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120ª Leva - 05/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Ana Pérola

 

Foto: Angelik Kasalia

 

EL CAMINO

Para ler ao som de Chango Spasiuk

 

I

Esse caminho infinito
Que rodeia ausências
E só me traz uma saudade do que não

 

II

Mal amanheci
Nem me avistei hoje
E já te penso

 

III

O espelho vazio
E na banheira do meu peito
Inundação

 

IV

Percorre no meu corpo
Adentra a intimidade
É só a água do chuveiro, Querida

 

V

A memória, mais tarde
É uma cabeça encostada
Na janela do ônibus

 

VI

Enquanto a vida passa lá fora
O amor em estagnação:
O meu melhor fado.

 

 

 

***

 

 

 

CONFISSÃO

 

Um barulho na cozinha
A desconfiança de uma descendência italiana
Meus pais, um caos
Quebrantes
Eu, caquinhos.

 

 

 

***

 

 

 

A CASA

 

Esse fantasma
Que me atormenta
E desmorona no meu sobrenome.

 

 

 

***

 

 

 

CATARSE

 

Aquele copo cheio de veneno
O gesto mal intencionado
O corpo tomado por crença.

O espinho liberta.

 

 

 

***

 

 

 

ARMAÇÃO

 

Essas espumas que explodem
As rochas cobertas pelo desejo
De tanto (a)mar.

Sem nenhuma dúvida
Se deixar molhar.
Depois secar, desconheço.

 

Ana Pérola (RJ – 1988) mora em Florianópolis, é poeta, fotógrafa, tem ensaios publicados na Revista Ellenismos, exposição fotográfica e conto na Revista Cruviana. Além de escrever em redes sociais e em seu blog Sentidos, é colaboradora no Poesia: Falsidade Ideológica  e no projeto infantil Para Qualquer faz de Conta e atua também na área de Recursos Humanos na qual é graduada.

 

 

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77ª Leva - 03/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Ilustração: Thaís Arcangelo

 

Em que medida a porção do sonho funda a matéria de que somos feitos? Onde o vigor da abstração quando necessitamos de um mergulho mais profundo rumo a nós mesmos? Refletir sobre o quanto estamos enraizados pelas nossas questões mais delicadas é algo desafiador ao ser humano. As motivações para se trilhar a jornada são intermináveis e, por isso, continuar é imperativo. Nesse trajeto, as revelações nem sempre são as melhores. Seja no confronto com a dor ou a beleza, o ato de criar teima em procurar abrigo de modo, algumas vezes, desavisado. A arte, enquanto instrumento de transformação, registra as marcas de nossa passagem pelo mundo. É como se houvesse uma necessidade curiosa de também fazer ecoar aquilo que guardamos a sete chaves. Inquietação, espanto, busca, vaidade, regozijo, melancolia e efusão aparecem como alguns dos mais prováveis ingredientes duma humana mistura guiada ora por lucidez, ora pela mais crônica cegueira. E isso apenas explica em parte certos propósitos da criação. O interessante mesmo é quando somos levados pela fluidez sugerida pelas mais diferentes mentes, cada uma delas compondo uma ordenação própria e feita de lugares que frequentemente relutamos em visitar. Assim, saborear tais caminhos é um se deixar levar, permitindo que o efeito duma provocação se faça cativo. A cada um é dado saber o quanto o chamado importa num processo que traz à tona espelhamentos ou negações. Imbuídos um pouco desse espírito, perfazemos 77 edições com a revista. Em meio a nossa trajetória, nos acostumamos a tatear as paredes do indizível, embora entre palavras e imagens possam aparentemente brotar significados que se explicam pela força que lhes é peculiar. É muito pouco tentar definir, por exemplo, o que se encerra nas epifanias contidas na arte de gente como Thaís Arcangelo, nossa expositora da vez. Nela, lidamos com o momento de harmonizar realidade e fantasia, o vivido e o inventado, tudo exalando uma aura de delicadeza a partir do prisma especialmente feminino. Também é tempo de acolhermos as investidas dos poetas Jorge de Souza Araújo, Ana Pérola, Alberto Boco, Raquel Gaio e Nestor Lampros. Compondo as janelas poéticas, a escritora Viviane de Santana Paulo traduz alguns poemas do autor alemão Dirk von Petersdorff.  A partir de um conto de Myriam Campello, o escritor Héber Sales reflete sobre alguns caminhos da criação. Larissa Mendes percorre duas frentes: o filme “Hitchcock” e o disco de estreia do cantor e compositor capixaba SILVA. Falando sobre literatura e de toda uma especial relação com os livros, o escritor e editor Eduardo Lacerda é o entrevistado da vez. Há, ainda, a presença marcante das imagens contidas nos contos de Sérgio Tavares, Maria Lindgren e Pedro Reis. Um novo coletivo de expressões está em rota, caro leitor. Boas incursões!

 

 

Os Leveiros