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142ª Leva - 02/2021 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra I

UMA QUASE RESENHA

 Por André Rosa

 

 

A beleza da existência humana se apresenta nas páginas do livro intitulado Barroquinha (Ed. Via Litterarum), do escritor Carlos Vilarinho, testemunha contemporânea de uma Salvador visceral. Suas histórias revelam a complexidade humana em uma sociedade cada vez mais apegada a projetos individualistas pretensamente vitoriosos. Na emergência de um cotidiano excludente, em meio a dias cada vez mais acelerados, revelam-se histórias de pessoas comuns que se operam em rede, entrelaçadas pela imaginação de um literato.

Sou lento, portanto insurjo-me. Ao ler Barroquinha, vou-me sem pressa: quero da vendedora, à porta da loja, notícias das novidades chinesas. Também sorver uma xícara demorada de média pingada. Saber do cobrador os horários mais tardios da linha de São Cristóvão. Talvez contar calmamente, ao apontador do bicho, um sonho esquisito com livros e traças em um sebo recentemente fechado. Continuo, assim, lentamente pelas calçadas do livro. Com passos e olhos atentos, passeio entre as páginas e a imaginação.

Como relata Elieser César, na sua apresentação, esse livro espelha uma outra cidade, fora dos clichês turísticos, tal como tantas outras locações de vidas soteropolitanas. Uma Barroquinha composta de trabalhadores, donas de casa, excluídos. Um povo de tantas religiosidades, com seus trajes coloridos e aparatos diversos. Lojas repletas de gente e bugigangas essenciais nos fazem arrefecer o passo nos parágrafos. Gritos de compra e venda, corpos astutos embaixo dos toldos de lona gramatical, nos dirigem imantados ao norte da poesia urbana dos seus meios-fios.

Vilarinho tem como cenário uma área geográfica e cultural bem específica, uma parte do todo-caleidoscópio Cidade do Salvador: a Barroquinha, artéria-abrigo incessante de uma população flutuante, que a habita entre o nascer e o pôr do sol. Findo o dia, uma outra Barroquinha se apresenta: face noturna de um mesmo universo cênico, cujo artefato de cimento e asfalto permuta os sons de músicas, motores e vozes pelo silêncio estranho de outras personagens.

Retrato ficcional e representação simbólica de uma Salvador em meio a tantas outras, o livro de Carlos Vilarinho inebria. Cada página, um cálice. Cada personagem, uma dispersão em mim mesmo. Inebriei-me de vida, pujante vida: soteropolitana e contemporânea. Como agora retornar à Barroquinha, sem olhar de soslaio para os transeuntes, admirá-los em sua simplicidade e festividade urbana. Também suas dores, percalços e sonhos. Especular, inconscientemente, em qual deles se encaixaria tal personagem. Onde morariam, o que desejariam? Seus amores, seus gostos. Torceriam, almas tricolores, pelo Baêa ou, rubro-negros corações, pelo Vitorinha da Barra? Ainda existiriam reminiscências ipiranguenses entre legítimos barroquenses, ou seriam barroquinos? Aceitariam um trago no botequim mais próximo, em prosa ligeira? Nela tudo caberia: seus medos, se de noite choveria, o preço da carne, a festa de Santa Bárbara. Como ir agora à Barroquinha e não pensar nos semblantes literários ao sabor do sol refletido nas suas calçadas atemporais?

Como cidadão afeito ao passado, ao ler Vilarinho penso em abandonar nostalgias. Abrandar o vínculo afetivo a uma Salvador da pesada arquitetura colonial, para apreciar a deliciosa beleza de um DVD pirata, a capa plástica de um guarda-chuva made in Taiwan, os tabuleiros dos ambulantes que mercadejam com seu suor o dia a dia. O casal de namorados com seus trajes escolares. Os garis imprescindíveis, suas vassouras a varrer para os meus olhos os cristais das gentes.

Sou daqueles que penso em Salvador enquanto um polígono imaginário que, partindo da Praça da Sé, desce ao cais e retorna ao Pelourinho via Baixa dos Sapateiros. Estendo-me, por vezes, ao Engenho Velho (de Brotas e da Federação) e ao Retiro de São Gonçalo. Fixo-me agora, no entanto, na velha Barroquinha, a do primeiro terreiro nagô. Desde os fundos da igreja / espaço cultural ao porvir. Nesse espalhar de letras no teclado em prosa do autor, surgem suas páginas de cimento e cal, abarcam seus contos repletos de humanidades precisas.

Enfim, fica por aqui essa quase resenha. Valeu, Vilarinho!

 

André Rosa é nascido na antiga capitania de São Jorge dos Ilhéus. Professor titular da Universidade Estadual de Santa Cruz, atualmente exerce a presidência da Academia de Letras de Ilhéus. Coordena o Prêmio Sosígenes Costa de Poesia e participa da Comissão Organizadora da Festa Literária de Ilhéus. Autor de livros de caráter acadêmico e literário, entre os quais: “Família, Poder e Mito”, “Identidade e Memória”, “In Memoriam”, “Quintais do Tempo” e “Inventário do Caos”. No terreno religioso, tem o cargo de Tata Mabaia no Terreiro Matamba Tombenci Neto, de nação Angola, o mais antigo templo de matriz africana em atividade no sul-baiano.

 

 

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133ª Leva - 05/2019 Janelas Poéticas

Janela Poética III

André Rosa

 

Pintura: Canato

 

O poema da dor

À Heitor Brasileiro

 

O poema nasce da dor
Da indizível dor
A dor precária e suja

O poema é a própria dor
Narrada em desespero
A dor calada e velha

O poema traduz a dor
Sem rimas
A dor miúda e desvalida.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Giroscópios

 

Entretanto vigio a frase
Escorregadia membrana
Sob chuva de amarelos
Que preparam o dia
Vai-se o corte, a espera
A frase de magnólia
Que apodrece
As plantas, os giroscópios,
A escama, o chumbo do dia.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Faca do Sol

 

Me fiz rio navegável,
Faca do sol.

Nasci peixe feio
Sob as trovoadas de junho.

Banho as patas do gado,
Alimento seu existir.
Converso em água e sal,
Convulso o caminho
Em que me arrasto.

Sou verde, castanho ou negro.
Dependo dos olhos que fitam.

Sou agora rio: antes e depois.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Hábito

 

Onde os meus olhos
Eram noite e transitórios,
Julgo a tessitura do tempo
E transitório serei
Aos teus olhos suspensos.

Perdoa se me invento
A cada espelho,
A cada sumo da rudeza.

Ao arrepio dos pelos
Desprezo a demasia do hábito.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Nu

 

Durmo nu
Apesar dos latidos.
Sou ermo e rotina,
Spleen nos ilhéus.
Durmo nu e
Ninguém me anuncia
Mesmo que grite
O líquido da rua.
Durmo nu
E invisível.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Vento agrário

 

Quem detiver o tempo nos dentes
Irá quedar o desejo,
Conduzir águas ao extremo
No sereno em furta-cor,
No desmaio sumário do sol.

Quem guardar as ruas nas unhas
Irá dedilhar os rastros da noite
Antes que a morte navegue
O seu barco sírio.

Há um vento agrário no ranger da flor.

 

André Rosa é Ilheense, nascido na Maternidade Santa Isabel. Autor de “Morte e gênero: um estudo sobre a obra de Jorge Amado” e “Quintais do Tempo”.  Coordena o Prêmio Sosigenes Costa de Poesia e compõe a comissão organizadora da Festa Literária de Ilhéus.  Atualmente está presidente da Academia de Letras de Ilhéus.

 

 

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106ª Leva - 09/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Sinisia Coni
Foto: Sinisia Coni

Mais uma etapa de encontros consolida-se na Diversos Afins. Nossa missão editorial ganha corpo na medida em que conseguimos expandir as fronteiras do diálogo. Atrair pessoas e fazê-las expressarem as suas epifanias pessoais é algo relevante. Cada colaborador que se une ao nosso projeto ajuda a compor um vasto e incessante mosaico de sensações. Nada é linear. Se somos seres distintos, carregando uma determinada marca de individualidade, é porque no somatório das ações não damos crédito à conformidade das coisas. A concordância plena não passa de um devaneio sem forças para seguir adiante. É na multiplicidade do pensamento que tudo ganha mais vigoroso sentido. Quão fabulosa é a literatura na medida em que consegue fazer desfilar tantas mentes de características diferentes. Ao fim, o que cada autor vem apresentar aqui na revista é a sua capacidade única de vislumbrar a existência.  Por vezes, quantos de nós não explicitamos o desejo de construir uma obra semelhante a de alguém? No entanto, essa vontade, movida por um sentimento de identificação, mais uma vez reafirma o poder da diferenciação entre as pessoas. Definitivamente, nenhum criador é igual ao outro. Daí, a grandeza da arte sob os seus mais variados aspectos. Hoje, com a participação valiosa de escritores e artistas, completamos 106 investidas à frente da revista. Importa saber que há o eco singular da voz de poetas do quilate de Rita Medusa, Airton Souza, Roberta Tostes Daniel, Ana Peluso e André Rosa. Vale a pena contemplar as sutilezas humanas expostas no trabalho da fotógrafa Sinisia Coni. É recompensador ouvirmos o que tem a dizer o nosso entrevistado de então, o experiente músico Sabará, baterista, professor e verdadeiro símbolo da cultura baiana há mais de meio século. No quesito prosa, Vanessa Maranha, Caio Russo, Aden Leonardo e Geraldo Lima vêm fazer do mundo um observatório de ideias e outros tantos contextos. É Guilherme Preger quem nos chama atenção para a elaboração do filme “Táxi Teerã”, nova produção do diretor iraniano Jafar Panahi. Larissa Mendes destaca a marca das sonoridades de “Júpiter”, mais recente disco do cantor e compositor SILVA. “O beijo na parede”, romance de Jeferson Tenório, é cuidadosamente sondado pelo olhar apurado de Sérgio Tavares. No âmago de cada imagem ou palavra que compõe a nossa mais nova Leva, a vida assume contornos próprios. A vocês, caros leitores, ofertamos mais um experimentar de sensações. Boas leituras!

Os Leveiros

 

 

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106ª Leva - 09/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética V

André Rosa

 

Sinisia Coni
Foto: Sinisia Coni

 

Flor e espinho

 
E vem o amor com seus rompantes
Suas ausências, seus sofrimentos
Trazendo seus zelos, suas impaciências.

E vem o amor, martelo agalopado,
Estragos irreparáveis
Com seus olhos de redenção.

E vem o amor, como se pétala,
Flor e espinho.

E vem o amor, como se desejado hóspede
De farta mesa.

E vem o amor, então.

 

 

 

***

 

 

 

Hegel

 
Minto para tecer palavras,
Inventar dialetos.

Minto como um livro édito
E sua tradução de cogumelos.

Minto como a noite insuspeita
No alvorecer dos instintos.

 

 

 
***

 

 

 
Cristal extremo

 
O algo tranquilo e pérfido
Jantar que esfria, asséptico.

O vinil estanque no risco,
Estrofes de um mesmo ruído.

O copo, cristal intrépido,
No muro que insiste extremo.

O tapa que não levo, mas percebo.

 

 

 
***

 

 

 
Feltro do universo

 
Eu,
Absurdo concreto,
Findo-me em camas
De feltro.

Minhas mulheres,
As abduzo.

Eu,
Universo.

 

 

 

***

 

 

 

Pedras e quintais

 
Toco a tua pele esquecida nos quintais
E alcanço os teus gestos inatingíveis
Que habitavam a minha rua de pedras.

Beijo o teu ouvido aberto em rosas surpresas
E em páginas escritas a vinho.

Conjugo o teu verbo peculiar
E amasso entre meus dedos
O barro escuro do teu olhar.

Desfaço os pedaços do Cristo
Suspenso e trajado, imagem de madeira.

 

 

 

***

 

 

 
Fragmento

 
Quando os versos do equilíbrio soam
Nos degraus rangentes
As imagens quebram-se.
Imenso gesto solar de um dia público.

O fragmento arqueja
Ávidos e únicos,
Seus instintos de pedaço sobejam.

 

André Rosa nasceu em Ilhéus-Ba. É  graduado em História com Pós-Graduação em História regional (UESC). Fez Mestrado e Doutorado em História social (UFBA). Autor dos livros: “Ilhéus: tempo, espaço e cultura” ; “Família, poder e mito” ; “Memória e identidade”; “Quintais do tempo”.