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99ª Leva - 02/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

alessandra-bufe
Arte: Alessandra Bufe Baruque

 

 

Novos desdobramentos nos espreitam por aqui. Imagens, diálogos, lampejos, análises, ficções, versos, escutas, tudo o que sugere uma ponte entre um universo íntimo de observação dos criadores e uma dimensão externa das coisas. Até imaginamos o quanto uma obra pode incorporar de sentidos e signos do seu nascedouro até a recepção de um apreciador, mas a questão é que o corpo final terá uma conformação imprevisível. Talvez esteja aí o caráter transformador da arte, tanto para imagens quanto para palavras. Quem mergulha na degustação e leitura do universo artístico, recria mundos a partir do seu. Há limites para isso? Uma criação pode, de fato, sofrer uma profunda alteração em razão de seus múltiplos e possíveis níveis interpretativos? Esse fluxo de indagações também parece se aproximar de outros mais, sobretudo aqueles que se referem ao quesito direcionamento das obras. Assim, perguntaríamos, por exemplo, para quem um autor produz, se para si ou no afã de encontrar abrigo no seio de quem recepciona seus feitos. Parece-nos mais razoável permitir que tudo caminhe no seu curso mais natural possível, evidenciando que as experiências individuais assinalem seu próprio caminho. No nosso terreno atual de expressões, questionamos o poeta Geraldo Lavigne de Lemos a respeito desse assunto. As impressões dele estão contidas numa entrevista, bem como epifanias que povoam seus caminhos de escritor. Quem faz par com os textos publicados por aqui é a arte multifacetada de Alessandra Bufe Baruque. Nos caminhos da prosa, vemos desfilar as linhas de Marieli Becker, Dênisson Padilha Filho e Tere Tavares. Na seara teatral, Geraldo Lima oferta percursos ao livro , do dramaturgo Fernando Marques, uma adaptação em versos da peça Woyzeck de Büchner. As janelas poéticas de agora se abrem para as vozes de Ana Farrah Baunilha, Luciane Lopes, Geraldo Lavigne, Márcia Barbieri e Marcelo Benini. O complexo filme Birdman recebe as percepções de Larissa Mendes. O coletivo de expressões poéticas e fotográficas abrigados no livro Profundanças é acolhido pelas sensíveis leituras de Neuzamaria Kerner. Na agulha do caderno Gramofone, giram as canções do disco solo do cantor e compositor Russo Passapusso.  Bem-vindos aos mergulhos da 99ª Leva, caros leitores!

Os Leveiros

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99ª Leva - 02/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Ana Farrah Baunilha

 

Arte: Alessandra Bufe Baruque

 

falta

 

quase morro (e não vejo tudo) tenho uma síncope uma febre delirante culpa dessa fome uma fome maior que a do jejum uma secura desértica que é sede de gente um oco buraco negro que ultrapassa a borda desse corpo o meu tão incompleto e aleijado sobra de vazios e partes faltantes (o corpo do outro) pra tapar o sol das minhas carências todas com uma peneira mais que furada.
Eu não me basto.

 

 

 

***

 

 

 

odisséia para diacov

 

Ela diz ser ela mesma. Ninguém acredita mais.
Acordou, se olhou no espelho e percebeu-se de ser ela, sem surpresas.
Mas aconteceu de ninguém mais lhe acreditar.
E já nem os documentos lhe creditam identidade. Perdeu-se.
Sabe de si. Sabe bem quem é, de onde veio, de quê se alimenta.
Os outros é que duvidam…
Em crise de identidade, questionou
as próprias
digitais.

 

 

 

***

 

 

 

Eu me mostro assim, um tanto,
por ser tão
fratura exposta
a me sangrar toda
é a minha verve
assim, de se esvair
tenho pressa, sou urgente
derrame sem estanque.
Agradeço a ti, pela coragem de ter
andado por aqui
sem se cortar.

 

 

 

***

 

 

 

praga

 

eu vou estar na costura do teu bolso,
na barra daquela calça
no desfiado da bermuda que nunca arrumei
dentro dos teus potes de becker
na ferrugem da furadeira de mesa
no furo aberto da acetona
na composição do nootrópico
na semente da Argyreia
no rasgo da orelha do gato
no estrago da mesa de plástico
na unha torta do teu pé.

 

 

 

***

 

 

 

a vida arranha,
esfola a gente
esfrega nossa cara
no asfalto e depois
abraça, limpa, cura

 

 

 

***

 

 

 

um abuso
a minha gargalhada
o meu escracho
a minha indiscrição no falar
um escândalo
a minha roupa, o meu batom
meu jeito de andar

acham tudo muito chocante
[eu dançar sozinha sem música chega a ser um ultraje!]
a falta do sutiã, minha fome de dragar
o esquecimento das unhas
a exagerada alegria

me querem como zumbi, igual a tudo
ao meu redor
morto, tristemente morto
irremediavelmente

sem graça.

 

Ana Farrah Baunilha é gaúcha da leva de 81, ano do Galo. Leu muita bula de remédio, vê poesia onde não tem e escreve desde sempre. Escorpiana caverninha, tem um autismo brando. E isto avança.