flores bordadas
– aquela que você não gosta –
na mesinha de cabeceira
troquei os lençóis
para tirar o seu cheiro
varri o chão
para que não sobrasse
nem um fio
de cabelo seu
limpei as portas
as janelas
os azulejos
podei as plantas
tudo
para não sobrar nenhum rastro
nenhuma partícula
que tenha tocado o seu corpo
***
já gastei umas sete páginas
com este poema
este poema que não vem
ontem gastei
cinco horas fazendo faxina
para uma visita
que não veio
e de você
de você eu só
esperava duas linhas
que também não vieram
***
nove e meia da manhã
são nove e meia da manhã e
já fiz o café
já lavei a louça
estendi a roupa no varal
já levei o cachorro pra passear
respondi e-mails
e perdi meu tempo nas redes sociais
são nove e meia da manhã e
terminei de ler o livro do Beckett
varri a garagem
tomei banho
e esqueci propositadamente de secar os cabelos
são nove e meia da manhã de um domingo e
já tive três crises existenciais:
a primeira quando acordei de ressaca
a segunda quando vi o meu reflexo no espelho sujo
e a terceira quando comecei a escrever esses versos
***
marcas de café
na mesa que você construiu
suja com farelos de pão
um livro marcado com lápis
na centésima página
exatamente no número 100
das 585, li ontem essas cem
as mesmas marcas de café
na mesa da cozinha
uma abelha
voava e zunia
batendo na janela fechada
insistia em querer
atravessar o vidro
hoje o corpo dela
caído e deitado
no azulejo da pia
***
[um copo americano
2 cm de cerveja]
uma mosquinha
voava ao redor do copo
assoprei para que fosse embora
mas o inseto caiu
na cerveja
com o indicador tirei
a mosquinha
que boiava no líquido
e a coloquei no guardanapo
ela limpou as patas
como se fosse humana
balançou as asas
com intensidade
Julia Bac é formada em História (PUC/2004) e Artes Visuais (Centro Universitário Belas Artes/2009). Fez o CLIPE/Poesia 2017 da Casa das Rosas e estudou no núcleo de ficção do Curso de Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz (2018). Em 2013, publicou o livro “os dias” (Ed. Giostri) e em 2018 o zine “olha aí olha aí a promoção só paga 10 reais senhora é poema a partir de 10 reais” de forma independente.