Recolho na concha dos sapatos, a marca,
outra pisada.
Caminho com fantasmas.
***
Tarde
Hoje me visitam as cigarras
das folhas verdes de antes.
Bocas sujas de terra,
segredam raspantes fios de facas.
Tardam
os dias no tempo esgotado.
E é só isso, é só isso,
é só.
Ferem
os seres mitológicos exultantes
de sussurros e estrondos que traspassam.
Sangue e raízes, dizem desses dias,
são só esses dias, só esses dias,
conformados.
***
A outra face
Aprenda a dar-se,
inteiro
feito um tapa,
esgotando-se por completo
a cada safra.
Grãos na mão aberta,
bagas aos insetos fermentando.
Os dias,
todos,
todos os dias,
laudas, vésperas,
e completas.
Assim, dá o mundo a outra face,
dando-se
e perdendo-se.
(Inês Monguilhott nasceu em Recife, Pernambuco. Passou grande parte da vida na Paraíba e há mais de vinte anos reside em São Paulo. Publicou “natural” e “de mim”, ambos editados pela Ofício das Palavras
A poesia não aceita algemas
nem acredita em bombas ……………..de efeito moral
madona ou doidivanas
a espada de Dâmocles
madrasta humana
tremula o horror
nos lábios de uma menina
tremula o horror
na face de uma criança
no lado acordado peito
tremula uma flâmula
tremula uma bandeira
no quintal da infância
no lado açodado do peito
tremula um fleuma
e mais que infla o inflama
novamente o arbítrio
a tutela – cinco dedos
tatuados na cara
e os chutes na canela
colar de medos
adorna o tornozelo
os guizos no esqueleto
pedem ao novo ilustre
um lustre na caveira
limpem as botas pois
os novos soldados
aonde vai a insensatez
essa bala de borracha
se o espaço é infinito
e o átomo está dividido?
está dividido o homem
o peito está dividido
e o coração endividado
despe-se em inexato leito
madona ou doidivanas
a espada de Dâmocles
madrasta humana
a poesia não aceita algemas
nem acredita em bombas ……………..de efeito moral
***
SOLUÇO SÍSMICO
Farto é o fogo
dos vulcões
julgados extintos
soluço sísmico
na contração do parto
pende um quadro
trêmulo
na parede do útero
Sem a distorção
da moldura
arde uma tela
de Cícero Matos:
deserto
a ser florido
rio morto
a ser aguado
Jacobina
não é apenas um retrato
na parede
um berço
a ser embalado
***
A TIBIEZ DA PAISAGEM
Eles estiveram aqui
trouxeram antiga mala ……………em espécie …….sob auspícios
de Pandora
foram afáveis
com a minha mulher
e acariciaram
a fronte do meu filho
eles estiveram aqui
com uma grande mala
abriram seu coração
com cédulas perfumadas
– fixaram uma etiqueta –
tinham dentes retocáveis
como um sorriso de Hollywood
& tinham olhos comovidos
com a tibiez da paisagem
dóceis ……..porta-vozes ………………….do agouro
um dia estiveram aqui
& diante dos seus olhos
abrimos aquela grande mala
incrédulos: todos os pássaros
foram libertados
como borboletas em chamas
***
HARAKIRI
todas as manhãs
afia a lâmina
de matar o tédio
tira-a da têmpora
– aonde ..a forja arde –
e divide a tâmara
essa lâmina ……………luminar
eletricidade …………..e nuvem
não a porta ………mas
a comporta
………. não a porta ………. mas ………. a transporta
na baínha da alma
na cerzida ….bainha da alma
essa lâmina
fotossintática ………tética
para ……enfim ………….guardá-la
entre pétalas
na floração do umbigo
(Heitor Brasileiro Filho é ensaísta, cronista e poeta. Natural de Jacobina, Bahia, reside em Ilhéus desde 1994. Licenciado em Letras, é pós-graduado em Estudos Comparativos em Literaturas de Língua Portuguesa.Integra os livros “Diálogos: Panorama da Nova Poesia Grapiúna” (Editus – Via Litterarum); “O Triunfo de Sosígenes Costa” (ensaio – Editus UESC-UEFS), e “Bahia de todas as letras” (conto – Editus – Via Litterarum). Acaba de lançar o livro de poemas “O Chão & A Nuvem” (Editora Mondrongo – 2013))