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117ª Leva - 02/2017 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

A criança como o estado da criação em Poética na incorporação – Maria Bethânia, José Inácio Vieira de Melo e o Ocidente na encruzilhada de Exu, de Igor Fagundes

Por Alexandra Vieira de Almeida

 

Igor Fagundes faz do sagrado, em Poética na incorporação (Editora Penalux, 2016), oitavo livro do autor e quarto de ensaio, um caminho para o novo e desconhecido, sem a roupagem velha e puída com a qual se acostumam aqueles que estão presos à tradição mais gasta do pensamento. Traz o olhar da criança, não em sua pura inocência, mas naquilo que ela tem de esperteza, de astúcia e curiosidade pelo fogo do conhecimento na abertura à indagação.

Uma revelação infantil, um erê, na fonte do riso, no rio, é o ponto de partida para a construção poético-filosófica deste livro magistral, que não se quer mais um monumento de saberes a serem seguidos, mas de questões e descobrimentos de novas veredas vivas. A raspagem é o desnudamento de toda nossa tradição cultural, ocidental e oriental, quebrando as dicotomias e trazendo a infância do mítico à lume, à presença, o originário em toda sua força.

O grande mestre poeta Alberto Caieiro já nos revelava este desvestir, este retirar, na violência, no sangue da palavra, o que se tem de mais tradicional em nossa cultura. Igor Fagundes, com todo seu dom pela e na palavra, nos encanta com um canto trazido pela Mãe Oxum. No encontro, nas incorporações entre Exu, Hermes e Cristo, o poeta-filósofo, por aqui estudado, faz da “encruzilhada” um grande trabalho intertextual de confluência entre vários lugares: o grego, o cristão e o africano. Faz da morada do mítico, do filosófico e do poético um trabalho grandioso de esquecimento e memória, sem tomar a água da repetição, porque a incorporar uma nova vida, um pensar nunca antes visto, mas inovado com palavras originárias.

O sagrado, livre dos pré-conceitos da tradição ocidental, perfaz os entrecruzamentos de territórios que poderiam parecer à primeira vista inconciliáveis, mas que pela artimanha arquitetônica da criação de Igor Fagundes, nos leva, com a cantora Maria Bethânia, da Musa à Pombagira, do mar ao sertão baiano. Faz do poeta José Inácio Vieira de Melo um Ulisses que incorpora Exu. O trabalho de incorporações é o diálogo possível que encontramos presente também nos pré-socráticos, sobretudo em Heráclito, que pela “harmonia dos contrários”, torna admirável esta encruzilhada entre tradições distintas, mas próximas pelo olhar agudo de Fagundes.

Nessa “estória”, como o autor mesmo chama, encontramos um trabalho de raspagem, de desnudamento da tradição, para que o novo da criação, da poesia possa nascer. Pois, só abandonando as velhas roupas, o peso, que a leveza do poético pode advir. É intenso o jogo de paralelismos, espelhamentos neste livro original de Igor Fagundes. O livro não segue um sumário tradicional: são versos que alinham as páginas e os capítulos são belíssimos batuques, não só a críticos, mestres e professores homenageados, mas a entidades como Maria Padilha e Exu Tranca-Rua, da tradição afro-brasileira. Em cada capítulo se constrói um mergulho ao universo do Erê, a criança sempre eterna, que caminha para o processo criativo do nosso imaginário, daquilo que incorpora novamente e, sempre presente, se atualiza.

Nas três metamorfoses do espírito, de que falou Nietzsche em Assim falou Zaratustra, seria preciso o ser humano atingir o estado final de criança, paradoxalmente, para que se fizesse a ponte para a liberdade completa. Da fase do camelo, passando-se para a do leão, atinge-se o estágio da criança, quando as cargas pesadas são deixadas de lado até que surjam novos valores. Não valores que venham a servir de modelos, mas valores que os questionam.

A “raspagem” é o retorno a este estágio de infância, onde se busca a liberdade dos paradigmas do mundo adulto e institucionalizado. O erê – a Lagriminha de Ouro da Oxum – surge como apelo ao filósofo-poeta, que, abarcando novos mares, chega ao sertão das criações. Igor Fagundes, a partir de uma vontade de potência, conquista um mundo que é todo seu e que leva o leitor não a respostas prontas, mas às indagações, conforme o universo da criança. A “raspagem” produz seu efeito: o leitor se desnuda de suas antigas vestes conceituais.

Alexandra Vieira de Almeida é escritora e Doutora em Literatura Comparada (UERJ).

 

 

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75ª Leva - 01/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

Desenho: Luiza Maciel Nogueira

Qual sopro contínuo e que move a vida, abrimos a janela das publicações para um novo ano. Diante disso, expectativas de outros tantos encontros se fazem reais. Flertar com o vindouro não é negligenciar o presente, mas sim buscar a extensão dos dias para que tudo possa confluir num projeto cada vez mais sólido e maduro. São 75 edições levadas pelo aprendizado e pela evolução, quesitos que nos fazem refletir o quanto trilhamos de efetivo em todo o tempo de existência da revista. De toda a bagagem incorporada até aqui, a mais importante decorre dos laços humanos que foram estabelecidos. Sem sombra de dúvida, estar aqui hoje é resultado direto de trocas, diálogos e interações firmadas por todas as frentes possíveis de um mundo que se desenha multiforme. E como é recompensador depararmo-nos, inclusive, com o diferente e o inusitado, lugares que muitas vezes removem a tão acostumada zona de conforto. A partir de perspectivas como esta, vamos revendo algumas práticas, consolidando outras, tudo para tentar alavancar e manter um modelo de qualidade que represente algo atraente aos leitores e visitantes. Tais perspectivas implicam em considerar que os caminhos estão abertos, pois seguir adiante se faz imperativo. Sendo assim, nada melhor do que abraçarmos novas e coerentes descobertas, como é o caso dos poetas Jorge Vicente, Daniela Delias, Gil T. Sousa, Alexandra Vieira de Almeida, Alvaro Posselt e Lílian Maial. Exalando seu modo poético de conceber mundos no mundo, Luiza Maciel Nogueira partilha conosco os signos de seus desenhos em meio à profusão de palavras presentes nesta recente Leva. Múltiplas visões da existência atravessam os contos de Natércia Pontes, Eleonora Marino Duarte e Bruna Mitrano. Há também o valioso diálogo com a fotógrafa Mercedes Lorenzo, entrevista que pontuou aspectos ligados à concepção da imagem, bem como reflexões sobre a arte em nosso tempo. Bolívar Landi ousou percorrer as rotas de Django Livre, novo e polêmico projeto do intrépido cineasta Quentin Tarantino. No gramofone, Larissa Mendes deixa girar as canções presentes no mais novo álbum da Orquestra Imperial. O mais recente livro de contos do escritor Rodrigo Novaes de Almeida é destaque do Aperitivo da Palavra. Esta, caros leitores, é apenas uma pequena demonstração de que palavras e imagens continuarão fazendo par constante por aqui. Que 2013 seja motivo frequente de saberes e sabores em torno da arte. Boas incursões a todos!

 

Os Leveiros

 

 

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75ª Leva - 01/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Alexandra Vieira de Almeida

Desenho: Luiza Maciel Nogueira

 

 

O pescador e o mar

 

Os murmúrios das ondas martelam
molhando os lençóis amarelados
de areias mescladas em branco e preto

Vaga a grande asa do barco no ar
e o céu escurece as ondas do mar
indo o rastro do mastro diluir-se

Moroso o pescador move o leme
sem medo do vento ventando alto
busca o consolo do leito límpido

E ruidosas as águas o bebem
sorvendo o seu sossego no mar.

 

 

***

 

 

Deserto

 

Canibalismo no deserto, aridez dos astros. Não há mágoa numa névoa. Somente a faca é minha carne. O desejo se escondeu num olhar amargurado. Facas e garfos não são sensações. O astro cresce à minha volta. Não é possível contornar a outra margem, o deserto é meu silêncio. A névoa cai nos meus braços, sustento-a até a capacidade do meu olhar. Olhar de deserto, não espero estações. Na virada das poeiras que oscilam ao vento quente do deserto, pássaros se comem antropofagicamente. Formigas, maçãs, garfos, facas na sua ordenação neblinam minha face. Face neutra na passagem da névoa. Névoa paira, cai, se esbarra nos ventos da minha passagem pelo deserto, anímico, auditivo, mais do que a minha vida.

 

 

***

 

 

Confusão

 

Deus habita o castelo de meu devaneio noturno
Abnego a abulia de um ser inconsequente
A alavanca contorce pêssegos na estrada da razão
Não sonhe com anjos e demônios em contenda
O camundongo toca a campainha da loucura
Casta, a moça fia a rede de uma agonia
Angústia de uma cômoda sobre o solo vazio
Concerto de uma concha no ouvido de um menino
Eclode a doçura de uma vértebra quebrada
Não há paixão numa corda esticada por Deus
Infecta, a pele queima ilusões de monstros
Madrigal eterno ecoa no cérebro de um vegetal
Opulenta manobra de um orangotango no escuro
A poeira sacode as núpcias de um casal
Preta é a cor de sua urina, carvão soturno
Uma prisão de um feto na coxa de um deus pagão
Ferramenta de um escriba é um feixe de seu cabelo
Não deixe a memória esvaziar a sua solidão
Devoto, um peixe apanha sua isca
Retrato de uma cova na abertura de seu crânio
O coveiro joga a pá num mar de serpentes
Cisne deixa o castigo inverter sua cicatrização
Cego, o homem censura a postura de sua demência
Doure um pedaço de carne podre com o sol de seu saber
Confusa, a mente não escolhe a esfera de um poder.

 

 

(Alexandra Vieira de Almeida nasceu no Rio de Janeiro. É agente de leitura, tutora de ensino superior, poeta, contista, cronista, ensaísta. Publicou o livro de crítica literária Literatura, mito e identidade nacional, pela Ômega Editora, em 2008. Tem vários ensaios literários publicados em revistas acadêmicas e livros. Participou da Antologia Scortecci de Poesias, Contos e Crônicas, em 2011. Tem dois livros de poesia publicados pela editora Multifoco: “40 poemas” e “Painel” (2011))