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124ª Leva - 02/2018 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Lúcida distração

Por Saulo Dourado

 

 

Temos Vagas é o título do primeiro poema de O Exercício da Distração (Penalux, 2017), de Kátia Borges. A escolha da entrada funciona como um aviso na porta: aqui o preço do feijão cabe no poema. Se em Não há vagas Gullar reclama que a poesia só traz “homens sem estômago”, a primeira parte do livro de Kátia se chama “Como se fosse o órgão vivo”. Mas a sutileza e a transmutação é que o órgão vivo também é o próprio poema. Em O gourmet momentâneo, versos de Margaret Atwood estão em papel amassado, no meio de uma aula, “passados em mão em mão como se fosse o órgão vivo”. O ciclo se completa: a poesia, qual um contrabando no mundo oficial, a um só tempo evidencia o cotidiano e se torna outra coisa, reinventando-o.

Outras referências a autores aparecem quase página a página. Poderíamos chamar de intertextualidade, se nesse O Exercício o tema da saudade e da ausência não aparecesse com tanta frequência. Como muitos versos parecem conversas com pessoas ausentes, o uso do contato com outros autores parece também um bate-papo com uma gente que não está ali, ou seja, gente como Quintana e Bandeira seriam conhecidos íntimos que deixam saudades como os amados e os amigos da vida do eu-lírico. O cotidiano na poesia de Kátia Borges assume assim o diálogo permanente com pessoas invisíveis, e o seu olhar as traz para a presença, as coloca ao lado da pedra na praia. Odisseia mostra:

 

Já não espero teu regresso
enquanto teço – a beleza
servirá para os que chegam
ainda que inalcançável
aos que retornam.

Há certa Ítaca intangível
em meu peito
que não se demora.

Um segundo e verte-se
vórtice inatingível
em Itaparica – e na dura
pedra fria dos dias deposita
seus destroços.

 

Há uma tendência ao imaterial, ao universal – uma “certa Ítaca intangível” -, mas que logo se verte e se toma pela realidade mais imediata, ainda que pior, fria e destroçada. É uma decisão de conduta que faz desta distração não uma fuga, um alheamento, um devaneio para sair do mundo tal como é, e sim o aproveitamento das brechas das coisas para trazer o “inatingível” para cá, do céu das ideias para as águas do tempo e das águas para o solo da vida vivida. Se na primeira grande sequência de poemas podemos sentir às vezes ainda o peso do Intangível, e algumas oscilações em Cais e A dor fantasma com desejos contraditórios por um mundo que não está aqui, a partir de Alegria Alegria a poesia de Kátia escolhe a vontade de enxergar ao redor (com a ironia, claro, de “perder os óculos na bolsa” e só encontrá-los nos “cabelos”).

A partir do verso “Nada no bolso ou nas mãos” – que foi um desprendimento para Caetano Veloso em relação aos deveres de sua época, já uma citação d’As Palavras, de Sartre, no qual o filósofo se entende liberado de sua neurose burguesa enquanto busca de ser um homem de exceção -, Kátia se descontrai. Seus versos ficam mais cheios de coisas, justo porque é preciso perdê-las. “Imersa, sigo firme/no exercício que me atrela/a este ofício: perder coisas”. Para perder é preciso estar em permanente contato, sentir, pegar, observar, escolher. É a partir daí que seu olhar pelo cotidiano assume o seu ponto mais alto, e longe da banalidade ou do excesso de idealismo, alcança o meio.

Se o poema Odisseia condensa o primeiro movimento do livro, o singelo Pragmatismo poderia representar o segundo. “Tenho me ocupado com coisas práticas./Se há água ou não há água no pote do cachorro”. Ao descrever acontecimentos de um dia, com o cão cego, as pistas de skate no Jardim dos Namorados, sente-se a vida ali, e o que poderia ser a burocracia do dia-a-dia é, com uma disposição de espírito maior, a própria vida. Os versos finais trazem o segredo e quase pedem a cumplicidade do leitor: “Às vezes penso que seria bom ter um cágado,/daqueles que se escondem durante anos debaixo dos móveis,/de modo que fosse sempre necessário procurá-lo”. Como no poema Infância de Drummond, a própria história se torna mais bonita que a de Robinson Crusoé.

A terceira parte de O Exercício da Distração traz um título autoexplicativo: As Pequenas Vilanias da Cidade. É quando o cotidiano público, visível nas calçadas, marquises e praças, é feito de tristezas e brutalidades. Na lida diária da cidade, a rotina é forte, as ruas não perdoam, a noite por vezes é indigesta. O eu-lírico, que poderia se distanciar das cenas como um mero olhar externo, poetiza uma relação imbricada com o que vê, e faz de seu sentimento o sentimento da cidade, e vice-versa, a exemplo de “A Praça da Piedade”.  Um blues da piedade? Seus poemas tornam-se mais próximos ao rock, letra, música e referência, como já é uma marca em outros livros, Balada de Janis (P55, 2010), Ticket Zen (Escrituras, 2011) e São Selvagem (P55, 2014). Se nos livros anteriores já estavam o rock’n’blues, o I ching, a proteção de Arcanjo Miguel e “o preço do feijão”, em O Exercício de Distração os poemas ganham ainda mais em precisão, visão de mundo e imagem.

Em The End, poema final do livro, tal qual na música de mesmo título dos Beatles no Abbey Road, o livro compreende seu caminho e seu sentido de distração:

 

essa vida que sabemos sem lugar,
posto que o coração não se publica
nos murais, é ócio diluindo o sangue,
manchetes sem fundo
de verdade, qualquer distração
que agrade a audiência.
Sobre o tempo, não sou dessas.
Quando desço a Contorno,
a beleza me golpeia feito o vento.

 

Saulo Dourado é escritor e professor de Filosofia e vive em Salvador/Ba. Autor dos livros de contos “O Mar e Seus Descontentes” (Via Litterarum) e “O Autor do Leão” (FB Publicações), além de obras infanto-juvenis, escreve para o A Tarde e para portais de literatura.

 

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124ª Leva - 02/2018 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Carla Kinzo

 

Foto: Tati Motta

 

Wabi sabi

 

Partiu em três pedaços grandes, vai dar pra colar. Recolhe os cacos da pia, entre os restos do refogado, o detergente, o que sobrou da louça. O que se estima não se usa, as coisas gastam; quebrou de massacrada pelo uso. Tem vontade de chorar e engole: se a xícara não gritou ao escapulir das mãos oleosas, não será ela a se denunciar. Lembra do super bonder que viu na geladeira, as gotas definitivas hão de reparar a concavidade da primeira estrutura. Organiza os pedaços, que bom que nada se esfarelou – há um ponto de equilíbrio entre as partes apoiadas que mantém a impressão antes da queda. Ninguém vai perceber. Tenta abrir a geladeira, a mão escapa da alça da porta; geladeira velha, mão cansada. Sente a dor aguda na ponta dos dedos, a dor de quem coloca mais esforço do que é preciso pra realizar uma tarefa simples e mesmo assim. Ouve a patroa na porta da cozinha, coloca o corpo entre a xícara e a porta, esquece os dedos. Tá tudo bem, Rita? Tá, tá tudo bem, a senhora precisa de alguma coisa? A patroa estranha a resposta longa demais, transformada em pergunta; acaba entrando na cozinha como uma personagem do século XIX, o corpo meio de lado dos que desconfiam: tá tudo bem mesmo, Rita? Tá, tá tudo sim. O diálogo não avança, nem Rita se move de sua posição. Ou a patroa. Quem visse a cena de fora, notaria o equilíbrio frágil na cozinha, as peças não coladas querendo saltar. Silêncio. Mesmo…? – a patroa insiste no papel; levanta a sobrancelha esquerda –, tem certeza que…? Rita percebe o corpo tenso, “tem vontade de chorar, engole”, é assim que se lembra do que já havia decidido, “se a xícara não fez barulho, não sou eu que vou me denunciar”: é que ando assustada com os assaltos no bairro.

Assaltos? No bairro?

É. Não tá sabendo?

Uma peça que se move.

Os olhos da patroa correm pra baixo, tentando saber; o corpo perde o alinhamento militar. Assaltos… não, não sabia. Quer dizer, é mesmo…? No bairro? Rita quase tem pena da patroa, mas as peças precisam ficar onde estão. Ela assente com a cabeça, é… as meninas tão falando. Algo da rigidez na cozinha se desfaz. Tão difícil a cidade – isso não é mentira. É, tá demais. Difícil demais. A patroa se aproxima, recua – é. Isso também me preocupa, Rita. Ah, se ela soubesse do seu bairro, dos bairros percorridos, cada um deles até chegar àquele ali. O trajeto no trem, no ônibus. As plataformas, o cheiro ácido do pão de queijo às sete no terminal. As chinelas com os calcanhares cavados. As xícaras frágeis. Uma daquelas que se quebrou, ela sabe, vale mais que um mês refazendo aquele percurso. Os vagões, os fones de ouvido coloridos comprados na ida e que não prestam mais na volta. As mãos manchadas do cobrador. Rita não percebe, mas seu olhar já está jogado na cozinha. Nem se lembra mais daquela xícara.

Não pensa muito nisso, Rita – e a patroa sorri. É verdade. Deixa pra lá.

Talvez Rita também tenha sorrido. De alívio, quando ela finalmente saiu.

Ao se virar, encarou a ainda falsa xícara, os pedaços porcamente agrupados com óleo, sabão, linhas de trens, asfalto. Agora sentia mesmo o choro no pescoço, querendo saltar. Mas quem disse que podia? Não podia não.

Abriu a geladeira com as mãos prevenidas, agarrando o super bonder antes que a patroa resolvesse voltar.

 

 

 

***

 

 

 

E ele cai

 

Toma ar. Como se tivesse que narrar aquele lance ou como se estivesse em campo e precisasse de todo o oxigênio do mundo pra disparar, da torcida ele toma ar.

Não é o único.

Por um instante, o ar parece imóvel, tomam ar todos; todos seguram na boca um pedaço do oxigênio do estádio, como se receassem atrapalhar o momento crítico que antecede a entrada do meia na grande área: a bola domada fora do chão no peito, o pé esquerdo e o direito abrindo um espaço definitivo sobre o gramado, adversários tentando interceptar chuteira, bola, caminho – e o jogador, impassível, atingindo a metade inimiga do campo, enquanto fura a cortina de ar parada no espaço, controlada apenas pela respiração da torcida.

Nesse instante, ninguém vê, ou quase ninguém, o menino que, em sua primeira vez num jogo, levado pela mãe, torcedora fervorosa, coloca a mão na boca, querendo o gol. Ninguém poderia saber – ou quase ninguém – que depois desse jogo o menino tomaria a decisão silenciosa e definitiva, ao lado da mãe santista, de se render ao oponente e torcer para o Timão. Seriam poucos aqueles capazes de dizer com precisão, muitos anos depois daquele dia, a marca da garrafinha d’água que a moça de olhos fundos bebia, aquela que, tendo sido focalizada pela câmera de TV no coração do lance, mais tarde se tornaria jornalista naquela mesma emissora. E apenas duas ou três pessoas no imenso estádio se lembrariam mais tarde que no meio da torcida Corinthiana estava aquele cantor famoso, aquele que fez sucesso com uma música que falava de um carro.

Então, um grito abafado. E alguém que se assusta, que tira os olhos da cena; que foi isso? O ar no estádio, tão estático, se descontrola.

O susto é a primeira peça que cai sobre a seguinte, aquela que faz cair todas as peças invisíveis que parecem levar o jogador pela mão na direção do gol. Mas acontece que há um grito e, por isso, ele cai. Bola e homem obedecem a uma lei misteriosa: ele cai, ela escapa. E o jogador caindo, é pênalti! Todos os olhares se voltam uma vez mais para o campo, o que houve?, pênalti!, como perdi isso, não tem dúvida, é pênalti, foi pênalti?, presta atenção, claro que foi, foi falta; menino, tira a mão da boca!; olha lá, não acredito, safado, ele se jogou, mas quem foi que gritou, você não ouviu?, esse aí não é aquele cantor? sei lá, quem?, aquele, daquela música; onde?, me passa a garrafa d’água, você não ouviu?, ouviu o quê?, um grito!, foi falta, a torcida concorda, sim, uníssona, é pênalti!, ela brada, soltando o ar até então estacado no peito.

Menos um homem na torcida.

Esse ainda o retém, o último ar. O derradeiro depois do grito e antes do chão, o coração subitamente paralisado; o ar final antes que a imagem certa do gol na retina se desmanche, antes do campeonato. Antes da queda do jogador no campo, antes da sua, esse homem o retém.

Mas o ar acaba e ele cai.

 

Mestre e doutoranda pelo Programa de Estudos Comparados em Literaturas de Língua Portuguesa na FFLCH/USP, Carla Kinzo é formada em Cinema pela ECA e em Letras pela FFLCH. É também atriz e dramaturga. Tem publicados os livros Matéria (7Letras, 2012), Cinematógrafo (7Letras, 2014), Eslovênia (7Letras, 2017) e o infantil Grão (Pólen, 2015). Em 2015, recebeu um ProAC de Criação Literária para desenvolver um livro de poemas, a ser lançado este ano.

 

 

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124ª Leva - 02/2018 Jogo de Cena

Jogo de Cena

Por entre metáforas e disputas: o demasiadamente humano em “Insetos”

Por Vivian Pizzinga

 

Susana Ribeiro, Marcelo Olinto, Marcelo Valle e Cesar Augusto em cena de Insetos / Foto: Elisa Mendes

 

Uma atmosfera escura, que indica catástrofe recente ou iminente, e vários pneus amontoados. Enquanto a plateia vai entrando e ocupando os seus lugares, alguns personagens apenas observam e se remexem no centro do palco. O cenário, assinado por Beli Araújo e Cesar Augusto, já sinaliza o teor do que se vai passar: há uma revolução acontecendo, tudo mudou ou vai mudar, novos códigos de conduta são instaurados, a luta pela sobrevivência se faz de forma inaugural. As abelhas foram embora, o que é um índice importante de algo muito errado – e ruim. E o desenrolar da trama vai se dar a partir do ponto de vista dos insetos. A Cia. Dos Atores, com direção de Rodrigo Portella, traz esse texto original de Jô Bilac, Insetos, para o CCBB, no Rio de Janeiro, comemorando 30 anos de percurso, e oferece ao público um lugar de reflexão e humor. É rir para não chorar.

A metáfora que a peça traz remete aos tempos atuais. Ou outros, que se repetem aqui e ali, quando menos se espera e aos quais é preciso estar atento, para que não se alonguem muito. O tema é político: estamos diante de um novo governo, alguns insetos ganham preeminência em relação a outros e trazem um novo regulamento a que todos devem obedecer e segundo o qual alguns trabalharão e outros servirão de comida para os supostos mais fortes. Não há negociação, nem espaço para o meio-termo: quem se desvia disso, o inseto que tenha ousado mudar ou assumir uma forma inesperada, irá pagar o preço. As categorias são claras e a diferença não tem vez. No meio disso, as subversões, as resistências micropolíticas, a clandestinidade, as alianças permitidas ou não, as estratégias de sobrevida, os arroubos, a fuga. Novas moedas de troca se estabelecem, transações econômicas espúrias têm lugar. Baratas, cupins, grilos, besouros, pirilampos, mosquitos, joaninhas, todos devem se encaixar na nova ordem ou inventar a melhor maneira de se desviar de seus excessos autoritários.

O que vemos na dramaturgia de Insetos é um estado de exceção ao qual todos têm de se submeter (ou fugir para Lisboa). A sociedade deveria ser “livre, laica e leve”, mas não há liberdade em canto algum no novo sistema que se instaura. Classes sociais (por espécies) – ou o que a isso se assemelha – são criadas deliberadamente, por decreto, com privilégios, sacrifícios, direitos e deveres que lhes são próprios. E o elenco compõe esses jogos sociais de maneira orgânica, tal como a própria natureza que aqui é protagonista. Cesar Augusto, Marcelo Olinto, Marcelo Valle, Susana Ribeiro e Tairone Vale estão sensacionais travestidos de insetos e encenando a perspectiva desse mundo que desperta nojo e aflição, mas que nada mais é do que um reflexo da humanidade. Conseguem tornar uma barata despedaçada, quase morta pelo Baygon e pelo sapato de uma dançarina, em uma figura simpática, carismática, beirando o agradável. E engraçada também. O figurino de Marcelo Olinto é criativo, remetendo de modo original aos bichos ali representados.

 

Foto: Elisa Mendes

 

O mosquito Aedes Egypti é um momento à parte de Insetos: boiando em águas paradas, ele explica ao público a fatalidade e a certeza da finitude. Não há como fugir, ele nos diz. Ri das armas que construímos, seres humanos buscando a eternidade, nossa complexidade contrastando com sua simplicidade e sua letalidade. Precisamos de vacina, já tomamos? Irônicos, os insetos sabem de sua curta duração, têm ciência de um prazo de validade apertado e que pode acabar a qualquer momento, como o público pode testemunhar. Seus planos sempre contêm a iminência da morte, a proximidade do fim, e têm de levar em consideração, necessariamente, a fugacidade da vida. São diferentes dos humanos, que, como assinala o mosquito, “morrem de medo de morrer”. Aqui, ao menos, não há o auto-engano.

Insetos não deixa de trazer um alerta, sem ser panfletário: o que os humanos estão causando no único ambiente em que, até agora, sabem viver? As baratas sobreviveram aos dinossauros e, possivelmente, vão sobreviver aos seres humanos também. No geral, os insetos conseguem se salvar, mas podem se matar uns aos outros, se repetirem as disputas humanas, demasiado humanas, que movem os povos em suas guerras, em suas concorrências e à sanha de produtividade e crescimento econômico que lhes são tão caros. Quanto mais se cresce, mais se devasta. E, como não poderia deixar de ser, o dinheiro consegue tudo, resolve todas as coisas, como nos mostram os personagens dessa ficção tão irmã da realidade.

O desfecho do espetáculo, solucionando a pergunta inicial de um casal imerso em falsa tranquilidade, usufruindo de seu gim e representando a ambição da espécie humana, finaliza com um acento nostálgico e de beleza simples essa brilhante dramaturgia.

 

Vivian Pizzinga lançou os livros de contos Dias Roucos e Vontades Absurdas (Oito e meio, 2013) e A primavera entra pelos pés (Oito e meio, 2015), além de ter participado de algumas coletâneas, sendo as mais recentes Cada um por si e Deus contra todos (Tinta Negra, 2016) e Escriptonita (Patuá, 2016). Trabalha também com psicanálise e Saúde do Trabalhador.

 

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124ª Leva - 02/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Verónica Aranda*

 

Foto: Tati Motta

 

Tradução: Edson Oliveira
Revisão: Clarissa Macedo

 

Estrangeira

 

Tem dias que entro em uma confusão
precipitadamente, enquanto busco
o pulso da cidade, o mesmo pulso
do Cairo na hora marcada pelo muro
da cidadela ocre ou em um dezembro
na multidão de Nova Deli.

Busco avenidas com o cais ao fundo,
diante daqueles velhos armazéns
e casas de embarcações onde antigamente
se perdia, Biralbo, o pianista,
com o impulso quase policialesco
daquele que foge de um amor, e ao mesmo tempo,
deseja encontrá-lo em vielas
onde volateiam os pombos,
e não para de andar e se percebe
diante do Cais de Sodré que é um estrangeiro.

 

Extranjera

 

Hay días que me adentro en el bullicio
precipitadamente, mientras busco
el pulso a la ciudad, el mismo pulso
de El Cairo en la hora punta desde el muro
de la ocre ciudadela o de un diciembre
en la aglomeración de Nueva Delhi.

Busco avenidas con el muelle al fondo,
al pie de aquellos viejos almacenes,
y oficinas de barcos donde antaño
se perdía Biralbo, el pianista,
con el impulso casi policiaco
del que huye de un amor y, al mismo tiempo,
se lo quiere encontrar en callejones
donde revolotean las palomas,
y no para de andar y se da cuenta
frente al Cais do Sodré que es extranjero.

 

 

 

***

 

 

 

Armazéns Mouraria

 

Os comerciantes chineses embaralhavam as cartas
na conspiração de um filme noir.
Os golpes das fichas trouxeram a derrota
dos que jogaram numa cartada
o amor e a vida: dois de espadas.

Se afundaram para sempre os navios de pimenta.

 

Armazens Mouraria

 

Los comerciantes chinos barajaban los naipes
en la conspiración del cine negro.
Los golpes de las fichas trajeron la derrota
de los que se jugaron a una carta
el amor y la vida: dos de espadas.

Se hundieron para siempre las naves de pimienta.

 

 

 

***

 

 

 

Mirante de Santa Catarina

 

Eu nao sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.
MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

Contam as velhas crônicas que outrora
o povo subia até aqui
para esperar os navios
e seu regresso incerto da rota
das especiarias e das tormentas,
até o alto onde se forjava
toda resignação, com a paciência
de argilas modeladas na sombra
das promessas junto às ermidas.

Hoje espero, não sei muito bem o que,
assomada ao contágio secular.
E os versos que leio
de Mário de Sá-Carneiro já anunciaram,
desde os botequins parisienses,
o tédio pós-moderno, a ressaca ilustrada
que flutua sobre o rio e os telhados.

 

Miradouro de Santa Catarina

 

Eu nao sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.
MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

Cuentan las viejas crónicas que antaño
subía hasta aquí el pueblo
a esperar a las naves
y su regreso incierto de la ruta
de las especias y de las tormentas,
hasta este alto donde se forjaba
toda resignación, con la paciencia
de arcillas moldeadas a la sombra
de las promesas junto a las ermitas.

Hoy espero, no sé muy bien el qué,
asomada al contagio secular.
Y los versos que leo
de Mário Sá-Carneiro ya anunciaron,
desde los cafetines parisinos,
el tedio posmoderno, la resaca ilustrada
que flota sobre el río y los tejados.

 

 

 

***

 

 

 

Estação de Santa Apolônia (Alfama)

 

Desci em uma daquelas estações
onde ninguém pendura uma guirlanda
de cravos laranjas ao chegar.

E ao longe, a cidade que se iluminava
entre pontes metálicas e hotéis
com cheiro de toalha e salitre,
nessa hora precisa
em que os vendedores desaparecem
deixando unicamente amontoado
o milho e os restos da feira.

Então, nesse momento
na sala de espera repleta
de viajantes sentados sobre suas malas
tive a lucidez do desencontro.

Olhei para o azul celeste colonial
pintado nos muros, evocando
velhas cartas de amor escritas em La Habana.

 

Estação de Santa Apolonia (Alfama)

 

Bajé en una de aquellas estaciones
donde nadie te cuelga una guirnalda
de claveles naranjas al llegar.

Y fuera la ciudad, que se encendía
entre puentes metálicos y hoteles
con olor a toallas y salitre,
en esa hora precisa
en que los vendedores se diluyen
dejando únicamente amontonados
los restos de la feria y el maíz.

Entonces, sólo entonces,
en la sala de espera rebosante
de viajeros sentados en maletas
tuve la lucidez del desencuentro.

Miré el azul celeste colonial
que tenían los muros, evocando
viejas cartas de amor fechadas en La Habana.

 

 

 

***

 

 

 

Miradores

 

Os múltiplos Pessoas sugeriam
ir lê-los aos miradouros
diante do primeiro café contemplativo.

 

Miradores

 

Los múltiples Pessoas sugerían
ir a leerlos a los miradores
ante el primer café contemplativo.

 

 

 

***

 

 

 

Navegantes

 

As noites partiam, desdobradas
sobre os mapa-múndi do desejo,
aqueles em que tu marcavas
os países em forma de postais,
onde havia feito escala,
enquanto me perdia
por essas latitudes de teu corpo
que anunciam as ilhas e alcançava
o centro do teu peito
com instrumentos de navegação.

 

Navegantes

 

Se nos iban las noches, desplegadas
sobre los mapamundi del deseo,
aquellos donde te iba señalando
los países en forma de postales,
donde había hecho escala,
mientras me detenía
por esas latitudes de tu cuerpo
que anticipan las islas y alcanzaba
el centro de tu pecho
con instrumentos de navegación.

 

* Poemas do livro Alfama (Centro de Poesía José Hierro, Getafe, 2009)

 

Verónica Aranda nasceu em Madrid, Espanha. É licenciada em Filologia Hispânica e realizou estudos de doutorado em Nova Deli. Recebeu diversos prêmios de poesia, dentre eles o Miguel Hernández e o Ciudad de Salamanca. Publicou vários livros, como Poeta en India (Melibea, 2005), Alfama (Centro de poesía José Hierro, 2009), Postal de olvido (El Gaviero, 2010), Lluvias Continuas. Ciento un haikus (Polibea, 2014), Épica de raíles (Devenir, 2016) e Dibujar una isla (Reino de Cordelia, 2017). Também é tradutora.

 

Edson Oliveira da Silva é poeta, doutor em Teorias e Críticas da Literatura e da Cultura pela Universidade Federal da Bahia, em consórcio com a Universidade Autônoma de Barcelona. Atualmente é Professor Adjunto da Universidade Estadual de Feira de Santana, ministrando disciplinas na área de Literatura Espanhola e Literatura Latino-americana.

 

 

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124ª Leva - 02/2018 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Fernando Rocha

 

Foto: Tati Motta

 

Ainda estou aqui

 

Alguém que se foi, mas permanece aqui como um holograma, deitado na cama, de onde não pode mais se levantar, da boca apenas saem sons que não são palavras, a fralda é agora o banheiro, não sente mais vergonha dos excrementos, não sente mais o controle do próprio corpo, é um refém sem algoz, talvez a má sorte, que ele sempre ignorou, olhando sempre para os lados e para trás, mas nunca para frente, ela estava lá, pronta para desmanchar toda a construção inútil que foi a vida.

O homem forte, trabalhador, aquele por quem meus olhos e meu corpo se encantaram, não existe mais, ele está acamado há quatro anos, sequela de um a.v.c.. Tenho cuidado dele do jeito que posso, nossa filha me ajuda aos finais de semana. Ainda estou aqui, tenho querer, sinto o meu corpo pulsar.

Ontem a menina veio, menina? É uma mulher de 20 anos, mas aos olhos da gente é sempre uma criança, tomei um banho mais longo, senti cada gota de água correr em mim, um tempo comigo, depois saí por aí.

Parei na padaria onde ficava com os colegas de faculdade, nenhum deles estava lá, ao contrário de mim, concluíram o curso de direito, são doutores e doutoras, ocupados com as burocracias da vida de um advogado.

Sentei-me no balcão porque as mesas são destinadas aos que têm companhia, através dos lanches, eu vi dois homens que conversavam e bebiam suas cervejas, ali estavam como se flutuassem numa bolha que os protegia das chateações do cotidiano. Um tinha um sorriso encantador, eu queria, mas não conseguia parar de olhar, ele devia ter uns dez anos a menos que eu. Pela persistência do meu olhar, percebeu que eu o estava mirando, meio tentando disfarçar, mas sem conseguir, ele começou a retribuir o gesto, há tempos trancada em casa, como é bom ser desejada, ou será só devaneio meu?

Não, o amigo foi embora, ele veio até mim, a mão estendida era desejo, mas também receio, eu não tinha mais tanto tempo ou paciência para pudores, levantei, o beijei entre o rosto e a boca, disse um nome que acabara de adotar para aquela tarde, ele também se apresentou, conversamos sobre a vida, suas pupilas dilatadas me engoliam, olhos de menino num rosto de adulto, não recuei, pus a mão sobre a dele e com toda a minha coragem, não desviei o olhar, ele aceitou.

Disse que tinha que voltar para casa, eu disse que ainda estava cedo, me ofereceu uma carona, aceitei, minha intenção oblíqua era outra, entrar no carro e colocar meu plano em curso, eu disse vai por ali, vire à esquerda, entra! Estávamos na frente de um motel, ele titubeou, mas me obedeceu.

Entramos… Numa voracidade se atirou sobre mim, eu, faminta por um corpo aceitei e retribuí. O calor da pele transpassando a roupa, braços fortes e quentes, o beijo forte, parecia me engolir, era a vida sinalizando sua presença, logo estávamos nus, a boca dele percorrendo cada centímetro do meu corpo, acendendo em cada poro uma fogueira, um pouco afobado, mas eu logo comecei a ditar o ritmo, entendimento pleno entre corpos, duas horas morando no prazer.

Tomei banho sozinha, porque o contentamento é egoísta, saímos, disse a ele que podia me deixar na esquina, à direita, de lá pegaria um taxi, um último beijo, mais sereno, antes de sair do carro.

Em casa, a menina disse:

– Mãe, está tudo bem? A senhora está diferente.

– Coisa da sua cabeça, filha. Pode ir cuidar da sua vida, deixa seu pai comigo.

Olhei nos olhos do meu marido, eles permaneciam opacos, mas me miravam de um jeito diferente, fui até a cozinha preparar um sanduíche, mordido com força de quem está inteira em si.

 

Fernando Rocha da Silva é paulistano, nascido em 1981, graduado em Letras, professor de Língua Inglesa na rede municipal de São Paulo, autor do livro de contos Sujeito sem verbo (Confraria do vento), da novela Os laços da fita (Penalux) e Afetos (Penalux). Tem um conto na antologia Descontos de fadas (Alink editora). Possui textos publicados em Mallarmagens, Diversos Afins, Incomunidade, Musa Rara e Letras Inacabadas.

 

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124ª Leva - 02/2018 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guillherme Preger

 

Visages, Villages. França. 2017.  

 

 

É fácil dizer que Visages, Villages (2017) celebra a arte do encontro. No entanto, o encontro nunca é uma tarefa fácil.

O filme de Agnes Varda e JR começa com uma série de desencontros banais entre os dois e termina com o dramático desencontro entre os diretores e o cineasta Jean-Luc Godard. Entre esses desencontros, ocorre o encontro dos diretores, como a dizer que os encontros são mais improváveis do que os desencontros.

Todo encontro é uma reunião entre afinidades e contrastes. Este se dá entre uma senhora de 88 anos e um jovem de 33 anos. Ambos são artistas da imagem. E a imagem que o espectador vê é justamente a imagem do encontro que coalesce formada pela liga dos afetos comuns, mas também por tensões de diferenças e disparidades. O jogo de cena é o mover dessas polarizações entre aproximações e distanciamentos.

 

Cena de “Visages, Villages” / Foto: divulgação

 

A começar, como diz o título, por um encontro de rostos e cidades, em que fotografar as faces de seus habitantes é uma oportunidade para falar e filmar as cidades ou os lugares. À primeira vista, Agnes Varda é a cineasta e documentarista das pequenas vilas francesas e de suas praias, como atesta sua já longa obra, enquanto JR é o fotógrafo e grafiteiro dos rostos de pessoas comuns expostos na grandeza monumental de suas colagens nos muros das cidades que visita.

Mas, no filme, JR é o motorista do caminhão que funciona como uma câmera rodoviária, enquanto Agnes Varda está na mesma viagem pela memória e pelas recordações afetivas, isto é, pelos seus traços e suas fixações. Trata-se, portanto, também de retratar as cidades e de viajar pelos rostos.

 

Agnes Varda e JR / Foto: divulgação

 

Mas há também outros opostos que se encontram nesse curso de imagens: o contraste entre permanência e impermanência. A leveza nomádica do registro de JR se dá pelo caráter efêmero e perecível de suas fotografias, coladas analogicamente nos muros caiados e abandonados das vilas e das cidades, enquanto Varda procura no registro fotográfico a resistência da memória, como o rosto translúcido de Cleo, cuja beleza deve superar a passagem do tempo. A todo o momento, a diretora de Cleo das 5 às 7 recupera uma imagem do passado que abre uma trincheira contra a liquidez dos tempos modernos.

Há, pelo menos, duas políticas de imagens que se confrontam nesse encontro cinematográfico. A herança esquerdista da diretora se revela na elegia sobre a dignidade do trabalho numa época em que o trabalho material e corporal supostamente regride frente à hegemonia digital e financeira do capital. E essa elegia adquire um viés feminista, seja na resistência da senhora que é a última moradora de uma vila de operários abandonada ou no testemunho oral e fotográfico das mulheres dos trabalhadores de carga. Essa relação entre feminismo e trabalho é uma das contribuições políticas mais relevantes da obra de Agnes Varda, ela própria mulher e operária da imagem.  A uma das mulheres que diz estar sempre atrás de seu marido, Agnes observa que ela não está atrás e sim ao lado. É nesse trabalho de deslocamento que sua arte propõe uma interrupção da incessante desmobilização forçada pelos ritmos acelerados da economia financeira.

 

Cena de “Visages, Villages” / Foto: divulgação

 

A política de JR, no entanto, é menos definida. Seu modelo de trabalho é o do empreendedor que convoca os funcionários de sua própria empresa a realizar a montagem de suas colagens, a qual ele supervisiona. O trabalho poético de JR é influenciado pelo surrealismo, pelo situacionismo e pela arte urbana do grafite. JR pertence a um grupo de artistas que deseja romper as barreiras e limites artificiais entre arte e vida. Em sua própria existência, ou em seu trabalho, ninguém realmente consegue traçar uma fronteira onde está a vida e onde está a arte. A obra de arte é uma forma de vida. Por isso seu evidente desapego pela permanência das imagens. A mensagem de JR é a de não resistir à fatalidade da entropia, mas aliar-se a ela. Por isso, o enorme labor em colar a imagem na ruína abandonada na praia é perdido em apenas uma manhã da maré marítima sem ser lamentado. Há antes de se perceber a beleza inerente de sua efemeridade, que é a da própria vida.

 

Agnes Varda e JR / Foto: divulgação

 

Num diálogo decisivo, JR pergunta a Varda sobre se ela, com seus 88 anos, tem medo da morte. É como se o filme transmitisse um recado freudiano: ao final, serão a entropia e a pulsão de morte as grandes vencedoras. A vida é apenas um desvio, um alongamento nomádico, um retardamento a essa fatalidade. Mas como Freud mesmo comparou a pulsão psíquica à montagem cinematográfica, temos em Visages, Villages um encontro de afinidades entre a montagem cinematográfica (afinal realizada apenas por Agnes) e a colagem gráfica, realizada por JR e sua equipe. Colagem e montagem são formas do heterogêneo e dos contrastes. E desses contrastes, o encontro não pode suprimir ou dissimular os atritos, ou mesmo os confrontos.

Ao final, o filme é aceitação do que não pode ser resolvido por nenhum acordo, por nenhuma empatia dos afetos, ou mesmo pela amizade. O encontro, para ser justo, precisa respeitar aquilo que resiste a se conciliar em seu âmbito. A marca da memória é justamente a desses heterogêneos que se recusam a se dissolver. A arte é, com certeza, uma forma de vida, mas que não pode se confundir com a trivialidade da entropia. O modo de existência da arte é a sua resistência contra a banalidade e contra o “mais provável”. Os encontros que realmente permanecem são os cruzamentos desses desvios raros e imprevistos que chamamos de acontecimentos.

 


 

 

Guilherme Preger (1966) é escritor e engenheiro, natural do Rio de Janeiro. É autor de Capoeiragem (7Letras, 2003) e Extrema lírica (Oito e Meio, 2014). É um dos organizadores do Clube da Leitura. Participou como autor e editor das quatro coletâneas do coletivo. É mestre em Literatura Brasileira e doutorando em Teoria Literária pela UERJ, com pesquisa sobre as relações entre ciência e literatura.

 

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124ª Leva - 02/2018 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Flavio Caamaña

 

Foto: Tati Motta

 

DIFERIR NA DURAÇÃO

 

o mar um dia me descobriu mas eu nunca descobri o mar
estávamos apartados por gírias por orçamentos
estávamos desunidos e desgrudados
éramos divididos por muros e fileiras
de campos minados e arames farpados
éramos dois desossados
esparadrapo sobre esparadrapo
eu e o mar

não havia sequelas visíveis não havia sístoles
não havia o amor amortecendo quedas
não havia sinais de trajetos ou de dejetos
no percurso de um alvo à salvo
dos atiradores de palavras
condicionados e incontinentes
treinados para enganar
treinados para fechar a geral

pode ser que um dia alguém conte essa história
e o mar desabe sobre as minhas costas
o mar sancionado e em estado de ressalva
o mar abraçado de burocracias
abocanhado até a ponta do último cais

e o mar nunca se descobre de igual pra igual
algo sempre se perde na hora da desova
algo de sobrenatural e aquela coisa e tal
eu e o mar aferidos na pressão
máquina contra carne
vontade sem vontade
verdade sem verdade
eu e o mar

 

 

 

***

 

 

SERVIL

 

se eu estou no fogo
e sou esta lenha

perdido no mato
um cachorro à solta

minha bagunça não cabe
nos bagulhos do doido

minha vida renega
o poema que afago

 

 

 

***

 

 

 

CURTO PRAZO

 

não é pela força que se mede um salto
cumpre-se a missão do corpo no espaço
desforram no ar as hélices parasitas
cumpre-se o que é dado e desmentido

não é pelo salto que se mede a força
o que perfura a sangue e violência
o que se desdobra de lúcida veemência
e um apurado silêncio de permuta

de tudo é a surpresa que se infiltra
de tudo a boca compra o alto risco
e a validade perde a justa forma
e a forma encontra um voo frágil

não é pelo voo que se traça um salto
e o leopardo morde-se na fissura
a mais primitiva forma de violência
os olhos não capturam na aterrisagem

 

 

 

***

 

 

 

PARTILHA

 

talvez ele seja abençoado por conhecer
a índole de seus carrascos/ talvez apenas
por falar uma língua e entender que quando
coçam os sacos não autorizam um perdão

que eu não consigo esquecer que ainda existe
o amor/ enxame de bolinações cravadas
que eu não consigo esquecer a luz acendendo
talvez ele seja abençoado por conhecer seus

carrascos/ trapos luxuosos beiços molhados
mendicantes de um beijo fuçando a garra
melindrosa de deus/ um feiticeiro e vidente

apunhalado pela lábia sapiente de odara ilê
pela caçada penitente/ um reles na trapaça
sua vida é um lamber de fogo esmaecendo

 

 

 

***

 

 

 

ORIDES

 

elevar o cavalo
a uma estatura
de ave

o tijolo
e o seu peso:
libélula

pelas rugas
fundas da face
florir a seda

os dedos
rígidos e murchos
despetalar

a beleza
atravessada:
espinho na cereja

 

 

 

***

 

 

 

DO QUE NÃO DISSE

 

 

arrependo-me das palavras que não disse
das latas que não senti o cheiro
da bebida diluindo-se nas poças de lama
aquecida pelo sol de sertões apodrecidos
na carcaça de secas esfomeando a rolinha
isso é alento isso é conversa
embrenhando-me no fumo amargo
de um amor letárgico
graveto no meio da sinuosa estrada
onde pneus sapeiam

goza se o veneno que vem do poema desvia-se da boca
e as palavras não sinalizam um retorno
nem despojo sei que cada frase não dita surrupia o ovo
de uma coisa que poderia ser grandiosa
e se recolheu num betume se esfarelou na estranheza
de antiquário e santo homem
de palavras eternas e perebas faltando
com a educação com o zelo cutâneo
pregado na apostasia

 

Flavio Caamaña é um trabalhador braçal e poeta nascido em Tamboril, desertão do Ceará. Atualmente residindo em Fortaleza, obteve primeiro lugar no XVI Prêmio Estadual Ideal Clube De Literatura, participou da coletânea “Golpe” e revistas eletrônicas. É autor de “Aquedutos” (Patuá, 2016).

 

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124ª Leva - 02/2018 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Elis Matos

 

Qual sentindo poético terá a vida para alguém cujo existir exige re-existir, a todo o momento? Resistir ao ódio, ao preconceito, às múltiplas violências, e, por uma espécie de catarse, encher o mundo com beleza, movimento e poesia. Com quais cores tinge-se a face dessa artista, que joga com a sua não-existência, com o seu não-lugar no universo das representações binárias?  De quantas performances se constitui o cotidiano dessa poeta multifacetada? Entender o artista como este ‘ser no mundo’, que reflete, dialoga e problematiza a realidade, nos possibilita definir o fazer artístico, enquanto ferramenta social. No caso da poesia, por mais intuitivo que seja o ato de escrever, nesta atividade estão imbricadas todas as questões que permeiam a existência concreta daquele que escreve.

Atraídos por seus escritos, começamos a entrevistar JeisiEkê de Lundu. Mas, para nossa surpresa, nos deparamos com um delírio de artista. Uma angústia criativa capaz de animar mil corpos e deslumbrar todos os olhares de quem topar pela frente. É multi, tem mil facetas, não há como colocá-la no singular. JeisiEkê de Lundu é plural. Artista visual, performer, poeta, costureira, artesã e criatura de si mesma, a monxtra não-binária nascida na fronteira de Minas\Bahia, vive em Salvador, onde realiza performances nas ruas, em festivais de música eletrônica e na Terça Mais Estranha do Mundo, em que atua como Dramaqueen, e em saraus poéticos. Estuda Artes na UFBA, já produziu desde saraus a exposições, viradas culturais e shows espetáculos. Atualmente, flerta com o cinema e com o design de joias. Com poemas publicados na coletânea online Profundanças 2, JeisiEkê de Lundu fala de suas existências, enquanto artista transexual fora da representação binária homem/mulher, por meio do seus escritos e acaba por realizar uma militância poética cujos efeitos já se notam.

 

JeisiEkê de Lundu /Foto: Levi Mendes

 

DA – No processo criativo da escrita, é profunda a relação entre a geografia interior e o local onde nascemos. Em seu poema intitulado Enquanto meus pés balançam, publicado na coletânea Profundanças 2, você faz uma analogia entre seu local de nascimento “fronteira entre Bahia e Mina Gerais” e o seu “não-lugar” entre as categorias de gênero configuradas unicamente a partir do binarismo homem/mulher. Discorra a respeito do modo como ocorrem as relações entre as suas vivências e o processo criativo em sua poesia.

JeisiEkê de Lundu – Para pensar no que você chama de geografia interior busco o deslocamento. Nasci em uma família cristã tradicional, fui educada dentro desses preceitos, esse corpo que desde a primeira infância já percebe que não faz parte daquele território. Dentro de si cresce uma imensa vontade de buscar novas experiências para desvendar o seu interior, essa viagem emancipatória, não só de lugar – tornando o não-lugar um habitat – mas também de identidade, vagar por territórios outros me permitiu entender a transitoriedade, que é como enxergo tanto minha criação, quanto minha identidade de gênero. E a escrita encontra o lugar de cartografia, como alfinetes em um mapa na parede, marcando tanto o tempo-espaço, quanto o corpo e a experiência. Hoje, sou artista visual, trabalho com a imagem, com a forma, as linhas e a cor, e é interessante que até pouco tempo atrás eu tinha a escrita como uma ferramenta de registro do tempo e das minhas relações. Colocava esses escritos na gaveta, guardava esses restos de papel, meados de letras e encontros de palavras para futuras meditações. No rio dos encontros fui despertada.

 

DA – Profundanças 2, obra colaborativa lançada em plataforma online pela Voo Audiovisual, em 2017, é descrita por sua organizadora, a professora mestra e performer Daniela Galdino, como “resultado de uma desobediência à dinâmica do mercado literário marcada pela hierarquia”. Nesse sentido, qual a sua opinião acerca do significado desta coletânea para o contexto do sul baiano? E, em maior escala, no contexto brasileiro atual? Fazer parte do conjunto de dezesseis escritoras inéditas (em sua maioria) e dezenove fotógrafes, oriundas de diversas cidades baianas e de outros estados brasileiros, que compõe esta coletânea, gerou frutos em seu fazer criativo e na sua visão de si, enquanto escritora?

JeisiEkê de Lundu – É sempre dito pela mídia que nós – pessoas que vivem nesse ‘continente’ que chamamos Brasil – lemos muito pouco. Mas o que nunca é colocado em reflexão é o acesso à produção literária. Onde ela se concentra? Quem são os protagonistas da produção e difusão? Quem tem lugar de destaque nas feiras literárias? É uma resposta difícil? Eu diria que não, já que ela é a mesma se realocarmos a pergunta para outros campos da arte e da própria construção da sociedade. Uma pesquisa coordenada pela professora Regina Dalcastagnè, da Universidade de Brasília (UnB), revela esses dados: os autores, na maioria, são brancos (93,9%), homens (72,7%), moram no Rio de Janeiro e em São Paulo (47,3% e 21,2%). O que vivemos na arte de escrever está ligado a quem pode falar – escrever nesse caso – contar sua história e se fazer visível nessa mata fechada e espinhosa que é a literatura. Eu passava por um período bem difícil, quando recebi uma mensagem de Daniela Galdino me convidando para fazer parte da antologia.  De início, me questionei se eu escrevia. Rabisco frases há muito tempo, mas contava minhas histórias para eu mesma, sempre enxerguei como diário, cartografias que guardava em uma gaveta. Selecionei alguns textos que estavam mais próximos e enviei. Não sei bem ao certo o que passou na cabeça daquela criatura, me selecionou e hoje estou publicada junto com Lanmi Carolina, minha irmã travesti que fez fotografias incríveis para a mesma coletânea. Perceber que o que eu escrevia podia dialogar com outras pessoas, que aquelas palavras poderiam servir de flecha, chamar para reflexão foi um dos primeiros impactos que tive com a antologia. Encontrar escritoras, perceber pessoas próximas abrindo suas gavetas e revelando seus escritos em recitais ou nas redes sociais, mostra que já existe fruto desse trabalho nessas ações. Hoje escrevo mais do que antes, entendo melhor o que é essa visceralidade, que vem e só nos deixa quieta quando o papel está borrado de tinta. Escrevo pra respirar, para que as palavras não me sufoquem, para que um suspiro novo venha. Não sou a primeira pessoa trans a publicar, tiveram várias outras, não é algo novo, mas ainda existe pouca visibilidade. Profundanças 2 causou muita coisa dentro de mim e sei que o mesmo aconteceu com as várias escritoras e fotografes, que publicaram junto comigo. Reunir escritoras, em sua maioria nordestinas, que não têm a escrita como profissão, mas que têm potência e existência como discurso é uma desobediência, como fala a própria organizadora. Profundanças é um ato de guerrilha e na mão da cada combatente tem uma vara de cansanção esperando o momento certo para o ataque.

 

DA – No poema Enquanto meus pés balançam, ao declarar seu não-lugar no mundo das representações, como nos versos “nem menino nem menina”/ sempre do lado de fora, sempre à margem”, você demarca, ao mesmo tempo, seu lugar de luta. Os lugares da invisibilidade, da não representação,  o “não lugar”, expostos no poema, denotam total consonância entre uma poesia quase autobiográfica e sua postura combativa. Conte-nos como ocorreu o processo criativo desta poesia, em especial, na qual a pulsação dos desejos conduz a fluidez dos corpos para longe de qualquer categorização estanque do gênero.

JeisiEkê de Lundu – Enquanto meus pés balançam começou a ser desenhada na rua, depois de uma ofensa, fui atacada e estava voltando para casa com a mente cheia de questionamentos, do tipo: ‘quem eu sou no mundo e de como isso interfere em como as pessoas em volta me leem’, e de ‘como minha postura pode interferir nas minhas relações’. Naquele momento, foi como um manifesto pra mim mesma, foi escrita no início de 2016, estava voltando de um tour pelo nordeste, onde me aproximei de pessoas com posicionamentos políticos, que me trouxeram várias reflexões importantes. Essa viagem também me trouxe à tona questões geopolíticas, entender esse trânsito que fiz da fronteira de Bahia-Minas para a capital baiana. Tudo isso influenciou, criei um vídeo-art para trabalhar a poesia em outra linguagem. Agora, eu acredito que o poema fala por si. É de longe uma das coisas mais potentes que já criei, no nível que dá conta de si, é a poesia por ela mesma. Ela conta de mim, sem que eu me apresente. Ou ela me apresenta, sem que eu conte de mim. Diferente dos outros escritos é a poesia que recitei logo, em poucos dias soltei-a na rua. Foi como uma resposta ao ataque, e um grito (sabe?) que não era pedido de socorro, Isso é um grito de alerta, não de socorro. É anúncio de guerra, como um: tenha cuidado!  O que vem depois de mim pode te confundir ainda mais. Por mais que a categorização dos corpos seja rápida, a fuga e a desobediência às normativas são ainda mais velozes. Os corpos estão nascendo cada vez mais desprogramados – e aqui eu não tô falando de biologia – longe de mim. Estamos reprogramando as culturas, culturas que oprimem e dilaceram desejos são, sim, alvo dessa reprogramação. Que é o sentido no qual termino o poema: criando leitos para que outres deságuem.– abriram espaço para que eu pudesse escrever e caminhar sem medo, é essa também uma das minhas funções no campo do desejo, ser rio para que outres naveguem e naveguem com segurança. Eu tenho certeza que não escrevo sozinha, que escrevo com muitas e para muitas, que as palavras que marcam esse papel não são só minhas.

 

DA – São tempos de problemas políticos e sociais graves no Brasil. As minorias que, no decorrer da história, foram subalternizadas convivem com um perigo constante. Neste contexto, como você compreende o papel da arte, enquanto ferramenta de crítica social? No que toca a violência contra transexuais, a sua poesia pode ser entendida como um espelho de denúncia, por exemplo? Em quais outros campos da crítica social sua escritura perpassa?

JeisiEkê de Lundu – É bem verdade que os problemas sociais que dizem respeito à população dissidente vivem momentos de ebulição, tanto no que tange às lutas, visibilidade e conquistas, quanto a resistência. Nós não morremos agora mais do que antes, mas também o número de pessoas trans que são cruelmente assassinadas ou se suicidam ainda é alarmante, e ainda falamos muito pouco sobre isso. A arte sempre teve em suas características a crítica como um ponto muito forte. Em tempos turbulentos, isso se torna quase que uma obrigação, quase que um dever do artista analisar o tempo em que vive e falar sobre ele, usando códigos e linguagens. Por outro lado, a arte também se apropria de pautas emergentes para criar poéticas e fomentar a criação, o que eu não vejo como um problema por si só, desde que o sujeito, que se apropria, saiba realmente o que está acontecendo. Um exemplo disso são espetáculos de teatro retratando a vida e a luta de pessoas trans, protagonizados por artistas cisgêneros que não têm elementos em suas vivências para tratar de um assunto tão vasto e potente. Ignoradas a existência e arte de pessoas trans, que são varridos dos espaços de criação, divulgação e fomento de seu fazer artístico. E aqui cito o MONART, Movimento Nacional de Artistas Trans, que recentemente lançou um manifesto sobre esse assunto, acredito que é de suma importância ler e acompanhar essa pauta.

Eu entendo que, enquanto biografia, o meu trabalho, se denuncia ou critica, é porque vai de encontro a uma norma, ao binarismo, ao mundo encaixotado em identidades fixas e castradoras. Acredito que, quando lançada, a palavra pode atingir não sei ao certo qual a estaca que segura essa estrutura toda, mas sei que existe potência nesse lançamento. Se atingirá um alvo, ou não, o importante é que houve o deslocamento e o percurso em que isso acontece. Seria prepotência uma artista traçar a rota de sua arte e ter plena certeza do que/onde ela vai atingir. A arte é muito mais ampla e viva. Nós estamos morrendo. Se levarmos em conta as estatísticas, meu corpo tem menos de 10 anos de vida, posso ser atacada a qualquer momento, ainda mais com a força da onda do conservadorismo querendo nos arrastar e nos lançar contra as pedras. Criar, ver meu trabalho publicado em uma antologia tão forte, que reúne artistas com uma representatividade tão ampla, como a Profundanças 2, já é, por si só, uma crítica. No entanto, minha principal crítica é continuar viva, é subir no palco, empunhar o pincel ou caneta, minha crítica é rasgar o véu da arte elitista e privilegiada e dizer que nós, apesar das pedradas, continuamos vivas!

 

DA – Além de poeta, você é também artista visual e performer.  O que nos faz pensar uma existência multifacetada de Jeisiekê de Lundu, enquanto artista. Quais as relações estabelecidas entre estes vários lugares de atuação artística, aos quais você disponibiliza seu tempo e dá vazão a sua criatividade? As questões de gênero são postas em discussão em suas performances. Com relação às artes visuais, existe alguma conexão entre a poesia e sua produção neste campo?

JeisiEkê de Lundu – Tenho me considerado uma artista visual, não que eu atue somente nessa área. Viajo no audiovisual com certa frequência, mas a arte visual me dá possibilidades para flertar com temas que acredito terem maior importância para a criação que desenvolvo. Dentro dessa caixa de multifaces da linguagem, consigo transitar pelo tridimensional, trazendo estruturas e subvertendo no corpo, nesse sentido, entendo o corpo como suporte – tanto de ação quanto de discurso. E, para isso, eu recorro à performance art, uma linguagem que bebe muito de outras linguagens da arte, se apropria de ferramentas e subverte conceitos, ressignificando os sentidos, para, nesse lugar, conseguir falar sobre o que é minha existência, sobre minha visão de resistência, de coletividade, de construção social, de normativas sociais.

Dizer o que se pensa em arte é um trabalho muito doloroso. Falar sobre assuntos emergentes é mais complicado ainda. Quando você constrói uma célula artística falando sobre “o vento que passou e arrancou a flor do jardim”, pode até ser que nenhum questionamento ocorra, ou que venham aplausos, contratos ou coisas do tipo. Mas, quando se tem trabalhos que questionam atitudes e performam lugares, que a estrutura não quer que seja visível, o questionamento nem sempre é feito baseado na obra em si, mas no sujeito que cria. Ou seja, no sujeito que se apropria da linguagem para questionar. Eu trago isso, nesse momento, porque meu lugar enquanto artista é questionado, minha arte é poucas vezes vista como ela é de fato. Meu corpo é questionado, minha validade enquanto artista é questionada pelo simples fato de não corresponder a uma expectativa hegemônica. E isso não acontece somente comigo, várias artistas do meu círculo mais próximo sofrem com atitudes parecidas. Corpos que deveriam – segundo a lógica higienista – nem existir, quanto mais se afirmar enquanto artista. Isso acontece com várias amigas da Casa Monxtra – coletivo de arte dragg formado por artistas negras, não binárias, mulheres, periféricas – do qual faço parte aqui em Salvador. Vários ataques e questionamentos acontecem não pela qualidade ou pela estética abordadas no trabalho, mas sim por quem protagoniza o trabalho e usa o discurso para enfiar o dedo nas feridas da sociedade. Agora sim, respondendo à pergunta, eu não consigo deslocar a escrita da visualidade porque de certa forma uma linguagem nutre a outra, a escrita compõe a imagem e o contrário também acontece. Boa parte dos textos publicados em Profundanças 2  fizeram parte de uma performance que fiz com Lanmi Carolina, em 2016, denominada “Rapina – ou a metamorfose do ser”. Os escritos eram parte da bagagem que carregamos na criação e na execução da obra. A escrita em algumas obras é como o registro fotográfico, só que em grafia, não em luz.

 

JeisiEkê de Lundu / Foto: Lanmitripoli com retouch de Juan Pablo Gutierez

 

DA – Haja vista a quantidade de colaboradores, podemos dizer que a obra Profundanças 2 se desdobrou em um coletivo, que tem desenvolvido o evento chamado Roda de Conversas em Profundanças. Tendo circulado por cidades da Bahia e Pernambuco, a roda intenciona conversar com o público, entre outros temas, a respeito das formas de ativismo literário, circulação alternativa, sentidos da criação artística em tempos de golpe(s). Como foi e está sendo participar destas rodas de conversa? Há algo de provocador nas plateias que têm frequentado? Como ocorrem essas trocas?

JeisiEkê de Lundu – Na época da publicação, eu não achava que tinha feito pacto de sangue com Daniela Galdino (risos). Mas se configurou em coisa parecida, viu? (mais risos). Brincadeiras à parte ou não, eu participei de uma roda de conversa e estou indo pra segunda agora. A primeira foi no campus do IFBA, em Ilhéus, o público de secundaristas, funcionários e professores do campus, dentro de uma semana de atividades bem intensa. Eu cheguei um dia antes e tive o prazer enorme de conhecer Aildil Araújo Lima (escritora cachoeirana), ganhei dela o livro Mulheres Sagradas, passamos boa parte da noite e da manhã sentadas na varanda conversando, fumando e bebendo café. Já havia começado a roda de conversa ali e não tinha me dado conta. Conversávamos sobre a “escrevinhência”, sobre a palavra – como encontramos com ela. Foi um momento único, marcou muito minha trajetória. De manhã encontramos Daniela e seguimos para o IFBA. Eu estava super nervosa, falar sobre minha escrita (coisa há pouco revelada), mesmo tendo experiência com palco, ali na frente de vários adolescentes me gerou um frio na barriga de primeira vez assim. Foi interessante, a dinâmica da roda aconteceu e li um texto sobre uma agressão, não é bem uma narrativa, eu criei alguma coisa, unindo experiências negativas com agressões e como isso se fixou em meu inconsciente. Como a sensação de ser agredida sempre volta e como ações do cotidiano podem se tornar disparadores para essas lembranças ruins. Eu estava lendo de cabeça baixa, quando terminei, várias pessoas estavam chorando, em prantos mesmo, nunca havia lido um texto meu em público pra tanta gente, e, quando termino, tem lágrimas – aquilo foi desconcertante. Eu não sabia se tentava sair dali, ou se chorava junto, mas eu não queria chorar, minha mente começou a pensar mil coisas. No fim da roda, fui almoçar no restaurante do campus e me sentei com alguns adolescentes, que fizeram parte da plateia. Ouvi histórias muito parecidas com as que eu vivi, foi reconfortante ouvir deles uma resposta e saber que as palavras, de certa forma, tocaram.

 

DA – A internet se constituiu numa importante plataforma de divulgação artística deste século. Esta entrevista, por exemplo, será divulgada no universo do www, seus poemas também foram publicados na  coletânea Profundanças 2,  que tem disponibilização online. Qual sua relação artística com as redes? Tem pensado em algum projeto artístico voltado para internet ou já utiliza as redes como maneira de divulgar sua produção artística?  

JeisiEkê de Lundu – Minha vida na arte começou e a internet já não era mais “mato”. Eu não conheci o tempo em que a divulgação e a promoção da arte estavam fora do campo virtual. De certa forma, o virtual interfere no modo como fazemos arte, de como formatamos nosso trabalho para caber nesse suporte. Existe certa preocupação, eu diria, mais com o mundo virtual do que com o dito real, se é que ele existe! Não sei, talvez esse mundo dos bits e do www seja o real. Em Profundanças, isso se tornou uma coisa interessante, o lance do livro digital, publicado em uma plataforma, o que gera uma certa democratização da linguagem, aí volta para o que eu já havia dito antes, sobre  “quem pode ler?”, “quem pode escrever?”, sobre o quão inacessível é publicar escritos no mercado editorial no Brasil e na mão de quem isso está. A internet possibilita trazer para a luz pessoas anônimas, escondidas pelo véu da invisibilidade, guardadas na “escrotidão” das máquinas. O simples ato de postar um texto em uma plataforma pode transformar toda uma cadeia, alterar várias rotas. Atualmente, eu trabalho muito com visualidades, usando meu corpo como plataforma para a criação artística, e a internet é sim a maneira mais fácil de divulgar esse trabalho e ter um retorno e um contato maior com o público.

 

DA – É bastante estreita a relação entre referências e reverências, seja em qual campo de trabalho estivermos falando. Sem reverências, quase impossível ter referências. E o contrário também poder ser verdadeiro. No fazer artístico, esta conexão aparece de maneira ainda mais intuitiva e forte. Comente sobre as reverências que norteiam o seu conjunto de referências, na constituição de seu leque de memórias enquanto poeta e performer.

JeisiEkê de Lundu – Não se escreve sozinha, por mais que o ritual de escrita seja solitário. No próprio ato de empunhar a caneta e rabiscar o papel, várias mãos fazem essa ação em conjunto, seja de forma consciente ou não. Eu estou falando sobre aquelas que não podem escrever ou sobre aquelas que escreveram antes de mim, e aqui trago minha referência, Simone Portugal, escritora baiana, que publicou, artesanalmente, seu primeiro livro, Filosofia do esgoto, e vende de forma autônoma e independente – traz em suas linhas a revolta e o escárnio como poética. Eu reverencio também Suzernagle Bento, poeta sertaneja, residente em Salvador, que carrega a seca e as memórias do sertão para enaltecer as bravas mulheres do semi-árido brasileiro. Enalteço e trago pra esse panteão de mulheres Michelli Mattiuzzi, performer e escritora negra, que trava uma imensa guerra para ser artista, nessa parte colonizada do planeta, jogando contra a branquitude e denunciando o racismo. Enalteço Annie Ganzala – grafiteira e aquarelista – que carrega a poética sapatão em seus murais e aquarelas. Enalteço Negrindia – Gabi – poeta, sapatão, mãe, cartoneira, distribuidora de zines e cadernos artesanais, que luta bravamente para construir novas distopias. Hija del Perra, Gisberta Kali, Vanusa Alves, Tieta do Agresta, Lanmi Carolina, Aranda Sousa, Frutífera Ilha. É bem mais que um leque, é uma arvore que dá frutos muito grandes, nessa revolta que é fazer poesia, façamos poesia, os fascistas odeiam poesia.

 

DA – Ao escrever, brincamos com as linhas do tempo. Passado e futuro podem se entrelaçar numa dança jamais imaginada. Como sua poesia lida com o tempo? Como a mente criativa de JeisieKê de Lundu trabalha os acontecimentos do passado? Sublimando-os? E como são as projeções de futuro? Há alguma bandeira de re-existência hasteada com desejos de mudanças?  

JeisiEkê de Lundu – Às vezes, o sentimento de revolta é tão grande que não sentimos o tempo, a escrita às vezes fica estagnada, parada, feito água barrenta, o sentimento de paralisia causa pessimismo. Você não consegue enxergar quais ações podem mover e causar transformações. As utopias desaparecem da mente, o que sente é que tudo se petrificou e só existe o regresso como caminho. Eu tenho certo receio com a linearidade do tempo. Às vezes, minha mente da um bug e começo a pensar que vivemos em círculos, que o tempo é um círculo e não uma linha – como ditam por aí. Quando escrevo, estou sempre pensando sobre isso, de como podemos projetar passado no futuro e presente no passado, de como essas noções de tempo estão imbricadas e são complementares e divergentes. Seria determinista entender o passado como ponto fundante para o futuro, seria aceitar a linha do tempo simplesmente, acreditar em predestinação, talvez, que tudo está escrito ou pronto pra ser vivido, sem a necessidade da mudança. Aqui, eu quero retornar ao pessimismo, pensar a mudança nos tempos que estamos vivendo, pode ser revolução, mas em meu caso é um tanto pessimista. Hastear bandeiras e lutar tem se tornado cada dia mais impossível. As forças estão cada vez mais miúdas, eu tenho sido pessimista. Meu desejo tem sido acordar e continuar viva, como aquela frase pichada em muro: “A gente combinou de não morrer’”. Aí mora a mudança, talvez quando os corpos dissidentes tiverem o direito de viver, simplesmente, continuar existindo, aí sim, possivelmente, alguma mudança pode ocorrer; antes disso, não acredito em nada.

 

DA – Falando em futuro, terminamos esta entrevista com votos de ainda mais progressos em sua multifacetada carreira e perguntando a cerca dos planos subsequentes. Há algo em mente que possa ser contado à Diversos Afins? Quais seus planos mais imediatos? E, a longo prazo, quais suas metas artísticas?

JeisiEkê de Lundu – Sempre digo que sou uma artista multilinguagem, atuo na performance, no vídeo, na tela, na escultura, na costura e a música sempre foi um desejo e uma vontade. Agora, estou trabalhando num projeto muito lindo, não cantando, que ainda não desenvolvi isso, mas na direção de visualidade da banda Saramandaia, um grupo de artistas residentes em Salvador, falando sobre dissidências, política, arte, inclusão e temas emergentes.  Tem sido um trabalho muito forte e lindo. Para além disso, a Casa Monxtra com A terca mais estranha do mundo, no bar Âncora do marujo, todas as terças-feiras, e estou rabiscando e enchendo uma gaveta para editar um livro(digital) que espero lançar esse ano ainda – uma mistura de contos, poemas e textos sobre dissidência, corpo ciborg e existências à margem. Várias ideias na mente e a tentativa que ela mesma não se sabote, porque a própria estrutura já faz esse trabalho bem feito. Mas vamos seguindo o baile e fazendo o que tem que ser feito. Ai, estou super empolgada com tudo isso que Profundanças me proporcionou! Foi lindo demais! Aproveito para agradecer a Daniela pelo convite sempre, a todas as pessoas que compõem esse projeto mais que maravilhoso, a todas que leram e compartilharam a ideia, e por mais agregadoras e engrandecedoras como esta. Gratidão sempre.

 

Elis Matos é “cria” da Universidade Estadual de Santa Cruz, licenciada em Filosofia e bacharela em Comunicação Social, especialista em Gestão Cultural e mestranda em Linguagens e Representações. Trabalhou enquanto Coordenadora de oficinas, workshop e mesa do Festival de Cinema Baiano, nas suas IV, V e VI edições. Pesquisadora, cronista e palestrante feminista, lançou a tag #ondeofeminismomechamaeuvou e vai!  Aprendeu a sonhar uma vida justa até as últimas consequências…

 

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124ª Leva - 02/2018 Destaques Olhares

Olhares

A sinfonia discreta da existência

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Tati Motta

 

O que são os dias senão uma soma incontável de detalhes? Somos a sucessão de uma vida constituída por recantos, sejam eles físicos ou algum produto direto de nossas construções afetivas. O mundo parece não nos revelar tão diretamente seus avisos e alertas. Carecemos de uma perspectiva que nos dê a noção dos átimos, daquilo que se abriga em recônditos diluídos nos instantes embaraçados do cotidiano.

Mas perceber aquilo que não está tão aparente requer um exercício constante de desaceleração. Alijados da pressa, aquela cruel companhia que teima em assolar nossos tempos, muito provavelmente conseguiremos compreender que a aparição de um lado sublime da vida requer alguma opção de serenidade diante do olhar que podemos lançar sobre as coisas. E é, de fato, um movimento poético o de reter da existência elementos que nos passam despercebidos curiosamente por representarem a porção humana que nos convoca para dentro de nós mesmos.

Não há dúvida de que um ritual de contemplações e minúcias faz parte do trabalho de gente como a fotógrafa mineira Tati Motta. Mais do que direcionar suas lentes para uma riqueza íntima de gestos e para a apreensão de semblantes e objetos, Tati traz à tona uma expressão da arte que dialoga com camadas muito peculiares do ser/estar num mundo que nos golpeia incessantemente com os ardis da uniformização dos sentidos. Eis um ponto fundamental: o fazer artístico utilizado como ferramenta de ressignificação e pluralidade.

 

Foto: Tati Motta

 

Quando pensamos em negar a uniformização das coisas, devemos entender que cada pessoa ou objeto retratado tem um potencial de nos revelar particularidades que só são vistas graças ao ponto de vista de quem se permite alguma paciente imersão. Com certa frequência, o ato de enxergar no turbilhão alguns requintes de leveza é atribuído aos poetas. E é com tal postura, diga-se de passagem, uma de suas feições, tendo em vista também se dedicar nalguma medida à escrita de poemas, que Tati Motta penetra com delicadeza nos detalhes que envolvem pessoas, lugares e objetos.

No que se refere a captar nossas humanas idades, Tati flagra pessoas em seu natural bailado habitual, redimensionando suas manifestações para um renovado sentido: o de mostrar quão rica é a profusão de gestos que se camuflam na paisagem rotineira dos dias. O resultado expõe o quanto determinados corpos carregam em si uma amplitude de linguagens, todas elas sinalizando alguma rota de afirmação, entrega, efusão ou até mesmo silêncio.

Certa cartografia dos lugares urbanos também atrai os mergulhos da fotógrafa. É com eles que ela repensa os vestígios deixados pelas investidas audaciosas do progresso material civilizatório. Também não menos importantes são os olhares dedicados às manifestações que irrompem do ato de quietude e paciência emanado pela observação dos eventos da natureza.

 

Foto: Tati Motta

 

Formada em Comunicação pela PUC de Minas Gerais, pós-graduada em Artes Plásticas e Contemporaneidade pela UEMG, e especializada em Fotografia pela Escola da Imagem, Tati Motta confessa que sua inquietude foi quem lhe permitiu experimentar e desbravar as mais variadas formas de arte. Tem na fotografia conceitual uma grande impulsionadora de seu trabalho. Esta última, como a própria artista sustenta, é a principal responsável pela construção de imagens, expressão de ideias, manifestação do seu imaginário e dos seus devaneios.

A vida sabe como nos ofertar seus instantes ruidosos. Com eles, podemos simplesmente perdermo-nos na paisagem, sufocados pela padronização das rotinas, ou optarmos por apreendermos algum caminho que nos revele uma conexão de singularidade com nossas existências. Nas entrelinhas do mundo, algum novo sentido pode estar à nossa espreita.

 

Foto: Tati Motta

 

* As fotografias de Tati Motta são parte integrante da galeria e dos textos da 124ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.

 

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124ª Leva - 02/2018 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Isabela Rossi

 

Foto: Tati Motta

 

UM CANTO

 

dos pássaros
honradas todas as plumas
rimos com dentes de nada
próximos choramos
Grandes telas de cinema
estações de tratamento
As ratas de esgoto também não conhecem aberto
o céu
Toquemos pra elas, Viviane
Com as palavras no azul
o violão cello
em comum nós temos um coração
patas
e pêlos cheirando azedo
ou sangue
quando a chuva infiltra
palcos planos
porões cândidos
Todos
desertos loucos da nossa alma

 

 

 

***

 

 

 

seria pássaro
a máscara caindo em rasa água
uma língua em pleno voo
trocar as penas que sinto de mim
por uma plumagem nunca antes inaugurada
pássaro átimo
desentendida da fome
invenção do étimo a
alinhavar o bico
onde
bocas já não falam mais,
assovios se afinam
busco este alimento, frutas em
olhos de virgem,
as folhas secas
que o jardineiro acomodou antes de fugir

 

 

 

***

 

 

 

COM A MÃO ESQUERDA

 

I

raiva acumulada nos anos
doce revólver mirando ânus
não quero nada disso
goteira de água morna
enxofre do desejo
não parece
mas meu corpo é feito no bronze

 

II

Par de olhos se despindo frente a frente
sombra ante sombra
luz fosca na verdade oculta
porrete na invenção do que se quer pra sempre
límpido cristalino sem violenta irrupção
Hora do espelho
Não me vejo taciturno e
uma chaga dantes tema misericórdia
é agora sangue urdindo
Em dó menor
Morrer todo dia cansa
estilhaçada a
nudez dos anjos
eu quero agora Cantar

 

III

que imagem é aquela desfeita
contratempo da charada
que rosto é esse pincelado
na astuta margem da página
cospem-nos as esfinges em ossatura

do espelho que estilhaça
Em todo poema
colo cacos
A procura do alguém que responda
o antiquado chamado
do Eu

 

IV

válvula
vibra vermelha vulva
essa mulher
verborrágica
vai gozar
mão esquerda em euforia
doce
vesicante prazer
ruindo
não há pesadelo
penetrar fecunda
a Vida

 

 

 

***

 

 

 

AREIA E CASTELO

 

areia e castelo
semente e casca
aço e sertralina
eu estava ficando louca
até no front
da pele com a pele
explodir
o sal
de uma Manhã

 

 

 

***

 

 

 

CANTO DA VIDA COMUM

 

I.

por que me destes Deus este segredo da Pedra?
por que não olhaste para minha cara
dente de leão nos lábios da criança
e legasse a febre ou
sóbrio
o caminho dos leitos
que levam à Lete?

foi-me aventurado granitos
minérios
a levedura do chumbo

mas sou uma mulher
e todos os fuzis
são velas nas minhas mãos

 

II.

dedos da pianista
Lizst era um soldado
que gostava de açúcar
nós estivemos a ponto de partir
mas aquelas notas
melodias do incomum
desarmaram a vaidade

Filarmônica de trapos
preenche nossas horas
lugares onde descansamos
tecidos nos ninguéns

 

III.

nunca coube
nesta solidão
o vazio da estrela torta
recolhidas ao fogo
partilhamos apenas
os cacos
das vitrines opostas

refém dos caramujos
o Eu é insolúvel nos espelhos
muralhas contornantes da vida comum

 

Licenciada em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas e, atualmente, aluna da Escola de Arte Dramática da USP, Isabela Rossi é atriz e autora na Companhia Balé de Pancadaria. Um dia, num suspiro, tomou de assalto os versos do samurai Paulo Leminski, “não discuto / com o destino/o que pintar/eu assino” e desde então tem seguido com a pólvora e poesia que se pode experimentar a Vida.