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152ª Leva - 02/2023 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Aline Aimée

 

Foto: Magali Abreu

 

gira

 

entender que a função
do giro
é a propulsão ocasional
para fora da órbita

…………..mas também

aprender a me mover
fora da febre
das apostas

dentre aquilo que gira:
mais que roleta,
ser engrenagem

mais que engrenagem,
……………..ser móbile

 

 

 

***

 

 

 

não sei dar forma ao cristal

 

minhas mãos cansadas
acompanham mais
o ritmo frágil
quebrável
dos grafites,
a intimidade
do borrão

decerto minhas prendas
te parecerão precárias
perdidas em folhas vadias
……….,…que aspiram à aderência de tuas costelas
……….,…que aceitam a destruição
……………………………………………………….no calor úmido
……………………………………………………….de tuas palmas

………….que admitem inaugurar funções:
marcar as páginas
dos teus segredos
(confissões expiradas
em dobras-cicatrizes)

manejo grafites para que
ao te furtar um instante
…… a suspensão de um ou dois
…… pensamentos
…….(talvez a sorte de uma lembrança)
meus rabiscos se percam
na paisagem do teu caos
expondo-se ao risco
de um resgate:
………………………………uma nota apressada
………………………………um abano
…………………………….. um corte no dedão

………..o mistério de uma mancha indecifrável

[uma virada de tempo
uma mudança de estação]

preferíveis à dignidade imóvel
do totem sempre à vista
na prateleira alta
…………….translúcido de costume
…………….empoeirado de apostasia

 

 

 

***

 

 

 

devora-me

 

sustentar os ouvidos aos uivos
deixar-me emudecer pelos enigmas

parasitar o labirinto das entranhas
que me devoram

ofertar os braços aos ecos
que me cravam as unhas em atrasos:
aprender a costurar a sombra
em lugar de cinzas

 

 

 

***

 

 

 

um sopro para Emily Brontë

 

o céu é pouco
e a relva é rara

a noite se fantasia
entre ruídos mecânicos
e luzes frias

resoluções se iluminam
na escalada
……..de degraus
………..e de aparelhos aeróbicos
onde murmuram
joelhos e manivelas

sei que palavras imortais
enchiam os sussurros dos teus sonhos

mas se quero interceptar
a síntese dos tempos
preciso filtrar
ladainhas elétricas
que não me resfriam
a pele
e que só me arrepiam
por estática

preciso lembrar que por trás
dos pixels
também se sangra

 

 

 

***

 

 

 

legente

 

sei que tardo
que insisto
em fazer morada
no fundo
onde espáduas tantas
deslocam-se
inermes à minha leitura:

curvaturas apontando
as variações
dos sonhos

 

 

***

 

 

 

exercícios de pouso

 

baixar num canto
à sombra
minha bagagem
deixar que o vento
devasse
os umbrais
que restos repousem
no encontro
cada qual
com seu anteparo

deixar no abraço escuro
da crisálida
delicadamente
os nós que me
sustentam

desatar
membros frescos
para novos
movimentos

 

Aline Aimée é carioca, servidora pública e mestre em Literatura Brasileira pela Uerj. Publica poemas e fala de livros no Instagram e no Youtube, é mediadora em clubes de leitura. Tem textos publicados em sites e revistas literários, é autora de “Doze pétalas, nenhuma flor” (edição independente) e “Uma reserva de sutilezas” (Editora Patuá), participou das coletâneas “Leia Mulheres – contos e Prêmio Off Flip 2021”. “Exercícios de pouso” (Editora Patuá) é seu livro mais recente.

 

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68ª Leva - 06/2012 Ciceroneando

Ciceroneando

Foto: Juh Moraes

 

 

 

No ofício de travar o combate pelos terrenos culturais, quiçá o imprevisível seja o que de melhor possa acontecer. No caso específico da Diversos Afins, pensamos em tal perspectiva, sobretudo quando temos de fazer convergir signos oriundos de imagens e palavras. Nunca há uma fórmula exata para promover a harmonia entre estas duas linguagens. A ciranda das colaborações gira alheia a critérios herméticos de classificação das perspectivas, e o melhor de tudo é podermos aproveitar cada autor e artista num processo de “cumplicidade involuntária”. Tentar perceber o que criadores trazem em si enquanto elemento fomentador de diálogo com outras expressões é, certamente, o que mais perseguimos em termos de conjunto. E é só depois de entrever os horizontes vislumbrados pela obra de cada colaborador que é possível consolidar um desejável caminho de unidade na diversidade. Hoje, a 68ª Leva é regida pelos arremates delicados contidos nas fotografias de Juh Moraes. Através delas, um bailar de signos convida os textos para a composição de um cenário no qual viver é mais do que urgente. E assim, tomados por tal ânimo, vamos descortinando sabores pelos versos de Fabiana Turci, Aline Aimeé, Vitor Nascimento Sá, Viviane de Santana Paulo e Helena Figueiredo. Numa entrevista, o poeta José Inácio Vieira de Melo fala sobre seus sensíveis percursos literários. Os dedos de prosa da vida andam intensos nas linhas de Daniel Faria e Regina M. A. Machado. Depois de alguns anos de espera, a banda OQuadro lança seu primeiro disco, e os efeitos disso giram nas agulhas do nosso Gramofone. Com propriedade, o escritor Jorge de Souza Araújo enreda caminhos em torno do novo livro de Antonio Nahud Júnior. Noutro ponto, os poemas de “Sísifo desce a montanha”, a mais recente obra de Affonso Romano de Sant’Anna, são tema das densas observações de W. J. Solha. A percepção cada vez mais aguçada de Larissa Mendes nos conduz até a produção cinematográfica “O Futuro”. O ator e diretor Rafael Morais relata os desafios envolvidos na montagem de um espetáculo teatral, enaltecendo a arte do encontro com o público. Munidos pelos imperativos da diversidade, abrimos as veredas de uma nova edição. Seja bem-vindo, caro leitor!

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68ª Leva - 06/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Foto: Juh Moraes

 

 

 

UMA RESERVA DE SUTILEZAS

Aline Aimée

 

Tenho meus carinhos, meus cuidados.
Levo sempre comigo uma dose reserva de sutilezas.
Quem mergulha em mar de flores,
acaba levando um punhado de cortes,
que cicatrizam em palavras de mistério –
seus segredos, meus segredos.
Sussurros sobre a pele, indícios
que hão de nos surpreender revelados.

Por isso, carrego sempre comigo
uma dose secreta de afagos
que hão de aplainar os ímpetos,
hão de evitar estragos,
mas nunca reterão os arrepios
que segredamos, silenciados.


 

***

 

 

ANSEIOS CINZAS, SUJOS

 

vagabundo errante,
risco por entre o lixo
minhas pegadas pesadas,
a carga de uma sobrevivência
– resiliência toda casca
que se desmonta, mas revigora,
comprimindo a massa túmida,
de ardor, angústia, desespero:
anseios cinzas
suspirando por opressores microporos

e enquanto nessa espessa casca
cresço,
incho-me sangrando
nutrindo a terra de poesia suja,
sorvendo a força das lágrimas diárias…

e me arrasto
avançando, ousado
por sobre as pedras,
contra previsões e planos

/é meu grito rubro que mancha de espanto tua noite funda/

 

(Aline Aimée nasceu no Rio de Janeiro, em 1981. Mestre em Literatura Brasileira, trabalha como funcionária pública federal. Tem textos publicados em sites e revistas virtuais, como a Diversos Afins, a Conexão Maringá e a Garganta da Serpente. Contato: alineaimee@hotmail.com)