Mais uma etapa de encontros consolida-se na Diversos Afins. Nossa missão editorial ganha corpo na medida em que conseguimos expandir as fronteiras do diálogo. Atrair pessoas e fazê-las expressarem as suas epifanias pessoais é algo relevante. Cada colaborador que se une ao nosso projeto ajuda a compor um vasto e incessante mosaico de sensações. Nada é linear. Se somos seres distintos, carregando uma determinada marca de individualidade, é porque no somatório das ações não damos crédito à conformidade das coisas. A concordância plena não passa de um devaneio sem forças para seguir adiante. É na multiplicidade do pensamento que tudo ganha mais vigoroso sentido. Quão fabulosa é a literatura na medida em que consegue fazer desfilar tantas mentes de características diferentes. Ao fim, o que cada autor vem apresentar aqui na revista é a sua capacidade única de vislumbrar a existência. Por vezes, quantos de nós não explicitamos o desejo de construir uma obra semelhante a de alguém? No entanto, essa vontade, movida por um sentimento de identificação, mais uma vez reafirma o poder da diferenciação entre as pessoas. Definitivamente, nenhum criador é igual ao outro. Daí, a grandeza da arte sob os seus mais variados aspectos. Hoje, com a participação valiosa de escritores e artistas, completamos 106 investidas à frente da revista. Importa saber que há o eco singular da voz de poetas do quilate de Rita Medusa, Airton Souza, Roberta Tostes Daniel, Ana Peluso e André Rosa. Vale a pena contemplar as sutilezas humanas expostas no trabalho da fotógrafa Sinisia Coni. É recompensador ouvirmos o que tem a dizer o nosso entrevistado de então, o experiente músico Sabará, baterista, professor e verdadeiro símbolo da cultura baiana há mais de meio século. No quesito prosa, Vanessa Maranha, Caio Russo, Aden Leonardo e Geraldo Lima vêm fazer do mundo um observatório de ideias e outros tantos contextos. É Guilherme Preger quem nos chama atenção para a elaboração do filme “Táxi Teerã”, nova produção do diretor iraniano Jafar Panahi. Larissa Mendes destaca a marca das sonoridades de “Júpiter”, mais recente disco do cantor e compositor SILVA. “O beijo na parede”, romance de Jeferson Tenório, é cuidadosamente sondado pelo olhar apurado de Sérgio Tavares. No âmago de cada imagem ou palavra que compõe a nossa mais nova Leva, a vida assume contornos próprios. A vocês, caros leitores, ofertamos mais um experimentar de sensações. Boas leituras!
Enquanto teces maledicências
e enredas as saliências dos rumores nos teus cantos
entôo cantiga antiga, versejo mil idiomas
não te vejo e não te sinto
há muito o nada não existe
tua essência arrefece ante o tentáculo que suga
e sorve a si
as insossas tortillas de amora
deferidas no ontem após o jantar
enquanto a distância que te sucumbe em êxtase
e que ecoa em catedrais de gesso
te faz face
te vês são
no grande espelho invertido
pelo hábito
monge
que a ti consagras
nesses dias em
que não amas
***
Você sabe o amor
quando ama o ruído
o abalo
o obstáculo
a falta de sentido
e ainda é amor
***
Filosofia da seca
metafísica das rochas
um punhado de sal
no éter
oito sóis apagados de Andrômeda
uma mulher vestida de seda
só
a palavra amor enterrada
na areia, no coito
um camaleão cinza …….a ciência do abandono
outro dia te vi
absorto
fazendo as contas do teu pessoal
dando baixas no teu pessoal ……porque o coração é um músculo breve
***
A fera
detalhe incômodo
em abrigo tímido
sufoca
todas as ilusões a respeito da calmaria
da infinita falta …………………….do ar de outra fera
do atrito do ontem que cisma com hoje
desalinha o agora
dissolve a cor, a forma, o cheiro
de dentro de tudo que é a alma da fera
de tudo que é o coração da fera
que é a vontade da fera
os dentes da fera
é o sal da fera
assola sua boca
seca sua baba
e soçobra a carcaça
ressoando falta
***
Um barco
uma nau sem leme
o mundo todo aberto e sem paredes
o infinito fazendo arruaça
um medo desgraçado da desgraça
a espera sentada por um príncipe-peixe
o céu sem recortes e sem redes
o real estampado sem escrúpulos
a solidão dos pescadores e dos brutos
e uma âncora do tamanho do mergulho
***
Ser ousado como vento
destelhar ideias
forjar rumores
varrer as águas
confundir os olhos
conduzir o fogo
multiplicar palavras
separar amantes
exaurir a terra
esquecer o homem
libertar um deus
Autora do livro 70 poemas, Ana Peluso, 1966, abandonou Letras e Psicologia pelo Desenho Publicitário. Não deu certo. Aos treze anos sonhava ser Alquimista. Aos cinco, Bailarina, Pianista, Pintora. Aos sete, Professora. Costumava reescrever Novelas mentalmente. Livros, jamais. Catalogava Folhas colhidas na Rua. Esculpia Bonecos em borracha, Papel e batata. Imaginava um mundo feito de Palitos de Fósforo. Escrevia Diários. Hoje faz Sites em html1, retrô-total. Sempre foi Pisciana, só Parece que não. Os versos aqui publicados são do livro “70 poemas” (Ed. Patuá).
Caminhar com o tempo, e não ao largo dele. Sentir o vento investir em nossos rostos suas rajadas sem rumo. Entender tudo o que nos cerca com um sentimento de dinamismo e alguma ponta de mistério. Entre passados inalteráveis e futuros projetados, melhor ficarmos com o que agora explode diante de nossos olhos vacilantes. Fora do presente, tudo são instantes em suspensão, emoldurados no coágulo de eras internas. O tempo que nos rege é inquilino assaz de nossos silêncios, um sorrateiro habitante das entranhas que nos são caras e indomáveis. O novo, falseando a mutabilidade das coisas, usa máscaras para sair às ruas. Acaso existirá o ainda não-dito? Sempre fomos os mesmos por mais sedutoras que possam parecer as transformações mundanas? Perguntar ou responder mais? E quanto ao exercício das escutas, o que fazer? Ao passo que nos achamos pretensamente munidos de certezas, percebemos o quão frágil é nossa espinha dorsal. Subliminarmente e em doses terapêuticas, vamos provando o gosto indefinido de tudo aquilo que não temos domínio aparente. Será o invisível que nos impele? Ante tamanhas indagações, é preferível viver em suspensão, supondo ritmos próprios e não profetizando auroras. Assim, testemunhando o curso imprevisível da existência, compartilhamos da mesma substância que impregna a arte do fotógrafo Ozias Filho, cujas imagens curvam-se diante do ritual indomável das horas. Nessa mesma trajetória de mistérios, as janelas poéticas de Tadeu Renato, Ana Peluso, Caco Pontes e Vagner Muniz convergem em densidade. Revivendo uma porção fundamental do legado do cineasta Eduardo Coutinho, a jornalista Claudia Rangel fala sobre o documentário Jogo de Cena. Numa aproximação com a ótica de Jorge Luis Borges, o escritor Anderson Fonseca caminha filosoficamente pelas complexas apreensões do nome de Deus. A entrevista com a escritora Ana Peluso traça painéis em torno do intricado mundo das palavras. Cenários difusos de vida compõem as estruturas narrativas dos contos de Isabela Penov, Alberto Pucheu e Sérgio Tavares. O poeta Gustavo Felicíssimo discorre sobre a crônica em consonância com a obra de José Saramago. Os olhos apaixonadamente cinéfilos de Larissa Mendes voltam suas atenções para a odisseia familiar do longa Nebraska. Somos todos ouvidos ao mais novo álbum da banda mineira Graveola e o Lixo Polifônico. Assim, o contar do tempo nos fala de 88 Levas vividas. E, a cada edição que surge, permanece a sensação de que olhamos tudo como se fosse a primeira vez. Que você, caro leitor, também possa desfrutar de tal perspectiva!
Narrar os pequenos acontecimentos do dia
uma lâmpada que queimou
um conceito lógico sobre a fofoca
cheiros e temperos
a salvação da humanidade
se um novo mar abriu
-se em óleo
os erros mais comuns da ortografia
se os pássaros aprenderão a fugir
se a ciência chega a tempo
se virão tropas de choque
e colidirão imagens sobre todas as cabeças
o ouro das imagens sobre as cabeças
em um dia comum de pequenos acontecimentos
homens negociam
ideias de enriquecimento
homens como novelos
de uma lã tão tosca
***
Muros gelados
como aqueles que separam almas
muros gelados
na polônia gelada
na pelada gelônia
no meio de auxivitiz
no meio de nothingtrix
no meio do nazix
morto – ?
ora, não nos condene por perceber
***
Não fiz as unhas esta semana
gastei-as
percorrendo teclas eternas
formulando perguntas
serrei-as
clicando em cores
formatando
a métrica
da ideia
da busca
de soluções
montei estruturas sem luxo
anéis de saturno
circulares
paralelos
em eterno movimento
olhei-as buscando a palavra
o sentido exato
risquei a pele
na ânsia por respostas
apoiei-as na língua
entre os dentes
e meu olhar se congelou num ponto
o limite
indignada, cortei uma delas
com uma mordida
***
Refém do primeiro verso
a palavra não encontra mais caminho
verbo
não concretiza mais destino
ponto
não aborda reticências
vírgula
não carrega interjeições
não há sujeito
nem provas que houve
o artigo não define mais nada
ou indefine
metáforas
métricas
rimas
elipses
são só dores fantasma
estrofe perdeu a língua
ninguém cogita resgate
***
A incapacidade de compreender o furacão
quando falta o ar
e a devastação é a respiração da terra
***
Fizeram do poeta uma estátua
parada na orla de uma cidade
que não é Itabira
fizeram do poeta uma pedra
parada numa rua
que não é um caminho
fizeram do poeta um ser calado
como sempre fora
e sozinho
agora repouso metamórfico
metálico
de partículas filosóficas do ar
que o rodeia
ele não ri nem de soslaio
antes odeia
***
Intergentes falais
por códigos análogos
semiólogos espiais
pela espinha e sob o dorso
do dragão
a curvatura de um código-fonte
subdesenvolvido para ser manipulado
num grande laboratório de códigos-fonte
epistemólogos e matemáticos decifrais
se o movimento
qualquer movimento
é concebido a priori
se for
e de fato parece ser,
juristas compadecei-vos
das inúmeras rédeas sem dono
que constam nos autos
e
poetas
afundais
porque já é ávida
e movediça
a lavra da palavra
cuja grafia começou
ontem
Autora do livro 70 poemas, Ana Peluso, 1966, abandonou Letras e Psicologia pelo Desenho Publicitário. Não deu certo. Aos treze anos sonhava ser Alquimista. Aos cinco, Bailarina, Pianista, Pintora. Aos sete, Professora. Costumava reescrever Novelas mentalmente. Livros, jamais. Catalogava Folhas colhidas na Rua. Esculpia Bonecos em borracha, Papel e batata. Imaginava um mundo feito de Palitos de Fósforo. Escrevia Diários. Hoje faz Sites em html1, retrô-total. Sempre foi Pisciana, só Parece que não. O livro 70 poemas integra a Coleção Patuscada, premiada com o ProAC – Programa de Ação Cultural da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo.
A primeira coisa que nos vem à cabeça quando pensamos em maturação é todo um conjunto de mecanismos e processos que dão suporte ao ato contínuo de um amadurecimento. Ao longo da vida, somos tomados, mesmo que forçosamente, pela necessidade de empreendermos passos decisivos rumo a algum tipo de evolução. E evoluir seria apenas uma das facetas da maturidade, embora nem sempre signifique uma renovação completa daquilo que supomos, sentimos ou desejamos. É de se desconfiar, então, que a transformação substancial do ser humano surge à custa de rupturas tanto no campo do pensamento quanto da ação. No que se refere à literatura, alguns percursos próprios se apresentam. Um deles está na capacidade que um determinado criador tem de vislumbrar sua obra como uma janela de projeção para o mundo. É o caso de gente como a escritoraAna Peluso, que, profundamente envolvida pelas marcas de seu tempo, faz de sua expressão literária um voraz instrumento de lucidez.
Companheira inseparável do espanto e do estranhamento, Ana faz com que sua poesia transite por um lugar onde muita coisa pode ser posta à prova. Desde os sentidos mais elementares até os mais complexos, a autora revela-se intensamente movida pelos signos da inquietude. Seus versos movem moinhos de indagações, chacoalham as fronteiras do óbvio e, ao mesmo tempo, refletem uma sutil busca pela delicadeza oculta das coisas. Sem sucumbir a bandeiras da moda ou apelos ideológicos voláteis, essa paulistana se vê agora diante de seu primeiro rebento poético, o livro “70 Poemas”, publicado através da Editora Patuá.
Nascida em 1966, Ana Peluso, além de escritora, agrega em sua trajetória os perfis de jornalista, editora e web designer. Integrou diversas antologias, dentre as quais: deZamores, pela Editora Escrituras em 2003, resultado do encontro de alunos de diferentes oficinas literárias virtuais do SESC SP, sob orientação do escritor João Silvério Trevisan; É que os Hussardos chegam hoje, também pela Editora Patuá, 2014; e de Hiperconexões : Realidades Expandidas, primeira antologia poética sobre o pós-humano, com organização do escritor Luiz Bras, pela Editora Terracota, 2014. Tem textos publicados em diversas mídias impressas e eletrônicas, como é o caso do extinto jornal O Pasquim, revistas Coyote, Germina, Musa Rara, Cronópios e outras mais. Aqui na Diversos Afins, Ana é uma velha conhecida que, tendo participado com seus escritos de várias edições, agora retorna à casa para falar um pouco sobre o seu momento de saberes e sabores em torno do nascedouro de seu primeiro livro. Como se não bastasse, desfila também algumas pungentes opiniões acerca do laborioso e nada facilmente exprimível ato de escrever.
Ana Peluso / Foto: arquivo pessoal
DA – Sua trajetória é íntima das palavras, sobretudo pelas feições de jornalista, editora e escritora. Depois de um bom tempo, seu primeiro livro vem ao mundo. Quais travessias foram determinantes nesse lapso temporal?
ANA PELUSO – Eu não chamaria de travessia o que me levou a publicar, mas de incursão interna. Hoje em dia se escreve muito para o outro, para agradar o outro, seja esse outro o mercado editorial, um amigo poeta, um editor de revista, de jornal, ou até um crítico. A minha travessia se travestiu de incursão porque escrevo, antes de tudo, para mim mesma. Sob esse prisma, e de um ponto de vista meramente material, talvez eu seja egoísta, mas não acredito na arte que não dialogue antes de tudo com o interior do artista, com seu mundo particular, que, por sinal, é vasto. Caso contrário, ele ainda não é um artista de fato, mas alguém que necessita da atenção dos demais, e talvez por isso se vê tanta gente escrevendo igual a tanta gente. Em muitos casos, é natural que, ainda que o poeta tenha optado por trilhar esse caminho a que me propus, a obra chame atenção, mas aí a atenção é mera consequência, e não o estopim para que a arte aconteça, porque para mim é necessário que ela se distancie do criador a ponto de pertencer aos demais, e, ao mesmo tempo, que ela se mantenha como um mundo muito particular ao criador, muito pessoal e peculiar. Se o leitor encontrar o objeto da criação com outras feições, melhor. Sempre digo que “a terceira margem de um livro é o leitor”, justamente porque a primeira e a segunda pertencem ao autor, pelo diálogo interno que precisa acontecer para ele poder chegar ao ato da criação. Como se fôssemos híbridos, é necessária a contradição interna, pessoal, uma segunda leitura feita, talvez por alguma camada da consciência a que não temos acesso reconhecido, mas que está lá, apta a esse diálogo. Eu acho que todo bom autor é dialético por natureza.
Ai das coisas que não se contradizem.
DA – Em “70 Poemas”, há um vasto painel de olhares e percepções que não congratulam com o estado de coisas em que vivemos. O mundo sempre foi um lugar estranho?
ANA PELUSO – Acho que sim. Eu poderia responder que fizeram do mundo um lugar estranho, mas se a gente imaginar o homem das cavernas e sua luta pela sobrevivência, vai ser obrigado a concordar que o mundo só é estranho à sensibilidade de alguns homens. Matar um semelhante pela supremacia da tribo é tão apavorante quanto administrar a desigual distribuição de renda. Para mais além, o mundo é tão estranho, que nascemos berrando, o que não foi exatamente o meu caso, mas não me pauto jamais pelas exceções, até porque o “nascimento de um natimorto” deve ser infinitamente mais doloroso. Pena que não me lembro. Adoraria narrar uma ressuscitação.
DA – Sua poesia tem uma marca substancial, que é uma atitude desperta e incomodada diante da vida. E você consegue equacionar as doses sem se perder em desvios ideológicos. Em que medida o caos interior é um aliado de quem cria?
ANA PELUSO – O que você chama de caos interior, e eu de infinito interior, é matéria-prima. E tem uma ideologia lá dentro, sim, só que ainda desconhecida. Sem contar que tudo o que fazemos, fazemos por um ideal.
DA – No sentido lato da palavra, o seu ideal faz com que sua poesia seja algo engajada?
ANA PELUSO – Se há engajamento, é orgânico, não panfletário. Não adianta levantar uma bandeira se quem a pega não distingue cores. Então, a gente enterra a mão e fertiliza uma raiz interna. É como dizer ao coração porque o sangue corre nele, fazer pele falar com pele, é um engajamento sutil, quase impossível de um ponto de vista prático, racional. Mas é uma poesia feita de perguntas.
DA – É interessante quando você diz que escreve para si mesma. Esse pensamento parece colocar criador e leitor numa situação de autonomia compartilhada, através da qual cada um demarca seus territórios de vivência dentro de uma determinada obra. Leitores são seres realmente livres?
ANA PELUSO – Eu tenho que escrever para mim mesma. Para quem mais eu poderia escrever no momento da escrita? A quem o poema deve agradar de pronto? Escrevo sobre/tudo para mim mesma. E, sim, pode chamar isso de autonomia compartilhada (excelente termo), a questão é que para mim, como disse acima, o leitor é sempre a terceira margem de um livro, não adianta eu escrever poesia achando que o texto chegará aos olhos do leitor na forma que eu penso ter escrito a poesia, e, ainda, se chegará como poesia. Eu não gosto do óbvio, apesar de estar trabalhando em alguns textos óbvios, eu gosto de mistério, do que aquelas linhas podem me proporcionar de possibilidades, novidades. Recriar é laborar diretamente com a novidade, é rever, redizer. Quando escrevo uma frase que é minha por epifania, mas cuja alma, a ideia, pertencem já a alguém, digo que é do “dito-redito”. Também gosto de literatura de corpo honesto. É muito tentador dizer o que já foi dito como se não se visse que já foi dito, ou se fingisse não ver, mas é feio, é pequeno. A não ser que o autor desconheça mesmo a autoria – essas coisas acontecem – trata-se de um mecanismo de auto-engano voluptuoso. E um escritor não pode carregar um peso desses. Ele já carrega o mundo, na vertical, das costas para a cabeça. Aí é peso demais, e ele acaba largando o mundo, e ficando com o auto-engano.
Ana Peluso / Foto: arquivo pessoal
DA – Hoje presenciamos a aparição cada vez mais frequente de autores desembocando suas expressões em diversos meios. No seu entender, há um novo espaço de concepção criativa surgindo? Podemos falar em uma nova geração?
ANA PELUSO – Sim, acontece um movimento feito de outros movimentos, e que vivencia a arte, a própria escrita, de forma plural e constante. Acho que podemos falar em uma geração de gerações. É extremamente rico o momento. Cria-se convergência para um ponto comum: o reconhecimento de que somos vários, e somos variados, mas de forma alguma isso pode equivaler à total qualidade.
DA – Vez por outra, percebemos discursos inflamados numa defesa bastante firme da tradição literária. Apesar dos novos tempos instaurarem outras perspectivas, o purismo subsiste. Não é um exagero imaginar que tradição e modernidade não podem se harmonizar?
ANA PELUSO – Acho que tem que existir harmonia, sim. Reconhecer o diferente faz parte da prática da vida, mas por outro lado entendo os puristas, há que se resguardar uma certa tradição. Nem toda arte, nem toda literatura, será exatamente a mesma com o decorrer do tempo. O novo sempre surge, e sempre surge subvertendo o paradigma, mas acho de bom tom que os tradicionalistas estejam de olho. Nem tudo é mar só porque é água. Eu mesma não sei até hoje se o que escrevo é poesia de fato. Talvez comparado ao rigor da tradição, não, mas há um trabalho com a palavra, há uma preocupação em criar um universo poético, ou seja, não se trata de prosa na vertical. Mas isso, de trabalhar uma linguagem (mais) carregada de significados (Pound), não coloca ninguém no patamar de poeta, ou mesmo de escritor. Ao mesmo tempo em que há escritores de correntes tradicionais sem verve, há novatos que operam fora dos paradigmas tradicionais com um brilho literário inquestionável. Perceber e reconhecer isso é o que falta.
DA – Há quem defenda uma “fronteirização” da literatura. Nesse ínterim, bandeiras de gênero são erguidas, a exemplo de distinções criadas em torno do que seja literatura gay, feminina, dentre outras. Mais do que nichos de afirmação, essas ações não seriam ilusões de uma frágil tentativa de inclusão?
ANA PELUSO – Não acho que seja “frágil tentativa de inclusão”, mas tentativa de inclusão, e não é necessária. A obra fala pelo autor, com ou sem bandeira, de gênero, cor, classe social, mas aí é preciso ver se a luta é pela inclusão da literatura ou da classe. E isso é ponto relevante a ser apreciado porque dialoga com a história, com o momento histórico, que é de carnaval e toda fantasia tem sua cor, e quer se mostrar. O que não pode acontecer é o poeta engajado em uma causa ceder aos interesses políticos. Por mais política que seja a sua postura, com a vida até, a partir do momento em que a obra se torna um veículo meramente político que não seja de oposição, deixa de ser carnaval e a marcha é outra.
DA – Como ser de espanto que é, o que você não endossa na dita pós-modernidade?
ANA PELUSO – Se você fala da pós-modernidade no campo das artes, endosso tudo. E falo de arte, não de entretenimento. Se você se refere ao campo de ação do homem comum, me preocupa a falta de interesse pelo que está realmente acontecendo. E não está acontecendo direita e/ou esquerda, está acontecendo nesse exato instante o controle total do ser humano pelos mais variados tipos de comando. Desde a escravidão devotada voluntariamente, vício já na tecnologia, como a implantação de chips no pulso de cidadãos norte-americanos para validar o Obamacare, até as mulheres muçulmanas que vivem sob uma burca, passando pelas protestantes do “Cinturão da Bíblia”, nos EUA, e seus maridos violentos, até o controle do que eu devo ou não assistir na tv, ler nos livros, e ouvir nos discos. Eu não endosso o controle. A liberdade já é produto da utopia, ninguém precisa lembrar disso a todo instante.
DA – Somos incorrigíveis?
ANA PELUSO – Sim, para o bem e para o mal.
DA – Saberia dizer o que a literatura espera de você?
ANA PELUSO – Não, não saberia dizer, mas sei o que eu espero de mim em relação à literatura. Gostaria de ter tempo para escrever mais e melhor. E para poder levar adiante projetos antigos, como escrever para crianças. Também gostaria de ter fôlego, tempo e meios para me dedicar a um pequeno romance. Se eu tivesse condições, só escreveria. O livro ’70 Poemas’ não contém nem 1% do que eu tenho a dizer, a escrever. Mas infelizmente a literatura no Brasil é um artigo de luxo, principalmente para o escritor, e, sobretudo, se ele é obrigado a exercer outras funções que o mantenham como um bom pagador perante os banqueiros e o mercado. É uma via de mão única: ou se escreve verdadeiramente, e se come pão com água, ou se paga as contas, e se escreve pouco, muito pouco o que se tem a escrever. Ouvi certa vez de uma acadêmica em Letras: “Você é muito boa, mas não tem pé de meia”. Aquilo foi um choque para mim. Porque ela está coberta de razões. Não dá para parar um poema para dar sequência a um trabalho, por pura necessidade, e voltar ao poema depois com o mesmo espírito. O capitalismo é o maior assassino de pessoas no mundo, incluindo os escritores. Vejo muitos autores vivendo puramente da literatura com oficinas, workshops, palestras e performances, mas comigo não é assim que funciona. A literatura, para mim, é uma arte feita principalmente de burilamento e silêncio. Eu não teria cabeça para dar uma oficina e voltar a um texto em seguida. Seria como parar um poema para dar andamento num trabalho qualquer, quando a própria literatura já é um trabalho, que exige muito da gente. Só falta o mundo reconhecer isso.
Realizações e projeções fazem parte de qualquer trajetória. Não é diferente com o projeto levado a cabo pela Diversos Afins. Hoje, perfazer a marca de 80 Levas é uma conquista que se deve a inúmeros fatores. De todos eles, talvez a persistência, travestida em teimosia, seja um atributo mais adequado. São 7 anos de uma jornada trilhada especialmente pela reunião de desejos e expectativas harmonizadas em torno de um propósito: descobrir e propagar vozes. Durante esse tempo, chegamos à conclusão de que tudo aponta para um exercício de aprendizado constante. Certezas são questionadas e outras visões de mundo se apresentam. Atestar a qualidade desse ou daquele autor, tanto no terreno das palavras quanto no das imagens, não vem necessariamente de pontos de vista cristalizados. Sem deixar de lado os aspectos que robustecem, de fato, uma determinada obra, tentamos privilegiar o modo como ela pode ser interessante aos olhos dos leitores. É algo complexo de conduzir, mas a experiência tem demonstrado que temos conseguido aproximações importantes. Para quem edita, é recompensador, vez ou outra, ser surpreendido por alternativas diferenciadas de criação. O universo de colaboradores que estão dispersos por todas as edições da revista é nosso maior legado. Sem eles, não seria possível falar em continuidade. A Leva de agora é marcada pela reinvenção de territórios trazida pelos olhos do fotógrafo Peterson Azevedo. Em matéria de poesia, juntam-se a nós as expressões de Neuzamaria Kerner, Leonardo B., Ana Peluso, Edson Bueno de Camargo e Maria da Conceição Paranhos. Nossa sabatinada da vez, a poeta, atriz e professora Rita Santana, tem muito a dizer de suas andanças literárias e da sua lúcida condição de mulher. Os contos de Jorge Mendes, Márcia Denser e José Aloise Bahia chacoalham nossa zona de conforto. Em suas pesquisas musicais, Larissa Mendes descobre o disco do cantor e compositor Baia. O escritor Marcos Pasche nos convida a conhecer o novo livro do poeta cearense Assis Lima. Em meio ao panorama teatral de Brasília, Geraldo Lima destaca a trajetória do Grupo Cena. Noutro ponto, uma leitura para o aclamado “O Som ao redor”, filme de Kleber Mendonça Filho. Como todas as outras, essa edição comemorativa de aniversário celebra o desejo de se prolongar caminhos. É com muita alegria e disposição que agradecemos a todos, leitores e colaboradores, por nos ajudarem a construir essa história. Sejam sempre bem-vindos!
Bertha Pappenheim não se contorce à toa, perdeu-a / a língua // Freud diria que Bertha Pappenheim ainda não sabia, mas quando seu pai não prestou atenção no casal que formou com suas bonecas, perdeu / -se-(a)tempo // A Grande Mãe levou o pai de Bertha Pappenheim, perdeu / -à morte // Bertha Pappenheim fez um filho imaginário com Josef Breuer e, perdeu-lhe / a imagem // O clima em Viena nunca foi dos melhores para Bertha Pappenheim, perderam / -lhe a senha // Bertha Pappenheim acredita na pureza que seu pai e Josef Breuer desconheciam mas perderam / e sabem // Ninguém está a par de como Bertha Pappenheim curou-se / Sabe-se que ela sorria quando emulava palavras de segunda mão com o nunca encontrado / Paul Berthold
***
a esperança respira Zyclon B
eu vivo dentro de um presídio chamado Nothingtrix
todos os dias judeus-coreanos azuis-royais me acordam
com toda a conta do mundo débito
préstima a pagar
creditam em mim as falácias do comando
em cinza neon sobre a pele
e eu saio por aí cor análoga
de brilho fosco
coração pequeno
que ainda abate
por cima os sonhos
porque é obediente ao comando
é rocha em vez d’água
quando água era sereno
sempiterno-romântico
só reconhecia o cinza na vitória vã
agora é tic-tac sem ruído
cor de sangue vencido
e nem um agosto é próximo
***
É produtivo fabricar tijolos. Um tijolo sozinho é obra de arte, com mais alguns é parede, é quarto, sala, é banheiro. Raro dizer poesia a céu aberto. E só bate sol quando se atravessa tijolos e é você do outro lado. Não me lembro de já ter visto tantos tijolos. Nem de nada como quando você perguntou o nome de uma estrela olhando diretamente pra ela.
***
Sentado o poeta torce pela chuva que não cai/ em sua manga guarda a relíquia dos dias/ em forma de pergaminho bruto/ couro de pele/ de um árcade nômade/ feito de horas mornas e cansadas/ que o poeta lê em livros de ciências e encíclicas/ Em sua casa ouro de Jeslade/ o poeta bebe siderado/ o sonho de amanhã/ era mesmo amarelo laranjal/ Suas entranhas não carregam mais os dias/ seus olhos não lembram do presente/ abotoados em um sonho soturno/ encontram as mesmas natividades festejadas/ Sentado o poeta suspira/ saudade inaudita/ logo esquecida/ O que seria mesmo a relíquia em qual manga?/ O poeta sonha
***
Cada um tem seu limite
De fundar uma âncora
Uma terra no fundo do mar
Pernas pra cima sentindo o mundo
Pernas sentindo o mundo
De água
O peso do mundo nos ombros
De ossos carne sistema nervoso
Boca aterrada
Ouvidos mucos
De areia
Cada um tem em seu limite aterrar a cabeça na areia
Seu limite de não voar
Daí advém o surto
Etimologicamente falando
(Ana Peluso, paulistana, experimentadora da palavra, participou de algumas antologias, não possui livro solo)