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81ª Leva - 07/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Ilustração: Mario Baratta

 

Passadas as celebrações de 7 anos da revista, um questionamento se faz presente: quais expectativas nutrimos em relação ao que está por vir? Por mais que projetemos o futuro de nossas ações da forma mais positiva possível, nada terá mais sentido do que valorarmos o que nos acontece por agora. Mesmo sabendo que uma boa espera governa os objetivos dum amanhã, estamos certos de que a poética dos bons encontros e descobertas atua a cada instante. É, por exemplo, o que vislumbramos quando organizamos uma nova edição em meio às perspectivas criadas pela exposição dos trabalhos de Mario Baratta, artista que nos cativa pela singularidade e simplicidade de seus registros. Suas ilustrações, por sua vez, estruturam pontes de diálogo com os versos de Iolanda Costa, Elizabeth Hazin, Alberto Lins Caldas, Mônica Mello e João Urubu. Noutro ponto dessa jornada, há também a interação das imagens com as prosas de Lizziane Negromonte Azevedo, Rosa Pena e Tere Tavares. Para falar um pouco sobre outras especiais e poéticas dimensões propiciadas pela fotografia, entrevistamos Peterson Azevedo. Sob os olhares atentos de Guilherme Preger, testemunhamos as complexas reflexões do filme francês “Augustine”. O livro de poemas “Memórias de um hiperbóreo”, de Oleg Almeida, é objeto das sensíveis observações de Rejane Machado. Dentro do novo panorama da música brasileira, Larissa Mendes destaca os predicados de Vazio Tropical, mais recente disco do cantor e compositor Wado. A resenha de Luciana Oliveira percorre as vias obscuras de “Os encantos do sol”, segundo romance de Mayrant Gallo. E assim surge a 81ª Leva, marcada pelo ritual das esperas que se fazem algo concreto e palpável quando você, caro leitor, deitar olhos sobre tudo e conduzir as leituras a partir de seu lugar no mundo, condição esta que nos impulsiona adiante, rumo a uma saborosa sensação de misterioso devir. Evoé!

 

Os Leveiros

 

 

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81ª Leva - 07/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Alberto Lins Caldas

 

Ilustração: Mario Baratta

 

assim a dor o sofrimento

 

assim a dor o sofrimento
sob a língua é só deserto
entre os dentes o q sobra

se perguntasse – o vazio
se negasse – só o vazio
se dissesse – não sabia

todos esses tão perfeitos
não sentem fome – a fome
essa satisfeita com osso

todos esses são felizes
?os q sofrem são de carne
então por q não se devoram

todos na mesma sombra
todos na mesma crença
uns na brasa outros rindo

só vivemos nessa dança
só bebemos esse cálice
sal q tempera a morte

 

 

***

 

 

é preciso

 

é preciso
muito mais superfície
pra dizer o essencial

mais ondas
e em todas essas ondas
o mar

não o ruído
mas todos os ruídos
enfim o tecido e o rato

jamais o silêncio
mas todos os silêncios
só assim o não

é preciso esquecer
tão completamente
q  nem sei

depois estarrecido
tocar a máscara nua
assim o corpo sabe

não apenas o entre nós
o jorrar dentro e além
mas a ferida e a hora

agora é sempre
por isso não se afaste
não há tempo a perder

 

 

***

 

 

não sabemos eu e o imperador

 

não sabemos eu e o imperador
como tudo isso começou
como brasas pegam fogo

como nossa paz nosso bem
nossos servos se transtornaram
e tudo quer nos destruir e apagar

não sabemos qual a hora o lugar
o momento preciso em q a onda
a onda se tornou esse mar

não sabemos eu e o imperador
se haverá futuro ou bem querer
pros nossos os nossos bem amados

temos medo dos metais afiados
enquanto escondemos os pesados
bem longe desse mundo q aderna

não dormimos há tanto tempo
q o sono nos domina e prende
enquanto eles devoram tudo

 

 

***

 

 

correr pela treva

 

correr pela treva
chamando o q passou
é fogo morto é fogo fátuo

chamar os vivos os homens
por um desejo q não é deles
é fogo morto é fogo fátuo

querer a clara chama
quando tudo é escuridão
é fogo morto é fogo fátuo

admirar essas coisas
o q se dispõe como gente
é fogo morto é fogo fátuo

gritar assim tão infeliz
quando ninguém pode ouvir
é fogo morto é fogo fátuo

o q não jorra da violência
essa bruta potência entre nós
é fogo morto é fogo fátuo

 

(Alberto Lins Caldas publicou os livros de contos “Babel” (Revan, Rio de Janeiro, 2001) e “Gorgonas” (Cepe, Recife, 2008); o romance “Senhor Krauze” (Revan, Rio de Janeiro, 2009), o livro de poemas “Minos” (Ibis Libris, Rio de Janeiro, 2011) e colabora em várias revistas literárias e blogs de literatura e arte)