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146ª Leva - 01/2022 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

SILVA – DE LÁ ATÉ AQUI (2011-2021)

 

 

O cantor, compositor e instrumentista capixaba Silva celebra uma década de serviços prestados à música brasileira (boa parte deles registrados pelo Gramofone) com um álbum de releituras de suas canções. Como bem disse o artista em um de seus tweets: “10 anos é muita coisa. Mas é só o começo também”. Sem delongas, de forma orgânica, com voz e violão — e no máximo com um violino ou um “tecladinho”, o mesmo que o consagrou no início de carreira, quando disponibilizou o EP Silva (2011) na internet — o disco passeia por uma dezena de anos de seu (já vasto) repertório. De Lá Até Aqui (2011-2021) compila 10 faixas acústicas sem ordem cronológica, sem obviedades e (quase) sem hits: novos arranjos dão frescor a algumas parcerias, covers e b-sides.

A única canção inédita, Pra Te Dizer Que Tô Feliz Assim (meu caminho não é reto pra lá/ninguém me falou onde é que ia dar/eu saí com a certeza de errar/cheguei pra não voltar), abre o álbum sintetizando a própria trajetória de criador e criatura, que tem suas raízes calcadas na música erudita, porém já transitou por diversos gêneros. Canções recentes como No Seu Lençol, do antecessor Cinco (2020), mesclam-se com outras antigas como Cansei (cansei dos inquilinos/da minha solidão/olhar você dormir/não é compensação), do álbum de estreia Claridão (2012), que aqui despe-se de toda sua roupagem eletrônica, ficando impressionantemente ainda mais bonita. Fazem parte do álbum também versões de músicas um pouco mais populares, inicialmente lançadas em parceria, caso de Um Pôr do Sol na Praia, gravada com a funkeira Ludmilla em 2019, e Pra Vida Inteira, dueto com a baiana Ivete Sangalo, em 2020.

 

Silva / Foto: divulgação

 

Os destaques ficam a cargo de Não É Fácil, do impecável repertório de Silva Canta Marisa (2016), e o “achado” Amantes (eu conto as horas/que faltam para o dia que vem/não quero mais/dividir esse amor com ninguém), canção de 2000 do grupo de axé Ara Ketu, que como o próprio nome sugere, aborda as agruras de não ser o(a) parceiro(a) oficial de seu grande amor. A canção fazia parte dos shows da turnê de Bloco do SilvaAo Vivo (2019) e aparece completamente repaginada da original — com uma intro a la Roberto Carlos — e talvez soe inédita para grande parte do público. Completam o álbum Ainda, de Vista Pro Mar (2014), que mantém o mesmo ar intimista, e Sou Desse Jeito, de Júpiter (2015), que perdeu todos os sintetizadores e ganhou visceralidade com um solo de violino — que lembra um trecho de A Visita, seu primeiro sucesso. Cabe ainda toda a doçura de Duas da Tarde, do disco Brasileiro (2018), grande divisor de águas que aproximou Silva da tropicalidade e de um universo tão popular quanto seu nome.

Todas as faixas de De Lá Até Aqui ganharam clipes em P&B e estão disponíveis no canal do artista no YouTube. Gravado inteiramente em sua casa na região serrana do Espírito Santo — na companhia do irmão e parceiro musical, Lucas Silva — , a residência serviu também como locação da produção audiovisual. Como diz um trecho de Pra Te Dizer Que Tô Feliz Assim, o caminho sonoro de Silva nunca foi “reto pra lá”. Suas andanças e experimentações musicais o trouxeram “de lá até aqui” e ainda o levarão muito longe. Com todo o mérito, o futuro de Silva é promissor, deliciosamente incerto e recém começou.

 

 

 

Larissa Mendes e o Gramofone têm muito orgulho em acompanhar Silva de lá até aqui, e muito provavelmente, daqui pra frente também.

 

 

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115ª Leva - 09/2016 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Desenho: Re

 

Chegamos à última etapa de celebrações em torno dos 10 anos da revista. Com essa nova leva, vem também a constatação de que 2016 foi um ano repleto de realizações editoriais por parte da Diversos Afins. Apesar da conturbada fase política que acomete o Brasil, situação que contamina todos os demais segmentos por plantar no país um grave clima de desconfiança em torno do papel das instituições, é necessário continuar demarcando posições e trabalhando efetivamente em prol da cultura. Autores e editores das mais diferentes linhagens tornam essa continuidade dos caminhos possível na medida em que enxergam nas suas realizações um motivo de evocação da liberdade de expressão e pensamento. Poder criar e mostrar ao mundo suas produções faz de muitos criadores verdadeiros agentes da democracia, palavra tão questionada ultimamente em nossa continental nação. Todos somos seres políticos nalguma medida, e isso se confirma nas práticas cotidianas.  A grande questão que fica é saber se temos um compromisso consistente com a consolidação da democracia, indagando até que ponto ela não representa um conceito vazio ou mero elemento de retórica. Um artista não está desvinculado do seu tempo e dos fatos marcantes constituintes da sociedade em que vive. E se ele pode contribuir com seu ofício para compreender e modificar paradigmas, já é uma outra importante questão que se estabelece. Numa visão mais otimista, todos poderíamos ser componentes ativos de quaisquer tentativas de mudanças nos planos social, político e cultural. Saber como tal processo se daria demanda um outro nível de compreensão que não se esgota nessas breves linhas de um editorial. Prosseguimos aqui com o intuito de revelar aos leitores e apreciadores da literatura e da arte perspectivas de experimentar alternativas de criação. A Leva 115 vem marcada, por exemplo, pela forte carga visual e provocadora dos desenhos de Re, jovem artista plástica que apresenta ao mundo suas inquietudes. Novas veredas poéticas são instauradas através dos versos de João Gabriel Pontes, Hanna Halm, Weslley Almeida, Alexandra Lopes da Cunha e Leandro Jardim. São as linhas de Guilherme Preger que trazem à tona as reflexões presentes no documentário “Cinema Novo”, do diretor Eryk Rocha.  Numa conversa que mescla literatura e gastronomia, Sérgio Tavares entrevista o escritor e editor Alexandre Staut. “Quando me abriram portas”, livro de poemas de Renato Suttana, é cuidadosamente percorrido pelas leituras de Jorge Elias Neto. Há uma abundância de possibilidades narrativas encerradas nos contos de Helena Terra, Anderson Fonseca e Cristina Judar. Dentro de um valioso processo de inventividade artística, marcado pela cultura popular, “Duas Cidades”, novo disco do grupo BaianaSystem gira nas linhas de Fabrício Brandão. É Carla Carbatti quem promove delicadas incursões em “Vermelho Rupestre”, obra poética de Katyuscia Carvalho. Seguiremos firmes em 2017. Agradecemos a todos os nossos leitores e colaboradores por tornarem sempre especial a nossa jornada. Saudações!

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114ª Leva - 08/2016 Ciceroneando

Ciceroneando

milton-boeira
Foto: Milton Boeira

 

Observar o tempo e seus matizes. Passivos ou não, somos parte dele. Na sucessão dos instantes, imagens se coagulam, fatos são esquecidos; outros, lembrados. Na contramão de uma série de sentimentos, flui sorrateiro o gozo dos mistérios. Dentro da explosão de palavras e imagens, a tentativa de se construir pontes com a vida e com o âmago de nós mesmos. A criação é um agora e porvir marcados pela hercúlea tarefa de exprimir algo. Como diria a poeta Hilda Hilst, “O texto é sangue/E hidromel./É sedoso e tem garra/E lambe teu esforço”. Ao autor, artesão da palavra que é, cabe não somente a pena e alguma glória efêmera, mas o sangue derramado nas entrelinhas do esforço. E palavras são curiosos seres acostumados, desses que tramam ardis, falseiam sensações de conquista e põem seus articuladores à beira do abismo. É preciso não se regozijar dos feitos antes da hora certa das coisas, antes da existência plena de um texto, sua janela para algum mundo. O engenho do verbo tem como aliado o ato constante de burilar, o qual é, em melhor instância, permanente estado de desconfiança. Então, vem a pergunta: quando se pode dizer que um texto está definitivamente concluído? Quem primeiro fica pronto, texto ou autor? Eis uma zona de compreensão deveras imprecisa. Fiquemos, pois, com a capacidade de trazer as leituras para dentro de nós mesmos, vê-las crescendo num jardim de percepções regado a infinitos particulares. Na Leva 114, edição que representa nosso atual estado de sensações, observamos a escrita ganhar contornos difusos nos versos de pessoas como Cândido Rolim, Yasmin Nigri, Sândrio Cândido, Liv Lagerblad e Otávio Campos. As construções de mundo e vivências pela palavra são o tema marcante da entrevista do escritor Sidney Rocha concedida a Lima Trindade. Por entre nossos cadernos, está o vigor poético e visual das fotografias de Milton Boeira. Vinte e sete anos depois, Sérgio Tavares celebra “As quatro estações”, álbum antológico da banda Legião Urbana. Mirando “Bastardo”, o novo livro do poeta Victor Prado, Lisa Alves desfila todas as suas impressões. Outros recortes de vida estão presentes nos contos de Márcia Barbieri, Marcus Vinícius Rodrigues e Samantha Abreu. O metafórico filme “The Lobster” agora é tema da resenha de Larissa Mendes. O romance “Vaga queda”, de Caio Russo, vem devidamente apresentado pelas breves incursões de Márcia Barbieri. E assim segue mais uma etapa da celebração dos 10 anos da revista. Que sejam ótimos os percursos!

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112ª Leva - 06/2016 Ciceroneando

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Patrick Arley
Foto: Patrick Arley

 

Dividimos em etapas a celebração dos 10 anos da revista. A Leva 112 que agora surge contempla um segundo passo nesse sentido de comemoração. A intenção é mesclar tanto autores que nos ajudaram a construir essa história quanto os que debutam em nossas paragens editoriais. Hoje, compreendemos melhor o teor real da palavra encontro, esse somatório de expressões a tecer um rico painel no qual verbos e imagens se encaixam. Cada colaborador expõe parte de seu mundo entre nós, tornando possível um descortinar de outras percepções. Seja no contexto da arte visual ou da construção da palavra, os signos transmitidos comunicam além das aparências. Diga-se de passagem, o mundo é em si um grande livro aberto a interpretações. E tal viés ganha corpo amplo quando notamos que o conjunto das expressões particulares de cada autor nos ajuda a compreender o que nos cerca. Saímos de nossa própria aldeia na medida em que mergulhamos na obra do outro. A figura da alteridade é também um curioso ponto de aproximação entre distantes visões de mundo. Sendo assim, talvez demoremos a perceber que é nas diferenças que o produto da arte surge e vai se moldando. A não conformidade do pensamento é, então, a protagonista de tudo. É justamente esse tipo de constatação que sempre fez parte das ações da Diversos Afins. Uma conclusão obtida através do contato direto com pessoas e suas mais peculiares vertentes criativas. Sem dúvida alguma, essa percepção real impulsiona a concepção de uma edição futura à qual pretendemos sempre nos lançar. Assim, o canto que agora entoamos exalta a existência do instante, pois se materializa na produção de poetas do quilate de Maria da Conceição Paranhos, Líria Porto, Romério Rômulo, Lívia Natália e Márcio Leitão. Por toda a leva, atravessados estamos pelo olhar antropológico dos registros fotográficos de Patrick Arley.  É Larissa Mendes quem nos chama atenção para o novo disco do inventivo cantor e compositor Wado. Convidando-nos à leitura de “A Loucura dos Outros”, livro de contos de Nara Vidal, a escritora Neuzamaria Kerner aborda caminhos sugeridos pela obra. Cabe a dimensão de um encantamento diante das palavras do ator Rafael Morais, idealizador do Grupo Teatro Griô, numa entrevista que evoca a arte como missão de vida. Guilherme Preger, com seu habitual e preciso olhar cinéfilo, destaca a produção espanhola “A Academia das Musas”, filme do diretor José Luis Guerin. Nossos cadernos de prosa são tomados pelos contos de Carla Diacov, Lizziane Azevedo e Isabela Rodrigues. “A Eternidade da Maçã”, novo livro de contos de Marcus Vinícius Rodrigues, recebe a acolhida das linhas de Fabrício Brandão. Com novas leituras e apreciações, celebramos o caminho. Sejam bem-vindos, estimados leitores!

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111ª Leva - 05/2016 Ciceroneando

Ciceroneando

 

LUMA FLORES
Arte: Luma Flôres

 

E chegamos a 10 anos de publicações. Com 111 edições lançadas, a Diversos Afins está, no formato e conteúdo, já um tanto distante do seu embrião. Em 2006, quando vinha a público a primeira leva, a revista ainda apresentava uma estrutura incipiente, bastante artesanal. Por certo, não se imaginava tamanha longevidade, apenas existia uma investida puramente romântica bem digna de ímpetos iniciais. De lá para cá, não somente o tempo transcorreu assinalando percursos numéricos, mas serviu de impulso para inúmeras possibilidades de aprendizado e experimentação. O propósito nunca foi o de se portar como um veículo autorreferente, do tipo que vangloria os feitos de seus idealizadores. De fato, nascemos em plena era de efervescência dos blogs, verdadeiros cadernos eletrônicos de onde saíram importantes nomes do cenário literário e artístico em geral. Foi também possível testemunharmos o surgimento de portais e tantas outras revistas ligadas aos temas culturais. Alguns se mantiveram, outros, por razões das mais distintas, ficaram pelo caminho. Hoje, não temos dúvida de que a persistência foi nossa melhor aliada, pois sempre acreditamos que seguir adiante sempre fez sentido. E não foi em vão que escolhemos o lema “desengavetar expressões” para capitanear nossa trajetória até aqui. Sabíamos o que representava ser um veículo de comunicação num momento em que as perspectivas editoriais em relação à literatura, por exemplo, apresentavam um cenário de radicais mudanças. A Internet foi uma mola impulsionadora de todo um processo no qual criadores expuseram seus trabalhos de forma independente. E ter contato com muitas dessas expressões foi fundamental para a consolidação dos caminhos da nossa revista. Fez-se necessário estabelecer critérios próprios de seleção, pautados em aspectos de qualidade que não representavam juízos de valor. O mais importante de se completar 10 anos de jornada pelas vias culturais é certamente a ideia de se agregar pessoas. Perdemos a conta de quantos colaboradores deixaram suas marcas impressas em nossas páginas ao longo de todo esse tempo. Também não saberíamos mensurar o quão valiosa é a atenção dos leitores em relação ao nosso trabalho. Cada autor e artista que por aqui passam, com suas distintas vozes, reforçam o nosso desejo original pela diversidade. E assim vamos seguindo. A leva 111 pretende ser a primeira de uma série de cinco edições especiais que celebrarão nossa primeira década de vida. Para inaugurar o momento, destacamos os versos de poetas como Bruna Mitrano, Wesley Peres, L. Rafael Nolli, Micheliny Verunschk e Geraldo Lavigne. No território da prosa, contos de Márcia Denser, Anderson Fonseca e Maria Camargo Freire (heterônimo de Caio Russo). É Larissa Mendes quem rende escutas ao novo disco do rapper brasileiro Criolo. Sérgio Tavares realiza uma especial entrevista com o escritor Ronaldo Cagiano. As atenções cinéfilas de Guilherme Preger desta vez estão voltadas para “Big Jato”, filme do diretor pernambucano Claudio Assis. A volta do caderno de teatro é marcada pela sensível exposição da dramaturga Yara Camillo sobre a peça “Donantônia”, encenada pelo Núcleo Ás de Paus, do Paraná. São muito contundentes as linhas de Sérgio Tavares quando nos convidam à leitura do livro de estreia de Marcela Dantés. Conferindo um brilho especial a todas as expressões contidas na nossa leva atual, os desenhos de Luma Flôres visitam mundos que correm paralelos na experiência humana. Com imensas felicidade e gratidão, dedicamos a nossos leitores a continuidade dos nossos passos. Boas leituras a todos!

 

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