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97ª Leva - 11/2014 Ciceroneando

Ciceroneando

 

 

Arte: Cristina Arruda

 

 

Tudo está mesmo por um fio? São acometidos por alguma volatilidade nossos pensamentos, verbos e ações? Ao que pode parecer, sim. Conclusão afirmativa, mas sem apresentar requintes de um horizonte definitivo. No eco das horas fugidias, tomamos emprestado algum fôlego para prosseguir. Entremeando cenários, despistamos as investidas da finitude que nos ronda desde o berço. Mas viver é levar em conta a necessidade de se realizar algo, seguindo as pistas cotidianas sugeridas pelas travessias que nos se apresentam. Nunca é demais supor que o presente é a coisa mais certa de todas as coisas. O resto mergulha no fosso abissal do indecifrável. A cada ato expelido, é curioso perceber que um sentido de permanência se desloca mesmo diante de um mar de incertezas em cujas águas sempre navegamos. No universo sobre o qual flutuam as individualidades, é reconfortante saber que o mosaico do mundo é também constituído pelas dissonâncias de ideias. Disso se alimenta a arte, quando nos provoca e nos faz romper com territórios confortáveis. De tamanha inquietude bebem poetas e tantos outros criadores. No fundo, o que almejam não é a conformidade ou a harmonização dos discursos e pontos de vista, mas a perspectiva de apreender os recortes da existência como uma via de compreensão daquilo que respiram. Para nossa sorte, tais exemplos se multiplicam e, por força do acaso ou não, surgem diante de nós. É o caso de autores como Ana Estaregui, Alberto Bresciani, Victor Prado, Carolina Calvo e Adriane Garcia, que desfilam diante de nossos olhares a multiplicidade contida em seus versos. Nos contos de Lucia Fonseca, Myriam de Carvalho e Lourença Bella, testemunhamos o modo como o retratar da vida é abraçado pelo imponderável. Num diálogo regado a reflexões sobre a criação, o escritor e jornalista Claudio Parreira concede uma entrevista a Sérgio Tavares. W. J. Solha escreve sobre “Glacial”, novo livro de poemas de Jorge Elias Neto. O novo disco do rapper Criolo é contemplado pelas linhas de Larissa Mendes. O filme “Relatos Selvagens” é destaque da resenha de Bolívar Landi. A partir do Prêmio Nobel de Literatura, Rodrigo Conçole aborda algumas relações entre o teatro e o mercado editorial no Brasil. Entrecortando as expressões de nossa nova edição, uma exposição com os desenhos e pinturas da artista plástica mineira Cristina Arruda. Na 97ª Leva da Diversos Afins, uma nova gama de leituras se faz presente. Aproxime-se, caro leitor!

 

Os Leveiros

 

 

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97ª Leva - 11/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Adriane Garcia

 

Arte: Cristina Arruda

 

Espinhos

 

Amar sozinha
No meu espelho
As rugas de um
Silencioso desespero

Andar parindo
Os meus vermelhos
Calar ouvidos
A cada voz do vento

Carpir lembranças
De uns pensamentos
Mãos na cabeça
Enlouquecer de dentro

Colher as rosas
Manchar as mãos
De apertar caules
Para gozar o amor.

 

 

***

 

 

Que até dói

 

Eis que seu rosto
É imagem de um sonho obsessivo
Eis que
Sua pele gruda-me em memória
De células
Eis
Que não durmo
A menos que tivesse alguma
Certeza de encontrá-lo
Oniricamente
Eis que
É loucura apegar-me
Assim
À loucura
De amá-lo assim
Eis que
Tem-me
À flor
Dos ossos.

 

 

***

 

 

Se

 

Se você tivesse sido amado
Na hora improvável
Se apenas naquele momento
Estéril
Da crença de que só se poderia
Ver com os olhos
Tivesse havido o meu sopro
Na curvilínea do seu pescoço
E se pequenos pelos tão
Imperceptíveis
Tivessem se eriçado à
Luz da minha boca

Você seria outro homem
Eu seria outra mulher.

 

 

***

 

 

Privacidade

 

Antigamente eu mexia
Na tua carteira
Na tua mochila
Nos teus bolsos
Na gola da tua camisa
No teu celular
Eu lia os teus perfis
Os teus murais
Hoje, jamais
Ninguém vai
Invadir-me desse jeito.

 

 

***

 

 

Clave de sol

 

Esperei você de silêncios
E durezas
Enganada, eu nem ouvia
Que o amor vinha
Devagar
Com música.

 

 

***

 

 

Antes do ponto final

 

Ame-me logo
Ame-me agora
Ame-me antes
Que

 

Adriane Garcia, nascida em Belo Horizonte/MG, em 1973. Historiadora, funcionária pública, arte-educadora, atriz. Escreve poesia, infanto-juvenis, contos e dramaturgia. Venceu o Prêmio Nacional de Literatura do Paraná, Helena Kolody, com o livro de poesia Fábulas para adulto perder o sono.