O eternal movimento das águas nos conclama a desabitar as zonas de conforto. A impermanência, sugestão maior desse fluxo, é uma das crias mais valiosas do tempo, um avanço sorrateiro pelas trincheiras da toda poderosa senhora incerteza. De modo imponente, essa majestosa companheira parece muito mais afugentar corações e mentes do que qualquer outra coisa. Teimosamente, escritores e artistas cumprem o ritual das indagações, trazendo à baila dimensões possíveis para a ciranda da vida. Expressar-se, por si só, já pode se prestar a um indício de rompimento com o conformismo. E isso apenas não basta. Indo além, é preciso atirar verbos ao vento, submeter as imagens ao crivo dos olhares, extrair da abstração das horas o sumo das linguagens. Quando tentamos erguer uma edição da revista, é sempre desafiador refletir sobre os caminhos que nos impulsionam. Perceber, por exemplo, a grande metáfora que nos motiva a transcorrer sobre o ciclo das águas, agora, é um deixar-se guiar pelo convite de uma artista como Rosa De Luca, que, com suas fotografias, provoca em nós uma apreensão dos deslocamentos os quais a existência não se cansa de nos apresentar. É essa liquidez de sentimentos dispersos que também nos leva a abraçar a verve poética de pessoas como Rita Santana, Tristan Guimet, Tatiana Druck, Wender Montenegro, Floriano Martins e Vítor Nascimento Sá. Seguindo a corrente dos signos, entrevistamos o escritor e jornalista Sérgio Tavares, que dividiu conosco um pouco da sua trajetória literária, sobretudo no que se refere ao seu novo livro, ”Queda da própria altura”, obra que se presta a um digno mergulho de cunho intimista. No ato de construir histórias, Lisa Alves, Anderson Fonseca e Vera Helena Rossi demarcam, através de seus contos, universos peculiares para os desatinos humanos. A memória do poeta cearense Francisco Carvalho é celebrada no texto de Clarissa Macedo. O instigante “Dentro da Casa”, filme do diretor francês François Ozon, ganha espaço na resenha de Larissa Mendes. Das paragens mineiras para o nosso caderno musical, vem o belo trabalho de Luiza Brina e O Liquidificador. Numa alusão ao curso interminável das águas, deixamos fluir uma nova Leva, com toda a vontade de que os caminhos materializem cada vez mais o ideal de continuidade.
Antes de se estabelecer o equilíbrio, o mundo real e o mundo ideal não se olhavam face a face.
O Zohar
Débil, estúpido, soberbo, demoníaco, louco, estranho, doente, sem respeito ao sagrado e às leis; palavras sinônimas ou de similitude clara que definem com a precisão de um cirurgião meu caracter. Ó, como não adorá-las e admirar-se diante delas sentindo-se um deus, um deus cuja índole o eleva acima dos mortais? Bem que eu deveria enaltecer-me ante a tal nomeação adquirida por atos reprováveis – louváveis? Não sei –, no entanto, sinto-me um símio no meio de homens, tentando em vão, como eles, manter-se em pé. E ainda que busque desviar-me do meu caracter, a natureza impele-me a segui-lo. Sou então, por isso, um mau caracter; inevitavelmente um mau caracter. Parafraseando o apóstolo, vejo que vive nos meus membros outra lei. Não me arrependo de sê-lo assim, mas admitindo a corrupção de meu espírito, decidi criar um ser melhor que eu, alguém cujas ações pudessem evitar as minhas. Comparei-o ao melhor dos seres possíveis imaginados por Deus, e o fiz.
No começo… Antes do começo, assim que o imaginei, pensei no que ele faria de bom para mim, ainda que eu não saiba conceituar o bom. Determinei o seu propósito e as condições de existência que permitiriam sua durabilidade como ficção. Pensei tal como um sábio a liberdade desta ficção e os limites a ela impostos por sua natureza irreal, e o que nela haveria de maravilhoso e de verossimilhante, e o que possibilitaria a ela romper com as duas como também o que por meio de ambas poderia desenvolver. Pensei, portanto, nela como indivíduo. Procurei sua alma nos símbolos, na geometria dos símbolos, nas palavras, nas frases, no texto. Procurei o seu vazio. E a cada imagem criada ela surgia mais radiante e perfeita. A mim ela pareceu boa. Certamente a ficção era melhor que o real. Era lógico acreditar que ela permitiria a mim, evoluir – noutras palavras, escapar a minha vil condição. Considerei, contudo, se os limites da folha seriam para ela um impedimento físico para se desenvolver livremente ou se como um carrapato habituado à superfície, não saberia encontrar tais limites, julgando, logo, ser aquele espaço o seu mundo, e se, caso descobrisse, como reagiria. Mas isto era um equívoco de minha parte, jamais uma existência ficcional poderia romper os limites da folha e se tornar real, assim como jamais o real poderia converter-se à ficção. Ao menos… Após muito pensar, criei a ficção de mim mesmo. Criei-a no momento em que escrevi seu nome em um lugar qualquer num tempo qualquer.
A ficção não era perfeita, todavia, por ela tudo podia ser melhor; antes de tomar qualquer decisão, fazia-a com que agisse antes de mim; escrevia a cena, o momento da ação, o que eu faria caso se… de um modo que na realidade não agiria, de forma tal que, eu poderia ponderar meus caminhos e evitá-los. Acreditei com muita fé que sua existência me curaria. Mas a ficção não tem por finalidade curar o real, não pertence a ela como a um escultor modelar a realidade; sua função é outra, contaminar. Mesmo assim, depositar a fé nela não ia de encontro ao que eu mesmo lhe havia estabelecido.
Passei a mergulhar em seu símbolo, convenci-me de sua beleza, e cri no seu milagre. Antes de ir ao trabalho, antes de amar minha esposa, antes de pensar, antes de respirar, antes que o dia começasse, antes que o outro dia começasse, antes, antes, antes, antes mesmo de, a ficção era e por ela tudo mais era e sem ela nada havia de ser. E com ela meus dias se tornaram melhores. Por meio da ficção eu percebi ser possível evitar o mal. Meu casamento, que antes estava uma porcaria, alcançou o status de sublime, tudo porque a ficção havia me dito como seria se. Ora, era verdadeiro que eu havia me convertido à ficção, contudo ela jamais se converteria a mim. Então, ainda que sua existência me permitisse ser outro de mim mesmo, era impossível ela se tornar eu. Havia um limite intransponível. No entanto, ao olhar para minha vida, semanas após tê-la criado, era inevitável não pensar o quanto em tudo estava a sua essência. Quisera sê-la, mas tornar-me ela, como já disse, era impossível. Eu procurei convencer a ficção de se tornar real, eu busquei de todo modo arrancá-la daquelas folhas e outorgar-lhe a dádiva de estar em meu lugar; eu lhe fiz uma proposta irrecusável, a qual qualquer outra ficção aceitaria sem titubear, mas ela rejeitou.
A ficção rejeitou seu autor – e, ainda que esta rejeição fosse a prova de sua liberdade, continuei a acreditar que ela existia sob o meu querer; enganei-me; a verdade era que sua liberdade demonstrava incontestavelmente o quanto ela existia sem mim. A ficção não dependia mais do seu autor. Depois disso, não houve dia melhor. Todas as escolhas se tornaram acidentais; a vida reduziu-se a um acidente, quando antes se podia chamá-la milagre. Era como estar diante do quadro, Reprodução proibida, de Magritte, por mais que olhe você não vê o rosto. Voltei a fumar cigarro, ouvir blackmetal e tomar banho com o corpo mergulhado em bolsas de gelo seco. Minha esposa mudou-se para a casa dos pais. Tive um companheiro matinal que chegava às 6hs: o jornal – mas, depois de conversarmos, eu era forçado a rasgá-lo e queimar tudo o que ele havia dito na lareira. Quando à noite eu necessitava de uma companhia, pousava no pinheiro da rua ao lado, uma coruja branca e cantava-me uma nênia, ao som dela eu adormecia. Quem, no entanto, suportaria esta vida miserável? Quem, no mundo, admitiria a realidade sem manifestar asco? Eu tinha fome… fome da ficção. Pensei no rosto que não via… tornou-se necessário forçá-la a mostrar a face.
Não precisei de tempo para pensar em como, a resposta, sabia-a desde o princípio. Coloquei uma página em branco em frente à página onde está o último parágrafo, e aconteceu o que imaginei: a ficção olhou-se a si mesma no vazio da outra página. E eu, de fora, vi seu rosto. Ela percebeu que a havia descoberto e procurou se esconder, mas era tarde, meu olhar a detivera.
Novamente a ficção me pertencia… me pertence, entretanto, até o momento em que cansado rasgue suas páginas ou até a hora em que ela declare minha morte.
(Anderson Fonseca formou-se em Letras e Literaturas de Língua Portuguesa pela Universidade Estácio de Sá (RJ). É escritor e crítico literário. Publicou os livros Alucinação (poesia, 2009) e Notas de Pensamentos Incomuns (contos, 2011), organiza a antologia Veredas: Caminhos do Conto Contemporâneo Brasileiro (Ed. Oito e Meio, 2013). Editou a revista Confraria (Brasil / Portugal, edição impressa, 2009, Ed. Confraria do Vento); editor do selo Orpheu (2010-2012), selo de poesias editado em parceria com a editora Multifoco (RJ). Tem textos publicados em diversas revistas. Trabalha como leitor crítico e revisor de editoras e agências literárias)
Criar é estar diante de um espelho e mirar detidamente nossos próprios mistérios. Mesmo o plano da imaginação, gênese de um tudo, por vezes se defronta com aquilo que podemos chamar de angústia da criação. A sensação é a de se estar diante de um marco divisor de tempos: um da inquietação pelo algo a dizer; o outro, da efetiva e consistente materialização do objeto pretendido. O desafio inicial do autor parece ser o de atravessar precipícios sem se deixar intimidar pelas profundezas contornadas. Em boa medida, a obstinação serve de virtude ao criador, sobretudo porque instaura um salutar estado de alerta em torno dos rumos a serem percorridos. E foi pensando em questões como esta que travamos uma conversa com o escritor W. J. Solha, cujo novo rebento literário, intitulado “Marco do Mundo”, pontua precisamente as legiões de desafios que se agigantam diante da missão de um autor. Entrecortando as expressões de agora, está o traço sensível dos desenhos de Felipe Stefani, alvo preciso das reflexões de Hilton Valeriano. Em matéria de poesia, somos conduzidos pelos densos signos de Edson Bueno de Camargo, Elizabeth Hazin, Ronaldo Cagiano, Mar Becker e Wender Montenegro. No quadro Jogo de Cena, o ator Rafael Morais mergulha com propriedade no fascinante universo dos palhaços. O escritor Geraldo Lima nos convida à leitura do novo livro de minicontos de Anderson Fonseca. As linhas de Marcus Vinícius Rodrigues, Homero Gomes e Priscila Miraz tecem as tramas contistas dos Dedos de Prosa. O cinema argentino é, novamente, tema da devoção cinéfila de Larissa Mendes. No Gramofone, reproduzimos em alto e bom som alguns percursos sobre o primeiro disco solo de Gui Amabis. Através das trilhas da 67ª Leva, uma nova lavra de publicações se anuncia. Evoé, caro leitor!
O que se pode esperar de uma obra literária é que ela provoque, no mínimo, o estranhamento no leitor, arrancando-o do automatismo da vida ordinária. O leitor que se aventurar na leitura de ‘Notas de Pensamentos Incomuns’, de Anderson Fonseca (Editora Multifoco, 2011), será, com certeza, tocado por esse estranhamento. O livro é composto de minicontos, sem título, e quase sempre narrados em primeira pessoa, ou fragmentos que se articulam como se fizessem parte de uma única história, mas que, ao mesmo tempo, mantêm uma independência em relação ao todo. E esse já é um dado do estranhamento que o livro provoca, pois, ao final, sabemos tratar-se de uma obra cuja tessitura só se completa com a junção de todos esses fragmentos aparentemente autônomos.
E o estranhamento se aprofunda com a presença dos seres minúsculos, bizarros, fantásticos, que povoam o universo ficcional criado por Anderson Fonseca. Tamagotchi, Delírios, Gloeb, Jhungols, Flopers, Dabie-Dabie e Móbile são alguns dos estranhos personagens com os quais o leitor irá se deparar durante a leitura de ‘Notas de pensamentos incomuns’.
Alguns desses seres minúsculos habitam a cabeça (e às vezes dela brotam) ou outras partes do corpo de um quase sempre atormentado narrador-personagem. É o caso de Apple, um “bichano muito interessante, redondo, peludo, amarelo e saboroso” que um dia escapa da cabeça do narrador-personagem: “E para que eu não me esqueça do propósito inevitável da vida, evoluir, Apple agarra-se a certas partes do meu corpo iconoclastas da evolução humana: uma hora está numa das pernas, outra na nuca para que me lembre da coluna vertebral, e noutra sobre a cabeça” (pág. 51). Às vezes esse processo de coabitação é mais radical, e o ser intruso penetra o corpo do narrador-personagem ou interfere na sua capacidade de articular o pensamento. Imagine uma mosca que pousa certo dia na mão do sujeito e, depois de algum tempo, já se encontra morando embaixo da sua pele. Ou seja, ele se torna o seu hospedeiro. Noutro miniconto, uma bactéria começa a interferir nos pensamentos do narrador-personagem. Diz ele: “Faz um tempo que meus pensamentos estão sob a regência de uma bactéria” (pág.85). E para que o leitor não ache que isso seja inverossímil, improvável, o narrador-personagem cita como argumento de apoio a matéria publicada na Scientific American confirmando a existência de uma bactéria capaz de “alterar o estado cognitivo do ser humano”. Mas nem precisava usar esse argumento, pois, desde o início, o leitor terá notado que a narrativa de Anderson Fonseca, nesse ‘Notas de pensamentos incomuns’, dá-se fora dos limites do realismo. O que se vê aí é a mais viva manifestação do fantástico e do absurdo.
E é nesse sentido, dessa forte presença do fantástico e do absurdo, que podemos falar das influências que permeiam essa obra de Anderson Fonseca. É visível o diálogo dessas suas narrativas curtas com a obra de Jorge Luís Borges (estão lá os espelhos que simulam outras realidades ou imagens, os corredores formando labirintos, o espírito de fábula), a de Julio Cortázar (o seres minúsculos e fabulosos lembrando cronópios, famas e esperanças), a de Kafka (a metamorfose, a sujeição do personagem a uma realidade que escapa à sua vontade) e, também, o universo mágico da obra de Escher. Esse, aliás, é citado literalmente numa das narrativas: “É embaraçoso viver numa casa desenhada por Escher, e muito mais embaraçoso saber que ela existe numa folha de papel…” (pág. 73). De tudo isso surge um texto de feições próprias, mas que mantém suas raízes fincadas na tradição que subverte o real.
Mais que qualquer outro mecanismo de forjar realidades, é a imaginação que prevalece nesses textos ficcionais de Anderson Fonseca. É da imaginação do narrador-personagem, do seu pensamento incomum, atormentado, que brotam todas essas notas e todos esses seres e universos perturbadores. E, aqui, o leitor irá se deparar com outro elemento que destoa do normal: o narrador-personagem e o autor fundem-se, aparentemente, numa só pessoa. O autor Anderson Fonseca, à maneira de Borges, se coloca na narrativa. (E os limites entre realidade e fantasia quase que se dissolvem.) Todo esse universo de perturbações e estranhamentos situa-se na sua mente. E diante da sugestão do médico para extirpá-lo (a cura mataria a capacidade criativa do autor), ele escolhe permanecer coabitando com os seres que, muitas das vezes, sugam a sua energia e a sua paz de espírito: “Vendo hoje o meu estado, tenho vontade de esmurrá-lo, lançá-lo para longe dos meus olhos; (…) me apeguei de tal modo a essa pequena criatura inocente, que sacrificá-la seria o mesmo que me destruir”, diz ele sobre Gloeb (pág. 18). Criador e criatura estão, nesse caso, unidos de maneira indissociável. Criar é, de certa maneira, deixar-se habitar pela existência do ser criado. E o leitor que se aventurou por esses estranhos mundos criados por Anderson Fonseca não escapará ileso: os minúsculos seres que pululam na mente do autor, ou do narrador-personagem, passam a habitar também agora a sua imaginação.
(Geraldo Limanasceu em Planaltina, GO, em 1959. Mora, atualmente, em Sobradinho, DF. É professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, escritor e dramaturgo. Já publicou seis livros, entre eles: A noite dos vagalumes (contos, Prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária, FCDF),UM (romance, LGE Editora/FAC) e Tesselário (minicontos, Selo 3×4, Editora Multifoco). É colunista dos sites:O BULE,Dona Zica tá brabaePortal Entretextos: Colabora com o Jornal Opção,em Goiânia, o Jornal de Sobradinho e aRevista TriploV. Contato: gera.lima@brturbo.com.br)