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121ª Leva - 06/2017 Galeria

Pintura: Cláudia R. Sampaio

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120ª Leva - 05/2017 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Foto: Angelik Kasalia

 

Chegando a 120 edições, estamos certos de que os caminhos da revista atingem um patamar cada vez mais desafiador. As marés digitais têm representado um universo de transformações permanentes no sentido de apontarem novos rumos a serem empreendidos. Testemunhamos mudanças de cenários e comportamentos nos mais distintos momentos de nossa trajetória até aqui. A própria noção de uso dos suportes midiáticos eletrônicos encerra uma exigência bastante voltada para a questão da instantaneidade das experiências de leitura. E bem sabemos que este é um movimento que não vai cessar, pois há sempre um outro paradigma prestes a entrar em cena. Diante dessa constante alteração de rotas, autores e artistas são impelidos a fazer com que suas criações encontrem estratégias eficazes de comunicação com o seu público. A compressão tempo-espaço fomentada pelos trânsitos da internet trouxe, sem dúvida, uma perspectiva revolucionária em matéria de aproximações entre produtores de conteúdo e leitores. Nesse quesito, a literatura, por exemplo, tornou-se uma arte mais acessível, inclusive em relação a pessoas que não possuíam certa intimidade com ela. A perspectiva de compartilhamento das produções escritas, característica marcante dos tempos atuais, faz girar uma roda que antes talvez estivesse restrita apenas a determinados eleitos. Decerto, sempre partimos da compreensão de que há os naturais interessados pelos feitos literários e artísticos em geral, e que estes buscam voluntariamente aquilo que lhes interessa. Entretanto, podemos considerar que as ferramentas de divulgação trazidas no contexto contemporâneo acabam atingindo, mesmo que de modo desavisado, potenciais interessados em consumir conteúdos de tal monta. O resultado disso é um despertar de atenções que pode significar um incremento na via da recepção dos conteúdos. Ou seja, há mais gente tendente a ler e apreciar uma obra do que supõe a nossa vã convicção de outrora. O xis da questão talvez seja pensar quais seriam os mecanismos mais importantes para tornar as produções culturais algo verdadeiramente próximo das pessoas. Quiçá um dos propósitos de revistas digitais como a Diversos Afins seja o de encurtar distâncias, trazendo pra perto de seus projetos o olhar curioso e questionador de outro tipo de leitor.  O tempo dirá. O fato é que haverá por estas bandas sempre alguém pronto a estabelecer elos. É o caso de poetas como Lilian Aquino, Leandro Rodrigues, Dheyne de Souza, Jorge Elias Neto e Ana Pérola, os quais embutem em seus versos vozes que falam ao mundo. Trazendo à baila um olhar sobre a coletânea de poetas e fotógrafas “Profundanças 2”, Geraldo Lavigne de Lemos aponta as razões pelas quais a obra merece ser lida. São da fotógrafa grega Angelik Kasalia as imagens que percorrem os mais diferentes recantos da nossa nova Leva de epifanias. O poeta e editor baiano Jorge Augusto, ao nos conceder uma entrevista, revela o que pensa sobre o seu ofício e as paisagens literárias contemporâneas. São os contos de Itamar Vieira Junior, Alê Motta e Marcus Vinícius Rodrigues que mobilizam modos peculiares de conceber a vida. Em matéria de cinema, Guilherme Preger traz à tona as delicadas questões presentes no filme nacional “Fala comigo”. Vivian Pizzinga discorre sobre a montagem brasileira da peça argentina “Entonces Bailemos”. Num território que remonta a lembranças de um período especial da nossa música, Sérgio Tavares escreve sobre “Só se for a dois”, segundo disco solo do cantor e compositor Cazuza. Sempre com a disposição de ampliar horizontes, a Diversos Afins segue seu rumo. Seja bem-vindo (a), caro (a) leitor (a)!

 

Os Leveiros

 

 

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120ª Leva - 05/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Jorge Elias Neto

 

Foto: Angelik Kasalia

 

Manual para estilhaçar vidraças

 

Da raiz do nome
esses dedos cravados
no beiral da fenestra
extrair a resina impura.

Forjar as velas,
acender o arrebol
na cela escura.

Sugar o ar,
queimando os segredos
da memória das frestas.

Comemorar o vácuo
estendido no vazio
entre as unhas
e paredes.

Tornar insuportável
o convívio com a fumaça
do tempo
…...̶ desfazer-se da saudade.

Alardear a fuga
inútil da cama,
o suicídio das fotografias.

Com a cor das tintas
…………………………na pele,
se esfregar nas quinas
para sufocar seu cheiro.

Cuspir nas plantas secas,
urinar nas portas,
misturar-se ao cheiro das cinzas.

Soltar o grito
e descobrir-se eco.

Serrar os pés da cadeira
……..─ espalhar no piso
a última réstia da certeza.

Arregalar os olhos
─ sustentar as pálpebras
e sua obtusa fuga.

Não contornar os segredos
─ sacrificá-los.

(Perceber que o fora
é um longe,
e o dentro,
……………barreira intransponível..)

Sentir o arrepio das cortinas,
………….o crepitar dos tacos,
………….o suor da vidraça.

Sujar de sangue
a moldura sem espelho.

Reparar na janela
e sua mirada sem luz.

No breu da não-paisagem
misturar um circulo negro
…………….─ alvo no escuro.

Pressentir o estalo
da grade.

Dispensar o portal
da crença.

Aceitar o flagelo do ícone,
…………..a lascívia dos místicos.

Ao que ofusca,
o aceno,

……….ao que enrosca,
……….o degredo.

Reter o passo,
recolher no ócio
o espanto.

Ouvir o canto
da primeira trinca
……..o pio agudo
……..nas rachaduras.

……………..Estampido,
estilhaços sem rumo,
restos de tudo.

Lançar-se aos cacos
…..─ fôlego dos dias.

Recolher a sombra,
a imagem bipartida.

Perseguir a identidade,
levantando as pedras
das vias túrbidas.

 

 

 

***

 

 

 

Sob a pele

 

O corte,
a pele
– precipício.

Nem todo o fim
se desfaz em noite.

(. A noite decide o nome
de seus filhos..)

O abraço,
a espiral
– o Mundo.

Um recado do desastre
ao pé do ouvido.

( .O traço sob a pele
– cabedal de vícios ..)

 

 

 

***

 

 

 

Livro negro

 

(. Do canto obscuro
a beira do mito,
percorre-se o possível..)

Medusa,
Sangre minha língua,
Recubra de vida a hóstia
– alento do passado.

Musa,
surpreenda o que no sossego
dos dias tingidos,
simplesmente – ignora.

Ruína,
desabe com
as casas mortas.

Sertão,
rege a cisma no terço
e aboio dos de minha carne.

Cedro,
desfaça a nave fenícia
e entorne o vinho sobre as águas.

Poesia,
transforme em ruído
o som da espera.

Palavra,
seja o orvalho
de minha passagem.

Madrugada,
resgata o aceno
do tempo em meio a névoa .

Eternidade,
Estende sobre as asas
a poeira das estrelas.

Solidão,
não ignore a oferta do corpo
que a procura de ti, salta.

 

 

 

***

 

 

 

Campo de batalha

 

A manhã se dissipava
em tons de normalidade

 

:Trincheiras
cobriam a distância
do silêncio

:Encostas
não se prestavam aos ecos

:Os sonhos
fluiam das valas
ao mar

( .Não se comemora a febre
onde inexiste vida..)

Na rede de intrigas
refringia o orvalho.

Nomes brotavam
florindo o charco

E o perfume
ignorava o olfato
da ausência.

(. O mais é um vazio
onde inexiste vida..)

A brisa revolvia
as cartas

………..letras alimentavam
………..os musgos

e os metais
entoavam louvores.

( .Pode-se falar de paz
onde inexiste vida..)

 

 

 

***

 

 

 

Noturno

 

O impulso carrega
uma promessa dos pés

Andava
─ confortavelmente ─
no escuro
.( .sentia o calor
das coisas mortas)

(..Quem o pariu foi o vento nordeste
…………………assustado
………………..com o apito do navio..)

Nas mãos
a lista dos homens tristes
e linhas tortas
─ desencontradas

A seu lado
uma inútil sombra
─ essa mundaneidade

Tinha a noite
e a paz das sarjetas abandonadas

O Mundo
acontecia dentro dos olhos

Deus
era imagem ausente
à margem da fábula

O corpo
─ acaso assombroso ─
rompia a escuridão
da Ilha morta.

 

 

 

 

***

 

 

 

Cabotino

 

Me gusta esta costumbre de la rubrica por lo inútil
Miguel de Unamuno

 

O sal curtiu
a corda exangue

Amarras e terços
costuraram os dias
a esta terra
ao cais do porto
e ao apito dos navios que conhecia pelo nome

Ir e voltar:
sonho de uma sombra

Até o dia
em que o Não a reconheça
e vibre a corda
lançando-a de volta
à sinfonia do esquecimento.

 

Jorge Elias Neto é médico, ensaísta, pesquisador e poeta. Capixaba, reside em Vitória/ES. São de sua autoria os livros: “Verdes Versos” (Flor&cultura ed. – 2007), “Rascunhos do absurdo” (Flor&cultura ed. – 2010), “Os ossos da baleia” (prêmio SECULT-2013), “Glacial” (Patuá – 2014), “Breve dicionário poético do boxe” (Patuá – 2015) e “Cabotagem” (Mondrongo – 2016). Publica regularmente nas revistas eletrônicas: Portal Cronópios de Literatura, Diversos Afins, Mallarmargens e Estação Capixaba. Membro da Academia espírito-santense de letras.

 

 

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120ª Leva - 05/2017 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Fala Comigo. Brasil. 2017.

 

 

Fala Comigo, primeiro longa de Felipe Sholl, foi o vencedor do Festival do Rio de 2016.  Antes deste, Felipe foi roteirista de alguns filmes como Campo Grande e Histórias só existem quando lembradas, além da direção de alguns curtas.

O tema do filme tem tradição no cinema. É a iniciação sexual de um jovem adolescente (de 17 anos) com uma mulher madura (de 43). É só pensar em A Primeira Noite de um Homem (The Graduate, Mike Nichols), O Verão de 42 (Robert Mulligan) e o grande clássico A Moça com a Valise, de Valerio Zurlini.

No cinema brasileiro, no entanto, é um tema incomum.  Há alguns filmes com o par trocado, sobre a relação entre uma moça e um homem mais velho, como À Deriva, de Heitor Dhalia, e A Menina do lado, um clássico de Alberto Salvá. No cinema brasileiro, a referência mais óbvia para um roteiro entre um jovem, no caso uma quase criança, e uma mulher mais velha é obviamente Pixote, de Hector Babenco, um filme com que Fala Comigo tem pouco a ver.

O longa de Felipe Sholl se parece mais com Casa Grande, um filme recente que também apresenta a iniciação sexual de um jovem de classe média carioca. No entanto, a aproximação entre os filmes se dá mais no ambiente de classe e na relação desencontrada entre jovens e pais dessa classe. Outros filmes recentes como o carioca Mate-me, por favor e Que horas ela volta? também apresentam o mesmo conflito.

É interessante observar que esses filmes contemporâneos abordam conflitos entre pais e filhos. O gap geracional é um tema ainda mais frequente da história do cinema. No entanto, um senso comum nos diz que a distância entre as gerações tem diminuído, que pais e filhos cada vez mais compartilham de mundos mais próximos e que isso se deve a uma infantilização dos adultos e certo amadurecimento dos jovens.

Fala Comigo partilha de algumas preocupações etárias e sociais com todos esses filmes, mas é diferente e singular entre eles. A história é sobre Diogo (vivido por Tom Karabachian), rapaz em idade escolar, músico, e Angela, (vivida magistralmente por Karine Teles) mulher madura, traumatizada por sua recém-separação, de profissão indefinida. Ela é atendida em análise por Clarice (Denise Fraga), psicanalista, mãe de Diogo. O casamento de Clarice com Marcos (Emílio de Mello) também está em crise de separação. Além desse quarteto, também há Mariana, a pequena irmã hipocondríaca de Diogo.

Diogo alivia sua tensão sexual adolescente telefonando anonimamente para as clientes de sua mãe, cujos contatos obtém clandestinamente, e se masturbando silenciosamente. Num de seus telefonemas, ele reconhece que Angela está próxima a uma tentativa de suicídio e a socorre. O romance entre os dois começa a partir desse fato e se desenvolve a partir daí sem resistências entre o casal. Os obstáculos virão de fora.

 

Denise Fraga e Emílio de Mello em cena / Foto: divulgação

 

Diferentemente de Casa Grande e Que horas ela volta?, o filme de Sholl parece não se importar em assinalar e confrontar a diferença de classes, um tema bastante frequente no cinema brasileiro contemporâneo. O que não quer dizer que a questão de classe não esteja presente. Todo o filme se passa em interiores de apartamentos de classe média da zona do sul do Rio de Janeiro e não tem praticamente externas. Numa de suas cenas iniciais, vemos a família em volta da mesa jantando. Há pouca comunicação entre pais e filhos enquanto comem. A estranheza dessa cena não é propriamente o silêncio, mas a persistência desse hábito de jantar em conjunto, em volta da mesa, com as posições parentais e filiais assinaladas, uma situação cada vez mais rara na vida social, porém que permanece como um índice de classe. Esse índice também transparece na pouca preocupação econômica de todas as personagens.

O fato é que questões sexuais, distâncias geracionais ou conflitos de classe parecem não ser exatamente o motivo principal de Fala Comigo. Em particular, a sexualidade do jovem Diogo e sua relação com uma mulher mais velha são provavelmente mais um Mcguffin do roteiro, apenas um elemento de atração. A questão principal parece ser mesmo a dificuldade de comunicação de todos com todos. Essa dificuldade está estampada, obviamente, no próprio título do filme. Uma dificuldade que se expressa mais no escutar do que no falar.

Ao se concentrar no núcleo familiar burguês, o filme revela sua temática psicanalítica. Não apenas a mãe de Diogo, Clarice, é psicanalista e Angela é sua analisanda, mas o consultório é na própria casa de Clarice. Ou seja, o lar de Diogo também serve de consultório de análise. Assim, a trama psicanalítica enreda-se em seu ambiente preferido: o lar, os conflitos edípicos, a torrente da libido e as rotas de fuga do desejo. Mas seria um erro considerar que Diogo encontra em Angela uma substituta desejável para o lugar de sua mãe. A fuga aqui não é tanto do sufoco familiar, mas da própria psicanálise.

Assim, quando Clarice acusa Angela de querer substituir o filho que ela nunca teve por Diogo, essa acusação violenta e injusta se dá dentro de um perfeito enquadramento psicanalítico. Angela só pode lhe responder que ela não está entendendo nada como psicanalista, assim como não está entendendo seu filho, que não é um cliente. Numa discussão cara a cara com sua mãe, Diogo se recusa acertadamente a sentar no divã.

 

Karine Teles e Tom Karabachian protagonizando Fala Comigo / Foto: divulgação

 

Fala Comigo é, portanto, um filme de crítica à psicanálise, mas esta crítica é realizada “por dentro” da obra. Uma das canções do filme, Freud sits here, de Letuce é uma sugestão sofisticada dessa relação. A crítica do filme se faz por um deslocamento ou uma inversão. O psicanalista também precisa sentar no divã e ser ouvido. Daí a ambiguidade do título: o importante não é falar, mas ter uma oportunidade de escuta. A escuta pode ser silenciosa, como na cena em que pai e filho ouvem a canção compartilhando um fone de ouvido. Ela também está presente na relação entre Diogo e sua irmã menor. Apenas ele realmente é capaz de ouvi-la e aliviar sua hipocondria precoce sintomática.

E assim também o próprio relacionamento sexual entre Angela e Diogo, nunca explícito, corre sem grandes obstáculos ou impedimentos internos, pois não é o essencial. Há mesmo uma desdramatização da relação entre o casal. Os obstáculos, como o inferno, são os outros.  O que é importante é que a relação aconteça entre quem pode se entender e se comunicar. Ambos se ajudam mutuamente para tomarem distância de seus próprios lugares. Num momento tão difícil para o país, são poucos os filmes que se dão o direito a uma utopia.

 

 

 

Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor. É autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Ed. Oito e Meio/2014), e um dos organizadores do coletivo literário Clube da Leitura no Rio de Janeiro, tendo participado como autor e editor das três coletâneas lançadas pelo grupo. Atualmente, é doutorando em Teoria Literária da UERJ, onde realiza pesquisa sobre a aproximação entre Literatura e Ciência. Escreve sobre cinema desde 1995, quando recebeu um prêmio de crítica literária do Grupo Estação e do Jornal do Brasil num ensaio sobre o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha.

 

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120ª Leva - 05/2017 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Alê Motta

 

Foto: Alê Motta

 

Meu chefe

 

Na reunião ele arrasou comigo. Pela décima vez não aceitou minha proposta. Riu dos meus argumentos. Zombou dos itens que listei. Foi sarcástico.

Esperei que ele terminasse a terceira xícara de café para pedir licença e sair. Meus colegas não olharam. Pena. Vergonha.

Desci os dois lances de escada. Na recepção dei um beijo na secretária. Na porta do prédio comprei um picolé. Na esquina dei sinal para um táxi. No taxi olhei o relógio.Três xícaras. Impossível não fazer efeito.

 

 

 

***

 

 

 

Convite 

 

Minha ex-namorada finalmente aceitou um convite para um cinema. Desde que terminou o namoro comigo eu tentava uma chance, afinal ela ficou pouco tempo com o desgraçado com quem me traiu.

O filme era Guerra Civil. Ela era louca pelo universo Marvel. Minha camiseta a fez sorrir. Pegou no meu braço e fez carinho no meu peitoral.

Antes do filme começar nos beijamos. Vimos todo o filme abraçados. Três segundos após a cena final saí do cinema. Lamentei perder os extras.

Escolhi muito bem a camisa. Vermelha. Homem de ferro. Na rua lotada ninguém notou os respingos de sangue.

 

 

 

***

 

 

 

Órfãos

 

O pai do Valério morreu de câncer. O pai do Sílvio morreu de infarto. O pai da Celeste foi atropelado em Copa. O pai do Joca se jogou da ponte. O pai do Milton morreu de velhice. O pai da Maria morreu de susto – um assalto na Avenida Brasil. O pai do Guilherme foi uma bala perdida no Andaraí. O pai da Glória morreu esmagado por um caminhão na obra do Shopping Carioca. O pai do Soares morreu num acidente de carro na Dutra. O pai da Lenice morreu esfaqueado num bar em Campo Grande. O meu pai foi comprar cigarro e voltou.

 

 

 

***

 

 

 

A velha

 

Passou a vida sentada. O motivo era a existência da televisão. Engordou de não caber em roupa pronta. Vestia uns panos grandes, quase lençóis.

Era feia a velha. Muito feia. Mancava de uma perna. Faltava dente na boca. Os cabelos eram ralos e espetados.

Morreu ontem de tardinha. Engasgada com um pão francês lotado de manteiga. Na confusão do engasgo o canecão de café com leite entornou e coloriu o sofá.

Era feia a velha. Muito feia. Mas era uma avó legal.

 

Alê Motta nasceu em São Fidélis, interior do estado do Rio de Janeiro. É arquiteta formada pela UFRJ. Participou da antologia “14 novos autores brasileiros”, organizada pela escritora Adriana Lisboa. “Interrompidos” é seu livro de estreia. 

 

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120ª Leva - 05/2017 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Das profundanças

Por Geraldo Lavigne de Lemos

 

 

Há livros que são decisivos para a interpretação de um tempo. Registram fatos. Abordam temas. Promovem o diálogo. Fazem as pessoas avançarem, evoluírem. Alguns desses livros são constituídos de entranhas. São matéria viva, pulsante. São palavras vindas das profundanças. E tal conteúdo adere ao corpo do leitor. Quem o lê, ressignifica o mundo e o que nele existe. Antes, ressignifica-se.

Profundanças 2 reúne 16 escritoras: Aidil Araújo Lima, Ana Mendes, Andréa Mascarenhas, Daniela Galdino, Dayane Rocha, Débora Ramos, Erika Cotrim, Haísa Lima, JeisiEkê de Lundu, Laiz Carvalho, Larissa Pereira, Lílian Almeida, Mel Andrade, Miriam Alves, Rita Santana e Thalita Peixe de Medeiros. Não cabe a mim falar sobre cada uma delas, pois sendo uma, elas são todas, e sendo todas, elas são uma. O que eu poderia dizer sobre uma que não coubesse a outra? Incapaz de distingui-las dentro do discurso uno que o livro traz, e que assim foi feito para assumir a voz de cada mulher, coube-me expor o livro que não inaugura eventos sobre suas vidas – posto que está carregado da luta para livrarem-se de uma condição imposta –, mas assume uma voz antes inaudita, pois era calada.

Daniela Galdino organizou a antologia, que é literária e fotográfica. Ela também foi responsável pela apresentação e expõe sem meias-verdades o que precisa ser dito. A cada frase, o eco de quem hasteia uma bandeira com todos os brasões. O trecho de Conceição Evaristo que serve de epígrafe fala sobre o livro, colhido no céu da imaginação, repartido em folhas dadas às autoras e fotógrafes – como grafado no livro –, e, depois, aos leitores, antes que o sonho perca o penetrante toque da arte pura. Profundanças 2 ressalta a trajetória da mulher pelos caminhos da resiliência. Diz claramente que há um gene comum entre Frida Kahlo e elas, seja biológico ou não, e a sociedade insistentemente fracassa em desativá-lo.

Se uns textos tiram a mulher do sofrimento cotidiano e passam-lhes bálsamo nas feridas, outros são reações enérgicas contra as injustiças que lhe são imputadas. O leitor encontrará o depoimento de todas elas. E preste atenção: eu não disse confissão, segredo, desabafo… eu disse depoimento. Em alguns casos, sentirá o vento frio do inverno sobre o corpo nu; em outros, o sopro abafado do verão no areal. A própria voz é a principal ferramenta adotada pelas autoras, que, sabendo-se parte de um todo, dialogam de mãos dadas com as mulheres e olhos nos olhos com a sociedade. Quando alguma autora assume outra voz, retoma, em verdade, aquele gene comum citado acima, de forma que fala também sobre si. No entanto, não cala a outra voz. Serve, sim, de canal, para que todas sejam ouvidas. Elas são voz e porta-voz.

O leitor, por outro lado, conforme se apresente, terá orvalho ou geada, mas ambos resultantes da noite que elas atravessaram. A leitura poderá incomodar o leitor, se a mordaça estiver em suas mãos. Digo, porém, que o leitor de mãos livres sentirá confiança, se partilhar dos sinais que o livro aponta. Não vou falar ainda em felicidade e justiça, porque são dois estados a serem alcançados quando não houver mais obstáculos causando sombras e penumbras.

Tem-se prosa e verso. Na prosa, vemos regras clássicas e novas aplicações gramaticais. No verso, há os livres, os rimados, os metrificados, e as formas preestabelecidas, como o soneto. Em todo caso, há precisão. A linguagem dos textos é moderna e, embora às vezes pareça truncada, traduz o discurso interrompido pela sociedade e terminado pelas mulheres, porque elas são fortes. A inovação da literatura está presente no livro como está presente nas frestas de luz que os textos permitem ver. A novidade literária surge no desdobramento da própria reinvenção existencial das autoras, que sem perder a identidade e a meta, conseguem construir caminhos em qualquer ambiente.

A leitura flui muito bem, sempre alerta e renovada. Quando os temas são pontuais, a autora vai bem fundo, sem perder o fôlego. Quando os temas são mais abrangentes, a visão amplia sobre uma extensa superfície, até que o ponto nevrálgico seja atingido de uma forma contundente. O leitor permanece desperto a cada página, enquanto o cotidiano passa cru e objetivamente.

Umas das qualidades que se procura na literatura é a condição imagética, capaz de conduzir o leitor por cenários diversos a partir dos enredos. Os textos têm tal condição trabalhada com primor. E vão além. Em Profundanças 2 há uma via de mão dupla com a iconografia, pois as autoras foram registradas em ensaios por 19 fotógrafes, que foram, na respectiva ordem de apresentação das autoras, Camila Camila e Letícia Ribeiro, Josi Oliveira, Henrique Valença, Ana Lee, Cláudio Gomes, Andrezza Tavares, Haísa Lima, Catarina Barbosa, Lanmi Tripoli, Mariana Lisboa e João Caique, Adrian Greyce e Rodrigo Iris, Inajara Diz, Brenda Matos, João Santana, Shai Andrade, e Ytallo Barreto. Cada autora ainda recebeu uma ilustração de Bruna Risério. As fotos e ilustrações são figuras poéticas que acompanham os textos das autoras e trazem mensagens agora capazes de conduzir o observador por enredos a partir das imagens. É a inversão da arte que se espera em uma antologia literária; a transmudação para uma antologia fotográfica. A perspectiva muda. Contudo, leitor, lá estão os mesmos sinais.

Os ensaios e as ilustrações avançam sobre a descrição biográfica das autoras que, tendo deixado detalhes nas entrelinhas das poesias, deixam também nas entrecores e entreposes das figuras. Fotógrafes e a ilustradora conseguem traduzir em imagens as autoras, aproximando-as ao leitor. Um trabalho exitoso, que dá continuidade ao conteúdo, sem sabermos qual antecede qual, porque literatura e iconografia se combinam em busca de traduzir sentidos e sentimentos. Resolve-se, por ora, o impasse entre a palavra imagética e a figura que vale mais que mil palavras. O objetivo é trazer à tona aquilo que por muito tempo foi depositado no fundo.

Se o primeiro volume de Profundanças criou um neologismo, o segundo volume fixa definitivamente o verbete no vocabulário brasileiro, significando aquilo que vem do íntimo, que é da sensibilidade humana e se expõe de forma transparente. Diga-se mais. O livro não se encerra no conteúdo literário e iconográfico. Há, ainda, uma valorosa equipe de produção que permitiu tamanha qualidade. Isto porque a intenção não se resume a publicar o livro. É trazer o tema à baila, discuti-lo repetidamente até que se afastem as grades da imposição.

 

 

* Para baixar Profundanças 2, clique aqui

 

Geraldo Lavigne de Lemos é advogado e poeta. Membro da Academia de Letras de Ilhéus, autor dos livros À Espera do Verão (2011), amenidades (2014), alguma sinceridade (2014) e Massapê: Solo de Poesia (2016), todos de poesia e pela Editora Mondrongo. Tem publicações em jornais, revistas, blogues e antologias. Desenvolve os poemas furta-cores desde 2014. Foi curador do II Festival Literário de Ilhéus (2017). Mantém o instagram @geralavigne.

 

 

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120ª Leva - 05/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Dheyne de Souza

 

Foto: Angelik Kasalia

 

Às vezes caminha em mim uma saudade que é um pouco arredia, um pouco insolente.
Ela vem com esses passos de noite como quem acorda um escuro.
Ela toma a mão dos meus sonhos e começa a cerzir metragens curtas.
Como se minha vida fosse uma fita me fita, essa memória meio insalubre, com os seus olhos de carpir montanhas. Com esses olhos de um tema curvo. Com essa displicência do momentâneo. Paisagem que dorme sem leito.
Mas não é sempre que me toca a pele esse vestido leve de sentir o peso.
Muitas vezes querendo que me perca me bato me espanco me ergo me enleio sentindo saudade desse modo específico de sentir falta.
É que ela me espinha o passado.
É que ela me aborta o presente.
É que me faz esquecer de ser para lembrar o que podia se fosse.
É que ela me ensina a ser forte, a ser grosso, a ser firme com seu meio ríspido de me tirar daqui. Com o seu gesto insípido de me lembrar que o instante é tudo o que tenho e deixo. Com o seu freio de desapego. Com o seu jeito, enfim, me devolve praticamente ileso.
Assim. Tem dias, confesso, que me pega bem preparado e eu lhe chamo de nomes bem feios – da forma que eu consigo dizer, que nunca fui muito afeito a maltratos. Mas digo mil coisas vis. Minto que esqueci de todo o berço. Grito que tenho costas limpas. Urro que no meu olho há cílios secos. Corro tanto a lembrar o quanto sou que tropeço e quando me aqueço azulejo já nem ri.
O que eu dizia mesmo?
Que às vezes ela não pisa nos meus medos.
E eu fico assim em vigília.
Eu fico assim dia a dia.
Sabe?
Eu vou ao supermercado e compro uma bala azeda.
Eu corto o cabelo em outra.
Eu rio uma piada negra.
Mudo de endereço. Danço. Corro.
Vou à academia louco a levantar esses pesos.
Bebo.
Mas ela me assiste em uma poltrona macia. Porque sabe que quando sento, quando meu olho esbarra na janela, que pena.
É uma ressaca pelada, sabe?
É quando falo com meu cigarro.
Quando me abro com um café, me banho um blues.
Quando tenho alma feito desmaio.
Olhando buracos.
Catando sílaba.
Medindo o vácuo.
Sentindo uma saudade oca de senti-la.

 

 

 

***

 

 

 

é feito de versos livres meus buracos
é leito de rasgos amargos, bordôs, quinas de alma quitada, muito bem riscadas, rasuras ranhuras alturas vesgas
são feitos de esquinas meus verbos
lânguidos. profanos. paralelepípedos logrados
deitados à rua como deitados à lua como deitados à alma sem tráfego sem traqueia

é feita de poros a língua
à míngua de tatos

 

 

 

***

 

 

 

das frestas

 

tem uma guelra na minha janela
movendo o olhar da paisagem
qual uma folha quando desperta
qual um transeunte quando erra
qual quimera, verbo na língua
quando bate no asfalto um sol a nado
tem uma morada
insone
nas minhas guelras

 

 

 

***

 

 

 

Poiesis

 

enquanto os risos escorriam nos pés
na grama
nos galhos
nos céus
dos outros no tempo
em que sempre voltamos
jamais estaremos

uma criança, longe, muda, exangue, sentada
num canto daquele muro
(como no canto dos outros muros que agora a
derrubam
feito um sino mudo)

nesse canto lhe deram uma rosa
era uma rosa comum, cor-de-rosa, jovem, justa, virgem
não soube o que fazer com tanta verdade
embora sequer soubesse disso
de que agora a memória sabe
do jeito que a memória sabe saber reticente

poderia ter passado a tarde toda
aquela criança
talvez eras
com a rosa nas mãos

poderia dizer do cheiro daquela pétala uma obra aberta
do tônus firme do seu corpo frágil
das inverossimilhanças do contorno
na sua cor silenciosa
dos rosas da rosa

se fosse dizível

mas quando o sol se punha
naquela época

pés sujos
risos suados
cabelos ventados
fôlegos rotos

mas a rosa
intacta
naquelas mãos tão pequenas meu deus e que já sustinham o medo
de ser túmulo

qual teria sido o erro
que cometeram aqueles dedos
incapazes ainda de todo mal que agora teciam tão displicentemente

tomaram-lhe a rosa sem
não foi sequer capaz de

despedaçaram todas as pétalas e sépalas
ouviam-se ranger suas veias
enquanto ensinavam que era assim
que se brincava com as flores

foi a primeira vez para ela
que a poesia
colheu o seu silêncio
humano

 

 

 

***

 

 

 

domingo, 17 de abril de 2016

 

do ódio que derrama dos dentes, independentemente da cor das gengivas, das camisas, das vias
da dor dos direitos lesados
do medo que descama nas mentes, dependentemente de vozes
que não vociferam virtudes
que não zelam
da história adquirida a suores a sangue a pancadas a vidas
ratos em vaginas
leis em latrinas
do absurdo de hastear a morte o golpe o cuspe o lustre
de deus da família dos nomes
instituições todas falidas
enquanto pisam repetidamente nos olhos nos ovos nos seios
do humano
ameaçado de mote
ameaçado de mote
Ameaçado de mote.

 

Dheyne de Souza é poeta. Mora em Goiânia. É membro do grupo de vocalização de poesia Corpo de Voz. Tem, em parceria com Helô Sanvoy, um canal no YouTube de leitura de poemas prosas prosemas, Pequenos Mundos.