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143ª Leva - 03/2021 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Márcia Barbieri

 

Ilustração: Marjorie Duarte

 

O voo silencioso das corujas

Para E.T.

 

Assim começava minha autobiografia: Eu gosto das aves de rapina. Eu herdei da minha mãe esse gosto um tanto funesto. Mas, só há pouco tempo descobri que corujas são aves de rapina. Às vezes, na infância, durante a catástrofe, e naquele tempo quase tudo era catástrofe, frequentemente me pegava observando o voo das corujas. Não me lembro das coisas que passavam naquele corpo de criança, sem músculos e com tetas invisíveis, porque não sabia nomear e sentimento sem nome perde o rumo, os adultos se referiam àquelas horas como a época das tragédias. Não sabia o que aquilo significava até o meu corpo espichar e eu soar tão trágica quanto todos os adultos da minha infância. De repente me dei conta que os relógios não contavam horas, contavam desastres.

Mãe quando voltou de uma de suas internações recorrentes sentou ao meu lado e disse: eu também gosto do voo silencioso das corujas. Nesse dia tive minha primeira epifania (o nome descobri muito depois), percebi que não eram as corujas que me fascinavam, mas o silêncio das suas asas. Mais tarde percebi que não eram os homens que me despertavam paixões, era a escassez de suas bocas e uma certa convicção que saia delas. Mais tarde ainda percebi que o amor também chegava silencioso antes de abocanhar suas presas… Embora, de fato, talvez nunca tenha encontrado o amor. Contudo, um dia quase trombei com ele…

– Quando te vi chegar fui assaltada por um espanto.

– Eu gosto da palavra espanto, pode ser tanta coisa e não sendo nada ainda nos faz boquiabertos.

– Sim, essa palavra parece nome de animal selvagem.

– Quer uma carona? Talvez possamos fazer desaparecer o espanto, conversaríamos e nada mais nos espantaria.

– Vai em qual sentido?

– Para o norte e você?

– Para o sul.

– Sendo assim, já que iremos em direções opostas, podemos ir juntos.

– Não nos perderemos ou desviaremos do nosso caminho?

– Acredito que não.

– Tem certeza?

– Como poderia?

– Você fala com um tanto de firmeza.

– Na vida precisamos certa entonação, fingir alguma convicção, mesmo que nunca tenhamos esbarrado com ela.

– Não te parece muita arrogância seguirmos juntos se procuramos lados opostos?

– Nascer já não é uma arrogância?

– Quem sabe? Há um fantasma encarnado no ventre de cada mulher, por vezes, nos assombra.

– Se desenvolver dentro da segurança do ventre da mãe não te parece pura arrogância?

– Talvez um espanto…

– Os pássaros não te soam bem menos pretensiosos? Afinal, eles se desenvolvem na fragilidade do ovo…

– Também não há alguma arrogância no prenúncio do voo?

– Estamos numa bifurcação, acho que agora não é mais possível seguirmos juntos…

– Tem certeza? Não há nada a fazer?

– O que acha de dobrarmos o mapa?

– Dobremos o mapa.

 

Márcia Barbieri nasceu em Indaiatuba, São Paulo, em 1979.  Formou-se em Letras pela Unesp e é mestra em Filosofia pela Unifesp. Foi uma das idealizadoras do Coletivo Púcaro, do canal Pílulas Contemporâneas e do projeto Pinot Noir Literatura. Publicou os livros de contos “Anéis de Saturno” (ed. independente, 2009), “As mãos mirradas de Deus” (Multifoco, 2011) e “O exílio do eu ou a revolução das coisas mortas” (Appaloosa, 2018). Entre os romances figuram “Mosaico de rancores” (Terracota, 2013) lançado no Brasil e na Alemanha (Clandestino Publikationen, 2016), “A Puta” (Terracota, 2014/Reformatório, 2020), “O enterro do lobo branco” (Patuá, 2017), finalista como melhor romance de 2017 pelo Prêmio São Paulo de Literatura 2018 e “A casa das aranhas” (Reformatório, 2019), finalista do Prêmio Guarulhos e semifinalista do Prêmio Oceanos.

 

 

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99ª Leva - 02/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Márcia Barbieri

 

Arte: Alessandra Bufe Baruque

 

O desencaixe do Sol

 

Há milênios a pedra descansava embaixo do seu nariz
sem desgaste, sem musgo, sem vinco,
uma memória esquecediça
Mas Estela estava ocupada demais
desacoplando seus membros
Desencaixava pacientemente peça por peça
Levantava e abaixava as pernas
Escutava atenta os ruídos da rótula
Escondia os olhos das luzes da tarde

Eu a observava da janela verde e seu corpo não passava
de uma carcaça adormecida pelo tempo
Ela repetia esse ritual todo domingo
O crânio era deixado em cima do ventre vazio
As bifurcações do cérebro eram confundidas
com os pensamentos
Ela continuava lindamente viva

Tentei alcançar sua mão, no entanto, eu era só um velho
Pelancas despencavam das minhas extremidades
E a carne de Estela não possuía nem riscos
nem linhas nem ranhuras
Sobre a cabeça de Estela repousavam nuvens,
Sobre a minha, pássaros moribundos de origami

Há milênios a pedra descansava embaixo do seu nariz,
Sem desgaste, sem musgo, sem vinco,
uma memória esquecediça
Estela sussurrava para seu crânio
Haverá um tempo em que a pedra será irmã do homem
E toda substância disputará um sol sobre a mesma pele

E eu gaguejo para Ninguém:
Não creio na onipotência da pedra
não creio em neutrinos
não creio em quarks
não creio no bóson de Higgs
não creio na nanomemória das coisas
E ainda assim a existência enferruja
igual a um parafuso espanado.

 

 

 

***

 

 

 

Não sou homem
sou uma matilha
dividindo-destroçando o mesmo fêmur

Não sou nem esse lobo
que crava os dentes no osso
nem esse osso perfurado
estou entre um e outro
sou essa membrana, essa baba branca, esse órgão acoplado,
essa partitura de mandíbulas desencaixadas
– caótica e ruidosa.

 

 

 

***

 

 

 

Escamas

Ressoa a pele verde e incrustada de mágoas – clave de sol –
um verme se espreme entre as circunvoluções do meu cérebro
Respiro aliviada porque meus pelos têm a cor dos cachorros magros
Respiro aliviada porque minha alma tem a candura das tardes longas de solstício
Respiro aliviada porque minha boca perdeu o fel de antigamente.

A língua salivante de lagarto passeia abstrata nas minhas gretas
Geme meu quadril curva desalinhada
Quero desentristecer
mas olho de soslaio as venezianas
e vejo-me encarando seu sorriso entre muralhas.

 

***

 

Manhãs em migalhas

Só por hoje
Rasgarei meu peito
E arrancarei flores de vidro,
pássaros de origami e velhas mágoas

Picaretas dançam entre minhas vértebras
E eu toco calma a flauta de MAIAKÓVSKI
Nunca acreditei que gangrenas devorariam meu corpo
Pedaços de sorrisos caem desconexos da minha boca
E eu que imaginei morrer um dia de cada vez – Morte Súbita.Sair

Caminho sobre os muros e observo pipas
Losangos e ilusões em perfeita sintonia
O sol explode amarelo em minha mente
E eu penso: deixa-me tocar os lírios – Só por hoje…

 

Márcia Barbieri é paulista, mestranda em Filosofia (Unifesp) e formada em Letras (Unesp). Publicou os livros de contos Anéis de Saturno, As mãos mirradas de Deus, e os romances Mosaico de rancores (no Brasil pela editora Terracota, e na Alemanha pela editora Clandestino Publikationen) e A Puta. Participou de várias antologias e tem textos publicados nas principais revistas literárias.