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142ª Leva - 02/2021 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Leonardo Bachiega

 

Foto: Joice Kreiss

 

brincando de equilíbrio

espelhado em ee cummings

 

como se não bastasse olhar
de olhos fechados
as tuas palavras em malvas
o que há dentro do limo
que um mistério não cure…
sob uma locomotiva cuspindo violetas*
o amor está
…onde o desenham
nalgum lugar
em que nunca estive*

 

* Sampler de um poema de ee cummings

 

 

 

***

 

 

 

uma pessoa normal

 

você tem noite nos dedos
rindo ironicamente como uma
esferográfica que borra
nós somos cobrados por nossos resultados
a tua ausência de alguma forma
sempre me fez escrever
um pouco mais sobre o mar
se o céu tivesse uma lua
você se arrependeria naquele momento
até te olhares no espelho… dizer
tu poderias ter sido uma pessoa melhor
mas fostes a ti mesmo

 

 

 

***

 

 

 

sempre

 

um soneto de Shakespeare
amolece um muro
em favos de uma meia – noite
neste apego à letra
o desejo de apertar o céu
de cada dia
um pouco além

 

 

 

***

 

 

 

ao parar

 

há um desfiladeiro nos teus olhos
a que eu chamo eternidade
tua voz seria uma grama que se move
nada mais caberá
do que aprouver em mim cabe em asa
ainda me abre

 

 

 

***

 

 

 

sobre a ternura

 

falo de amor apenas
com os olhos saídos de areias imaginadas
céu de durar poucas violetas
e saúvas no sol da terra
debaixo da noite saudável
sempre repousa uma estrela órfã
como quando se decide habitar na solidão para viver
morar futuros humanos
morrer sob os passos de alguma fera

eu entendo o amor
como um pássaro que sobrevoa
um país extinto
e não consegue nos ver

 

 

 

***

 

 

 

Entreabre

 

a grama é uma trepadeira que ao cair
desajeitada
ficou no chão para sempre
o relento é a folha vestida de seda
transparente cada folha desfalece

 

Leonardo Bachiega é arquiteto, urbanista, poeta e dramaturgo, nascido em São Paulo, hoje reside próximo à capital paulista. É autor de alguns livros de poesia e um de dramaturgia, possui poemas publicados em diversas revistas literárias do Brasil e Portugal. Os poemas desta leva estão no livro “Solfejo de Cores”, publicado em 2021. Fernando Pessoa é seu poeta da vida.

 

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120ª Leva - 05/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Jorge Elias Neto

 

Foto: Angelik Kasalia

 

Manual para estilhaçar vidraças

 

Da raiz do nome
esses dedos cravados
no beiral da fenestra
extrair a resina impura.

Forjar as velas,
acender o arrebol
na cela escura.

Sugar o ar,
queimando os segredos
da memória das frestas.

Comemorar o vácuo
estendido no vazio
entre as unhas
e paredes.

Tornar insuportável
o convívio com a fumaça
do tempo
…...̶ desfazer-se da saudade.

Alardear a fuga
inútil da cama,
o suicídio das fotografias.

Com a cor das tintas
…………………………na pele,
se esfregar nas quinas
para sufocar seu cheiro.

Cuspir nas plantas secas,
urinar nas portas,
misturar-se ao cheiro das cinzas.

Soltar o grito
e descobrir-se eco.

Serrar os pés da cadeira
……..─ espalhar no piso
a última réstia da certeza.

Arregalar os olhos
─ sustentar as pálpebras
e sua obtusa fuga.

Não contornar os segredos
─ sacrificá-los.

(Perceber que o fora
é um longe,
e o dentro,
……………barreira intransponível..)

Sentir o arrepio das cortinas,
………….o crepitar dos tacos,
………….o suor da vidraça.

Sujar de sangue
a moldura sem espelho.

Reparar na janela
e sua mirada sem luz.

No breu da não-paisagem
misturar um circulo negro
…………….─ alvo no escuro.

Pressentir o estalo
da grade.

Dispensar o portal
da crença.

Aceitar o flagelo do ícone,
…………..a lascívia dos místicos.

Ao que ofusca,
o aceno,

……….ao que enrosca,
……….o degredo.

Reter o passo,
recolher no ócio
o espanto.

Ouvir o canto
da primeira trinca
……..o pio agudo
……..nas rachaduras.

……………..Estampido,
estilhaços sem rumo,
restos de tudo.

Lançar-se aos cacos
…..─ fôlego dos dias.

Recolher a sombra,
a imagem bipartida.

Perseguir a identidade,
levantando as pedras
das vias túrbidas.

 

 

 

***

 

 

 

Sob a pele

 

O corte,
a pele
– precipício.

Nem todo o fim
se desfaz em noite.

(. A noite decide o nome
de seus filhos..)

O abraço,
a espiral
– o Mundo.

Um recado do desastre
ao pé do ouvido.

( .O traço sob a pele
– cabedal de vícios ..)

 

 

 

***

 

 

 

Livro negro

 

(. Do canto obscuro
a beira do mito,
percorre-se o possível..)

Medusa,
Sangre minha língua,
Recubra de vida a hóstia
– alento do passado.

Musa,
surpreenda o que no sossego
dos dias tingidos,
simplesmente – ignora.

Ruína,
desabe com
as casas mortas.

Sertão,
rege a cisma no terço
e aboio dos de minha carne.

Cedro,
desfaça a nave fenícia
e entorne o vinho sobre as águas.

Poesia,
transforme em ruído
o som da espera.

Palavra,
seja o orvalho
de minha passagem.

Madrugada,
resgata o aceno
do tempo em meio a névoa .

Eternidade,
Estende sobre as asas
a poeira das estrelas.

Solidão,
não ignore a oferta do corpo
que a procura de ti, salta.

 

 

 

***

 

 

 

Campo de batalha

 

A manhã se dissipava
em tons de normalidade

 

:Trincheiras
cobriam a distância
do silêncio

:Encostas
não se prestavam aos ecos

:Os sonhos
fluiam das valas
ao mar

( .Não se comemora a febre
onde inexiste vida..)

Na rede de intrigas
refringia o orvalho.

Nomes brotavam
florindo o charco

E o perfume
ignorava o olfato
da ausência.

(. O mais é um vazio
onde inexiste vida..)

A brisa revolvia
as cartas

………..letras alimentavam
………..os musgos

e os metais
entoavam louvores.

( .Pode-se falar de paz
onde inexiste vida..)

 

 

 

***

 

 

 

Noturno

 

O impulso carrega
uma promessa dos pés

Andava
─ confortavelmente ─
no escuro
.( .sentia o calor
das coisas mortas)

(..Quem o pariu foi o vento nordeste
…………………assustado
………………..com o apito do navio..)

Nas mãos
a lista dos homens tristes
e linhas tortas
─ desencontradas

A seu lado
uma inútil sombra
─ essa mundaneidade

Tinha a noite
e a paz das sarjetas abandonadas

O Mundo
acontecia dentro dos olhos

Deus
era imagem ausente
à margem da fábula

O corpo
─ acaso assombroso ─
rompia a escuridão
da Ilha morta.

 

 

 

 

***

 

 

 

Cabotino

 

Me gusta esta costumbre de la rubrica por lo inútil
Miguel de Unamuno

 

O sal curtiu
a corda exangue

Amarras e terços
costuraram os dias
a esta terra
ao cais do porto
e ao apito dos navios que conhecia pelo nome

Ir e voltar:
sonho de uma sombra

Até o dia
em que o Não a reconheça
e vibre a corda
lançando-a de volta
à sinfonia do esquecimento.

 

Jorge Elias Neto é médico, ensaísta, pesquisador e poeta. Capixaba, reside em Vitória/ES. São de sua autoria os livros: “Verdes Versos” (Flor&cultura ed. – 2007), “Rascunhos do absurdo” (Flor&cultura ed. – 2010), “Os ossos da baleia” (prêmio SECULT-2013), “Glacial” (Patuá – 2014), “Breve dicionário poético do boxe” (Patuá – 2015) e “Cabotagem” (Mondrongo – 2016). Publica regularmente nas revistas eletrônicas: Portal Cronópios de Literatura, Diversos Afins, Mallarmargens e Estação Capixaba. Membro da Academia espírito-santense de letras.

 

 

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93ª Leva - 07/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Marília Garcia

 

 

Do outro lado da tela

 

I.
acontece de estar
num deserto de estar num
lugar inclassificável ao vê-lo
cruzar a praça arrastando
uma rede árida de memória no
momento em que o apito marca
os passos e você levanta a mão
para falar
……..como se precisasse
de um impulso ou se dissesse
que hacen falta los subtítulos
al hablar. nesse instante
busca se fixar em todas
as cores antes de dizer
……………………mas vê apenas
uma mancha ocre – então
não reage, olha a cabeça erguida
e a dele em semi-círculo fazendo o
contorno
…………….(parece estar em denfert
de noite: chove o suficiente e o guarda-chuva
grená é pequeno, não cabem apertados ali embaixo –
embora recolha os dedos para caber –
corre para comprar um despertador
e ouvir as histórias da distância
para chegar a polônia
……………………..num dia branco.)

 

II.
a menina da livraria subterrânea
pergunta a que horas sai seu voo
e você não responde – recolhe as miradas
persecutórias e sai mudo, mutismo
é isso sim nem pode imaginar de que lado
estão ou de onde escrevem todas as
vezes. também não há como saber de
onde saem tantas luzinhas porque é
o máximo que já esteve
do outro lado
……………….do oceano: o máximo
de distância através da tela, a imagem
embolotada que tenta chegar
mas é lento e cortado, um filme
antigo sem voz

 

 

***

 

Escorpiões e a esquiva

 

pela quarta ou quinta vez
tenta dar uma cronologia: me
deitei e parecia um deserto aquela
areia salgada.
………………– mas estamos em méxico city, diz,
estamos no ponto mais próximo
da esquiva.

eles vêm de noite, no campo,
quando uma nuvem se forma
e tudo está perdido. rente ao chão.
me deitei e tratei de ouvir os ruídos
dos escorpiões

mas não havia ruídos,
só o vento e os clarões.

tratei de ouvir
o barulho da fábrica
mas não ouvia nada
(conhecer pode
ser destruir)
só um eco ou
algo que
se esquiva.

 

 

***

 

 

Codecs

 

I.
estar em contato durante
um trânsito mútuo é diferente, não conta
porque ainda não tem
uma resposta.
………………apenas se fixa na estrada
e segue conduzindo as esteiras. não
sabe se ela gosta de olhar para
aquelas fotografias do deserto
em p/b. se gosta de escutar
o som dos escorpiões que só
existem em sonhos e se
vai no próximo verão a nigéria
dizendo apenas: saibro.
………………se faz parte de uma salina
o que parece imaginar. não diz onde
está agora, apenas
aguarda
………que voltem dos bosques gelados
que sigam juntos até terça
que se digam adeus –  a voz
na chamada não esclarece
e depois de achadas as pistas não
tem volta:
……………..eletricidade constante
em tudo o que via. deve pensar
em coisas objetivas: pequena
placa esmaltada na entrada com
o nome da rua

 

II.
pode ser um peixe russo em
extinção, até que chega. mas isso
não explica. é agustina ligando
do continente, dizendo as coisas
pela metade. mas não há como saber: “aperte
o botão da direita e pegue um pacote de codecs
eles ajudam a ver imagens, definir
o campo de visão”. sem ele não
vê nada, acorda virada para o fundo
gelatinoso do rio e passa as horas
aguardando como um problema
sem resposta: é uma ilha tão pequena
que quando não espera
despenca no mar.

 

 

***

 

Classificação da secura

 

I.
agora já é quase amanhã mas queria
dizer apenas que é muito
tarde: acrescentar quatro horas ao relógio
indica que já é depois. lá é sempre
depois. parecia um nome
italiano com aquele som ecoando e a
resposta em outra língua mostrava
a cor das linhas no mapa,“é lilás”, para
não dizer algo preciso
para não terminar: com ela
saio cedo todos os dias. fico de
vez em quando escondido
no porto. tomarei
o transmediterrâneo e comerei
calçots,
……….até chegar o instante antes
do instante, momento em que vê o relógio
e diz: não. já conhece todos os erros
do sistema e a retina derretendo
sempre que levanta
………………………para sair dali.
(precisão é o retângulo do degrau
inferior.)

 

II.
alguém que não consegue se mover
e uma semana de vozes cortadas, deve
se acostumar aos movimentos em câmera
lenta, à descida pela escada em
espiral:
……….recorta os sons de cada
quarto e apaga as perguntas que
mais detesta responder. como aquela
noite no ônibus, ruídos do rádio e
pedaços de frases atiradas,
sempre girando as horas.
……………………..ver a paisagem
sem ela e precisar o tamanho da ausência
com poucos dados – sabe que as baleares ficam
do outro lado do mar, que custa chegar
anos depois e dizer. ergue os olhos para
fixar o que tem ali e não perder
de vista a secura.

 

Marília Garcia nasceu no Rio de Janeiro (1979). É autora dos livros 20 poemas para o seu walkman (Cosac Naify, 2007), engano geográfico (7letras, 2012) e um teste de resistores (7letras, 2014, no prelo). Atualmente, mora em São Paulo e trabalha com tradução.