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106ª Leva - 09/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Sinisia Coni
Foto: Sinisia Coni

Mais uma etapa de encontros consolida-se na Diversos Afins. Nossa missão editorial ganha corpo na medida em que conseguimos expandir as fronteiras do diálogo. Atrair pessoas e fazê-las expressarem as suas epifanias pessoais é algo relevante. Cada colaborador que se une ao nosso projeto ajuda a compor um vasto e incessante mosaico de sensações. Nada é linear. Se somos seres distintos, carregando uma determinada marca de individualidade, é porque no somatório das ações não damos crédito à conformidade das coisas. A concordância plena não passa de um devaneio sem forças para seguir adiante. É na multiplicidade do pensamento que tudo ganha mais vigoroso sentido. Quão fabulosa é a literatura na medida em que consegue fazer desfilar tantas mentes de características diferentes. Ao fim, o que cada autor vem apresentar aqui na revista é a sua capacidade única de vislumbrar a existência.  Por vezes, quantos de nós não explicitamos o desejo de construir uma obra semelhante a de alguém? No entanto, essa vontade, movida por um sentimento de identificação, mais uma vez reafirma o poder da diferenciação entre as pessoas. Definitivamente, nenhum criador é igual ao outro. Daí, a grandeza da arte sob os seus mais variados aspectos. Hoje, com a participação valiosa de escritores e artistas, completamos 106 investidas à frente da revista. Importa saber que há o eco singular da voz de poetas do quilate de Rita Medusa, Airton Souza, Roberta Tostes Daniel, Ana Peluso e André Rosa. Vale a pena contemplar as sutilezas humanas expostas no trabalho da fotógrafa Sinisia Coni. É recompensador ouvirmos o que tem a dizer o nosso entrevistado de então, o experiente músico Sabará, baterista, professor e verdadeiro símbolo da cultura baiana há mais de meio século. No quesito prosa, Vanessa Maranha, Caio Russo, Aden Leonardo e Geraldo Lima vêm fazer do mundo um observatório de ideias e outros tantos contextos. É Guilherme Preger quem nos chama atenção para a elaboração do filme “Táxi Teerã”, nova produção do diretor iraniano Jafar Panahi. Larissa Mendes destaca a marca das sonoridades de “Júpiter”, mais recente disco do cantor e compositor SILVA. “O beijo na parede”, romance de Jeferson Tenório, é cuidadosamente sondado pelo olhar apurado de Sérgio Tavares. No âmago de cada imagem ou palavra que compõe a nossa mais nova Leva, a vida assume contornos próprios. A vocês, caros leitores, ofertamos mais um experimentar de sensações. Boas leituras!

Os Leveiros

 

 

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106ª Leva - 09/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Airton Souza

 

Sinisia Coni
Foto: Sinisia Coni

 

excomungo a dor do desamor
eclesiástico o coração bailarino
deixa para trás o compasso

rego a carga amarga
que traz esse girassol solitário
repleto de semântica
& nenhum resíduo metafísico

intento fuga

ditoso na perdulária
insinuo sutilezas
com a invenção
tácita das rugas

é certo que ainda não percebemos:
a madrugada?
é só um varal teimoso.

 

 
***

 

 
te veste de enseada, fende
a geometria das flores, veja,
o ilusão é um barco de auroras
orbitado de cinzas
adubado jardim
revestido de inverdades

contemplar a loucura
é mais selvagem
que aplaudir o louco

por isso cultivo mentiras

pelas tuas Iris
recolho arbustos
tenho neles
a mesma mania
de girassóis amanhecidos.

 

 

 

 

***

 

 

 
traçaremos o teu itinerário
a rota exporta
em um compêndio
………………………………..estranho

acomodado
para viagem de retorno ao pó
& renúncia

penso que agora
sabes escutar silêncios
mais que a noite
enquanto eu bebo
a cronológica infância.

 

 

 

***

 

 

 
tecemos um porto atomizado
& sem a cor dos enredos
………………………………….absurdos
das rotineiras cidades acetinadas

segredamos o medo do escurejar
quando as mãos ainda
não tateavam sentidos

um campo nos convocou
apressado fortes sem dizer
……………………………………….(a)deus
agora deixo sempre a porta aberta
e o peito em riste
ca(n)tando paradigmas.

 

 

 
***

 

 

 

chegaremos de corpo & alma
ao outro lado
da metafísica emparedada

mastigamos até aqui
………………………………………inquietações
[sa(n)grada idade]
no tenso mundo

avesso a dialética
com sua carga interdita
a forjar caminhos
vagamos aventureiros
no que funde perenidades

pela certeza:
há melodias e cartilagens
na árdua tarefa de ser humano.

 

 

 

***

 

 

 
impossível recompor o homem
decomposto pai
plasmado com o brando da casa

nas minhas costas
incrustaram os sóis dos dias

se configuro fatalidades
não suicidarei a inteira frequência
de cenas & centelhas
diariando ressentimentos
iguais aos dos navios
envelhecidos com as cicatrizes das águas

esvaziado de emoção
descobrir que a infância aflige
o recôndito espírito na existência de mim

levo ressentimentos desiludidos
de atormentar destinos.

 

Airton Souza é poeta e professor, nasceu em Marabá, no Pará. Licenciado em História e pós-graduado em metodologia do ensino de História, além de licenciado em Letras – Língua portuguesa, pela UNIFESSPA – Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará. Tem participação em mais de 60 antologias literárias. Publicou 20 livros de poemas.