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100ª Leva - 03/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Gabriel Rastelli Quintão
Foto: Gabriel Rastelli Quintão

Uma centena é muito mais do que um mero marco numérico. Em se tratando de caminhos editoriais, significa um avançar teimoso ante as curvas do tempo. Há quem resuma esse conjunto de ações que agregam literatura e artes como sendo uma prova irrefutável de resistência. Tal atributo é positivo na medida em que a valorização do presente seja a tônica central das considerações. A revista Diversos Afins tem passado, tenciona um futuro, mas volta seus olhos especialmente para o agora, pois este representa a confirmação de apostas e expectativas múltiplas. É difícil mensurar com precisão como um projeto dessa monta pode vir a se consolidar. Quem vasculhar nossa história perceberá quão diferente estamos hoje para aquela primeira Leva de escritos e expressões. O ano era 2006 e tudo começava de modo bastante incipiente, quiçá até pueril.  Mas o fato de maior relevância é saber que não havia um produto fechado em nossas mãos. Quando se fala em desengavetar expressões, não se pretende apenas idealizar colaborações, mostrá-las ao mundo, mas, sobretudo, aprender com elas. O caminho de publicações até aqui trilhado mostra um permanente desejo de seguir adiante por meio do experimentar de novos saberes e sabores. Não há verdades hegemônicas, apenas um processo de intercâmbio de manifestações através das quais se constrói uma valiosa rede de encontros. Cada autor traz em si sua própria epifania, maneira particular de vislumbrar o mundo. Com isso, opera-se um vasto painel de sensações e leituras, todas elas estabelecendo sinais espontâneos de convergência. É quase impossível definir o quanto todo o numeroso contingente de colaboradores impactou o perfil da revista. Diga-se de passagem, entendemos que pomos em prática um projeto em permanente construção. Portanto, nada está esgotado em si, pois é sempre tempo de olhar ao redor. Ao longo de todas as edições, presenciamos também outras tantas investidas editoriais que nos auxiliaram no entendimento do nosso papel enquanto suporte cultural. A via digital rompeu barreiras e aproximou-nos de pessoas dos mais diferentes lugares do mundo, todas elas com sua importância peculiar. Para nós, está claro que avançar é preciso. O atual momento de celebração contempla a poética presente nas fotografias de Gabriel Rastelli Quintão. Deparamo-nos com os arremates narrativos de Marcus Vinícius Rodrigues, Natália Borges Polesso e Sérgio Tavares, especialmente selecionados para a ocasião. No território da poesia, emanam os fluxos líricos de gente como Wesley Peres, Demetrios Galvão, Adriano Scandolara, Francisco S. Hill e José Carlos Sant Anna. Com o olhar sensível sobre o mundo e a vida, a poeta Neuzamaria Kerner concede-nos uma entrevista, na qual aborda principalmente as energias emanadas do seu mais recente livro. São de Larissa Mendes as percepções a cerca de “1977”, novo disco do cantor e compositor Wado. O escritor Marcos Pasche chama-nos atenção para obras de quatro autores contemporâneos: Maíra Ferreira, Juliano Carrupt do Nascimento, Leandro Jardim e Anderson Fonseca. O novo filme dos irmãos Dardenne é tema das anotações de Guilherme Preger. Fabrício Brandão ousa penetrar nas veredas do mais recente livro de Dênisson Padilha Filho. É tempo de centésima jornada, caros leitores! Celebrem conosco!

Os Leveiros

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100ª Leva - 03/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Adriano Scandolara

 

Foto: Gabriel Rastelli Quintão

 

Hesitação

 

O ralo do chuveiro entupiu

farto de engolir restos de nós
o que como tumor
sem ver se consumiu,
e menos que os restos o todo restou.

Uma teia no canto
formada reformada por uma aranha,
órgãos tecem e anseiam, enquanto
longe o macho ainda
inútil respira,

enquanto bêbada
………………….entre os
prédios uma
…………equilibrista
na corda bamba hesita.

 

 

 

***

 

 

 

Ode ao edifício Ricardo

 

para Roger Alberto Meluso, in memoriam

 

 

Eu, sozinho, no prédio todo
não ouvi os estertores:
ia ao banco, quando
………………………quase
tropeço no
cadáver.

Correndo desesperado o pobre diabo desceu os degraus
delirante perdendo
a calça a perna falsa toda
dignidade

o caco que restou na calçada deitou, a Deus
clamou que não morresse
e como chama em cachimbo de crack nos becos da noite

apagou.

E eu
quase tropeço no cadáver.

 

 

 

***

 

 

 

Camus nos infernos

Há muito que as mãos
são mordidas pelas bocas que alimentam.
Entre as sombras não há nome
nem rosto:
se cansadas, revezam-se
como tratadoras de Cérbero.
E fumam nos intervalos,
apagando bitucas nos asfódelos,
foi para o treino desses momentos
que afinal viveram.
Feridos, os dedos levam
o cigarro aos lábios
num fumacento suspiro,
sonho invejoso, ser Sísifo.

 

 

 

***

 

 

 

Ode à serpente

Baixo demais para a virtude,
………………………..rastejar
sobre vidro, palavras
de ordem
…………de ódio,
…………………rastejar
tragando borras do amor
como rato
……….serpente
que devora o rato,
rastejar
……….sem pranto
que uma a uma essas gotas salgadas fracassaram
em redimir as gotas amargas
o gosto
………de ferro na boca,
rastejar
…………..a espinha sustentando a verdade
quebrando no meio
o pescoço
………quebrando no meio
o rosto preso virado pra baixo
………………………………….rastejar
seria talvez canção
este resto de voz
………………….alhures,
sem suas plumas de corvo
………………………..estes versos
pobres e feios.

 

 

 

***

 

 

 

Um dia qualquer

 

A tormenta sobre o
centro cemitério
de guarda-chuvas
retorcidos nas sarjetas e lixeiras
e as poças
sempre mais que o previsto
profundas.

Uma sombrinha intacta
descartada
a desistência
essa coisa tão humana
inunda os bueiros.

 

Adriano Scandolara é poeta e tradutor, nascido em Curitiba em 1988. É graduado em Letras e mestre em Estudos Literários pela UFPR, onde atualmente desenvolve um doutorado sobre poesia e filosofia da linguagem. É um dos editores do blogue e Revista Escamandro. Seu livro de estreia, “Lira de Lixo”, foi publicado em 2013 (São Paulo: Editora Patuá). Seu segundo livro, PARSONA, de poesia conceitual, e sua tradução de Prometeu Desacorrentado, do romântico inglês Percy Bysshe Shelley (1792 – 1822), estão no prelo e deverão ser publicados este ano, respectivamente, pelas editoras Kotter e Autêntica.