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153ª Leva - 01/2024 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

notas dispersas e submersas com alguns grãos de areia colhidos no bolso*

Por Alex Simões

 

 

não, não é de agora que poesia e poetas nadam sobre o mar e passeiam sobre e sob as águas doces e salgadas. Homero e Caymmi cantaram seus  mares respectivos, Sapho tirou sua  própria vida se atirando ao mar Egeu e Camões salvou os Lusíadas nadando com apenas um braço livre sobre o mar da Cochinchina, após o naufrágio ter levado sua Dinamene embora. Alfonsina Storni submergiu as saudades de um grande amigo no Mar del Plata, Waly Salomão tomou o mar de  sargaços de Ezra Pound e o ofertou a Maria Bethânia, que canta “Eu e água”, de seu irmão Caetano Veloso, que junto com Gilberto Gil compôs “Beira-mar”.

Matheus dos Anjos traz um livro de poemas encharcado de água do mar, do rio, da chuva e das lágrimas, com cheiro de salitre e uns grãos de areia, pois o “solo de praia cabe no bolso” (limo dos dias).  seus versos passeiam sobre e sob as águas, doces e salgadas, e lançam mão de diversas estratégias formais para imprimir movência em meio à “liquidez  farta – diferenciada / negando Bauman com a força / de sete mares” (menino da costa do dendê). temos haikais e  outras formas curtas da lírica e outras formas com versos tomando mais fôlego a ponto de plasmar-se em um poema em prosa cheio de memórias de uma infância em um certo “paraíso alagado”.

aqui alguns topônimos e gentílicos escondem água dentro. há água em todos os cantos deste livro, inclusive nos títulos, inclusive em outras línguas que não a portuguesa. se Kirimurê é “o mar interior” – como assim os tupinambá denominavam  a Baía de Todos os Santos –,  é com este título que Matheus nos apresenta uma cartografia de uma Salvador muito nos moldes oswaldianos e nos dá a primeira pista para vislumbramos aonde nos quer levar o título enigmático deste livro: “o côncavo onde a água sempre faz a curva”. “axiluandas” significa “homens do mar” e é como os portugueses chamavam os falantes de quimbundo, os ambundos, grupo étnico que, por uma dessas etimologias mitológicas, ao responder sobre o que estavam fazendo, lançaram um “trabalhar com redes de pesca”.

“um marinheiro ao contrário” vive em exílio em seu próprio apartamento no 5o andar de onde recolhe areia guardada nos bolsos. o tema do marinheiro exilado presente em Álvaro de Campos e em Sophia de Mello Breyner Andresen, e não só neles, ressurge aqui plantando o mar numa horta vertical. neste, que talvez seja meu poema predileto deste livro, a segunda parte de um tríptico, encontramos outras pistas para entendermos o que faz Matheus escrever o que escreve e como escreve: “a natureza do mar é não ter paredes” e “[…] a revolta é / estender os formatos” (II – plantei o mar na minha horta vertical).

um marinheiro ao contrário vê as coisas fora de lugar porque despatriado. algas são vomitadas, o tempo deve vir sem relógios e o corpo é “bom de bagunçar”. o erotismo passeia pelas formas estendidas às vezes nada discreto, como em “prepara tua canoa/ se pretende me cruzar” (igarapé).

leia esse livro como quem nada ou sobe uma ladeira durante uma chuva torrencial até passar por uma curva cheia de água que atravessa o teto de uma casa e pinga sobre sua cabeça. tudo nele é água, doce ou salgada, em estado líquido, sólido e gasoso. leia movendo-se entre o mar exterior e o mar interior, não só Kirimurê. se, por um lado, “cada banho leva em si um cadáver” (renovo diário); por outro lado, há um clima de intensa umidade provocando esse mar de dentro a emergir pelos poros, como o poeta, que se equilibra em uma corda bamba e bomba, nos canta e conta em “mormaço”:

 

“se escrevo
é pra fazer meu sertão de dentro
virar mar”

 

* Este texto era para ser posfácio do livro a pedido do autor, mas, por algum mistério da senda literária, ficou inédito.

Alex Simões é poeta e performer.

 

 

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81ª Leva - 07/2013 Destaques Olhares

Olhares

PARA ALÉM DAS ÁGUAS

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Mario Baratta

 

 

Deixar que o tempo manifeste seus desígnios livremente, apontando direções a seguir. Intuir o curso das águas rumo ao mar que espelha a relativa eternidade das coisas. Um pouco de nossas infinitudes marca o pensamento, e navegar adiante é, sobremaneira, atracar o barco da esperança num cais onde impere a serenidade. O tão projetado porto seguro insiste em ser a grande metáfora da busca imprecisa que carregamos em vida. A partir disso, existir é tão somente uma questão de reter os sinais da odisseia que frequentemente empreendemos.

Há quem nos sirva de guia numa jornada que sabe ao desejo de chegada, e divide conosco o aportar em cada novo lugar como sendo uma experiência de profunda descoberta de si mesmo. São peregrinos como Mario Baratta, que, superando procelas, instauram em nós um sentido sublime para a existência.

Ilustração: Mario Baratta

Ao trilharmos uma rota comum à do artista, percebemos que o fluxo das coisas resiste às intempéries, fazendo com que outros cenários se mostrem com todo o vigor da simplicidade. Se o caminho da revelação é tortuoso por natureza, a arte de Mario subverte as limitações impostas e pretende reinvenções. É, então, que águas bravias sucumbem diante da beleza, esta senhora que apazigua os caminhos do mundo.

Natural de Belém, no Pará, Mario Baratta é íntimo do mistério das águas. Desde a mais tenra idade, acostumou-se a enxergar além das paragens físicas do Rio Amazonas, absorto que estava pela curiosidade de tentar entender a simbologia incontida das águas.

Ilustração: Mario Baratta

Assim, deixou-se conduzir pelos ensinamentos do pai, primeiro cicerone na sua lida com tintas e papéis.  Formou-se em arquitetura e, no meio do trajeto, apaixonou-se pelo ato de lecionar na área, missão da qual não mais se apartou. Entre os feitos de seu currículo, o artista considera como especiais as ilustrações criadas para livros infantis. Aquarelas inspiradas em barcos também são outro ponto importante de sua carreira.

Com uma temática que agrega a arquitetura, as cidades, os rios, o mar, os barcos (batizados por ele como arquiteturas flutuantes), pescadores, trabalhadores urbanos e pessoas, enfim, traços da simplicidade da vida, o artista é testemunha cabal de que tudo se traduz num dinamismo incessante.  Nele, percebemos que o muito de que se precisa para viver é estarmos atentos às manifestações singulares que nos cercam. Um sentido de liberdade está impregnado em sua obra, a tal ponto que partidas e chegadas da permanente viagem humana são faces duma mesma moeda. Parafraseando Milton Nascimento, a arte de Mario Baratta inventa um cais e sabe a vez de se lançar.

 

 

Ilustração: Mario Baratta

 

 

*As ilustrações de Mario Baratta são parte integrante da galeria e dos textos da 81ª Leva.

 

 

 

 

 

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78ª Leva - 04/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

 

 

Foto: Rosa De Luca

 

O eternal movimento das águas nos conclama a desabitar as zonas de conforto. A impermanência, sugestão maior desse fluxo, é uma das crias mais valiosas do tempo, um avanço sorrateiro pelas trincheiras da toda poderosa senhora incerteza. De modo imponente, essa majestosa companheira parece muito mais afugentar corações e mentes do que qualquer outra coisa. Teimosamente, escritores e artistas cumprem o ritual das indagações, trazendo à baila dimensões possíveis para a ciranda da vida. Expressar-se, por si só, já pode se prestar a um indício de rompimento com o conformismo. E isso apenas não basta. Indo além, é preciso atirar verbos ao vento, submeter as imagens ao crivo dos olhares, extrair da abstração das horas o sumo das linguagens. Quando tentamos erguer uma edição da revista, é sempre desafiador refletir sobre os caminhos que nos impulsionam. Perceber, por exemplo, a grande metáfora que nos motiva a transcorrer sobre o ciclo das águas, agora, é um deixar-se guiar pelo convite de uma artista como Rosa De Luca, que, com suas fotografias, provoca em nós uma apreensão dos deslocamentos os quais a existência não se cansa de nos apresentar. É essa liquidez de sentimentos dispersos que também nos leva a abraçar a verve poética de pessoas como Rita Santana, Tristan Guimet, Tatiana Druck, Wender Montenegro, Floriano Martins e Vítor Nascimento Sá. Seguindo a corrente dos signos, entrevistamos o escritor e jornalista Sérgio Tavares, que dividiu conosco um pouco da sua trajetória literária, sobretudo no que se refere ao seu novo livro, ”Queda da própria altura”, obra que se presta a um digno mergulho de cunho intimista. No ato de construir histórias, Lisa Alves, Anderson Fonseca e Vera Helena Rossi demarcam, através de seus contos, universos peculiares para os desatinos humanos. A memória do poeta cearense Francisco Carvalho é celebrada no texto de Clarissa Macedo. O instigante “Dentro da Casa”, filme do diretor francês François Ozon, ganha espaço na resenha de Larissa Mendes. Das paragens mineiras para o nosso caderno musical, vem o belo trabalho de Luiza Brina e O Liquidificador. Numa alusão ao curso interminável das águas, deixamos fluir uma nova Leva, com toda a vontade de que os caminhos materializem cada vez mais o ideal de continuidade.

 

Os Leveiros