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155ª Leva Janelas Poéticas

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

YAGO OPROPRIO – OPROPRIO

 

 

Se a origem hebraica do nome Yago remete a vencedor, Oproprio dá a letra e sobrenome ao jovem artista colecionador de isqueiros e de belas canções. Criado entre a Zona Leste de São Paulo, a interiorana São José dos Campos e a Venezuela, Yago vem obtendo destaque na cena musical com seu estilo singular e inovador, onde mescla elementos do rap tradicional com influências de boom bap, MPB e de música latina (graças aos anos de sua adolescência vividos no país de Maduro em companhia da mãe). Suas letras abordam temas cotidianos e experiências pessoais, criando uma conexão imediata e genuína com quem sequer esbarra em sua sonoridade. Aos 30 anos recém-comemorados no palco, o rapper convive desde berço com a arte. Cristiano Carvalho, seu pai, é um dos fundadores do coletivo paulistano Dolores e um Yago ainda menino já frequentava os saraus do Jardim Triana.

Em maio passado, o músico lançou seu álbum de estreia, intitulado OPROPRIO (2024), pela gravadora Som Livre. Antes do lançamento da obra, ele já havia chamado atenção em sua participação no single Imprevisto (2022), do rapper Rô Rosa, e com as 5 faixas de seu EP O Inquilino (2023). Além disso, possui parcerias em inúmeras canções com promissores artistas nacionais do pop, funk e neo-soul, como Tupi, MC TH, Jean Tassy e Iuri Rio Branco. E se prepara para lançar um samba em breve.

 

Foto: divulgação

 

Logo de cara, a capa d’OPROPRIO chama atenção por se tratar de uma pintura em cores primárias do artista plástico Rodrigo Branco. A boca borrada e os olhos atentos podem fazer alusão ao trap de influência latina La Noche (trago a visão pra quem não enxerga mais/a voz que busca a paz de todos que ficaram mudos), que abre o álbum e narra o drama de encarar o “trampo” após um “rolê insano” — pra não dizer que não falei das gírias. Inofensiva (mas toda noite eu rezo e peço minhas desculpas/tão cristã minha culpa/deixa eu só cumprir minha missão), espécie de continuação da faixa anterior, explora a complexidade da conduta humana e o eterno duelo entre certo e errado. Já a soturna Catedrais é descrente de Jesus ou Satanás, porém apoia todos que pregam a paz. E ainda traz um verso de “Cristiano Opai”(disse pra atentar minha chegada/e ver se a rua tá livre de ser autuada”), sua primeira referência artística.

O bloco seguinte ganhou o repeat da minha playlist e meu coração todinho. Se Fora do Tom (vou juntando meus pedaços pra saber quem sou/distribuindo meus retalhos por aí/vou descobrir como chegar a pé) é poesia pura de quem atravessa uma crise ou o caos completo, Melhor Que Ontem (nada do que foi vai voltar/e o ponteiro do relógio serve pra não esquecer/que na vida tudo passa, a dor, a paz, a graça/o tempo é professor e nos ensina a viver) é um sopro de esperança e transmutação – e  talvez seja a mais bela faixa do álbum e de todo 2024. Enigma (mas se você me conquistar/abro os caminhos pra gente tentar entender/e os meus segredos você pode desvendar/que eu guardo num lugar que eu nunca sei falar/nem sei dizer) aborda aquelas conexões amorosas intensas, por vezes até confusas, mas extremamente raras; e por fim, Modus Operandi (eu não mereço todas dores desse mundo/se eu me confundo, num segundo eu perco tudo/(…) e quanto mais o tempo passa, eu me confundo/eu grito alto e o desespero deixa mudo/Mas se eu pudesse congelar o tempo, eu evitava tudo) questiona a dualidade de um amor meio tóxico.

Enquanto Papoulas (eu procurei, não achei respostas/decifrando o jeito que cê veio incomum/a tua postura tão proposta/cativou no peito e eu não quero mais jejum) encerra o bloco “love songs” através de sua visceralidade, a engajada Jejum (tamo pensando em um por um, que revolta cada um/linha do tempo pode nos comprometer/se te incomoda еsse jejum, temos dorеs em comum/basta nóis saber reconhecer) desencadeia o desejo de protestar contra o absurdo da vez e sobra até para o mascote da Lacoste. O álbum encerra com todo o astral de Linha Azul (e eu ficando bolado com tudo/de tudo que eu não teria que fazer/se a cada metrô que eu pegasse/eu não deixasse meu rango do mês), faixa composta em 2019 que soa quase como uma ciranda e tem a energia e a inocência de uma cantiga de roda.

Com produção musical de Patricio Sid (idealizador do projeto Nômade), as 10 faixas de OPROPRIO são marcadas por um flow melódico e rimas que refletem questões ordinárias da vida com ironia e “sagacidade”, como bem dito em La Noche. Se suas influências latinas incluem nomes como Calle 13, Orishas e Don Omar, a brasilidade tem o peso de Sabotage (Yago participou da faixa Maloca É Maré com Iuri Rio Branco no álbum comemorativo Sabotage 50), Racionais, Duda Marapé (MC assassinado em 2011 e citado em Amor Incendiário, de O Inquilino), Chico Buarque, Moreira da Silva, Pedro Luís e Criolo — que já foi abordado na rua por um Yago fã e não poupa elogios ao hoje colega. Somado a todo o talento poético, o artista tem carisma, uma voz inconfundível e um jeito de cantar articuladamente despretensioso, o que confere a ele um estilo muito “próprio” (com o perdão do trocadilho) no hip-hop nacional. Yago é mago das palavras e tudo que toca vira obra-prima.

 

 

(Larissa Mendes foi desapropriada de suas palavras e playlists e só tem ouvidos para o Mago Yago)

 

 

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153ª Leva - 01/2024 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

MILTON NASCIMENTO E ESPERANZA SPALDING – MILTON + ESPERANZA

 

 

A passagem do tempo vai revelando em nós camadas difusas através das quais a vida se dilui e transcorre. E se já não somos mais os mesmos de outrora, talvez consigamos preservar acesa em nós a chama de certos sonhos, estes que foram arroubos de juventude ou que ainda representam algo significativo no campo da contemplação, bastando apenas que consigamos conceder-lhes sentidos ativos.

De todo modo, a coleção de vivências que experimentamos pode estar inscrita em nós até os ossos, delineando reminiscências, o gosto de uma pretérita existência desfrutada com intensidade ou certa dose de romantismo. Pode ser também expressa num desejo de futuro a ser construído não como mera condição de espera, mas como movimento dinâmico de busca.

Imagino que as linhas acima possam traduzir um pouco do que a escuta do álbum Milton + esperanza demonstra sugerir. Se a voz já não empresta aquele vigor do passado, Milton Nascimento deixa impregnada nesse mais recente disco a sua alma, uma esfera da existência importante que, apesar das investidas limitadoras do tempo rei, não subtrai desse momento o amor pela música, senhora esta que povoa as paisagens da vida do artista desde sempre, oferecendo-lhe um manancial de imagens sensíveis e provocadoras.

A produção desse disco deveras especial é de Esperanza Spalding que, convidada pelo filho do compositor numa conversa informal quando da turnê de despedida de Milton dos palcos, topou a missão. Mas o ingrediente que se soma a essa tarefa é o fato de que a artista tem uma enorme admiração pela obra dele, tendo já gravado coisas do músico, dividido palcos, estreitando uma relação de amizade que sabidamente já dura alguns bons anos. O resultado dessa parceria materializa agora um projeto cujo apuro está tanto no esmero com a produção e arranjos, mas sobretudo pela condução vocal que os dois parceiros de jornada souberam fazer nas 16 faixas.

Os caminhos iniciais do disco sinalizam para a importância transformadora da música. Que o diga a primeira faixa, “the music was there”, que, funcionando como uma espécie de intro, mostra um Milton a revelar o quanto a sua veia compositora se vale daquilo que emana das imagens que o povoam por dentro e por fora. Esse gesto confessional é testemunhado como o registro de um diálogo em que as reações de Esperanza são marcadas por sonoras e suaves risadas e suspiros de concordância. Vale ressaltar que esse clima de conversa entre os dois artistas também se estende a outros momentos do disco, como é o caso das trocas que aparecem em “outro planeta”, parte em que Milton enaltece tudo o que o motiva a compor: amizade, amor, crianças, o mar, a vida.

Logo na sequência, difícil não se emocionar com a roupagem dada à majestosa “Cais”, cujo arranjo consegue preservar a essência definidora da canção. Na curta “Late September”, visualizamos a assinatura artística de Esperanza como se representasse uma pequena demonstração da verve jazzística contemporânea virtuosa da musicista.

“Outubro”, originalmente gravada no belíssimo Courage (1968), segundo disco da carreira de Milton Nascimento,  atravessa as dobras do tempo com um ânimo novo, mas sem abrir mão da ambiência poética que lhe é característica. Ao lado de Esperanza, Milton preserva a intensidade existencial que torna a canção uma das composições mais representativas de sua obra. Trata-se de um olhar profundo sobre o lugar do sujeito no mundo, a coleção de lembranças, ações e imagens que o permitem esboçar a partida rumo a um porvir envolto em mistério, quiçá aquilo que denominamos por morte sem ter certeza de absolutamente nada. A faixa, com seus belos requintes jazzísticos regados ao marcante contrabaixo acústico de Esperanza, bem como piano e flauta, nos lembra que, antes de mais nada, estamos ocupados mesmo é de viver.

 

Milton e Esperanza / Foto: Lucas Nogueira

 

“A Day In The Life”, icônica composição dos Beatles, vem embalada pelo suave diálogo entre violão e piano, harmonizando as vozes de Milton e Esperanza à atmosfera central da canção. Nesse sentido, a proposta original da música permanece, divisando o arranjo em esferas distintas de intensidade. E tal gesto é deveras necessário, pois as subidas e descidas da música são sua marca inalienável, como um mosaico de cenários difusos agora ainda mais recheados pela escolha de sua base instrumental.

Há um sentimento pueril rondando “Saci”, cujas gargalhadas de Milton ao final da faixa marcam o espaço brincante da canção. Diga-se de passagem, tal emblema de espontaneidade parece mostrar uma intenção deliberada de captar a atmosfera descontraída e leve que povoou a feitura do disco.

Em “Wings for the Thought Bird”, mais uma vez a marca pessoal de Esperanza, com sua potencialidade instrumental confere tons especiais ao trabalho. E o destaque aqui está principalmente nos vocalizes com os quais a cantora atravessa toda a faixa.

Mas vejamos que “Earth Song”, emotiva e, por que não dizer, filosófica letra de Michael Jackson, ganha uma roupagem mais lenta, jazzística e povoada pela interpretação de Diane Reeves cujo potencial dota a música de um lirismo especial. Assim, do ímpeto original da gravação do rei do pop, o crescendo da canção permanece até que tudo se resolva em leveza ao fim. Uma delicadeza sem par com a participação de Milton nos vocais.

Cabe lembrar que tanto a composição de Michael quanto a dos Beatles foram escolhas especiais de Milton. De resto, Esperanza teve a liberdade de selecionar o repertório do disco, imprimindo nesse rol de opções os reflexos de seu enorme apreço pelo universo sonoro do artista, atitude confessadamente amorosa da musicista.

Sem dúvida uma das maiores composições de Milton, “Morro Velho” surge revisitada com todo o requinte de piano e da luxuosa contribuição da Orquestra Ouro Preto. Nela, a voz de Milton ganha beleza e dialoga com a de Esperanza com toda a pulsação de uma entrega recheada de sutilezas sonoras. E é isso que o arranjo escolhido imprime à canção, agora contemplada com uma atmosfera marcada pela leveza.

“Saudade Dos Aviões Da Panair (Conversando no Bar)” é uma rica reunião das vozes  de Milton, Esperanza, Maria Gadú, Tim Bernardes e Lianne La Havas, todos irmanados num tom que reforça a alma fundante da composição. Aqui, a opção pela inserção dos vocalizes em coro logo no início da canção, além de subverter a ordem original da música, gravada em 1975 no brilhante álbum Minas, trouxe uma atmosfera diferenciada como se antecipasse o apogeu que se consolida no fim da música.

E que tal um Paul Simon cantando em português junto com Milton? Assim o é em “Um vento passou (para Paul Simon)”, faixa que evoca a fortuna da amizade como um legado que concede valor à vida marcada pelo impacto das memórias. “Coração se aqueceu/Agora ao lembrar de você/Amizade é um dom/Que precisa merecer/Nesta vida, nesta história/Não esquecer/O silêncio é o som/Que não cabe mais no ar/(…), diz um dos trechos.

No começo deste texto, falei um pouco sobre sonhos, essa perspectiva que todos trazemos de algum modo como sendo a ponta de um iceberg em sua quase totalidade inexplorado. E mais do que meras aspirações e preces ao porvir, eles talvez possam se configurar como o anseio de uma entrega ao oceano do desconhecido, corpos e mentes velejando pela imensidão dos mistérios humanos. E faz jus a esse complexo de sensações a última faixa do disco, a requintada e jazzística “When You Dream”, composição que prima pela abundância sonora, cujas intensidades vocais e instrumentais encerram bem a jornada aqui proposta.

Milton + esperanza é um disco muito bem cuidado, soma de energias que se integram pelo propósito mais genuíno da música, qual seja o de provocar em cada ouvinte esferas múltiplas e também singulares de percepção. Acima de tudo, é um álbum construído pela força dos encontros entre gente que tem apreço por gente, colocando no ponto mais alto das apreciações o amor e a amizade.  

 

 

Fabrício Brandão é editor da Diversos Afins, sonhador, míope, baterista amador, gosta de labutar com as palavras e de construir enredos para os espantos existenciais. 

 

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146ª Leva - 01/2022 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

SILVA – DE LÁ ATÉ AQUI (2011-2021)

 

 

O cantor, compositor e instrumentista capixaba Silva celebra uma década de serviços prestados à música brasileira (boa parte deles registrados pelo Gramofone) com um álbum de releituras de suas canções. Como bem disse o artista em um de seus tweets: “10 anos é muita coisa. Mas é só o começo também”. Sem delongas, de forma orgânica, com voz e violão — e no máximo com um violino ou um “tecladinho”, o mesmo que o consagrou no início de carreira, quando disponibilizou o EP Silva (2011) na internet — o disco passeia por uma dezena de anos de seu (já vasto) repertório. De Lá Até Aqui (2011-2021) compila 10 faixas acústicas sem ordem cronológica, sem obviedades e (quase) sem hits: novos arranjos dão frescor a algumas parcerias, covers e b-sides.

A única canção inédita, Pra Te Dizer Que Tô Feliz Assim (meu caminho não é reto pra lá/ninguém me falou onde é que ia dar/eu saí com a certeza de errar/cheguei pra não voltar), abre o álbum sintetizando a própria trajetória de criador e criatura, que tem suas raízes calcadas na música erudita, porém já transitou por diversos gêneros. Canções recentes como No Seu Lençol, do antecessor Cinco (2020), mesclam-se com outras antigas como Cansei (cansei dos inquilinos/da minha solidão/olhar você dormir/não é compensação), do álbum de estreia Claridão (2012), que aqui despe-se de toda sua roupagem eletrônica, ficando impressionantemente ainda mais bonita. Fazem parte do álbum também versões de músicas um pouco mais populares, inicialmente lançadas em parceria, caso de Um Pôr do Sol na Praia, gravada com a funkeira Ludmilla em 2019, e Pra Vida Inteira, dueto com a baiana Ivete Sangalo, em 2020.

 

Silva / Foto: divulgação

 

Os destaques ficam a cargo de Não É Fácil, do impecável repertório de Silva Canta Marisa (2016), e o “achado” Amantes (eu conto as horas/que faltam para o dia que vem/não quero mais/dividir esse amor com ninguém), canção de 2000 do grupo de axé Ara Ketu, que como o próprio nome sugere, aborda as agruras de não ser o(a) parceiro(a) oficial de seu grande amor. A canção fazia parte dos shows da turnê de Bloco do SilvaAo Vivo (2019) e aparece completamente repaginada da original — com uma intro a la Roberto Carlos — e talvez soe inédita para grande parte do público. Completam o álbum Ainda, de Vista Pro Mar (2014), que mantém o mesmo ar intimista, e Sou Desse Jeito, de Júpiter (2015), que perdeu todos os sintetizadores e ganhou visceralidade com um solo de violino — que lembra um trecho de A Visita, seu primeiro sucesso. Cabe ainda toda a doçura de Duas da Tarde, do disco Brasileiro (2018), grande divisor de águas que aproximou Silva da tropicalidade e de um universo tão popular quanto seu nome.

Todas as faixas de De Lá Até Aqui ganharam clipes em P&B e estão disponíveis no canal do artista no YouTube. Gravado inteiramente em sua casa na região serrana do Espírito Santo — na companhia do irmão e parceiro musical, Lucas Silva — , a residência serviu também como locação da produção audiovisual. Como diz um trecho de Pra Te Dizer Que Tô Feliz Assim, o caminho sonoro de Silva nunca foi “reto pra lá”. Suas andanças e experimentações musicais o trouxeram “de lá até aqui” e ainda o levarão muito longe. Com todo o mérito, o futuro de Silva é promissor, deliciosamente incerto e recém começou.

 

 

 

Larissa Mendes e o Gramofone têm muito orgulho em acompanhar Silva de lá até aqui, e muito provavelmente, daqui pra frente também.

 

 

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141ª Leva - 01/2021 Destaques Gramofone

Gramofone

por Larissa Mendes

 

SILVA – CINCO

 

 

“A música é o meu chão. É onde eu encontro sentido para as coisas e para esse mundo tão controverso. Fazer música, em sua grande diversidade de sentidos e significados, é a minha razão de viver. Hoje, vivendo de música, nunca imaginei chegar tão longe. E já que tão longe cheguei, chego também ao meu quinto disco autoral, que muito intencionalmente se chama Cinco. Cinco sou eu, Silva, com 5 letras e Lúcio, também com cinco letras (…)”. Numerologia à parte, o fato é que Silva chegou e permaneceu. O menino capixaba e tímido de Claridão (2012) deixou a barba crescer em Vista Pro Mar (2014)  e  Júpiter (2015)  e deixou também de ser promessa para hoje figurar como um dos principais expoentes da nova música brasileira. Lançado em dezembro nas plataformas digitais, Cinco – décimo álbum de carreira, incluindo quatro discos ao vivo e Silva Canta Marisa (2016) – traça uma continuidade natural do seu antecessor de estúdio, Brasileiro (2018). Finalizado durante a quarentena, Silva, que já havia lançado Ao Vivo em Lisboa no primeiro semestre, celebra genuinamente, mais uma vez, o amor e suas facetas: chegadas e partidas, idas e vindas, do encantamento a depois do fim, com serenidade, esperança e um pouco de sarcasmo.

 

Silva / Foto: divulgação

 

O ska sessentista Passou Passou, primeiro single divulgado, tem clipe em plano-sequência com o músico equilibrando-se em uma tiny house em movimento, enquanto despede-se em tom de deboche de um amor que tem que ir embora de sua vida. O suingue de Sorriso de Agogô (tira essa poeira dos olhos/vem pra ver como nasceram os sonhos/o depois a gente faz é agora/não dá pra adiar) e No Seu Lençol (como se fosse um dia bom/você sorriu e é bem melhor/morar aqui no seu lençol) evidenciam a tropicalidade do álbum composto com o sempre parceiro Lucas Silva, em passagem dos irmãos por Caraíva (BA). Enquanto a densa Pausa para a Solidão (pausa para a despedida/já não sei como expressar/que não encontrei saída) exalta com maturidade o fim de um ciclo, Não Vai Ter Fim (o amor é parte de tudo/é parte do mundo/é parte de mim) parece saída do repertório de Roberto Carlos e se não houvesse pandemia, possivelmente o compositor dividiria os vocais com o Rei em seu especial de fim de ano. A canção de quarentena Jogo Estranho (trancado nessa casa/acendo meu cigarro/e pego um violão/olhando da janela/eu tomo um outro trago/dessa solidão) contrasta com a sensual Facinho (eu gosto e fico tranquilo juntinho/cama, sofá ou de pé, de ladinho/ai, isso é bom, muito bom, já parei de contar), espécie de ska em dueto com Anitta, repetindo a parceria de Fica Tudo Bem, gravado com a funkeira em Brasileiro.

A balada Você (é que quando acordei de manhã/eu tentei te esquecer/e esqueci que o querer é um mar turbulento/não tenho um alento, nem sei velejar) e a bossa Quimera (pra que sentir/coração feito de água/não vou mentir/a saudade me naufraga/quando acalmar/e eu nem sequer te lembrar/vou amar de novo) relacionam poeticamente a saudade aos movimentos do mar. Se a acústica Não Sei Rezar (ainda é cedo pra falar de amor/é melhor fingir não ser/não quero atropelar você, meu bem/e por tudo a perder), ironicamente, mais parece uma prece, tamanha simplicidade e beleza, Furada (eu sei qual o seu perfume/sei que é bom/mas não, não vou mais cair na cilada/você finge ter poderes que não tem/ai, ai, essa sua lábia é furada) diverte como a troca de mensagens com um “contatinho”. O disco conta também com a participação do icônico João Donato no jazz Quem Disse (tem coisas que a vida nos dá/tem coisas que são como um dom/é dom te querer e depois/vou te requerer) – que tem lindos arranjos de sopro e piano e do profeta do Grajaú, Criolo na “afro-baiana” Soprou (te vejo no céu/te sinto no ar/no vento uma brisa que vem me acalmar). Além de dividir os vocais com Silva, o rapper compôs a segunda parte da letra, com versos como “controverso diverso disperso/tua pele na minha é verbo/minha boca na tua é luar”. O delicioso samba Má Situação (eu nunca me importei/com as coisas que não sei/somente com você/que não conheço/já tenho um grande apreço) dá o tom final em ritmo de amor platônico: que atire o primeiro bilhete único quem nunca se apaixonou por um(a) desconhecido(a) próximo à plataforma de embarque.

Há que se destacar também o projeto Bloco do Silva (2019) turnê onde o cantor revisitou o melhor dos hits carnavalescos, sobretudo dos anos 90, passando por sucessos do axé, frevo, samba e MPB , o que lhe rendeu desenvoltura suficiente para transitar com tanta despretensão pela brasilidade de Cinco. O álbum marca ainda o rompimento do artista com o selo SLAP (Som Livre), o que talvez explique o ritmo frenético de lançamento de seus álbuns em apenas uma década de atividade. As 14 faixas do trabalho destrincham com ritmo, poesia e refrão(!) o sentimento mais puro e complexo que carregamos no peito. E os irmãos Lúcio e Lucas, como bons artesãos a serviço da música, traduzem de forma orgânica e atemporal tal engenhoca. Então, tire essa poeira das orelhas e ouça Silva (5 letras), agora (5)!

 

 

Larissa Mendes, 13 letras, tem na música o seu céu.

 

 

 

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140ª Leva - 07/2020 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

VARAL ESTRELA – VARAL ESTRELA

 

 

“Da última vez que nos vimos, você disse que visto daqui, do interior, o céu é mais bonito, de um azul-anil-marinho-royal-bic”. Empresto meus próprios versos de Ciclo Curto para tentar definir as nuances da banda que mistura noite estrelada com literatura de cordel e possui cheiro de terra molhada no atual quintal musical brasileiro. Formada há três anos e meio em Itapeva (SP) e radicada em São Paulo, Varal Estrela é composta por Thaís Rolim (vocal), Rodolfo Braga (guitarra), Lucas Silva (guitarra) e Thalles Macedo (contra-baixo). Lançado no final de 2019 através de uma campanha de financiamento coletivo, o disco de estreia possui influências de MPB, indie e pop. Enquanto a vertente dos músicos sempre foi o rock’n’roll (os rapazes integravam o PBB Pink Big Balls), Thaís entoava sua voz junto aos batuques de umbanda da Paranambuco, em sua passagem por terras curitibanas. Disponível em todas as plataformas digitais, o álbum homônimo celebra esta mistura sonora de [re]encontro e exalta todos os artistas interioranos.

Casarão, assim como sinaliza um de seus versos, “escancara os seus portões” para adentrarmos em toda pluralidade da Varal. Maria, primeiro single lançado, composição da vocalista Thaís Rolim é uma homenagem à filha de um casal de amigos. Se fosse uma canção de ninar, seria daquelas que faz você querer mudar de nome apenas para tê-la um pouco sua. O pop-rock Guri (desfila seus pés de moleque/sobre calçadas e quintais/por aqui te chamam guri/na pedra ao lado te chamam piá), dueto com Hugo Rafael (Sambô), discorre sobre a infância de várzea de tantos meninos (guris ou piás, como chamamos no sul). Primeira Canção de Amor (você me abraçou/e não houve jeito/meu ninho em seu peito/estava feito) — talvez a mais bela canção do álbum — tece sobre amor e liberdade e atinge o ápice da doçura e potência vocal de Thaís, que lembra o timbre de Elis Regina. A instrumental Um Trem pra Capital tem clipe recém-lançado, gravado em plano-sequência no apartamento dos meninos (Thaís gravou de sua casa) e funcionaria tranquilamente na abertura de uma série de TV, comprovando toda a habilidade dos instrumentistas. A explosiva Furacão (sou o olho do furacão/sou movimento que só vai/sou a lava do vulcão/derretendo e escorrendo/dentro de mim) abre uma espécie de lado B do disco flertando com o maracatu, o que deixaria Mestre Salustiano orgulhoso em seu céu de rabeca. Se as doces Seguir (eu sei/você tentou me avisar/deixou a porta aberta/e foi pra não voltar) e Sem Fim são baladas de [des]amores que transmutam, o rock Viagem Astral (aqui nos vemos como somos/sem maquiagens, mentiras ou planos/expandindo nossa consciência/fluindo com a correnteza) simplesmente transcende e arrebata. Passarinho (minha raiz é movediça/estou em casa onde for/eu já me acostumei ao movimento/por onde eu passo/sou onda de amor) finaliza o primeiro vôo da Varal Estrela em grande estilo, ao som de samba e ijexá — ritmo nigeriano.

 

Varal Estrela / Foto: divulgação

 

A arte deste primeiro compilado de canções foi produzida em xilogravura por J. Borges, outro interiorano — dessa vez de Pernambuco. O artista ilustrou o álbum em consonância com as dez faixas autorais, dialogando com as lendas e histórias que envolvem Itapeva. O momento de quarentena rendeu ao grupo algumas parcerias em composições e projetos, tais como as canções de “MVB” (Música Virtual Brasileira) A Cura (a curva achatada/a porta fechada/a cabeça aberta/e o coração cheio), com participação de Hugo Rafael, Camilo Macedo, Tiago Giovani e Ítalo Riber, e Camarada (a face do futuro te afrontaria/pra te dizer que os fatos/vão tecendo nós), parceria com Lucas Gonçalves (Maglore). Além disso, no canal oficial da banda no YouTube, encontram-se inúmeros episódios do programa Varal Resenha, divertido bate-papo, onde os convidados abordam suas origens e influências musicais. Como frisa o release do álbum: “Distantes de megalópoles e megalomanias, nós, os artistas enraizados à margem, somos resistentes e sonhadores, em essência. Dar asas às produções para migrá-las aos grandes centros representa um esforço quase que aos moldes de Sísifo, no entanto a recompensa por elevar uma pedra até o cume de uma montanha é imensurável. Sim, nós sabemos, certos mitos existem para serem derrubados”. E é com esse entusiasmo que o grupo pretende disseminar suas mensagens, sonhos e saudades. Para isso, em uma noite qualquer, basta aumentar o som, deitar na grama ou no sofá, olhar para o céu ou para o teto. Com as bênçãos de Salú ou de Sísifo, Varal Estrela é uma constelação inteira, é luz que vem de dentro.

 

Larissa Mendes nasceu no interior catarinense, também tem Maria no nome e ainda se pergunta o que é, o que é. 

 

 

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73ª Leva - 11/2012 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

DELIA FISCHER – PRESENTE

 

 

Quando nos deparamos com a descoberta de um disco, muitas podem ser as direções para as quais nossos sentidos apontam. Se arranjos, vocais e toda a ambientação instrumental já são, por si sós, componentes indispensáveis de um adequado conjunto sonoro, imagine os efeitos quando uma determinada obra transcende a materialidade e nos desloca para um cenário onde habita o intangível.  É o que a cantora e compositora Delia Fischer nos proporciona em seu Presente, álbum que nos conduz por uma atmosfera de sensações etéreas.

Desde seus primeiros caminhos, Presente se revela um trabalho que prima pela densidade. Tudo ali é dotado de uma força delicada e de uma maneira sublime de se sentir e perceber a vida. É como se cada canção fosse revestida de uma aura carregada de contemplação e êxtase. E não é prematuro arrematar que o fio condutor do álbum é uma vigorosa celebração da existência. Quiçá um caminho de escutas espirituais.

De imediato, duas virtudes são caras ao belo resultado do disco: a interpretação e o piano da artista. Nenhuma música passa despercebida por seu canto suave e cativo. E as composições, quase que inteiramente arquitetadas por ela, pedem uma entrega à qual Delia não se furta. Sentir faixas como Vozes no Mato, Das Plantas (com uma participação bastante especial de Hermeto Pascoal), Aluvião, Nascimento da Vênus e Sozinhesa é constatar que Presente é um disco feito de profundidades. Avançando nas escutas, não tem como deixar passar impune a força de canções como Das Águas, Mercado e Minha Avó, todas elas a construir um painel feito de memórias e apelos sinestésicos.

Sem dúvida alguma, um aspecto marcante no disco é a influência de Egberto Gismonti que, além de ser parte fundamental da formação musical de Delia, assina juntamente com ela a canção que dá título ao álbum. Outros nomes são também importantes na construção de Presente, tais como o de Pedro Mibielli (violino), Luciano Correa (cello), Pedro Guedes (violão, programação e arranjo) e Marcio Bahia (bateria e percussão).

Misturando evocações à natureza com percursos pelos recônditos humanos, Delia Fischer consolida um trabalho marcado pela singularidade. Há um caminho pelo qual um olhar sereno e poético confere amplitude ao fato de se estar no mundo. As imagens que povoam o álbum revelam que, por mais delicada que seja a vida, urge-nos atravessá-la com toda a sorte de coragem e entrega. O resto da travessia é feito de luz e mistério.

 

 

 

 

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72ª Leva - 10/2012 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

TULIPA RUIZ – TUDO TANTO

 

 

 

Tulipa Ruiz ataca de novo: fato consumado. Não foi uma emoção “efêmera” acreditar que a cantora e compositora aconteceria bem mais do que um instante primeiro. Não, não foi. E o ato de pensar que as coisas não cabem em si mesmas pode até justificar, de imediato, o título da nova investida. Tudo Tanto é, sim, uma espécie de incontido, talvez o algo indefinido da pós-modernidade. E deixemos de lado as redundâncias aparentes desse somatório de palavras que se traduzem no rumo da intensidade.

O segundo disco dessa arrojada criadora é um beijo de língua na contemporaneidade. Sem exageros e afetações, a moça se agarra ao presente como o único lugar quase certo que habitamos. Seu canto preciso emana de lugares que não deixam a vida parar de girar. Nada de promessas do paraíso nem tampouco receitas prontas de felicidade, principalmente quando a tônica é falar do amor e seus apetrechos. Viver, aqui, é fazer travessias sem saber o que está do outro lado. A receita é tatear o invisível e não profetizar os desvios. Apenas seguir.

A marca autoral de Tulipa confere uma singularidade aos caminhos percorridos, tanto que seu traço criativo está espalhado por todas as faixas do disco. Diga-se de passagem, o peso que a porção de compositora exerce sobre o trabalho da artista é significativo e reforça as bases de um perfil cada vez mais próprio. Se em Efêmera (primeiro disco da cantora) já tínhamos pistas do terreno valioso no qual nossos ouvidos estavam penetrando, agora fica a certeza de que algo muito melhor estaria à nossa espera.

Tudo Tanto é, sobremaneira, um disco sensorial, repleto de experiências não apenas sonoras, mas também imagéticas e quiçá táteis. A canção “É”, por exemplo, espécie de abre-alas, já nos coloca em conexão com a dinâmica dos sentimentos sublimes em torno do amor e da vida. E tudo ali a passar como num filme no qual cada um de nós se identifica à sua maneira. De fato, o que há de sobra no álbum é uma multiplicidade de cenários possíveis para nossa volátil existência.

Cada trecho desse agradável percurso musical tem algo a ser degustado e digerido sem medo de reações adversas. Mais provas? Basta captar as vibrações de Ok, Quando eu achar, Desinibida, Dois Cafés (com Lulu Santos), Bom e Cada Voz. Em Víbora, canção escrita em parceria com Criolo e que pode muito bem servir como verdadeiro ápice do disco, Tulipa mostra que seu momento é precioso, intenso e agarra com todas as forças de sua lírica voz o universo que a canção lhe oferta.

Para tornar o ambiente ainda mais especial, é impossível passar despercebido pelos arranjos de cordas e madeiras assinados por Jacques Mathias e devidamente regados a violino, violoncelo, viola, clarinete, flauta e clarone. Some-se a isso o dedo valioso de Gustavo Ruiz, irmão da cantora, na produção do álbum e na composição de algumas canções.

Em sua atmosfera essencialmente pop, Tudo Tanto é bem construído em forma e conteúdo. A simplicidade das letras ganha uma dimensão mais ampla quando somada ao precioso trabalho vocal de Tulipa e aos vigorosos arranjos. Falar de relações, sobretudo amorosas, não é tarefa das mais fáceis. E isso parece fluir com certa leveza nas mãos habilidosas da artista que sabe, como ninguém, transitar por lugares que tiram a maioria das pessoas do sério. No embate entre sentimentos certeiros ou imprecisos, tudo se desloca para adiante e o passado pode representar apenas uma mera lembrança nada nostálgica. Tudo isso talvez “porque estar vivo já foi mais estranho”.

 

 

* Tudo Tanto está disponível para download no site da artista