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149ª Leva - 04/2022 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

A INCORPORAÇÃO NA POESIA DE ROBERTA TOSTES DANIEL

Por Lorraine Ramos Assis

 

 

O corpo humano é um amontado formado por células. Suas estruturas, das mais simples às mais complexas encaixam-se em células, tecidos, órgãos, sistemas e organismo. E cada uma desempenha um papel dentro de um todo hierárquico, dialético. Ao movimentar-se, essa mesma estrutura tem a função de sobreviver a um determinado espaço ou a explorá-lo.

Deparar-se com a imagem corpórea, as deslocações geográficas e a própria natureza é o quadro a se caracterizar a poesia sinestésica presente na obra “Ainda ancora o infinito” (Moinhos/2019) da poeta Roberta Tostes Daniel, em que o lugar assegurado na poesia lírica é tensionado pela memória do sujeito.

 

Escreve
hei de dizer a fome
que me devora a boca;
hei de dizer a boca
(novena de silêncios

intifada
ante-fome
fome)

 

Nos trechos do poema que se apresenta, temos a inversão em “devorar a boca” na sucessão da diferença de retornar ao ato habitual da função do órgão. Nos é demonstrado como o registro da linguagem está a consumir o indivíduo. Nas mudanças dos termos da procura ante a fome, esfomeada de palavras a serem produzidas na inscrição poemática, a dicotomia entre o silêncio e o desespero é proferida nos versos construídos sob a espacialidade gráfica da página. O corpo do poema, portanto, torna-se corpo do sujeito. Corpo memória.

Outra característica corporal de Roberta é o recurso a combinar deslocamentos espaços temporais com sensações imediatas a serem apercebidas pelo leitor viajante. Se a transitividade é transposta por vinculações nacionais, a mobilidade do sentimento-sensação não é estático, restrito a uma só voz que aspira a englobar um tópico, mas sim lembranças.

 

Sábado
céu consolidado
trilhas ao redor do Rio.
Dizer sim ao não
saber outros meios
de chegar
molhando os pés
da areia.
(…)
hoje, toda palavra
é terra

 

A depuração do agir urbano como movimento de desejo e contrariedade (dizer sim ao não) é entendido como um processo de elaborações de expansões contínuas. Se há outras formas de se locomover, aterrar em determinado espaço, é porque existe uma quantidade de matéria falada, uma elasticidade do escrito poético, tendo em vista que “hoje, toda palavra é terra”.

Não é pela instauração do local árido que a poesia de Tostes representa, mas sim a instauração do processo sem fim do registro linguístico pela localidade. O construtivo do tratamento da fala é conformado pela experiência de se trilhar novos caminhos. E isso se dá pela noção da realidade física e psicológica.

Adiante com o trânsito entre os variados impulsos das cadências, a musicalidade não está somente nos aspectos formais das estrofes da escritora, mas circunda temas que se envolvem com os demais.

 

Sim, a música. Como tudo, também tem som de chuva hoje.
Janelas molhadas. A tarde que segue suave, mas maciça como uma nuvem escura. E nesse breu que não é a noite, deposito meus olhos. De ouvir tanto. Forma-se a imagem, música incidental. Memória que ainda. Não vivi.

 

A partir da emocionalidade do texto, nota-se a cronologia dos fatos em linhas de fragmento, pontuadas como a escolha da recursividade desta vez. As implicações da noção da imagem narrativa dos fenômenos da natureza exprimem a metáfora sonora, musicalizada na voz autoral ao presenciar “tarde que segue suave mas maciça como uma nuvem escura”. Um traçamento de seleções tonais, de tonalidades a serem descortinadas (como uma janela molhada) a quem visualiza os desdobramentos em volta da estrutura sintática de Roberta.

Um livro que, por ser constituído de membros elásticos, da mobilidade sem fim até o imaginário de seus ouvintes na amplitude temporal, marca o pensamento de um corpo. Corpo este que, de acordo com Merleau-Ponty,  “Eu não estou diante de meu corpo, estou em meu corpo, ou antes, sou meu corpo”.

 

Publicada em 12 revistas digitais ao longo de dois anos e meio, tais como Ruído Manifesto, Mallarmargens, Vício Velho e Aboio, Lorraine Ramos Assis, em seus 25 anos, é uma artesã do caos. É estudante de Sociologia, na UFF. Integrou a antologia Ruínas, da editora Patuá, e a antologia LiteraturaBr. Concedeu duas entrevistas no canal “como eu escrevo”. Colabora com o portal Faziapoesia.

 

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83ª Leva - 09/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Diego Callazans

 

 

Ilustração: Denise Scaramai

Orfeu, não chore mais;
não vê que é inútil?
às moiras nada compadece.

os cantos ao silêncio marcham.
as palavras morrem.
os deuses esquecem.

nas flores o sublime é breve.
a criança encurva.
desafina a lira.
o amor é pó.

a voz mais bela dura só um sopro.

às moiras nada compadece,
Orfeu; não chore.

ainda sopram versos.
a arte é viva para além dos ossos.
os deuses recordam.

há palavras que claudicam,
mas distante é a noite
e o sol, se lhe calhar, não vem depois.

cantemos.
às moiras nada compadece.
não há por que ter pressa de silêncio.

 

 

 

***

 

 

 

jamais te iludas:
a paz é breve.

tolera o verme
somente o quanto
adia a luta.

todo tratado
é uma cilada.

ausculta à lupa
atrás dos sinos.
não dês desculpa
para explodir-nos.

se for preciso,
a mão lhe estende.
force um sorriso.

com vela rente,
indaga o vento.

mantém a adaga,
oculta o intento.
nossa voz curta
assim prescreve.

jamais te iludas:
a paz é breve.

 

 

 

***

 

 

 

não sou senhor sequer
do corpo que me veste

nem minha sombra
me reconhece

o nome a que me ataram
– largo – pesa

meu passo – leve
– nem rastro deixa

meus versos queime
– não há quem tome

ideias… dei-as
– me atrasavam

possuo nem mesmo a ave
que em meu inverno lateja

 

 

 

***

 

 

 

de tênis, botões e jeans devo estar
doravante por questão trabalhista.
as sandálias ficam para as andanças
entre a padaria, a feira e a banca.
todo o resto é área do professor,
montado como uma drag sem glamour.
o professor que faço me comeu
todo o sentido. sou hoje seu hotel.
leitura era prazer, é hora-extra.
a poesia agora é o que me resta.

 

 

(Diego Callazans vive em Aracaju desde a infância. Graduado em Jornalismo, está em vias de concluir doutorado em Sociologia pela Universidade Federal de Sergipe. Em sua trajetória, atuou em teatro, dirigiu vídeos e desenhou quadrinhos. “A poesia agora é o que me resta”, lançado recentemente pela Editora Patuá, é seu livro de estreia)