Categorias
144ª Leva - 04/2021 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Do sentimento à ação: um olhar sobre a prática amorosa

Por Vinícius Gaudêncio de Oliveira

 

 

As relações amorosas, sejam elas românticas ou comunitárias, têm sido impactadas diante do enfrentamento de males estruturais e estruturantes da sociedade, como o racismo e o patriarcado, elementos que operam através do domínio exercido pela força.

O combate ao racismo e a luta por igualdade de gênero, lutas legítimas e temas da ordem do dia, encontraram nas redes sociais um novo espaço público. Nesse sentido, as divergências entre amigos, familiares e até mesmo entre casais que vivem uma relação amorosa estão cada vez mais expostas, trazendo para o debate público a necessidade de uma autocrítica enquanto seres dispostos a abrir mão de relações opressivas, de maneira que o amor se manifeste de forma autêntica.

Nesse contexto, “Tudo sobre o amor, novas perspectivas”, de Bell Hooks, dá uma substantiva contribuição ao debate, colocando o amor na centralidade das relações humanas: “Nós nos tornamos completamente humanos até que nos entreguemos uns aos outros no amor”.

O livro, primeiro da Trilogia do Amor, seguido de Salvação: pessoas negras e amor e comunhão: a busca feminina pelo amor, traz no capítulo 1 a importância de saber nomear o amor. O encaminhamento narrativo, sempre quando se referir a palavra amor, vai sugerir, para além de um forte sentimento, que o amor é a ação de comprometimento que promoverá crescimento mútuo. A autora, na sua busca pelo entendimento da palavra e pela palavra, traz definições intertextuais decisivas para formulação da sua tese, ao citar o psiquiatra M.Scott Peck, que vai dizer, no seu livro A trilha menos percorrida: uma nova visão sobre a psicologia e o amor, que o amor é “a vontade de se empenhar ao máximo para promover o próprio crescimento espiritual ou de outra pessoa”.

Desesperança, medo, solidão e desamor são elementos constitutivos e condicionantes da vida humana. Bell Hooks vai dizer, a partir da observação minuciosa do desespero de seus alunos, que a espiritualidade ajuda na superação de sentimentos de isolamento, proporcionando mais uma ferramenta na busca pelo amor, uma vez que ele, o amor, proporciona também elevação espiritual. “Todos precisam estar em contato com as necessidades de seu espírito. Essa conexão nos chama para o despertar espiritual para o amor’.

O capítulo 4, intitulado “Compromisso: que o amor seja o amor-próprio”, foi, segundo a autora, o mais difícil de escrever. Isto porque se faz uma confusão ao atribuir ao amor-próprio ideias equivocadas. “Precisamos parar de igualar covardemente o amor-próprio a egoísmo ou egocentrismo”. Não é difícil perceber nas redes socias essas ideias equivocadas. Basta observarmos páginas de influenciadores digitais de público majoritariamente feminino – que até formam redes positivas de acolhimento, de sororidade – mas por não saberem nomear o amor e entenderem que a base do amor-próprio é a prática amorosa, acabam passando uma mensagem distorcida e egocêntrica, desconsiderando que o amor-próprio genuíno é quando nos conhecemos e reconhecemos no outro aquilo que transborda da gente.

A autora de Erguer a voz: pensar como feminista, pensar como negra faz importantes considerações sobre a baixa autoestima, uma vilã da busca pelo autoconhecimento. Para isso, o livro aborda as seis dimensões para elevar a autoestima, dimensões propostas por Nathaniel Branden, no livro Autoestima e seus pilares. Chamo a atenção para a primeira delas, “a prática de viver conscientemente”, que vai significar pensar criticamente sobre si e sobre o mundo, nos ajudando a entender as transformações sociais ao longo do tempo e, fundamentalmente,  buscando entender qual o nosso papel diante delas, nos aceitando e nos reconhecendo enquanto seres em permanente mudança e constituídos por dores, perdas e tristezas, mas também com capacidade de reinvenção e superação: “O coração ferido aprende o amor-próprio começando por superar a baixa autoestima”.

Após reconhecer as origens que levou a baixa autoestima, como socialização negativa, abusos e traumas, Bell Hooks fala da importância da atividade laboral na busca pelo amor-próprio, afirmando que, ainda que trabalhando com o que não gostamos, a única forma de lidar com a insatisfação é executar bem aquilo que nos é confiado, como melhor forma de lidar com as dores. A narrativa segue discutindo a relação entre vocação e dinheiro, e como podemos tirar proveito de situações as quais não nos agradam. Para isso, ela cita como o seu trabalho de cozinheira, do qual ela não gostava por odiar o barulho e a fumaça, se tornou uma oportunidade para realizar o seu sonho: “Trabalhar a noite me deixava livre para escrever durante o dia. Cada experiência aprimora o valor da outra”.

Autora de O Feminismo é para todo mundo, Bell Hooks, ao falar de amor, dá uma consistente contribuição para o movimento feminista. Isso porque, embora militante fervorosa, a autora não cai no radicalismo de afirmar que o feminismo é um movimento que exclui o homem do debate, ao contrário, vai afirmar que a luta das mulheres por igualdade de gênero é, ao mesmo tempo, uma luta que vai combater a masculinidade tóxica que acaba por afetar também os homens: “A masculinidade patriarcal distancia os homens de sua identidade”.

Como o patriarcado é historicamente atravessado pelo desejo de poder, o feminismo é também, em última instância, a luta pelo resgate do amor genuíno. “Onde o desejo de poder é primordial, o amor estará ausente”. Nesse sentido, a honestidade diante da pessoa amada e o desejo de desconstrução de padrões machistas, nos quais os homens rigorosamente se inserem, são condições fundamentais para que o amor possa penetrar e encontrar terreno fértil, livre de opressão, fazendo com que o encantamento pela pessoa amada seja maior que o encantamento pelo poder.

Em geral, quando falamos de amor, facilmente incorremos em clichês do tipo “felizes para sempre”, o que não ocorre em “Tudo sobre o amor, novas perspectivas”. Com uma linguagem simples, porém contundente, o livro assume a sua potência na medida em que define o amor sem apelar para uma autoajuda barata – e aponta caminhos consistentes para alcançarmos o amor, seja ele romântico, familiar ou entre amigos.

Na minha última resenha publicada nesta revista, falei sobre livro “O amor como revolução”, do pastor Henrique Vieira. Bell Hooks e Henrique conversam entre si e, através da palavra, concordam que é decisivo, se quisermos viver o amor genuíno, romper com padrões eurocêntricos de opressão, como o racismo, sexismo, exploração e preconceito religioso. Se a autora diz ser possível viver um grande amor sem ao menos ter contato com a pessoa amada, bastando que a prática amorosa eleve a si e o outro, por que os seres humanos, nas diversas relações de sociabilidade, ainda não são capazes se se abrir plenamente para o amor?

 

Vinicius Gaudêncio de Oliveira é carioca formado em Letras/Literatura.  Atua como crítico literário nas temáticas sobre produções literárias e culturais cariocas.

 

Categorias
143ª Leva - 03/2021 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Alessandra Barcelar

 

Ilustração: Marjorie Duarte

 

ABUSO

 

– Tire a roupa, sussurrou.

– Não, papai, por favor, não.

– Disse que tire. Agora!

– Papai, não quero, não me faça…

– Faça isso, tire. É uma ordem.

Envergonhada e com lágrimas nos olhos a menina livrou-se da roupa lentamente.

O homem ao ver a pele nua da filha, não pode fazer outra coisa que chorar. Sentiu-se miserável, impotente, desgraçado. Abraçou a filha e beijou-lhe a testa.

– Devemos denunciar a mamãe – disse o homem acariciando a pele da filha, enquanto suas lágrimas caíam sobre as queimaduras de cigarro em sua pele.

 

 

 

***

 

 

 

ELA

 

Observo uma foto em que aparecemos os dois.

Ela está feliz, me abraçando e sorrindo para a câmera.

Logo viro a cabeça e vejo seu cadáver no chão. O sangue segue escoando de sua cabeça. Penso que deixou de me amar, e que, de certo modo, sou culpado pelo que acaba de acontecer.

Me aproximo dela, gemendo de tristeza, me encosto a seu lado.

Depois de um tempo os vizinhos derrubaram a porta, me jogam de lado e apontam o revólver em suas mãos.

E enquanto tudo isso acontece, eu só posso latir e abanar o rabo com medo.

 

 

 

***

 

 

 

NOCTÂMBULOS

 

Os animais noturnos não se importam com a cor da lua, se ela está cheia ou é um quarto minguante, eles só procuram os efeitos de um raio de luz para mitigar seu pensamento.

Andam insatisfeitos à caça de sonhos e se infiltram nos aromas salgados das almas que parecem solitárias.

Com as letras não só o seu nome existe, também se escuta sua voz.

 

 

 

***

 

 

ALUCINAÇÃO

 

– Esquizofrenia – disse o psiquiatra – Na verdade o caso mais célebre dessa clínica.

– Se refere à essa criança? Parece-me tão inocente.

– Creia-me, não é! Assassinou a avó brutalmente com um machado.

– Sério? Ao menos disse o por quê?

– Bem, repetiu várias vezes que sua avó na realidade, era um lobo disfarçado.

 

 

 

***

 

 

 

UM HOTEL NUM QUADRO DE HOPPER

 

O amor é um hotel no meio da tempestade, que apagou as luzes assim que me viu se aproximando. A realidade se disfarçou de ficção, mas daqui posso ver o fechamento de seu traje. A felicidade me toca, mas sempre coloca luvas.

 

 

 

***

 

 

 

A SACOLA

 

A morte bateu na porta e a pequena Giovanna  foi quem abriu. -Onde está tua mãe? Perguntou a Morte, em seu vestido preto, seus cabelos ruivos e suas pupilas de fogo cinza.

A garota já a conhecia. Ela a vira há dois meses, no dia em que sua avó não se levantou mais. “Siga-me”, disse a pequena Giovanna.

Elas caminharam até o final do corredor e chegaram a uma porta, que a garota abriu para demonstrar boas maneiras. O interior estava completamente escuro. As cortinas fechadas e a janela trancada roubaram as cores da sala. “Obrigada”, disse a morte em sua voz rouca e sensual. Ela entrou e saiu um minuto depois, com um coração em uma sacola de pano.

Quando a morte foi embora, a pequena Giovanna foi até a cozinha, chegando ao exato momento em que uma mulher com o rosto machucado e ferido se jogou de uma cadeira. No entanto, a corda em seu pescoço, por algum motivo inexplicável, quebrou como se fosse borracha. “Mãe”, a menininha murmurou e a mulher virou-se imediatamente. Ela chorou envergonhada e abraçou sua filha como nunca antes. “Mamãe, lê um livro pra mim?” “Eu não posso Giovanna, eu devo cozinhar para quando seu pai acordar.” “Eu não me preocuparia com isso.” Eu não acho que ele se levanta – a garotinha disse antes de pegar um livro.

 

Alessandra Barcelar é historiadora, vive em São Paulo, onde nasceu, atua na área de Economia da Saúde. Publicou contos em revistas literárias do Brasil, Portugal, Argentina e Alemanha. Participou em 2019 como jurada do prêmio VIP de Literatura (Categoria Contos); colaborou na coletânea Mitos Modernos I, que recebeu o prêmio Le Blanc de Literatura e Arte Sequencial, como melhor Antologia de 2018. Atualmente é organizadora de uma coletânea de contos sobre realismo mágico.

 

 

Categorias
141ª Leva - 01/2021 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

 Amém e Axé: o diálogo que emana afeto

 Por Vinicius Gaudêncio de Oliveira

 

 

Em agosto de 2014, oito traficantes cariocas foram presos por ataques a terreiro de candomblé, em Duque de Caxias, Baixada Fluminense. Na investigação conduzida pelo delegado do caso, identificou-se que a ação foi coordenada pela Facção Terceiro Comando Puro, chefiada por um suposto pastor.

Parece um contrassenso falar de traficantes evangélicos, porém, o fundamentalismo religioso em ascensão no Brasil, com sua face mais exposta na Cidade do Rio de Janeiro — tendo em vista a entrada política de líderes religiosos neste cenário, desacredita toda e qualquer forma de espiritualidade diferente do cristianismo, além de produzir um discurso de ódio e de morte.

Nesse sentido, o livro  O amor como revolução, do pastor Henrique Vieira, é esperança em meio à brutalidade e um convite para o exercício permanente do amor nas nossas relações: “O amor como atitude, caminho e fazer diário é o único meio generoso de acolhimento da perplexidade humana”.

Quem lê a “Oração da felicidade”, que funciona como o prólogo do livro, terá noção daquilo que vai encontrar ao longo da obra. À exceção do leitor dogmático e fundamentalista, o livro, por falar de diálogo e do poder renovador do amor, pode circular com tranquilidade por leitores de todos os credos, tanto que na capa temos relatos da Jornalista Flávia Oliveira, cuja fé é professada na Umbanda.

Pastor, escritor e militante de direitos humanos, Henrique Vieira conta que sua experiência com Deus ganha maiores contornos aos 16 anos, diante do desamparo da vida, condição que, segundo o autor, acomete a todos, independentemente de credo. “Nessa solidão há um drama existencial que atravessa todas as pessoas, uma comunhão universal na condição do desamparo”. É nessa busca pelo encontro consigo mesmo e pelo autoconhecimento que, em geral, os seres humanos procuram uma experiência transcendental que proporcione a superação do desamparo, sem deixar de perceber que também no sofrimento é possível evoluir como cidadão e como ser.

Diante do seu desamparo, a fé. Ao chegar ao oftalmologista para fazer um exame de vista, constatou que sofria de neurite óptica bilateral: “Voltei chorando para casa enquanto minha mão ligava para outros médicos pedindo orientação. Nos olhos da minha mãe, via minha dor sendo compartilhada; meu pai com semblante sempre sereno, me transmitia calma e confiança. Mais tarde, chegaram meus irmãos mais velhos, Ghilherme e Marcele, e todos juntos começamos a orar naquele quarto”.

O amor é definido como uma atitude revolucionária, que tem uma relação direta com a inconformidade, capaz de provocar comoção e reação diante de uma cena tão comum e naturalizada nas ruas cariocas, que é a da mendicância, e em muitos casos em ruas de áreas nobres e com grandes concentrações de templos evangélicos. Diante da sensibilidade do olhar afetuoso e do amor como prática diária, o autor afirma que ser cristão é se comover perante um mendigo, um detento, um jovem negro sendo sufocado, uma criança morta em uma favela ou por um assassinato motivado por orientação sexual: “O amor como atitude, caminho e fazer diário é o único meio generoso de acolhimento da perplexidade humana”. Diante disso, pode a igreja se calar perante a morte de Marielle Franco? Ou da morte de Maria Eduarda dentro da Escola Municipal Daniel Piza, em Acari? É inaceitável que na Cidade do Rio de Janeiro lideranças religiosas dialoguem com um tipo de segurança pública forjada na lógica do extermínio, ignorando que Jesus foi preso sem culpa, torturado e morto pelo império romano, em uma sucessão de absurdos cometido pelo Estado.

Durante toda a obra, Henrique Vieira parece se vestir de palhaço para quebrar hierarquias e criar um ambiente de afeto e livre de preconceitos. O autor encaminha a narrativa para uma abertura espiritual que rejeita o dogmatismo e o fundamentalismo religioso, desconstruindo mentes machistas, apurando o olhar para entender que toda forma de amor é justa, aguçando a sensibilidade para nunca naturalizar desigualdades sociais e, fundamentalmente, apostando na convivência e respeito entre as religiões para desconstruir a noção de exclusividade de fé, que encoraja traficantes a agirem violentamente contra templos de religião de matriz africana: “Precisamos construir juntos um amém e um axé pela paz”.

Em tempos em que líderes disciplinam a experiência com Deus e criam uma agenda em que na segunda-feira Deus tem que dar uma bênção material; na quarta-feira uma cura e no domingo uma resposta para algum problema, crianças, expostas nas calçadas de caminhos de templos religiosos, seguem pedindo esmolas e desamparadas pelas famílias, pelo Estado e pela igreja. Da Sara Nossa Terra à Cara de Leão, seres humanos com cara de fome seguem ignorados nas suas individualidades e nas suas necessidades básicas, não respeitados em seus desejos sexuais, e quando são presos, torturados e mortos, agora pela máquina do ódio e pelo fundamentalismo religioso — não mais pelo império romano — a igreja silencia. E agora, Pai, que eles sabem o que fazem?

 

Vinicius Gaudêncio de Oliveira é carioca formado em Letras/Literatura.  Atua como crítico literário nas temáticas sobre produções literárias e culturais cariocas.

 

Categorias
140ª Leva - 07/2020 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Geraldo Lima

 

Foto: Cristiano Xavier

 

DEZ NANOCONTOS DE AMOR E OUTROS CASOS

 

Atração

                      

Assim que adentrou a sala, tudo começou a gravitar em torno dela. Nunca mais serei o mesmo, ele pensou, já preso à sua órbita.

 

 

***

 

 

Fugaz

 

A fumaça do incenso forma galáxias no centro da sala. Ana cruza esse universo e evapora-se sem dizer adeus.

 

 

***

 

 

Expectativa

 

Vai esperar por ela até tarde. O pensamento armado até os dentes.

 

 

***

 

 

Conto de fada I

 

Beijou e esperou pela metamorfose. Mas o príncipe apenas coaxou, escorregou-lhe das mãos e mergulhou novamente no lodo.

 

 

***

 

 

Conto de fada II

 

Matou o dragão, salvou a princesa e casou-se com ela. Tempos depois, arrependeu-se: a princesa era uma megera.

 

 

***

 

 

Amor estrangeiro

 

Na noite de núpcias, descobriu a verdadeira natureza do marido. Tarde demais: na rota de fuga, teria que cruzar um oceano.

 

 

***

 

Crime perfeito

 

Às vezes a fatalidade só precisa de uma ajuda: no dia seguinte, o marido passou desta para melhor.

 

 

***

 

 

Onírico

 

Encontrou, enfim, a mulher dos seus sonhos. Ironia do destino: perdeu-a assim que acordou.

 

 

***

 

 

Lenda

 

– Mãe, tô pegando uma sereia.

A mãe nem deu ouvidos: o filho fantasiava demais.

 

 

***

 

 

Coisas do coração

 

O marido abriu a porta e deparou-se com a cena devastadora. Os amantes? Salvos por um ataque cardíaco.

 

Geraldo Lima é escritor, dramaturgo e roteirista. Tem alguns livros publicados, entre eles, Uma mulher à beira do caminho (contos, Editora Patuá), Tesselário (minicontos, Selo 3×4) e UM (romance, LGE). Contato: gerallimma@gmail.com

 

Categorias
81ª Leva - 07/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética V

João Urubu

Ilustração: Mario Baratta

 

 

Teu Tutor Torna Todas Tuas Temperanças Trovões. Ou. Titubeio.

 

Para Thainá Cardoso.

 

 

I.

Estou em débito de dores contigo.
Não pelo livro do Paes Loureiro,
Ou pelo filme do Peschkowsky.

Há algo de insípido nos teus olhos.
Desengraçado mesmo.
Desinteressante
E fácil.

 

 

II.

Uma escada é posta na tua frente.
Ela fica em pé sem apoio.
E tu não mostras ao mundo nada disso.
A escada lá fica.
Não a usas
Nunca.

E justamente por causa da hialóide não demonstras nada.
Não tens humor nem no humor vítreo dos teus olhos.
E teu desespero é mais gasto quando tens os olhos abertos.

Sabendo que humor é um fluido líquido contido em corpos organizados
Não temos humor, nós dois.
Do humor negro, sobra-nos apenas o negro.
E é quando eu me sinto abraçado.

 

 

III.

Eu não gosto de covardia.

 

 

IV.

Esse teu jeito pretensiosamente chistoso irrita.

– Tu me chamas de pedante –

Eu não vou mais te adivinhar
Entediei-me.

Eu não vou mais entender.

 

 

V.

Agora eu sou teus olhos.
O nulo deles.

Sou teus olhos me afrontando.
N’uma nebulosa.

E em câmera lenta
A destruição
De uma vida
Ínfima
Nos faz
Parecer
Livres.

E o conjunto dos pássaros
Poetas
Ou estrelas
Não
Nos
Fará
Mais soltos
Por
Mais
De
Cinco
Minutos.

Chateie-se.

 

 

VI.

Eu faço isso, pois começo a achar que me serves mais morta.
Me serves mais seca.
Por que teus olhos já não me dizem nada.
Além de colo.

E eu tenho os joelhos doídos demais para ceder às pernas.
Tuas.

 

 

VII.

Deverias usar mais lilás.
E passar menos maquiagem.

Maquiagem não combina com lua.

– Não te justifica.

Só justifica quem muito pensa. Lua não pensa.

A Lua só é pensa quando…
Quando…

 

 

VIII.

Morre, Lua.
Morre, Pássaro.
Morre, Poeta.

Nada mais faz senso.
Nada mais faz questão.
Os teus olhos não me dizem nada.

Nada.

Absolutamente nada.

 

 

IX.

Para de molhar.
Para de molhar.
Para de molhar.

Não adianta
Nem adia
Continuar
Olhando.

Para de olhar
Que eu paro de escrever.

 

 

X.

Para de ler que eu paro de escrever.

Eu nunca vou parar de escrever.

Teus olhos não me dizem nada.

 

 

(João Urubu é músico, poeta e compositor da cidade de Belém – PA, graduando de Licenciatura Plena em Letras com Habilitação na Língua Francesa pela Universidade Federal do Pará – UFPA. Dos três anos como poeta e compositor, passou um ano especificamente trabalhando como compositor de trilhas e diretor musical de teatro)

 

 

 

Categorias
79ª Leva - 05/2013 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

O duplo (ou sentimentos epistolares)

Por Sérgio Tavares

 

 

É um tanto incoerente imaginar um ícone, um ser galvanizado na galeria das figuras absolutas, demonstrar admiração velada por outrem, um sentimento inferior. Em 1922, já consagrado criador da psicanálise e próximo ao fim da vida, Sigmund Freud faz uma confissão. Em carta, ele afirma ao destinatário que, por muitos anos, o havia evitado, pois o tomava, com admiração e temor, como o seu duplo. Alguém com quem se ligava emocionalmente, através de uma estranha familiaridade com o seu pensamento, capaz de, sob uma superfície poética, equiparar-se aos mesmos interesses e conclusões que o médico reconhecia como seus. Mas quem seria a pessoa a quem Freud atribuía um poder tão equivalente ao seu monumental trabalho na interpretação do inconsciente? Quem seria esse doppelgänger emocional?

O duplo de Freud é o novelista, poeta, ensaísta e contista Arthur Schinitzler, cujo romance Crônica de uma Vida de Mulher, detidamente lançado no Brasil, é o que mais se aproxima dos pensamentos do médico vienense no campo das ciências. Usando de uma análise da empatia como forma de autoconhecimento, o livro traz as desventuras de Therese, uma mulher que, impulsionada por seus desejos, combate as barreiras sociais e morais de uma Viena corrompida e decadente, pós-Primeira Guerra Mundial.

A obra, ambivalente no sentido de tanto denunciar a hipocrisia social e seus atores escondidos em máscaras quanto a suposta harmonia defendida pelo império Austro-Húngaro, constitui-se de conceitos que alicerçavam a nova ciência de Freud. Para ambos, a força dos impulsos sexuais e do determinismo psíquico é maior do que uma sociedade, composta por homens e mulheres fiéis à aparência social e a casamentos de fachada, escamoteando situações de ruínas financeira e familiar, desespero e repressões aos desejos e às mulheres. Explorar as verdades do inconsciente e desmontar as convenções sociais urdem a interligação entre os autores.

Numa entrevista, em 1927, Schinitzler atribui a qualidade de duplo, conferida a ele por Freud, à capacidade de ambos olharem através da janela da alma. Porém o que, de fato, qualifica uma pessoa como o duplo da outra? No caso dos vienenses, como constata a psicanalista Noemi Moritz Kon, em Freud e Seu Duplo Reflexões entre Psicanálise e Arte, a identificação deu-se, exatamente, por serem filhos de uma mesma origem e dotarem de uma construção pessoal parecida; ambos judeus, médicos de formação familiar e assombrados pela morte do pai. Magnetizado pela singularidade, o duplo é um ser único, com o qual nos identificamos pelos mesmos gostos, mesmos conceitos intelectuais e morais, mesmas verdades. O duplo é um espelho circunstancial. Alguém que possivelmente nunca encontrará, passará a vida ou alguns dias, mas impossível de se esquecer. Um elo de sentimentos-cúmplices, senão o amor, o verdadeiro.

De maneira geral, o duplo distingue-se pela soma, enquanto o amor condiciona a perda. No conto The End, do volume Os Lados do Círculo, o escritor Amílcar Bettega Barbosa diz o amor como “um sentimento que predispõe alguém a desejar o outro com um grau de intensidade muito maior do que a sua capacidade de oferecer”. O amor é variável para a composição da literatura universal. De Romeu e Julieta, de Shakespeare, ao Primeiro Amor, Samuel Beckett, sua interpretação é o veio de todos os grandes escritores. Nessa tessitura de comunhões e alijamentos, o romance epistolar Carta a D. – Uma História de Amor é, possivelmente, o mais pungente texto sobre o sentimento. Escrito pelo filósofo e jornalista André Gorz, o livro é a mais fiel (e comovente) comprovação de que o verdadeiro amor é eterno.

Notório por sua influência intelectual e atuação política, sobretudo em maio de 68, na França, Gorz se destitui das retóricas sociais para compor uma carta-catarse a Dorine, com quem partilhou a vida por 58 anos. O livro se inicia com ambos velhos (e ela muito doente) e uma declaração das mais belas: “Você está prestes a fazer oitenta e dois anos (…) Já faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos, e a amo mais do que nunca”. A partir daí, o autor reconstitui o seu amor para compreender o significado de sua vida, discorrendo dos momentos que antecederam e levaram ao encontro, sobretudo pela imprevisibilidade: ele, um judeu sem um tostão; ela, uma burguesa cercada de amigos ilustres, tal qual o pensador e filósofo Jean-Paul Sartre.

 

André Gorz e Dorine / Foto: Suzi Pillet – Ed. Galilée

 

A veracidade do amor está em instantes em que Gorz afirma que “foram feitos para se entender”. Os conflitos e superações de adversidades expõem a sinceridade do sentimento, em especial na lucidez de compreenderem que a longevidade da relação depende de renúncia, tolerância e gratidão. O reconhecimento da essencialidade de Dorine na sua vida permite a Gorz construir uma homenagem das mais comoventes. Num dos momentos mais aflitivos, o autor narra a dificuldade de se tornar escritor, passando por noites insones, imerso em solidão. Quando, num momento de clareza, aproxima-se da esposa para se desculpar, ela o responde com toda a ciência de quem só será feliz se o outro assim o for: “Sua vida é escrever; então escreva”.

Carta a D. revela que o verdadeiro amor está no simples fato da pessoa existir. E, quando deixa de existir, é insuportável. Durante anos, devido a um erro médico, Dorine sofreu com uma doença degenerativa que lhe causava dores insuportáveis. Gorz sofreu, e sempre buscou a cura, ao seu lado. Em 22 de setembro de 2007, ambos se suicidaram. Contudo, ao se chegar ao final do livro, é impossível não ter certeza de que foi um ato de amor.

Em linhas gerais, talvez seja essa a distinção entre o duplo e o amor. Ou, visto pelo pacto entre Gorz e Dorine, talvez não haja distinção alguma. A definição mais concreta, afinal, pode estar na relação entre o ensaísta francês Montaigne e o filósofo La Boétie. Certa feita, ao reler um texto e pensar no motivo da amizade entre ambos, Montaigne escreveu: “Porque era ele”. Alguns anos depois, numa nova releitura, acrescentou: “Porque era eu”.

 

(Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Também foi premiado no Concurso Literário da Fundação Escola do Serviço Público (Fesp/RJ) e tem textos publicados nas revistas “Cult”, “Arte e Letra: Estórias M”, e no jornal “Cândido”, entre outros. O livro de contos “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012) é sua obra mais recente)

 

 

Categorias
79ª Leva - 05/2013 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Yara Camillo

 

Desenho: Bárbara Damas

 

DONA MENINA

 

Penso que desde muito menina hei de ter tido um coração vermelho e até que faceiro, como as penas do tiê. Mas se pena é para o passarinho como realeza, comigo há de ser sempre em sinal de tristeza, de resto como para o resto das gentes em geral.

Beleza assim, de se ver, Deus não me deu. Um cabelo meio que ruim, cor de mijo em lençol de cambraia; um porte até que de esteio avantajado, porém cortado sem prumo nas linhas de brando e cumeeira — de modo que não combinou: nem gordura com gostosura, nem magreza com esbelteza. Mas hei de ter agradado alguns homens, assim mais por brincadeira do que por bem-querer de noiva, companheira. Tenho cá minhas prendas, que é saber um forró como quê, moquecar badejo com dendê, coser colcha de retalhos e bordado de qualquer ponto.

Mas, no fim, eu me pergunto do que é mesmo que adianta, quando não se tem para quem? Parece um ouro que nunca hei de gastar, por me faltar assim uma pessoa a quem fazer agrado. Riqueza sem porquê desgraça mais que miséria.

Mas choradeira é coisa que não presta, afora em hora certa, como no frio da morte, ou em avesso de grande alegria. No mais, xô égua.

Para tudo nesse mundo há de haver uma compensação, como por exemplo a de eu ser Madrinha de tanto menino-homem e menina-mulher nessa terra de Deus. Se não de batismo, que conto sessenta, ao menos e mais tenho um tanto de afilhados de sal, o que é também de tanta importância quanto os santos óleos lá do santo padre lá da santa igreja: dia desses, um franzino vai lá em casa, pede um copo d’água e eu, sem que ele veja, entrouxo uma pitada de sal. O bichinho bebe, diz:

– Vôte!

Eu me rio de entortar a cabeça de lado, ele um pouco se amofina e desata a rir também. Pronto que virei madrinha, Madrinha de Sal; o menino pede bênção e eu: Deus te abençoe. Mais um. Mais um moleque para eu confeitar bolo, ensinar conta das quatro operações, acudir na hora da precisão, dar pancada – levinha – quando na malcriadez e, no caso de pai e mãe faltar, virar cria minha, que eu gosto de criança, demais.

A bem dizer, eu andei sendo uma virgem muito velhinha nessa minha vila, até que um dia retei: se cada gente mulher foi feita com fechadura, é pois porque cada homem nasceu com uma chave, que só serve mesmo numa portinha. Que Deus fez assim, eu acho, mas é um modo de falar, só para o meu entender.

Eu assuntava e desassuntava, sentada numa cadeira, espiando a janela, que devia de existir um amor meu andando por esse mundão, com uma chave que só havia mesmo de servir no meu segredo. Porque todo mundo é um e para um existe o outro.

E onde estava esse homem? — eu matutava comigo, fazendo caraminhola… Agora ele há de estar armando um mundéu, mor de pegar os bichos desavisados que passam na trilha. Ou o diacho será pescador e haverá de estar em alto mar, com esse Vento Sul, meu Deus?

Ou será um mestre carpina de boa lavragem, um viajante mascate, até quem sabe um gringo? Um gringo estrangeiro que haverá de chegar nesse veranico mesmo, da Suíça mais francesa, como tantos que aqui aportam, sempre.

Onde haverá de ficar a Suíça mais francesa?

Longe, lá longe, no avesso desse mundo.

Um homem louro, lourinho, de cabelo afogueado e olhos d’água, até quem sabe gateados?

Um índio moreno, moreninho, de cabeleira escorrida e mais preta que o assum.

Ou baiano aqui das terras da Bahia, cor de jambo, cabra de prumo, risonho, valente.

Um qualquer, que beleza não é o que vale primeiro.

Beleza a gente inventa no olhar o outro, quando se aprecia e se gosta, gosta tanto que vira amor e luz maior. E até que o outro seja um papa-capim a gente enxerga nele um tiê-sangue, o passarinho mais caprichado de Deus.

Um qualquer pode vir a ser meu bem-querer, porque depois que eu me tiver nele, aí sim, eu acho que ainda dá tempo de desabrochar e até fazer menino.

Mangabeira boa não é torta e põe fruto temporão? Assim, que eu possa ser uma desse tipo, quem sabe lá de minha sorte cigana, dos desalinhos da minha mão?

Enquanto ele não vem, meu Deus, eu vou por aqui tenteando, armengando um que outro namorico, só assim para ir mascando um pouco esse vazio que chega a doer no meio das pernas do mês, quando entro nos dias da fertilidade de terra roxa, roxa terra morena-morená.

Entra ano, vai des-ano, ninguém me vem aqui plantar, de modo que acabo aceitando uma que outra semente que o vento toca ou o passarinho solta, só para não ficar assim, sem função.

Falando sem zás-trás, eu aceito um convite no depois do baile, um perfume e um abraço roliço, chamegos… No mais das vezes de gente de fora, que a gente aqui de dentro chamamos por nome de Turista, Branquelo, Gringo, Biribando… Dependendo do ar de cada um.

Pois eu numa noite que outra me vou com um desses aí, por que não hei de ir? Dá assim uma alegriazinha curta e depois uma tristeza mais fundada, mas e daí, ouri-curi? Tu pões coco pra ninguém. E vai, e vem, na hora do momento a gente só quer mesmo se alegrar. É menos pior se arrepender no depois que arrenegar no antes.

Mas toda vez, no instantinho mesmo em que vou, digo para mim, na minha fonte, que aquele ali é o meu amor. Então, que a bem pensar, eu nunca deixei de bem-querer-amar esse um que tem minha chave.

Enquanto ele não vem, eu fico brincando com o boneco dele; abraço um e digo: é ele. Beijo uma carne e falo: é a dele.

Quem sabe um dia eu acerto? Quem sabe se minha natureza não é assim a de um licor de jenipapo que precisa de muito, mas muito reforço de tempo até chegar ao ponto de adoçar um homem?

Agora: eu também penso aqui comigo que um licor não tem serventia se ninguém bebe e só formiga bole, na falta de alguém que o guarde num armário de carinho. Eu acho.

E do que adianta eu achar, meu Deus? Ô vida de dura travessia de ponte caída, vida boa não fosse a morte, que eu por hoje ando arretada e falando sozinha que nem criança de colo e velho caduco que volta a menino, porque mocidade sem aquele quê é o mesmo que um fruto verdinho que se perde sem amadurecer, e nem passarinho quer comer, nem o tempo faz moldar.

Mas meu coração não foi arrepanhado de vez, nasceu assim encarnado como as penas do tiê, voa, voa tiê-sangue, por esse mundo sem fim, vá dizer a meu amor que nunca se esqueça de mim.

 

 

(Yara Camillo nasceu em São Paulo. Formada em Comunicações – Cinema – pela Fundação Armando Álvares Penteado, FAAP. É autora de Volições (Massao Ohno Editor, 2007) e Hiatos (RG-Editores, 2004). Em sua trajetória, fez trabalhos para Teatro, traduções, participou de antologias e sites de Literatura, coordenou Oficinas de Teatro e Oficinas Literárias, além de ter vários contos premiados. Contato: yaracamillo@gmail.com)

 

 

 

 

Categorias
74ª Leva - 12/2012 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

Amor (Amour). Áustria/França/Alemanha. 2012.

 

 

 

“- É bela.
– O quê?
– A vida. Tanto tempo. A vida longa”.

 

Os passos juntos já não são os “da dança sob a Ponte d’Avignon”, são de suporte para atividades básicas como sentar em uma poltrona ou levantar do vaso sanitário. O auxílio para despir a roupa, não mais erótico e sim de amparo. O desjejum na cama, outrora sinônimo de romantismo, é hoje uma necessidade. O vigor do sentimento mais sublime que pode existir é tão feroz quanto à degradação da matéria e da memória. Ambientado em Paris, Amor, longa-metragem mais recente do cineasta austríaco-alemão Michael Haneke e vencedor da Palma de Ouro como Melhor Filme no Festival de Cannes 2012 é um retrato seco e dilacerante (de 125 minutos) da inevitável passagem do tempo.

Anne (Emmanuelle Riva, da nouvelle vague Hiroshima Mon Amour, de 1959) e Georges (Jean-Louis Trintignant, afastado há quase 15 anos das telas) são octogenários ex-professores de música erudita. A única filha, Eva (Isabelle Huppert, que volta a trabalhar com o diretor 11 anos após A Pianista), também instrumentista, vive com o marido em Londres. Após um procedimento cirúrgico, Anne sofre um AVC e tem o lado direito de seu corpo paralisado. Diante da decadência gradual provocada pelas sequelas da cirurgia, a idosa diz ao marido que não vê mais nenhuma razão para continuar vivendo. O que se observa, a partir disso, é um constante esforço do casal Laurent em aceitar o sofrimento da perda iminente à base de muita paciência, elegância e de todo o amor sugerido pelo título da película.

Aliás, mais que o amor, é o comprometimento com a dignidade o verdadeiro sujeito do filme. Compassivo e realista, Haneke traz uma abordagem rigorosa para a velhice, sem, contudo, tornar-se piegas ou alarmista. Nunca veremos Anne na assepsia de um leito hospitalar, por exemplo, já que praticamente todo o longa se passa dentro do amplo apartamento do casal. Repleto de simbolismos e elementos oníricos, Amor celebra vida e morte, sacrifício e piedade, sanidade e demência, além de tecer uma crítica velada à terceirização de cuidados em clínicas e asilos. Haneke  contempla-nos ainda com sopros de ternura e humor, principalmente quando Anne aprende a locomover-se em uma cadeira de rodas motorizada ou quando uma verborrágica e inconveniente Eva discorre friamente sobre o mercado financeiro enquanto sua mãe, confusa, balbucia palavras desconexas. E a filha tem o disparate de protestar ao pai: Ela só diz bobagem!”.

Protagonizado por dois lendários atores do cinema francês em densas interpretações e eleito como o Melhor Filme Europeu do ano pela Academia Europeia de Cinema (conquistou também os prêmios de melhor atriz, ator e diretor), Amor é o representante da Áustria como pré-candidato ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro 2013 e acaba de ser indicado na mesma categoria ao Globo de Ouro. Tal qual em Caché (2005) e A Fita Branca (2009), Haneke prossegue seu cinema cadenciado, polêmico e violento mesmo que a violência aqui assuma outro viés , capaz de colocar a plateia numa desconfortável posição de “voyeur apocalíptico”. Ainda que menos impactante que seus outros premiados filmes, é impossível sair incólume do cinema, justamente pela simplicidade e crueza emanada pelo Amor hanekeano. Afinal, de uma forma ou outra, o amor quase sempre provoca dor.

 

 

 

 

(Larissa Mendes é catarina de berço, turismóloga por opção e cinéfila convicta)