notas dispersas e submersas com alguns grãos de areia colhidos no bolso*
Por Alex Simões
não, não é de agora que poesia e poetas nadam sobre o mar e passeiam sobre e sob as águas doces e salgadas. Homero e Caymmi cantaram seus mares respectivos, Sapho tirou sua própria vida se atirando ao mar Egeu e Camões salvou os Lusíadas nadando com apenas um braço livre sobre o mar da Cochinchina, após o naufrágio ter levado sua Dinamene embora. Alfonsina Storni submergiu as saudades de um grande amigo no Mar del Plata, Waly Salomão tomou o mar de sargaços de Ezra Pound e o ofertou a Maria Bethânia, que canta “Eu e água”, de seu irmão Caetano Veloso, que junto com Gilberto Gil compôs “Beira-mar”.
Matheus dos Anjos traz um livro de poemas encharcado de água do mar, do rio, da chuva e das lágrimas, com cheiro de salitre e uns grãos de areia, pois o “solo de praia cabe no bolso” (limo dos dias). seus versos passeiam sobre e sob as águas, doces e salgadas, e lançam mão de diversas estratégias formais para imprimir movência em meio à “liquidez farta – diferenciada / negando Bauman com a força / de sete mares” (menino da costa do dendê). temos haikais e outras formas curtas da lírica e outras formas com versos tomando mais fôlego a ponto de plasmar-se em um poema em prosa cheio de memórias de uma infância em um certo “paraíso alagado”.
aqui alguns topônimos e gentílicos escondem água dentro. há água em todos os cantos deste livro, inclusive nos títulos, inclusive em outras línguas que não a portuguesa. se Kirimurê é “o mar interior” – como assim os tupinambá denominavam a Baía de Todos os Santos –, é com este título que Matheus nos apresenta uma cartografia de uma Salvador muito nos moldes oswaldianos e nos dá a primeira pista para vislumbramos aonde nos quer levar o título enigmático deste livro: “o côncavo onde a água sempre faz a curva”. “axiluandas” significa “homens do mar” e é como os portugueses chamavam os falantes de quimbundo, os ambundos, grupo étnico que, por uma dessas etimologias mitológicas, ao responder sobre o que estavam fazendo, lançaram um “trabalhar com redes de pesca”.
“um marinheiro ao contrário” vive em exílio em seu próprio apartamento no 5o andar de onde recolhe areia guardada nos bolsos. o tema do marinheiro exilado presente em Álvaro de Campos e em Sophia de Mello Breyner Andresen, e não só neles, ressurge aqui plantando o mar numa horta vertical. neste, que talvez seja meu poema predileto deste livro, a segunda parte de um tríptico, encontramos outras pistas para entendermos o que faz Matheus escrever o que escreve e como escreve: “a natureza do mar é não ter paredes” e “[…] a revolta é / estender os formatos” (II – plantei o mar na minha horta vertical).
um marinheiro ao contrário vê as coisas fora de lugar porque despatriado. algas são vomitadas, o tempo deve vir sem relógios e o corpo é “bom de bagunçar”. o erotismo passeia pelas formas estendidas às vezes nada discreto, como em “prepara tua canoa/ se pretende me cruzar” (igarapé).
leia esse livro como quem nada ou sobe uma ladeira durante uma chuva torrencial até passar por uma curva cheia de água que atravessa o teto de uma casa e pinga sobre sua cabeça. tudo nele é água, doce ou salgada, em estado líquido, sólido e gasoso. leia movendo-se entre o mar exterior e o mar interior, não só Kirimurê. se, por um lado, “cada banho leva em si um cadáver” (renovo diário); por outro lado, há um clima de intensa umidade provocando esse mar de dentro a emergir pelos poros, como o poeta, que se equilibra em uma corda bamba e bomba, nos canta e conta em “mormaço”:
“se escrevo
é pra fazer meu sertão de dentro
virar mar”
* Este texto era para ser posfácio do livro a pedido do autor, mas, por algum mistério da senda literária, ficou inédito.
Ser um criador é sentir-se atravessado pelos movimentos do mundo. É percorrer a condição humana retendo dela os estímulos necessários para o olhar crítico sobre a realidade. Pode ser também o gesto de compreender as mudanças pelas quais somos incessantemente desafiados. É potência manifesta. Ato de insubmissão. Ser e não ser no território das palavras e imagens.
Talvez as ideias evocadas no parágrafo acima sirvam para situar um pouco a presença de um alguém como Alex Simões entre nós. Suas feições de poeta e performer dizem muito sobre esse ato espantado que é o estar no mundo, colossal ambiente onde reconhecer-se humano é colocar-se o tempo todo à prova. E o poeta em comento não nos entrega versos de mão beijada, posto que nos convida a extrair do caminho poético ímpetos de diálogo constante com esse Outro que, ao fim e ao cabo, somos todos nós, leitores.
Aceitar o diálogo com Alex significa também acolher a partilha sensível de todo o assombro que está no mundo, como nos revela aqui o próprio autor. Tal gesto propositivo denota um movimento que chama atenção não pelo ato em si, mas pela perspectiva que este encerra, qual seja a de que o artista, despindo-se de qualquer afetação pela aura que o ofício supostamente poderia sugerir, opta por caminhar com simplicidade no meio de seus iguais: eu, você, todos nós.
Para ficar nos exemplos mais recentes, as vias poéticas de Alex foram capazes de nos ofertar obras do quilate de “Contrassonetos: catados & via vândala” (Ed. Mondrongo, 2015) e “trans formas são” (Ed. Organismo, 2018), todas elas a demarcar a importância desse autor na cena literária brasileira dos últimos anos. Conhecedor da tradição, o poeta sabe transgredir as formas a favor de um engenho criativo que, sem negar referências de outrora, aponta para o reconhecimento da presença de outros modos canônicos no horizonte da poesia.
A partir de reflexões sobre seu novo livro, “assim na terra como no selfie” (paraLeLo13S, 2021), lançado em pleno contexto pandêmico que nos assola, Alex Simões acolhe a Diversos Afins para mais uma entrevista, pontuando impressões sobre o turbilhão contemporâneo em que vivemos, além de descortinar trajetos ligados à literatura e à arte. E é preciso ressaltar o quanto o artista está imerso nas questões de seu tempo, não se furtando a abordar também os matizes políticos e sociais sobre os quais a atualidade de nossos dias orbita.
Alex Simões / Foto: Edgard Oliva
DA – “Assim na terra como no selfie”, seu mais recente livro, traz algo que é uma marca registrada de sua produção poética, qual seja a capacidade de olhar para nossa contemporaneidade com movimentos de inquietude e provocação. É importante para você ser um poeta que desacomoda as coisas diante do confronto com o seu tempo?
ALEX SIMÕES – “assim na terra como no selfie” é um livro que tem também outra marca registrada de minha produção poética: o trabalho artístico relacional, dialógico. É o resultado de uma conversa com as editoras Milena Britto e Sarah Kersley, que fizeram uma seleção de poemas com o objetivo de mostrar as muitas facetas dessa produção. Eu tendo a reconhecer mais a inquietude do que a provocação no que faço. Creio que provoco, sim, mas menos no sentido de desacomodar do que no de demandar retornos, leituras, respostas, resultantes de estratégias que ao fim e ao cabo querem estabelecer diálogo. Diálogo explicitado nas muitas dedicatórias e referências nos poemas/paródias/pastiches. Esse olhar para a nossa contemporaneidade é inquieto porque parte da constatação de como as coisas são e estão desacomodadas e quer compartilhar esse assombro diante do mundo, diante deste tempo, que é o nosso tempo. É um olhar que, lembrando Agamben, adere a, e ao mesmo tempo toma distância deste tempo. Quando tomo distância não por nostalgia senão para entender melhor este tempo em que vivo, vejo as coisas desacomodadas e passeio por elas escrevendo poemas, fazendo poemas visuais e performances.
DA – O nosso presente traz todo um contexto pandêmico que nos atravessa. E seu livro também está marcado por esse estado de coisas. Enquanto poeta e artista, como tem sido a experiência de lidar com uma atmosfera que impacta nossa condição humana de forma tão avassaladora?
ALEX SIMÕES – Sim, uma parte significativa do livro foi produzida em plena pandemia e em contexto de isolamento bem restrito, o que inevitavelmente aparece em alguns poemas. Tive o privilégio de poder ficar em casa, trabalhar e receber delivery sem precisar sair, sem precisar usar transporte público. Mesmo Uber eu levei um ano para usar, porque nas poucas vezes que me desloquei no primeiro ano foi de bicicleta. O impacto foi muito forte porque perdi alguns amigos queridos e a sensação de que a morte estava me rondando era muito nítida, embora seja uma rara exceção de quem não teve perda na família por causa da COVID. Pessoalmente, foi um momento em que me vi com mais privilégios do que supunha e me redescobri menos sociável do que supunha. Tive a sorte de ter remuneração como artista/agente de cultura, em boa parte por meio de editais financiados pela Lei Aldir Blanc, resultado de mobilização nacional nossa, apesar desse horror de desgoverno que espero esteja no fim do mandato. Além das atividades como profissional de Letras, que revisa textos, dá aulas particulares e atua em projetos que permitiram que eu tivesse alguma tranquilidade para seguir. Faço todas essas ressalvas para dizer que, apesar de tudo isso, não foi nada fácil, não está sendo fácil. O luto não cessa e a sensação de viver à deriva, sob um governo que performa o descontrole e a incompetência enquanto deixa passar a boiada de agenda neoliberal, genocida e ecocida não cessa. Continuo sem saber como lidar, mas muito desconfiado que precisamos reaprender formas de fazer junto, de dialogar e tornar nossos discursos e ações mais acessíveis e factíveis. Ou aprendemos a saber distinguir com quem de fato podemos contar e a flutuar no bote salva-vidas nos acomodando de modo a não desequilibrar ou mesmo rasgar a embarcação, ou afundamos todas, todos e todes.
DA – Em 2016, quando você nos concedeu outraentrevista, estávamos vivendo os efeitos de um golpe, consequências estas que nos arrastaram até o cenário de destruição atual. E vimos muita gente saindo do armário e mostrando sua face truculenta, reacionária e fascista em praça pública. O Brasil sempre foi isso e nós que fingíamos não ver?
ALEX SIMÕES – O Brasil foi sempre isso, aquilo e aquilo outro. Somos um país fundado no genocídio e na exploração dos povos originários e dos povos forçosamente transplantados de África para cá. E que desde que virou República, não num passe de mágica, mas em um golpe militar, tem tido alguns intervalos de (re)democratização em um moto contínuo de um devir que nos prometem desde sempre: Brasil, o país do futuro. Mas somos um país de resistência desses povos, de seus descendentes e de contradições nesses processos que intercalam ditadura e acenos para a democracia, para processos radicais de transformação social também. E tem beleza nessas contradições, tem possibilidades. De fato, para alguns de nós nunca foi possível não ver o fascismo que nos circunda, que nos habita, que nos funda. Não foi no golpe contra Dilma Roussef nem no governo Bolsonaro que o racismo, a lgbtfobia, o machismo e o classismo apareceram para nos assustar. Mullheres, lgbtqiap+, pessoas em situação de rua, negros, ciganos, pessoas com deficiência e alguns de nós que trazemos mais de uma dessas marcas identitárias sabemos bem que se o gigante acordou, alguns de nós nunca pudemos nem sequer dormir sossegados. Mas de fato houve um empoderamento dos que trazem marcas identitárias hegemônicas, e fingem não ter, para se afirmar, para reagir a qualquer possibilidade de mudança. E é muito sintomático que reajam atribuindo aos outros o que são e o que fazem. Houve uma quebra do pacto do silenciamento e isso não tem mais como voltar. O mito da democracia racial teve que se reinventar e chamar os negros de racistas. Os defensores da ditadura militar justificam a lgbtfobia como reação à ditadura gay. Os machistas justificam suas falhas trágicas com o poder que atribuem à mulher de lhes provocar. Os extremistas religiosos usam sua fé para justificar o ódio que precisam externar. E o politicamente correto é um problema maior que o fato de 84,9 milhões de pessoas no Brasil não terem comida e/ou não saberem se vão comer amanhã. Esse empoderamento foi uma reação a alguns tímidos avanços que não tem como segurar. Você mencionou 2016 e eu preciso lembrar que em 2013 foram gestados alguns incômodos que ainda não fomos capazes de entender e que resultaram em parte no golpe de 2016. As contradições nos constituem e precisamos conversar com/sobre elas. E decidir que projeto de país queremos, se é que queremos um país. Eu quero, com as contradições e com as possibilidades de conversar com sobre elas. E é importante lembrar: o nosso país não está sozinho nessa, o planeta está precisando fazer DR.
DA – Há um quê de memória afetiva permeando “assim na terra como no selfie”. Na sua visão, qual o papel que os afetos têm diante de um mundo que parece não se importar muito com a singularidade das experiências de vida?
ALEX SIMÕES – Sim, tem muito de memória afetiva nesse livro. E mesmo em alguns poemas em que lanço mão de recursos da escrita não-criativa, buscando povoar a lírica com polifonia, com outras vozes que não a minha, tem afeto e tem memória envolvidos. Por exemplo, no poema ready-made “sessão de poesia para a tropa”, em que transcrevo uma parte do depoimento à Comissão da Verdade por Gilberto Natalini, que foi barbaramente torturado pelo Comandante Ustra na ditadura militar, eu trago a memória de um outro permeada de dores para um poema porque é o meu modo de agir no mundo, de demonstrar empatia e me posicionar sobre o horror. T.S. Eliot, no ensaio “A função social da poesia”, defende que o poeta tem um compromisso radical com a língua, porque a poesia trata de nossa capacidade de sentir numa língua, que é mais do que expressar sentimentos numa língua. Se temos afeto, afeição, se afetamos e nos sentimos afetados por coisas e pessoas, é porque temos um repertório que nos foi ofertado pela poesia. E claro que quando me refiro à poesia, estou tratando da mãe das artes. As artes nos ensinam a sentir. Quanto mais limitado for o nosso repertório artístico, menos capazes somos de nos sentir afetados e de sentir numa língua. E não pense alguém que não me conhece e esteja lendo esta entrevista que falo de um repertório canônico, da alta cultura, para os eleitos. A amplitude de repertório artístico passa pelo popular e pelo erudito, pelas linguagens artísticas e por tudo aquilo que estiver fora da minha bolha. Um país que dá as costas para a sua riqueza cultural, o faz porque esse gesto acompanha um desdém para tudo o que promove essa riqueza, que é a pluralidade. O papel dos afetos diante desse mundo insensibilizado me remete ao Padre Julio Lancelotti pegando uma marreta e quebrando as pedras que colocaram embaixo do viaduto para impedir que as pessoas em situação de rua pudessem se deitar. Ele, que não é um artista, mas um sacerdote, performou um gesto de quem se sente afetado e afeta na ação. Uma parte do país que não percebe a importância e a urgência desse gesto não tem repertório artístico que lhe permita acessar essa grandeza. Este país precisa ouvir mais Rap, mais pontos de candomblé e umbanda, precisa voltar a escutar os provérbios (lembro aqui do conceito de literatura-terreiro, de Henrique Freitas), ler mais autoras negras e LGBTQIAP+, frequentar mais museus como quem anda nas ruas e aprender a olhar as ruas como quem visita um museu, transitar pelas diferenças, tendo as artes como bússola.
DA – Numa resenha publicada aqui na Diversos Afins, Sandro Ornellas vislumbra seu livro também como um labirinto de hesitações. No seu engenho com as palavras, lhe soa atraente a ideia de um se deixar ir, mergulhar fundo, estar perdido, voltar ou até mesmo desdizer o ontem?
ALEX SIMÕES – O autor do fabuloso “dói-me este mundo de violentas esperanças” é um grande poeta e conhecedor de poesia e, para a minha sorte, conhecedor também das coisas que eu escrevo-faço. Sandro Ornellas vem fazendo, entre muitas outras coisas lindas, um trabalho de leitura crítica de seus conterrâneos-contemporâneos, que é digno de nota. E quando ele evoca a ideia de Valery da hesitação entre som e sentido, ele aponta numa direção que cai muito bem para definir o que tenho tentado fazer. Ter o controle para perdê-lo, cartografar por não saber ler mapas, apoiar-me em formas fixas para implodi-las, ter como estilo a falta de estilo, “ser superficial, no fundo”. Eu cada vez menos sei escrever poemas e fazer livros. E vou fazendo, porque “é mais difícil do que não fazer”. Por um lado, tem a síndrome de impostor envolvida porque, de fato, tem muita poesia incrível já feita e que está se fazendo e eu leio sempre muito menos do que deveria e estou sempre me perguntando se vale mesmo a pena escrever e gastar papel e tinta para publicar o que escrevo. Por outro lado, tem uma alegria em abandonar o desejo de abandonar o barco e seguir navegando à deriva, sem remos. Tem um gosto pelo fazer sem saber aonde vai dar, que com muita frequência não dá em nada mesmo, mas que de vez em quando vira poema, livro, performance, poema-objeto, derivas. No poema “a mulher de Lot é um artista”, falo um pouco de um dos meus fascínios, que é observar a relação do músico com o seu instrumento, uma relação concreta entre o corpo e um objeto, que se amalgamam a ponto de nos parecer sem esforço, intuitivo. Eu não sei se consigo, mas tento me relacionar com a vida, com a arte-vida, assim. Assim como? Do que mesmo eu estava falando?
Alex Simões / Foto: Edgard Oliva
DA – Autores escrevem para os outros ou para si mesmos?
ALEX SIMÕES – Não saberia dizer para quem as autoras e os autores escrevem. Mas desconfio que os textos que são escritos por elas e eles e ilus se comunicam entre si e não se bastam porque demandam que outras pessoas os leiam para que existam, para que façam sentido. João Cabral vai aparecer de novo nessa conversa porque ele escreveu para o leitor Ninguém, com quem me identifico. As autoras e os autores que me interessam costumam escrever com muitos outros e consigo mesmos. Por exemplo, Luciany Aparecida e Itamar Vieira Júnior, cada um(a) a seu modo, trazem muitos outros e outras em seus textos sem se perder.
DA – Sobretudo nos últimos anos, com o avanço do digital, mais e mais autores se lançaram ao desafio de expor seus textos. Ao lado disso, vimos também o surgimento de editoras independentes por todos os cantos do país, oportunizando vozes das mais diversas. Está todo mundo certo no desejo voraz de ser publicado ou, na sua visão, a maturação das obras é algo que anda se dissolvendo no meio da pressa contemporânea?
ALEX SIMÕES – A Internet sem dúvida promoveu o “escribicionismo”, sobretudo com o advento dos blogs, que um pouco antes das redes sociais deram voz e vez a pessoas que queriam expor seus textos para o mundo. Bastava ter computador e ideias para compartilhar em forma de textos. Claro está que vivemos no Brasil e que o acesso às tecnologias digitais e mesmo às tecnologias da escrita ainda são muito restritas. Dentro dessa bolha que vivemos, os blogs e as redes sociais possibilitaram novas formas de divulgar e distribuir seus textos, o que por si é incrível. Eu confesso que ainda hoje tenho um certo deslumbramento diante da web, no que ela significa em termos de acesso às e compartilhamento das informações. Milton Santos já havia apontado, por exemplo, sobre o impacto que as lan houses provocaram nas comunidades periféricas. A internet mudou nosso modo de olhar o mundo e por consequência nosso modo de olhar e ler os livros. Esse boom de editoras independentes está relacionado com este tempo. Neste país que historicamente sempre teve uma faixa muito restrita da população com amplo acesso ao livro e à leitura, as possibilidades que a internet e as editoras independentes oferecem são motivos de celebração por si só. As pessoas estão mais expostas a situações de letramento e mais expostas aos livros, que não podem mais ser entendidos apenas em sua configuração física. Mas esse acesso à internet também impactou o modo como nos relacionamos com os livros. A experiência da leitura, do contato com os autores e com o objeto-livro tem sido mais que nunca valorizada, especialmente no contexto da pandemia. Ninguém fala mais em morte do livro físico e isso se deve em boa parte ao trabalho incrível promovido por editoras independentes em todo o Brasil, que não só através de redes sociais e sites, como também em feiras e eventos de publicação. Temos círculos de leituras e redes de leitores em diversas ações que valorizam escritoras, literatura negra e periférica, literatura lgbtqiap+, há uma revalorização da literatura de cordel ao mesmo tempo que há uma intensa produção de poesia/literatura contemporânea. E temos também uma rede de bibliotecas comunitárias que vêm fazendo uma revolução silenciosa no processo de formação de leitores. Eu prefiro olhar pra essas cenas que despontam e que parecem estar mais vinculadas a esforços coletivos e de formação do que pensar na maturação necessária das obras. O tempo urge e mais que nunca precisamos pensar em formar leitores desde a tenra infância, preparando-os para ler livros e telas, aprendendo a filtrar informações para desenvolver senso crítico. Aliás, essa deveria ser a tônica de políticas públicas para o livro e o leitor, mas no momento não temos governo federal. O que as editoras e os círculos de formação e todas as iniciativas de promoção do livro e da leitura vêm fazendo é muito e precisa ser valorizado.
DA – Salvador lhe deu régua e compasso?
ALEX SIMÕES – A Cidade da Bahia me deu régua e compasso, sim. Não por acaso meu novo livro se chama “minha terra tem ladeiras” (Caramurê, no prelo), que é uma referência explícita a essa cidade. Nesse livro e no penúltimo (no meu corpo o canto: #experimentoscomletrasurbanas) a cidade de Salvador é mais que tema, é moldura dos poemas discursivos e visuais. Para o bem e para o mal, meu modo de ser está sempre georreferenciado nessa origem. É a cidade que me pôs no mundo, que me ensinou um modo de circular pelas ruas, de relacionar com as pessoas e que passa muito pelas artes. A minha criança cresceu ouvindo os tropicalistas e foi apresentado aos modernistas, aos pós-modernistas, a uma miríade de poetas com Caetano, Gil, Bethânia e Gal, que se escutava muito na minha casa. Quando li Gregório de Matos na escola, eu já sabia “Triste Bahia” de cor. Ter nascido e criado em um bairro de periferia, de configuração urbana, foi definitivo também para entender desde muito cedo que eu precisava me mover naquele folclore que tentavam me vender como Bahia terra da alegria. É um habitat de contradições que odeio amar e amo odiar. Dá muita raiva de viver numa cidade racista, classista, misógina, mas eu olho a Baía de Todos os Santos e passa. A imagem que projeto de Salvador quando estou fora e tenho saudades diz muito dessa contradição: é vista da Bahia com a Ilha de Itaparica ao fundo. Quando nado na baía, me sinto em casa.
DA – Apesar das coisas que lhe afetam e incomodam, Alex Simões olha para a vida hoje com mais serenidade e esperança?
ALEX SIMÕES – Há uma paciência revolucionária que estou aprendendo a cultivar. Tenho tido mais consciência do que não sei, do que não posso e principalmente do que não quero fazer. A paciência revolucionária já traz em si a esperança, que nunca deixei de ter. Acho que o que tem mudado é que estou mais paciente comigo mesmo e mais atento para ler os nãos, os silêncios, os desvios de rota, as rupturas, as derivas. E eu adoro derivas, o que também traz embutida uma esperança. As muitas coisas horríveis que acontecem neste país e neste mundo não são novas. Talvez a novidade esteja no modo como alguns de nós as estamos vendo e como estamos nos vendo em relação a essas coisas.
DA – Afinal, por que escrever?
ALEX SIMÕES – Esta resposta está no poema “O artista inconfessável”, de João Cabral. Todos os dias me faço esta pergunta e escrevo, mesmo quando não escrevo, porque nos dias “não” me pergunto por que não estou escrevendo e me sinto mais desconfortável do que quando leio com algum desconforto o que escrevo e penso que poderia ser muito melhor daquilo que pude escrever. Porque tem um ritmo, uma imagem, uma ideia que eu persigo e que eventualmente consigo dar uma forma, uma possibilidade de existência, e porque sou atravessado por ritmos, imagens e ideias que muitas outras e outres e outros criaram e criam e me provocam a seguir atravessado e atravessando. Porque ainda não sei escrever e, por isso, escrevo.
Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam autobiograficamente pelo mundo virtual.
Assim na terra como no selfie (2021) é o sexto livro de poemas de Alex Simões, contando o segundo, uma plaquete com versos e fotos, e o quinto, um livro artesanal de poemas visuais criados (livro e poemas) em colaboração com outros artistas. Quem acompanha o trabalho de Alex sabe como ele tem caminhado do exercício do soneto para o verso livre, que se percebe no seu caso dever muito à prática daquele. Refiro-me ao ritmo do fraseado nos versos de Alex e, por extensão, à construção sintática, àquilo que alguém famosamente disse tratar-se da hesitação entre o som e o sentido. Pois é por aí que começo a falar desse novo livro de Alex. Da hesitação. Até porque ele, à semelhança de Trans formas são (2018), reúne sonetos, versos livres, poemetos e brincadeiras espaciais – embora em menor incidência do que naquele.
O título faz trocadilho com um famoso princípio hermético contido também no “Pai nosso” católico e, junto com a leitura de muitos poemas, deixam claro tratar-se de um livro escrito (ao menos boa parte de seus poemas) durante o período mais tenso do primeiro isolamento social na pandemia da Covid-19. Nesse período, foi comum ver pelas redes a classe média trocar o selfie em sorridentes festas e viagens turísticas pelos selfies das cantorias com vizinhos, aprendizados culinários e rotinas de isolamento. Tudo sempre acompanhado da indefectível hashtag “#ficaemcasa” – com seu tom imperativo. Hoje, um ano e meio após a deflagração do isolamento no Brasil, tudo mudou. Ou nada, talvez. Mas o livro de Alex me chega às mãos como testemunho dessa viagem. E o que leio nesse testemunho?
Leio a hesitação entre o som e o sentido dos versos nos sonetos de Alex se disseminarem por outros fraseados oracionais e certas posições do sujeito da enunciação, embora também permaneçam lá, nos sonetos. O “43”, em que o sujeito circula em casa por rotinas que sobrepõem trabalho e laser, movimento e tédio, idas e vindas: “tapioca e café todos os dias / cedo pela manhã antes da escrita / que precede a visita à toalete / para depois as redes, as notícias / e revisar e planejar e cozer / e irrigar as plantas e dar aulas / às vezes viajar às vezes não”. Há nesse e em outros poemas qualquer coisa de pacificação no sentimento do poeta diante da circularidade doméstica dos dias e afazeres durante o isolamento. Ou mesmo antes dele. Mas uma pacificação cuja respiração às vezes hesita com certa ansiedade.
A melhor imagem para figurar essa paz ansiosa vivida por muitos durante a pandemia me parece o labirinto. Há alguns deles nesse livro de Alex, mas a “Cama de gato”, misto de brincadeira e passatempo, me parece exemplar. Ainda mais como analogia criada pelo poeta para a própria poesia de quem coloca a vida em suspensão no gesto de escrever: “eu faço versos como quem / faz uma cama / de gato”. Mas não somos apenas nós que jogamos com a poesia e a cama de gato. Somos também jogados pela rede do acaso que insistimos em ignorar com o mesmo prometeísmo que disseminou o atual e outros vírus. Chamamos “cama de gato” e “poesia” nossas ferramentas lúdicas; mas, ao que não temos nome e tememos, Alex nomeia “traquitanas”: “não consigo pôr ordem na casa / porque não há nenhum sentido em pôr ordem / menos ainda em progresso. / […] / o caos não é meu, / é nosso”. Pois é mais ou menos assim que o poeta segue hesitante entre o desejo de ordem (“tapetum lucidum”, “haikai não cai”, “Soneto do isolamento social”, “no ferry”, “o amor ao mar em meio à pandemia”, “aquela a esperar”, “um poema para Oxóssi”) e o sentimento de desordem (“47”, “45”, “A educação pela pedrada”, “assim na terra como no selfie”, “o que me resta de uma casa”, “volver”, “sessão de poesia para a tropa”). Talvez por isso o título soe como uma irônica oração dirigida aos que acreditam que haja salvação, embora só vivamos como condenação.
Mas essa ironia de Alex também resvala para algo de autoironia, quando leio “daqui da torre”, onde o poeta diferencia a torre em que se encontra isolado (“vendo tudo daqui, da torre”) da clássica e classista “turris eburnea”: “não é numa turris eburnea / indiferente aos fatos”. Mas eu diria que apesar da atenção, consciência, informação, altivez e lucidez que o poeta diz ter diante dos “fatos”, há um limite para tudo isso diante da realidade concreta que é arremessada para o alto de seus olhos na torre: há um espaço intransponível e causador de “vertigem”. Uma hora, não basta “mesmo estando bem no alto / saber bem muito bem ao chão”. Esse olhar desde a torre, desde o alto, é o que testemunha o labirinto em que poeta, posto no alto, e mundo, cá embaixo, se meteram. E Alex sabe “bem muito bem” disso, já que após o túnel, segundo ele, sempre vem outro túnel: “sei bem de tatear e atravessar o túnel / até chegar a luz que me anuncia, / em forma de cegueira temporária, / que logo outro túnel há de vir, / vivendo nesse eterno entre-e-sai / do mito da caverna redivivo. / se eu fico dando voltas, é que a vida / é feita de volutas pros que ficam / com as vistas treinadas pra enxergá-las”. Ou seja: o título do livro soa também como um enigma que o poeta coloca para ele próprio tentar resolver (ou apenas se divertir, quem sabe?): estar na terra, estar no chão e estar no túnel, tanto quanto ele se sabe selfie, na torre e na lúcida luz. Testemunho da hesitação labiríntica entre o som e o sentido, ou divertimento lúdico com que o poeta ironiza a si mesmo na persona de modesto: “modéstia, / aparte o que me cabe / neste latifúndio. / dê-me um canto qualquer / do tamanho do mundo, / nem que seja este / canto / mudo, / mundo / meu”.
Onde mais percebo esse labirinto no livro de Alex é na sintaxe de alguns poemas, como em “não há mal”, que lembra qualquer coisa da tópica do “desconcerto do mundo”, por ser um ajuste de contas com a moral – antes, moral em desconcerto; cá, moral como acerto de contas. Escreve Alex: “não há mal / nenhum em desejar / o mal a quem / mal desejou / e o já realizou / o mal a quem / se mal lhe fez / foi tão somente / o de encarnar o mal / […]”. Nesse jogo moral de soma zero entre ação e reação, a terra e o selfie, a tela e o mundo, o eu e o outro se fundem na mesma oração de Alex Simões. Oração maldita.
Sim, há qualquer coisa de maldição neste livro de Alex. Mesmo que a contrapelo. Justamente por isso. Como todo maldito, Alex se contradiz em grande parte de Assim na terra como no selfie. Não de modo evidente e convencional. Não basta ironizar Baudelaire, Drummond e Cabral para ser um maldito contemporâneo. Não basta posar de rebelde insubmisso para ser um maldito contemporâneo. Não basta tacar pedras para ser um maldito contemporâneo (a “lacração” tornou essa “maldição” também convencional). Não bastam muitas outras coisas que Alex diz e faz em seu último livro. É preciso se contradizer. E poesia pode ser tudo, principalmente escapar do controle de qualquer que venha a ser dita: poeta só vale essa designação se for contraditório contra a sua própria vontade. Talvez, nesse livro, com uma única exceção (“aí peguei meu rumo na exceção”, escreve ele em “o amo ao mar em meio à pandemia”), que não é o mar – mas a mãe, no belíssimo soneto “44”, que se fecha lindamente com “minha vida é um baile entre seus braços”.
Os braços da mãe são o que há de mais preciso nesse livro de hesitações labirínticas de Alex Simões. Quase como o contraponto inicial ao anúncio de que “poesia / para quem / precisa / de coisas sem precisão”: o que se realizará ao longo de todo o livro e que ao fim é a enunciação possível de Alex, seu testemunho poético, o mais fiel que pode às incertezas que hoje estão arremessadas à nossa cara (para quem quiser ver). Nesse livro, Alex abre a porta do labirinto, entra nele e joga fora (ou perde intencionalmente) a chave para escrever poemas por seus corredores sem saída. E sem precisão.
Sandro Ornellas é poeta, escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Bahia. Autor de Em obras (poesia, Editora Cousa, 2019), Linhas escritas, corpos sujeitos (estudos, Editora LiberArs, 2015), dentre outros.
nas voltas
que a poesia
nos dá
nos laços
e
nos nós
nas amarras
e
nos desenlaces
nas cordas
e
nas codas
eu faço versos como quem
faz uma cama
de gato
***
o albatroz brasileiro
para Paquito
um albatroz-de-sobrancelha-negra é o mais
brasileiro albatroz porque é tão malandro,
a ponto de ganhar a alcunha por meandros
tais, que coloca em xeque se irracionais
são eles ou se somos nós. senão, vejamos:
ele plana o litoral de Sul ao Sudeste,
mas jamais pousa no solo do Brasil, este
belo animal alado e baudelairiano.
talvez por precaução à fama de trollagem
que dão aos brasileiros em outras paisagens,
o pássaro sambou na rixa com a Argentina.
ganhou fama de ser o Albatroz do Brasil
de onde só se vê riscando o céu de anil,
mas só relaxa e pousa nas Ilhas Malvinas.
***
aquele que convoca uma assembleia
não há nada de novo sob o sol.
depois do coronavírus nos dar
fraternais, festas de tantas linguagens
artísticas, estamos nós aqui,
os que sobrevivemos, recontando
histórias dos que nos antecederam
para que nos iluminem, apesar
do horror, a memória e um inclemente sol.
***
QU4DR1LHA
João marcava Teresa que enviava a Raimundo
Num direct pra Maria que zapeava Joaquim que tuitava para Lili
Que não dava match com ninguém.
Raimundo, Maria, Joaquim e Lili estão em isolamento social
Marcando nas publicações e enviando para o zap que marcaram J. Pinto Fernandes
Que não tinha visualizado o Stories.
***
sonetos metidos a ingleses I
para Natan Barreto
falava 26 nesse teu sonho nosso.
talvez não fosse só dos meus alunos em
viagem além-mar em direção à Ítaca
saxônica. talvez fosse eu balbuciando
que o afeto, uma vez instaurado, jamais
se degenerará. se se perdeu, não houve.
e sinto que aqui há. o canto das sereias
da Ilha de Avalon tentou nos encantar.
mas não cantaram em vão, porque as escutamos
e dançamos a sós, cada um em seu sonho,
copiando em log books as notas dos solfejos.
***
astrolábio de sete faces (6a face)
fórmula: sangue, saliva, fio de cabelo ou sêmen, líquido amniótico, ossos, face, cu, dentre outros tecidos, entulho de amante, musa, silêncio, problemas, oxigênio, tapa-buraco, permissão progressiva, triz, sigilo, troca de segredos, treda ao lado, tecnologia, contas para viver melhor, conexos e conexões, odum, incêndio, puta dor, fúria e alta tensão no mundo, todos temos. no meu corpo, o canto.
Alex Simões é poeta e performer. Tem quatro livros publicados e uma série de poemas em antologias, coletâneas, revistas e sites nacionais e internacionais. Participa de importantes saraus, festivais literários e eventos multilinguagens na Bahia e fora dela desde os anos 90. No dia 5 de dezembro vai lançar “no meu corpo o canto: #experimentoscomletrasurbanas”, livro de artista em coautoria com o Coletivo Tanto Criações Compartilhadas.
a Augusto Soledade, a partir da lenda yoruba recolhida por Pierre Verger
certa feita, o Rei de Ifé,
vulgo Olofín Odudua,
como era de costume
fez a festa dos inhames,
proibindo que seu povo
comesse desse alimento
antes da celebração
mais esperada do ano
não que fosse um rei cruel.
essa tal interdição
se fazia necessária
garantindo que a colheita
fosse próspera e seu povo
tivesse acesso ao alimento
importante para o reino
que hoje fica na Nigéria.
e eis que chega o grande dia:
Olofín estava sentado,
vestido pra ocasião,
cercado de suas mulheres
– um rei podia ter muitas –
e também de seus ministros
cujos conselhos valiam
tanto quanto uns bons inhames.
como fazia calor
que atraía muitas moscas
os escravos de Olofín
– um rei podia ter muitos –
ao mesmo tempo o abanavam
e espantavam as tais malditas
de modo que o rei tivesse
o conforto merecido
e pudesse apreciar
toda a beleza da festa,
tudo feito em seu louvor:
os tambores que tocavam,
os cantos que entoavam,
os incensos que queimavam,
as mulheres que bailavam,
homens dançavam também.
todo mundo reunido,
conversando alegremente,
fofocando e paquerando,
festejando a vida farta,
comendo os novos inhames,
bebendo vinho da palma,
uma bebida africana,
até não mais aguentar.
só que um fato muito estranho,
antes nunca acontecido
em nenhum reino de África
se abateu sobre essa festa.
de repente escureceu
quando ainda era dia
e quando olharam pro céu
todos ficaram espantados
um pássaro gigantesco
sobrevoando Ifé
resolveu, assim, do nada,
pousar bem exatamente
sobre o teto do palácio
justo no prédio central
onde ficava o pátio
em que a festa ocorria.
acontece que o abutre
lá não estava por acaso
ele obedecia as ordens
das terríveis feiticeiras
as Ìyámi Òṣòròngà
donas de todos os pássaros
que usavam ao bel prazer
pra fazer suas maldades
logo que caiu a ficha
de onde veio a maldição
mais ainda apavorado
o povo de Ifé ficou.
o conselho de ministros
logo se reuniu com o rei
para resolver de pronto
a terrível situação.
matutaram, matutaram
e lembraram dos “odé”
– em iorubá, “caçador” –
que também são os “oxó”
– “guarda”, em língua iorubá,
já que o caçador tem armas
e a destreza para usá-las,
deles vinha a solução.
foi então que convocaram
o temível Oxotogun,
caçador das vinte flechas,
oriundo de Idô,
que chegou paramentado
com uma bela vestimenta,
seu grande arco e suas flechas
miradas ao alvo em vão
mas alguém lembrou que tinha
outro odé mais temeroso.
foram buscar em Moré
o bravo Oxotogí,
o das quarenta flechadas
atiradas para nada.
nem de raspão uma delas
atingiu o grande pássaro.
a terceira tentativa
veio lá de Ilarê:
o das cinquenta flechadas
chamado Oxotadotá.
igual aos anteriores,
chegou se achando o tal,
tirou onda e prometeu
o que não logrou cumprir.
acontece que uma caça
não depende tão somente
de destreza e habilidade
de um nobre caçador
tem de pedir proteção,
saber a quem de direito,
que comidas, que palavras
entoar e oferecer.
foi quando Oxotokanxoxô,
o de uma flechada só,
veio acudir Ifé
ao tempo que sua mãe,
lá na vila de Iremã,
pediu a um babalaô
que protegesse seu filho
e que o mal não lhe abatesse.
na consulta ele lhe disse:
“o seu filho está a um passo
da morte ou da riqueza,
faça uma oferenda e a morte
há de se tornar riqueza”.
ela pegou uma galinha
e a ofertou em sacrifício
às terríveis feiticeiras.
fez a oferta na estrada,
abrindo o peito do bicho.
com o respeito à natureza
e às ordens do Orun,
ela repetiu três vezes
o que o sábio lhe ensinou:
pois “que o peito do pássaro
receba esta oferenda”.
e foi que na mesma hora
que ela despachava o ebó,
seu filho lançava a flecha ,
a sua flechada só.
e eis que o pássaro gigante
abre o peito pra oferenda
feita pela mãe do Odé
de modo que relaxou
e ao invés da oferenda
recebeu de peito aberto
de Oxotokanxoxô
a sua flechada certeira
se debatendo de um lado
caindo pesadamente,
fazendo a terra tremer
e logo depois morrendo.
foi assim que o odé oxó
aclamado pelo povo
foi chamado popular,
que é o que quer dizer seu nome:
“Caçador é popular”
Oxóssi, okê arô,
caçador que é Rei de Kêtu,
viva Oxotokanxoxô!
eu era muito jovem e escrevia
poesia e as minhas poesias… tinha
poesias românticas, de protesto
contra o regime. eu era um poeta
razoável. depois eu desisti.
escrevia poemas que cobravam
dos generais, dos coronéis e tal…
escrevia sobre a libertação
do Brasil, sobre a liberdade, sobre
a tal democracia… até que um dia
ele me pegou, que dia foi, não
lembro…me despiu, me colocou
em pé sobre uma poça d’água, o fio
desencapado e atado em meu corpo
foi ligado por ele, que chamou
pessoalmente a tropa, a sua turma:
torturadores, uns soldados que
tomavam conta ali, eis a plateia,
a quem supostamente eu deveria
fazer declamação de poesia.
uma sessão de poesia para a tropa
na qual eu declamasse o que escrevia
contra o regime para os que a favor
me escutassem. e ficou lá por horas
com uma vara na mão que eu não lembro
exatamente o que era: um cipó,
alguma coisa com que me batia,
ele mesmo, pessoalmente, ali,
enquanto coordenava os outros a dar
choque, o fio desencapado e atado
no corpo do que era então poeta
recebendo telefones que não
aparelhos de comunicação,
mas muitos tapas dados com as mãos
sobre os ouvidos em posição côncava
numa sessão de poesia e eletrochoque
em que não declamava, mas ouvia
zumbidos de tortura e as risadas
que hoje só escuto parcialmente.
uma democracia por um fio
desencapado e atado em um corpo
que já não mais escreve poesia,
porém ouve os zumbidos da tortura.
_______________________________
[1] shorturl.at/np489
***
damarianas
I
se o habitat faz o monge
quem visitou a oca do poeta
outorga-se o habite-se da taba
onde a palavra mora se não nela
mesma pergunta que outra me deflagra
II
se a casa da palavra fica ao longe
lá onde mora agora o que não nela
a moça barda que é uma monja às pressas
se não habita lá a vida é bela
ela inter(p)ela:
longe de onde?
III
eu nem sabia nada
nada de onde aquilo ia dar
o que importa é que ele estava lá
antes que eu era
grafando nos cartazes mal me lidos
por entre umas vitrines tinha livros
e uns versos feitos pra dependurar:
deu-me origamis de papéis dispersos
não só suspensos: fáceis de(s)dobrar
IV
poemóbiles
orai pros natos nobilis
e as folhas podres dos bares avulsos
postando cibersóbrios veredísticos
sobre a nossa eterna embriaguez
de que só doma a razão em sendo louco
caso algo morra que não seja a plêiade
que só tenho certeza o seu talvez
V
e pelo exposto me interessa menos
acertar de onde viemos
do que errar para onde nós v(o)amos
***
pólen de flor
para Blande Viana
uma vez a
professora de botânica
estranhou
o fato de ter visto
uma placa
que dizia
VENDEMOS PÓLEN DE FLORES.
“de que mais haveria de ser?”,
ironizou.
o que me fez pensar primeiro
em polens das flores de plástico
alimentando gerações de abelhas mecânicas,
substitutas das suas matrizes
em adiantado processo de extinção.
elas, as extinguíveis, vão nos levar a todos,
dizem
.
.
.
um par de semanas depois,
lembrei que livros de poemas
gostam de miolos com papel
pólen ……………………………….soft ……………………………….& ……………………………… bold
nome que talvez se deva a sua cor
amarelada
e que reflete menos luz,
proporcionando uma leitura mais confortável.
oxalá
estas palavras percam sentido
num futuro cheio de
polens
de
flor
abelhas
&
leitores.
***
era
para Antonia Avelina Ninha, in memoriam
era
3 anos mais velha
10 quilos mais gorda
um tanto mais alta
gostava de me pegar pelos braços
girar girar girar ………………………………& …………………………………..s…………o…… l……t…..a…..r
um dia ……………………..as costas na pedra grande da rua
estrelas piscando num fundo vermelho
soltaram faíscas
e então
perdi o medo ……………………..de
re ……..vi ………….dar
***
A Educação pela Pedrada
para Jorge Augusto
Porque a pedrada é pra: pegar visão;
para aprender na tora, é uma bala
a queima-roupa, um cachação verbal
(um cínico litotes, uma fala
neg-afirm-ativa, pedagogia
da dura, do chepo, não burilada,
nem bostética, a ideia reta
sem nada de caô, que vai na lata),
lição da pedrada que vai pro centro
da periferia e a tudo empala.
Outra pedrada educativa: o não,
(do centro pro gueto, bem antipática)
pra aquele que não sabe se ligar
(e talvez não adiantasse nada)
que dar pedrada na selva de pedra
é faísca no paiol da barricada.
alexsim é um poeta criado na avenida Bahia, número 1, Fazenda Grande do Retiro, Salvador, meu amor, Bahia. é também performer, professor de português para estrangeiros e revisor de textos alheios, entre outros. publicou alguns livros, o último intitulado trans formas são. às vezes traduz, critica, resenha, edita e torna público o que faz. às vezes, troca de pele e de nome.
O mundo é uma roda e nós no meio ou como se deu minha Trans forma são
Por Mayana Rocha Soares
Platão tinha mesmo razão em temer a presença de poetas em seu projeto de pólis. É gente perigosa, que faz movimentos curandeiros com palavras. É brincando de transmutar que o poeta Alex Simões ginga formas, palavras e sentidos, em seu recente livro de poesia Trans Formas São, lançado em 2018, pela editora soteropolitana Organismo. Esses giros de poesia não foram por mim lidos na racionalidade pretendida de uma crítica literária, mas atingiu o corpo. Taí o seu perigo! Atingindo o corpo, ela (a poesia e seu efeito alucinógeno) tem o poder de agir como feitiço e reorganizar sentidos, desejos, gestos de afeto. Alex nos deu um roteiro de transmutação. E mudar é perigoso para os desejos da nação. Há sumários por todos os lados como bússolas para gente poder se perder à vontade. Há o sagrado “no meio do caminho, entrelugares”, entrecaminhos, encruzilhadas tecnológicas, cantos, sons, Exu, ebó, padê. Sem eixos centrais de sustentação. “Mas há um centro?” Só o habitar do fora.
Alex Simões é poeta, professor e performer baiano. Além de muitas outras publicações em livros e coletâneas, realiza no próprio corpo a experiência literária, através da performance. O livro é composto de 37 poemas. Por meio destes, Alex Simões expõe o mundo através dos olhos apaixonados de quem não apenas observa a vida passando, mas a vive. Por quem atravessa a vida transformando e sendo transformado por ela. Trans Formas São é um livro de performances artísticas das palavras, das formas e sentidos todos, reorganizados a partir do que sentimos, de como amamos e de como seguem nossos desejos e afetos.
O poeta admite fingir, mas não só como o Pessoa, o português. Melhor. Não finge só a dor. Ele diz: é que “me faltam boas ideias e tendo a apelar para grafismos”, há que “fingir que já li muitos calhamaços, roubar, plagiar, sempre negar”. É que “a vida sem sentido dá avisos / há vida pulsando / o tempo urge e às vezes dói lembrar”. Eu também roubo suas palavras agora, mas não sou poeta. Me permito transbordar nessa lama de palavras. Mergulho nela e me transformo também. Aquela mulher que abriu a primeira página do livro não é a mesma quando encerrou a leitura. Alex é modesto. “embora não despreze o métier, e seja mau poeta, é de outra subárea: dos que temos alguma vocação, não pra poesia, mas pra gambiarra”. Acha que é um poeta ruim. Se ser ruim é cumprir essa difícil tarefa de trans forma são, sem controle de como isso é possível, sem reconhecer seu alcance, então, fique satisfeito: você é muito ruim nisso! A gambiarra é que salva! “Toda/o poeta é experimental / obcecado por buceta” [de minha parte, também gosto] / transgênero por vocação / híbrido por definição / fundado na incerteza”. A gambiarra é essa arma que faz da literatura ser aquele menor, conforme Deleuze e Guattari nos ensinaram.
As certezas todas foram embora. Em Trans Formas São nos instalamos no oblíquo, na experiência do quase. “é quase um manifesto / por um quase negro / que é quase um homem / quase filho caboclo eké orixá santo sem base”. “O mundo é uma roda e nós no meio” e a “minha vida é um baile entre seus braços”. Transmutei seus versos para senti-los, novamente, dentro de mim de outros modos, em outras velocidades. Eu também não sei ao certo “que porra é mesmo o contemporâneo”. Mas sei que a poesia underground não tem limites temporais, porque vive nos subterrâneos. Depois discutimos “se houve mesmo uma autoria ou criação coletiva”.
Walter Benjamin, sabiamente, uma vez disse assim: “Nunca há um documento da cultura que não seja, ao mesmo tempo, um documento da barbárie”. Ainda bem que não estamos tratando de um documento, mas dá sua potência significativa, da poesia em seu estado de resiliência. Em sua formulação viva e pulsante nos corpos. “então pergunto: memória e corpo / há distintos um do outro?”. Recortes palavreiros de uma nação colonial em ruínas. Alex dispara um ciclo de notícias: das desalianças internacionais à barbárie da civilização. Em terras brasilis, “Aqui tudo parece que era ainda construção, e já é ruína”, como cantou Caê. Alex nos joga na parede e nos constrange a pegar visão: “em suspenso ninguém vive nem se acerta sem medida”. Vê isso? É o sangue das ossadas da barbárie ainda fresco batendo nas paredes da memória. Afrodiasporicidade. Ancestralidade. Abre o olho, é preciso ver: “escravizados desembarcaram de navios negreiros / morrendo por maus tratos e/ou de orgulho, talvez numa recusa por servir, morrendo como parte de um processo histórico e de resistência em luta”. Marielle, quem matou? David? Luana? Dandara? “escondemos de nós mesmos trezentos anos de escravidão”. Mas de lá dos escombros nos assombram com seu sangue, sua ossada e sua vingança, “enquanto segue o porto maravilha / com o futuro museu do amanhã / o que fazer dos crimes insepultos?” É verdade, “a gente tem de dar uma de louco porque senão ninguém presta a atenção”. É Grada Kilomba que diz “corpos brancos são sempre corpos que pertencem a algum lugar”, posto que nossos corpos negros foram desterrados e mal enterrados pela colonialidade. Acredito que Trans Formas São territorializa, em alguma medida, esse nosso cuíerlombo, para usar uma expressão de Tatiana Nascimento, de gente preta, insubmissa, dissidente e selvagem.
Trans Formas São também são formas trans, trocadilho barato, mas tem seu efeito. Entre cores e amores, essa poesia carrega uma inquietação, um não sei bem o que de agonia. É por isso que “meu coração não tem memória / nem sabe decorar / então decola”. Corpos trans que nos transmutam, pois se “a moda agora é ser sóbria, nós não podemos ser”. É porque “é uma questão política: o contraste é estratégia de quem milita a alegria”.
Trans Formas São é também leveza e beleza, “com os dois pauzinhos, que às vezes se esfregam aligeirados e outras que se atravessam como pontes”, criando conexões, rasuras e misturas no “perder-se entre outros corpos”. Sem esquecer de “respeitar o tempo”, lograr o tempo e aquela “puta censurada suposta martelada”.
Bom, nem todos os poemas couberam nessa leitura, mas como abarcar toda essa imensidão? “e para amarrar essa corda / andorinhas passarão” – Mas #elenão!
Mayana Rocha Soaresé feminista interseccional, decolonial e sapatão. Doutoranda no programa de pós-graduação Literatura e Cultura (PPGLITCULT/UFBA). Mestra em Estudo de Linguagens. Graduada em Letras e Ciências Sociais.
Tempestades de dentro: algumas notas sobre o livro Espaço visceral, de Daniela Galdino
Por Alex Simões
São 33 as vértebras que integram a coluna do ser humano, do cóccix até o pescoço, onde se encontra o espaço visceral. 33, dizem, é a idade de Cristo. 33 foi o número mais repetido em 2016 por mulheres indignadas em alusão ao número dos violentadores de uma jovem de 16 anos no Rio de Janeiro. 33 poemas integram o livro Sobejos do mar, de Lívia Natália. Talvez sem nenhuma relação direta com os diferentes eventos supracitados, 33 é o número de poemas que integram o Espaço Visceral, 3º livro da itabunense Daniela Galdino, lançado este ano pela editora Segundo Selo. Mas, em se tratando de poesia, sabemos: coincidências não existem.
Trata-se de um tomo de poesia erótica, assunto sobre o qual a poeta vem se debruçando há algum tempo, tanto que foi o mote do número 03 da Revista organismo, organizado por ela e Cazzo Fontoura e publicado no ano passado. Devemos tomar erotismo aqui em seu sentido mais amplo, por não se tratar tão somente de uma relação sensual entre corpos humanos, mas de como um corpo, o do enunciador, se relaciona sensualmente com tudo o que consigo fricciona: o próprio corpo, a língua concreta e abstrata, a natureza em todas as suas dimensões e o plano das ideias. É também um espaço de encontros viscerais entre mulheres e suas elaborações verbais e não verbais em diálogo com a obra. Joana Veloso, assinando o projeto gráfico primoroso e as ilustrações, com seu traço delicado, nos dá pistas de como esses corpos se encontram imersos e recortados do tronco para baixo e enredados pela flora que emerge do texto. O volume também traz textos de Karina Rabinovitz, Cida Pedrosa e Mônica Menezes, mulheres, poetas, não necessariamente nessa ordem, que nos ajudam a percorrer esses caminhos escorregadios elaborados pela verve da poeta.
Daniela Galdino segue adepta das formas curtas da lírica, com versos livres e igualmente curtos, numa poética que ao mesmo tempo se propõe mais logopeica, posto que investe muito em jogos de palavras, arriscando-se, às vezes demasiadamente, pela via das construções de ideias a partir deles, numa sensualidade que é intelectual e politicamente programática, não deixando de ser por esse mesmo procedimento melopeica e fanopeica. Aqui imagens, sons e ideias se fundem com o único objetivo: seduzir-nos, enredar-nos na teia de palavras da poeta e na sua floresta umedecida com as tempestades de dentro, para usar uma expressão da autora nesse difícil exercício de explicar de que trata seu livro. Afinal de contas, um livro de poesia trata de tudo o que couber na poesia. Feita a advertência, seguem alguns notas de campo nada sistemáticas de um leitor que andou descalço nessa floresta úmida de tempestades de dentro.
Surge diante de nós, em diversos poemas, uma flora inusitada, úmida, no “pasto fértil”, “planta eriçada ao léu” “nesta primavera de fugas”. “Cachos de murta”, “pinhão roxo”, “pé de mulungu”, “trigo”, ”almíscares”, “horta de hiatos”, a lua que “enfolha” são alguns trechos de diversos poemas em que vemos uma vegetação diversa e, quase sempre, úmida, nesse “mapa” sobre o qual fazemos nosso trajeto-leitor. Em “arada”, como em outros poemas, essa flora também pode se apresentar como resultante de um labor, seja no título, seja nos versos finais: “levo fachos de gritos/aonde me querem muda//replantando-me/ dou cestos fartos”, sendo a ambiguidade da palavra “muda” um reforço da ideia de que esses elementos da flora são metáforas da força do sagrado feminino, pelo domínio das tecnologias ligadas à fertilidade da terra. A flora aparece também como cúmplice de transformações dessas subjetividades estilhaçadas, múltiplas e em constante processo de (des)identificação, como no poema Círio Torto:
seja pé de mulungu testemunha auricular das frestas e dos fartos
Nesse livro, temos uma sucessão de jorros de gozo, lascívia, sensualidade, “conversa de molhares”: poesia. O que não é poema é inchaço, tropeço, dormência, covardia (o poema que não escrevi, p. 13). O que é poema jorra em oxímoro: “quero fogo na Baía de Todos os Santos” (p. 15). Tudo é fértil, porque jorra, é úmido: “só não verde quem não quer” (p. 5).
O erotismo presente nas páginas de “Espaço Visceral” é ativista, feminista, e põe o homem em seu devido lugar de coadjuvante de um processo de autoconhecimento que passa pelo próprio corpo da poeta, por outros corpos, não só humanos, e nas fricções resultantes desses encontros. Reparem, no exemplo a seguir, que não pode ser por acaso (como não pode ser o número de vértebras e o número de poemas no livro): a ausência do pronome pessoal do caso reto para a 3ª pessoa, masculino singular*, no poema “trans-bordar” (p. 51):
(eu) organizo o meu lugar de fala (tu) desarranjas o mapa mental (ela) cospe águas de chuva
desmanchadas espumas sobrevivemos três criaturas consagradas à transgressão
Por causa do livro de Daniela Galdino, descubro que a anatomia define o espaço visceral mais ou menos como um compartimento que fica à altura do pescoço e “é limitado superiormente pela cartilagem tiroideia e, claro, pelo osso hióide, e inferiormente pelo pericárdio fibroso. Engloba a faringe, a laringe, a parede anterior do esôfago e traqueia. É frequentemente atingido quando de perfurações esofágicas e corpos estranhos.”** No mais íntimo de nosso corpo, somos mais suscetíveis ao ataque de corpos estranhos e infecções. Expor o que há de mais íntimo é também expor o que há de mais vulnerável em nós e só as fortes sabem exercer esteticamente essa exposição como um ato político. Anna Akhmátova, poeta russa evocada na apresentação de Monica Menezes, é um exemplo de muitas poetas históricas que insistiram a qualquer custo a dar forma e permanência ao seu trabalho com a linguagem.
Sigo lendo e relendo sinais, catando folhas dessa floresta úmida, macerando com as mãos e sentindo o cheiro e os efeitos em meu corpo de homem atento e ciente de meu não lugar nessa floresta. Aqui, como sempre tem sido com meus encontros com os poemas e performances de Daniela Galdino, eu também “coleciono afogamentos” e “navego, sorvo e corro/ até recuperar razão”. Deixo-me molhar pelos jorros dessas tempestades de dentro.
* #elenão
** Cf. COIMBRA et al. Espaços cervicais: Anatomia descritiva e importância clínica. Revista Portuguesa de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial. v. 55, n. 3 (2017). Disponível em URL < https://www.journalsporl.com/index.php/sporl/article/viewFile/587/473 >. Acesso em: 30 set. 2018.
Alex Simões (1973) é poeta e performer soteropolitano. Acaba de lançar seu quarto livro de poesia intitulado “trans formas são” (organismo Editora) e vem atuando na cena cultural baiana desde os anos 90, com poemas e performances que põem em diálogo a poesia, a música, as artes visuais e o artivismo. Publicou poemas em diversas antologias, coletâneas e revistas nacionais e internacionais, traduzidos para o inglês e o espanhol.
Dividir-se para multiplicar: uma leitura de “Desinteiro”, livro de poemas de Guelwaar Adún
Por Alex Simões
“É colocando a violência do signo poético no interior da ameaça de violação política que podemos compreender os poderes da linguagem” (Homi Babha, O Local da Cultura, p. 97)*
O que pode ser um livro de poesia? Uma arrumação de poemas temporariamente suspensos no tempo, espacialmente dispostos num livro, ou unidade de sentido mediante o esforço de um artista que o assina e o pensa e o executa como projeto? Desinteiro, livro de estreia do experiente poeta-editor Guellwaar Adún, publicado em 2016 pela Ogum’s Toques, é um projeto desconcertante e consistente, um livro cuidadosamente pensado e executado para abalar a cena literária brasileira. Um livro de 164 páginas, dividido em quatro partes (Corda Retesada para Tiro, o Arco Armado, A Flecha, O Alvo), conta com capa belíssima de Dadá Jaques, ilustração de Raimundo Santos Bida e projeto gráfico do poeta que assina a obra.
Em Desinteiro o fragmento nos leva ao duplo, ao múltiplo, ao mesmo tempo que compõe um todo, por ser desinteiro, e não suas partes, suas metades. I-Tal e qual o livro, este ensaio de leitura pede licença a Exu para falar, Padêlicença. O “signo-como-símbolo” ** é tanto o dono do falo quanto o dono da palavra. É assim que se pode entender o trocadilho como estratégia de contra-ataque, de leitura descolonial da tradição, do poema como lugar do isso-e-aquilo. Eixo e Exu são muito mais que simples contraposições, são índices de um ouvido atento para a diferença entre o que se escreve e o que se diz, de um poeta que traz o que traduz, que se revela no que escuta e que problematiza na escrita o que a própria escrita pensada acriticamente não assimilaria como semelhante-quase-igual. Quando “encruzilhadas” é preterido por “encruzas”, tradições discursivas aparentemente distantes são alinhavadas: os pontos de candomblé e as rimas do rap. Ou como explicar a presença do étimo “encruzas” como item lexical no repertório de um poeta meio carioca, meio baiano? O seixoLalu acompanha Ogum(‘s Toques) e Oxóssi. Cancela ejós, dando luz a outros nós, sóis.
O filho de Oxóssi é guerreiro por definição. Reteza a Arca para o tiro e acerta o alvo branco. Desafia o olhar simplista, mostra o poder dilacerante que se exerce pela palavra, no alvo da página, no jogo entre palavra e alvo, nos interstícios, nas apropriações e nas aproximações: o rondeme é tanto o lugar do sacrifício ritual, quanto o panóptico sagrado a que voluntariamente se dirige o iniciado. Aqui o yorubá (e outras línguas africanas que meu ouvido colonizado não identifica), o espanhol, o francês, o inglês e o português se encontram no mesmo poema, dizendo serem os mesmos os problemas enfrentados na diáspora pelos filhos de África em seus encontros e desencontros, mediados pelos modos de gritar contemporâneos. Desse modo vemos um “eu” que vai aos poucos se dilacerando, em consonância com o rito de iniciação: meu eu,/ despido de meu corpo, (Diga a verdade às crianças); um eu que é um lugar sagrado: Meu corpo é meu templo (I-tal); um eu que se retesa no Arco Armado.
E é n’O Arco Armado, que o guerreiro e sua autoapresentação cede lugar para a cena da guerra e para a heteroapresentação (Ferdinandeando, Roteiro para Semembe). A guerra se dá na linguagem, na disputa por um território, naquilo que tem lugar (tempo) em e toma lugar de(espaço), relembrando Fanon, porque “Relembrar Fanon é um processo de intensa descoberta e desorientação. Relembrar nunca é um ato tranquilo de introspecção ou retrospecção. É um doloroso re-lembrar, uma reagregação do passado desmembrado para compreender o trauma do presente.” (Babha, 2005, p. 101) Fanon que, por sinal, é explicitamente retomado no texto de Guellwaar, não só em nome próprio e intimamente citado pelo prenome, como pela apropriação em forma de verbo em primeira pessoa, num dos poemas que, segundo minha limitada e parcial avaliação, constitui um dos momentos mais potentes do livro, inclusive por nele ouvirmos ao fundo a música versista de Cruz e Souza arrematando a polifonia complexa desse ouvido de músico-e-poeta: Frantz palavras e sotaques, fanoneio / portal do inverno, me recolho e me esgueiro. (Portal)
Já em A Flecha, muda-se a estratégia em relação aos nomes próprios. O que, em outros momentos é apropriação e de nomes próprios, para sinalizar afeto e/ou citação como estratégia poético-discursiva (baldwinamente, saramagueando, fernandiando, fanoneio), aqui é enfrentamento e nomeação: Thomé de Souza, não por acaso, vem em primeira pessoa logo após um poema em que é mencionada uma encomenda do rei (o rei e o mar) e antes do poema dedicado a Hamilton Borges Walê, um guerreiro nomeado e uma espécie de irmão-poético de Guellwaar, com quem compôs o grupo “Os Maloqueiros”, levando a poesia e o teatro para as ruas de Salvador. Essa parte termina no que seria o livro como tradicionalmente o concebemos, com a autoria assinada por um sujeito empírico, que assina uma construção verbal, mas que aqui é arquearia do verbo, em que o alvo é sempre o alvo.
Em O Alvo, o desinteiro se realiza, pleno. Lugar de inscrição do leitor, de incompletude assumida, de assunção da página em branco como locus do entrave, do conflito e da negociação entre leitor e autor, do princípio de cooperação entre o leitor que escreve e o poeta que lê: rasura e traço, poesia militante e não limitante, porque incompleta por consciência de si, por consciência do outro. Poesia em favor de, por ser poesia contra, no sentido formulado por Ricardo Aleixo (2000)***:
Vejo….. a ….“boa …poesia” ……como…. .sendo ….aquela …que… é,
independentemente. de. seus assuntos, contra. Contra a língua
cotidianaa. e ..a ..literária, …contra. a …poesia anterior, contra os
conceitos… correntes ..de poesia,. contra .a .poesia das palavras
“poéticas”,..contra ela mesma, …contra a comunicabilidade fácil,
contra…. .o difícil …de… superfície, ..contra a.. História, ..contra a
filosofia,…… contra. .a. ordem.. social e .política vigente, contra a
ditadura… do sentido único, contra a ideia de identidade (étnica,
cultural, …….religiosa,….. sexual etc.) ….enquanto… uma… “ficção
simplificadora” …..que ..tem… como ..fim… último ..a .exclusão da
alteridade, …..contra, ..enfim, ..a enfadonha.. convicção. de que a
poesia está morta.……………… ………………………………………………………..
Desinteiro é, portanto, um aceno em direção à poesia viva, que assume riscos, que interpela a participação ativa de leitoras e leitores, que dá a cara a tapa, propondo desafios e trazendo à cena vozes silenciadas, é a pergunta de Fanon “O que quer um homem negro?” tentando ser respondida: o homem negro quer, entre outras coisas, escrever poemas, dizer que está vivo, que caminha sobre espinhos brancos, assumindo sua condição de guerreiro em combate.
E eis a Dicção da Flecha, que prepara a cena do combate ao mesmo tempo que afirma o sagrado do combate, porque a guerra se faz no discurso, na inscrição do sujeito nesse discurso, e também na cisão desse sujeito, deslocado, diferenciado, reencenando as autoabolições, para, re-nascer. E aqui encerro a minha cena da cena, encerrado nesse discurso em que também me vejo, re-nascido, dividido e multiplicado, desinteiro, irmanado ao sujeito que opera o procedimento cirúrgico e demiúrgico na linguagem:
Em busca da paleta imperfeita na mosca, sem vida fácil, fixação, incerteza, zarabatana espreita olho ácido,ágil mira acesa
Notas:
* Trad. de Myriam Ávila, Eliana Lourenço de Lima Reis e Gláudia Renate Gonçalves.
** Barthes, segundo Babha.op. cit.
*** Na Encruzilhada, no meio do redemoinho. In: Pedrosa, Célia (org). Mais Poesia Hoje. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2000. P. 154.
Alex Simões é poeta, escritor, professor, performer e tradutor de poesia. É autor de “Estudos para Lira” (inédito, Menção no Prêmio Copene 2001), “Quarenta e Uns Sonetos Catados” (Domínio Público, 2013), “(hai)céufies” (Esquizo Editora, 2014) e “Contrassonetos Catados & Via Vândala”(Mondrongo, 2015). Colabora em Revistas Literárias, antologias e em blogs/sites de literatura. Ministra oficinas de poesia, com foco em versificação e ações performáticas em poesia. Recentemente traduziu o livro “Entonces Daniela” (Lummen Editora, 2015) e coeditou um número da Revista Organismo. Integra o Mapa da Palavra e é um dos colaboradores da Revista Barril.
Diante das várias formas de se ler o mundo, ficamos cientes de que dispomos de alternativas válidas de reflexão. Podemos optar por nos posicionarmos em relação a uma série de situações e temáticas, elegendo um norte a seguir. Ou simplesmente temos também a possibilidade de quedarmos mudos e impassíveis. Não é difícil concluir porque a arte, sob suas mais difusas acepções, prefere aqueles que se posicionam diante da vida. Seja criador ou não, quem se envolve com as vias sugeridas pela ambientação artística jamais vive as coisas impunemente, ou melhor, passivamente. Há posicionamento por parte de quem escolhe uma linha criativa e a conduz adiante. Por seu curso, há também posicionamento quando alguém consome o produto da criação de um determinado autor. Mesmo estando em perspectivas um tanto diferentes, emissores e receptores dos conteúdos transitam por um solo comum de expectativas e arremates. É claro que as identificações podem não ocorrer de imediato, fazendo com que aproximações de pontos de vista necessitem de certo tempo de maturação, construindo um ritual de tácitas negociações. Esse intervalo de reconhecimento pode tanto revelar semelhanças de comportamento quanto rechaçar ideias sugeridas. Em que medida, por exemplo, quem escreve negocia com quem lê? Há limites para que surjam concessões mútuas? Tais questionamentos são pertinentes quando se pretende entender que tipo de relação atravessa autores e leitores. Muito se defende que um escritor produz para si mesmo para, em última e desinteressada instância, verificar se aquilo atinge seu público de algum modo. E talvez seja esta última uma checagem que nada tenha a ver com satisfação por um mero reconhecimento, mas sim pelo fato de que alguém acidentalmente partilha das mesmas convicções. Trata-se do autor que se importa mais consigo mesmo, ignorando se o resultado de suas elaborações atingirá alguém enfaticamente. Por outro lado, há quem crie para buscar no seu leitor um eco automático de suas representações. Este, por sua vez, provavelmente tenta vislumbrar o que é relevante para seu público. Talvez seja difícil mensurar com exatidão se há um patamar que equilibre essas duas formas de atuação. São especulações a nos rondar de modo permanente e o que importa mesmo é saber que a liberdade guia tudo isso. Na linha que implica em se posicionar diante da vida, rendemos escutas às opiniões do poeta e performer Alex Simões, o qual, numa entrevista, fala sobre sua trajetória literária, o momento atual do país e outros temas inquietantes. São os versos de Mariana L., Adriana Brunstein, Sónia Oliveira, Clara Baccarin e Alvaro Posselt que também demarcam territórios ativos em torno das epifanias mundanas. É Jorge Elias Neto quem nos apresenta a coletânea de poemas de William Soares dos Santos, materializada no livro “Rarefeito”. Larissa Mendes volta a visitar o trabalho do músico Baia, desta vez com um novo disco. O mais recente filme da saga Mad Max recebe a detalhada análise de Guilherme Preger. Testemunhamos também todo o vigor narrativo dos contos de Fernanda Fazzio, Héber Sales e Roberta Silva. Numa precisa leitura, Sérgio Tavares volta suas atenções para o novo livro de contos de Dênisson Padilha Filho. A arte da espera pauta uma exposição com as fotografias de Suzana Latini por todos os cantos dessa nova edição. É a 110ª Leva e seus caminhos, caros leitores! Sejam bem-vindos!
A voz que não cala diante dos impropérios do mundo também pode ser a mesma que silencia para efeito de necessárias contemplações. Ao poeta, cabe a delicada tarefa de equilibrar imperativos da razão com os apelos do sentimento. Está em jogo a necessidade de que ele se posicione diante do meio que o circunda, fomentando a ideia de que é um ser não dissociado dos fatores notadamente históricos, sociais e políticos.
Quando vemos desfilar ante nossos olhos a trajetória de um autor como Alex Simões, percebemos que estar no mundo não é um ato acidental. Há que se vislumbrar a consciência de dois polos de pretensão: o observar e o agir. Para Alex, observar é olhar detidamente para um tudo que nos abraça mesmo involuntariamente. Num outro eixo, agir é estar consciente de que a arte é ferramenta de mobilização ativa no que tange à construção de uma sociedade sob as suas mais variadas vertentes.
Artífice da palavra, Alex privilegia a forma como mola propulsora da criação para depois demarcar os territórios do conteúdo. O que resulta dessa conjugação é uma obra cujos domínios posicionam seu criador como um dos mais vigorosos representantes da moderna poesia brasileira.
De fato, o poeta a quem entrevistamos agora sabe o que dizer. Seus versos configuram uma representação de que estar no mundo é também uma questão fundamental de defender pontos de vista. E não esperemos dele o esteta que se deslumbra com os elementos plásticos e superficiais de seu ofício, aquele bem distanciado do público em geral, como se habitasse um olimpo da criação. Pelo contrário, a afirmação de uma identidade enquanto sujeito pensante, crítico e lúcido torna suas vias literárias notadamente mundanas, sobretudo porque tem a consciência de sua voz, seu corpo e seu tempo.
Nascido em Salvador, Bahia, Alex Simões é pungentemente poeta e performer. Especialmente, a fusão entre essas duas frentes de atuação desemboca nas assim chamadas poerformances. Nelas, o poeta expõe, pelos trajetos da mente e do corpo, o seu valioso desejo de aproximação com seus semelhantes, quebrando paradigmas, dessacralizando a poesia e tornando-a um instrumento de partilha social. São de sua autoria os livros “Quarenta e Uns Sonetos Catados” (2013) e “(hai)céufies” (2014). É também professor e tradutor e, desde os anos 90, integrou várias revistas e antologias literárias dentro e fora do Brasil.
Ainda sob o efeito do seu mais recente livro, “Contrassonetos: catados & via vândala” (Ed. Mondrongo – 2015), Alex dialoga conosco sobre uma vasta gama de temas. Uma conversa que perpassa também a sua construção social e política enquanto sujeito que recusa um ideal de poesia que não seja reflexo do mundo no qual vive. Nesse ínterim, há o testemunho do autor diante dos aspectos que atravessam marcantemente sua obra, mas irrompe sobremaneira o olhar de um alguém devotado às questões que o tornam demasiadamente humano.
Alex Simões / Foto: Ricardo Prado
DA – Na leitura do seu mais recente livro de poemas, chama atenção a harmonia marcante entre aspectos formais e de conteúdo, uma característica sua. E não há facilidades nesse seu caminho em direção ao leitor, tampouco conduções herméticas. O que dizer desse rumo?
ALEX SIMÕES – De fato, é uma característica. Eu parto fundamentalmente da forma, e é meio complicado dizer isso, mas parto dela. Esteticamente, penso em termos de poesia. Em projetos estéticos em geral, penso a partir de formas. Escrevo coisas muito diferentes de sonetos. Versos livres, haicais, baladas, enfim. Mas eu geralmente penso na forma que vou usar. Essa adequação entre forma e conteúdo é mais do que uma adequação. Existe uma organicidade que foi conquistada. E fico muito lisonjeado quando isso é reconhecido porque, às vezes, quando falam de mim, ressaltam muito essa condição de ser expertise, de ser um bom formalista, mas na verdade não é o que me interessa. É importante, sim, o domínio da linguagem, mas me interessa mesmo é dizer coisas. Eu procuro pensar de modo muito simultâneo, ou seja, que há formas adequadas de dizer certas coisas. Esse livro mais recente é um livro que tem 23 anos de história e você vai encontrar sonetos que dizem coisas lindas, mas que são mais formais, e que havia uma maior facilidade em direção ao leitor, além de trabalhos mais recentes, nos quais eu trago tanto um rigor no sentido de pesquisar e trazer a minha língua cotidiana para essa forma fixa, tradicional, ao mesmo tempo em que há esse respeito ao leitor. Quando você cria, surge um público e você gera uma relação de intimidade com a forma e a linguagem. Essa harmonia que você definiu é reflexo disso, duma relação que é muito antiga com a poesia e que se reflete em diversas formas e relações. A mais antiga e consistente é o soneto, mas também tenho esse outro lado de experimentar e, quando estou muito confortável, buscar outras maneiras de quebrar essa minha intimidade, de criar disrupturas. Não me constituir um poeta de linguagem hermética, ao mesmo tempo em que não facilito, é um equilíbrio que está muito na preocupação em trazer a língua do cotidiano, a mais próxima possível dele. Eu observava que no começo tinha um acento muito lusitano, notando que escrevia de uma forma distinta da minha fala. Passou a ser também uma preocupação, ao mesmo tempo em que venho trazendo temas e questões as quais criam uma tensão nessa busca por uma linguagem mais simples. E, às vezes, certas questões não podem ser ditas com total simplicidade. Acho que essa tensão também é produtiva por isso.
DA – Essa questão toda faz pensar sobre uma certa obsessão que alguns têm em dizer que a elaboração do poema é uma mera construção matemática, uma disposição de arranjos. Ao poeta, há que se deixar transbordar o sentimento?
ALEX SIMÕES – Essa discussão é antiga e, digamos, eu tendo mais para o lado cabralino, nessa coisa entre poeta possesso e poeta cerebral (nunca lembro ao certo quais categorias são mencionadas por João Cabral de Melo Neto). Eu já escrevi do jeito “vou fazer uma coisa movido”, mas no meu caso chegou um momento em que isso parou de funcionar. Geralmente, penso, fico maturando muito o que vou fazer. E tenho, sim, esse lado matemático, e não sei se serve pra mim, pois sou péssimo em matemática (risos). Há uma certa obsessão em ter algum controle sobre o processo e ficar maturando. Por exemplo, eu tenho uma encomenda, que é entregar uns poemas para uma revista, e não quero pegar coisas já prontas. E fico pensando muito em como vai ser. O sentimento está aí. Eu sou uma pessoa controlada por ele. Isso me governa. O sentimento tanto vai atravessar isso, porque ele antecede o planejamento, ele me constitui como pessoa, e também porque é uma construção. Essa capacidade de construir sentimentos através da linguagem é um processo de exercício. Exercitamos a capacidade de dizer coisas. Vou dar um exemplo concreto e relativamente recente. Participei de um processo de seleção, no qual mandei um projeto de poemas, e tirei uma nota muito baixa na minha avaliação pessoal. Foi algo abaixo da média. Foi um poema que escrevi muito puto, chamado “Balada de um poeta ruim para si mesmo”, e ali tem muito de uma frustração, uma chateação, irritação, mas é usando terça rima, fazendo referências a Dante, pensando num mote em que eu desenvolvo, e vou falando nisso ao longo do poema, e que está em “O Demônio da Teoria”, de Antoine Compagnon. Meu sentimento transborda também aí. Também tenho uma formação acadêmica e erudita, algum conhecimento legitimado que me atravessa, e meu sentimento vai através desse repertório. Não concordo com a ideia de que há que se controlar o poeta. A poesia é permeada por sentimentos, sim, mas em matéria de estética e ciência a gente não pode nunca dizer “tem de ser assim”. Tem de se ter liberdade de fazer qualquer coisa, inclusive abrir mão desse negócio de sentimento. No meu caso, não preciso ter controle de tudo. Já sou essa pessoa transbordada na minha vida pessoal. Então, nas minhas produções, eu tenho minimamente que pensar e planejar, senão é muito caos.
DA – Você acolhe o termo contrassonetos também como uma consciência da sua capacidade de transgressão enquanto criador?
ALEX SIMÕES – Totalmente. Eu conto essa história no livro. Esse termo já existia antes do escritor Ronald Augusto usar. Ele falando do meu livro “Quarenta e Uns Sonetos Catados”, que originou o “Contrassonetos: catados & via vândala”, no qual diz que não gosta de sonetos, mas o que aprecia no meu livro está no fato de serem contrassonetos, por eu não encarnar a persona de sonetista. E tem muitos sentidos aí. Eu me assumo como transgressor em termos políticos, identitários. Faz parte da minha vida. Sou contra- hegemônico, negro, homossexual, e essas questões aparecem inevitavelmente no que eu falo, nas minhas posições, na minha poesia e formalmente. Ao contrário do que pode parecer, esse exercício de dominar a língua do colonizador, usando as formas tradicionais, hegemônicas, não é um fim em si, mas um meio de dizer coisas, e dizer para públicos outros, que não são os meus pares apenas. Também para minar essa língua por dentro, essa forma por dentro. O que me interessa é dizer “eu sei fazer um soneto bonitinho, mas isso não é o mais importante”. Eu sou poeta. Assim como digo que sou negro e gay, sou poeta. Poeta que pode fazer um soneto, um haicai. Contrassoneto é nesse sentido de transgressão no qual está tudo misturado: ética, estética, política. Eu uso uma forma tradicional, mas não para conservá-la ou dizer assim “gente, com licença, sei fazer”. Foi em um certo momento, não é mais.
DA – As questões de identidade povoam cada vez mais a literatura. Na medida em que se apoiam em atitudes de afirmação política, ideológica, dentre outras, esses posicionamentos são algo fundamentais?
ALEX SIMÕES – São fundamentais e sempre existiram. Quando se há um silenciamento, e isso é comprovado inclusive através de estudos quantitativos nos quais se fazem levantamentos da etnia, da orientação sexual, do que são personagens literários e as referências da literatura brasileira, quando não se menciona certos lugares, a gente está falando de um lugar branco, heterossexual, masculino, de classe média pra cima. Então, nesse sentido não há uma novidade. O que existe em termos de novidade é que à medida que essas discussões, não só no Brasil, mas internacionalmente, dos anos 60 pra cá vêm ganhando corpo, naturalmente isso vem aparecendo mais e são fundamentais desde que não sejam exclusivas, que não virem uma camisa de força. Quando eu digo e repito que sou negro e poeta, não esperem de mim nenhuma performance ou atitude dentro, encarcerada nessas identidades. Temos identidades e identificações. Qualquer estereótipo, qualquer prisão eu recuso e, nesse sentido, cabe meu aspecto transgressor de quebrar expectativas. Há situações nas quais é fundamental a gente se posicionar politicamente pra que não nos tomem como homem branco, heterossexual. É importante mapearmos isso porque falar por falar sem ter um domínio de um repertório, sem ter interlocutores dentro de uma linguagem, sem ler outros poetas e não só os poetas que me interessam, sem possuir o mínimo de conhecimento da linguagem em que estou me metendo, vai virar panfleto puro, e isso não tem valor. Se é para dizer às pessoas apenas que sou negro e gay, é melhor eu escrever um panfleto, e não um poema. Mas poder ter alguma relevância dentro de uma cena, um discurso, e poder falar de um lugar de opressão, denunciar que há um genocídio contra a população negra, homossexual, transexual, LGBT, isso é importante. Na medida em que eu puder dizer que existe um investimento violento contra segmentos minoritários, vou dizer. Eu sou uma exceção à regra. Duas vezes. Mas sempre nessa medida de que, enquanto poeta, eu tenho a liberdade de fazer qualquer coisa, inclusive de não querer falar sobre isso. Não considero que seja covarde o poeta ser negro e não querer falar sobre isso. Ele tem que ter liberdade. A poeta ou a escritora que seja mulher e não queira discutir isso em sua literatura. Não se pode abrir mão dessa liberdade. Não se pode usar camisa de força nem ser considerada literatura menor aquela que é produzida por um poeta que discute isso, inclusive na sua poesia e nos eventos em que participa.
Alex Simões / Foto: Laura Castro
DA – Na transição entre o mundo fragmentado em que vivemos e o papel, de algum modo sua apreensão das coisas é marcada pelo caos?
ALEX SIMÕES – De todos os modos, o que eu produzo é marcado pelo caos, inclusive nessa necessidade de tentar controlar minimamente esse caos que me constitui. Eu sou nietzschiano. Entendo que o caos, a disrupção e a violência são constitutivos da humanidade, da história. São aspectos que nos constituem, e há um esforço histórico em apagar essas questões que são nossas e que não são necessariamente ruins. Tem duas coisas na sua pergunta que me chamam atenção e que talvez precise demarcar em algum momento. É quando você fala em trazer para o papel. Sou um poeta que também vai para o papel, mas que também, cada vez mais, está buscando formas e suportes que são, a princípio, não tradicionais para a poesia. Esse caos é minimamente controlado na unidade livro. Quando a gente pensa em livro, sumariza, topicaliza, dá uma sequência, reflete em termos de gênero. Eu escrevo poesia e isso tem uma repercussão até na forma como a mancha escrita se impõe no texto. É diferente da prosa. Tem um caos que é constituinte, mas que é minimamente organizável quando se escreve dentro dele. A outra questão com o caos é a que passa por outras linguagens, como eu disse antes, e que passa também por um evento chamado Dominicaos, idealizado por Orlando Pinho e Heitor Dantas, e que eu ajudo a desorganizar. Orlando, que é poeta, diz que o caos opera. Eu assumo esse caos e acho que ele é importante, pois é o caos criativo que possibilita as coisas acontecerem com um mínimo de controle para que justifique o fato de eu assinar as coisas que publico, performo e realizo esteticamente. É essa minha capacidade de lidar organicamente e disciplinadamente (risos) com esse caos que justifica minha assinatura. A gente vai aprendendo a conviver com esse caos. Estou falando como artista, mas isso é a vida, pois ela é caótica. Tenho, como qualquer pessoa com 43 anos de idade, tido experiências com o acaso. Vivemos um momento político caótico, tive mortes de familiares. E assim vem o caos e tomamos a consciência de que nós somos desgovernados por excelência. Somos ocidentalmente condicionados à ideia de que a vida tem uma sequência, que as coisas estão minimamente organizadas. É só uma intenção.
DA – Uma outra linha de expressão sua está nas performances poéticas. Que papel elas assumem, sobretudo na sua relação com o externo?
ALEX SIMÕES – Digamos que de quatro anos pra cá isso tem aparecido cada vez mais. O que eu chamo disso é o cruzamento com outras linguagens, inclusive a performance, não só ela. Costumo chamar de poerformance por covardia, por não me assumir como performer, pois está num entrelugar entre performance e poesia, além do que convivo o tempo inteiro com performers, com o pessoal da dança, do teatro, das artes visuais. Meu cotidiano está muito permeado pela convivência com pessoas de linguagens diversas. Sempre tive um pouco de vergonha de me assumir como performer. Tem uma relação, claro, com o externo, mas tem um movimento que é muito relacionado com alguns eventos que eu frequento. Falei do Dominicaos, que não só frequento como também integro o núcleo de produção. Tem também o Sarau Bem Black, Pós-Lida, enfim, uma série de eventos aqui em Salvador que frequento e comecei a falar poesia. Esses três que cito são lugares em que eu via uma vibração com relação à poesia, com a performance, com o modo de falar, que tem muito a ver com o cruzamento de linguagens, caso do Pós-Lida e do Dominicaos, algo que apresenta um olhar mais arejado e contemporâneo da poesia. No caso do Sarau Bem Black, também contemporâneo e ligado a essas questões identitárias que falamos, é um movimento mais internacional, que é do Slam Poetry. Sempre me incomodou muito um certo desinteresse, aquele modo poesia declamatória, como o Wally Salomão gosta de falar ironicamente. A poesia declamatória não desperta, não consigo mais ver uma poesia mais ou menos gritada. É parte de minha pesquisa ver o trabalho dos performers e me sentir afetado, e ter a necessidade de trazer isso para o corpo. Existiam questões que eu via que não eram resolvidas apenas na poesia e, durante muito tempo, eu sofri muito com isso porque demorei muito a me assumir como poeta e artista. Também não entendia direito como era isso de querer fazer coisas diferentes ao mesmo tempo, pois a gente ainda tem uma formação disciplinar de ver isso como um problema. Com o tempo e convivendo com certos artistas, linguagens e olhares, fui percebendo que isso não é um problema necessariamente. A performance é um modo de se relacionar com o externo. No meu caso, estou muito interessado no cruzamento entre poesia e música. Isso não é invenção minha nem desse tempo, é uma relação milenar, mas que tem ganhado força. Faço performances em que cruzo música popular massiva com poesia canônica, cruzo artes visuais com poesia. Tudo isso tem muito a ver como minhas referências. Tem uma série de pessoas, algumas vivas, outras não, que foram impactantes na minha formação. Para falar de um autor vivo e que está muito nessa pegada e próximo de mim é Ricardo Aleixo. Também Joan Brossa, poeta catalão que morreu na virada dos anos 2000, e alguns artistas visuais. Zé Mário, um performer daqui e que hoje está em Brasília, foi extremamente importante nessa minha formação. No Pós-Lida, tem o James Martins, que possui um modo de dizer poesia que me interessa. Karina Rabinowitz, que tem essa coisa do cruzamento de linguagens. Daqui da Bahia ainda tem Laura Castro. Para completar as referências, tem Daniela Galdino, que é de Itabuna, Morgana Poiesis, de Vitória da Conquista, que são pessoas da performance. Ainda nessa relação com o externo, nesses eventos que tenho participado, dando oficina, sobretudo, tenho tido oportunidade de ver que é um privilégio lidar com o público, que não são públicos típicos de literatura, pois não são de eventos estritamente literários, não são da minha faixa etária. Vejo com muita alegria quando esse esforço de fazer o cruzamento de linguagens e de trazer a poesia para o corpo da gente chega de forma impactante, viva, principalmente em relação a um público que não é típico de literatura. E cada vez mais me interessa estar com esse público porque aí também tem uma questão política de formação. A gente lida com um público muito restrito e tendemos (nós da literatura) a correr o risco de acreditar que não precisamos fazer esse esforço de formação, de chegar junto, de criar estratégias para difundir o que fazemos. Eu estou cada vez mais em outra proposta. O que faço não é só poesia, mas acredito que minha poesia ganhou muito. É uma relação de troca porque é poesia viva. Internacionalmente, é o que o Slam Poetry tem feito e que reverbera nos saraus de periferia. O que tenho feito é muito afetado por essa vibração. Sempre ficava me questionando o que é que o músico popular tem que faz a gente vibrar. A maioria dos poetas não tem. E eu não estou dizendo que eu tenha. O Slam Poetry consegue, os saraus de periferia também. Para ficar nos daqui de Salvador, você vê o Sarau da Onça, no qual percebe as pessoas vidradas no que os artistas dizem. Sempre fiquei numa bronca porque sou super fã de shows de transformistas e pensava como é que a gente faz para em poesia fazer as pessoas ficarem vidradas também. Hilda Hilst deixa as pessoas pulsando, Drummond também. A performance tem sido um lugar onde isso tem se tornado possível.
Alex Simões na performance “A Capella de Waly” / Foto: Daniel Guerra
DA – Aproveitando um dos seus arremates, é preciso dessacralizar tanto o poeta quanto a poesia?
ALEX SIMÕES – É fundamental. Temos algumas heranças lindas. Sou um devoto da tradição. Um transgressor disciplinado. Não jogo tudo que está na tradição fora. Mas a gente tem umas heranças complicadas do Arcadismo, do Romantismo, do Neoclassicismo e da poesia moderna também. Uma delas é essa ideia do poeta da Torre de Marfim e do poeta hermético. Isso tem feito muito mal para a poesia porque a gente ficou num lugar solitário, de pouca penetração. Isso se reflete em muitas situações. Eu estava num evento importantíssimo discutindo esse momento político horroroso que estamos vivendo, debatendo a destruição do MinC, essa falsa reintegração desse ministério. E durante duas horas e meia que eu estava lá, praticamente não vi referências de literatura e poesia. Isso não é culpa das pessoas que estão lá. Também não é apenas culpa dos profissionais da palavra do Brasil de hoje. Tem muito a ver com essa perda de penetração que o poeta tem nas massas. O último grande poeta das massas que a gente teve foi Maiakovski, durante a Revolução Russa. No século vinte, a gente perdeu esse lugar. A poesia moderna criou um lugar de hermetismo. Acho que esse lugar foi ocupado. Os músicos populares, e alguns deles são poetas de fato, exercem essa função, mas é preciso dessacralizar, e tem gente fazendo isso. Vou dar um exemplo de dessacralização: os poetas em geral da geração Mimeógrafo têm feito isso. Tem um vivo que continua fazendo isso, o Ricardo Chacal. Dessacralizar, inclusive, em termos de linguagem, de uma preocupação em falar para os que não são seus pares, para os que não apenas estão interessados no exercício de ler poesia, mas também na demonstração daqueles que querem que isso chegue junto deles. Ricardo Chacal tem um livro, “Murundum”, que ele diz que escreveu para estudantes de ensino médio de escola pública. Ali ele se dessacraliza. É importante porque a gente precisa falar de um lugar mais terreno. Poetas e pessoas de literatura. E eu faço essa distinção a la Ezra Pound. É fundamental a gente que faz literatura e poesia no Brasil entender que esse lugar sagrado que alguns de nós falamos é um tiro no pé. Estamos falando para ninguém. Precisamos dessacralizar até pra poder chegarmos nas pessoas. É importante para a sociedade que o que esteja sendo produzido de poesia contemporânea chegue junto das pessoas. Vou dar mais um exemplo que tem a ver com performance. Mais recentemente, eu estava na ocupação do Minc, fiz uma performance, que é “A Capella de Waly”, e ouvi um depoimento de uma jovem que disse que teve uma oportunidade rara de olhar no olho de um poeta. É uma performance que não digo nada meu, falo coisas de Waly Salomão durante trinta minutos, digo poemas e canto canções com letras dele. Acho que isso diz muito, esse depoimento dela. Ela pôde olhar no olho de um poeta. É um lugar que também me coloco, de olhar no olho das pessoas, de não falar do alto para baixo. Estou trocando coisas e esse é um exercício de dessacralizar esse lugar. Há uma tendência, muito marcada por essas tradições, em falar poesia ainda muito de cima para baixo. Tem gente muito legal fazendo. Por exemplo, Angélica Freitas quando faz um útero do tamanho de um punho, e que pega poemas que são googlados, desmascara o machismo que está presente no inconsciente coletivo e que se reproduz nas nossas formas discursivas contemporâneas, está dessacralizando esse lugar do poeta. Baudelaire falou, há cem anos, sobre a perda da aura do poeta. Infelizmente, parece que alguns e algumas colegas ainda não entenderam que acabou. Nossa aura caiu num lodaçal. Tá na lama e a gente precisa assumir. Nossa única possibilidade de existência, penetração e relevância é assumir a sujeira do cotidiano, do contemporâneo.
DA – Com que olhos o Alex educador vislumbra a formação de leitores?
ALEX SIMÕES – Com olhos de lince (risos). Eu, além de dar aula em instituição formal, faculdade, sempre estou preocupado com essa questão de formação. Acho que isso é muito importante porque dá uma consciência de realidade, uma noção mais pé no chão de como temos poucos leitores porque estou nesse outro front, o da sala de aula. Tenho cada vez mais dado oficina de poesia, que pra mim tem sido uma alegria. Gostaria muito de dar mais e estar menos em sala de aula formal, pois eu me sinto, inclusive, mais efetivo. Essa minha preocupação com a formação de leitores está cada vez mais voltada em criar pontes. Falando de performance, é entender que esse leitor contemporâneo, foi formado e tem menos de 30 anos, com raríssimas exceções, vai se sentir mais conclamado a conhecer a poesia através de outras linguagens. Tenho 43 anos e tive o privilégio de chegar à poesia, sobretudo pela música. Sou de uma geração que via na rede Globo Vinícius de Moraes sendo interpretado em programas especiais para crianças. Ainda tem gente muito massa fazendo isso. Adriana Calcanhoto, por exemplo. Essa ponte é fundamental para formar, e não apenas crianças, claro. Esse meu olhar de educador está muito interessado em buscar pontes não só entre linguagens, mas pontes que vislumbrem pertinências entre as origens das pessoas, pois empurrar qualquer tipo de poesia para qualquer público é estéril. Você tem que entender que há lugares. Daí, a gente volta para aquela questão das expressões identitárias, ou seja, você falar para um público que é majoritariamente negro, adolescente, sem trazer essas questões, e empurrar Baudelaire ou um cânone europeu ou estaduninense goela abaixo, é um olhar não formativo. Falo também de quem fez graduação em Letras e teve muita dificuldade porque passou por alguns professores que não tiveram esse cuidado. Felizmente, tive essa boa experiência de formação de leitura, mas vi muita gente se perder no caminho por conta de educadores que não tiveram esse olhar de entender que a formação de leitor passa pela história da pessoa, seu contexto social. Você tem que criar iscas. Existe um caminho longo a se percorrer. Se não me engano, 8% da população brasileira é proficiente em leitura. Isso é grave. Quando junto música com poesia, estou muito interessado em fisgar o público, fazê-lo se interessar pela leitura.
Alex Simões / Foto: Eric Jenkins-Sahlin
DA – O que é o seu país hoje?
ALEX SIMÕES – É a pergunta mais difícil e a que menos vou ter certeza. Primeiro, porque preciso dizer que qualquer noção de país e nação é uma noção precária, problemática, pois implica muitos silenciamentos, muitos apagamentos para que exista um país, uma nação, uma bandeira. Mas o Brasil em que a gente vive é um país que passa por um momento muito delicado. Estamos sofrendo um golpe numa democracia que nunca foi muito amadurecida, num contexto político em que a gente ainda não tem maturidade política para discutir, para se colocar e se posicionar, mas que está sofrendo um golpe. A despeito dessa polarização que é construída, que não é inocente nem ingênua, é muito triste ver o silêncio de algumas pessoas. Eu até acredito que, durante certo tempo, algumas delas foram movidas por boa intenção e contra a corrupção, que é constitutiva de qualquer governo (e não estou justificando nenhuma corrupção). Temos provas muito contundentes de que estamos num momento delicado e que se trata, indiscutivelmente, de um golpe. Uma perseguição a uma pessoa, uma estadista, que é travestida de machismo e misoginia. Temos muitos avanços importantes que foram conquistados e que estão sendo ameaçados. Isso me afeta diretamente. Meu corpo, minha história estão sendo ameaçados. Estou num lugar de contestação a isso tudo. Ao mesmo tempo, é um momento de reflexão, de possibilidade, de reversão dessa falta de articulação nossa. Quando falo nossa, trato desses segmentos minoritários, da esquerda (sou uma pessoa de esquerda). Mas não tenho certezas. Acho que é muito importante dizer que não dá pra ter certezas. Sou uma pessoa extremamente politizada, durante toda a minha vida, venho de movimento estudantil e nunca deixei de fazer política. Não tenho certezas. São contingências, circunstâncias nas quais a gente precisa se posicionar. Eu consigo dormir porque estou me posicionando contra um golpe que está acontecendo. O país que vivo é um país que está sendo golpeado por uma corja. E temos um não governo com sete ministros investigados por uma operação que é a mesma que falsamente teria sido motivo para tirarmos uma presidenta. Por outro lado, temos que reconhecer, há erros no governo que foi deposto. Na minha avaliação, erros por não ter se assumido como um governo de esquerda, que radicalmente deveria extirpar ou diminuir ao máximo possível as diferenças, a desigualdade social. Eu vivo num país em que vejo todos os dias na minha rua, em todos os cantos, as pessoas comendo lixo. Morro de vergonha disso. Isso é lamentável. É um país que mata um jovem entre 15 e 25 anos, negro, a cada dois dias. É um país que espanca e comete violência contra a mulher a cada 15 minutos provavelmente. País que estupra, que mata mais de mil mulheres por aborto porque é criminalizado hipocritamente. É o país que mais mata homossexuais e transexuais no mundo. E é o país que eu vivo e amo com todas essas contradições. Mas é um país do qual não tenho muitas certezas. Realmente, é a pergunta mais difícil.
DA – Diante de tantas coisas que nos oprimem, você acha que a arte é um instrumento de libertação?
ALEX SIMÕES – Sim. A arte é um instrumento de libertação, de esclarecimento. Desconfio que se não fosse um artista, não fosse poeta, provavelmente seria um terrorista (risos). A arte pelo menos tem essa função no mundo. Ela evitou um terrorista. Faço guerrilha com a arte. Defendo pacificamente a revolução através da linguagem. Acredito que a arte possibilita nossa transformação. Ela mudou minha vida. Tenho afeto pelo mundo, acredito na possibilidade de transformá-lo. A revolução passa pela estética, por um olhar estético sobre o mundo. A arte liberta porque educa, transforma, cria possibilidades de novos mundos. Ela, com certeza, me livrou de ser um terrorista. Eu poderia estar fazendo coisas terríveis se não fosse a possibilidade de dizer coisas com meu corpo, com meu texto, através da poesia. Ela me faz ficar nesse mundo e criando essas possibilidades de dizer coisas que não são utópicas porque se concretizam através de palavras e formas.
DA – É possível escrever sem morrer um pouco a cada dia?
ALEX SIMÕES – É impossível viver sem morrer um pouco a cada dia (risos). Sartre ou Kierkegaard, acho, falava que o sentido da vida é a morte, que morremos a cada dia, enfim. Viver antecede, é uma questão maior do que escrever. A gente escreve porque vive, mas talvez quando a gente escreve todo dia, e felizmente é meu caso, criamos a ilusão de dar sentido para essa vida, pois ela não tem sentido. Escrever todo dia é fazer a vida mais possível, mais pulsante. É um modo de enfrentar, pois a morte é inevitável, vai circundando a gente. A escrita, para mim, tem sido cada vez um modo de enfrentar a morte. Não só a minha, mas a morte que está cada vez mais ao meu redor. Tenho cada vez mais pensado nisso. Já vou fazer 43 anos e fico pensando não só na minha, mas no fato de que cada vez mais as pessoas ao meu redor estão ficando mais velhas, adoecendo e morrendo por motivos diversos. Então, escrever é também um modo de enfrentar isso, me deixa mais forte.
Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.