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116ª Leva - 01/2017 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

Bífida, o poema na multiplicação da vida

Por Helena Terra

O livro é o de estreia na poesia, mas os versos se apresentam encorpados dentro de uma rota em que a linguagem, a subjetividade e o imponderável, da delicadeza à brutalidade, clarificam-se em uma expressão pessoal e em uma estética representativa do que nos é universal e inesgotável em confronto com o que nos é singular e finito e vice-versa.  Bífida e outros poemas, de Alexandra Lopes da Cunha, uma das vozes mais originais da nova poesia brasileira contemporânea, concilia, em sua dicção ora coloquial ora sofisticada, a escalada e a queda, não necessariamente nessa ordem, dos sentimentos e das inquietações peculiares a todos os seres humanos, em especial, às mulheres, suas nuances e seus espaços.

O título do livro não é aleatório. Bífida, feminino de bífido, vem do latim bífidu, aquele que está fendido em duas partes, que foi partido ou separado.  “Dividida de nascença, / bipartida na origem,” são os versos que abrem o poema que leva o mesmo nome da obra e que serve também como indício, quem sabe porto seguro, da visão de mundo complexa, reflexiva e dialética da autora. Seu pensamento é lúcido, autoconsciente, crítico. Suas emoções, viscerais.  Se por um lado, há ponderação, quase meditação, sobre o sentido da vida, por outro, há indisciplina, quase revolta, sobre o desconcerto de estar no mundo.

Os desdobramentos dos poemas, quarenta e nove organizados em ordem alfabética, são diversos. O corpo na multiplicação da vida: “Na nudez do meu útero / acumula-se o pó dos anos.”; as obrigações do narcisismo culturalmente impostas: “Sou mulher sem qualidades / Desqualificam-me os adjetivos / e os advérbios ignoram-me / solenemente.”; e a pulsão sexual em constante combate com as intimidações da sociedade patriarcal: “Penetra meu corpo pelos poros de minha pele, / imprime em minhas retinas tua onipotência.” são três temas recorrentes do mosaico poético inaugurado por uma das questões mais presentes, senão a maior, da humanidade: a morte.

Os três, repetindo-se e reproduzindo-se, funcionam como uma espécie de tripé ou de paradigma social e emocional para as invasões e desenvolvimento dos demais assuntos e para a consumação do todo poético, do mesmo modo, político, filosófico e ideológico, não havendo um maior ou mais impactante. Por detrás das fragmentações e da discreta falta de nitidez, comunicam-se e convergem-se identidades que nos traduzem.

Nada disso, entretanto, nos permite desvendar ou dominar o Bífida e outros poemas. A abrangência e o significado mais profundo de cada poema se ampliam a cada releitura, renovando o campo semântico e as possibilidades de apropriação e de fruição dos leitores. Uma experiência ressignifica a outra e a outra e assim por diante assim como, também, ressignifica a herança literária e cultural das gerações passadas.

Não há citações, mas é possível vislumbrar influências, rastros; é possível estabelecer conexões e diálogos do Bífida e outros poemas com a produção de outras mulheres poetas: Marina Tsvetáieva, “ não serei animal ferido que se / arrasta”; Wislawa Szymborska,  “habitualmente, acordo na condição da testemunha atrasada, / com o milagre já consumado”; e Emily Dickinson, certeira com o seu “uma palavra morre / quando falada / alguém dizia. / Eu digo que ela nasce / exatamente / nesse dia”, são alguns exemplos da substância contagiante e libertadora da poesia, que se for de verdade, não há por que duvida, já nasce assim de pé e inteira.

Helena Terra é gaúcha, escritora e ilustradora. Publicou contos, poemas e textos em antologias e revistas literárias e o romance A condição indestrutível de ter sido.

 

 

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115ª Leva - 09/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Alexandra Lopes da Cunha

 

Foto: Raul Krebs

 

A minha morte

 

Será um dia a minha morte.
Ou noite, tarde, um instante
cravado, remate em meu tempo,
minhas horas findas, neste momento
até então desconhecido, impreciso,
imprevisto, mas sabido desde sempre.

Será e eu deixarei de ser.
Será e eu calarei o fluxo contínuo
de minhas palavras profusas,
o fluxo pulsante de meu vasto sangue,
o ar exalado será frio, insignificante,
carregará resquícios de mim.

Os meus olhos, que foram outrora
tão bonitos!
Janelas despertas…
Abertas
agora ao nada.
Fechados agora para tudo.

 

 

***

 

 

PreTérito

 

Não é. E não somos mais que destroços,
trastes cobertos de ferrugem
e da poeira dos séculos.
Mariposas exaustas
a flutuar
na imobilidade rarefeita
do ar antes da chuva.
Já somos pretérito,
amor morto.
Já somos.

 

 
***

 

 

Definição

 

Sou mulher sem qualidades.
Desqualificam-me os adjetivos
e os advérbios ignoram-me,
solenemente.
Substantiva até a medula dos ossos.
Também abstrata, se me convém…
Dos verbos imperativos, mantenho distância.
Prefiro os condicionais, hipotéticos.
Pretéritos? Sempre imperfeitos.
Artigos indefinidos,
pronomes impessoais,
não sou amiga de coletivos.
Só eu, poeta,
em algumas horas do dia.

 

 
***

 

 

Criador e Criatura

 

Criaste um demônio
ao pousar em mim teus olhos
escuros de pólvora.
Queimei, incandesci,
desabrochei em primavera antecipada,
rubra flor carnívora,
expectante de ti.

Deste luz a este ser faminto dos teus afetos
e te foste,
irresponsavelmente desavisado,
as mãos nos bolsos, aos lábios,
uma melodia sibilante.

Me fiz em teus olhares,
deste forma ao meu corpo
na dança de tuas mãos,
moldaste-me ao teu gosto
e te foste!

A cria que iluminaste
com o fogo do teu desejo
consome-se,
devora a si mesma,
grita, urra sua dor
de amante órfã.
Por que te foste?

 

 
***

 

 
Ressaibo

 

Deixo que descansem as palavras
no dorso úmido de minha língua.
Molhadas na saliva amarga
dissolvem-se, feitas em água
tépida, espessa, algo repugnante.
Devia cuspir o caldo abjeto que tenho à boca,
vomitar as palavras que represo,
que me fecham a garganta,
e causam náuseas.
Ao invés disso, inspiro o ar
pesado de todos os dias.
Insisto e se abre a glote.
Engulo todo o veneno das palavras fermentadas.
O que resta sobre a língua é o ressaibo,
o travo triste de engolir fracassos.

 

 
***

 

 
Vórtice

 

Desejei com a ânsia dos amantes
alcançar-te e prender-te nos meus braços.
Servir-te de meu corpo, calabouço,
afogar-te em minha boca, fundo poço,
e prender-te entre as pernas, duplo laço.

Exaurir-te num tempo sem começos.
Em embates intrincados nunca findos
e as tréguas momentâneas eram hiato
a separar o que eu almejava unido.

Amaria assim até a morte,
a tua, por suposto, esgotado.
Entre os meus desejos consumido,
entre os meus abraços acorrentado.

 

Alexandra Lopes Da Cunha nasceu em Brasília, DF. É formada em Administração de Empresas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e tem mestrado também em Administração pela mesma instituição. Tem dois livros de contos publicados: Amor e Outros Desastres (2013), Vermelho-Goiaba, vencedor do prêmio IEL 60 anos, na categoria autor estreante, e Bífida e outros poemas, pela editora Kazuá, lançado em 2016. Aluna do programa de doutorado em Escrita Criativa da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, onde mora.