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124ª Leva - 02/2018 Galeria

Foto: Tati Motta

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124ª Leva - 02/2018 Galeria

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123ª Leva - 01/2018 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Desenho: Raquel Piantino

 

Um novo ano começa a mostrar suas investidas. E para um projeto editorial como o da Diversos Afins é sempre tempo de vislumbrar caminhos, possibilidades de outros encontros movidos por palavras e imagens. A arte tem o condão de promover arranjos diferenciados, tirar as coisas de lugar, desacostumar o tempo. Com maestria, ela evoca um olhar atento ao viés inquieto da existência, quiçá uma busca pelo sentido da nossa própria vida. Se só usamos dez por cento de nossa cabeça animal, tal como apregoava Raul Seixas, podemos imaginar o quanto ainda permanece desconhecido em nós, sobretudo nos imensos labirintos componentes da mente humana. Então, o que pode a arte diante das zonas obscuras ou inexploradas? No mínimo, alguma espécie de sondagem. Mas pode também ser uma agente movida pela provocação, aquela que nos impele a buscar uma não conformidade das coisas. Daí que, em matéria de criação, as manifestações mais peculiares possíveis podem contribuir para aproximações na diferença. Se cada autor confere à sua obra uma voz própria, emanada de seus mergulhos íntimos, talvez possamos supor que as experiências, por mais assemelhadas que sejam entre si, nunca exprimem idênticos saberes e sabores. Em suma, a cada um de nós e dado sua própria travessia com toda a sorte de ambientes explorados. Em matéria de literatura, por exemplo, podemos imaginar como cada autor reage a seu tempo, ao mundo que o cerca. E é com a bagagem de sua individualidade que os poetas Natália Agra, Fábio Pessanha, Cibely Zenari, Analice Martins e Adrian’dos Delima desfilam por nós seus pungentes versos, prenhes de imagens, prenhes de vida. Revelando-se um protagonista de seu tempo, o escritor Itamar Vieira Junior é o entrevistado da vez. Numa resenha sobre o livro de estreia de César Manzolillo, Daniel Russell Ribas destaca perspectivas para o conto. Vivian Pizzinga menciona suas sensíveis impressões sobre o espetáculo teatral “Preto”. São de Paulo Bono, Danilo Brandão e Glauber da Rocha as narrativas que evidenciam vias desnudas da vida. É Daniela Galdino quem nos apresenta o disco de estreia do cantor e compositor Rafique Nasser, jovem revelação da nossa música popular. No caderno de cinema, o filme “The Square – A Arte da Discórdia” é alvo das análises de Guilherme Preger. Entre múltiplas incursões textuais, a nova edição traz a marcante presença dos desenhos da artista plástica Raquel Piantino. Com vocês, caros leitores, a 123ª Leva!

Os Leveiros

 

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123ª Leva - 01/2018 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

The Square – A Arte da Discórdia. Suécia/Alemanha/França/Dinamarca. 2017.

 

 

O filme de Ruben Ostlund, The Square (2017), foi vencedor da Palma de Ouro em Cannes em 2017 e concorre ao Oscar de filme estrangeiro no Oscar 2018. Esse sucesso de premiações não levou, no entanto, o filme às principais listas dos melhores do ano passado.

A versão em português do título deste filme sueco é um tanto infeliz. Não é sobre arte nem sobre discórdia. A simplicidade do título deveria ter sido prezada na tradução.

O filme é uma sátira e, em certos momentos, uma comédia. Há momentos tensos e um conjunto de peripécias que prendem a atenção num filme talvez excessivamente longo (144 minutos).

Christian (Claes Bang) é o curador-chefe de um museu de vanguarda em Estocolmo, Suécia. O museu está às vésperas de uma exposição de uma obra intitulada “O Quadrado” e que tem o seguinte conceito: “O Quadrado é um santuário de confiança e cuidado. Dentro dele todos têm direitos e obrigações iguais”. Para o lançamento da nova exposição, o museu deseja fazer uma campanha publicitária e contrata uma agência para tal.

A cena inicial é uma entrevista na qual a personagem Anne (Elizabeth Moss) pergunta a Christian sobre uma postagem em seu blog pessoal, onde ele divaga sobre reflexões estéticas um tanto confusas sobre a distinção de conceito entre exposição/não exposição. O próprio Christian não entende o que ele quis dizer e responde com uma comparação banal: se a bolsa de Anne fosse esquecida numa sala do museu, seria considerada uma obra de arte ou não?

O filme foi aclamado como uma discussão sobre a validade e os limites da arte contemporânea. Na mesma entrevista, em tom de blague, Christian afirma que um dos propósitos do museu que dirige é atrair investidores no acirrado mercado da arte e ao mesmo tempo testar os limites desse mercado. O tom satírico do filme parece ser uma ironia a este paradoxo.

Mas o desenrolar do filme parece se distanciar das discussões estéticas propriamente ditas. Acompanhamos de perto os percalços da vida privada de Christian. Logo no início, após a entrevista, ele é vítima de um logro e tem sua carteira e celular roubados. Desenvolve um estratagema para recuperá-los e tem sucesso em reaver seus pertences, mas a custo de provocar danos colaterais e questões éticas. Envolve-se sexualmente com Anne, a entrevistadora americana. Leva sua filhas para fazer compras no shopping, etc. O filme enfoca sua desastrada, porém banal, vida pessoal e deixa de lado o universo de debates sobre arte.   A tumultuada vida de Christian realmente atrai o foco narrativo do filme e a discussão sobre arte contemporânea parece um mcguffin, um pretexto.

Porém, em outras cenas isoladas temos o retorno do tema da arte. Numa delas, um dos artistas expositores é apresentado no museu através de uma conversa, mas a entrevista é interrompida diversas vezes pelas reações infames e constrangedoras de um paciente da síndrome de Tourette. Em outra longa cena, das mais tensas e interessantes, uma performance com o “homem-macaco” é realizada durante um jantar de gala com patrocinadores e extrapola as fronteiras entre o real e a ficção, arte e convenção e entre o aceitável e o inaceitável.

 

Foto: divulgação

 

Essa extrapolação de fronteiras talvez seja uma das chaves de entendimento do filme. The Square não aborda a arte propriamente, mas a “forma” em si. Afinal, o “quadrado” é uma forma fechada em sua simplicidade. Supostamente, devemos nos focar em seu interior, onde haveria “cuidado e confiança”. O santuário quadrático é um espaço de proteção. No entanto, a campanha publicitária contratada para dar visibilidade à exposição nas redes sociais tem um efeito desastroso e explosivo. A campanha se dá fora do quadrado. O filme de Ostlund tem esse desenvolvimento astucioso: se queremos entender o filme devemos olhar para fora da forma.

Toda forma é uma unidade complexa: inclui algo em si ao mesmo tempo que exclui todo um universo. O lado de dentro é simples e harmônico, o lado de fora é múltiplo e caótico. E apesar de ser um “santuário” aurático, nenhuma forma é capaz de isolar o lado de dentro do lado de fora. Se o lado de dentro tem algo de resguardo harmonioso, o lado de fora é banal e ruidoso. Mas é impossível blindar o lado de dentro de uma obra de seu lado exterior, pois o ruído ultrapassa os limites e penetra no interior.

A vida ordinária de Christian é esse banal que é o fora da arte, cheio de ruído e confusão. Não é tanto a arte que se revela blindada, mas a própria trivialidade da vida e da mentalidade de Christian parecem infensas à sublimidade estética que lhe é tão próxima.  Mas mesmo essa afirmação se revela frágil: o filme é um jogo de ultrapassagens, de transposições de fronteiras.

Numa cena exemplar, a tensa conversa numa sala de exposição entre Anne e Christian sobre a noite de sexo de ambos é interrompida diversas vezes pela sonorização de uma das instalações em exposição. Nesse caso, é a obra de arte que é o “fora” ruidoso da cena da conversa. Já os impropérios do paciente acometido de Tourette são emissões ruidosas do lado de fora para o lado de dentro do universo da vaidade artística.

 

Foto: divulgação

 

É possível circunscrever uma divisória entre arte e vida? E o traçado da forma, o que ele divide? Se a forma circunscreve certo domínio separado e ficcional, essa separação é relevante?  A cena de sexo do casal é testemunhada pelo insólito chipanzé de estimação de Anne que, no entanto, não é capaz de perceber nada de inusitado. Mesmo assim, Anne fecha a porta do quarto. E há também o homem-macaco que agressivamente ultrapassa todas as fronteiras entre representação e convivência ou rompe as fronteiras entre espetáculo e cerimônia.

Também o universo hype da vanguarda estética da Suécia é invadido pelos mendigos e pedintes que se multiplicam nas ruas da social-democracia escandinava. Christian, nesse aspecto, como curador, é um mediador entre fronteiras de mundos. Não é arte ou banalidade, sucesso ou fracasso, a transgressão ou o politicamente correto. São, na verdade, composições entre esses extremos. Mas também não é uma questão de que não há forma, ou que a forma, como uma ficção, é uma distinção irrelevante. Pois se não há limites, também não há passagens de um lado ao outro, como se demonstra amargamente pela performance violenta do homem-macaco.

Não é tanto uma discussão sobre questões avançadas da arte contemporânea que torna The Square um filme interessante, mas uma discussão sobre formas, limites e traçados. E que há tanto o dentro como o fora do quadrado. E que não podemos circunscrever nossas ações, pois elas sempre extrapolam. Curiosamente, no entanto, embora seja um filme que aborde várias questões, o roteiro de Ostlund é um tanto tradicional. Na forma de uma narrativa que se desenvolve em peripécias e cujo foco se concentra em sua própria trama, é justamente a forma cinematográfica que não é abordada. Pode se dizer que talvez sejam essas questões contextuais sobre o mercado da arte, sobre o aumento da pobreza e da criminalidade na Escandinávia, sobre as redes sociais e sobre o politicamente correto que são o lado de lá da objetiva da câmera. Mas, na verdade, essas questões todas contextuais estão inseridas no enquadramento fílmico, em sua diegese. É o próprio frame cinematográfico que se obscurece no fluxo narrativo. Toda arte distingue não apenas aquilo que a forma encerra e desencerra, mas a própria forma em si.

 

 

Guilherme Preger (1966) é escritor e engenheiro, natural do Rio de Janeiro. É autor de Capoeiragem (7Letras, 2003) e Extrema lírica (Oito e Meio, 2014). É um dos organizadores do Clube da Leitura. Participou como autor e editor das quatro coletâneas do coletivo. É mestre em Literatura Brasileira e doutorando em Teoria Literária pela UERJ, com pesquisa sobre as relações entre ciência e literatura.

 

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123ª Leva - 01/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Cibely Zenari

 

Foto: Kelly Cristina dos Santos

 

frútero

 

12 contrações
compassadas
despressurização
caem as máscaras
primeiro as mulheres
depois as orgias
celestes

 

 

 

***

 

 

 

astro

 

navego na tez dessa pele
astrolábio
avesso à razão da direção

fundo com o oceano
mares profundos

sem fronteiras entre
donos
terreiros
terras
tornozelos
e saveiros

perdidas docas
lábios e bocas

remam incansáveis
ilhas inalcançáveis
flutuam
latitude zero

trapiches largados
birutas
balangamos ao vento

ao fundo escafandro
Ó2 acabando

jamais achados
escombros náufragos
pegadas na água
em únicos rastros
úmidos
de lábios cúmplices

trovões silenciam
há salvos?

 

 

 

***

 

 

 

botânica

 

o rizoma de nossas raízes
gira rodas cinéticas
em forças centrípetas
e ao centro estripulias
de dois quadrúpedes
de sensibilidades termostáticas
incendeiam variáveis distônicas.

o resultado atômico
pulsa sangue aos ventrículos
banhando estruturas
músculo-esqueléticas
em névoas harmônicas
onde vejo nebulosas
emanarem formatos
amorosos-biônicos
geneticamente interessados.

 

 

 

***

 

 

 

woman

 

minhas sardas e rugas
minhas saias sem nesga
minha brancura com olheiras
você vem e me toma pelo que pareço

meus tons vivos
meus sons graves
meus dons inexplicáveis
você me retoma quando anoiteço

meu doce café
meu bom tempero
meu extraordinário pé
você me adora quando te teço

estou tua,
sempre que pela manhã caminho nua
na nossa imaginada e exclusiva rua.

 

 

 

***

 

 

 

corra lola

 

ela vestida
em vestido ela era
em corrida ela vestia
esvoava e ela corria de vestido e voava
voada de chão
cabelo, cabelo santo, era cabelo
era vestido vestida e cabelo pendia
um desespero lhe corria
nas veias gotas vazias corriam
suor e lágrimas, rápidas
corria de si, de se machucar
corria e perdia
lhe saiam cabelos
lhe ficavam nuas
saias saiam, pelos corriam
despencavam pernas e braços
peitos des-pe-da-ça-vam
flutuava aos pedaços
torpes pegadas lhe seguiam
o que sobrava dela
era ela, fumaça chamuscada
em reflexo na fachada
e ainda ela
ela no dia do hoje
ainda pingava
talvez veneno doce
talvez carne passada
era um vestido rendado
esburacado de frio
no meio fio corria, desequilibrava
ela morrida de corrida cansada

 

 

 

***

 

 

 

cozinha*

 

uma certa mania de fazerem das cozinhas, brancas
é preciso colocar cor, os cheiros têm cor
as casas de aluguel azulejam branco até o teto
dá uma mania de escrever e pendurar coisas
na casa antiga a torneira é uma avó que se lembra em alguém
as cozinhas são os quartos adolescentes dos adultos
algumas panelas dependuradas para exibir
aqui é uma cozinha
um pano cai aleatoriamente sobre o botijão para dizer
aqui é quente, sai fogo
as formigas em seus caminhos naturais
nunca os interrompo
aqui a natureza se desenha em fome
quando transamos na pia
fiquei com vontade de dizer que te amava
mas não sabia se era a mesma coisa que amar
o desejo de falar que ama
e depois veio
o amor
veio o desfile de moda íntima pela cozinha
e copo d’água pelado da madrugada
depois veio o desamor
ele não comia mais na cozinha
mas me comia
ainda há fome no desamor
a cadeira amarela agora um trono vazio
apressa-se um bolo no forno
enche a casa de chocolate
aquece por um curto tempo o oco branco e quadrado
dessa mania de azulejo frio
sentar à mesa
afundar estofado de cadeira
tantas e tantas vezes na rotina
até que o rejunte encarda mas continue re-juntando
o que nasce separado
vira carne de pele quente
cozinha é uma fábrica
depois se repousa na cama
e depois some com a fome
a cozinha é tão enorme
hoje trago a cama e moro nela
deito com as panela

 

*poema parafraseado de algum da poeta Carla Diacov sobre banheiro

 

Cibely Zenari é poeta, psicóloga e psicodramatista. Sua produção poética já transbordou os formatos tradicionais, como objeto poético e produção de cartazes escritos com sangue menstrual. O universo feminino é produto e produtor de sua pesquisa na escrita em seu universo anatômico e simbólico. Auto-publica zines de poesia chamados Tril’orgia – escreve, diagrama, costura e vende.

 

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123ª Leva - 01/2018 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Danilo Brandão

 

Desenho: Raquel Piantino

 

Vera

 

Desliza.

Desliza.

Ela gritava.

Bem no meu tímpano. Ia longe. Todo o suor do mundo. O seu cuspe que se espalhava.

E então eu deslizava. Dan Brown. Paulo Coelho e algumas americanas de meia idade. Da esquerda pra direita. E meus olhos se esforçaram. R$ 39,90. Não parava e eu não conseguia me concentrar. Calor do caralho. Como fedia.

Seus peitos eram enormes. Pálidos. Flores eram regadas em sua camisola cor de mel. Tetas enormes e molhadas. Pequeno. O quarto era o contrário de suas tetas.

Tinha esse hábito. Meio-dia. Chegava com o pote. Arroz, feijão, bife. O pote azul. Suava. Invariavelmente, suava.

Calor do caralho.

Vera. Vera me encontrou num fim de tarde. Ela me viu primeiro e sempre dizia isso. Estava no banco. Pisava na minhoca. Ela já estava morta. Vera carregou seus peitos até nós. Eu e a minhoca. Desequilibrou-se. Firmou. Pescou meus olhos.

Minhocas não têm olho. Disse-me. Não têm mesmo. Ela jamais saberia.

Eu só usava verbos. Chamou-me pro quarto. O quarto de Vera. Sabia que eu era escritor. Jurou-me que eu era. Então, abriu a Amazon. Mais vendidos.

Desliza.

Desliza.

Calor do caralho. Vera estava sempre ligada nos mais vendidos. Todo dia. Ela abria e anotava o nome de alguma novidade. Comprava todos.

Disse-me que amava literatura. Estava na faculdade e tomava sol. Num fim de tarde. Adorava tomar sol. Os raios nos meus poros. Ela me disse que fazia mal. Fazia. Gostava.

Gostava de literatura também. Bandini, Arturo Bandini. Ri. Ela: não.

Seus peitos eram enormes, de fato. Como o vestido pretendia. Dois olhos enormes a me olhar. Achei que a escreveria em algum dos contos. Era uma boa personagem.  Ela gostava.

Nua. De óculos. Abriu meu caderno. Sem janela. Seu quarto. De novo. Não entendeu a letra, me perguntou o tempo todo. Aquilo me irritou. Fechei os olhos. E por que não usa um notebook?

Mutarelli.

Não entendeu. Nunca tinha ouvido falar. Calor do caralho.

Lourenço é calvo e explicava pra plateia, com os dedos, amarelos do tabaco, em riste, que tinha um caderno. Preenchia-o com qualquer merda, o fedor de uísque no ar. Não se interessou no papo. Mas continuei mesmo assim: quando pintava algum trampo, ele voltava lá, desbravava a merda, alguma coisa sempre se aproveita de lá. Não curtiu.

Stephen King. Estava no topo. Mostrou-me o ranking dos que mais faturaram no ano. Tá certo. R$ 15 milhões não é nada mal. Compraria o Mutarelli e uma camisola nova pra Vera. Riu.

Nua.

Fechou o caderno. Devolveu-me. Eram verbos. Demais. Ação e corte. Corte.

Ia me fazer um escritor. Mestre em fazer adolescentes gritarem no cinema de shopping center. Estava terminando a faculdade. Queria ser escritor, de fato. Vera ia fazer isso pra mim.

Passei as tardes com Vera. Ela já era formada e sabia das coisas. Vera me trancava no quarto. Trazia o pote. Azul. Calor. Às vezes vinha com o que chamava de inspiração. As tetas despencavam. Como pêndulos, balançavam. E os mais vendidos nos encaravam. Eu, pras tetas. Ela, pra eles. Gozava. Depois, voltava a me trancar. Era preciso. Fechava as janelas e o sol sumia. Escritor precisa ficar sozinho.

Tá ruim. Vai, vai, desliza.

Vera caiu numa terça. Uma faca atravessou-lhe as tetas. Era terça e desliza agora vai. Morreu de desgosto. Culpa minha. Ação e corte. Saudades da Vera. Quando morreu, suas tetas estavam no ar.

 

 

 

***

 

 

 

Ciclo

 

Lembra quando sua mãe te lembrou que eu era preto? E quando ela te perguntou se você não percebia isso. E quando ela falou que a casa agora fedia. E que isso era normal porque preto tem um cheiro diferente mesmo. Um cheiro que impregna no estofado da linha alta. E você trazia um preto pra jantar todas as noites na casa dela então isso iria acontecer mesmo.

Lembra daquela vez que eu menti pra você e você chorou por um mês? E ela te lembrou que  namorar preto era assim mesmo. E que em preto não dava pra confiar mesmo. Era normal. Isso ia acontecer mesmo. Tudo isso era pra você aprender. Depois desse dia ela nunca mais conseguiu respirar o mesmo ar que eu. Eu chegava e ela saía. Mesmo assim, eu curtia sacar o olhar dela pra mim. O olhar em direção ao preto que jantava com a sua filha. Eu curtia. Aquela porra era puro ódio e a gente ficava nesse jogo de se olhar e se odiar mutuamente. A atmosfera da casa pesava quando o preto chegava. E isso eu também curtia.

Você sempre me disse que ela era uma boa pessoa mesmo assim. Que aquela parada era cultural e pronto. Não era nada pessoal. Não era um racismo fodido desses que eu tropeçava na rua todos os dias. Desses que me fazia ser acusado de entrar em um lugar. Era uma mais leve. Quase calmo. E eu quase me convencia disso. Até eu olhar o olhar dela e a gente recomeçar nosso jogo.

Acho que foi sua mãe que terminou com a gente. Você disse pra ela que me amava, apesar disso. E ela não entendia nada. Tinha te educado e te pagou escola particular até o final do ensino médio. Tinha tanto menino bonitinho na sua sala, ela te dizia. Um dia peguei ela dando socos no ar. Ela chorava igual criança quando se perde dos pais. Ela murmurava com a boca torcida para os próprios ouvidos. Ela se perguntava aonde tinha errado pra filha gostar de preto.

E o seu pai tentou acalmá-la. Levantou-a. Deu três tapas de leve em sua cabeça e beijou sua testa. Ele olhou pra porta e me viu lá. Ele procurou minha essência. Olhava o mais profundo que seus olhos rasgados podiam chegar. Cavava-me. Entendi que aquilo era um pedido de desculpas. Acenei e fui embora.

Quando descobriram que o primeiro namorado dela era preto e que sua avó a trancou em casa por semanas até o seu avô dar um jeito no preto, eu senti pena. Mas curti. Eles disseram pra ela que o preto havia se casado com outra e que era assim que deveria ser e que preto era assim mesmo. E ela engoliu a lorota e ficou por isso mesmo.

E eu te disse que colocaria sua mãe nas minhas histórias. E que ela havia mudado minha vida e você só dava risada. Mas eu te disse. E eu coloquei. E você me disse pra esquecer. E disse que amava. E eu disse que eu também. Mas eu menti. E quando a gente finalmente terminou, eu curti. Era o ciclo. Mas sinto falta do olhar de sua mãe.

 

 

 

***

 

 

 

Cisto

 

Brotou um cisto na minha orelha e ela está de papo com o cabeludo de novo. Descobri que não sei escrever histórias longas. Não tenho imaginação. O resultado do concurso saiu. Na Paraíba minha prosa não é muito popular.

As primeiras palavras brotaram de novo. Uma a cada minuto. Deve ser o cabeludo e eu preciso deixar meu cabelo crescer. Ficar com cara de autor. Entrar pro meio e chamar o editor no inbox. Elogiar sua revista. Sua curadoria refinada e, aí sim, seria popular na Paraíba.

É preciso ser popular na Paraíba. Cada um ganhou uma menção honrosa na câmara municipal. Dez exemplares, um pra cada. Só.

Muito bem, editor. Bela revista. Tem um cantinho de página pra mim? Eu deveria me preocupar com o cabeludo. Não posso deixar meu cabelo crescer, brotou um cisto na minha orelha.

Descobri que só sei falar de mim. Autoficção está na moda e os premiados já a desprezam. Jogam tudo no mesmo bolo. Chamam de merda narcisista. Ok. Eles são populares na Paraíba. Estão certos. É preciso ter imaginação.

Vi uma foto de Guimarães com os jagunços. Vi um filme de Hemingway no bar, no meio de Cuba, tomando cachaça com os pobres. É preciso ter imaginação. Mas brotou um cisto na minha orelha e não posso deixar o cabelo crescer.

O cabeludo toca violão. Deveria aprender a tocar violão, ficar com cara de autor que toca violão. É uma boa ideia escrever e tocar. Um homem com imaginação. Vi no jornal que o premiado leciona música na universidade. Toca violão e ganha prêmios. Deve falar francês. E essa é outra boa ideia.

É preciso ser popular na Paraíba. Não sou do meio e aí fica bem difícil mesmo. Falta o enredo. Mete lirismo nessa prosa, rapaz. Sobra lirismo na Paraíba. Ele é premiado, o cabelo é grande, escorrido, cabeludo, toca violão e deve falar francês. Pronto. Lirismo.

Poesia. É sempre bom ser poeta nas salas do departamento de música. Músico com cara de autor, premiado, cabeludo, arrastando seu violão.  Fala francês e conjuga verbos corretamente.

Parece uma boa ideia. É legal ser autor com cara de autor. Os editores colocam a foto embaixo do conto.

Chegou um e-mail. Um convite. É um curso. Escrita criativa. O professor-autor desta vez não tem cara de autor, nem de professor. Não é cabeludo e como eles podem vender uma coisa dessas? Se vou pagar por um curso de escrita quero um autor com cara de autor. Cabeludo. Mínimo. Serragem no rosto. O professor-autor que ensina que editoras estão fora de moda e que o negócio é fazer os cursos que, aliás, ele mesmo dá. Auto-publicar-se-ei. Fazer um evento. Chamar seus amigos – não esqueça de seu professor. Ganhar vários tapinhas nas costas. Não vendeu. Resistiu.

Brota mais três mensagens do cabeludo no celular dela.

Vou operar do cisto e deixar meu cabelo crescer.

Ele dói.

 

Danilo Brandão nasceu em São Paulo e mora em Londrina, interior do Paraná. É estudante de Jornalismo na Universidade Estadual de Londrina. Tem textos publicados em sites, revistas e jornais literários.

 

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123ª Leva - 01/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Analice Martins

 

Desenho: Raquel Piantino

 

RUÍNAS

 

O que se decompõe
também conta uma história.
Outra:
pelo avesso.

As cores que esmaecem
têm brilho próprio.
Outro:
lusco-fusco.

As paredes trincadas
reverberam suas nervuras.
Outras:
cicatrizes.

O tempo que se contorce
se ergue em ruínas.
Outro:
natimorto.

 

 

 

***

 

 

 

LA CITTÀ

 

Percorrer uma cidade,
derrubar seus muros,
furar suas paredes,
arrancar sua pele,
até que,
núbil,
ela se curve
como o mapa
roto
que se dobra
e se guarda.

 

 

 

***

 

 

 

CROMOTERAPIA

 

Por todos os lados,
um verde incrédulo
atravessa janelas e paredes.

Come traças e ruínas,
deita luz
em corações silentes.

E grita uma alegria
espantalha.

 

 

 

***

 

 

 

AMPULHETA

 

Para o que tarda,
não há mais tempo
no célere deslizar dos dias.

Tempo não há para esperas.
O amanhã sempre chega
antes.

Parem os ponteiros.
Quebrem os relógios.
Clamem o tempo da gestação.

Não roubem da fruta
nem da flor
sua delonga.

Deixem que o remoto e o ermo
comam da estrada
a poeira.

 

 

 

***

 

 

 

ABRACADABRA

 

Na parede branca e lisa,
a realidade
escorrega
sem contornos,
inexistente.

Dentro da moldura,

na parede branca,
a realidade
se ergue
outra.

A que é entrevista

pela janela,
essa,
não a inventamos.

Mas a que aprisionamos,

em cores e linhas,
é a que nos inaugura
a vida e os desejos.

 

 

 

***

 

 

MAGIA

 

O traço na página em branco
cava a palavra,
que tomba em gruta
profunda.

O eco da palavra escavada
distorce o sentido.
Inventa uma outra
vertigem.

A página em branco é caverna
de paredes e ásperas entranhas.
Precisa da teima e da urgência
de quem a percorre.

A sombra do traço entrevisto
ganha a cor do desejo imaginado.
Eis a magia que propicia
a coisa.

A coisa que – sólida –
o desejo inventou,
e o traço riscou
na parede branca e muda.

 

Analice de Oliveira Martins nasceu em Campos dos Goytacazes (RJ), é Doutora em Estudos de Literatura pela PUC-RIO. Leciona Literatura Brasileira e Literatura Comparada no IFF campus Campos Centro e atua também, como professora e orientadora, nos Programas de Mestrado e Doutorado em Cognição e Linguagem da UENF. Pesquisadora e ensaísta, é autora do blog Rumores e Ruídos, no qual publica crônicas e poemas.

 

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123ª Leva - 01/2018 Jogo de Cena

Jogo de Cena

Nuances da diferença

Por Vivian Pizzinga

 

Cássia Damasceno / Foto: Nana Moraes

 

Preto, novo projeto da companhia brasileira de teatro, com direção de Marcio Abreu e dramaturgia dele, Grace Passô e Nadja Naira, se inicia a partir da fala pública de uma mulher negra e é fruto de uma investigação sobre as formas de lidar com a diferença e, mais do que isso, sobre as formas de recusá-la em nossas sociedades. E o fruto dessa investigação está bem longe de ser um espetáculo qualquer, no que traz de riqueza de linguagens, arrojo na montagem e, sobretudo, importância do assunto tratado. Os desdobramentos do trabalho do grupo no espectador são impacto e reflexão, para dizer o mínimo.

Há uma fala de Angela Davis, em uma conferência realizada em Salvador, Bahia, em 2017, reproduzida no texto de Marcio Abreu no programa da peça, que vale a pena repetir aqui, pois ela é a síntese do que Preto consegue promover: “Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela, porque tudo é desestabilizado a partir da base da pirâmide social onde se encontram as mulheres negras, muda-se a base do capitalismo”.

A observação de Angela Davis é certeira, e talvez sirva para todas as outras bases de pirâmides sociais mundo afora, e para todos os demais pensamentos que enxergam na luta no coletivo – e somente no coletivo – a maneira de mudar radicalmente os alicerces de sistemas habituados ao cacoete da injustiça e da desigualdade social, em todos os seus aspectos. E é interessante como se pode fazer uma transposição dessa fala ao espetáculo, como se este último conseguisse, em sua dramaturgia, expressar exatamente o que ela aponta, traduzindo a ideia para a linguagem teatral: no início, uma mulher negra se movimenta, é a fala de uma mulher negra, como a introdução de uma conferência ou um seminário, que começa questionando a posição da mesa e do microfone. Os espaços que as coisas ocupam direcionam também os espaços que as pessoas ocupam, a arquitetura dos lugares tem influência sobre comportamentos (Foucault já observava isso ao estudar o hospital, os manicômios e os presídios). Mudar os móveis, as posições, os lugares, as funções, os papeis provoca, necessariamente, outras mudanças menos concretas e que têm grande chance de atingir as atitudes e a cultura. Da mesma maneira, nesse início de espetáculo, tudo começa aparentemente de modo obediente, cada coisa no lugar onde se espera que esteja, e a fala da mulher aponta a problemática desses lugares. A partir daí, o desenrolar do espetáculo é então uma espécie de furacão crescente, de ampliação das ideias em forma de fala, dança, música, tal como as mulheres negras que, ao se movimentarem na base da pirâmide, movimentam a pirâmide inteira. E tudo isso é acompanhado pela trilha sonora que Felipe Storino executa ao vivo.

A força e o arrojo perpassam a peça integralmente, desde a delicada e envolvente cena protagonizada por Grace Passô e Renata Sorrah, em que, muito próximas fisicamente, dividem um mesmo microfone para ir descrevendo uma aproximação afetiva e corporal entre mulheres, cujo desfecho brilhante da cena não comentarei para não estragar, até a fantástica dança com Felipe Soares e Rodrigo Bolzan, numa espécie de duelo corporal e coreográfico – o homem branco e o homem negro dançarinos – com enormes cabeças que são suas caricaturas, promovendo o contraste entre a expressão da dança e a inexpressividade da máscara.

 

Renata Sorrah e Grace Passô / Foto: Nana Moraes

 

A cena em que Cássia Damasceno se apresenta prometendo sambar, para depois prometer cantar, e depois prometer ficar sozinha para o público, traz também uma palpitação qualquer difícil de explicar, talvez por gerar a expectativa de que algo supostamente óbvio vai acontecer, a mulher negra com voz potente e gingado prestes a entreter uma plateia: ela vai, volta, abre a boca como quem está na iminência de um grito ou uma nota ou um protesto, sai e retorna, e nada acontece do que se espera acontecer, embora tudo aconteça do que não se espera acontecer. Essa cena, como a peça inteira, promove um desarranjo nas expectativas tradicionais, nas ideias prontas, porque cutuca uma questão primordial: como lidar com a imagem e o que esperar da imagem? A imagem do branco, a imagem do negro, a imagem do artista, a imagem da mulher brasileira que samba e rebola, a imagem do prazer, a imagem que o outro faz de nós e sobre a qual não temos a menor possibilidade de ajuste, retificação ou controle, como lidar com isso?

Perguntas sobre “como você se vê” ou “como é carregar a sua imagem por aí” ou “você tem problema com a imagem” ou “posso então tirar uma foto” geram desconforto e reflexão por parte dos atores-protagonistas, cujas contradições ficam explícitas na discrepância entre respostas dadas e comportamentos.

Ao final da apresentação a que tive oportunidade de assistir fascinada e capturada, observei que, após os aplausos, a plateia foi se retirando do Teatro III do CCBB de modo silencioso. As pessoas pareciam impactadas, e em vez de interagirem entre si comentando sobre a peça ou o que quer que fosse, saíam um pouco mudas, talvez porque a montagem seja mesmo de tirar o fôlego e o chão, gerando certa dose de fascinação que é preciso mais sentir do que falar.

 

Vivian Pizzinga lançou os livros de contos Dias Roucos e Vontades Absurdas (Oito e meio, 2013) e A primavera entra pelos pés (Oito e meio, 2015), além de ter participado de algumas coletâneas, sendo as mais recentes Cada um por si e Deus contra todos (Tinta Negra, 2016) e Escriptonita (Patuá, 2016). Trabalha também com psicanálise e Saúde do Trabalhador.

 

Categorias
123ª Leva - 01/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Adrian’dos Delima

 

Desenho: Raquel Piantino

 

A DANÇA

 

Há uma poesia
de tal tamanho
querendo pôr
meu corpo em movimento
Que saio
sem rumo certo
para a rua
por esta tarde
agradável de inverno
onde algumas folhas
balançam
orelhas ao vento

 

 

 

***

 

 

 

SUBURBE

 

A tarde tinha um ar grisalho ao terminar
Onde as lâmpadas mais altas
Acendiam cabeças
De vaga-lumes pálidos

Eram os pescoços desta cidade baixa
Que se esticavam nos postes
Talvez para ver além dos telhados
Presos que estavam na borda da calçada

Se pudessem se lançavam
Por cima do chapéu do morro
Para o céu estrelado que à noite
O teto das metrópoles usa

Para iluminar com os poetas
Os vultos que a lua projeta
Os vãos escuros entre os edifícios
E a sombra da miséria sob os viadutos

 

 

 

***

 

 

 

PHATO

 

Fato exposto (FRATura)
TRACtor feito feito TRACto
faTOR-faTURA

PRAto posto

R
uralmente
rURp

 

 

 

***

 

 

 

O VOTO DO SILÊNCIO

 

Escute um discurso contemporâneo

O verdadeiro nadador
é aquele que cruza os braços
diante da água.
A estrela mais bela
ainda está por ser descoberta.
O grito
que vale a pena ser ouvido é o do mudo.

Incorre em erro
aquele que diz o que acha que sabe
porque a verdade está escondida
e em constante movimento.

Se você repete estas frases, você tem alguma chance

 

 

 

***

 

 

 

OS PEIXES

 

Tocando com os dedos no vidro,
Os peixes dentro do aquário
Se movimentam, seguindo-os.

Ao contrário, com peixes dentro,
A um toque invisível no monitor
Se movem os peixes do lado de fora.

 

 

 

***

 

 

 

TURVBILHÃO

 

O ventilador olhou dois lados
Eu dormi
Ele virou pro outro
E enterrou fundo
As hélices pela janela
Numa nuvem de chuva

 

Adrian’dos Delima (Canoas, RS), pseudônimo para Adriano do Carmo Flores de Lima, é poeta, tradutor, teórico de poesia e compositor. Cursou Letras, habilitação Tradução na UFRGS, onde não se graduou em função de dificuldades econômicas. Publicou em revistas impressas e online, como a Germina, a Babel Poética e a Sibila. É autor dos livros “Consubstantdjetivos ComUns (Vidráguas e Gente de Palavra, 2015)” , “Flâmula e outros poemas (Gente de Palavra, 2015)” e “Aqui fora o olholhante (Vidráguas, 2017).