1. …Maria, minha mãe, de 57 anos, tem esquizofrenia.
2. …Nada é mais doce que a tortura cotidiana para deformar o espírito de uma pessoa. Mamãe explicava com muita clareza o método de vovó.
3.…Porque o dizer importa! – exclamava Maria a seu marido. Não, ela não dizia a ele sequer uma frase completa. Maria dirigia sua voz ao invisível que habitava as paredes. Contradizendo o valor do inaudito, ela ressignificava o dizer. A ruptura do silêncio era o emergir de uma nova percepção do espaço que a envolvia. Percepção essa manifestada na palavra. Cada elemento desse objeto sonoro, apenas exercia a função narcisista de realçar a subjetividade de Maria. …quanto mais falava, mais percebia a si mesma.
4.…– A esquizofrenia de Maria obedece à 2ª lei da Termodinâmica. É irreversível. A desordem tende a aumentar até um estado futuro em que você não mais a reconheça. Antes desse dia chegar, é melhor não estar com ela. – sentenciou o médico.
5.… Em 1992, mamãe saiu de casa. Desde então, vivo em 1992.
6.…Existem três verdades sobre Anderson: ………a) Ele, enquanto nome e sujeito, não passa de uma crença reforçada pelo tempo. ………b) Houve cinco Andersons em três décadas e meia. O atual é a soma dos anteriores. ………c) O atual existe em conflito com os anteriores.
7.…Quanto a Anderson não sei o que afirmar, porque:
……..a) O original durou do nascimento até o dia em que uma tempestade se manifestou em sua cabeça. ……..b) O segundo apareceu em 1992, levando à morte o primeiro*. ……..c) Já o outro veio a surgir na virada do século 20, durante o curso de Letras. ……..d) E o quarto sorriu em 2012, assim que suas mãos envolveram a pequena Ana Clara. ……..e) Mal conheceu a traição, o quinto emergiu.
…. Daí a impossibilidade.
Estou certo disso: o segundo é uma constante que molda todos os posteriores.
8.…Um parasita controla o cérebro de minha mãe. No exato instante em que o ingeriu, perdeu o domínio das emoções. Agora não sei dizer se ainda há algo nela que possa ser Maria.
9.…Em 26 anos, ela desapareceu.
10.…Mas antes de esvanecer, Maria foi:
………………a) A mão que rascunhou minhas fantasias. ………………b) Os cabelos encaracolados que enovelavam-se em meus dedos. ………………c) O riso ante o grito e a angústia.
11.…Em 26 anos, percebo agora que eu também esvaneci; mas para quem?
12.…Deus ama os seres mutilados.
13.…A ordem era que, com oito semanas, o prepúcio que envolve a glande fosse cortado. Mas, somente com oito anos, tive esse privilégio.
14.…Quando a pele foi arrancada, Deus tirou de mim o prazer. Em seu lugar, a graça de uma vida clemente.
15.…A Bíblia tornou-se minha penitência. E após um tempo que não sei determinar, me converti.
16.…Na conversão perdi o meu nome. Perder o nome é o mesmo que cindir o ser.
17.…Eu sou um homem mutilado.
18.…As mutilações foram três sequencialmente: ………………a) Maria. ………………b) O prepúcio. ………………c) A traição.
19.…Deus me ama.
20.… A loucura constitui-se em um crime contra seu possuidor. Há quem o converta em poesia. Não o louco. Com que paga seu crime? Barganhando o corpo. É uma oferta generosa: perder um pouco de si para ganhar alivio à dor.
21.…O louco, meu amigo, é um penitente.
22.… A oferta teve um lucro: Kelly.
23.…A avó não permitiu que Maria cuidasse da própria filha. Kelly foi tomada. O louco não é apto para cuidar de uma criança. Que pena! Ninguém permitiu que criasse os filhos. Nem Deus, nem o marido, depois nem o primogênito. Acusada, foi banida.
24.…Internada em um hospício, fugiu.
25.…Em um instante de frenesi, quando o delírio toma as feições do espírito e o poeta manifesta-se cantando o porvir, Maria gritava nos corredores do hospital.
26.…Sem filhos, assim ela passou o resto da vida.
27.…Maria morreu em uma cama de hospital sem estar cercada pelos próprios filhos.
28.…Morta, Maria foi sepultada.
29.…Kelly esteve presente, apenas.
30.…Sem Maria tudo é permitido.
31.…Sem ela, Anderson é responsável por qualquer dor que a escolha lhe trouxer. Não pode mais culpá-la.
32.…É tarde
* N.A.: O primeiro não é o mesmo que o original, cujo sentido etimológico é creatio ex nihilo.
Anderson Fonseca é autor dos livros “Sr. Bergier e outras histórias (2016)” e “O que eu disse ao general (2014)”. Atualmente, cursa Mestrado em Filosofia na Universidade Federal de São João Del Rei.
O pequeno estava com fome, muita fome. Havia dias que não comia nem bebia. A boca era o deserto com rachaduras nas extremidades, de algumas emanavam fios de sangue. Mas o pequeno não chorava. Não gemia. Emudecido fechara-se num ovo. O sol castigara suas costas. O ovo rachou. As cascas uma a uma caíram. O pequeno lembrava um feto mal formado. Um urubu o viu e bicou seus olhos, depois seu estômago, depois chamou os outros que fizeram o mesmo. O que restou? O desenho do pequeno na terra.
***
À beira de um edifício, em pé, uma menina olha o horizonte. Atrás dela, alguém diz: – Você vai pular?
– Não.
– Seu pai pulou, sua mãe e seu irmão também. Você vai pular?
– Não.
– Olhe para trás.
Ela olhou e viu uma multidão enfileirada.
– Eles aguardam a vez.
Um velho lá do fundo gritou: – Pule menina!
– Não posso. Não quero perder a visão do horizonte.
A voz então lhe disse ao pé do ouvido: – Feche os olhos. É igual.
E a empurrou.
***
A garotinha estava brincando com o urso e um gatinho de pelúcia. Os dois bichinhos dialogavam.
– Como foi seu dia? – perguntou o urso.
– Foi bom, muito bom. – respondeu o gatinho.
– Me conte o que aconteceu. – suplicou o urso.
– Eu estava passando em meio aos escombros dos prédios, quando vi um buquê de flores. Elas começavam a murchar. Corri para pegar ao menos uma rosa e cheirá-la. Assim que me aproximei, agachei, estendi a mão. Mas era difícil puxá-la, algo a segurava com muita força. Então fiz força também para arrancá-la. Dei tudo de mim, até que a rosa veio, mas um líquido vermelho escorria do caule, um líquido espesso. Abaixei para ver de onde veio a rosa. Olhei através dos escombros. Uma mulher tinha os punhos cerrados em torno do buquê. Era um sinal de amor que a bomba tornou em morte. E como foi o seu?
– Ontem à noite… – disse o urso. – Sai à procura de uma estrela cadente. Ouvi dizer que elas realizam nosso desejo. Basta olhar para elas e pedir. Eu estava com sorte. Depois que me sentei em cima de uma pedra e levantei os olhos, dezenas de estrelas atravessaram o céu. E aí eu sussurrei, “Quero estar ao lado de um amigo, porque sozinho é difícil superar o mal da guerra”. E agora estou com você.
Ao lado da garotinha dormiam seus pais.
***
– O que você fez com suas mãos? – perguntou o soldado à menina.
– Folheava um livro.
– Livro? Diga o nome.
As mãos dela estavam sobre a mesa.
– O sol é para todos.
– Repita.
– O sol é para todos.
– Diga mais uma vez.
– O sol é… – antes de terminar a frase, o soldado desceu a lâmina sobre as mãos dela.
– O sol é dos que o conquistam. – encerrou o soldado.
***
Quando Omran acordou, viu que as cinzas ainda estavam sobre ele. Quando tocou a própria face, sentiu-a manchada de sangue. Quando perguntou sobre seus pais, não ouviu resposta. Quando o silêncio cortou o ar, uma lágrima desceu.
Anderson Fonseca, 35 anos, é autor dos livros de contos “Sr. Bergier & outras histórias” e “O que eu disse ao general” – o primeiro de uma trilogia sobre a guerra e a política. Os contos aqui publicados fazem parte do seu próximo livro, “Crianças deitadas jamais se levantam”, obra que é a segunda da trilogia.
E chegamos a 10 anos de publicações. Com 111 edições lançadas, a Diversos Afins está, no formato e conteúdo, já um tanto distante do seu embrião. Em 2006, quando vinha a público a primeira leva, a revista ainda apresentava uma estrutura incipiente, bastante artesanal. Por certo, não se imaginava tamanha longevidade, apenas existia uma investida puramente romântica bem digna de ímpetos iniciais. De lá para cá, não somente o tempo transcorreu assinalando percursos numéricos, mas serviu de impulso para inúmeras possibilidades de aprendizado e experimentação. O propósito nunca foi o de se portar como um veículo autorreferente, do tipo que vangloria os feitos de seus idealizadores. De fato, nascemos em plena era de efervescência dos blogs, verdadeiros cadernos eletrônicos de onde saíram importantes nomes do cenário literário e artístico em geral. Foi também possível testemunharmos o surgimento de portais e tantas outras revistas ligadas aos temas culturais. Alguns se mantiveram, outros, por razões das mais distintas, ficaram pelo caminho. Hoje, não temos dúvida de que a persistência foi nossa melhor aliada, pois sempre acreditamos que seguir adiante sempre fez sentido. E não foi em vão que escolhemos o lema “desengavetar expressões” para capitanear nossa trajetória até aqui. Sabíamos o que representava ser um veículo de comunicação num momento em que as perspectivas editoriais em relação à literatura, por exemplo, apresentavam um cenário de radicais mudanças. A Internet foi uma mola impulsionadora de todo um processo no qual criadores expuseram seus trabalhos de forma independente. E ter contato com muitas dessas expressões foi fundamental para a consolidação dos caminhos da nossa revista. Fez-se necessário estabelecer critérios próprios de seleção, pautados em aspectos de qualidade que não representavam juízos de valor. O mais importante de se completar 10 anos de jornada pelas vias culturais é certamente a ideia de se agregar pessoas. Perdemos a conta de quantos colaboradores deixaram suas marcas impressas em nossas páginas ao longo de todo esse tempo. Também não saberíamos mensurar o quão valiosa é a atenção dos leitores em relação ao nosso trabalho. Cada autor e artista que por aqui passam, com suas distintas vozes, reforçam o nosso desejo original pela diversidade. E assim vamos seguindo. A leva 111 pretende ser a primeira de uma série de cinco edições especiais que celebrarão nossa primeira década de vida. Para inaugurar o momento, destacamos os versos de poetas como Bruna Mitrano, Wesley Peres, L. Rafael Nolli, Micheliny Verunschk e Geraldo Lavigne. No território da prosa, contos de Márcia Denser, Anderson Fonseca e Maria Camargo Freire (heterônimo de Caio Russo). É Larissa Mendes quem rende escutas ao novo disco do rapper brasileiro Criolo. Sérgio Tavares realiza uma especial entrevista com o escritor Ronaldo Cagiano. As atenções cinéfilas de Guilherme Preger desta vez estão voltadas para “Big Jato”, filme do diretor pernambucano Claudio Assis. A volta do caderno de teatro é marcada pela sensível exposição da dramaturga Yara Camillo sobre a peça “Donantônia”, encenada pelo Núcleo Ás de Paus, do Paraná. São muito contundentes as linhas de Sérgio Tavares quando nos convidam à leitura do livro de estreia de Marcela Dantés. Conferindo um brilho especial a todas as expressões contidas na nossa leva atual, os desenhos de Luma Flôres visitam mundos que correm paralelos na experiência humana. Com imensas felicidade e gratidão, dedicamos a nossos leitores a continuidade dos nossos passos. Boas leituras a todos!
Caro Williams, se porventura notar que a literatura como a conhece está assumindo outra forma, a culpa é minha. A razão que me levou a fazer certa escolha de valor ambíguo deve-se a um anseio natural de contemplar um universo ruir para outro nascer, como também a uma inclinação da alma para a desobediência – como sabe, não sou afeiçoado por ordens -, sobretudo, pela curiosidade, talvez de natureza infantil, em conhecer os mistérios que nos cercam. Creio que faça parte disso minha história com jogos de azar. Ainda lembro, quando com 17 anos, você deu-me um dado chinês do século XVIII e advertiu-me a respeito da sorte, o quanto ela possui duas faces – como Jano – e só vemos no momento em que é feito o lance. De lá para cá, meu espírito inclinou-se a crer que a sorte é a lei constituinte do mundo. A todo instante jogamos dados e alteramos a ordem dos eventos. Somos uma espécie de deus preso às próprias leis que criou. Mal da onipotência? Quem sabe. Por isto, reafirmo que a curiosidade aliada à paixão pelo acaso levou-me a imaginar as inúmeras possibilidades que cerceavam minha escolha tão funesta. Eu a fiz. Este é meu crime. Mas a fiz por desejar, – como já afirmei -, que este universo ruísse para outro de suas cinzas emergir.
Certamente não está a entender nada do que lhe digo, e com isso pergunta-se do quê exatamente conto. Antes de esclarecer suas dúvidas, quero agradecer por ter sido meu mentor, pai e herói. Não me esqueço do pequeno ladrão que fui um dia, e, ao encontrá-lo, no bibliófilo reconhecido em que você me tornou. E venho desculpar-me pela escolha que fiz, estou arrependido, talvez se eu não tivesse olhado, se eu não tivesse aberto a caixa, se não tivesse desobedecido à ordem do senhor Barrington, talvez… talvez tudo permanecesse o mesmo.
Foi na noite de terça-feira, 23 de abril, logo após ter saído do bistrô do Paço Imperial, mal ter entrado em casa, aberto o Cabernet Sauvignon, derramado em uma taça, umedecido os lábios, e deitado no sofá, o telefone tocou. Quando atendi, ouvi uma voz seca dizer: – Senhor Xavier? É o senhor Xavier?
– Sim. É ele quem fala.
– Boa noite. Perdoe-me o incômodo a essa hora tão tarde. Sou o Dr. Barrington, creio já ter escutado a meu respeito. Venho de uma família nobre, reconhecida por preservar artefatos históricos. Há dias estou em busca de um bibliófilo a quem conferir um objeto de inestimável valor, pertencente à minha família, até descobrir seu nome. Sua fama o precede, senhor Xavier, não somente por seus feitos, como por sua ética, por isso, quero muito seus serviços e será bem remunerado.
– Agradecido, senhor Barrington, por solicitar meus serviços. Estarei em sua casa na quinta-feira, pois amanhã preciso com urgência resolver uma questão de trabalho.
– Dr. Xavier, não tenho tempo para esperar. Meu chofer já se encontra em frente à sua casa. Por favor, venha logo.
Lembra-se da vez em que você deu-me um soco tão forte no rosto que caí? Foi assim que me senti quando Barrington desligou o telefone. E como um gato perseguindo o fio de lã puxado pelo dono, segui aquele misterioso convite.
O mordomo abriu a pesada porta de madeira maciça entalhada em flores; contei 12 passos até o salão principal. No centro, sentado à mesa de mogno retangular, o Sr. Barrington mantinha os olhos sobre a pequena caixa de ferro. Sentei-me ao seu lado, ele levantou os olhos voltando-se para mim, e disse com a voz trêmula: – Dr. Xavier, estava ansioso pela sua chegada. Agora, sinto-me aliviado ao vê-lo aqui à minha frente.
– É um prazer estar aqui, Sr. Barrington. Mas, até o momento, não entendi o motivo do convite. Estou ansioso a respeito do trabalho que irá me designar. Por favor, diga-me por que estou aqui.
– Direito e lacônico… Agirei do mesmo modo. – E sorriu. – Vê essa caixa? Ela é o tesouro de minha família. Há séculos protegemos seu conteúdo. E jamais algum de nós ousou abri-la. Esclareço: Nessa caixa está o texto original de O Fausto de Wolfgang Goethe. Sim, Xavier, a grande obra que influenciou a literatura moderna. Como sabe, Goethe escreveu duas partes da obra, a primeira publicada em 1808, e a outra em 1832. Ao menos é isso que sabem os especialistas. Na verdade, há uma terceira, intermediária entre as duas edições. Esta obra chamada por Goethe de Fausto – a tragédia humana ficou apenas como rascunho da segunda publicação. Nela encontravam-se resquícios da primeira edição e o projeto da segunda. Tratava-se, portanto, de uma obra intermediária. Diz a lenda que Goethe levou os rascunhos a um feiticeiro para lançar sobre as folhas um encantamento. Dali em diante, as duas publicações estariam entrelaçadas a esta, de forma que qualquer intervenção alteraria os traços das duas edições e, assim, a literatura alemã. Um efeito no tempo. Ciente do poder que continha os rascunhos, Goethe os guardou em uma caixa de ferro e ordenou que jamais fosse aberta. Dr. Xavier, o senhor já ouviu, sem dúvida, falar na mecânica quântica. Há duas teorias bastante interessantes propostas por essa mecânica. Uma delas é conhecida como entrelaçamento quântico. Imagine você dois objetos, digamos duas maçãs tão fortemente ligadas entre si que se torna impossível que uma seja descrita sem mencionar a outra. Ou seja, suponha que eu pegue uma dessas maçãs e gire para a esquerda, a outra irá girar subitamente para a direita. Eu poderia separá-las, colocando uma distante da outra por milhares de quilômetros, e ainda assim, ao girar uma para a esquerda, a outra se moverá na direção contrária. De um modo maravilhoso a informação viajou mais rápida que a luz rompendo com as leis da física.
– E se eu morder um lado da maçã? – perguntei para distrair.
Barrington riu escandaloso, depois olhou-me firme e disse: – Ora, Xavier, a outra maçã perderia sua parte. Agora não me pergunte se estaria no estômago ou não, pois ignoro a resposta. – E voltou a rir. Depois emendou: – A outra teoria é o famoso paradoxo de Schrodinger. Trata-se de uma incoerência, uma incerteza que só é abolida mediante a interferência de um observador humano. Dessa vez, imagine um gato dentro de uma caixa lacrada. Nessa caixa há um frasco contendo veneno ligado a um contador Geiger que acionará um martelo para quebrar o frasco, caso seja detectada a presença de radiação. Para Schrodinger há duas realidades: uma em que o frasco está quebrado e o gato morto; noutra, não. No entanto, segundo ele, estas realidades existem simultaneamente, isto é, o gato tanto está vivo como morto. Acontece que, quando a caixa é aberta por um observador humano, a dualidade é desfeita e o gato aparece vivo ou morto. Isso depende do observador, ele decidiu a vida ou a morte do pobre felino. Se não fosse ele, se não tivesse aberto a caixa, o gato permaneceria nos dois estados. É uma grande surpresa. Só saberemos se ganhamos ou perdemos depois de olharmos para dentro do abismo. Você entendeu, Dr. Xavie
– Sim, entendi completamente. O senhor explica de forma tão clara que faz um assunto complexo parecer um jogo infantil.
– Quem sabe não seja isso o que diz… ser a verdade. Quem sabe não seja tudo o que vemos um jogo na mão de deuses. – refletiu. – Mas, veja, estas duas teorias explicam a importância de não abrir a caixa. Para tornar ainda mais óbvio esse valor, acrescento a teoria da causa retrógrada. Ela afirma, em poucas palavras, que um observador ao medir o estado quântico de uma partícula no presente está alterando seu estado no passado. Nessa linha de pensamento, é possível que o efeito seja anterior à causa. Assim, duas partículas entrelaçadas podem desobedecer às leis da física. Se eu medir uma partícula no presente, estarei alterando a outra partícula a qual está entrelaçada e que existe no passado. A informação viajou no tempo. Isso é paradoxal, mas possível. Da mesma forma, as duas edições de Fausto estão entrelaçadas à terceira, a que se encontra nessa caixa. Este livro aí guardado existe tanto no passado quanto no presente, e, enquanto ele não for observado por ninguém, as duas edições se manterão inalteráveis. Contudo, se a caixa fosse aberta, a dualidade desapareceria e a informação do presente viajaria ao passado alterando as edições emaranhadas à terceira. Isto afetaria toda a história da literatura e o mundo como conhecemos se tornaria outro. Portanto, escuta-me. Jamais… jamais… jamais abra a caixa e olhe para o livro. Estou morrendo, faltam poucos dias para eu partir. Ao contrário dos meus antecessores, não tive filhos. Então me perguntei a quem passaria este legado, e aí descobri você. Espero que aceite o convite. Será bem recompensado.
– Eu aceito, senhor Barrington.
Levantamos e apertamos as mãos, assinei um contrato de confidencialidade e voltei para casa. Quatro dias depois, Barrington falecia em seu leito. No dia seguinte recebi a caixa e toda a fortuna da família Barrington. Para manter meu novo status quo e a boa qualidade de vida, era preciso apenas não descumprir o acordo.
Os dias seguintes, as semanas, os meses… foram os mais terríveis que vivi, Williams. O que você teria feito em meu lugar? Aceitado aquela caixa de Pandora? Ou teria rejeitado? Para mim foi como receber das mãos do Diabo um maldito presente. Não sei por qual motivo aceitei o trabalho, quem sabe, insanidade. Ao longo de oito meses não dormi, meus olhos permaneciam fixos no objeto misterioso. Perguntava-me sobre as possibilidades ocultas na abertura da caixa. E se… e se… e se… Estava seduzido pela ideia do fim da literatura e o surgimento de outra. Obsessivo, paranoico, doente, tornei-me pela ideia. Nada me salvaria.
No dia 22 de maio, recebi o convite para uma conversa de Carlos Pinheiro, famoso crítico literário, ex-colega de faculdade. Precisava sair, respirar. Nos encontramos no bistrô do Paço Imperial. O prato: bolo de chocolate amargo acompanhado de café sem açúcar. Em meio à conversa, Pinheiro, declara: – Xavier! Vou deixar a carreira de crítico literário e me dedicar à pintura.
– Por que essa decisão brusca?
– Bastante simples o motivo. Cansei-me de buscar a obra que fosse o espírito de nossa nação no presente século. Nada encontrei. Desde 1980 que não se vê um autor cuja obra carregue essa alma. Estou arrependido, aliás, vencido pelo tempo.
Eu sei que você, Williams, já sabe o final. Já deves ter concluído minha decisão. No fim daquela tarde, escolhi olhar o livro, graças ao infortúnio da conversa. Embora não concordasse com Pinheiro, partilhava de sua tristeza. Até então não tinha visto obra comparável a de Goethe, tão impactante a ponto de influenciar os séculos. Saí da conversa, emotivo, abalado; destruído pela falta de esperança, de uma obra que contivesse em suas páginas o drama humano. Durante nove horas fiz-me a pergunta: “E se Goethe não tivesse escrito Fausto, será que outra obra surgiria em seu lugar – quem sabe neste século – e salvaria a história?” Pergunta estúpida. De repente, uma palavra que significa incerteza e possibilidade, invadiu minha consciência. E se… E se Goethe tivesse sua obra alterada? Bêbado e abatido, levantei-me da cadeira, peguei a caixa, joguei-a sobre a mesa, apanhei a chave guardada no criado-mudo, e, diante dela por uns instantes, hesitei. Depois pensei: “Dane-se, vou abrir”. E assim que abri a caixa e olhei, vi os papéis que ali estavam subitamente desaparecerem. Neste preciso instante, compreendi que havia destruído a literatura.
Pois, se agora Williams sente o mundo em ruínas e algo novo surgindo, a culpa é minha. E, apesar de estar profundamente arrependido, não posso fazer nada.
X.
Anderson Fonseca nasceu em 1981, no Rio de Janeiro (RJ). Professor ensaísta, é também um dos editores da revista de contos Flaubert. Publicou “Notas de Pensamentos Incomuns” (contos, 2011) e “Sr. Bergier & Outras Histórias” (contos, 2016, Penalux). Organizou a antologia “Veredas – Panorama do conto contemporâneo brasileiro” (2013). É autor de “O que eu disse ao General” (contos, 2014), considerado pela revista Literatsi um dos melhores livros de 2014. Vive atualmente na cidade de Brejo Santo (CE), com sua esposa e filha.
Após nove anos de trajetória, percebemos que os caminhos culturais são definitivamente recompensadores. E o mais relevante disso tudo está representado nos encontros que aqui ocorreram. Nem de longe foram poucos e estão dispersos por todas as frentes da revista. Aos poucos, poetas, fotógrafos, contistas, artistas plásticos, músicos e outras tantas vozes foram nos ajudando a compreender melhor o significado de tocar adiante um projeto editorial. Agregar pessoas em torno de um objetivo comum é algo bem mais valioso do que um mero inventário numérico de feitos expostos. Não está na quantidade de palavras e imagens o impacto maior, mas sim na intensidade com a qual nossos sentidos são surpreendidos pelos arremates dos criadores. Durante toda a nossa jornada, as janelas poéticas têm sido importantes veículos de divulgação de autores das mais diferentes estéticas e estilos. No que se refere à prosa, há também uma imensa gama de contistas que, com suas visões de mundo, constroem múltiplos modos de se erguer histórias. Um dos cadernos mais valiosos do nosso trabalho é o de entrevistas, pois ali se insere um amplo espectro de escutas, fomentado pelo diálogo com criadores dos mais variados campos artísticos. E todas as conversas servem notadamente para compreendermos os elementos motivadores do trabalho de cada autor. No quesito resenhas, a adesão de colaboradores se multiplica vigorosamente nos campos do cinema, música, teatro e literatura. Num propósito de harmonizar textos e imagens, o papel de artistas plásticos e fotógrafos é fundamental para a completude de um projeto que pretende ser também visual. E, para que os caminhos continuem, outros encontros são necessários. Por agora, as veredas da poesia trazem versos de Susanna Busato, Ricardo Paião, Carla Diacov, Matheus José Mineiro, Camila Charry Noriega e Michelle Mendonça. Numa entrevista conduzida por Sérgio Tavares, a escritora Nara Vidal faz importantes considerações a cerca do ofício literário. O escritor Anderson Fonseca destaca importantes obras de Franz Kafka, Pascal Bruckner e Augusto Monterroso. Quando o assunto é construir narrativas, presenciamos as instigantes linhas de Rodrigo Melo, Priscila Lira e João Bosco. Dando seguimento às suas investidas cinéfilas, Larissa Mendes convida-nos a assistir o filme húngaro Deus Branco. No terreno da música, acolhemos o esmerado texto de Graccho Braz Peixoto sobre o mais novo disco do cantor e compositor Mário Montaut. Dialogando com as expressões de agora, a fotógrafa Ana Pérola Pacheco expõe imagens marcantes de seu trabalho com a luz. Assim, uma outra edição surge, plena em descobertas e gratidão. Eis a 102ª Leva!
Da empatia ao conto – uma leitura de três grandes obras
Por Anderson Fonseca
Foto: Ana Pérola
Existem escritores que são mais do que essenciais na construção do intelecto e da sensibilidade, são artistas plenos em sua vocação, cientes de sua natureza bizarra – inapropriada para o meio em que nasceram. Acidentes da natureza; o mais belo milagre. É preciso uma visão além da realidade, ser dominado por uma ótica que desvenda a verdade oculta sob o véu da aparência. Raros são os escritores que nos despertam este olhar, por isso são essenciais numa leitura. Logo após tê-los lido, nos vemos a nós mesmos diferentes e tudo o que nos cerca. Alguns nomes fazem parte do rol dos grandes contadores de histórias, os quais com sua incrível imaginação moldaram o imaginário de milhares espalhados pelo mundo. Entre tantos nomes, escolhi três, cujas obras impactam quem as lê. Livros divertidos, inteligentes, bem construídos e singulares na sua produção, pois refletem a alma de quem os criou. É claro que, para sentir como também entender a ideia que cerceia uma obra, é necessário estar dotado de uma natureza empática capaz de compreender com aproximação sutil o espírito do outro. É um ato de amor a leitura e exige renúncia.
Desses três escritores que nos ensinam a arte de contar histórias, um deles é o autor tcheco Franz Kafka. No tomo Parábolas e Fragmentos, Kafka reescreve parábolas judaico-cristãs e elabora contos que não chegam a serem concluídos, mas nem por isso, percebe-se na fragmentação da narrativa uma incompletude, ao contrário, o fragmento torna-se uma nova narrativa, cujo significado é aberto e circular, isto é, há uma infinidade de leituras e desleituras da mesma estória. Nesta pequena obra encontramos clássicos da literatura kafkiana como O silêncio das sereias e Diante da Lei, assim como Poseidon e Da Justiça, etc. São pedaços de textos, todavia, não transparecem essa fragmentação. O que se nota é o trabalho de construção narrativa de Franz Kafka, uma linguagem bem trabalhada, ocultando em cada elemento articulatório um novo significado a ser descoberto.
Franz Kafka / Foto : Reprodução
Outro autor que vale a leitura é o escritor francês Pascal Bruckner e seu livro Bichos-Papões Anônimos. O livro é uma reunião de duas fábulas sobre a natureza das emoções humanas. O primeiro conto Bichões-Papões Anônimos narra a história do bicho-papão Balthus Zaminski que após 25 anos de atividades em comer criancinhas, promete a seu criado Carciofi “que nunca mais comeria crianças”. Apesar de resistir, seu instinto lhe fala mais alto. Ele que vem de uma família de bichos-papões, é tratado, após a morte de seu pai, pelo criado como um viciado, um doente, que precisa de tratamento clínico para abandonar o vício natural de comer crianças. Com muita insistência e esforço de Carciofi, Balthus abandona sua condição, não antes sem sacrificar-se em nome daquelas criaturas pelas quais, desde jovem, tinha uma nobre feição. O ato é cometido como um grande espetáculo no circo. Balthus morre lançando-se num grande caldeirão e seu corpo é devorado depois pelas crianças que assistiram ao espetáculo e que desconheciam o círculo natural da vida, aquele que come um bicho-papão torna-se também um. O segundo conto, O apagador, narra a história de Falcone, um velho triste e ranzinza, que cria uma fórmula química capaz de apagar os seres e os objetos. Mas sua intenção é apagar o rosto das crianças felizes que ele diariamente avistava. Falcone consegue afastar de si aquela felicidade, mas não completamente, havia uma criança cujo sorriso o afetava profundamente e por mais que lutasse a imagem de seu sorriso persistia em sua memória. São dois contos belíssimos, escritos com mestria, possuídos de uma ironia refinada, um humor suave e uma linguagem simples que se aproxima da ingenuidade ou naturalidade de narrar. Você lê as histórias e se envolve tanto com elas que esquece tratar-se de uma narrativa escrita; a sensação é de estar ouvindo-as.
Pascal Bruckner / Foto: Simon Tanner
O terceiro autor é Augusto Monterroso e seu pequeno livro de contos O eclipse. Monterroso, dono de uma linguagem que reproduz a narrativa oral com enredos fabulosos, o escritor gualtemalteco nos oferece três histórias exemplares de sua mestria na arte da narração. A primeira é o conto-título da obra. Em O Eclipse lemos a história de frei Bartolomeu Arrazola, que após ser capturado por indígenas na selva da Guatemala, planeja surpreendê-los com seu conhecimento científico e relata para os índios que sua morte provocaria um eclipse solar. No entanto, quem é surpreendido é o próprio frei, pois os indígenas maias já tinham conhecimento do eclipse. Assim, o frei que acreditava sair vivo da situação, é sacrificado para agradar ao deus sol. Outra história é o microconto Dinossauro, cuja narrativa, embora breve, nos proporciona inúmeras interpretações do evento. O conto Um de cada três é sobre um homem que recebe uma carta com a proposta de confidenciar seus prazeres e dores à milhares de ouvintes através de uma rádio. Ao ler a carta pensamos conosco quantos gostariam que apenas um dentre muitos ouvisse sua história, vida, sentimentos e recebesse de seu ouvinte a compaixão.
Augusto Monterroso/ Foto: reprodução
Três autores que juntos formam o pensamento de um contista. A leitura de cada construção narrativa acaba criando um modelo ideal para a elaboração de outros contos. Por isso, vale a leitura. Mas de nada adiantará a leitura destas obras se não se permitir um sentimento empático pelo conto e seus personagens. Isso é mais do que necessário, é vital para o escritor que se deseja tornar.
Anderson Fonseca (Rio de Janeiro/Ceará) é autor do livro de contos “O que eu disse ao General” (ed. oitava Rima, 2014), considerado pela revista Eels um dos melhores de 2014, e da obra “Sr. Bergier & outras histórias” (ed. Rubra Cartoneira, 2013).
Uma centena é muito mais do que um mero marco numérico. Em se tratando de caminhos editoriais, significa um avançar teimoso ante as curvas do tempo. Há quem resuma esse conjunto de ações que agregam literatura e artes como sendo uma prova irrefutável de resistência. Tal atributo é positivo na medida em que a valorização do presente seja a tônica central das considerações. A revista Diversos Afins tem passado, tenciona um futuro, mas volta seus olhos especialmente para o agora, pois este representa a confirmação de apostas e expectativas múltiplas. É difícil mensurar com precisão como um projeto dessa monta pode vir a se consolidar. Quem vasculhar nossa história perceberá quão diferente estamos hoje para aquela primeira Leva de escritos e expressões. O ano era 2006 e tudo começava de modo bastante incipiente, quiçá até pueril. Mas o fato de maior relevância é saber que não havia um produto fechado em nossas mãos. Quando se fala em desengavetar expressões, não se pretende apenas idealizar colaborações, mostrá-las ao mundo, mas, sobretudo, aprender com elas. O caminho de publicações até aqui trilhado mostra um permanente desejo de seguir adiante por meio do experimentar de novos saberes e sabores. Não há verdades hegemônicas, apenas um processo de intercâmbio de manifestações através das quais se constrói uma valiosa rede de encontros. Cada autor traz em si sua própria epifania, maneira particular de vislumbrar o mundo. Com isso, opera-se um vasto painel de sensações e leituras, todas elas estabelecendo sinais espontâneos de convergência. É quase impossível definir o quanto todo o numeroso contingente de colaboradores impactou o perfil da revista. Diga-se de passagem, entendemos que pomos em prática um projeto em permanente construção. Portanto, nada está esgotado em si, pois é sempre tempo de olhar ao redor. Ao longo de todas as edições, presenciamos também outras tantas investidas editoriais que nos auxiliaram no entendimento do nosso papel enquanto suporte cultural. A via digital rompeu barreiras e aproximou-nos de pessoas dos mais diferentes lugares do mundo, todas elas com sua importância peculiar. Para nós, está claro que avançar é preciso. O atual momento de celebração contempla a poética presente nas fotografias de Gabriel Rastelli Quintão. Deparamo-nos com os arremates narrativos de Marcus Vinícius Rodrigues, Natália Borges Polesso e Sérgio Tavares, especialmente selecionados para a ocasião. No território da poesia, emanam os fluxos líricos de gente como Wesley Peres, Demetrios Galvão, Adriano Scandolara, Francisco S. Hill e José Carlos Sant Anna. Com o olhar sensível sobre o mundo e a vida, a poeta Neuzamaria Kerner concede-nos uma entrevista, na qual aborda principalmente as energias emanadas do seu mais recente livro. São de Larissa Mendes as percepções a cerca de “1977”, novo disco do cantor e compositor Wado. O escritor Marcos Pasche chama-nos atenção para obras de quatro autores contemporâneos: Maíra Ferreira, Juliano Carrupt do Nascimento, Leandro Jardim e Anderson Fonseca. O novo filme dos irmãos Dardenne é tema das anotações de Guilherme Preger. Fabrício Brandão ousa penetrar nas veredas do mais recente livro de Dênisson Padilha Filho. É tempo de centésima jornada, caros leitores! Celebrem conosco!
Para a memória coletiva, 2014 ficará marcado como o ano da Copa do Mundo do Brasil, com seus orçamentos faraônicos, com o ignorar do exoesqueleto de Miguel Nicolelis e com a goleada sofrida pela Seleção Canarinho, em jogo contra a Alemanha. Por sua vez, é provável que os engajados no debate político destaquem no ano a prisão de manifestantes que se posicionaram contra o que a Copa custou financeira e socialmente, sublinhando também o início da Operação Lava-Jato (sic), da Polícia Federal, que prendeu muita gente do alto escalão.
Sem me abster da coletividade, a mim pareceu que 2014 é um ano literariamente promissor. Reconheço que, nesses termos, promissor qualquer ano é, como arruinador de esperanças todos os anos podem ser. Portanto, a minha impressão alvissareira não esconde a obviedade pessoal: chegaram até mim livros que chamam a atenção pelo misto de juventude e maturidade de seus autores. São eles: a primeira morte, de Maíra Ferreira; Peomas, de Leandro Jardim (ambos de poesia); O que eu disse ao General (contos), de Anderson Fonseca; e Fagundes Varela, Poeta (ensaio), de Juliano Carrupt do Nascimento.
Sublinho a obviedade e o acaso para ir do relato pessoal à crítica do tempo: os livros de que tratarei aqui não figuraram nem mesmo nas notinhas de lançamento de grandes suplementos e jornais de literatura do Brasil. Seria injusto não reconhecer a pletora de lançamentos em contraste com a exiguidade de periódicos, mas não se pode ignorar que estes têm as suas lentes de grande alcance, o que se verifica todas as vezes em que um autor de alguma invisível periferia é anunciado.
Volto ao pessoal, sem dissociá-lo da crítica: eu sugeri aos jornais e suplementos que leio e com os quais colaboro resenhas sobre os livros em questão, mas houve recusa direta ou eloquente silêncio, e eu suponho que pelo menos de alguns desses periódicos seria diferente a resposta caso os livros fossem de editoras ricas ou se os autores tivessem guiado sua escrita por aquilo que pede a pauta contemporânea: a voz de uma minoria, a escrita em novos suportes de tecnologia, o cruzamento dos gêneros. A pauta é inegavelmente importante, dado que ela reclama atenção para o que, de modos diferentes, destoa de alguma hegemonia. Só que ela – a pauta – inegavelmente é transformada em moda, e assim àqueles em que não se verifica um determinado tipo de diferença não se dá a chancela de autênticos contemporâneos, ainda que sejam autênticos escritores. Mas aqui estamos num veículo não tomado pela tendência mercadológica, o que também é promissor, sobretudo num momento em que a promessa se cumpre pela centésima vez. A abordagem em conjunto inevitavelmente reduzirá a análise específica, mas tentarei fugir da mera informação.
Comecemos pela poesia, e comecemos por um começo. a primeira morte marca a estreia de Maíra Ferreira, e caso se junte o debute à idade da autora no momento da publicação (24 anos), causará espanto o fato de em nada o livro parecer o de uma estreante, dada a coesão da linguagem que permeia os poemas. Coesa também é a ambientação dos textos, via de regra num universo doído, repleto de desencontros, ainda mais cortantes porque a voz que os anuncia nunca cede ao derramamento emotivo, como se verifica no extraordinário “pequena princesa”: “se você diz que vem às nove, por/ exemplo, desde as sete estarei/ enrolando os cachos que não/ nasceram para ser cachos e preparando/ a comida com receitas que nunca/ aprendi e retirando os pelos/ de todos os lugares onde não se/ pode ter pelos e deixando à mostra/ a pele que precisa ser/ pelada a pele impelida/ pelo relógio marcando nove horas/ e alguns minutos que é quando/ descubro que na verdade você/ não vem e meus pelos agora/ entopem o ralo do banheiro/ desejando não terem sido/ expulsos da vida por tão/ pouco”.
O poema propicia um desdobramento: em a primeira morte a dicção geral é feminina, sendo alguns textos dotados de fortíssima sensualidade. E se a dor é dita com absoluta isenção de sentimentalismo, a pele pulsa de um modo surpreendentemente erótico e sutil, matéria de “náufragos”: “estou bebendo toda a sua água/ como quem mastiga o seu corpo/ como quem engole o seu rosto/ ou chupa/ a sua voz/ sem remorso bebo/ toda a sua água/ e entrego a minha inteira e intacta/ pra você/ beber”.
Peomas é o terceiro livro de poemas de Leandro Jardim, que também publicou um volume de contos, Rubores, de 2012. No presente trabalho, a escrita aparece mais encorpada, fundindo o que havia de melhor nos livros anteriores – especialmente o tom despojado e as tiradas criativas – a uma visão abrangente do tempo em que se encontra. Acerca disso, as investidas metapoéticas não tratam apenas da escrita e seus códigos, mas sim de uma forma de pertencimento e recusa aos dias que se colocam aos poetas, conforme se lê no emblemático “De época”: “Eu poderia tornar drama/ épico o meu passado,/ tão simples e prosaico,/ tão contemporâneo.// Eu poderia erguer pirâmides egípcias/ de complexos de Édipo, palavras/ à sombra do império paterno,/ dourar o meu caderno.// Mas meu cotidiano foi mais/ humano, e não menos/ poético por isso:/ ser mundano é mais propício”. Registre-se com maior ênfase o (antológico) poema que lembra as andanças reflexivas de Drummond e Gullar pela rua, na medida em que a expressão poética, a um só tempo, rumina sobre o fazer do poeta e sobre seu lugar no mundo. Confinado em seu carro, igualado aos que se atolam nos engarrafamentos ubíquos, o poeta, no exato momento em que revela o nascimento do poema, diagnostica seus limites na república pós-moderna – “Nada grave,/ só mais uma obra,/ só mais um veículo,/ só mais uma via.” –, sem, entretanto, deixar de flertar com a ambiguidade que instaura uma nova possibilidade, de sentido textual e de via existencial: “Não grave nada,/ só mais uma poema,/ só mais um poeta,/ só mais um dia”.
Como a poesia está em pauta, convém citar um de seus novos e vigorosos intérpretes brasileiros. Falo de Juliano Carrupt do Nascimento, erudito e engajado professor do Ensino Médio do Sul Fluminense, em Volta Redonda. Apesar do vínculo universitário como aluno de pós-graduação, Juliano é um estudioso autônomo, o que se verifica de modo cabal com este Fagundes Varela, Poeta, tanto pelo objeto de análise quanto pelo próprio fazer do livro, que não resulta de uma demanda acadêmica específica, como dissertação de Mestrado ou tese de Doutorado. Juliano Carrupt do Nascimento é antes de tudo um apaixonado leitor e militante do saber, e se isso já se verificava em sua publicação anterior – O negro e a mulher em Úrsula, de Maria Firmina dos Reis (2009) –, acerca da desconhecida romancista maranhense, agora se mostra de maneira mais pujante e abrangente, na medida em que o autor percorre com fôlego a bibliografia crítica dedicada a Varela, inserindo seu trabalho nesta como nova e admirável contribuição. Como Juliano também é um pensador do Ensino Médio, sua crítica literária não dissocia a sala de aula universitária da secundária, fato verificável em seus eloquentes questionamentos: “Qual a imagem da vida e da obra de Fagundes Varela que nos chegam via veículos institucionalizados de ensino e aprendizagem da poesia nacional, tais como livros didáticos, ensaios e pesquisas históricas de cunho teórico e crítico? Ou, qual a situação de seu público e local de fala, nos XIX?”.
Os meios oficiais de comunicação e as redes sociais diariamente nos trazem a notícia de um mundo obscuro, tão desenvolvido quanto apegado a todo tipo de barbárie. É desse mundo estranho, gerenciado por totalitaristas – sejam ditadores ou democratas –, que se abastece O que eu disse ao General, primoroso livro de narrativas curtas com as quais Anderson Fonseca evoca cenas e personagens da política internacional para escancarar a selva globalizada. A poderosa síntese entre construção literária e referência histórica confere à obra um singularíssimo lugar na literatura contemporânea, quer pela originalidade do argumento do livro, quer pelo teor crítico estampado pelas páginas. Como exemplo, cito o irônico “Santa Ceia”, dedicado ao ex-presidente do Paraguai, recentemente deposto do cargo. Trata-se de leitura para a cabeceira da presidenta do Brasil: “O presidente amava cães. Em sua casa ele criava dez. sempre passeava com os cães, à tarde, nos jardins da casa presidencial; e a cada um alimentava. Embora fossem de linhagens carnívoras, não representavam nenhuma ameaça. Houve um dia, entretanto, que (sic) o Presidente enraivecido não deu a eles comida. Os cães, em troca, o devoraram”.
Esses quatro livros dão boa mostra da qualidade do trabalho de jovens autores no País. Agora é torcer para que a outra parte se cumpra, e que eles encontrem os leitores que suas obras demonstram merecer. Esse gol é do Brasil.
Marcos Pasche é crítico literário e informa que a palavra “foco” tem sinônimos na Língua Portuguesa.
Cantar porque o mistério existe. Assim pode ser também representada a sina de um criador. Quanto mais simples as suas vestes, alijadas do fogo da vaidade inútil, mais próxima e quiçá autêntica será a sua epifania. O sentido de verdade também pode ser tomado como uma expressão honesta daquilo que se sente, algo que, materializado sob a forma de um texto, imagem ou som, ganha autonomia para fundar mundos no mundo. O autor cria personas e as atira aos quatro ventos, sugerindo-nos que também façamos o mesmo a partir do que engendra a nossa imprevisível percepção das coisas. É gozosa a possibilidade de sermos outros, rompendo amarras sedimentadas pela rotina. É fora de série a ideia de que a arte nos propõe um exercício contínuo de libertação. Nesse movimento, consumir a obra de um determinado autor é, possivelmente, amalgamar-se a ele. Essa espécie de pangeia humana, outrora ligada por sentimentos entrelaçados, passa a alimentar uma multiplicidade de expressões que harmonizam tanto o individual quanto o coletivo. Assim, os caminhos da liberdade não significam imposição nem tampouco a pronta concordância com o todo sugerido, mas a mais pura perspectiva de nos edificarmos enquanto sujeitos conscientes e condutores de nossas míopes trajetórias. Tudo isso para dizer que o mistério existe e que por ele somos atraídos pelas razões das mais imponderáveis. Mesmo tendo inclinações prévias a algum tipo de abordagem ou vertente criativa, a sensação é outra quando somos tomados de surpresa por alguma obra. Do mesmo modo, viver à cata disso desavisadamente por ser um bom indicativo. Sinal de que nos desarmamos um pouco para permitir que um outro alguém seja escutado. Como parte dessa despojada atitude, deixamos o canto sensível de poetas como Luciana Marinho, Guilherme Gontijo, Marilia Kubota, Stefanni Marion e Nuno Rau ecoar suas singularidades. No trajeto entre o visível e o invisível, as fotografias do argentino Tomás Casares instauram uma sublime acepção para a existência. Para falar um pouco sobre sua lida com as vias literárias, o escritor Anderson Fonseca responde a uma pequena sabatina de ideias. No Gramofone de Larissa Mendes, toca o mais novo disco da cantora e compositora Tiê. A leitura atenta de Sérgio Tavares nos convida a um deleite sobre o mais novo romance de Marcia Barbieri. Há difusas perspectivas de olhar o mundo nos contos de Marina Ruivo, Vássia Silveira e Caio Russo. O texto de Mayrant Gallo exalta a importância do escritor Patrick Modiano, recentemente agraciado como o Prêmio Nobel de Literatura. O mais novo filme do diretor Jim Jamursch é o centro das anotações de Guilherme Preger. Cá estamos, caro leitor, a sugerir um caminho que consolida sua etapa de número 96. Seja bem-vindo!
Um escritor e a força de sua obra. Nada melhor do que a conjunção desses dois componentes para conferir sentido a qualquer tentativa de desferir linhas a respeito de um criador. E não há dúvida de que o motor da leitura é a gênese de todo o processo criativo, bem sabemos. No caso de Anderson Fonseca, o que ousamos denominar por propriedade narrativa vem dotado dessa noção primeira de que um autor, em matéria de escrita, é parte integrante e viva daquilo que lê. Mas eis que isso não basta e, no caso específico de Anderson, um aspecto chama atenção em especial: o domínio sobre a condução das histórias.
Como todo percurso autoral impõe sabermos de suas epifanias, nada melhor do que abordarmos alguma essência que perfaz obras. Com o vigor de quem cria mundos paralelos, reforçando dimensões possíveis do humano, Anderson Fonseca estreia em livro com os arremates densos de “Notas de Pensamentos Incomuns”. Naquele instante, fica claro para quem lê que o território complexo e instigante do realismo fantástico irá marcar a trajetória do autor com pungência. Nesse primeiro momento, além de vislumbrar dimensões paralelas ao mundo tangível, Anderson mergulha de cabeça na vastidão de mistérios que nos atravessam. Mais tarde, a capacidade inventiva e o controle sobre as estratégias narrativas vêm somar esforços e, ainda com o encantamento proporcionado pelos ímpetos do fantástico, surge “Sr. Bergier & Outras Histórias”, livro cujo tom confessional e quiçá epistolar envolve o leitor e o conduz como testemunha dos acontecimentos minuciosamente relatados.
Hoje, o momento que marca essa entrevista feita com Anderson aponta para uma outra faceta importante do escritor, qual seja a de não passar impune sobre os imperativos de seu tempo. E ele o faz, impregnado de lucidez e sensibilidade, quando oferta ao mundo seu mais novo rebento, “O que eu disse ao General”. Os contos presentes ali encerram uma atmosfera de resistência e poesia, através da qual a voz do autor se insurge contra a tirania universal, que não se restringe àquela associada a determinados personagens da história do mundo, confinados a contextos geopolíticos, mas sobretudo aos pequenos grandes delitos do cotidiano que protagonizamos. Diante desse rico painel de constatações, esse carioca que hoje reside em Brejo Santo (Ceará), expõe um pouco de si numa conversa regada fundamentalmente aos sabores proporcionados pela Literatura.
Anderson Fonseca / Foto: Arquivo pessoal
DA – “O que eu disse ao General” é uma obra que, fazendo alusão a figuras e situações históricas, rompe barreiras e se situa num plano bastante amplo, capaz de dialogar com práticas cotidianas tão nossas. Diria que o livro pode ser também entendido como um levante contra a tirania sob as suas mais variadas formas?
ANDERSON FONSECA – Eu diria que sim. Mas a questão central em relação à tirania é a opressão do Estado sobre o indivíduo. O indivíduo, ao abrir mão de seu poder e doá-lo a outro, permite que este, seja quem ele for, oprima sua liberdade, seu desejo, seu erotismo. Quando o Estado decide e age em vista de reforçar essa liberdade (o erótico, a fruição do corpo movente no espaço), estabelece-se uma harmonia. Quando não, surge a opressão do poder e a morte. A realização do indivíduo está associada intimamente à Vida em sua plenitude Erótica. Os conflitos que assisto pela TV são uma negação do erótico, da afirmação da vida.
DA – A frágil liberdade que gozamos, sobretudo numa era de abundante informação, faz parte de um ciclo transitório ou dificilmente seremos livres para conjugar pensamento e ação?
ANDERSON FONSECA – Enquanto o homem tiver certeza, ele será escravo de qualquer ideologia, sofisma, dogma. É necessário, para que haja uma liberdade efetiva, de forma pragmática e não conceitual, que a dúvida se torne um exercício do pensamento. Para ser mais claro, o homem é escravo de suas certezas, porque estar certo de algo é mais confortável ao espírito. Entretanto, quando a incerteza emerge no pensamento, o homem com todas as suas forças, temendo a verdade, ergue contra este terrível “monstro” as mais fortes muralhas dogmáticas, as quais são reforçadas com novos dogmas. Não ter certeza, contudo, seria a plena liberdade, pois a incerteza em sua essência abarca qualquer afirmação autoconsistente, ela não rejeita e não invalida, apenas desconfia. Entretanto, para que a dúvida se torne pragmática, a mudança deve partir da educação presente nos sistemas de ensino, deve partir de sua principal base, o professor. O mestre, hoje presente nas escolas, ou defende sua fé religiosa, ou seu ateísmo, e ambos levam como fundamento de suas certezas os livros sagrados ou a ciência. O mestre, antes, deveria exercer a dúvida para que o aluno escolha seu caminho e, em sua jornada, respeite outros caminhos. Hoje, além da religião e ateísmo, em que seus defensores tomam como referência livros de autores cujas culturas e visões são reféns do tempo, surgem os fiéis da mídia. Vejo muitos crentes da internet e que a usam como meio de propagação do ódio, intolerância, preconceito contra a diferença. Eles não têm dúvida. Não tenho fé e nem por isso não tenho paz de espírito. Meu pensamento é uma porta aberta para outros pensamentos. Busco exercer a dúvida como uma forma de abertura para outras percepções. E, enquanto houver crentes a defenderem com armas seus dogmas, haverá guerras e massacres. Enfim,acho que a dúvida é chave para a tolerância e a liberdade.
DA – O cenário de tensões presente em “O que eu disse ao General” vem também revestido por um manto poético. Nessa perspectiva, o exercício da subjetividade entra em cena e conduz as narrativas num contraponto às situações extremas ali relatadas. O que dizer desse tão vigoroso recurso?
ANDERSON FONSECA –Escrevi essa obra mergulhado em um insondável silêncio, durante a noite,para ouvir apenas as palavras que sussurrariam em minha mente. A poesia, segundo Bachelard, “é um olhar silencioso que suprime o mundo para fazer calar seus ruídos”. A guerra é um ruído em nossa realidade, a melhor forma de entendê-lo é silenciando sua voz para que as imagens sobressaiam. Se o ruído fosse permitido a invadir as letras, as palavras não se fariam ouvir. Bachelard ainda escreve que a poesia “deixa vivo, sob as imagens, o silêncio atento”. O silêncio emergiu no instante em que, vendo as imagens da guerra, não poderia ser narrado como era diante dos olhos, mas de outro modo, como um símbolo do homem, de sua decadência moral, metafísica e política.
Eu poderia ter escolhido outra forma, mas essa forma não corresponderia à necessidade que a minha alma buscava.A linguagem escolhida é um reflexo dos conflitos internos que eu sofria naquele momento. Essa mesma linguagem não é somente um reflexo, mas a expressão máxima de meu espírito. Eu deveria dizer daquele modo, porque de outro, estaria me traindo.
DA – De algum modo, escrever é um ato de redenção?
ANDERSON FONSECA – Sinto certa repulsa com palavras cujo significado é teológico. A palavra redenção inevitavelmente me remete ao mito messiânico da religião judaico-cristã. Quando termos como esse são aplicados à Literatura, fico apreensivo. Não consigo ver a Literatura com uma ótica teológica e evito termos que carreguem esse sentido. Creio que o escrever não é a expressão do pensamento, mas seu construtor. Acho equivocada aquela frase do Descartes: “penso, logo existo”. Descartes não faria tal afirmação se não fosse pela linguagem, ou seja, a linguagem constitui o pensamento, o elabora. Em seu lugar, eu diria: “escrevo/falo, logo existo”. Portanto, no instante em que me debruço sobre o papel, pego a caneta (não tenho o costume de escrever primeiro no computador) e traço a primeira frase, estou aprimorando meu pensamento, estou o construindo.
DA – Em “Sr. Bergier & Outras Histórias” você transita pelo instigante e complexo território do realismo fantástico. Que desafios engendram essa sua vertente criativa?
ANDERSON FONSECA –Creio que o realismo fantástico não seja tão fácil para trabalhar, porque é preciso distorcer a realidade para revelar sua natureza oculta. Penso em Murilo Rubião, que obsessivamente revisava seus contos até a exaustão, penso em Ivan Bunin, outro obsessivo pela revisão de suas obras, e Buzzati, mais um obsessivo. Nunca me sinto satisfeito com o texto, e confesso que me sinto mais feliz enquanto estou escrevendo, mas, depois que o conto é publicado, fico melancólico e frustrado, pois passo a pensar que poderia estar melhor, e aí começo a revisar. O maior desafio é encontrar o argumento adequado para a ideia, e nem sempre é fácil. Depois se inicia a luta com a palavra até o ajuste final. É claro, tudo feito com bastante humor. Lembro que Flaubert escreveu: “eis o que a prosa tem de diabólico, ela nunca está terminada”. Flaubert foi outro autor obsessivo na tentativa de conciliar o significado que a palavra carrega a uma forma proporcionada pela literatura. Acho que é a luta de todo autor.
DA – Essa, digamos assim, angústia criativa é capaz de impactar radicalmente as suas convicções de autor?
ANDERSON FONSECA –Sobre esta questão colocada, eu diria que se trata da história de uma ideia. A ideia que tenho para um conto não surge do nada, mas contém em si uma história, ou seja, uma relação com outras ideias apanhadas de diversas leituras, essa história que a ideia carrega consigo, que a estrutura, eu não posso negar, mas admiti-la. O que acontece comigo é que esta ideia será reformulada, assumirá um novo sentido em outro contexto (forma). Nesse sentido, eu reinvento a cadeia de ideias que construíram esta última, quando atribuo a ela um novo formato, o qual é a narrativa em que ela se reflete. A dúvida, portanto, de se estou sendo original ou não, não me preocupa. Acho importante o diálogo de uma obra com outra, até porque a própria história em si é uma sucessão de ideias.
Quando se escolhe ser escritor, trazemos conosco a glória e a miséria. Depois de sermos escritores, apenas o texto carrega nossa glória e felicidade, tudo demais se torna miserável. Tornamo-nos miseráveis financeiramente, no amor, na amizade, na vida e na saúde. A certeza que temos é que a obra viverá. Eis a condição que assumimos: sacrificamos as demais coisas (efêmeras)pela perenidade da palavra, e então nos tornamos miseráveis. É como um deus que assume a forma humana, despindo-se de sua glória para sofrer as vicissitudes do tempo. Ele se torna miserável para que sua palavra dure pelos séculos vindouros. Não há glória em ser escritor, a glória pertence ao texto.Por isso, a humildade diante do Mundo e do Verbo, o qual veneramos.
Anderson Fonseca / Foto: Arquivo pessoal
DA – Partindo da ideia de que tudo sempre esteve no mundo, o que confere mais propriedade à obra de um autor?
ANDERSON FONSECA –Se tudo sempre esteve no mundo, se tudo é eterno, se a existência é simultânea ao espaço e ao tempo, o que resta ao autor?As imagens, porque elas surgiram quando o homem surgiu, pois são o fruto de uma relação sujeito/matéria. Lembro-me de uma parábola do profeta/poeta Jeremias. Um dia, Jeremias desceu as escadas da casa e viu o jarro de um vaso quebrado. O oleiro pegou o vaso quebrado, trabalhou o barro, e reconstruiu o vaso. O vaso já estava ali (a forma), assim como o barro (a matéria); foi necessária, contudo, a visão (ideia) de um artista para (re)modelar o barro e dar-lhe a forma imaginada. A matéria preexiste, mas o artista a destrói (destrói seu signo), refaz (atribui-lhe outro significado) e doa-lhe a forma que lhe “parece bem aos olhos” (Jeremias 18:4).
Se tudo já existe, se a matéria sempre existiu, a propriedade do autor encontra-se no modo como ele trabalha as imagens, como ele atribui a elas um conteúdo, uma relação de sentido. Este molde é um reflexo do sujeito criador, do indivíduo.
DA – O modo como você articula as imagens é fundamental na percepção de um livro como “Sr. Bergier &Outras Histórias”, algo que promove aproximações com a linguagem cinematográfica. A sétima arte é um universo de referências que lhe atrai conscientemente?
ANDERSON FONSECA –Não, sou atraído mais pelas histórias em quadrinhos como as da editora Vertigo e DC Comics. O que me atrai nelas é a ciência vista como uma fantasia humana. Além disso, o enquadramento e a sequência de ação e diálogo me chamam bastante a atenção. Nos últimos meses, por exemplo, tenho lido Planetary e O Inescrito, duas revistas esplêndidas.
DA – O quanto a sua feição de educador reflete no seu olhar sobre a literatura? Você busca pontos de convergência?
ANDERSON FONSECA –Ser um educador é um imenso desafio.Diariamente, nos confrontamos com realidades mais absurdas que a ficção, realidades que nos põem a indagar sobre a estupidez humana, como também sobre sua graça e beleza. Estou em confronto com a realidade a todo instante. Minha literatura é uma forma de devolver o soco que recebo. Quando estou em sala de aula, além de ensinar a língua e sua poética, busco apresentar o campo de batalha que é a vida. Saio com a vontade de socar o mundo, e aí a palavra carrega em sua força o soco devolvido. Meus alunos sentem a mesma vontade, mas é através da escrita que eles, como boxeadores, nocauteiam o mundo que os aflige.
DA – Somos um país de potenciais leitores subestimados?
ANDERSON FONSECA –Somos um país de leitores e autores subestimados. Vivemos ainda a velha frase de Lautréamont: só os poetas leem poetas. Só escritores brasileiros leem escritores brasileiros, ou só os escritores brasileiros se leem. Esta frase necessita sofrer drásticas mudanças, porque ainda hoje, embora se veja uma grande produção de livros de autores nacionais, não existe projeto de distribuição desses livros para atingir os leitores brasileiros, de forma a disputar de igual para igual com autores estrangeiros. Percebo a juventude brasileira cultuar estes autores estrangeiros, e menosprezar alguns autores nacionais (nem todos, há quem escape). Isso precisa mudar.
DA – Na sua opinião, de que forma podemos alterar esse cenário?
ANDERSON FONSECA –Não sei como alterar esse cenário, sinceramente. Trata-se de algo enraizado em nossa cultura. Talvez devêssemos começar pela educação, atualizando os professores a respeito dos autores brasileiros da geração 00 até os mais recentes. O professor é o canal certo para atingir leitores jovens e famintos de obras boas, mas se eles não estiverem atualizados e propensos a conhecer o cenário atual, os alunos muito menos estarão.
DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?
ANDERSON FONSECA –A questão “pós-modernidade” é ambígua.Quando a ouço, sinto-me lançado contra a frase de Rimbaud: “é preciso ser absolutamente moderno”. Ter uma posição a respeito da pós-modernidade deixa-me estranho, pois não sei claramente o que é. Mas quando se fala em mercantilização da arte, penso isso ser necessário, porque a arte é uma forma de mercadoria. Nessa ótica, o livro é um produto que deve ser vendido. Entretanto, o artista não pode se despersonalizar e se tornar ele uma mercadoria, isso leva a uma descaracterização de si mesmo, de sua obra e arte. Não endosso, portanto, que escritores que hoje assumem uma postura diante de sua obra e arte, amanhã, depois da fama, mudem essa postura. A crítica deve desvincular-se um pouco do jornalismo que, em geral, direciona o discurso a favor de certas obras de duvidoso mérito. O artista deve abandonar a República, porque ela não o quer dentro de seus muros.
DA – “Notas de Pensamentos Incomuns” marca sua estreia em livro. Depois disso, vieram os outros dois que mencionamos anteriormente por aqui. Diante desses percursos, quem é hoje Anderson Fonseca e quais marcas traz consigo?
ANDERSON FONSECA –Sou um homem mais paciente graças à palavra. E graças à literatura conservo alguns sonhos, mas percebi, ao olhar para o mundo, que todo bem só existe em sua relação com o mal e, diante disso, não há utopia, tenho que aceitar a realidade como ela é.Valorizo, hoje, a simplicidade, a beleza e a elegância das palavras e das coisas. O universo é deslumbrante e fico pasmo ao olhá-lo. Desde o momento em que passei a olhar o universo com os olhos do poeta, deixei o medo para trás e comecei a ter esperança.