Categorias
114ª Leva - 08/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Sandrio Cândido

 

milton-boeira
Foto: Milton Boeira

 

Antífona

 

evoco o teu nome em silêncio
de joelhos entro na linguagem.
debaixo das imagens resiste
algo do que foste um dia.

outra borboleta não soube o oficio
de desatar em mim a melodia.

só por isso ainda creio

 

 

***

 

 
Exílio

 

tenho as mãos sujas,
a flor da vida ferida.

não pertenço a este jardim
regressar as fontes de nada adianta,
a memória trai-me.

só, adiante!
estou esperando por mim.

não posso fugir
não posso adiar o silêncio
não posso desatar os cipós.

aceito a minha condição!
devo deixar cair as pálpebras.

amanhã,
depois de rasgar todas as barcas
talvez eu me encontre.

 

 

***

 

 

Quatro variações imagéticas

 

I

a casa é frágil
cuidar como cuida um pomar
nem sempre é primavera
nem sempre os frutos podem ser colhidos.

antes da flor existe a semente,
é preciso calma ao escavar a terra
deixar o corpo no escuro
adormecer no exercício da espera.

não cortar a asa dos pássaros
ser apenas ninhos
estar inteiro no ventre da prece.

 

II

há flores lâminas aparando olhares.

 

III

eles partiram do meu corpo
ao mar escorreram
fiquei sozinho

ouço os violinos tocarem
“se eu roubei, se eu roubei teu coração, tu roubaste,
……………………………………………………………………….[tu roubaste também o meu”.

é outono
sou a flauta assoprada pelo tempo.

a mesa em meu corpo está vazia
aguardo regressar os deuses
iremos concluir a liturgia da vida.

 

IV

os telhados cantam
debaixo dos alicerces as ruínas
estou cercado de monturos.

chove em meus lábios
o poema trabalha em meu rosto
costura a eternidade.

 

 

***

 

 

Primeira meditação

 

tenho me deixado seduzir pela esperança. espécie de flor agasalhando as chagas. as vezes o tempo é de frio. falta o sorriso de Deus. o mundo fica estranho e triste. há também momentos de alegria. quando a mão de Deus me toma. ao som dos pássaros dançamos. embalando o vento. há dias assim; quando o sussurro do eterno me compõe um jardim. aqui dentro, eu sei: somos sinos dobrando distantes!

tenho morrido aos poucos, estou aprendendo outra música

 

 

***

 

 
Exílio II

 
os mortos regressam ao meu corpo
bebem a minha existência
estendem a mesa na memória

ouço as rosas partirem a terra
já não posso alcançá-las

pertencem a um tempo arcaico
de cirandas perdidas
e córregos represados no corpo

nenhum caminho sabe os passos
para a idade daquela praia.

 

 
***

 

 

Espiritualidade

 

Engoli tantas estradas e nenhum pão
as vezes não caibo nos olhos de Deus.
As rezas sussurram em meu corpo
um longínquo sabiá me chama.
Bendita sina aquela dos desesperados
beber todo o mar e continuar vazio
ser a mão escavando o silêncio
tentando desterrar a lâmpada afogada.
Tem hora para tudo nesta vida
diz o Eclesiastes.
A mão roça que roça os meus cabelos
traz a enxada entre os dedos
carpir é o signo da reza
plantar no silencio algo de beleza.

 

Sândrio Cândido (Minas Gerais, 1991) é poeta e missionário católico.  Graduado em filosofia e estudante de teologia. Atualmente reside em Cali, Colômbia, onde acompanha os processos pastorais da comunidade Afro Colombiana. É autor de Epifania (Ed. patuá, 2014). Os poemas acima pertencem ao livro Breviário dos Lírios (Inédito).  Sandriocp@yahoo.com.br

 

 

Categorias
92ª Leva - 06/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Inês Monguilhot

 

Foto: Luiz Navarro

 

Argos

 

A superfície das coisas pode refletir
de volta, concêntrico e ciclópico, o olhar.
Ou, desavisados, os olhos podem,
se não se mantiverem bem presos ao umbigo,
– sem tremular sequer um risco –
romper as superfícies como fossem água ou ar.
E, navalha ou navio,
perderem-se feito pedra
num oceano,
arrastados.

 

 

***

 

 

Antífona

(ao Señor de los temblores)

A tudo agradeço:
raízes,
espinhos,
escuridão,
a pálpebra cerrando o olho cego,
branco de caridade.

Cravos
escorrem largos das mãos;
a misericórdia serpentelínea,
de saia alvíssima.

Em mim os tambores,
terrores,
a carne fria,
uma auréola de suores.
O beijo rente a costela floresce
em descuidada ferida.

Perante a lei
.as  flores são santas e proclamam a inadiável ruína.

 

 

***

 

 

Compaixão

 

No claro de uma selva,
incerto tempo de monções,
um céu verde abre-se apaziguado
das findas luzes amarelas.
Mostra, alta, dissipados os vapores,
uma tigela branca, de arroz.

Ao pé de uma árvore
ele  terá avistado em outros tempos,
assim, solta na seda verde,
uma lua cheia, próxima, feito essa.
Num inspirar ou noutro, quem sabe,
tocou-lhe a falta
da samsara
e das dores humanas.

 

 

***

 

 

Diz a Lagarta a Alice

 

Escuta o germinar
das unhas aos céus, a lenta escalada.
Não, agitam-se as árvores
as setas verdes murmurando:
não se pode crer!
…..Corre nelas um alarido
…..contra o vento abusado,
…..contra tudo.

 …..E se pergunta a dama de copas:
 …..quanto é preciso marchar para permanecer?

Nesta hora,
se vier dar a teus pés alguma lisonja,
um trapo colorido, caco deste mundo sitiado,
deixa que sangre seu perfume, se tiver.
Não te curves, não o apanhes,
já não é.

 

 

***

 

 

…que tanto me doem rosas quanto espinhos…

 

Reis

 

Trancemos uma coroa,
das rosas que já se largam das mãos.
Trançaremos outras mais, mais adiante,
ao calor de outros verões.

Deixemo-nos  a ver-nos nas rosas,
ser carne de rosas.
Desejando, breves, os seus dias
e dar-nos por inteiro aos verões.

Coroas menos belas,
por mais que durem, todas  vão.

 

Inês Monguilhott nasceu em Recife, Pernambuco. Passou grande parte da vida na Paraíba e há mais de vinte anos reside em São Paulo. Publicou “natural” e “de mim”, ambos editados pela Ofício das Palavras.